Os Miserveis
   Victor Hugo
Primeiro Volume
Primeira Parte
Fantine


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Os Miserveis - Victor Hugo ()Volume nico em 15 livros.




     Enquanto existir nas leis e nos costumes uma organizao social que cria
infernos artificiais no seio da civilizao, juntando ao destino, divino por natureza,
um fatalismo que provm dos homens; enquanto no forem resolvidos os trs
problemas fundamentais a degradao do homem pela pobreza, o aviltamento da
mulher pela fome, a atrofia da criana pelas trevas; enquanto, em certas classes,
continuar a asfixia social ou, por outras palavras e sob um ponto de vista mais
claro, enquanto houver no mundo ignorncia e misria, no sero de todo inteis os
livros desta natureza.

    Hauteville House 1862


L01:
    Livro Primeiro
    Um justo



    I
    O abade Myriel



     Em 1815, era bispo de Digne, o reverendo Carlos Francisco Bemvindo Myriel,
o qual contava setenta e cinco anos de idade, e que desde 1806 ocupava aquela
diocese.
     Embora seja estranho ao enredo desta histria, no ser demais referir, ainda
que no seja seno para sermos exactos, os diversos boatos e conversas que
tinham circulado a seu respeito, quando da sua chegada  diocese. Verdade ou
no, o que se diz a respeito dos homens, ocupa muitas vezes na sua vida e, muito
mais, no seu destino, um lugar to importante como o mesmo que eles tm.
     Segundo se dizia, Carlos Myriel era filho de um juiz da Relao de Aix
(aristocracia de toga) que, tendo-o destinado para sucessor do cargo que exercia, o
casara muito novo ainda, apenas com dezoito ou vinte anos, como  costume em
famlias pertencentes  magistratura.
     Apesar de casado, Carlos Myriel, pequeno de estatura, mas de agradvel
presena, elegante e muito espirituoso, dera, ao que constava, bastante que falar de
si, por continuar dedicando a sua existncia aos prazeres mundanos. Rebentou a
revoluo e os acontecimentos precipitaram-se rapidamente; as famlias dos
magistrados dizimadas, expulsas, perseguidas, fugiram. Logo nos primeiros dias
da revoluo, Carlos Myriel emigrou para Itlia, onde sua mulher sucumbiu,
devido a uma afeco pulmonar de que h muito sofria, deixando-o sem
descendncia. Que se passou depois disto na vida de Carlos Myriel? Dar-se-ia o
caso da runa da antiga sociedade francesa, a decadncia da prpria famlia, os
trgicos acontecimentos de 93, talvez ainda mais pavorosos para os emigrados que
os viam de longe aumentados pelo terror, lhe terem feito germinar no esprito
ideias de solido e de renncia? Teria sido no meio das afeies e distraces em
que ocupava a vida, alcanado subitamente por algum desses terrveis e
misteriosos golpes, que s vezes vo direitos ao corao e fazem derribar o homem
que as catstrofes pblicas, mesmo ferindo-lhe a existncia e a fortuna, no seriam
capazes de abalar? Era impossvel diz-lo; o que se sabia  que, quando regressou
de Itlia, vinha padre.
      Em 1804, Carlos Myriel, j de idade avanada, era proco da igreja de
Brignolles e vivia na mais completa solido.
     Por ocasio da coroao teve de ir a Paris por causa de uma pequena
pretenso, a que andava ligado o interesse da sua parquia. Entre as pessoas de
influncia, cuja proteco solicitou em favor dos seus paroquianos, contava-se o
cardeal Tesch. Num dia em que o imperador foi visitar seu tio, encontrou-se na
passagem com o digno eclesistico, que aguardava na antecmara ocasio
oportuna para ser admitido  audincia. Napoleo, notando a insistncia com que
aquele velho o observava, voltou-se de repente e perguntou:
     - Quem  este homem que no deixa de olhar para mim?
     - Sire - disse Myriel -, Vossa Majestade reparou num pobre insignificante, eu
olho para um grande homem. Podemos ambos aproveitar.
     Nessa mesma noite, o imperador perguntou ao cardeal o nome do abade e,
pouco tempo depois, Carlos Myriel, surpreendido, recebeu a notcia de que havia
sido nomeado bispo de Digne.
     At que ponto, porm, era verdade o que se dizia relativamente  primeira
parte da existncia daquele homem? Ningum o sabia, porque poucas famlias
haviam conhecido a dele antes da revoluo.
     Apesar de bispo e mesmo por o ser, Myriel teve de resignar-se  sorte de todas
as pessoas que chegam a uma cidade pequena, onde  maior o nmero de bocas
que falam do que cabeas que pensam. No fim de tudo, porm, as conversas em
que o seu nome andava envolvido, no passavam de boatos.
     Fosse como fosse, decorridos nove anos de episcopado e de residncia em
Digne, todos esses mexericos, que nos primeiros tempos so o objecto constante
das conversas entre o povo das terras pequenas, caram em to profundo
esquecimento, que j ningum ousava repeti-los, nem sequer recordar-se deles.
     O reverendo Myriel veio para Digne acompanhado de sua irm Baptistina,
mais nova do que ele dez anos e uma criada da mesma idade da irm, chamada
Magloire, a qual passara a exercer as duplas funes de criada grave da senhora e
dispenseira do novo bispo.
     Alta, magra, plida, delicada e afvel, Baptistina, embora se no pudesse
chamar o tipo da mulher veneranda, porque para isso era necessrio que fosse
me, realizava, todavia, a mais completa expresso da palavra respeitvel. Nunca
fora bonita, mas a sua existncia, que se resumia numa longa srie de obras de
caridade, revestira-se, por fim, de uma espcie de alvura luminosa que lhe dava,
depois de velha, aquilo a que poderemos chamar a beleza da bondade. O que na
sua mocidade fora magreza, tornou-se na velhice em transparncia, atravs da
qual, como de um vu, se entrevia um anjo. Era em si mesma mais que uma
virgem, era uma alma. O seu vulto parecia feito de sombra; apenas o corpo
necessrio para determinar o sexo; era pequena poro de matria contendo uma
chama celeste; olhos grandes e sempre fitos no cho, um pretexto para uma alma
andar na terra.
     Magloire era uma velhinha baixa e muito gorda, sempre atarefada, sempre
arquejante, no s por efeito da sua muita actividade, mas em consequncia dos
seus padecimentos asmticos.
     Apenas chegou a Digne, o novo prelado tomou posse do palcio episcopal,
com todas as honras concedidas pelos decretos imperiais, que classificam o bispo
imediatamente aps o marechal de campo. O maire e o presidente foram logo
cumpriment-lo, e ele, por sua vez, fez o mesmo ao general e ao perfeito.
     Depois de ver o novo prelado estabelecido no governo espiritual da diocese, a
cidade esperou pelos seus actos.



    II
    O abade Myriel torna-se Monsenhor Bemvindo



     O pao episcopal de Digne estava situado junto do hospital, era um vasto
edifcio de pedra de cantaria, mandado construir no princpio do sculo passado
por Monsenhor Henrique Puget, doutor em teologia pela faculdade de Paris,
abade de Simore e bispo de Digne em 1712.
     Este edifcio era um verdadeiro domiclio senhorial, em que tudo respirava
grandeza; os aposentos particulares do bispo, os sales, os quartos, o amplo ptio
de recreio com o seu claustro em volta, segundo a antiga moda florentina e as
magnficas rvores do jardim.
     Na sala de jantar, uma extensa e sumptuosa galeria no rs-do-cho, cujas
janelas davam para os jardins, tivera lugar o solene banquete oferecido pelo bispo
Puget em 29 de Julho de 1714, ao arcebispo prncipe de Embrun, Carlos Brulat de
Genlis, Antnio de Mesgrigny, capuchinho, bispo de Grasse, Filipe de Vendome,
gro-prior de Frana, abade de Santo Honorato de Lrins, Francisco de Berton de
Grillon, bispo-baro de Vence, Csar de Sabran de Forcalquier, bispo e senhor de
Glandeve e a Joo Soanen, da congregao do oratrio, pregador ordinrio do rei
e bispo e senhor de Senez.
      A sala achava-se decorada com os retratos destes sete reverendos personagens
e em cima de uma mesa de mrmore branco via-se gravada em letras de oiro a
memorvel data de 29 de Julho de 1714.
      O hospital era um pequeno edifcio de um s andar, com um jardinzinho.
      Trs dias depois da sua chegada, o bispo foi visitar o hospital. Terminada a
visita, pediu ao director que o acompanhasse ao pao.
      - Senhor director - perguntou-lhe -, quantos doentes tem a seu cargo?
      - Vinte e seis, Monsenhor.
      - Foi os que contei - disse o bispo.
      - As camas esto muito apertadas e juntas.
      - Tambm reparei nisso.
      - As enfermarias so muito pequenas e tm falta de arejamento.
      - Tambm me pareceu.
      - E o jardim mal chega para os convalescentes passearem, quando est bom
tempo.
      - Assim , com efeito.
      - Em ocasies de epidemias, como este ano, em que houve muitos casos de
tifo, no sabemos como acomodar os doentes.
      - Tambm me ocorreu isso.
      - Mas, senhor bispo, no podemos fazer outra coisa seno resignarmo-nos. -
concluiu o director.
      Esta conversa desenrolava-se na sala de jantar ou galeria do andar trreo.
      Aps um momento de silncio, o bispo voltou-se de repente para o director e
perguntou-lhe:
      - Quantas camas lhe parece que podero caber nesta sala?
      - Na sala de jantar de V. Ex.a?! - exclamou o director, estupefacto.
      Entretanto, o bispo correu a vista pela sala, como quem mede e calcula as
distncias e disse como que falando consigo prprio:
      - Podem aqui caber vinte camas  vontade!
      E em seguida acrescentou, elevando a voz:
      - Senhor director,  evidente que h aqui um grande erro. O senhor tem vinte
e seis pessoas em cinco ou seis quartos pequenos. Ns aqui somos trs e temos
lugar para sessenta. Repito que h erro! O senhor ocupa a minha casa e eu vou
ocupar a sua.
      Faamos, pois, a troca.
      No dia seguinte, os vinte e seis pobres que naquela ocasio estavam doentes,
eram transportados para o pao episcopal e o bispo mudava a sua residncia para
o hospital.
      Myriel no possua bens de fortuna, pois a revoluo arruinara
completamente a sua famlia. A irm tinha uma penso vitalcia de quinhentos
francos, a qual, enquanto Myriel fora proco, bastava s suas despesas pessoais, e
ele, como bispo, recebia do Estado uma dotao de quinze mil francos. No mesmo
dia em que fixou a sua residncia na casa que era dantes o hospital, determinou
duma vez para sempre o emprego desta quantia, escrito pelo seu prprio punho
da seguinte maneira:

    Distribuio das despesas da minha casa:
    francos
    Para o seminrio 1.500
    Congregao da misso 100
    Para os lazaristas de Montdidier 100
    Seminrio das misses estrangeiras em Paris 200
    Congregao do Esprito Santo 150
    Estabelecimentos religiosos da Terra Santa 100
    Sociedades de caridade maternal 300
    Para a de Aries 50
    Para melhoramentos das prises 400
    Para socorro e livramento de presos 500
    Para livramento de pais de famlias presos por dvidas 1.000
    Gratificaes aos mestres pobres da diocese 2.000
    Para socorro dos pobres dos Altos-Alpes 100
    Congregao das irms de Digne, de Manosque e de Sisteron, para o ensino
gratuito das raparigas indigentes 1.500
    Para os pobres 6.000
    Para a minha despesa pessoal 1.000
    Total 15.000

     Durante todo o tempo do seu episcopado, o virtuoso prelado no fez a menor
alterao nestas disposies, a que ele, como se viu, dava o nome de distribuio
das despesas da minha casa.
     Baptistina aceitou com a mais completa submisso a vontade do irmo. Para
a virtuosa senhora, Myriel era no s seu irmo, mas seu bispo, seu amigo
segundo a natureza, seu superior segundo a igreja. Amava-o e venerava-o inteira e
simplesmente.
     Obedecia, quando ele ordenava e aderia s suas menores vontades sem fazer a
mais leve observao. A criada Magloire  que no se conformou inteiramente
com semelhante distribuio, por ver que o bispo s reservava para si mil francos,
os quais, reunidos  penso de Baptistina, perfaziam a soma de mil e quinhentos
francos anuais, nico rendimento com que os trs tinham de viver.
     E no s viviam, com efeito, como at quando algum proco de aldeia vinha 
cidade, o bispo ainda achava modo de hosped-lo, graas  severa economia de
Magloire e  inteligente administrao de Baptistina.
     Uma ocasio, trs meses decorridos, depois da sua chegada a Digne, o bispo
disse:
     - Apesar de tudo, sabe Deus como eu vivo constrangido!
     - Isso vejo eu! - exclamou Magloire. - Se Monsenhor nem ao menos
requisitou  Cmara o subsdio que foi sempre costume dar aos bispos, para
despesas na cidade e gastos de jornadas nas visitas do bispado!
     - Parece-me que tem razo, Magloire - disse o bispo.
     E fez a reclamao.
     Passado algum tempo, a Cmara, tomando em considerao o seu
requerimento, votava-lhe a quantia anual de trs mil francos, sob a seguinte
rubrica:
     "Subsdio ao senhor bispo para prover s despesas de estado e s das visitas
pastorais." No foi preciso mais para excitar as conversas da burguesia local, e
para que, por essa ocasio, um senador do imprio, antigo membro do Conselho
dos Quinhentos, partidrio do dezoito brumrio e provido numa pingue senatoria
nas proximidades da cidade de Digne, escrevesse ao ministro dos cultos, Bigot de
Prameneu, uma carta confidencial em termos irritados, da qual extramos as
seguintes linhas, cuja autenticidade garantimos:

    Carruagem para qu? Querer andar de carruagem numa cidade que no
chega a ter quatro mil habitantes? Despesas com a visita ao bispado? Em primeiro
lugar, de que servem tais visitas? Em segundo lugar, como quer ele andar de
carruagem numa terra montanhosa como esta, onde nem estradas h e s a cavalo
se pode transitar? Se nem sequer a ponte de Duranc em Chteau-Arnoux, d
passagem a no ser a algum carro de bois? Os padres so todos assim, vidos e
avaros! Este, quando chegou aqui, apresentou-se como bom apstolo; agora
mostra-se como todos os outros, j precisa de carruagem, no dispensa o luxo dos
bispos. Scia de padrecas! Asseguro-lhe, senhor conde, que enquanto o imperador
no nos livrar desta praga de carolas, as coisas no tomaro bom rumo. Abaixo o
Papa! (Nesta poca as relaes com a Santa S andavam complicadas). Eu sou por
Csar e s por Csar! etc., etc.

     A concesso que tanto incomodou o senador, encheu de jbilo Magloire.
     - Ora graas a Deus! - disse ela a Baptistina. - O senhor bispo comeou a
caridade pelos outros, mas lembrou-se, enfim, tambm de si. Agora j temos trs
mil francos.
     Nesse mesmo dia, o bispo entregou a sua irm uma nota concebida do
seguinte modo:

    Despesas para carruagem e visitas ao bispado:
    francos
    Para dar caldo de carne aos doentes do hospital 1.500
    Para a Sociedade de Caridade Maternal de Aix 250
    Para a Sociedade de Caridade Maternal de Draguignan 250
    Para os enjeitados 500
    Para os rfos 500
    Total 3.000

     Tal era o oramento do bispo Myriel.
     Quanto aos rendimentos eventuais, como dispensas de proclamas, bnos de
igrejas ou capelas, casamentos, dispensas de vrios gneros, to grande era o vigor
com que o bispo o exigia dos ricos, como a facilidade com que o dava aos pobres.
     Passado algum tempo, comearam a afluir as ofertas de dinheiro. Os que
tinham e os que no tinham todos batiam  porta da residncia episcopal, uns
para dar, outros para receber a esmola que os primeiros iam depositar nas mos
do virtuoso prelado.
     Em menos de um ano tornou-se o tesoureiro de todos os benefcios e o
provedor de toda a misria. Avultadas quantias lhe passavam pelas mos, mas
nem por isso fez a menor alterao no seu modo de viver, acrescentando ao que
lhe era indispensvel a mais insignificante superfluidade.
     Pelo contrrio, como h sempre mais misria nas camadas inferiores do que
fraternidade entre as superiores, o bispo dava tudo, por assim dizer, antes de o ter
recebido. O dinheiro na sua mo era como gua em terra sequiosa, por mais que
recebesse achava-se sempre sem dinheiro. Nestas circunstncias despojava-se at
do que lhe era indispensvel.
     Guiados por uma espcie de afectuoso instinto, entre os nomes e apelidos do
bispo, que, como  hbito, exarava no princpio das suas pastorais e circulares, os
pobres da terra escolheram aquele que lhes oferecia um sentido. Assim, pois,
todos o designavam por Monsenhor Bemvindo, o que muito lhe agradava e que
ns igualmente adoptamos.
     - Gosto deste nome - dizia ele. - Bemvindo modifica o tratamento de
Monsenhor.
     No  nossa pretenso dar como exacto o retrato que aqui traamos; o que
sabemos e nos limitamos a dizer  que ele  verdadeiro.



    III
    A bom bispo, mau bispado



     Apesar de ter convertido a carruagem em esmolas, nem por isso deixava o
bispo de fazer as suas visitas pastorais, visitas que na diocese de Digne eram
infinitamente difceis por causa das suas pssimas comunicaes e da m natureza
do terreno para quem viaja. Em toda a diocese, que se compe de trinta e duas
abadias, quarenta e um vicariatos e duzentos e oitenta e cinco curatos, no era
empresa fcil, mas o prelado conseguiu lev-la a cabo.

     Quando as visitas eram nas vizinhanas, ia a p; na plancie, ia num carrinho
coberto de vimes e, na montanha, a cavalo. As duas mulheres acompanhavam-no
sempre, excepto quando a jornada era em extremo difcil para elas, porque ento
ia sozinho.
     Certo dia, entrou em Senez, antiga cidade episcopal, montado num jumento,
porque a sua bolsa, naquela ocasio pouco abastecida, lhe no permitira outro
modo de locomoo.
     O maire da cidade, recebendo-o  porta do pao, no ocultou o seu
descontentamento vendo-o apear-se da insignificante cavalgadura, e alguns
burgueses que se achavam tambm presentes chegaram at a rir.
     - Senhor maire, e vs, senhores - disse o bispo -, sei muito bem o que vos
desagrada; acham que  demasiada soberba num pobre padre como eu servir-se
para o seu transporte do mesmo meio que usou Jesus Cristo! Afirmo-lhes, porm,
que o fiz por necessidade e no por vaidade.
     Nas suas visitas, mostrava-se indulgente e afvel com todos os que se lhe
apresentavam. Conversava mais do que pregava. No ia nunca muito longe buscar
os argumentos e modelos que desejava apresentar. Aos habitantes de uma
localidade citava os da localidade vizinha. Nos cantes, cujos moradores se
mostravam pouco compadecidos para com os necessitados, dizia:
     - Vejam os habitantes de Brianon. Concederam aos indigentes, s vivas e
aos rfos, licena de mandar ceifar as suas searas, trs dias antes de mais
ningum. Por isso  uma terra abenoada por Deus. S l de cem em cem anos 
que se ouve falar num assassnio.
     Nas aldeias onde os pequenos lavradores se viam a braos com grandes
dificuldades para acudir ao servio das colheitas, dizia:
     - Olhai para o que fazem os de Embrun. Na ocasio das ceifas, se algum pai de
famlia, que tem os filhos alistados no exrcito e as filhas a servir na cidade,
adoece, vendo-se assim na impossibilidade de fazer a ceifa, o proco recomenda-o
na ocasio da prtica, e no domingo, depois da missa, todos os habitantes da
aldeia, homens, mulheres e crianas, se dirigem para o campo do pobre homem a
fazer-lhe a colheita e a transportar-lhe a palha e o gro para a eira!
     As famlias a quem questes de partilhas e outros interesses trazia em
desunio, dizia:
     - Olhai para os montanheses de Devolny, terra to selvtica que nem de
cinquenta em cinquenta anos se ouve o cantar do rouxinol! Pois ali, quando
morre o chefe de qualquer famlia, os rapazes vo procurar fortuna noutra parte e
deixam todo o patrimnio s irms para que elas possam fazer bons casamentos.
     Aos habitantes dos cantes, amigos de pleitos e questes que desbaratavam os
seus haveres em papel selado, dizia:
     - Olhai para aqueles bons aldees de Queyras.  uma povoao de trs mil
almas e, louvado seja Deus, vivem como numa pequena repblica. No sabem o
que seja um juiz, um processo ou um escrivo. O maire  quem faz tudo. Reparte
o imposto, colecta cada habitante o que em conscincia lhe parece que deve pagar,
julga todas as causas gratuitamente, preside s partilhas entre os membros de uma
famlia sem cobrar emolumentos, profere sentenas sem levar nada s partes, e
todos lhe obedecem, porque  um homem justo no meio de uma populao de
homens simples.
    Nas aldeias em que no encontrava mestre-escola, dizia, citando ainda como
exemplo os habitantes de Queyras:
    - Quereis saber o que eles fazem? Como um lugar de doze ou quinze fogos
no pode s por si sustentar um mestre, combinam-se com os habitantes de
outros lugares e assim arranjam, cotizando-se entre si, mestres que vo de lugar
em lugar, demorando-se oito dias aqui, dez alm, dando lies a quem delas se
quer aproveitar.
    Os mestres, andam de feira em feira, como eu mesmo j presenciei, e do-se a
conhecer segundo o nmero de penas que trazem na fita do chapu. Os que s
ensinam a ler, trazem uma pena; os que ensinam a ler e a contar, usam duas e os
que ensinam a ler, a contar e latim, usam trs e so considerados grandes sbios. 
uma vergonha ficar toda a vida ignorante, fazei como os de Queyras.
    Assim discursava o bom prelado, com gesto grave e paternal, inventando
parbolas quando no tinha exemplos, conciso na frase, opulento em imagens,
persuasivo e convicto, singelo e eloquente, como outrora a eloquncia de Jesus
Cristo, convincente e persuasiva



    IV
    As palavras semelhantes s obras



     Dotado de gnio prazenteiro e afvel, conversava e ria alegremente com todos
e em especial com as duas mulheres, companheiras nicas do seu modesto viver, a
cujas inteligncias adaptava as suas conversas Quando ria, o seu riso parecia o de
uma criana.
     Magloire tratava-o quase sempre por minha grandeza.
     Certa vez, o bispo levantou-se da sua poltrona e dirigiu-se  estante para tirar
um livro, mas como era baixo e no pde chegar-lhe, virou-se para a criada e
disselhe:
     - Magloire, traga-me uma cadeira, porque a minha grandeza no chega quela
prateleira.
     Entre as visitas que o bispo de Digne recebia na sua residncia episcopal,
contava-se a da condessa de L, sua parente afastada Todas as vezes que se
encontravam, nunca aquela dama perdia a ocasio de lhe enumerar o que ela
apelidava as esperanas dos seus trs filhos Consistiam estas na prxima herana
dos numerosos ascendentes da condessa, de quem seus filhos eram naturais
herdeiros e que no prometiam longa durao. O mais novo, por morte de uma
segunda tia, ficaria com um rendimento superior a cem mil francos, o segundo
herdaria de um tio o ttulo de duque; o mais velho sucederia ao av no pariato O
bispo, ordinariamente, limitava-se a escutar em silncio as inofensivas e
desculpveis expanses do seu amor de me Todavia, numa das ocasies em que a
condessa de L repetia a enumerao de todas aquelas heranas em perspectiva,
reparando no ar pensativo e distrado com que o prelado a escutava,
interrompeu-se e disselhe um tanto despeitada:
     - Que tem, meu primo? Parece que no presta ateno nenhuma ao que eu
digo.
     - Estou a pensar numa coisa singular que li  respondeu o bispo -, e que
segundo me parece, pertence a Santo Agostinho: Ponde a vossa esperana
naquele a quem ningum substituiu Outra vez, recebendo uma carta em que lhe
participavam a morte de um fidalgo da terra, na qual, alm das dignidades do
defunto, pomposamente se ostentavam todas as qualificaes feudais e nobilirias
dos seus parentes, exclamou:
     - Que largas costas tem a morte! Como carrega, sem se queixar, tamanha
carga de ttulos, e que grande habilidade tm os homens para fazerem do tmulo
instrumento da sua vaidade!
     Quando se lhe apresentava ensejo, tinha sempre pronto um dito, que
encerrava um sentido srio.
     Um ano, pela quaresma, chegou  cidade um eclesistico ainda novo que
pregou na catedral. O assunto do seu tema foi a caridade e discursou
eloquentemente sobre o assunto. Convidou os ricos a auxiliarem os pobres, a fim
de evitarem o inferno, que ele pintou o mais horroroso que pde e alcanarem o
paraso, que mostrou com as cores mais deliciosas e agradveis.
     Entre o auditrio, encontrava-se naquela ocasio um abastado negociante,
chamado Gborand, o qual, depois de ter ganho dois milhes em empresas fabris,
se retirara do comrcio para se entregar com mais ou menos moderao ao trfico
usurrio.
     Nunca na sua vida, Gborand dera esmola a um infeliz, mas depois deste
sermo viam-no, todos os domingos, aproximar-se das cinco ou seis velhas que
mendigavam  porta da catedral e dar um soldo para elas repartirem entre si.
      Um dia, indo o bispo a passar quando o negociante dava a uma das infelizes a
costumada esmola, voltou-se para a irm e disselhe, sorrindo:
      - Ali est o senhor Gborand a comprar um soldo do paraso!
      Quando se tratava de caridade, no recuava mesmo diante de uma recusa,
pois tinha sempre pronta qualquer resposta que obrigava a reflectir.
      Uma vez, em certa reunio, tendo aberto um peditrio para os pobres,
aproximou-se do velho e avarento marqus de Champtercier, singular
personagem que sabia o segredo de combinar o seu realismo exaltado com ideias
ultra-voltarianas (esta variedade existiu) e disselhe, tocando-lhe no brao:
      - E V. Ex., senhor marqus, no contribui tambm?
      O marqus voltou-se e respondeu com modo brusco:
      - Eu tambm tenho os meus pobres, senhor bispo.
      - Nesse caso, rogo-lhe que mos d.
      Um dia, na catedral, pregou este sermo:
      Meus queridos irmos e amados ouvintes, h em Frana um milho e
trezentas e vinte mil casas de habitao de camponeses, as quais s tm trs
aberturas; um milho oitocentas e dezassete mil, que tm apenas duas, uma porta
e uma janela; e, finalmente, trezentas e quarenta e seis mil cabanas, cuja nica
abertura  a porta. A causa disto  o denominado imposto das portas e janelas.
Imaginai um monto de pessoas, uma famlia numerosa composta de velhos e
crianas, vivendo juntas em cada um desses domiclios sem ar nem luz e pensai
nas febres e epidemias a que isto pode dar origem! Oh, d Deus o ar aos homens e
a lei vende-lho! No acuso a lei, mas bendigo a Deus! No Isera, no Var, nos altos e
baixos Alpes, os camponeses, que nem carros de mo possuem, transportam os
estrumes s costas; no tm candeeiros nem velas para os alumiar e para obterem
luz queimam paus e fragmentos de cordas embebidos em resina. O mesmo
acontecendo em todos os lugares do Alto Delfinado.
      Fabricam po para seis meses e cosem-no com o estrume seco das vacas. No
Inverno, corta-se o po a machado e conservam-no de molho de um dia para o
outro para se poder comer. Compadecei-vos, meus irmos, vendo quantos
infelizes sofrem em torno de vs! Provenal de nascimento, o bispo
familiarizara-se com todos os dialectos das regies meridionais. Falava com
extrema facilidade tanto o do baixo Languedoc, como o dos Baixos Alpes e do
Alto Delfinado. Isto agradava ao povo e contribua bastante para lhe granjear
simpatias. No campo, na cidade, ou na mais humilde choupana das montanhas,
achava-se como em sua casa. Sabia dizer as coisas mais complicadas na linguagem
mais simples. Sabendo falar a todos, entrava em todas as almas.
     Alm disto, a todos tratava de igual modo, fossem das camadas superiores ou
das inferiores. Jamais formulava juzo desfavorvel a respeito do que quer que
fosse ou condenava sem atender s circunstncias. Costumava dizer: Vejamos o
caminho por onde a culpa passou.
     No obstante ser um ex-pecador, como a si mesmo se denominava, nunca
professava as asperezas do rigorismo. A sua doutrina, que abertamente observava,
a despeito da austeridade inflexvel, podia, com pequena diferena, resumir-se no
seguinte:
     O homem tem sobre si a carne, que  o seu fardo e a sua tentao. Ela
arrasta-o e ele cede-lhe. O seu dever  vigi-la, cont-la, reprimi-la e no lhe
obedecer seno na ltima extremidade. Essa obedincia pode ainda ser culposa,
mas a culpa assim  venial.  cair, mas cair de joelhos e por isso terminar em
orao
Ser santo  uma excepo; a regra  ser justo. Errai, ca, pecai, mas sede justos.
     Pecar o menos possvel  o dever do homem, no pecar nunca  o sonho do
anjo. Tudo o que  terrestre est sujeito ao pecado. O pecado  uma gravitao.
     Quando via o tumultuoso alarido e a precipitada indignao de muitos, dizia,
sorrindo:
     - Basta ver a azfama com que a hipocrisia se apressa a protestar e a pr-se a
salvo, para se conhecer que o fogo tambm lhe andou por casa!
     Indulgente para com as mulheres e para com os pobres, sobre quem recai
sempre o antema da sociedade, costumava dizer:
     - As faltas das mulheres, das crianas, dos servos, dos fracos, dos indigentes e
dos ignorantes, so as faltas dos maridos, dos pais, dos amos, dos fortes, dos ricos
e dos sbios E continuava:
     - Aos ignorantes, ensinai-lhes o mais que puderdes; a sociedade  a nica
culpada por no ministrar a instruo gratuita e torna-se responsvel pelas trevas
que produz. O pecado comete-se no meio da escurido que envolve as almas. O
culpado no  o que peca, mas sim de quem produziu a sombra.
     Como se v, o prelado professava um singular e particular sistema de encarar
as coisas, que desconfio tivesse aprendido no Evangelho.
     Certa noite, numa reunio em que ele se encontrava, contou-se a histria de
um processo h pouco instaurado e que em breve ia entrar em julgamento.
Levado pelo seu extremoso afecto a uma mulher que lhe dera um filho, certo
desgraado ao ver-se sem recursos, fabricou moeda falsa. Nessa poca, o fabrico
de moeda falsa era punido com pena de morte. A mulher fora presa na ocasio em
que passava a primeira moeda fabricada por ele. Conservaram-na presa, mas no
tendo provas contra ela, comearam a acusar o amante. Era ela a nica pessoa que
o podia perder, denunciando-o, mas no o fez, negando sempre. Nova insistncia.
A mesma negativa. O procurador teve ento uma ideia. Disselhe que o amante lhe
era infiel, e por meio de alguns fragmentos de cartas astuciosamente forjadas,
persuadiu a infeliz de que o seu cmplice a atraioava.
     Ento num acesso de cime, ela denunciara o amante e confessara tudo. O
homem estava perdido. Contava-se a histria do infeliz, o qual em breve ia ser
julgado em Aix com a sua cmplice. Todos louvavam a admirvel sagacidade do
magistrado, que, pondo em aco o cime, fizera do dio irromper a verdade e da
vingana a justia. O bispo escutara a narrao em silncio e depois de terminada,
perguntou:
     - Por quem vo ser julgados esse homem e essa mulher?
     - Pelo tribunal.
     - E quem julgar o procurador?
     Um dia, deu-se em Digne um trgico acontecimento. Um homem foi
condenado  morte por crime de homicdio. Era um desgraado no inteiramente
destitudo de instruo e que antes de ser preso exercia o duplo mister de
saltimbanco e escritor pblico. O seu processo prendeu a ateno de toda a
cidade. Na vspera do dia fixado para a execuo do criminoso, o capelo da
cadeia adoeceu repentinamente. Era preciso um sacerdote que assistisse ao
paciente nos seus ltimos momentos, e recorreu-se ao proco, o qual se recusou,
dizendo:
     - Isso no  comigo, nada tenho que fazer com condenados, no  esse o meu
lugar... e de resto tambm estou doente Depois de lhe contarem a resposta do
proco, o bispo respondeu:
     - O proco tem razo, no  ele que compete ir, mas sim eu!
     E, dizendo isto, dirigiu-se imediatamente  cadeia, entrou na cela do
saltimbanco, chamou-o pelo nome, estendeu-lhe a mo e conversou com ele,
passou o dia a seu lado, sem se lembrar de comer nem de dormir, orando a Deus
pela alma do condenado e pedindo a este que intercedesse pela dela. Disselhe as
melhores verdades, que so as mais simples Foi pai, irmo, amigo, bispo somente
para o abenoar Ensinou-lhe tudo, tranquilizando-o e consolando-o Aquele
homem ia morrer desesperado A morte era para ele um abismo, a cujo limiar
chegara forado e  vista do qual recuava horrorizado e trmulo No era to
ignorante que se tornasse completamente indiferente, mas o violento abalo da sua
condenao como que abrira algumas fendas, nesse vu chamado a vida, que nos
separa do mistrio das coisas At  chegada do bispo, por essas fatais aberturas, s
via trevas; veio o bispo e apontou-lhe a claridade.
     Quando, no dia seguinte, o vieram buscar para o conduzir ao cadafalso, o
bispo, que no o tinha abandonado, acompanhou-o ao lugar do suplcio, por entre
os olhares da multido, que o contemplava admirada, por v-lo com o seu manto
roxo e a cruz episcopal ao peito, ao lado do infeliz, com as mos amarradas atrs
das costas.
     To prostrado e angustiado na vspera, o rosto do condenado mostrava-se
agora iluminado por um resplandecente claro de alegria. Reconciliado com a sua
alma, entregava-se confiadamente a Deus. No momento em que o carrasco se
preparava para descarregar o golpe fatal, o bispo abraou-o pela ltima vez,
dizendo-lhe:
     - Meu filho, o que morre para satisfao da justia dos homens, ressuscita em
Deus; o que se v repelido por seus irmos, encontra abertos os braos do pai!
Orai, crede, entrai na vida celeste, que Deus l vos espera!
     Quando desceu as escadas do cadafalso, o seu olhar fulgurava com uma
estranha luz, que impunha respeito  multido e a obrigava a dar-lhe passagem
No sabemos qual das coisas era mais digna de admirao, se a sua palidez, se a
sua serenidade. Ao entrar na sua modesta habitao, a que ele chamava, sorrindo,
o seu palcio, disse  irm:
     - Acabei agora mesmo de celebrar pontificalmente.
     Como quase sempre as coisas mais sublimes so tambm as menos
compreendidas, no faltou na cidade quem, comentando o proceder do bispo,
dissesse:
     - Isso no passa de afectao!
     Mas esta apreciao no saiu dos sales O povo, pouco propenso a deitar
malcia nas aces santas, admirava-o e mostrava-se comovido.
     No que respeita ao bispo, a vista da guilhotina causou-lhe um abalo
profundo, de que durante muito tempo no lhe foi possvel restabelecer-se.
     O aspecto do cadafalso, com efeito, quando se ergue tem qualquer coisa de
alucinante. Pode mostrar-se indiferena em relao  pena de morte; podemos
hesitar, no nos pronunciarmos claramente, enquanto com os nossos prprios
olhos no vemos uma guilhotina, mas, desde que a vimos, o abalo que nos causa 
to violento que temos de nos decidir ou pr ou contra Admiram-na uns como
Maistre, outro detestam-na como Becaria. A guilhotina  a expresso concentrada
da lei; chama-se vingana, no  neutral nem nos permite s-lo. Quem a v sente
percorrer-lhe no corpo o mais misterioso estremecimento. Em volta desse cutelo
surgem todas as questes sociais como um ponto de interrogao. O cadafalso 
uma viso, no  um madeiramento, uma mquina, um mecanismo inerte feito de
pau, ferro e cordas.  uma espcie de ente dotado de no sei que sinistra iniciativa.
Dir-se-ia que essa mola de madeira v, que essa mquina ouve, que esse
mecanismo compreende, que esse ferro e essas cordas tm uma vontade. A vista
de um cadafalso faz embrenhar o esprito em sombrias cogitaes, do meio das
quais surge terrvel e como que circundado dos espectros das suas vitimas. O
cadafalso  o cmplice do carrasco, nutre-se de carne e sangue humano.  uma
espcie de monstro fabricado pelo juiz e pelo carpinteiro, um espectro que parece
viver a horrorosa existncia composta de todas as mortes que tem dado. A
impresso que semelhante vista causou no esprito do bispo foi to profunda e
horrvel, que no dia seguinte e ainda da por muitos dias, o bondoso prelado
parecia visivelmente oprimido.
     A serenidade quase violenta do momento fnebre havia desaparecido para
dar lugar ao fantasma da justia social que o perseguia e obcecava. Ele, que
habitualmente voltava de todos os actos que ia desempenhar com to radiante
satisfao, agora quase parecia exprobar-se do que tinha feito. s vezes punha-se a
falar sozinho, balbuciando lgubres monlogos. Eis um, que a irm, uma noite,
ouviu e conservou de memria:
     Nunca supus que fosse uma coisa to monstruosa!  um erro deixarmo-nos
absorver pela lei divina, a ponto de olvidar inteiramente a lei humana. Matar s a
Deus pertence! com que direito tocam os homens nessa entidade desconhecida?
Com o decorrer do tempo, estas impresses foram-se atenuando, at talvez se
extinguirem. Todavia, houve quem notasse que o bispo, desde ento, evitava
passar pela praa onde tinham lugar as execues.
     Podiam chamar o prelado a qualquer hora para ir confessar um enfermo ou
assistir a um moribundo, que ele no ignorava ser este o seu dever mais sagrado, a
sua misso mais sublime. As vivas e os rfos no precisavam de o chamar,
porque ele lhes acudia voluntariamente. Sabia estar sentado durante horas inteiras
a escutar silencioso e a animar com palavras de conforto o homem que perdera a
mulher amada, ou a me que perdera o filho querido. Admirvel consolador! Os
seus esforos no tendiam a fazer extinguir a dor pelo esquecimento, mas a
engrandec-la pela esperana!
     - Atentai bem no modo como contemplais os mortos - dizia ele. No ocupeis
o vosso pensamento com o que apodrece. Olhai fixamente e vereis no fundo do
cu a chama viva do ente morto a quem amveis.
     Ele sabia que a crena era santa e por isso aconselhava e serenava o homem
desesperado, apontando-lhe o homem resignado, e transformava a dor imvel
diante de uma sepultura, indicando-lhe a dor que fita os olhos no cintilar de uma
estrela.



    V
    Como Monsenhor Bemvindo poupava as suas batinas



     A vida ntima de Carlos Myriel assemelhava-se inteiramente  sua vida
pblica.
     Se fora dado a algum observ-la de perto, ficaria impressionado com o grave
e ao mesmo tempo gracioso espectculo da pobreza voluntria em que vivia o
bispo de Digne.
     Como todos os velhos e como a maior parte dos pensadores, dormia pouco,
mas profundamente. Pela manh, aps uma hora de recolhimento, dizia a sua
missa na catedral ou no seu oratrio particular e, assim que terminava esta tarefa
diria, ia almoar. O seu almoo consistia em algumas sopas de po de centeio
com leite, extrado de duas vacas que tinha em casa. Em seguida, dava princpio
aos seus trabalhos.
     Um bispo  um homem ocupadssimo; tem de dar todos os dias audincias ao
secretrio da cmara eclesistica, que habitualmente  um cnego, e a quase todos
os seus vigrios gerais. Alm disto, tem de visitar congregaes, conceder licenas,
examinar uma completa livraria espiritual como catecismos, livros de horas, etc.,
escrever pastorais, compor as desavenas entre os procos e as autoridades, dar
expediente  correspondncia eclesistica e  civil, atender de um lado o estado, de
outro a igreja; finalmente, mil coisas que lhe reclamam a ateno.
     O tempo que lhe sobrava do brevirio e do cumprimento de todos os seus
encargos e obrigaes, dedicava-o em primeiro lugar com os necessitados, com os
enfermos e aflitos; e o que de tudo isto ainda lhe sobrava, aplicava-o ao trabalho,
ora cavando a terra da sua horta, ora a ler, ou a escrever.
     A estas duas espcies de trabalho, designava-as com o mesmo nome: jardinar.
     - O esprito  um jardim - costumava ele dizer.
     Ao meio-dia, quando o dia estava ameno, saa e dava um passeio pela cidade
ou pelos arrabaldes, visitando muitas vezes as casas dos pobres que deparava no
caminho. Nada mais fcil do que encontr-lo sozinho, absorto nas suas
cogitaes, de olhos fitos no cho, encostado  sua comprida bengala, agasalhado
na sua acolchoada capa roxa, meias da mesma cor, grandes sapatos e o seu chapu
de trs bicos com uma grande borla de oiro em cada um.
     Onde quer que aparecesse, todos o festejavam. Dir-se-ia que a sua presena
aquecia e iluminava. Por onde ele passava, velhos e crianas assomavam s portas,
com o mesmo alvoroo com que sairiam a aquecer-se aos raios do sol. Ele
abenoava o povo, o povo abenoava-o a ele, apontando a residncia episcopal
como o lugar em que todo o infortnio acharia alivio e toda a necessidade
socorro.
     Parava a cada momento, gracejando com os rapazes e raparigas, sorrindo
benevolamente para as me se dando conselhos a todos. Enquanto tinha dinheiro,
visitava os pobres; acabado ele, visitava os ricos.
     Como queria que as batinas lhe durassem muito tempo, nunca saa a passear
pela cidade seno com a capa roxa, o que de Vero no deixava de o incomodar.
     Depois voltava a casa para jantar. O jantar assemelhava-se ao almoo.
     s oito e meia da noite, ceava em companhia da irm, servidos por Magloire,
que se conservava de p por trs deles. Nada mais frugal do que esta refeio,
excepto quando o bispo tinha algum hspede, porque ento Magloire arranjava
pretexto para apresentar na mesa algum peixe ou alguma pea de caa. A isto, que
se repetia sempre que havia hspedes no pao, o bispo nada dizia. Fora destas
ocasies, as refeies habituais constavam sempre de legumes ou de alguma
simples sopa. Deste frugal modo de viver originava-se o seguinte dito, j
proverbial na cidade:
     - Hspede no pao  domingo gordo em casa de jornaleiro.
     Depois da ceia, demorava-se ainda meia hora a conversar com Baptistina e
com Magloire, recolhendo-se em seguida ao seu quarto, onde se punha a escrever
em folhas soltas ou na margem de algum in-flio. Carlos Myriel era instrudo e
alguma coisa versado nas cincias, como o provam os cinco ou seis curiosos
manuscritos por ele deixados, entre os quais se conta uma dissertao sobre o
versculo do Gnesis: "No princpio do mundo o esprito de Deus pairava sobre as
guas." Com este versculo confronta o rabe que diz: "Sopravam os ventos de
Deus." Outro de Flvio Jos: "Um vento vindo do alto, precipita-se sobre a terra."
E finalmente a parfrase caldaica de Onkelos, onde se l: "Um vento mandado por
Deus soprava sobre a superfcie das guas." Noutra dissertao examina as obras
teolgicas de Hugo, bispo de Ptolomeida, tio em terceiro grau do autor deste livro,
concluindo que se devem atribuir a esse bispo os diversos opsculos publicados
no sculo passado sob o pseudnimo de Barleycourt.
     As vezes, qualquer que fosse o livro que tivesse entre mos, parava
subitamente de ler e caa em profunda meditao, finda a qual se punha a escrever
algumas linhas, nas prprias pginas do volume, sem, muitas vezes, aquilo que
escrevia ter relao alguma com o que dizia o livro. Temos a seguir uma nota
escrita por ele na margem de um livro: Correspondncia de Lord Germano com os
generais Clinton, Cornwalis e com os almirantes da estao da Amrica. Versailles,
em casa do livreiro Poinot; e em Paris, na do livreiro Pissot, cais dos Agostinhos.
     A nota diz:
     Oh, vs quem sois!?
     O Eclesiastes chama-vos Todo Poderoso; os Macabeus, Criador; a Epstola
aos fesos, Liberdade; Baruch, Imensidade; os Salmos, Sabedoria e Verdade; Joo,
Luz; o Livro dos Reis, Senhor; o xodo, Providncia; o Levtico, Santidade; Esdras,
Justia; a criao, Deus; o homem, Pai; Salomo, porm, chama-vos Misericrdia,
e  este o mais belo de todos os vossos nomes.
     s nove horas, as duas mulheres retiravam-se para os seus quartos, que
ficavam no primeiro andar, deixando o bispo sozinho, at de madrugada, no
rs-do-cho.
     Agora  necessrio dar a exacta ideia da habitao do bispo de Digne.



    VI
    Quem guardava a casa do prelado



     A casa que o bispo habitava compunha-se de rs-do-cho e primeiro andar; o
rs-do-cho era dividido em trs salas, o andar superior em trs quartos, por cima
dos quais ficava um sto. Nas traseiras da casa havia um pequeno jardim. As
duas mulheres ocupavam o primeiro andar, o bispo o rs-do-cho. A primeira
sala, cujas janelas deitavam para a rua, servia-lhe de sala de jantar, a segunda de
quarto de dormir e a terceira de oratrio. No se podia sair deste sem passar pelo
quarto de dormir, nem do quarto de dormir, sem passar pela sala de jantar. No
fundo da sala que servia de oratrio havia uma alcova fechada, com uma cama de
reserva para os hspedes, que o bispo oferecia aos procos de aldeia que os seus
prprios negcios ou as necessidades das suas parquias obrigavam a vir a Digne.
     A farmcia do hospital, pequeno compartimento ao fundo do jardim, servia
de cozinha e dispensa.
     Havia, alm disso, tambm no jardim, um estbulo, que em tempos fora a
cozinha do hospcio e onde agora o bispo guardava duas vacas. Por pouco que
fosse o leite que elas dessem, mesmo assim, todos os dias pela manh, o prelado
mandava entregar metade aos doentes do hospital, ao que ele chamava pagar o
seu dzimo.
     Como o seu quarto, demasiadamente grande, era muito frio de Inverno e a
lenha em Digne fica por elevado preo, lembrou-se de mandar fazer no estbulo
das vacas um compartimento de madeira, onde passava as noites mais frias.
Chamava-lhe ele o seu salo de Inverno.
     Os mveis do salo de Inverno consistiam apenas, como os da sala de jantar,
numa mesa quadrada de pinho e quatro cadeiras de palhinha. Na sala de jantar
apenas havia mais um velho bufete, pintado de vermelho. De um bufete igual,
convenientemente adornado de toalhas e rendas de pouco custo, fizera o bispo o
altar que decorava o oratrio.
     Por vrias vezes, as confessadas ricas do bispo e outras devotas da cidade se
haviam quotizado entre si para,  sua custa, lhe mandarem fazer no oratrio um
altar mais asseado, mas, de todas as vezes, o prelado dera o dinheiro aos pobres.
     - O melhor de todos os altares - dizia ele -  a alma de um infeliz agradecendo
a Deus o alvio do seu infortnio!
     No oratrio tinha dois genuflexrios de palhinha e no quarto de dormir uma
cadeira de braos, tambm de palhinha. Quando acontecia sete ou oito pessoas
virem-no visitar ao mesmo tempo, o prefeito, o general, o estado-maior do
regimento que fazia a guarda da cidade, ou os alunos do seminrio, era preciso ir
ao estbulo buscar as cadeiras do salo de Inverno, os genuflexrios ao oratrio e
a cadeira de braos ao quarto de dormir, conseguindo-se, deste modo, reunir at
onze assentos, se tantas eram as visitas.  medida que iam chegando, ia-se
desguarnecendo de mveis cada sala.
     Sucedia algumas vezes serem doze as visitas; ento o bispo dissimulava o
embarao da situao, conservando-se em p junto do fogo, se era de Inverno, ou
passeando no jardim, se era de Vero.
     Havia ainda na alcova uma cadeira de palhinha, mas como, alm de ter o
assento arrombado, s tinha trs pernas, no podia servir seno encostando-a 
parede. A senhora Baptistina tinha tambm no seu quarto uma grande poltrona
com dourados, que j mal se conheciam, mas como a escada era demasiado
estreita, no pudera ser conduzida para o primeiro andar, seno iando-a pela
janela, resultando da que no se podia contar com o seu auxlio para as ocasies
de apuro.
      Baptistina tivera sempre a ambio de poder comprar uma moblia completa
de acaj, para ornamentar devidamente aquela modesta casa Mas para tal
ser-lhe-iam necessrios, pelo menos, quinhentos francos, e vendo que durante
cinco anos no conseguira economizar mais de cinquenta francos, renunciara
tristemente ao seu projecto Nada mais simples de imaginar do que o quarto de
dormir do bispo. Uma janela rasgada, que deitava para o jardim; defronte, uma
cama de ferro de hospital, com cortinado de sarja verde; junto da cama,
encobertos por uma cortina, vrios objectos de toucador, denunciando ainda os
hbitos elegantes do homem de boa sociedade; duas portas, uma junto do fogo,
que dava para o oratrio, a outra prxima da estante, dando para a casa de jantar.
A estante, grande armrio envidraado cheio de livros; o fogo, guarnecido de
madeira pintada a fingir mrmore, quase sempre apagado, com trempe de ferro
ornada de dois vasos cheios de plantas e embutidos, primitivamente prateados a
fosco, o que constitua certo luxo episcopal; por cima do fogo via-se um crucifixo
de cobre desprateado, assente sobre um pedao de veludo preto j muito velho,
num caixilho que fora dourado; junto da janela, uma espaosa mesa com um
tinteiro ao centro, pejada de volumosos livros e papis em confuso. Ao p da
mesa a cadeira de palhinha e ao p da cama um genuflexrio, pertencente ao
oratrio.
      De cada lado da cama, viam-se dois retratos em caixilhos ovais, pendurados
na parede. Algumas inscries gravadas em letras de oiro no fundo escuro de cada
tela, por baixo das figuras, indicavam que os retratos representavam, um o abade
de Chaliot, bispo de S. Cludio, o outro, o abade Tourteau, vigrio geral de Agde e
abade de Grand-Champs, da ordem de Cister, na diocese de Chartres.
      Quando o bispo fixara a sua residncia naquela casa, que fora o hospital,
encontrara ali aqueles retratos e deixara-os ficar no mesmo lugar, porque eram de
sacerdotes e talvez de benfeitores, duas razes para que ele os respeitasse. Tudo o
que ele sabia acerca destes dois personagens era que ambos tinham sido providos,
um no seu bispado, outro no seu benefcio, por nomeao rgia datada do mesmo
dia, 27 de Abril de 1785. Soubera esta circunstncia por a ter encontrado escrita
em caracteres que j mal se liam, num quadradinho de papel, amarelado pela
aco do tempo, pregado com quatro obreias na parte posterior do retrato do
abade de Grand-Champs, numa ocasio em que Magloire tirara os dois quadros
para os limpar do p.
     Pendia da larga janela uma cortina de grosseiro tecido de l muito antigo, que
Magloire para evitar a despesa de uma nova, se viu na necessidade de lhe fazer
uma grande costura no centro. Como a costura apresentava exactamente a forma
de uma cruz, o bispo indicava-a s vezes, dizendo:
     - Nunca houve costura com aspecto mais agradvel.
     Os quartos, tanto os do rs-do-cho como os do primeiro andar, eram todos
caiados de branco, como era habitual nos hospitais e nos quartis.
     Muitos anos depois, porm, Magloire encontrou por baixo do papel caiado
vrias pinturas que ornavam o quarto de Baptistina. Antes de ser hospital, aquela
casa fora centro de reunio dos burgueses e da provinha a decorao. Os quartos
eram ladrilhados de tijolos, que todas as semanas se lavavam, e aos ps de cada
cama havia uma esteira. Numa palavra, a humilde habitao do bispo, a cargo das
duas mulheres, respirava o perfume da mais esmerada limpeza. Era o nico luxo
que ele consentia.
     - Com isto no se tira nada aos pobres!  costumava ele dizer.
     Convm, contudo, dizer, que lhe restava ainda, do que outrora possura, seis
talheres de prata e uma colher de sopa, que Magloire via todos os dias, com o
maior prazer, reluzir sobre a alva toalha de linho grosso que cobria a mesa.
     E j que aqui pintamos o bispo de Digne tal qual era, devemos acrescentar
que mais de uma vez se lhe ouvira dizer:
     - H-de custar-me muito comer com um talher que no seja de prata!
     A esta baixela acrescentaremos tambm dois castiais de prata macia, que
herdara de uma tia. Estes castiais que tinham duas velas de cera, figuravam
habitualmente sobre o fogo. Quando havia algum hspede, Magloire acendia as
velas e colocava os castiais sobre a mesa.
     No quarto do bispo, junto  cabeceira da cama, havia um pequeno armrio
onde Magloire todas as noites fechava os talheres, mas sem nunca tirar a chave.
     O jardim, um tanto prejudicado pelas feias construes de que j falmos, era
dividido por quatro caminhos em cruz, com um tanque no centro Ao longo do
muro caiado que fechava o jardim, havia outro caminho que o circundava. Estas
ruas eram separadas por canteiros orlados de buxo, em trs dos quais Magloire
cultivava legumes, ficando ainda outro, onde o bispo tinha as suas flores e onde
plantara tambm algumas rvores de fruto.
      Numa ocasio, a criada dissera ao bispo, sorrindo com ar de afectuosa
malcia:
      - Monsenhor, que de tudo tira proveito, no sei como tem no jardim um
canteiro inutilizado. No seria melhor semear nele alfaces em vez de flores?
      - Est enganada, Magloire - respondeu ele. - O agradvel  to til como o
til.
      E, aps um momento de silncio, acrescentou:
      - Ou talvez mais.
      O canteiro, que era dividido em quatro alegretes, ocupava a ateno do bispo,
tanto como os seus livros. Sempre que podia, passava ali uma ou duas horas,
cortando, sachando, mondando e lanando  terra novas sementes. Menos hostil
com os insectos do que seria para desejar num jardineiro, o bispo tambm no
tinha aspiraes a botnico; desconhecia os grupos e as famlias, no se lembrando
sequer de decidir entre Tournefort e o mtodo natural, nem de tomar partido
pelos utrculos contra os cotyledonios ou por Jussieu contra Limeu. No estudava
as plantas, amava as flores.
      Respeitava muito os sbios, respeitava ainda mais os ignorantes e, sem nunca
deixar de respeitar uns e outros, no Vero regava todas as tardes os seus alegretes
com um regador de lata pintado de verde.
      Em toda a casa no havia uma s porta fechada  chave. A porta da sala de
jantar que dava sada para o largo da catedral, fora, em tempos, guarnecida de
fechaduras e ferrolhos, como se fosse a porta de uma priso. O bispo mandou tirar
todas as fechaduras e da em diante quer fosse noite, quer dia, a porta apenas
ficava segura por um simples fecho. Quem quisesse abrir a porta, podia faz-lo a
qualquer hora.
      Nos primeiros tempos, isto afligia as duas mulheres, mas o bispo dizia-lhes:
      - Se quiserem mandem pr ferrolhos nos vossos quartos.
      Desde ento, elas principiaram a participar da confiana do bispo ou, pelo
menos, a mostrar que participavam. Apenas Magloire sentia, de tempos a tempos,
renascer-lhe os receios. No que respeita ao prelado, podem dar-nos a explicao
ou, pelo menos, indicao do seu pensamento, as seguintes linhas escritas por ele
na margem de uma folha da Bblia:
      Eis a diferena: a porta do mdico nunca deve estar fechada e a porta do
sacerdote deve estar sempre aberta Noutro livro intitulado Filosofia da cincia
mdica, escrevera ele esta nota:
      To mdico sou eu como eles. Eles tm os seus enfermos, aos quais chamam
doentes; eu tenho esses e os meus, a quem chamo desgraados.
      Noutra parte lia-se ainda:
      No pergunteis nunca o nome de quem vos pedir pousada Aquele que
necessita de ocultar o seu nome,  quem mais carece de asilo.
      Uma ocasio, um respeitvel proco, no sabemos bem se o de Couloubroux,
se o de Pompierry, perguntou-lhe, talvez instigado por Magloire, se estava certo
de no cometer, at certo ponto, uma imprudncia, deixando de noite a porta
aberta,  merc de quem quisesse entrar, e se, finalmente, no receava
consequncias desagradveis numa casa to mal guardada.
      O bispo, com serena gravidade, ps-lhe a mo no ombro e disselhe:
      - Nisi Dominus custodierit domum, in vanum vigilant qui custodiunt eam. (Se
o Senhor no guarda a casa, os que a guardam guard-la-o em vo.) Dizendo
isto, mudou logo de assunto.
      - O sacerdote - costumava ele dizer - tem tanta bravura como o militar. com a
diferena acrescentava que a nossa deve ser mais pacfica.



    VII
    Gravatte, o salteador



     Vem a propsito aqui um facto que no devemos omitir, por ser um dos que
melhor do a conhecer o carcter do virtuoso bispo de Digne.
     Depois de destroada a quadrilha de Gaspar Bs, terrvel bandido que
infestara as gargantas de Ollioules, refugiara-se na montanha com mais alguns
salteadores que conseguiram escapar  justia, um dos seus lugares-tenentes,
chamado Gravatte.
     Conservando-se algum tempo oculto no condado de Nice, Gravatte entrou
no Piemonte e, quando menos era esperado, reapareceu em Frana, do lado de
Bercelonette, sendo visto primeiro em Jausiers e depois em Tuiles. Oculto nas
cavernas de Joug-de-l'Aigle, fazia frequentes incurses nos lugares e aldeias dos
arredores, descendo pelos barrancos de Ubaye e do Ubayette.
     Uma noite, chegou mesmo a entrar em Embrun, onde penetrou na catedral,
roubando todos os objectos que se encontravam na sacristia. Os seus repetidos
assaltos traziam a terra em contnuo e terrvel sobressalto. Destacou-se um corpo
de gendarmeria para o perseguir, mas foi trabalho baldado. Escapava-se sempre e
at algumas vezes resistia s foras mandadas em sua perseguio.
     No meio deste terror, chegou o bispo, que andava a fazer as suas visitas pelo
distrito de Chastelar. O maire foi ao seu encontro e pretendeu convenc-lo de
quanto seria prudente voltar para trs, pois Gravatte ocupava a montanha at para
alm do Arche. Tornava-se perigoso atravess-la, mesmo com uma escolta,
porque seria expor inutilmente a vida de trs ou quatro pobres soldados.
     - Por isso mesmo tenciono ir sem escolta - disse o bispo.
     - Pois Monsenhor intenta semelhante coisa?!  exclamou o maire.
     - De tal modo que recuso a companhia dos soldados e daqui a uma hora
pr-me-ei a caminho.
     - Pois teima em partir?
     - Porque no?
     - Sozinho?
     - Sim.
     - Isso  uma temeridade, senhor bispo.
     - H trs anos - replicou o bispo - que no visito o pequeno e humilde
lugarejo da montanha, cujos habitantes e bons pastores, so todos meus amigos. A
sua riqueza  uma cabra de cada rebanho de trinta que guardam; a sua indstria, 
fazer bonitos cordes de l de diversas cores e o seu divertimento, tocar rias
montanhesas em flautins de seis buracos. Precisam de ouvir a palavra de Deus de
tempos a tempos. Que haviam de dizer de um bispo medroso? Que diriam se eu l
no fosse?
     - Mas, Monsenhor, e os salteadores?
     -  verdade, tem razo. Se os encontrasse... Olhe que tambm devem ter
necessidade de ouvir falar em Deus!
     -  uma grande quadrilha! Um rebanho de lobos!
     - Pois talvez seja desse rebanho, senhor maire, que Jesus queira que eu seja
pastor. Quem sabe os desgnios da Providncia?
     - Podem roub-lo, senhor bispo.
     - No tenho nada.
     - Podem assassin-lo!
     - Ora! com que fim fariam eles mal a um pobre sacerdote que vai a passar,
ocupado unicamente em rezar as suas oraes?
     - Valha-me Deus! Que suceder se os encontrar?
     - Pedir-lhes-ei esmola para os meus pobres.
     - Em nome do cu, Monsenhor, no exponha a sua vida!
     - Pois  esse o seu temor, senhor maire!  atalhou o bispo. - Eu no ando no
mundo para guardar a minha vida, mas sim para guardar as almas!
     Ningum o pde fazer mudar de resoluo. Apesar de todas as splicas,
partiu acompanhado apenas por um rapaz que se prestou a servir-lhe de guia.
     A sua obstinada resistncia deu muito que falar, deixando os nimos
sobressaltados em extremo. Desta vez no quis que a irm nem Magloire o
acompanhassem.
     Atravessou a montanha montado numa mula e chegou so e salvo at aos
pastores seus amigos, sem ter tido o menor encontro desagradvel. Demorou-se
quinze dias no meio deles, pregando, ensinando, moralizando, administrando os
sacramentos.
     Quando estava prestes a retirar-se, resolveu cantar pontificalmente um
Te-Deum e comunicou a sua inteno ao cura. Mas surgiram graves dificuldades,
pois no havia as insgnias episcopais que era mister. A modesta igreja paroquial
apenas podia pr  disposio do bispo alguns deteriorados paramentos de
damasco, guarnecidos de gales falsos.
     - Isso no ser obstculo, senhor cura - disse o bispo. - Anuncie na missa o
nosso Te-Deum, que o mais sempre se h-de arranjar.
     Procuraram-se paramentos em todas as igrejas dos arredores e reunidas as
magnificncias das humildes parquias, mal chegavam para revestir
convenientemente um chantre da catedral.
     Achavam-se as coisas nestes apuros, quando  porta da residncia paroquial
chegaram dois cavaleiros desconhecidos que, depois de fazerem entrega de uma
grande caixa de que eram portadores, tornaram a partir imediatamente. Aberta a
caixa, viu-se que continha uma dalmtica carregada de oiro, uma mitra
guarnecida de diamantes, uma cruz arquiepiscopal, um bculo magnfico, todos
os paramentos pontificais roubados um ms antes da sacristia de Nossa Senhora
de Embrun. No fundo da caixa estava um papel em que se liam estas palavras:
Oferta de Gravatte a Monsenhor Bemvindo.
     - Eu bem dizia que tudo se havia de arranjar! - exclamou o bispo.
     Em seguida acrescentou, sorrindo:
     - A quem se contentava com a sobrepeliz de um simples cura, envia Deus um
manto de arcebispo!
     - Deus... ou o diabo! - murmurou o proco, abanando a cabea com um
sorriso de incredulidade.
     O bispo fitou atentamente o proco e replicou em tom austero:
     - Foi Deus.
     Quando voltou a Chastelar, de todos os lados, vinha gente  beira da estrada
para o ver passar. Chegado  residncia paroquial de Chastelar, encontrou a irm
e Magloire que o esperavam ali e, apenas as viu, exclamou:
     - Ento, eu no tinha razo? Vai um pobre sacerdote visitar os infelizes
montanheses com as mos vazias e volta de l com elas cheias! Quando fui, levava
apenas a minha confiana em Deus, e agora volto trazendo o tesouro de uma
catedral!
      noite, antes de se deitar, disse ainda:
     - No tenhamos receio de ladres e de assassinos. So muito pequenos os
perigos exteriores. Devemos ter receio  de ns prprios! Os preconceitos e os
vcios  que so os verdadeiros ladres e os verdadeiros assassinos! Os maiores
perigos so os que se acham dentro de ns mesmos. Que importa que a nossa
cabea ou a nossa bolsa esteja ameaada? No devemos temer seno o que nos
ameaa a alma!
     Depois, voltando-se para a irm, acrescentou:
     - Minha irm, o sacerdote no deve precaver-se contra o prximo. Aquilo que
ele pratica  permitido por Deus. Limitemo-nos a implorar a bondade divina,
quando nos julguemos ameaados por qualquer perigo. Imploremo-la, no por
ns, mas para que os nossos irmos no caiam em tentao por nossa causa.
     Todavia, os acontecimentos fora do comum, eram raros na sua existncia. O
modo de viver do bispo era quase sempre idntico, passava a vida a fazer sempre
as mesmas coisas nas mesmas ocasies, de modo que um ms do seu ano
assemelhava-se a uma hora do seu dia.
     Quanto ao destino que levou o tesouro da catedral de Embrun, embaraados
nos veramos se algum nos perguntasse o que foi feito dele. Eram, na verdade,
coisas muito ricas e tentadoras para no serem furtadas em proveito dos
desvalidos. E demais, furtadas j elas tinham sido. Metade da aventura estava
passada; o que faltava era mudar apenas a direco do furto, fazendo-lhe dar mais
uns passos para o lado dos pobres. No afirmaremos, pois, coisa alguma a tal
respeito. O que sabemos ao certo  que entre os papis do bispo apareceu uma
nota de certo modo obscura, que alude talvez a este assunto, e concebida nos
seguintes termos:
     "O ponto consiste em saber se isto deve voltar para a catedral, ou ir para o
hospital."
    VIII
    Filosofia de sobremesa



     O senador de que atrs falmos, era um homem entendido, que percorrera
sempre o seu caminho com rectido pouco atenta a todos os encontros que lhe
servem de obstculo e a que se chama conscincia, f, justia e dever; superior a
semelhantes preconceitos, caminhara sempre direito ao seu fim, sem uma s vez
se desviar da linha do seu adiantamento e interesses. Era um antigo procurador,
no pervertido pela prosperidade nem dotado de mau corao, prestando com
facilidade os servios que podia em favor dos filhos, genros, parentes e at amigos;
aproveitara sempre os ensejos da fortuna e o que a vida tem de melhor, sem se
importar com mais nada, porque o contrrio, no seu entender, era asneira.
Espirituoso e instrudo suficientemente para se julgar discpulo de Epicuro, no
passando talvez de um produto de Pigault-Lebrun, ria-se com a maior satisfao e
vontade das coisas infinitas e eternas e dos desvarios do bom bispo, chegando, por
vezes, a faz-lo com a mais prazenteira autoridade, na presena do prprio
prelado.
     Um dia, por ocasio de uma cerimnia semi-oficial, encontraram-se a jantar
em casa do prefeito, Carlos Myriel e o conde de... (o senador).  sobremesa, o
senador, um tanto prazenteiro, sem contudo perder a dignidade, exclamou:
     - Senhor bispo, se no se importa, conversemos um bocado. Um senador e
um bispo raramente conseguem fitar-se sem piscar os olhos Ns somos dois
agoureiros.
     Vou fazer-lhe uma revelao. Tenho um sistema filosfico propria-mente
meu.
     - Faz muito bem - respondeu o bispo.  Conforme  a filosofia que
professamos, assim  a cama que preparamos para ns prprios A de V. Ex. deve
ser de prpura, senhor senador.
      Este, mais animado, continuou:
      - Sejamos bons rapazes!
      - Pobres diabos, mesmo! - disse o bispo.
      - Declaro-lhe - prosseguiu o senador - que o marqus de Argens, Pyrrhon,
Hobbes e Naigeon, no so nenhuns parvos ridculos. Tenho na minha biblioteca
todos os meus filsofos, magnificamente encadernados.
      - Como V. Ex., senhor conde - interrompeu o bispo.
      O senador prosseguiu:
      - Odeio Diderot!  um idelogo, um declamador revolucionrio, mas no
ntimo mais crente em Deus e mais religioso do que Voltaire. Este escarnecia de
Needham e no tinha razo, porque as enguias de Needham provam que Deus 
intil. Uma gota de vinagre numa colher de farinha amassada vale pelo fiat lux.
Imaginem uma gota maior e uma colher de mais avantajadas dimenses e a tm o
mundo! O homem  a enguia! Neste caso, de que serve o Padre Eterno? Senhor
bispo, no posso levar  pacincia a hiptese Jeov. S serve para emagrecer os
que pensam demais. Abaixo, pois, esse grande Todo que me incomoda! Viva Zero,
que me deixa tranquilo! Aqui entre ns, para no ficar nada por dizer e
confessar-me ao meu pastor, como devo: declaro-lhe que, por ora, tenho a cabea
no devido lugar, e no me sinto apaixonado pelo seu Jesus que prega por todos os
cantos a renncia e o sacrifcio. Conselho de um avarento dado a mendigos.
Renncia, porqu? Sacrifcio, a quem? No  crvel que um lobo se imole por
outro lobo. Conservemo-nos como a natureza nos fez. Estamos no cume, seja
tambm superior a nossa filosofia. De que serve estar no cimo, se a gente no v
um palmo adiante do nariz? Vivamos alegremente, porque na vida se cifra tudo!
No outro futuro que dizem que o homem tem c por cima, l por baixo, em
qualquer parte, isso escusam de pregar, porque no creio numa s palavra. Como
me recomendam o sacrifcio e a renncia, devo meditar sobre todas as minhas
aces e quebrar a cabea para distinguir o bem do mal, o justo do injusto, e o
lcito do ilcito Porqu? Porque terei de dar contas das minhas aces? Quando?
Depois da minha morte. Que bonito sonho! Depois de eu morrer ho-de
pegar-me nas botas! Falemos franco, ns que somos iniciados e que erguemos a
tnica de Isis. No h bem nem mal, h apenas vegetao. Procuremos a
realidade, cavemos at ao fundo, que diabo!  necessrio encontrar a verdade,
cavemos at encontr-la e tenhamos a certeza de que ela nos dar os mais
requintados prazeres e que far com que nos riamos do resto. Bem v que sou
quadrado na base. Senhor bispo, a imortalidade da alma no passa de um mito,
uma promessa encantadora e mais nada! Que felicidade ser filho de Ado! Ser
alma, ser anjo, ver-se a gente com asas azuis nas omoplatas, que deslumbrante
perspectiva! Vamos, senhor bispo, ajude-me a memria, no foi Tertuliano quem
disse que os bem-aventurados andaro de astro em astro? Ora a tem! Seremos os
gafanhotos das estrelas e ainda por cima gozaremos da presena de Deus. Que
patarata  toda esta coleco de parasos! Deus no passa de uma frioleira
monstruosa!
     Por certo que eu no ia agora pr-me a dizer isto nas colunas do Monitor,
mas aqui entre amigos inter pocula posso diz-lo. Sacrificar a terra pelo paraso 
largar a presa pela sombra!  extremamente estpido ser logrado pelo infinito. O
que sou eu seno uma poro do nada? Existia porventura antes de nascer? No.
Continuarei a existir depois de morto? No. O que sou ento? Um pouco de p
agregado por um organismo. Que devo fazer na terra? Posso escolher: sofrer ou
gozar. Aonde me conduzir o sofrimento? Ao nada. Mas terei sofrido. Aonde me
levar o gozo? Ao nada. Mas terei gozado. Assim, pois, a minha escolha est feita.
 indispensvel dominar ou ser dominado. Prefiro dominar!  prefervel ser
martelo a ser bigorna.  esta a minha teoria. No fim de tudo isto est o coveiro,
que  para ns o Pantheon e est tudo arrumado. Finis. Liquidao total. Some-se
tudo para nunca mais aparecer.
     Creia-me, a morte  a morte e, por mais que me digam, no posso deixar de
rir quando penso nela.  uma inveno de amas de crianas; para estas  o papo,
para os homens  Jeov! Alm do tmulo, h a igualdade do nada. Sardanapalo ou
Vicente de Paula, quem quer que tenhais sido, o mesmo nada vos caber em sorte.
Aqui est a verdade!
     Portanto, vivamos, d por onde der. Faamos uso do nosso eu, enquanto o
possumos.
     Repito-lhe, senhor bispo, tenho a minha filosofia e os meus filsofos e no me
deixo engrinaldar com patranhas. Todavia, alguma coisa ho-de ter os que
rastejam na lama, os ps-descalos, os miserveis. Do-se-lhe a engolir as lendas,
as quimeras, a alma, a imortalidade, o paraso, as estrelas. E eles l vo mastigando
tudo. Quem no tem nada, tem Deus. Pouco , mas valha-nos isso. Da minha
parte no lhe ponho obstculos, mas guardo Naigeon para mim. Quanto a Deus,
deixo-o ao povo.
     - Ora isso  que se chama falar! - exclamou o bispo, batendo as palmas. -
Excelente!  realmente maravilhoso o seu materialismo, senhor conde! Quem o
professa est livre de cair em logros; no se deixa desterrar estupidamente como
Cato, nem apedrejar como Santo Estvo, nem queimar vivo como Joana d'Arc!
     Quem consegue chegar a possuir to admirvel materialismo tem o prazer de
conseguir a irresponsabilidade e adquirir a convico de que tudo pode devorar
sem susto, empregos, sinecuras, dignidades, palindias lucra-tivas, traies teis,
saborosas capitulaes de conscincia e que descer ao tmulo, depois de bem
feita a digesto.
     Que agradvel coisa! Eu no digo isto por V. Ex., senhor senador. Todavia,
no posso deixar de lhe dar os parabns! Os fidalgos, como V. Ex. disse, tm uma
filosofia prpria, subtil, requintada, unicamente acessvel aos ricos, ptimo
condimento para guisar com todas as voluptuosidades da vida!  uma filosofia
desenterrada das profundidades por investigadores especiais. Porm, magnates de
bom corao, no levam a mal que a crena em Deus seja a filosofia do povo, do
mesmo modo, por assim dizer, como a aorda  o peru do pobre.



    IX
    O carcter do irmo descrito pela irm



     Para dar ideia mais perfeita da vida ntima do bispo de Digne e do modo
como as duas mulheres subordinavam os hbitos e intenes do prelado as suas
aces, pensamentos e at instintos de mulheres assustadias, sem que ele tivesse
sequer o trabalho de falar para as exprimir, nada melhor do que transcrever uma
carta escrita por Baptistina  viscondessa de Boischevron, sua amiga de infncia.

    Digne, 16 de Dezembro de 18...

     Minha querida amiga:
     No se passa um s dia em que no falemos a seu respeito. Isto  um hbito
antigo, mas, alm disso, h ainda outra razo. Imagine que a Magloire andando a
lavar e a limpar os tectos e as paredes da casa, fez uma grande descoberta; agora os
nossos quartos forrados de papel antigo e caiado por cima, no fariam m figura
num palcio do gnero do seu. Magloire rasgou todo o papel e encontrou por baixo
uma infinidade de coisas. A minha sala, que no tem mveis, e de que ns nos
servimos para estender roupa, tem quinze ps de altura e dezoito de largura. V-se
agora que o tecto foi forrado de lona, no tempo em que isto era hospital,
antigamente era pintado e dourado e tinha at trabalho de talha, enfim, um tecto 
antiga. Porm, o que  digno de se ver  o meu quarto. Por baixo de uma camada
muito densa de papis colados, Magloire descobriu vrias pinturas, as quais, sem
serem boas, so muito suportveis. Uma representa Telemaco a ser armado
cavaleiro por Minerva; outra representa-o nos jardins no sei de que... onde as
damas romanas s iam uma vez. Como lhe hei-de dizer tudo? Tenho romanos e
romanas (nesta passagem da carta h uma palavra ilegvel) e toda a sua comitiva.
     Magloire limpou e lavou tudo e este Vero, reparadas algumas pequenas
avarias, o meu quarto ficou um verdadeiro museu. Encontrou tambm num canto
do sto, duas consolas muito antigas.
     Pediram doze francos para as restaurar, mas  prefervel dar este dinheiro aos
pobres, porque, afinal de contas, so dois objectos muito feios, que eu de boa
vontade trocaria por uma mesa redonda de acaj.
     Eu continuo a ser muito feliz pela bondade de meu irmo. D tudo quanto tem
aos pobres e enfermos. Os Invernos aqui so muito rigorosos, de maneira que 
indispensvel fazer alguma coisa pelos infelizes. Ns vivemos muito apoquentados,
mas, graas a Deus, no temos falta de lenha nem de luz. Bem v que estas coisas
no so dadas a todos.
     Meu irmo est habituado a certas coisas e diz sempre que um bispo deve ser
como ele. Imagine que a porta da nossa casa nunca se fecha a chave. Meu irmo
no tem medo de nada, nem mesmo de noite. Segundo ele diz, um sacerdote no
deve ter medo.
     No quer que eu nem Magloire nos preocupemos por causa dele. Expe-se aos
maiores perigos e no podemos sequer demonstrar que isso nos assusta.  necessrio
saber compreend-lo.
     A chuva no o impede nunca de sair, chegando no Inverno a fazer longas
jornadas a p, debaixo de gua, sem temer as estradas nem recear qualquer mau
encontro.
     O ano passado fez uma das suas excurses a um lugar infestado de salteadores
e no quis que ns o acompanhssemos, demorando-se por l quinze dias. Quando
chegou a casa, sem que tivesse sofrido o menor incmodo e quando todos j o
julgavam morto, disseme: Aqui est como me roubaram!. E abriu uma grande
mala onde se encontravam todas as jias da catedral de Embrun e que os ladres
lhe tinham dado. Desta vez, mas de modo que ningum ouvisse, no pude deixar de
ralhar com ele.
     Ao princpio, assustava-me muito por ver como ele se metia aos perigos sem
tomar qualquer medida de precauo, mas depois fui-me habituando. Recomendo
sempre a Magloire que o no contrarie e que o deixe proceder como muito bem lhe
apraz. Nestas ocasies, retiro-me para o meu quarto, peo a Deus por ele e durmo
descansada. Sinto-me tranquila, porque sei que no resistiria se lhe sucedesse
alguma desgraa, iria reunir-me com meu irmo e meu bispo na presena de Deus.
     Magloire teve mais dificuldade do que eu em habituar-se ao que ela chamava
imprudncia do senhor bispo, mas, por fim, tambm se habituou. Oramos ambas,
assustadas s vezes, mas concludas as nossas oraes deitamo-nos e adormecemos.
Na nossa casa podia entrar o prprio diabo sem que ningum se lhe opusesse. Mas
no fim de tudo, que podemos ns recear? Temos sempre connosco o mais forte. O
diabo pode passar por ela, mas no entrar porque  habitada por Deus!
     E  quanto me basta para viver sossegada. Meu irmo agora nem precisa de
dizer-me a menor palavra. Sei o que ele quer, e entregamo-nos nas mos da
Providncia.
     Creio que no devo proceder de outro modo com um homem de inteligncia to
sublime.
     Obtive de meu irmo as informaes que a minha amiga pretendia
relativamente  famlia de Taux, porque bem sabe que ele ainda no perdeu os bons
sentimentos realistas que sempre teve, lembrando-se ainda de tudo. Efectivamente,
 uma antiqussima famlia da Bretanha. H quinhentos anos, j existiam um Raul
de Faux, um Joo de Faux e um Thomaz de Faux, todos fidalgos e um deles senhor
de Rochefort. O ltimo foi Guy Estvo Alexandre, mestre de campo e no sei o qu
na cavalaria ligeira da Bretanha. Sua filha, Maria Lusa, casou com Adriano Carlos
de Gramont, filho do duque de Gramont, par de Frana, coronel das guardas
francesas e tenente-general do exrcito. O nome desta famlia tem aparecido escrito
de trs modos: Faux, Fauq e Faouq.
     Minha boa amiga, peo-lhe que nos recomende nas oraes do seu santo
parente o senhor cardeal. Quanto  sua querida Silvana, tem feito muito bem em
no perder os curtos momentos que passa na sua companhia, para me escrever.
     Uma vez que ela tem sade, trabalha segundo os desejos da minha amiga e me
conserva a antiga afeio,  quanto desejo. Eu no passo mal, todavia, no sei
porqu, estou cada vez mais magra.
     Adeus. Est a acabar o papel, e por isso concluo, desejando-lhe todas as
venturas.

     Baptistina.
     P. S. O seu sobrinho est lindo como os anjos. Sabe que em breve vai fazer cinco
anos? Ontem, vendo passar um cavalo com umas Coelheiras, perguntou: O que
tem aquele cavalo nos joelhos?.  uma criana muito interessante. O irmo mais
novo, passa horas seguidas a brincar, arrastando um cestinho velho, a que chama a
sua carruagem.
     Como se v por esta carta, as duas mulheres sabiam afeioar-se ao modo de
viver do bispo, com o talento particular da mulher que melhor compreende o
homem do que ele prprio se compreende a si. O bispo de Digne sob o seu ar
prazenteiro e cndido, que nada era capaz de alterar, praticava s vezes coisas
sublimes, arrojadas e magnficas, com o modo mais natural e simples. As duas
mulheres tremiam de susto, mas no lhe opunham resistncia. Magloire arriscava
s vezes uma observao, mas antes ou depois, nunca na mesma ocasio. Nunca o
perturbavam na prtica de qualquer aco por uma palavra ou sequer por um
gesto. Em certos momentos, sem lhe ser necessrio a ele diz-lo nem se lembrar
talvez de o fazer, to completa era a sua simplicidade, conheciam elas vagamente
que ele procedia como bispo e ento eram apenas como que duas sombras,
divagando pela casa. Serviam-no passivamente e, se para obedecer fosse
necessrio desaparecer, desapareciam. Por uma admirvel delicadeza de instinto,
conheciam que h solicitudes que incomodam. Assim, ainda que o supusessem
em perigo, compreendiam-lhe, se no a inteno, pelo menos o gnio, a ponto de
no exercerem a menor vigilncia sobre ele. Deixavam-no entregue a Deus.
     Contudo, como acaba de ler-se, Baptistina dizia que a morte do irmo seria a
morte dela, e Magloire, posto no o dissesse, tambm o sabia.



    X
    O bispo em presena de uma luz desconhecida



     Em poca pouco posterior  data transcrita nas pginas precedentes, o
prelado fez uma coisa mais arriscada ainda, na opinio de toda a gente da cidade,
do que a jornada pela montanha infestada de salteadores.
     Havia nos arrabaldes de Digne um homem que vivia inteiramente isolado da
sociedade. Esse homem, de nome G..., pronunciemos sem a menor hesitao a
palavra terrvel, era um antigo membro da Conveno VI Nacional.
     Entre o povo de Digne, falava-se no convencional G..., com uma espcie de
terror. Um convencional! Algum faz ideia exacta do que  essa coisa que existia
no tempo em que todos se tratavam por tu e se chamavam uns aos outros
cidados?
     Esse homem era quase um monstro. No votara a morte do rei, mas pouco
menos. Era um meio-regicida, que fora heri do terror. Como fora possvel que
no estabelecimento dos prncipes legtimos, semelhante homem escapasse ao justo
castigo dos seus crimes? No queriam manchar as mos no sangue dele? Muito
bem. Mas deviam t-lo expulso, desterrado para toda a vida, dando assim um
exemplo, finalmente, etc., etc. Grasnar de gansos acerca do abutre.
     E seria realmente um abutre o convencional G...?
     Decerto, a julg-lo pela feroz solido em que vivia. No compreendido nos
decretos de desterro, por no ter votado a morte do rei, fora-lhe concedido residir
em Frana.
     Ali habitava, pois, a trs quartos de lgua da cidade, fora do povoado, longe
da estrada, no meio de um vale agreste, onde possua, segundo diziam, um
esconderijo.
     No tinha vizinhos e ningum passava por ali. O carreiro que, em tempo,
conduzia ao vale, desaparecera coberto pela erva, depois que ele para ali fora
residir. Falava-se daquele stio como da manso do carrasco.
     Todavia, o bispo lembrava-se dele, e de tempos a tempos, olhando para o
horizonte, na direco em que uma moita indicava o vale do antigo convencional,
dizia para consigo:
     H ali uma alma que vive isolada.
     E, no fundo do seu pensamento, acrescentava: O meu dever  ir visit-la.
     Todavia, cumpre confess-lo, tal ideia,  primeira vista muito natural, aps
um momento de reflexo, apresentava-se-lhe como estranha, impossvel e quase
repulsiva, pois no seu ntimo participava da impresso geral, inspirando-lhe o
homem, sem ele mesmo ter perfeita conscincia disso, esse sentimento que
defronta com o dio, to bem expresso pela palavra repulso.
     Contudo, deve o pastor fugir da ovelha sarnenta?
     No. Mas que ovelha era aquela!
     O bondoso bispo sentia-se perplexo. Algumas vezes foi at meio do caminho
e voltou sempre para trs.
     Um dia, espalhou-se na cidade a notcia de que um rapazinho que estava
como criado do convencional, viera  cidade em busca de um mdico para ir ver o
celerado ao seu covil, o qual acometido por um ataque apopltico, estava
moribundo, a tal ponto que se receava no passasse daquela noite.
     - Graas a Deus! - exclamaram alguns.
     O bispo pegou na bengala, cobriu-se com o capote, no s por causa do mau
estado da batina, como tambm pela aragem fresca da noite, que no tardaria a
levantar-se e saiu.
     Declinava o sol, quase a ponto de esconder-se, quando o bispo chegou ao
lugar excomungado. Ao ver-se prximo do covil, o corao bateu-lhe em
sobressalto. Saltou um valado, transps uma sebe, deu alguns passos
resolutamente e, de repente, descobriu o esconderijo oculto por um matagal, no
fundo do baldio.
     Era uma pequena cabana, de aspecto pobre, mas aprazvel e asseada, com
toda a parte da frente coberta por uma ramada.
     A entrada da porta, numa velha cadeira de rodas, estava sentado um homem
de cabelos brancos e que parecia sorrir-se para os ltimos raios de sol.
     Junto do velho sentado, encontrava-se de p um rapazito, tipo de pastor,
apresentando-lhe uma tigela de leite.
     Estava ainda o bispo a contemplar este quadro, quando ouviu a voz do velho
que dizia:
     - Obrigado, j no preciso de nada!
     E desfitou os olhos do sol para os fixar, sorrindo, no rapazinho.
     O bispo adiantou-se. Ao rudo dos seus passos, o velho voltou a cabea,
exprimindo na fisionomia a surpresa que se pode experimentar depois de to
prolongada existncia.
     - Desde que aqui estou  esta a primeira vez que algum vem a minha casa -
disse ele. - Quem  o senhor?
     - Chamo-me Bemvindo Myriel - respondeu o bispo.
     - Bemvindo Myriel... J ouvi esse nome. No  ao senhor que o povo chama
Monsenhor Bemvindo?
     - Exactamente.
     O velho prosseguiu com ligeiro sorriso:
     - Visto isso,  o meu bispo.
     - Creio que sim.
     - Tenha a bondade de entrar.
     O convencional estendeu a mo ao prelado, mas este fingiu no perceber e
limitou-se a dizer:
     - Vejo com prazer que me enganaram, visto realmente no parecer muito
doente.
     - Espero dentro em pouco ficar restabelecido - respondeu o velho.
     E, aps uma curta pausa, acrescentou:
     - No viverei mais de trs horas.
     O bispo fitou-o, admirado, e ele continuou:
     - Tenho alguns conhecimentos de medicina, por isso conheo os sintomas da
morte. Ontem tinha apenas os ps frios; hoje tenho tambm os joelhos e sinto que
o frio me vai subindo para o meio do corpo; quando chegar ao corao, deixarei o
mundo. A vista do sol  um belo espectculo, no acha? Pedi que me trouxessem
c para fora porque queria v-lo pela ltima vez. O senhor pode conversar, no
me incomoda. Fez muito bem em vir assistir  morte de um homem.  bom que
esse momento tenha testemunhas. Cada qual tem a sua mania, desejava viver at
ao romper da aurora, mas sei que s me restam trs horas para viver. Morrerei de
noite, mas, no fim, que importa isso? Acabar  uma coisa simples. No se necessita
de dia para morrer.
     Pacincia, morrerei  luz das estrelas.
     E, voltando-se para o rapazinho, disselhe:
     - Vai descansar. Passaste a noite em claro, deves estar fatigado.
     O rapazinho retirou-se e o velho, seguindo-o com a vista, acrescentou, como
falando consigo mesmo:
     - Quando eu morrer, estar ele a dormir. So dois sonos que no se
estorvaro.
     O bispo no estava comovido, como parece que deveria estar. No julgava
pressentir a presena de Deus naquele modo de morrer; digamos tudo porque as
pequenas contradies das grandes almas devem ser apontadas como tudo o mais,
ele que, sempre que se oferecia ocasio, ria jovialmente quando lhe davam o
tratamento de Vossa Grandeza, sentiu-se um tanto ressentido de no ser tratado
por Monsenhor, e esteve quase tentado a replicar:
     - Cidado!
     Acometera-o uma veleidade de caprichosa familiaridade, muito vulgar nos
mdicos e nos padres, mas que nele no era natural.
     Pela primeira vez na sua vida, talvez, o bispo sentiu-se com severa disposio
de esprito contra aquele homem que, apesar de convencional, de representante
do povo, tinha sido um poderoso na terra.
     Ao mesmo tempo que o convencional o contemplava com ar de modesta
cordialidade, a que talvez no era de todo estranha a humildade prpria do
homem que sente aproximar-se o fim.
     O bispo, posto que fosse habitualmente pouco curioso, porque, no seu
entender, a curiosidade vive paredes meias com a ofensa, no se podia coibir de o
examinar atentamente porque, por no provir de um sentimento de simpatia, a
sua conscincia lhe haveria decerto exprobrado, se tivesse lugar para com outro
qualquer homem No seu entender, porm, um convencional estava fora de todas
as leis, mesmo da lei da caridade.
     G..., com o seu aspecto sereno e firme, a voz vibrante e grave, era um
octogenrio dos que causam admirao ao fisiologista.
     A revoluo foi frtil nesses homens proporcionados  poca.
     Conhecia-se naquele velho o homem de aco, que to prximo da morte,
conservava ainda todos os movimentos de sade. Na sua vista segura, na voz
firme, no robusto movimento dos ombros, parecia haver ainda energia de sobejo
para repelir a morte. Azrael, o anjo maometano do sepulcro, teria retrocedido,
julgando-se enganado na porta. Aquele homem parecia morrer voluntariamente.
A sua agonia parecia um acto espontneo. S as pernas tinham perdido o
movimento, como se fosse por elas que a morte o tivesse agarrado. Os ps
jaziam-lhe mortos e frios, mas a cabea respirava-lhe toda a seiva da vida e parecia
em perfeita lucidez. Naquele grave momento, G... assemelhava-se ao rei do conto
oriental, cuja parte superior do corpo era de carne e a inferior de mrmore.
     O bispo sentou-se numa pedra que viu prxima de si e principiou. O seu
exrdio foi um ex-abrupto.
     - Felicito-o - disse ele em tom de exprobrao. - Creio que nem sempre votou
a morte do rei.
     O convencional pareceu no reparar no sentido oculto da palavra sempre e
respondeu com a maior seriedade:
     - No me felicite, porque o que eu votei foi o fim do tirano.
     Era a voz austera em presena da severidade.
     - No percebo o que quer dizer - tornou o bispo.
     - Quero dizer que o tirano do homem  a ignorncia, e que foi a sua morte o
que eu votei. Foi esse tirano o autor da realeza, que  a autoridade tomada de
ideias falsas, enquanto a cincia  a autoridade tomada da verdade das coisas, O
homem s pela cincia deve ser governado.
     -  pela conscincia - acrescentou o bispo.
     -  a mesma coisa. A conscincia no  mais do que a quantidade de cincia
inata que possumos.
     O bispo escutava, tomado de admirao, aquela linguagem inteiramente nova
para ele.
     O convencional prosseguiu:
     - Quanto a Lus XVI, votei contra a morte dele. No me julgo com direito de
matar um homem, mas tenho o dever de exterminar o mal. Por isso votei o fim do
tirano, isto , o fim da prostituio para a mulher, o da escravido para o homem,
o das trevas para a criana. Votei isto, votando a repblica. Votei a fraternidade, a
concrdia, a aurora. Trabalhei na queda dos erros e dos preconceitos, de cujo
desmoronamento resulta sempre a luz. Fizemos cair a sociedade velha, vaso de
misrias, que, ao derramar-se sobre o gnero humano, se converteu em uma de
felicidade!
      - Felicidade amarga! retorquiu o bispo.
      - Pode dizer felicidade perturbada; e hoje, depois desse fatal restabelecimento
do passado chamado 1814, felicidade desaparecida. Desgraadamente, reconheo,
a obra ficou incompleta; demolimos o antigo regime nos factos, mas no pudemos
extermin-lo inteiramente nas ideias No basta destruir os abusos,  necessrio
modificar os costumes. Destruiu-se o moinho, mas ainda ficou o vento.
      - Demolir pode ser que seja til, mas desconfio sempre de demolies em que
entra a clera.
      - O direito tem tambm a sua clera, senhor bispo, e a clera do direito  um
elemento do progresso. Assim, digam o que disserem, a revoluo francesa foi o
maior passo que a humanidade tem dado depois do aparecimento de Cristo.
Incompleta, concordo, mas sublime. Resolveu todas as incgnitas sociais,
suavizou os espritos, acalmou, pacificou, esclareceu; inundou a terra das ondas da
civilizao. Foi portanto boa! A revoluo francesa foi a santificao da
humanidade O bispo no pde conter-se e retorquiu:
      - Sim? e 1793?
      O convencional endireitou-se na cadeira com solenidade quase lgubre e
exclamou com toda a energia possvel a um moribundo:
      - A vem com 1793! J estava  espera disso! H mil e quinhentos anos
principiou a formar-se uma nuvem que, ao cabo de quinze sculos, rebentou. E o
senhor vem acusar o raio!
      Apesar de tentar encobri-lo a si prprio, o bispo sentiu-se ferido, porm,
respondeu, aparentando indiferena:
      - O juiz fala em nome da justia e o sacerdote em nome da religio, que  uma
justia mais elevada. O raio no deve enganar-se.
      E olhando fixamente para o convencional, acrescentou:
      - E Lus XVII?
      - Lus XVII? Ora vejamos. Quem  que o senhor lastima?  a criana
inocente?
      Nesse caso, estamos de acordo, porque choro com o senhor.  a criana real?
Peo que me deixe reflectir. Para mim, o irmo de Cartouche, menino inocente,
atado  fora por baixo dos braos e suspenso at o fazerem morrer, s pelo crime
de ser irmo de Cartouche, no  facto menos doloroso do que o martrio porque
passou o neto de Lus XV na torre do Templo, s pelo facto de ser neto de Lus
XV.
      - Eu  que no posso aceitar a aproximao de semelhantes nomes - disse o
bispo.
      - Mas, por qual dos dois reclama? Por Cartouche ou por Lus XVII?
      Seguiu-se um momento de silncio. O bispo quase se arrependia de ter ido
ali, porque se sentia estranhamente impressionado.
      O convencional prosseguiu:
      - Vejo que no gosta do rigor da verdade, senhor padre! Gostava Cristo, que
pegava numa vara e varria o templo. O seu azorrague cheio de relmpagos dizia
bem rudes verdades. Quando exclamava: Sinite, prvulas, no fazia distino entre
as crianas. No teria escrpulo de juntar o filho de Barrabs com o filho de
Herodes. O tratamento de Alteza no serve de nada  inocncia, porque to
augusta  coberta de andrajos como quando adornada de arminhos!
      -  exacto - disse o bispo em voz baixa.
      - Insisto, pois, na minha opinio - continuou o convencional. - Falou-se em
Lus XVII, entendamo-nos, portanto. Devemos chorar sobre todos os inocentes,
sobre todos os mrtires, sobre todas as crianas, sejam filhos do povo, sejam filhos
do rei? De acordo. Mas ento, repito,  necessrio retroceder muito alm de 1793,
porque  antes de Lus XVII que as lgrimas devem comear a ser derramadas.
Estou pronto a chorar com o senhor os filhos dos reis, contando que o senhor
chore comigo, os filhos do povo!
      - Eu choro por todos - disse o bispo.
      - Igualmente! - exclamou G... - Mas se a balana deve inclinar para alguma
parte, que seja antes para o lado dos filhos do povo, porque h mais tempo que
sofrem!
      Seguiu-se nova pausa, a qual foi interrompida pelo convencional. Firmou-se
num dos cotovelos, apertou entre o polegar e o ndice dobrado a pele da cara, com
o gesto maquinal de quem interroga ou reflecte, e fitou no bispo um olhar
perscrutador, que respirava toda a energia da agonia. Foi quase uma exploso.
      - Sim, senhor bispo, h muito que o povo sofre! Mas faa o favor de dizer-me:
O que pretendia ao vir interrogar-me e falar-me sobre Lus XVII, o senhor, a
quem eu nem sequer conheo? Desde que resido nesta terra, tenho vivido sempre
aqui encerrado, sem companhia, sem ver ningum, alm desse rapazinho que me
tem servido. O seu nome,  verdade que o ouvi por duas ou trs vezes e, devo
diz-lo, pronunciado com respeito, mas isso nada quer dizer; os homens
astuciosos sabem perfeitamente como se lana poeira nos olhos do povo. 
verdade, eu no ouvi o rudo da sua carruagem; deixou-a decerto oculta no
arvoredo,  entrada do caminho que conduz aqui? Repito-lhe, no o conheo,
disseme que era o bispo, mas isso nada me adianta no conhecimento das suas
qualidades morais. Em suma, o senhor  um bispo, quer dizer, um prncipe da
Igreja, um desses homens que se cobrem de oiro e arminhos, vivem no fausto e
nos regalos, cobram boas rendas, disfrutam bispados: por exemplo, o de Digne
que tem de renda fixa quinze mil francos e dez mil de emolumentos, soma vinte e
cinco mil francos:  um desses homens que tm lacaios, mesa lauta, onde 
sexta-feira se serve o melhor peixe; que rodeados de criados se pavoneiam em
coches de gala e habitam palcios, tudo em nome de Jesus Cristo, que andava
descalo! O senhor  um prelado, quer dizer, um homem com rendimentos,
palcios, cavalos, lacaios, boa mesa, todas as sensualidades da vida, enfim, que
possui como os outros e das quais como qualquer outro goza. Est muito bem,
mas isso diz mais ou menos que o suficiente; no me esclarece sobre o seu valor
intrnseco, essencial para quem, como o senhor, talvez, vem aqui com o intuito de
me dar sabedoria e luz? com quem estou a falar? Quem  o senhor?
     O bispo inclinou a cabea e respondeu:
     - Vermis sum.
     - Um verme de carruagem! - murmurou o convencional.
     Chegara a sua vez de se mostrar altivo e o bispo humilde.
     - Pois seja assim! - replicou o bispo suavemente. Mas explique-me de que
modo prova a minha carruagem, que deixei oculta entre o arvoredo, a minha boa
mesa, o peixe que nela se serve  sexta-feira, o meu rendimento de vinte e cinco
mil francos, o meu palcio e os meus lacaios, como  que tudo isto prova no ser a
piedade uma virtude, a clemncia um dever e que 1793 no foi inexorvel?
     O convencional passou a mo pela fronte como que para afastar um
pensamento e em seguida disse:
     - Antes de lhe responder, peo-lhe que me perdoe a falta que cometi. O
senhor est em minha casa,  meu hspede, devo trat-lo com cortesia. Discute as
minhas ideias, devo limitar-me a combater os seus raciocnios. As suas riquezas,
os seus gozos so outras tantas vantagens que eu tenho a meu favor no debate,
mas de que parece mal servir-me Prometo, portanto, no o tornar a fazer.
     - Agradeo-lhe a inteno - disse o bispo.
     G... continuou:
     - Voltemos  explicao que me pediu. Em que ponto estvamos? Dizia-me,
se bem me lembro, que 1793 foi inexorvel.
     - Inexorvel, isso mesmo! - repetiu o bispo.  Que ideia faz de Marat batendo
as palmas em frente da guilhotina?
     - Que ideia faz de Bossuet entoando um Te-Deum, depois das dragonadas?
     A resposta era cruel, mas foi direita ao alvo com a rigidez de uma ponta de
ao.
     O bispo estremeceu e emudeceu, mas sentiu-se ofendido ao ouvir citar
Bossuet de semelhante modo. Os espritos mais esclarecidos tm os seus dolos e
s vezes como que se agastam com os desacatos da lgica.
     O convencional principiava a respirar com dificuldade, a asma da agonia
entrecortava-lhe j a voz; todavia, notava-se-lhe ainda nos olhos perfeita lucidez
da alma e prosseguiu:
     - Digamos ainda algumas palavras sobre o assunto, que desejo imenso.
Tirando a revoluo, que, tomada em geral, foi uma grande afirmativa humana,
1793  uma rplica. O senhor acha-a inexorvel, mas que tem sido a monarquia?
Carrier  um facnora, mas que nome d a Montrevel? Fouquier-Finville  um
miservel, mas que conceito forma de Lamoignon Bville? Maillard  uma criatura
repugnante, mas que diz de Saulx Tavannes? O padre Duchesne  um homem
feroz, mas que epteto acha o senhor que merece o padre Letellier?
Jourdan-Coup-Tte  um monstro, mas muito menos hediondo do que o marqus
de Louroisbisp. Lamento Maria Antonieta, arquiduquesa e rainha, mas lamento
tambm aquela pobre mulher huguenote, que em 1685, no reinado de Lus o
Grande, foi atada a um poste, nua at  cintura, com o filhinho que amamentava
abandonado a alguma distncia; o seio transbordava-lhe de leite e o corao de
angstia; a infeliz criancinha, esfomeada e plida, agonizava e gritava, sem poder
colar os lbios naquele seio, e o algoz dizia  infeliz me: Abjura!, dando-lhe a
escolher entre a morte do filho e a da conscincia. Que lhe parece este suplcio de
Tntalo acomodado a uma pobre me? Creia, senhor bispo, a revoluo francesa
teve as suas razes. A sua ira h-de encontrar absolvio no futuro. O resultado
dela ser um mundo melhor. Os seus golpes mais terrveis escondem um afago ao
gnero humano. Mas no posso mais... fiz o meu... dever... a morte avizinha-se.
     E, desfitando os olhos do bispo, concluiu o seu pensamento nestas poucas
palavras:
     - As brutalidades do progresso chamam-se revolues! Depois delas
terminadas todos reconhecem que o gnero humano foi severamente maltratado,
mas que deu alguns passos em frente!
     Mal suspeitava o convencional que, uns aps outros, acabava de derrubar
todos os redutos do esprito do bispo. Todavia, ainda um ficava de p, e dele,
supremo recurso da resistncia de Monsenhor Bemvindo, saram estas palavras,
que deixava de novo transparecer toda a severidade de h pouco:
     - O progresso deve crer em Deus. O bem no pode ter por servidora a
impiedade.
     Mal vai ao gnero humano, se o atesmo  seu guia!
     O antigo representante do povo no respondeu. Sentiu um estremecimento,
fitou os olhos no cu e duas lgrimas lhe deslizaram pelas faces lvidas. Depois,
lentamente, em voz baixa, como que falando consigo mesmo, murmurou:
     - S tu,  ideal, s tu existes!
     O bispo sentiu uma inexplicvel comoo.
     Depois de alguns instantes de silncio, o convencional ergueu um dedo para o
cu, dizendo:
     - O infinito existe, est bem! Se o infinito no tivesse um eu, o eu seria o seu
limite e, portanto, no seria infinito, ou, por outras palavras, no existiria. Ora ele
existe. Logo tem um eu. O eu do infinito  Deus!
     Estas palavras foram proferidas em voz alta pelo moribundo, com o
estremecimento do xtase, como se estivesse vendo alguma coisa extraordinria.
Apenas acabou de falar, fechou os olhos. O esforo que fizera extenuara-o. Era
evidente que aquele homem acabava de viver num minuto as poucas horas que lhe
restavam de vida. Chegara, enfim, o momento supremo.
     O bispo compreendeu-o, compreendeu toda a urgncia da ocasio e que fora
ali como sacerdote. Passando ento gradualmente do extremo da frieza  extrema
comoo, contemplou aqueles olhos fechados, pegou na mo inerte e gelada do
moribundo, dizendo-lhe:
     - Esta hora pertence a Deus! No acha que seria para lamentar que o nosso
encontro no tivesse resultado?
     A estas palavras, o convencional reabriu os olhos com aspecto de sombria
gravidade.
     - Senhor bispo - disse ele com lentido, procedida talvez mais da dignidade de
alma do que da falta de foras -, tenho passado a minha vida na medi-tao, no
estudo e na contemplao. Tinha sessenta anos quando fui chamado pelo meu
pas, para tomar parte na direco dos seus negcios. Obedeci. Combati os abusos
que nele se davam; havia tiranias, destru-as; havia direitos e princpios,
proclamei-os e professei-os. O territrio estava invadido, defendi-o; a Frana
estava ameaada, ofereci-lhe o meu sangue. No era rico e fiquei pobre. Fui um
dos senhores do Estado; os subterrneos do Banco encontravam-se atulhados de
dinheiro, a ponto de ser preciso escorar as paredes para no abaterem com o peso
do oiro e da prata, e eu ia comer todos os dias a uma hospedaria da rua de
l'Abre-Sec, onde se jantava por vinte e dois sous. Socorri os oprimidos, protegi os
que sofriam. Rasguei as toalhas dos altares,  verdade, mas foi para ligar as feridas
da ptria. Sustentei sempre o progresso da humanidade para a luz e opus-me
algumas vezes ao progresso inexorvel. Protegi sempre que me foi possvel os
meus prprios adversrios; haja em vista o convento de urbanistas chamado de
Santa Clara, situado no lugar de Petegben, na Flandres, exactamente onde os reis
merovngios possuam o seu palcio de Vero, que eu salvei em 1793. Cumpri
com o meu dever at onde pude e fiz o bem que me foi possvel. No fim de tudo
isto, fui expulso, perseguido, escar-necido, conspurcado, amaldioado, proscrito.
Passados j tantos anos e apesar dos meus cabelos brancos, muita gente se julga
ainda com direito de me desprezar; para a multido ignorante tenho rosto de
condenado e eu resigno-me sem dio ao isolamento do dio. Agora, com oitenta e
seis anos, vou morrer. Que pretende o senhor de mim?
     - A sua bno - disse o bispo, ajoelhando.
     Quando o prelado ergueu a cabea, sentiu-se impressionado pela augusta
expresso do convencional.
     Aquele homem sublime havia expirado.
     O bispo regressou a casa profundamente absorto nos seus pensamentos.
Aquela noite passou-a a orar. No dia seguinte, alguns curiosos tentaram falar-lhe
no convencional G...; o bispo, por nica resposta, limitou-se a apontar-lhes para
o cu. De ento em diante, o prelado redobrou de afecto e comiserao para com
os pequenos e os desvalidos.
     A menor aluso ao velho celerado G..., fazia-o cair em profunda
medi-tao.
     Ningum podia negar que a passagem daquele esprito pela frente do seu e
que o reflexo daquela grande conscincia sobre a sua, tinham contribudo para o
aproximar da perfeio.
     Como era de esperar, a visita pastoral ao antigo membro da Conveno,
deu que falar durante algum tempo aos ociosos da terra.
     -  porventura  cabeceira de tal moribundo o lugar de um bispo? Era
evidente no haver ali a esperana de converso; todos os revolucionrios so
relapsos. Para que foi l o bispo? Que tinha a fazer em semelhante lugar? Sempre
era preciso estar com muita vontade de ver como o diabo levava uma alma!
     Certa ocasio, uma senhora j idosa, pertencente  classe que se julga
espirituosa, disselhe:
     - Andam todos ansiosos por saber quando recebe Vossa Grandeza o barrete
vermelho.
     -  uma cor muito viva - respondeu o bispo. - Felizmente, os que a desprezam
nos barretes, veneram-na nos chapus.



    XI
    Restrio



     Seria erro concluir do que temos dito, que Monsenhor Bemvindo fosse um
bispo filsofo ou sacerdote patriota. O seu encontro, a que se poderia chamar
aliana, com o convencional G..., deixara-lhe apenas certo respeito pelas
desgraas alheias, respeito que o tornara mais afectuoso ainda.
     Apesar de Monsenhor Bemvindo no se ter dado nunca  poltica, vem a
propsito indicar aqui, ainda que resumidamente, qual a sua atitude nos
acontecimentos daquela poca, se  que pelo esprito do bispo passou algum dia a
lembrana de tomar tal atitude.
     Voltemos, pois, alguns anos atrs.
     Pouco tempo depois da elevao de Myriel ao episcopado, nomeou-o o
imperador baro do imprio, bem como a vrios outros bispos. Por ocasio da
priso do Papa, na noite de 5 para 6 de Julho de 1809, Myriel foi convidado por
Napoleo a tomar parte no snodo dos bispos de Frana e de Itlia convocado em
Paris. O snodo efectuou-se na igreja de Nossa Senhora, reunindo-se a primeira
vez a 15 de Junho de 1811, sob a presidncia do cardeal Fesch. Myriel foi um dos
noventa e cinco bispos que concorreram, porm, no assistiu seno a uma sesso e
a trs ou quatro conferncias particulares. Bispo de uma diocese montanhesa,
vivendo pobre e rusticamente no meio da natureza agreste, parece que levara ao
centro daqueles eminentes personagens ideias que alteravam a temperatura da
assembleia. Regressou, pois, a Digne, onde, sendo interrogado sobre o motivo do
seu breve regresso, respondeu:
     - Eu incomodava-os l. A minha presena era para eles, por assim dizer, uma
porta aberta pela qual lhes entrava o ar exterior.
     Noutra ocasio, disse ainda:
     - Ento que querem? Aqueles senhores so prncipes e eu no passo de um
pobre bispo aldeo.
     O facto  que Myriel no fora bem recebido. Entre outras coisas singulares
parece que, certo dia, encontrando-se em casa de um dos seus colegas mais
qualificados, dissera irreflectidamente:
     - Que lindos relgios! Que lindos tapetes! Que vistosas librs! Isto deve ser
tudo muito importuno! Nunca consentiria que tais superfluidades me estivessem
constantemente a ofender a vista, quando h tanta gente a morrer de fome e de
frio. O dio ao luxo, seja dito de passagem, no seria dio inteligente, porque
traria consigo a decadncia das artes. Todavia, entre os ministros da igreja, o luxo,
a no ser em casos de representao ou ocasio de cerimnias, no deve ter
cabimento, porque parece revelar hbitos na realidade pouco caritativos. Um
sacerdote opulento  um contra-senso. O dever do padre  velar junto dos pobres.
Ser possvel que o sacerdote possa estar em contnuo contacto com toda a espcie
de privaes, de infortnios e indigncias, sem ter sobre si prprio  semelhana
do p do trabalho, uma poro diminuta dessa santa misria? Pode conceber-se
que um homem colocado junto de um fogareiro no tenha calor?  crvel que um
operrio que lida continuamente com uma fornalha no tenha nem um s cabelo
crestado, nem uma unha enegrecida, nem uma baga de suor na testa, nem uma
farrusca de carvo no rosto? A prova mais concludente de caridade no padre e
sobretudo no bispo,  a pobreza.
     Era isto, sem dvida, o que pensava o bispo de Digne.
     No se creia, porm, que Myriel sobre certos pontos delicados participasse do
que ns chamamos ideias do sculo. Intrometia-se pouco nas questes
teolgicas da poca e no emitia opinio sobre as questes vitais da Igreja e do
Estado; mas, se o apertassem muito, veriam que tinha mais de ultramontano do
que de galicano. Visto que fazemos um retrato e nada desejamos ocultar, somos
obrigados a acrescentar que a decadncia de Napoleo foi totalmente indiferente
para o bispo. Desde 1813 por diante, aderiu ou aplaudiu todas as manifes-taes
hostis contra o imperador, levando o extremo a no querer ir visit-lo na ocasio
do seu regresso da ilha de Elba e abstendo-se de ordenar na sua diocese preces
pblicas a favor dele por ocasio dos Cem Dias.
     Alm de sua irm Baptistina, o bispo tinha dois irmos, um general e outro
prefeito, aos quais escrevia com frequncia. Durante algum tempo mostrou-se
severo para com o primeiro, porque, tendo o general um comando na Provena,
na ocasio do desembarque em Cannes, se colocara  frente de mil e duzentos
homens e perseguira o imperador mais como quem queria deix-lo fugir do que
alcan-lo.
     Monsenhor Bemvindo, teve, pois, tambm, a sua hora de esprito de partido,
a sua nuvem, a sua hora de animosidade, em que a sombra das paixes da poca
perpassou por aquele grande e sereno esprito ocupado das coisas eternas. Tal
homem, merecia, decerto, ser isento de opinies polticas. Mas  necessrio no se
interpretar mal o nosso pensamento: no confundimos aquilo a que chamam
opinies polticas, com a grande aspirao ao progresso, com a sublime f
patritica, democrtica e humanitria, que hoje em dia deve constituir a essncia
de qualquer inteligncia generosa. Sem aprofundar as questes que s
indirectamente se ligam com o assunto deste livro, diremos apenas: seria para
desejar que o bondoso bispo nunca fosse realista nem que o seu olhar jamais se
desviasse um s instante da serena contemplao em que, acima das fices e dos
dios deste mundo, acima deste tempestuoso vaivm das coisas humanas, se v
distintamente fulgurar a luz da verdade, da justia e da caridade Embora
reconheamos que no foi para uma misso poltica que Deus criara o bispo
Myriel, compreenderamos e admiraramos o seu proceder, se ele em nome do
direito e da liberdade, protestasse e opusesse firme, vigorosa e justa resistncia
contra Napoleo no tempo da sua omnipotncia. Todavia, o que nos agradava ver
praticar contra os que sobem, desagrada-nos v-lo praticar contra os que descem,
porque no gostamos de combate seno quando nele h perigo, e porque, para
ns, seja no que for, os combatentes no princpio, so os nicos com direito de
serem exterminadores no fim. Quem no foi acusa-dor acrrimo enquanto durou
a prosperidade, deve calar-se na presena da decadncia. O denunciante da
vitria,  o nico justiceiro legtimo da derrota. Quanto a ns, quando vemos que
a obra  da Providncia no nos introme-temos.
     Em 1812 principimos a sentir-nos desarmados Em 1813, o cobarde
rompi-mento do silncio desse taciturno corpo legislativo que criou nimo com as
catstrofes, s merecia indignao; aplaudir seria um erro; em 1814, na presena
desses marechais traidores, desse senado que caa de um para outro lado,
insultando agora o que tinha divinizado, na presena da idolatria que
abando-nara o templo cuspindo no dolo, era dever desviar a vista; em 1815,
quando se preparavam grandes catstrofes, a cuja aproximao a Frana j
estremecia; quando j vagamente comeava a distinguir-se Waterloo desenrolado
ante Napoleo, a dolorosa aclamao com que o exrcito e o povo saudava o
condenado do destino nada tinha de risvel e, salva qualquer reserva quanto ao
dspota, um corao como o do bispo de Digne no devia talvez desconhecer
quanto havia de augusto e de enternecedor no estreito abrao de uma grande
nao e de um grande homem,  beira do abismo.
     Exceptuando isto, o bispo Myriel era e foi em todas as circunstncias, justo,
verdadeiro, equitativo, inteligente, humano e digno; benfico e benevo-lente, o
que  ainda outra espcie de beneficncia. Era um sacerdote, um sbio e um
homem. At mesmo, devemos confess-lo, na opinio poltica que acabamos de
exprobar-lhe e que estamos dispostos a julgar quase severamente, era tolerante e
condescendente, talvez mais do que ns.
     Havia na cmara um porteiro, ali colocado por Napoleo.
     Fora sargento da antiga guarda, legionrio de Austerlitz, to bonapartista
como a guia do estandarte imperial. s vezes, irreflectidamente, o pobre homem
proferia palavras que a lei, naquela poca, qualificava de sediciosas: Desde que o
perfil imperial desaparecera da cruz da Legio de Honra, nunca mais se vestira 
ordenana, como ele dizia, para no se ver obrigado a pr a sua condecorao.
Tirara devotadamente a efgie imperial da cruz que Napoleo lhe dera, no
querendo pr coisa alguma no lugar dela.
     - Antes morrer - dizia ele - do que trazer trs sapos no corao!
     Frequentes vezes e em voz alta costumava motejar de Lus XVIII.
     - Velho gotoso com polainas de ingls!  melhor que volte para a Prssia com
as suas barbas de bode! - dizia ele, reunindo com grande prazer na mesma
imprecao as duas coisas que mais odiava, a Prssia e a Inglaterra.
     Tantas coisas deste gnero proferiu que perdeu o emprego. Achou-se de
repente desempregado, sem po para si, para a mulher e para os filhos. O bispo,
sabendo isto, mandou-o chamar e, repreendendo-o brandamente, nomeou-o
porteiro da catedral.
     Em nove anos, a poder de aces piedosas e maneiras afveis, o bispo Myriel
granjeara na cidade de Digne uma espcie de afectuosa e filial vene-rao. O seu
procedimento para com o imperador foi-lhe como que tacitamente perdoado pelo
povo, bom e fraco rebanho que, se idolatrava o seu imperador, tambm amava o
seu bispo.
    XII
    Solido de Monsenhor Bemvindo



     H quase sempre em torno de um bispo to grande quantidade de clrigos
como de oficiais em volta de um general. Todas as carreiras tm seus aspirantes,
que fazem a corte aos que se encontram colocados nos lugares superiores. No h
potncia que no tenha seu squito, nem fortuna que no tenha seu cortejo. Em
torno do presente esplndido volteiam os especuladores do futuro. Toda a
metrpole tem o seu estado-maior. Todo o bispo influente  cercado por um
esquadro de querubins seminaristas, que guarda e mantm a boa ordem no pao
episcopal e faz sentinela em torno do prelado. Possuir as suas boas graas  meio
caminho andado para um sub-diaconato.
     Cada um faz o que pode para adiantar-se e o apostolado no desdenha o
canonicato.
     Do mesmo modo que h grandes influentes na poltica, assim h grandes
influentes na igreja. So os bispos bem aceites no mundo social, ricos,
disfruta-dores de boas rendas, hbeis, que decerto sabem rezar, mas que tambm
sabem solicitar, pouco escrupulosos em fazer esperar na sua antecmara uma
diocese inteira, traos de unio entre a sacristia e a diplomacia, mais abades do
que padres, mais prelados do que bispos. Felizes dos que se lhes aproximam!
Homens de valimento incontroverso, fazem chover em torno de si, sobre os
pretendentes seus apaniguados e sobre toda essa multido de jovens que lhes
sabem agradar os benefcios rendosos, as prebendas, as capelanias e as funes nas
catedrais, enquanto esperam as dignidades episcopais.  proporo que eles
avanam, adiantam-se tambm os seus satlites;  um completo sistema solar em
movimento. com o seu prprio esplendor purpureiam os que lhe ficam atrs. A
sua prosperidade traduz-se, para os que os rodeiam, em propores de pequeno
vulto, porm ainda importantes. Quanto mais rendosa for a diocese para o
patrono, tanto melhor ser a abadia para o valido. E, depois, l est Roma. Um
bispo que sabe fazer-se arcebispo, um arcebispo que sabe chegar a cardeal, leva
consigo o valido como conclavista, mete-o a caminho, e em pouco tempo ei-lo
auditor, ei-lo camareiro, ei-lo monsenhor; da Grandeza  Eminncia dista apenas
um passo e entre a Eminncia e a Santidade h somente o fumo de um escrutnio.
     No h solidu que no sonhe com a tiara.
     Hoje em dia o padre  o nico homem que regularmente pode chegar a rei; e
que rei!, rei supremo. Por isso, que viveiro de aspiraes no  um seminrio!
Quantos meninos de coro, quantos seminaristas no trazem  cabea a bilha de
leite de Perrette!
      com que facilidade a ambio se intitula vocao! E quem sabe? Talvez por
ser to beata se intitule assim de boa f, enganando-se a si prpria!
      Humilde, pobre, pouco conhecido, Monsenhor Bemvindo no pertencia ao
nmero dos bispos influentes, o que se notava pela completa ausncia de
pretendentes  sua volta.
      Como se viu, fora mal recebido em Paris e, por consequncia, longe andara
sempre do pensamento de qualquer futuro pensar em consolidar-se junto do
solitrio ancio, uma s nascente ambio que tivesse a loucura de pretender
medrar  sua sombra.
      Os seus cnegos e vigrios gerais eram em geral pobres criaturas, to do povo
como ele, como ele entaipados naquela diocese sem sada para o cardinalato e
muito parecidos com o seu bispo.
      To geralmente reconhecida era a impossibilidade de medrar  sombra de
Monsenhor Bemvindo, que os ordenandos apenas saam do seminrio, tratavam
de arranjar recomendao para os arcebispos de Aix ou de Auch, retirando-se
logo, porque, enfim, cada qual o que deseja  adiantar-se, e um santo que vive no
meio de uma excessiva abnegao  perigosa vizinhana, pode tornar-se
contagiosa a sua pobreza incurvel, paralisar as articulaes do adiantamento aos
que se lhe aproximam, exigir-lhes, em suma, maior desapego de si mesmos, do
que aquele para que se acham dispostos. Por conseguinte, todos fogem de to
incomodativa virtude, e por isso se encontrava Monsenhor Bemvindo no maior
isolamento. Vivemos numa sociedade extremamente sombria.
      Conseguir obter bom xito,  o nico ttulo valioso no seio da corrupo.
      Abominvel coisa  o bom xito, seja dito de passagem. A sua falsa parecena
com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom xito equivale a
supremacia.
      O bom xito ilude a histria. S Tcito e Juvenal se lhe no submetem. Existe
na poca presente uma filosofia quase oficial, que envergou a libr do bom xito e
lhe faz o servio da antecmara. Fazei por serdes bem sucedidos,  a teoria. A
prosperidade supre a capacidade. Ganhai na lotaria e sereis um homem hbil. A
venerao  para quem triunfa. Nascei bem fadado, no queirais mais nada. Tende
fortuna que o resto vir por si; sede feliz e julgar-vos-o grande. Se pusermos de
parte as cinco ou seis excepes imensas que fazem o esplendor de um sculo, a
admirao contempornea  apenas miopia. A doiradura tambm  oiro. Pouco
importa que no sejais ningum, contanto que consigais alguma coisa. O vulgo 
um Narciso velho, que se idolatra a si prprio e aplaude o vulgar. A faculdade
sublime de ser Moiss, Esquilo, Dante, Miguel Angelo ou Napoleo, concede-a a
multido indistintamente e por unanimidade a quem atinge o fim a que se props,
seja no que for. Transforme-se um tabelio em deputado, escreva um suposto
Corneille Tiridates, possua qualquer eunuco um harm, ganhe um Prudhomme
militar acidentalmente a batalha decisiva de uma poca, invente um boticrio
solas de papelo para o exrcito do Sambre-et-Meuse e, vendendo-as por coiro,
consiga arranjar um rendimento de quatrocentos mil francos, despose qualquer
pobreto a usura e obtenha desse consrcio sete ou oito milhes, torne-se bispo
um pregador fazendo citaes que no percebe, seja o mordomo de uma casa
opulenta to rico ao deixar o seu lugar que o faam ministro das finanas, a tudo
isto os homens chamaro expresses de gnio, do mesmo modo que denominam
belo o rosto de Mousqueton e majestoso o aspecto de Cludio, confundindo com
as constelaes do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na
superfcie mole do lodaal.



    XIII
    Quais eram as crenas do bispo



     Debaixo do ponto de vista da ortodoxia,  intil sondar o bispo de Digne
Almas como a dele inspiram-nos todo o respeito. Deve acreditar-se na conscincia
do justo pelo que ela prpria afirma. Ainda quando no fora seno porque ns, a
respeito de certas naturezas, admitimos o desenvolvimento possvel de todas as
belezas da virtude humana numa crena diferente da nossa.
     Quais eram os seus sentimentos a respeito de tal ou tal dogma, a respeito de
tal ou tal mistrio? Esses segredos do foro ntimo apenas o tmulo os conhece. Do
que estamos certos  de que nunca as dificuldades da f foram para ele
transformadas em hipocrisia. No h coisa alguma que faa apodrecer o diamante.
Credo in Patrem, costumava ele repetir. Afora isto, as suas boas obras
davam-lhe a satisfao que basta  conscincia e que nos segreda: Deus 
contigo! O que julgamos dever notar  que afora e, por assim dizer, acima da sua
f, o bispo possua um excesso de amor. Era por isso, quia multum amavit, que o
julgavam vulnervel os homens srios, as pessoas sisudas, a gente sensata,
locues predilectas do nosso mesquinho mundo em que o egosmo recebe o
santo e a senha do pedantismo. Que excesso de amor era esse?
      Era uma benevolncia serena, que abarcava todos os homens e s vezes
chegava a estender-se at s coisas. Era afvel para com todos e indulgente com as
criaturas de Deus. Todo o homem, mesmo o mais bondoso,  dotado de uma
dureza irreflectida, que se expande contra os animais. O bispo de Digne no era
dotado dessa dureza, alis, peculiar a muitos sacerdotes. No atingia o exagero do
brmane, mas parecia ter meditado naquelas palavras do Eclesiastes: Quem sabe
para onde vo as almas dos animais? As fealdades do aspecto, as disformidades
do instinto, no o perturbavam nem indigitavam; pelo contrrio, comoviam-no e
quase o enterneciam. Parecia que, pensativo, procurava nelas, alm da vida
aparente, a causa, a explicao ou a desculpa; havia momentos em que parecia
pedir a Deus comutaes. Examinava sem clera e com a ateno do linguista que
decifra um palimpsesto, o caos que ainda existe na natureza. Este profundo
meditar dava lugar a que ele s vezes proferisse ditos singulares.
      Uma manh, andando a passear no jardim e supondo-se a ss, por isso que
no via a irm, que caminhava atrs dele, parou de sbito e, fitando um objecto
que jazia no cho, o qual era nada menos que uma enorme aranha, negra, peluda,
horrenda, murmurou, de modo que a irm ouviu:
      - Pobre animal! Que culpa tem ele de ser assim?
      Porque razo havamos de ocultar estas quase divinais criancices da bondade?
      So talvez puerilidades, mas puerilidades sublimes como as de S. Francisco de
Assis e Marco Aurlio.
      Uma ocasio, torceu um p s para no pisar uma formiga.
      Assim vivia aquele homem justo. As vezes adormecia no jardim, e ento nada
mais venerando do que a figura do bom bispo.
      Se dermos crdito s notcias que temos dos precedentes da sua vida,
Monsenhor Bemvindo, na sua juventude e ainda mesmo no tempo da sua
virilidade, foi homem de gnio spero e at violento.
      A sua mansido universal era mais resultado de uma grande convico, que
por entre os sucessos da vida se lhe fora lentamente infiltrando no corao e
caindo na alma pensamento por pensamento, do que instinto da natureza A
ndole do homem pode como o rochedo, ser cavada por gotas de gua, e essas
concavidades nunca mais se desfazem, nunca mais se destroem.
      Em 1815, como nos parece j ter dito, contava ele setenta e cinco anos, mas
parecia no ter mais de sessenta. Era baixo e um tanto gordo, gordura que
combatia dando longos passeios a p: tinha o andar firme e pouco se curvava,
pormenor do qual nada pretendemos inferir; Gregrio XVI, era desempenado e
risonho aos oitenta anos, o que no obstava que fosse um mau bispo Monsenhor
Bemvindo possua o que o povo chama um bonito rosto, porm, to amvel que
fazia esquecer a beleza.
     Quando conversava com aquela infantil alegria que constitua uma das suas
graas, parecia que a sua jovialidade se comunicava a quem se encontrava com ele
e que todo ele respirava alegria. A frescura e rosado da tez, a alvura dos dentes,
que ainda conservava todos e que mostrava quando ria, davam-lhe esse aspecto de
franqueza e afabilidade, que faz com que se diga de um homem:  um bom
rapaz, e de um velho:  um bom homem.
     Foi essa a impresso que ele produziu em Napoleo.
     No primeiro momento e para quem o via pela primeira vez, no passava,
efectivamente, de um bom homem, porm, decorridas algumas horas de
perma-nncia junto dele, por pouco expansivo que estivesse, via-o transfigurar-se
lentamente, assumindo uma expresso veneranda; a sua fronte elevada e sria, que
as cs tornavam augusta, era tambm augusta pela meditao; a majestade
sobressaa-lhe da bondade sem que a bondade cessasse de resplandecer: a sua vista
produzia a impresso que se sentiria ao ver um anjo, sorrindo, abrir lentamente as
asas, sem deixar de sorrir. Um inexplicvel respeito se apossava gradualmente do
corao de quem o contemplava. Parecia a quem o via que tinha diante dos olhos
uma dessas almas fortes, indulgentes e ricas de provaes em que o pensamento 
to sublime, que no pode deixar de ser suave.
     A orao, a celebrao dos ofcios religiosos, a esmola, a consolao dos
aflitos, a cultura de um canteiro, a fraternidade, a frugalidade, a hospitalidade, o
desapego, a confiana, o estudo, o trabalho, ocupavam-lhe todos os momentos da
existncia Ocupavam  o termo prprio, porque, efectivamente, cada dia de
existncia do bispo no tinha um momento vago de bons pensamentos, de boas
palavras e de boas obras.
     Deixava, porm, de ser completo, se a chuva ou o frio o impedia de ir passear
ao jardim uma ou duas horas antes de se deitar, depois de as duas mulheres se
terem acomodado. Parecia ser para ele uma espcie de rito o preparar-se para o
sono da meditao, na presena do grandioso espectculo da noite. As vezes, a
hora bastante adiantada da noite, as duas mulheres, se acaso estavam acordadas,
ouviam ainda o rudo dos seus vagarosos passos no jardim. Ali permanecia a ss
consigo, em plcido recolhimento e adorao, comparando a serenidade do seu
corao com a do ter, impressionado no meio das trevas pelos esplendores
visveis das constelaes e pelos invisveis esplendores de Deus, abrindo a alma
aos pensamentos que descem do infinito.
     Em tais momentos, oferecendo o corao  hora em que as flores noctur-nas
oferecem o seu perfume, aceso como uma lmpada no meio da noite estrelada,
enlevado no meio do cintilar universal da criao, nem ele mesmo saberia dizer o
que se passava no seu esprito; sentia evaporar-se dele e descer sobre ele o que
quer que fosse.
     Misteriosas permutaes entre os abismos da alma e os abismos do universo!
     Meditava sobre a grandeza e presena de Deus; sobre a eternidade futura:
mistrio extraordinrio; sobre a eternidade passada: mistrio mais extraordinrio
ainda; em todos os infinitos que se lhe apresentavam ao esprito e que ele
contemplava, sem pretender compreender o incompreensvel. No estudava Deus,
admirava-o. Reflectia sobre esses magnficos encontros de tomos que produzem
o aspecto da matria, revelam as foras provando-as, criam as individualidades na
unidade, as propores na extenso, o inumervel no infinito; que, por meio da
luz, produzem a beleza, e de cujo acabamento e constante renovao resulta a vida
e a morte.
     Sentava-se num banco de madeira, encostado a uma latada decrpita, e da
contemplava os outros atravs das sombras acanhadas e raquticas das suas
rvores de fruto. Aquele palmo de terra to pobremente plantado, era-lhe caro e
suficiente. Que mais necessitava o pobre velho, que dividia os cios da sua
existncia, que to curtos eram, entre a jardinagem de dia e a contemplao de
noite? Aquele estreito recinto, com o cu por tecto, no lhe era bastante para
poder adorar a Deus simultaneamente nas suas obras mais amenas e nas suas
obras mais sublimes?
     No era isto mais que suficiente?
     Um pequeno jardim para passear e a imensidade para meditar.
     Que mais podia ele querer?
     A seus ps, o que podia ser cultivado e dar fruto; por cima da cabea, o que se
podia estudar, o que era assunto de profunda meditao; algumas flores na terra e
todas as estrelas do cu.
    XIV
    O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo



     Mais uma palavra.
     Como os pormenores desta natureza, especialmente na poca actual,
poderiam, para nos servirmos duma expresso actualmente em voga, dar ao bispo
de Digne certa fisionomia pantesta e fazer acreditar, em seu desabono ou em
seu elogio, que ele possua alguma dessas filosofias pessoais, peculiares ao nosso
sculo, que s vezes germinam nos espritos solitrios e vo gradualmente
tomando vulto at fazer desaparecer as crenas religiosas, repetimos que ningum,
de entre as pessoas que conheceram Monsenhor Bemvindo, se julgou nunca
autorizado a crer semelhante coisa. O que iluminava aquele homem era o corao.
A sua sabedoria dava-lhe a luz que dele nasce.
     Poucos sistemas e muitas obras. No h indcio de que ele aventurasse o
esprito na averiguao de apocalipses. O apstolo pode ser ousado, mas o bispo
deve ser tmido.
      natural que tivesse escrpulo de sondar muito profundamente certos
problemas, de algum modo reservados aos grandes e terrveis espritos. Os
prticos do enigma inspiram terror religioso. Vemos aquelas sombrias portas
abertas de par em par, porm, uma voz desconhecida nos diz, a ns, caminheiros
desta vida, que no entremos. Desgraado de quem l entrar!
     Os gnios, nas profundezas incomensurveis da abstraco e da especulao
pura, situados, por assim dizer, acima dos dogmas, expem as suas ideias a Deus.
O seu orar  uma audaciosa proposta de discusso. A sua orao interroga. Eis o
que  a religio directa, cheia de ansiedade e responsabilidade para quem se
aventura s suas escabrosidades.
     A meditao humana no tem limites. Por sua conta e risco analisa e
esquadrinha o seu prprio deslumbramento. Quase poderamos dizer que, por
uma espcie de fulgurante reaco, ela deslumbra tambm a natureza; o
misterioso mundo que nos cerca, restitui o que recebe;  provvel que os
contempladores sejam contemplados. Seja como for, na terra h homens - sero
homens? - que no fundo dos horizontes da meditao descobrem distintamente as
alturas do absoluto e avistam a terrvel montanha infinita.
     Monsenhor Bemvindo no pertencia ao nmero desses homens; no era um
gnio. Para ele, seriam objecto de temor essas sublimidades, do cimo das quais
alguns, como Swedenborg e Pascal, resvalaram na demncia. No h dvida que
essas loucuras tm sua utilidade moral e que por esses rduos caminhos  que o
homem se aproxima da perfeio ideal, porm, o bispo seguia o caminho mais
curto, o do Evangelho.
     Ningum dir que ele tentava dar  sua mura as dobras do manto de Elias,
que projectava algum raio do futuro sobre o tenebroso redemoinho dos
acontecimentos ou que procurava transformar em chama o claro das coisas; nada
tinha de profeta nem de mago. Era uma alma amante, e nada mais.
      provvel que dilatasse a orao at  aspirao sobrenatural, mas to-pouco
pode haver excesso em orar como em amar; e, se fosse heresia rezar sem ser pelos
textos, herejes seriam Santa Teresa e S. Jernimo.
     No recusava o seu auxlio nem aos que gemem nem aos que expiam. O
Universo apresentava-se-lhe como que imensa enfermidade; por toda a parte
sentia febre, por toda a parte auscultava sofrimento, e, sem pretender decifrar o
enigma, diligenciava curar a ferida. O grandioso espectculo das coisas criadas
tornava-lhe mais intensamente compassiva a ndole benfazeja. A sua constante
ocupao era procurar para si prprio e inspirar aos outros o melhor modo de
consolar e suavizar infortnios alheios. Para o virtuoso sacerdote, era quanto
existe um motivo permanente de tristeza, mas tristeza que se desvelava em
consolaes para com todos os infelizes.
     H homens que se ocupam na extraco do oiro; ele ocupava-se em extrair
piedade.
     As suas minas eram a misria universal, e o sofrimento tornava-se uma
ocasio para ele mostrar sempre a sua natural bondade. Amai-vos uns aos outros
eis toda a sua doutrina que ele plenamente executava e que fora seu mais ardente
desejo ver geralmente posta em prtica.
     Um dia, o homem que se julgava filsofo, o tal senador que j
conhe-cemos, disselhe:
     - Ora veja o espectculo que o mundo apresenta: a guerra de todos contra
todos; o mais forte  o que tem razo. O tal amai-vos uns aos outros,  um
absurdo!
     - Pois seja - respondeu o bispo, sem discutir - mas, nesse caso, a alma deve
encerrar-se nela como a prola dentro da concha!
     E ele assim fazia. Vivia satisfeito, plenamente satisfeito com isso, sem se
intrometer nessas maravilhosas questes que atraem e amedrontam, nas
perspectivas insondveis da abstraco, nos princpios da metafsica, em nenhuma
dessas profundezas convergentes, aos olhos do apstolo, para Deus, aos olhos do
ateu para o nada; o destino, o bem e o mal, a guerra da criatura contra a criatura, a
conscincia do homem, o sonambulismo melanclico do animal, a transformao
da morte, a recapitulao de existncias encerradas num tmulo, a
incompreensvel filiao dos amores sucessivos do eu persistente, a essncia, a
substncia, a alma, a natureza, a liberdade e a necessidade; problemas
indecifrveis, densidades sinistras, sobre as quais se debruam os arcanjos do
esprito humano; abismos temerosos que Lucrcio, S Paulo e Dante, contemplam
com esse olhar fulgurante que parece despontar estrelas no infinito em que se fixa.
     O bispo era apenas um homem que observava exteriormente as questes
misteriosas, sem as perscrutar nem debater, nem se cansar a averigu-las, um
homem que respeitava os mistrios do incompreensvel.


L02:
    LIVRO SEGUNDO
    A Queda



    I
    No fim de um dia de marcha



     Num dos primeiros dias do ms de Outubro de 1815, uma hora antes do
pr-do-Sol, entrou na cidade de Digne um homem que viajava a p. Os raros
habitantes que a essa hora se encontravam s janelas ou s portas de suas casas,
observavam o viajante com uma espcie de inquietao. Seria, na verdade, difcil
encontrar viandante de aspecto mais miservel.
     Era um homem ainda no vigor da idade, de estatura mediana e robusto.
Poderia ter, quando muito, quarenta e seis ou quarenta e oito anos. Escondia-lhe
parte do rosto, crestado pelo sol e a escorrer em suor, um bon de pala de couro A
camisa, de linho grosseiro e amarelado, apertada no pescoo por uma pequena
ncora de prata, deixava-lhe a descoberto o peito cabeludo; trajava calas de cotim
azul, muito velhas, coadas, brancas num joelho e rotas no outro, uma esfarrapada
blusa parda, tendo num dos cotovelos um remendo de pano verde, cosido com
cordel. Servia-lhe de gravata um leno torcido, enrolado em volta do pescoo.
Calava sapatos forrados, sem meias, e trazia s costas uma volumosa mochila de
soldado, em bom estado e muito apertada, e na mo um enorme cajado nodoso.
Afora isto, trazia a barba crescida, os cabelos eram raros e eriados, mas parecia
no terem sido cortados havia muito tempo.
     O suor, o calor, a poeira, a viagem a p, acrescentavam ainda uma estranha
sordidez a este conjunto de andrajos.
     Ningum o conhecia.
     Era evidentemente um forasteiro. De onde viria? Do Meio Dia; talvez da
beira-mar, pois entrava em Digne pela mesma rua onde, sete meses antes, tinham
visto passar Napoleo, ao ir de Cannes para Paris. A julgar pelo cansao de que
dava mostras, aquele homem devia ter caminhado todo o dia. Algumas mulheres
do antigo bairro situado  entrada da cidade tinham-no visto parar ao p das
rvores do boulevard Gassendi e beber gua na fonte que fica na extremidade do
passeio. Grande devia ser a sua sede, pois que, dali a cem passos, alguns rapazes,
que foram atrs dele, viram-no beber novamente na fonte da praa do Mercado.
     Chegando  esquina da rua de Poichevert, tomou  esquerda e principiou a
caminhar em direco  mairie, para onde entrou. Um quarto de hora depois,
tornou a sair.  porta estava sentado um gendarme, no mesmo banco de pedra a
que o general Dronot subira no dia 4 de Maro, para ler  multido assustada de
Digne a proclamao datada do golfo Juan. O desconhecido tirou o bon e
cumprimentou humildemente o gendarme.
     Em vez de corresponder ao cumprimento, o soldado examinou-o com
ateno e, depois de o seguir algum tempo com a vista, entrou na mairie.
     Havia ento em Digne uma excelente estalagem, intitulada A Cruz de Cobas,
cujo proprietrio era um tal Jacquin Labarre, homem de muita considerao na
cidade, devido ao seu parentesco com outro Labarre, antigo soldado do regimento
dos Guias e dono da estalagem dos Trs Delfins, em Grenoble, a respeito da qual,
por ocasio do desembarque do imperador, tinham corrido na terra numerosos
boatos.
     Contava-se que, em Janeiro desse ano, o general Bertrand, disfarado em
carreteiro, fora ali repetidas vezes, distribuindo, por essa ocasio, a soldados e
civis, a uns a condecorao da Legio de Honra, a outros dinheiro s mos cheias.
     A realidade  que, na sua chegada a Grenoble, o imperador recusara ir para o
palcio da prefeitura e agradecera ao maire, dizendo:
     - Vou para casa de um honrado camarada meu conhecido.
     E foi hospedar-se na estalagem dos Trs Delfins. Esta glria do Labarre dos
Trs Delfins reflectia-se a vinte e cinco lguas de distncia sobre o Labarre da
Cruz de Cobas. Costumavam dizer na cidade, quando falavam dele:
     - O primo do de Grenoble.
     O desconhecido dirigiu-se, pois, para a estalagem que era a melhor da
localidade, e entrou na cozinha, que dava imediatamente para a rua. Os foges
estavam todos acesos. No meio da cozinha, destacava-se a figura do estalajadeiro,
que, exercendo conjuntamente as funes de cozinheiro, corria de um lado para o
outro, atarefado nos aprestos de excelente jantar destinado aos carreteiros, que se
ouviam conversar e rir com grande estrpito na sala prxima. Alm dos coelhos e
perdizes, cozinhados de diferentes maneiras, estavam tambm a ser preparadas
duas grandes carpas da lagoa de Lauzet e uma truta da lagoa de Alloz.
     O dono da estalagem sentindo abrir a porta e entrar mais um fregus,
perguntou, sem tirar os olhos do que estava a fazer:
     - Que deseja o senhor?
     - Comer e dormir - respondeu o desconhecido.
     - Nada mais fcil - tornou o estalajadeiro.
     E, voltando-se para o recm-chegado, examinou-o dos ps  cabea e
acrescentou:
     - Pagando!
     O homem tirou da algibeira da blusa uma bolsa e respondeu:
     - Eu tenho dinheiro.
     - Nesse caso, estou s suas ordens.
     O homem tornou a guardar a bolsa, tirou a mochila, encostou-a  porta e foi
sentar-se num mocho, junto ao lume, sem largar da mo o cajado. As noites de
Outubro em Digne so muito frias.
     Entretanto, o estalajadeiro, andando de um lado para o outro, no deixava de
observar o recm-chegado.
     - A que horas se janta?
     - Daqui a pouco - respondeu o estalajadeiro.
     Enquanto o desconhecido se aquecia, de costas voltadas para o digno
estalajadeiro Jacquin Labarre, este tirou um lpis da algibeira, rasgou um bocado
de um jornal, j antigo, que estava em cima de uma mesa ao p da janela, escreveu
uma ou duas linhas, dobrou-o e, sem o fechar, entregou-o a um rapazinho, que
parecia servir-lhe, ao mesmo tempo, de ajudante de cozinha e moo de recados,
disselhe algumas palavras ao ouvido e o rapaz partiu a correr em direco 
mairie.
     O desconhecido, que no reparara em nada disto, tornou a perguntar:
     - O jantar ainda levar muito tempo?
     - No tarda - respondeu o estalajadeiro.
     Decorridos alguns minutos, voltou o rapazito. O estalajadeiro desdobrou
rapidamente um papel que ele lhe trouxe, como quem esperava uma resposta,
pareceu ler com ateno, em seguida abanou a cabea e ficou um momento
pensativo. Por fim, encaminhou-se para o viajante, que parecia embrenhado em
fundas reflexes e disselhe:
     - Senhor, no posso recolh-lo.
     - Porqu? - perguntou o homem, levantando-se.
     - Tem receio de que eu no pague? Se quer, pago adiantado. J viu que tenho
dinheiro.
     - No se trata disso.
     - Mas ento de que se trata?
     - O senhor tem dinheiro.
     - Tenho, bem viu.
     - E eu no tenho quarto para lhe dar.
     - Vou para a cavalaria - replicou tranquilamente o desconhecido.
     - No pode ser.
     - Porqu?
     - Porque  pequena para os cavalos que l esto.
     - Ento d-me qualquer canto do palheiro; basta-me um feixe de palha.
Veremos isso depois de jantar.
     - Mas eu no lhe posso dar de jantar.
     Esta declarao, feita em tom comedido, mas com firmeza, pareceu muito
grave ao desconhecido, que exclamou:
     - Ento no quer dar-me de comer? Caminhei desde o nascer do sol, estou
morto de fome e de cansao, depois de uma jornada de doze lguas; prontifico-me
a pagar e no hei-de comer?
     - No tenho nada para lhe dar - respondeu o estalajadeiro.
     O homem soltou uma gargalhada e, voltando-se para o lado dos foges,
exclamou:
     - No tem nada? E aquilo que ali est?
     - Est tudo reservado.
     - Para quem?
     - Para os senhores carreteiros.
     - Quantos so eles?
     - Doze.
     - Mas a comida que ali est chega para vinte.
     - Eles querem tudo e j o pagaram adiantadamente.
     O desconhecido tornou a sentar-se e disse, sem erguer a voz:
     - Estou numa estalagem e tenho fome, portanto no saio daqui!
     O estalajadeiro aproximou-se dele e disselhe num tom de voz que o fez
estremecer:
     - O melhor que tem a fazer  ir-se embora!
     O forasteiro, que estava inclinado para o lume a aconchegar as brasas com a
ponta do cajado, voltou-se de repente; porm, o estalajadeiro, sem lhe dar tempo a
falar, olhou-o fixamente e disselhe em voz baixa:
     - Vamos, nada de gastar palavras sem necessidade. Quer que lhe diga quem ?
     Chama-se Joo Valjean. Quando o vi entrar, desconfiei e mandei perguntar 
mairie quem era voc. Aqui est a resposta que me deram. Sabe ler?
     Ao mesmo tempo que dizia isto, o estalajadeiro apresentou ao desconhecido
o papel que o rapaz lhe trouxera.
     O homem percorreu-o rapidamente com a vista e o estalajadeiro, aps uma
pausa, continuou:
     - Eu tenho por costume ser delicado para toda a gente. Por isso, peo-lhe
novamente que se v embora!
     O forasteiro curvou a cabea, pegou na mochila que tinha posto no cho e
saiu da estalagem.
     Encontrando-se na rua, caminhou ao acaso, cosendo-se com as casas, como
um homem humilhado e triste. No olhou para trs uma s vez. Se o tivesse feito,
teria visto o estalajadeiro da Cruz de Cobas no limiar da porta, rodeado por todos
os hspedes que se encontravam na estalagem e das pessoas que passavam na rua
naquele momento, falando com vivacidade e apontando-o com o dedo; e, pelos
olhares de desconfiana e susto daquele grupo, adivinharia que dentro de pouco
tempo a sua chegada seria o assunto de todas as conversas na cidade.
     Porm, ele no viu nada disto. Quem vai profundamente alheado na sua dor,
no olha para trs, porque tem a certeza de ser acompanhado pela m sorte que o
persegue. Caminhou assim durante algum tempo, embrenhando-se em ruas que
no conhecia, esquecendo a prpria fadiga, como sucede sempre queles a quem a
tristeza domina.
     De repente, sentiu o aguilho da fome. Como a noite se aproximasse,
circunvagou a vista em torno de si a ver se descobria um albergue onde
encontrasse pousada.
     A melhor estalagem estava-lhe vedada; o que procurava agora era uma
humilde taberna ou algum pobre casebre.
     Divisou ento uma luz ao fim da rua, e  claridade incerta do crepsculo,
notou vagamente um ramo de pinheiro pendurado de uma vara de ferro.
Encaminhou-se para l.
     Era, com efeito, uma taberna, na rua de Chaffaut.
     O forasteiro parou um momento  porta, examinou pela vidraa o interior da
taberna, alumiada por um candeeiro colocado em cima da mesa e por uma grande
fogueira que ardia na chamin, e viu alguns homens a beber e o taberneiro a
aquecer-se ao lume, cuja chama fazia ferver uma panela de ferro pendurada num
gancho.
     Duas portas do entrada para esta taberna, que  ao mesmo tempo uma
espcie de estalagem. Uma deita para a rua, outra para um pequeno ptio que
serve de estrumeira.
     O viajante no ousou entrar pela porta da rua. Entrou para o ptio, tornou a
parar, e, levantando timidamente o fecho, abriu a porta e entrou na taberna.
     - Quem est a? - perguntou o dono da casa.
     - Um homem que quer comer e dormir.
     - Com efeito, aqui h comida e dormida.
     O homem entrou. Todos os que se encontravam a beber se voltaram. De um
lado iluminava-o o claro do candeeiro, do outro o reflexo da fogueira. Enquanto
ele se deteve a desatar a mochila, os outros puseram-se a examin-lo.
     - Temos aqui lume, camarada - disselhe o taberneiro venha aquecer-se. A
ceia, como v, j ferve.
     O homem obedeceu. Foi sentar-se junto da chamin, estendendo para a
fogueira os ps magoados de andar e respirando o apetitoso cheiro que se exalava
da panela. O seu rosto, oculto em parte pela pala do bon, tomou uma vaga
aparncia de satisfao, a par do pungente aspecto que d o hbito do sofrimento.
     Tinha, contudo, um perfil firme, enrgico e triste.
     A sua fisionomia era singularmente composta;  primeira vista parecia
humilde, mas analisada detidamente parecia severa. Os olhos brilhavam-lhe sob as
sobrancelhas como o fogo sob a cinza.
     Um dos homens que estavam sentados  mesa era um peixeiro, o qual, antes
de vir para a taberna da rua de Chaffaut, tinha ido deixar o cavalo na estalagem de
Labarre. Quisera o acaso que ele, nesse mesmo dia pela manh, encontrasse um
desconhecido de mau aspecto, caminhando entre Brs d'Asse e... (No nos
lembra o nome. Creio que Escoublon). Ora, encontrando-o, o homem, que
parecia vir j muito cansado, pedira-lhe que o deixasse ir um bocado a cavalo, ao
que o peixeiro no respondeu, apressando o passo.
     O mesmo peixeiro fazia parte, meia hora antes, do grupo que rodeava Jacquin
Labarre, e ele prprio contara o desagradvel encontro que tivera pela manh, a
quantos se encontravam na Cruz de Cobas. Assim, pois, mesmo do lugar em que
estava, fez um sinal imperceptvel ao taberneiro, que se acercou dele, trocando
ambos algumas palavras em voz baixa.
     Entretanto, o forasteiro parecia mergulhado nas suas reflexes.
     O taberneiro voltou para junto da chamin, ps subitamente a mo no ombro
do desconhecido e disselhe:
     - Trata de sair j daqui.
     O homem voltou-se e respondeu com brandura:
     - Tambm sabe?... - Sei.
     - J na outra estalagem me no quiseram recolher.
     - E nesta pem-te fora.
     - Para onde quer que eu v?
     - Para onde quiseres!
     O desconhecido pegou no cajado e na mochila e saiu.
     Quando ele saiu, vrios rapazes que o tinham seguido desde a Cruz de Cobas
e que pareciam estar  sua espera, comearam a atirar-lhe pedradas. Ele voltou-se
para trs e ameaou-os com o cajado; os rapazes dispersaram logo como um
bando de estorninhos.
     Continuando a caminhar passou em frente da cadeia. Da porta pendia uma
corrente de ferro presa a uma sineta, puxou por ela.
     Quase no mesmo instante, abriu-se um postigo.
     - Senhor carcereiro - disse ele, tirando respeitosamente o bon - faz-me o
favor de me recolher por esta noite?
     - A cadeia no  estalagem! - respondeu uma voz. - Faa com que o prendam
e para c vir!
     E acto contnuo fechou o postigo.
     O desconhecido continuou a caminhar e entrou numa rua, orlada de jardins
em quase toda a sua extenso, fechados apenas por sebes, o que a tornava mais
alegre.
     Entre os jardins e as sebes avistou uma casinha branca de um s andar,
atravs de cuja janela se via luz. Espreitou pela vidraa como fizera na taberna. Era
uma sala grande caiada de branco, com uma cama coberta por uma colcha de
chita e um bero a um canto, algumas cadeiras de palhinha e uma espingarda de
dois canos pendurada na parede. No meio da casa uma mesa com comida. Um
candeeiro de lato alumiava a toalha de grosseiro linho branco, um cangiro de
estanho, luzente como prata e cheio de vinho, uma terrina de barro escuro, que
fumegava. A mesa estava sentado um homem de meia idade, rosto franco e alegre,
brincando com uma criancinha que tinha nos joelhos. A curta distncia via-se
uma mulher, ainda nova, a amamentar outra criana. O pai e a criana riam
muito, a me sorria.
     O desconhecido quedou-se um instante a contemplar este sereno e risonho
espectculo. O que lhe iria no esprito? S ele o poderia dizer.  natural que
pensasse que uma casa onde havia alegria, devia ser hospitaleira e que onde via
tanta felicidade talvez encontrasse alguma compaixo.
     Bateu ao de leve na vidraa com os dedos.
     Vendo que no fora ouvido, bateu segunda vez e ouviu ento a mulher dizer:
     - Parece-me que bateram.
     - Eu no ouvi - respondeu o marido.
     O homem tornou a bater.
     O marido levantou-se, pegou no candeeiro, dirigiu-se para a porta e abriu-a.
     Era um homem de elevada estatura, meio campons, meio operrio. Trazia
um largo avental de couro que lhe subia at ao ombro esquerdo e sobre o qual lhe
pendia  cintura, to seguros como se estivessem num cabide, um martelo, um
leno vermelho e um polvorinho. A camisa, desapertada, deixava-lhe a descoberto
o alvo e entroncado pescoo. Tinha sobrancelhas espessas, barba comprida, os
olhos  flor do rosto e, alm de tudo isto, esse ar de quem est em sua casa, que 
uma coisa inexprimvel - Peo-lhe que me desculpe de o ter incomodado - disse o
desconhecido - mas poderia o senhor, pagando eu, dar-me um prato de sopa e um
canto para dormir na barraca que est no jardim?
     - Quem  voc? - perguntou o dono da casa.
     O homem respondeu:
     - Venho de Puy Moisson. Caminhei todo o dia para vencer as doze lguas at
aqui. Poderia fazer-me o que lhe pedi, pagando?
     - Eu no tinha dvida em recolher um homem de bem que me pagasse - disse
o campons. - Mas porque no vai para a estalagem?
     - No tm lugar.
     - No  possvel! Hoje no  dia de mercado. J foi  estalagem do Labarre?
     - J, sim, senhor.
     - E ento?
     O desconhecido respondeu com dificuldade:
     - No sei, no me quis receber.
     - E j foi a uma estalagem que h na rua de Chaffaut?
     Esta segunda pergunta aumentou extraordinariamente o embarao do
forasteiro, que balbuciou:
     - A tambm no me quiseram dar pousada.
     O rosto do dono da casa assumiu ento uma expresso de desconfiana.
Mirou novamente o desconhecido dos ps  cabea e de repente exclamou com
uma espcie de estremecimento:
     - Ser voc o tal homem?
     Dizendo isto, relanceou outro olhar para o desconhecido, deu trs passos para
trs, pousou o candeeiro em cima da mesa e lanou mo da espingarda, que se
encontrava pendurada na parede.
     As palavras do campons: Ser voc o tal homem?, a mulher levantara-se,
pegara nas criancinhas ao colo e refugiara-se precipitadamente atrs do marido,
olhando aterrada o desconhecido, com o peito descoberto, o olhar desvairado,
murmurando em voz baixa:
     -  decerto um ladro!
     Tudo isto tivera lugar em menos tempo do que  necessrio para o imaginar.
     Depois de examinar algum tempo o homem como quem examina uma
vbora, o dono da casa voltou para a porta e disse:
     - Vai-te daqui!
     - Por caridade - disse o homem - d-me ao menos um prato de sopa!
     - Dou-te  um tiro - disse o campons.
     E em seguida fechou violentamente a porta. O desconhecido ouviu correr os
ferrolhos e, decorrido um momento, fechou-se tambm a janela e ouviu ainda o
rudo de uma tranca de ferro, com que a segurava.
     A noite continuava a descer e a aragem fria dos Alpes aumentava de fora. Ao
claro do dia expirante, o desconhecido avistou, num dos jardins que orlam a rua,
uma espcie de cabana que lhe pareceu ser feita de feixes de feno. Saltou
resolutamente uma grade de madeira e achou-se no jardim. Aproximou-se da
cabana, que tinha por porta uma abertura estreita e pouco elevada,
assemelhando-se aos abrigos que os cantoneiros constrem na beira das estradas.
Sups ser, efectivamente, a cabana de um cantoneiro; tinha frio e fome; no
poderia matar a fome, mas ao menos tinha ali um abrigo contra o frio. De
ordinrio, estas cabanas no so ocupadas de noite. Deitou-se de bruos e entrou
para a cabana, onde encontrou calor e uma cama de palha.
     Conservou-se algum tempo deitado, sem poder fazer o menor movimento,
to fatigado ele estava, e em seguida, como a mochila que trazia s costas o
incomodava, e era, alm disso, um ptimo travesseiro, principiou a desatar uma
das correias. Neste momento ouviu um rosnar feroz. Olhou.  entrada da cabana
desenhava-se, no meio das trevas, a cabea dum enorme mastim.
     Abrigara-se na casinhota de um co.
     Dotado de prodigiosa fora, o homem lanou mo do cajado, fez da mochila
escudo contra a sanha do co e saiu da casinhota como pde, no sem ver
aumentar os rasges dos seus andrajos.
     Saiu igualmente do jardim, mas recuando e obrigado, para conservar o
mastim em respeito, a empregar o manejo do cajado que os mestres deste gnero
de esgrima chamam sarilho.
     Quando conseguiu, no sem custo, sair do jardim e se encontrou outra vez na
rua, s, sem abrigo, expulso at da miservel cabana, deixou-se cair sobre uma
pedra, exclamando:
     - Sou ainda menos que um co!
     Decorridos instantes, levantou-se e ps-se de novo a caminho para fora da
cidade, esperando encontrar nos campos alguma rvore ou algum moinho
abandonado onde se abrigasse.
     Caminhou assim durante algum tempo, com a cabea pendida para o peito.
     Quando se viu longe de toda a espcie de habitao humana, ergueu a vista e
olhou em torno de si. Estava no meio duma plancie e diante dele erguia-se uma
dessas pequenas colinas cobertas de palha cortada rente, as quais, depois da ceifa,
parecem cabeas rapadas.
     O horizonte estava escuro; no o escureciam somente as sombras da noite,
mas as nuvens muito baixas, que pareciam apoiar-se na prpria colina e que se
elevavam vagarosamente, cobrindo o cu em toda a sua extenso. Todavia, como
nesse momento a Lua estava quase a surgir do horizonte e no znite flutuava
ainda um resto de claro crepuscular, essas nuvens formavam, no meio da
atmosfera, uma espcie de abbada esbranquiada, da qual descia sobre a terra
uma tal ou qual claridade.
     A terra, por conseguinte, achava-se mais clara do que o cu, fenmeno
essencialmente sinistro; e a colina, de acanhadas dimenses, desenhava-se vaga e
esbranquiada no tenebroso horizonte. Todo este conjunto era medonho,
mesquinho, lgubre e limitado. Quer na plancie, quer na colina, no se via mais
do que uma corpulenta rvore, agitando-se e ramalhando a pequena distncia do
viajante.
     Este homem estava, evidentemente, muito longe de possuir os delicados
hbitos de inteligncia e esprito que nos tornam sensveis aos aspectos
misteriosos das coisas que nos cercam; todavia, aquele cu, aquela colina, aquela
plancie e aquela rvore respiravam to profunda tristeza que, aps um momento
de imobilidade e meditao, o homem partiu subitamente pelo caminho que tinha
trazido. H ocasies em que a natureza parece hostil.
     Voltou para a cidade.
     As portas de Digne estavam fechadas. Digne, que no tempo das guerras da
religio resistiu a vrios cercos, em 1815 era cercada por velhas muralhas
flanqueadas de basties, que depois foram demolidas.
     Passou por uma brecha e entrou na cidade.
     Seriam oito horas, pouco mais ou menos. Como no conhecia as ruas,
principiou outra vez a vaguear ao acaso.
     Chegou assim  prefeitura, depois ao seminrio. Ao passar pelo largo da
catedral, ameaou a igreja com o punho cerrado.
     A esquina do largo fica a oficina de tipografia onde foram impressas as
proclamaes do imperador e da guarda imperial ao exrcito, trazidas da ilha de
Elba e ditadas pelo prprio imperador.
     Exausto de fadiga e perdida j a esperana de encontrar pousada, deitou-se no
banco de pedra que fica  porta da tipografia.
     Neste momento, uma senhora j idosa que vinha a sair da igreja, ao ver
aquele homem deitado ali, perguntou-lhe:
     - Que faz voc a, pobre homem?
     - Bem v que estou deitado - respondeu ele secamente.
     A bondosa senhora, por certo bem digna de tal nome, era a marquesa de R...
- Neste banco? - tornou ela.
     - Quem dezanove anos teve por cama uma tbua disse o homem pode muito
bem passar a noite num colcho de pedra!
     - Ento foi soldado?
     -  verdade, minha senhora, fui soldado - Porque no vai para a estalagem?
     - Porque no tenho dinheiro.
     - Valha-me Deus! Tambm no tenho comigo. Seno quatro soldos!
     - Ento d-mos, sempre  alguma coisa!
     O homem pegou no dinheiro e a marquesa continuou:
     - Isso no chega para ir para a estalagem. J l foi pedir hospedagem? 
impossvel que possa ficar aqui toda a noite. Voc por fora h-de estar com frio e
vontade de comer. Pode ser que o recolham por caridade.
     - J bati a todas as portas!
     - E ento?
     - De toda a parte me repeliram!
     A marquesa tocou-lhe ento no brao e indicou-lhe do outro lado do largo,
uma casinha branca pegada ao pao.
     - J bateu a todas as portas? - perguntou ela.
     - A todas - respondeu o homem.
     - E quela tambm?
    - quela no.
    - Pois ento v l.



    II
    A prudncia aconselha a sabedoria



      Nessa mesma noite, o bispo de Digne, depois do seu passeio pela cidade,
recolhera-se e conservara-se fechado no seu quarto at muito tarde, ocupado com
um grande estudo sobre os Deveres, que, infelizmente, ficou incompleto. Neste
trabalho estudava ele quanto os santos padres e os doutores da igreja tm dito
sobre to importante matria. O seu livro dividia-se em duas partes: a primeira
tratava dos deveres de todos, a segunda dos deveres de cada um, segundo a classe
a que pertence.
      Os deveres de todos so os principais. H quatro que so os indicados por S.
Mateus: deveres para com Deus (Math, VI), deveres para consigo prprio (Math.,
V, 29,30), deveres para com o prximo (Math., VII, 12), deveres para com as
criaturas (Math., VI, 20, 25). Quanto aos outros deveres, achara-os o bispo
indicados e prescritos em diversas partes; aos soberanos e aos sbditos, na
Epstola aos Romanos; aos magistrados, s esposas, s mes e aos mancebos, em S.
Pedro; aos maridos, aos pais, aos filhos e aos criados, na Epstola aos Efesos; aos
fiis, na Epstola aos Hebreus; s virgens, na Epstola aos Corntios. De todas estas
prescries formavam,  fora de trabalho, um todo harmnico, que tencionava
oferecer s almas.
      As oito horas estava ainda a trabalhar, escrevendo incomodamente em
quartos de papel, com um volumoso livro aberto sobre os joelhos, quando
Magloire entrou, segundo o costume, para tirar a prata do armrio junto do leito.
      Um momento depois, calculando que a mesa estaria posta e que talvez a irm
estivesse  espera dele, fechou o livro, levantou-se e encaminhou-se para a sala de
jantar.
      A sala de jantar era uma sala oblonga, com fogo, uma porta para a rua, como
j dissemos, e uma janela para o jardim.
      Efectivamente, Magloire acabava de pr a mesa.
      Ao mesmo tempo que andava neste servio, conversava com Baptistina.
      Sobre a mesa que ficava prxima do fogo estava colocado um candeeiro. No
fogo crepitava uma boa fogueira.
     Facilmente se pode imaginar o aspecto daquelas duas mulheres, ambas com
mais de sessenta anos. Magloire, baixa, gorda e gil; Baptistina, magra, dbil,
meiga, um pouco mais alta do que o irmo, trajando um vestido de seda cor de
castanha, que era a cor da moda em 1806, o qual ela comprara em Paris nesse ano
e que ainda lhe durava.
     Para nos servirmos de uma dessas locues vulgares que tm o mrito de
exprimir numa s frase uma ideia que mal se desenvolveria numa pgina,
Magloire parecia uma campnia e Baptistina uma fidalga.
     Magloire trazia uma touca branca de rufos na cabea, um cordozinho de
oiro ao pescoo, nico adereo feminino que havia em casa, um leno preto posto
por baixo de um vestido de l preto, com mangas largas e curtas, um avental de
chita de quadrados verdes e vermelhos, atado  cintura por uma fita verde, nos
ps, sapatos grossos e meias amarelas, como as mulheres de Marselha.
     O vestido de Baptistina era talhado pelos moldes de 1806: cinta curta, saia de
pouca roda, mangas de dragonas com abas e botes. Uma touca especial
ocultava-lhe os cabelos brancos.
     Magloire tinha ar de inteligncia, bondade e agilidade; os cantos da boca
desigualmente contrados, e o lbio superior mais grosso do que o inferior,
davam-lhe uma expresso de orgulhosamente imperial. Enquanto o bispo no
exprimia a sua vontade, ela falava resolutamente, com certa liberdade misturada
de respeito, mas apenas ele a manifestava, obedecia-lhe to submissamente como
Baptistina.
     Quanto a Baptistina, esta nem sequer abria a boca. Limitava-se a obedecer e a
condescender. Ainda mesmo em nova, no fora bonita; tinha olhos grandes e
azuis  flor do rosto, nariz comprido acavaletado; mas o seu aspecto indicava
inefvel bondade, fora predestinada para a mansido. Mas a f, a caridade e a
esperana, estas trs virtudes que reanimam a alma, foram gradualmente elevando
essa mansido a santidade. A natureza fizera-a ovelha, a religio f-la anjo. Pobre
santa! Doce recordao desvanecida!
     Baptistina referiu tantas vezes, no decorrer do tempo, o que naquela noite se
passou no pao, que muitas pessoas, que ainda hoje vivem, se recordam de todos
os pormenores da narrao.
     Na ocasio em que o bispo entrou, Magloire falava com certa vivacidade.
     Conversava com Baptistina sobre um assunto que lhe era familiar e ao qual o
bispo estava acostumado. Tratava-se da porta da rua.
      Parece que, na ocasio em que sara a fazer compras para a ceia, Magloire
ouvira dizer certas coisas em diversos lugares. Falava-se de um homem de m
catadura, de um vagabundo suspeito, que nesse dia tinha chegado  cidade, onde
decerto ainda permanecia; dizia-se que era provvel que nessa noite quem se
recolhesse tarde, tivesse algum mau encontro. Que a polcia era a culpada. Mas
como no havia de ser assim, se o prefeito e o maire, por causa da sua inimizade,
do que tratavam era de comprometer-se mutuamente, deixando andar tudo ao
Deus dar? Que pertencia  gente prudente incumbir-se da polcia e guardar-se a
si mesma, tendo o cuidado de fechar e aferrolhar bem as portas.
      Magloire acentuou muito estas ltimas palavras, mas o bispo que vinha do
seu quarto, onde sentira frio, sentou-se em frente do fogo a aquecer-se, com o
pensamento, ao que parecia, distrado noutras coisas. Por consequncia, passava
desapercebida para ele a frase que Magloire acentuava de propsito. Repetiu-a.
Ento, Baptistina, querendo satisfazer Magloire, sem desgostar o irmo,
aventurou-se a dizer timidamente:
      - O mano ouviu o que disse Magloire?
      - Vagamente - respondeu o bispo.
      Depois, voltando um pouco a cadeira, descansou as mos nos joelhos e,
erguendo para a velha criada o rosto cordial e risonho, a que o claro da fogueira
punha um tom insinuante, acrescentou:
      - Ento, o que h? Que sucedeu?
      Magloire repetiu a histria desde o princpio, exagerando-a at sem dar por
isso.
      Era o caso que, quela hora, se encontrava na cidade um vagabundo
esfarrapado, uma espcie de mendigo, perigoso, o qual se apresentara a pedir
pousada em casa de Jacquim Labarre, que no quisera recolh-lo, e a quem
tinham visto no boulevard Gassendi e andar a vaguear pelas ruas prximas ao
anoitecer. Era uma espcie de malandrim com uma cara de meter medo.
      - Sim? - disse o bispo.
      A condescendncia do prelado em interrog-la, animou Magloire, a quem, no
seu entender, esta circunstncia indicava que o bispo no estava longe de se
assustar; portanto, prosseguiu com ar triunfante:
      -  como lhe digo, Monsenhor. Tenho o pressentimento de que esta noite
acontece alguma desgraa na cidade! E ainda para mais, a polcia deixa correr
tudo sem tomar providncias (repetio intil). Viver numa terra montanhosa e
nem sequer haver  noite lampees pelas ruas! Se algum sai, arrisca-se a uma
desgraa na escurido! A menina tambm  da minha opinio, Monsenhor.
    - Eu? - atalhou Baptistina. - Eu no digo nada. O que o mano fizer  sempre
bem feito.
    Magloire continuou, como se no tivesse ouvido o protesto:
    - Dizamos h pouco que esta casa est muito mal segura e que se Monsenhor
o permitisse, eu iria ainda hoje chamar o serralheiro Paulino Musebois para vir
pr os antigos fechos que a porta tinha; esto ali,  um instante. E digo que so
precisos os fechos, ainda que no seja seno por esta noite, porque uma porta que
para se abrir de fora basta levantar uma aldraba  de fazer a gente andar sempre
em sobressalto; e, ainda para mais, Monsenhor tem o costume de mandar logo
entrar, e l pela noite morta nem  preciso pedir licena... Neste momento
bateram  porta com fora.
    - Entre quem  - disse o bispo.



    III
    Herosmo da obedincia passiva



     A porta abriu-se.
     Abriu-se de par em par, como se algum a empurrasse com energia e
resoluo.
     Entrou um homem.
     Este homem j ns conhecemos. Era o forasteiro que vimos h pouco a
divagar em busca de pousada Depois de entrar, deu um passo e parou, deixando
atrs de si a porta aberta.
     Trazia a mochila s costas, o cajado na mo. A expresso do seu olhar era
rude, atrevida, fatigada e violenta. Era uma apario sinistra.
     Magloire nem fora teve para gritar. Estremeceu e ficou boquiaberta.
     Baptistina voltou-se e, avistando o homem no momento em que ele entrava,
fez meno de erguer-se, aterrada por semelhante visita. Depois, lentamente,
voltou-se para o lado do fogo, fitou os olhos no irmo e a expresso do seu rosto
tornou-se completamente serena.
     O bispo fitava o desconhecido com aspecto tranquilo.
     No momento em que ele abria a boca para perguntar sem dvida ao
recm-chegado o que desejava, o homem encostou-se ao cajado com ambas as
mos, olhou para o velho e para as duas mulheres e, sem esperar que o bispo
falasse, disse em voz alta:
     - Chamo-me Joo Valjean. Sou um forado das gals, onde estive dezanove
anos.
     H quatro dias que fui posto em liberdade e vou a caminho de Pontarlier, que
 o meu destino. Ainda no parei desde que sa de Toulon. Hoje andei doze lguas
a p.
     Cheguei aqui quase  noite e fui a uma estalagem onde no me quiseram
recolher por causa do meu passaporte amarelo, que tinha apresentado na mairie,
por no ter outro remdio. Fui a outra estalagem e disseram-me: Pe-te daqui
para fora!. Assim tenho andado de um lado para outro, sem ningum me querer
recolher. Bati  porta da cadeia e o carcereiro no ma quis abrir. Recolhime na
casinhota dum co, mas o co mordeu-me e expulsou-me como o faria um
homem. Pareceu-me que tambm sabia quem eu era Parti em direco ao campo,
com inteno de dormir ao relento. O cu estava encoberto, e eu, lembrando-me
que poderia chover e que Deus no estaria para obstar a que a chuva casse, voltei
para a cidade a fim de me abrigar no vo de alguma porta. Estava eu ali no largo,
deitado em cima de um banco de pedra, quando uma senhora j idosa que ia a
passar me indicou a sua casa e me disse: Bata alm!. Assim fiz. Agora, diga-me,
o que  isto aqui? Se  uma estalagem, tenho dinheiro para pagar.
     Cento e nove francos e quinze soldos, que ganhei nas gals em dezanove anos
com o meu trabalho. Que tem l isso? Para que serve o dinheiro? Andei doze
lguas a p, estou estafado e tenho fome. Posso ficar?
     - Magloire - disse o bispo ponha mais um talher na mesa.
     O homem deu trs passos e continuou, aproximando-se da mesa em que
estava o candeeiro e como se no tivesse percebido bem:
     - Perdo, parece que no perceberam. Eu sou um forado sado h pouco
tempo das gals!
     E, tirando do bolso uma grande folha de papel, abriu-a e prosseguiu:
     - Aqui est o meu passaporte. Amarelo como vem, e que serve para me fazer
expulsar de toda a parte aonde chego. Quer ler? Eu tambm sei ler, aprendi na
priso.
     H l uma escola para os que querem aprender. Oia o que diz o passaporte:
Joo Valjean, forado, natural de... isto no interessa.  posto em liberdade
por ter concludo o tempo de gals, onde esteve dezanove anos. Cinco por crime
de roubo com arrombamento, catorze por tentar evadir-se quatro vezes.  um
homem perigosssimo. Ora aqui est. Toda a gente me repeliu! O senhor faz-me
o favor de me recolher? Se isto  uma estalagem, quer dar-me de comer e
deixar-me dormir a em qualquer canto, na estrebaria, por exemplo?
     - Magloire disse o bispo - ponha lenis lavados na cama da alcova.
     Magloire saiu imediatamente a pr em execuo as ordens do bispo. Este
voltou-se para o desconhecido e disselhe:
     - Sente-se, senhor, e aquea-se. A ceia no tarda e, enquanto o senhor se
demora a comer, a criada faz-lhe a cama.
     Desta vez, o homem avaliou a situao em que se encontrava. A expresso do
seu rosto, at ento sombria e dura, transformou-se em estupefaco, dvida e
alegria, principiando a balbuciar como louco:
     - Pois qu! O senhor no me pe fora, apesar de eu ser um forado? Tratame
por senhor quando todos me tratam por tu, quando me tratam pior do que a um
co? Eu pensava que o senhor me expulsaria, por isso disse logo quem era. Oh,
abenoada seja a santa mulher que me indicou a sua casa! vou cear, vou dormir
numa cama com colcho e lenis, como toda a gente! Uma cama! H dezanove
anos que no sei o que  dormir numa cama! com que ento no me manda pr
fora daqui? Abenoados sejam, j que tanta bondade tm com os desgraados!
Mas eu tenho dinheiro, hei-de recompens-los bem. Queira desculpar, senhor
estalajadeiro, mas como se chama?
     Olhe que no ficarei a dever nada.  estalajadeiro, no ?
     - Eu sou um padre que mora aqui - disse o bispo.
     - Padre! - replicou o homem. - Mas  um bom padre! Ento no me leva
dinheiro?  o cura desta grande igreja que est aqui ao p? Que grande bruto eu
sou!
     Ainda no tinha reparado no seu barrete.
     Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, o homem arrumava a um canto
o cajado e a mochila, tornara a meter o passaporte no bolso e sentara-se.
     Aps uma pequena pausa, continuou:
     - O senhor cura tem bom corao, no me tratou com desprezo! Ento no
quer que eu lhe pague?
     - No - disse o bispo - guarde o seu dinheiro. Quanto tem? Parece que disse
cento e nove francos?
     - E quinze soldos - acrescentou o homem.
     - Cento e nove francos e quinze soldos. E quanto tempo lhe levou a ganhar
,essa quantia?
     - Dezanove anos.
     - Dezanove anos!
     O bispo suspirou profundamente.
     O homem prosseguiu:
     - Ainda no encetei o meu dinheiro. Em quatro dias s gastei vinte e cinco
soldos, que ganhei a descarregar uns carros em Grasse. Uma vez que o senhor 
padre, vou ento contar-lhe. L nas gals tnhamos um capelo. E um dia vi um
bispo ou um Monsenhor, como lhe chamam. Era o bispo de Majore, em Marselha.
 o abade que governa em todos os abades. Perdo, o senhor  que sabe, eu disso
no entendo. Disse missa num altar no meio da priso, com uma coisa aguada na
cabea, que parecia de oiro, e que reluzia  luz do sol. A ele mal o vamos. Como
estava muito longe de ns, no percebemos o que ele disse. Ento  que eu vi o
que era um bispo.
     Enquanto ele falava, o bispo levantara-se e fora fechar a porta, que tinha
ficado aberta de par em par.
     Magloire regressou, trazendo um talher que ps sobre a mesa.
     - Magloire disse o bispo - ponha esse talher perto do lume. E, voltando-se
para o hspede, acrescentou:
     - A aragem da noite nestas terras parece que corta. O senhor deve estar com
frio?
     Cada vez que o bispo pronunciava a palavra senhor, com a sua voz de suave
gravidade e o seu modo atencioso, o rosto do homem iluminava-se. O tratamento
de senhor a um forado  como que um copo de gua a um nufrago da
Medusa. A ignomnia tem sede de considerao.
     - Este candeeiro d to pouca luz! disse o bispo.
     Magloire compreendeu e foi buscar acima do fogo do quarto do bispo os
dois castiais de prata, que acendeu e colocou em cima da mesa.
     - Senhor cura - disse o homem - o senhor  cheio de bondade e por isso no
me despreza. Recolhe-me em sua casa, manda acender os seus castiais por meu
respeito.
     Porm, eu j lhe disse donde venho e contei-lhe a minha desgraa.
     O bispo, que se encontrava sentado junto dele, tocou-lhe brandamente na
mo e disse:
     - O senhor no precisava de dizer-me quem era. Esta casa no  minha,  de
Jesus Cristo. Aquela porta no pergunta a quem entra se tem nome, mas sim se
tem algum infortnio. O senhor sofre, tem fome e sede, bem-vindo seja! No me
agradea por isso, no diga que o recebo em minha casa. O dono desta casa no
sou eu,  todo aquele que carece de asilo. Tudo quanto h nesta casa lhe pertence.
Que necessidade tenho eu de saber o seu nome? Alm disso, antes de mo dizer, j
eu sabia o nome que lhe havia de dar.
     O homem mostrou-se muito admirado.
     - Na verdade? Pois j sabia como me chamava?
     - Sabia - respondeu o bispo - chama-se meu irmo.
     - Olhe, senhor cura! - exclamou o homem. Quando entrei nesta casa, vinha a
morrer de fome; porm, o senhor tem tanta bondade, que eu j no sei o que
sinto, passou-me tudo!
     O bispo encarou-o, dizendo-lhe:
     - Tem sofrido muito?
     - Ora! A vestimenta vermelha, a grilheta ao p, uma tbua por cama, calor,
frio, trabalho, pancadas, corrente dobrada pela menor falta, calabouo por uma
palavra, sempre acorrentado, ainda que estivesse doente e de cama! Os ces,
senhor, ainda so mais felizes! Dezanove anos! E tenho quarenta e seis! Por fim, o
passaporte amarelo.
     Aqui tem o que tenho sofrido!
     - Sim - replicou o bispo - o senhor saiu de um lugar de tristeza. Mas
lembre-se que haver mais alegria no cu pelo rosto debulhado em lgrimas de
um pecador arrependido, do que pela tnica branca de cem justos. Se saiu dessa
manso de dores com pensamentos de dio e de clera contra os homens,  digno
de compaixo; se saiu com pensamentos de benevolncia, de doura e de paz, vale
mais que qualquer de ns.
     Entretanto, Magloire tinha posto a ceia na mesa; uma sopa feita de gua,
azeite, po e sal, um bocado de toucinho, um pedao de carne de carneiro, alguns
figos, um pouco de queijo fresco e po de centeio. A criada, de seu motu-prprio,
acrescentara uma garrafa de vinho velho de Mauves.
     O rosto do bispo tomou repentinamente essa expresso jovial peculiar aos
gnios hospedeiros.
     - Vamos para a mesa - disse ele com vivacidade, como tinha por costume,
quando algum estranho ceava na sua companhia. Fez sentar o homem  sua
direita, e Baptistina, de todo tranquilizada e restabelecida do seu receio, tomou
lugar  esquerda.
     O bispo disse o benedicite e em seguida, como costumava, serviu ele mesmo a
sopa. O homem principiou a comer avidamente.
     De repente, o bispo exclamou:
     - Parece-me que falta qualquer coisa na mesa!
     Efectivamente, Magloire s tinha posto os trs talheres necessrios. Ora, era
costume antigo, todas as vezes que o bispo tinha hspedes, pr na mesa os seis
talheres de prata.
     Ostentao inocente, graciosa aparncia de luxo, naquela casa agradvel e
severa, que elevava a pobreza at  dignidade, era uma espcie de criancice
encantadora.
     Magloire, compreendendo a observao, saiu sem dizer palavra e ao cabo de
um momento, os trs talheres reclamados pelo bispo brilhavam sobre a toalha,
simetricamente colocados diante de cada um dos trs convivas.



    IV
    Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier



     Chegados a este ponto, no podemos dar melhor ideia do que se passou
naquela noite  mesa do bispo do que transcrevendo aqui a passagem de uma
carta de Baptistina  condessa de Boischevron, na qual a conversa entre o forado
e o bispo  relatada com ingnua minuciosidade:
     ...Este homem no prestava ateno a ningum. Comia com voracidade de
esfaimado. No fim da ceia, porm, disse a meu irmo:
     - Senhor cura, isto  tudo bom de mais para mim, mas sempre lhe digo que
os carreteiros que no quiseram deixar-me comer com eles, passam melhor do
que o senhor!
     Aqui para ns, a observao do homem quase me escandalizou.
     Meu irmo respondeu:
     - No admira, trabalham mais do que eu.
     - No  por isso - replicou o homem  porque tm mais dinheiro. O senhor 
pobre, bem vejo; talvez nem mesmo seja cura. Pois olhe, se Deus fosse justo, devia
faz-lo mais do que cura!
     - Deus  mais do que justo! - disse meu irmo.
     E, passado um instante, acrescentou:
     - Ento o senhor Joo Valjean vai para Pontarlier?
     - Com itinerrio obrigado.
     Creio que foi assim que o homem disse.
     Em seguida continuou:
     - Amanh de madrugada, infalivelmente, tenho de pr-me a caminho. Mal
se pode andar agora. Se as noites esto frias, de dia no se pra com calor.
     - Pois vai para uma excelente terra - prosseguiu meu irmo. - No tempo da
revoluo, ficando a minha famlia arruinada, refugiei-me primeiro em
Franche-Cont, onde vivi algum tempo do meu trabalho. Tinha boa vontade, por
isso achei sem dificuldade em que me ocupar. H ali por onde escolher: fbricas
de papel, de distilao, lagares de azeite, relojoarias, fbricas de ao, de cobre, e
no menos de vinte oficinas de ferreiro, quatro das quais, as de Lods, Chttilon,
Audincourt e Buere, so muito considerveis... Parece-me no me enganar e que
so estes os nomes que meu irmo citou.
     Depois, interrompendo-se, dirigiu-me a palavra:
     -  mana, no temos l ainda alguns parentes?
     - Tnhamos - respondi eu. - Entre outros, o senhor Lucenet, que era capito
dos guardas barreiras, no tempo do antigo regime -  verdade - continuou meu
irmo - mas em 1793 no havia parentes; ningum podia contar seno com os
seus braos, portanto lancei-me ao trabalho. H em Pontarlier, para onde o
senhor Valjean vai, uma indstria especial e muito agradvel para quem a exerce.
So as fbricas de queijos, a que l chamam queijeiras.
     Ento meu irmo, sem deixar de instar com o homem para que comesse,
passou a explicar-lhe minuciosamente o que so as queijeiras de Pontarlier, que se
dividem em duas espcies: as grandes granjas, que pertencem a pessoas abastadas,
e onde h quarenta ou cinquenta vacas, as quais produzem sete ou oito mil queijos
cada Vero e as queijeiras de associao, que pertencem a montanheses pobres,
que sustentam as suas vacas em comum e dividem depois os produtos. Estes
ltimos tm assoldadado um queijeiro, ao qual chamam grurin, que recebe o leite
das vacas dos associados trs vezes ao dia, tomando nota exacta da poro que
pertence a cada um dos scios. Por fins de Abril principia o trabalho das queijeiras
e em meados de Junho  que os queijeiros conduzem as vacas  montanha.
     O homem ia-se reanimando,  proporo que comia. Meu irmo fazia-lhe
beber o excelente vinho de Mauves, que ele mesmo no bebe, porque diz que 
vinho caro.
     Explicava-lhe estes pormenores com aquele ar prazenteiro que a minha amiga
lhe conhece, entremeando as suas palavras de graciosas atenes para comigo.
Quando falou no bom ofcio de grurin, como se desejasse que o seu hspede
entendesse, sem que lho aconselhasse directamente, que seria bom recurso para
ele.
     Uma circunstncia se deu que me fez impresso.
     O homem era o que j lhe disse. Pois meu irmo, no s durante a ceia, mas
em todo o tempo que estiveram juntos antes de se recolherem, exceptu-ando
algumas palavras a respeito de Jesus, quando ele entrou, no proferiu uma nica
palavra que pudesse recordar ao homem o que tinha sido, nem o que ele prprio
era Fora, na aparncia, excelente ocasio de pregar um pouco e de fazer sentir ao
forado o predomnio do bispo, imprimindo-lhe assim a marca da passagem pela
sua sede. Para qualquer outro que assim tivesse na mo aquele desgraado, era
bem cabida a ocasio de lhe dar, ao mesmo tempo, o alimento do corpo e do
esprito, fazendo-lhe alguma admoestao com grande cabedal de moral e bons
conselhos, ou de mostrar comiserao, exortando-o a comportar-se melhor para o
futuro. Meu irmo nem sequer lhe perguntou de que terra era, nem a histria da
sua vida, pois nela se dera uma falta e meu irmo parecia que evitava quanto
pudesse recordar-lha. A tal extremo levava isto, que uma vez, falando dos
montanheses de Pontarlier, que tm um suave trabalho perto do cu e que
acrescentava ele so felizes porque so inocentes, calou-se de repente, receando
que esta palavra, a seu pesar proferida, ofendesse o homem em alguma coisa.
      fora de reflexo, parece-me ter compreendido o que se passava no
corao de meu irmo. Ele entendia, sem dvida, que o homem chamado Joo
Valjean, tinha em demasia presente no esprito a sua misria, que o melhor seria
distra-lo dela e faz-lo persuadir, embora por um s instante, que era uma pessoa
como outra qualquer, tratando-o a ele como tratava a toda a gente.
     No acha, minha amiga, um no sei qu de evanglico nesta delicadeza que
se abstm de prticas, de moral, de aluses, e no lhe parece que a melhor
compaixo para com o homem que tem uma ferida  no lhe tocar nela?
     Pareceu-me ser este o motivo secreto por que meu irmo assim procedia.
     Em todo o caso, o que posso assegurar,  que se ele teve todas estas ideias,
nem a mim as deu a conhecer; conservou-se desde o princpio ao fim, segundo o
seu costume, ceando com o tal Joo Valjean com o mesmo ar e as mesmas
atenes que teria, se se achasse presente o senhor Gedeo Preboste ou o prior da
freguesia.
     No fim, quando j estvamos na sobremesa, bateram  porta. Era a tia
Gerbaud com o filhinho nos braos. Meu irmo beijou a criancinha na testa e
pediu-me quinze soldos para os dar  tia Gerbaud. O homem quase no dava
ateno ao que se passava.
     No proferia uma s palavra e dava indcios de estar muito cansado. Apenas a
pobre Gerbaud saiu, meu irmo deu graas e voltou-se depois para o homem,
dizendo-lhe:
     - Agora trate de descansar, que lhe h-de ser necessrio.
     Magloire levantou a mesa num instante e, entendendo que devamos
retirar-nos para deixar o hspede  sua vontade, subimos ambas para os nossos
quartos.
     Todavia, um instante depois, mandei Magloire ir deitar sobre a cama do
pobre homem uma pele de cabrito monts da Floresta Negra, que eu tinha no meu
quarto. As noites vo frias e a pele aquece muito. Pena  que ela esteja to velha,
tem-lhe cado o plo quase todo. Foi comprada por meu irmo no tempo em que
ele esteve na Alemanha, em Tottlingen, prximo  nascente do Danbio, assim
como a faquinha de cabo de marfim de que me sirvo  mesa.
     Magloire voltou logo a seguir e fomos ambas rezar na sala onde estendemos
a roupa e depois recolhemo-nos aos nossos quartos sem proferir mais uma
palavra.



    V
    Tranquilidade



     Monsenhor Bemvindo, depois de se ter despedido da irm, pegou num dos
castiais de prata que estavam em cima da mesa e entregou o outro ao seu
hspede, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
     - Vou conduzi-lo ao seu quarto.
     O homem seguiu-o.
     Como acima dissemos, a casa era dividida de tal modo que para se passar
para o oratrio, em que ficava a alcova, ou sair dele, era necessrio atravessar o
quarto do bispo.
     Na ocasio em que ambos o atravessavam, Magloire guardava os talheres de
prata no armrio que ficava  cabeceira da cama. Era o ltimo servio que fazia
todas as noites antes de se ir deitar.
     O bispo conduziu o hspede  alcova, onde se via uma cama preparada com
toda a limpeza e uma mesinha, sobre a qual o homem pousou o castial.
     - Ora vamos - disselhe o bispo - durma bem e pela manh no se v sem
primeiro tomar uma chvena de leite quente das nossas vacas.
     - Muito obrigado, senhor cura - respondeu o homem.
     Mal proferira, porm, estas palavras cheias de serenidade, teve de repente e
sem transio um movimento impetuoso, que gelaria de susto as duas boas
mulheres, se dele fossem testemunhas. Ainda mesmo hoje  para ns difcil fixar a
causa que, naquele momento, operava sobre ele. Seria acaso sua inteno fazer
uma advertncia ou uma ameaa? Teria obedecido a uma espcie de impulso
instintivo e para ele mesmo obscuro? A verdade  que se voltou de repente para o
velho, cruzou os braos e, fitando-o com um olhar selvagem, exclamou com voz
rouca:
     - Ento recolhe-me em sua casa e d-me um quarto assim to prximo do
seu?
     E, interrompendo-se, acrescentou com um sorriso em que havia o que quer
que fosse de monstruoso:
     - J pensou bem? Quem lhe assegura que eu no seja um assassino?
     - Isso s pertence a Deus! - respondeu o bispo.
     Depois, com a maior gravidade, elevou os dois dedos da mo direita e,
mexendo os lbios como quem reza ou fala consigo mesmo, abenoou o homem,
que no se inclinou. Em seguida, e sem voltar a cabea, dirigiu-se para o seu
quarto.
     Sempre que na alcova ficava algum, Magloire tinha o cuidado de correr uma
cortina que havia no oratrio, ocultando assim inteiramente o altar. O bispo, ao
passar por diante da cortina, ajoelhou e fez uma breve orao.
     Um momento depois, encontrava-se a passear no quintal, meditando,
contemplando, com a alma e o pensamento alheados nessas sublimes e
misteriosas coisas que Deus mostra de noite aos olhos que velam.
     Quanto ao hspede, estava realmente to cansado, que nem se aproveitou dos
lenis lavados. Apagou a luz com um sopro das ventas, segundo o uso dos
forados e atirou-se vestido para cima da cama, adormecendo logo
profundamente.
     Batia meia-noite quando o bispo, interrompendo o seu costumado passeio no
jardim, entrou no seu quarto.
     Decorridos mais alguns minutos, a casa jazia no mais profundo silncio.
    VI
    Joo Valjean



     O hspede do bispo acordou alta noite.
     Joo Valjean era oriundo de uma pobre famlia de camponeses de Brie. Na
sua infncia no aprendera a ler. Depois de homem fizera-se podador em
Taverolles. Sua me chamava-se Joana Mateus e seu pai Joo Valjean ou Vlajean,
alcunha talvez formada pela contraco de voil Jean.
     Joo Valjean era dotado de carcter pensativo, sem ser triste, circunstncia
particular s naturezas afectuosas. No fim de tudo, porm, no passava de uma
criatura dorminhoca e destituda de interesse, ao menos aparentemente. Perdera
os pais ainda de tenra idade. A me morrera vtima de uma febre de leite mal
tratada; o pai, que fora tambm podador, morrera em consequncia de uma
queda, caindo de uma rvore. No ficara a Joo Valjean seno uma irm, mais
velha do que ele, viva, com sete filhos, entre rapazes e raparigas. A irm tomou
conta de Valjean, e enquanto o marido foi vivo conservou o irmo na sua
companhia e sustentou-o. Mas o marido morreu A mais velha das sete criancinhas
tinha oito anos, a mais nova doze meses Joo Valjean tinha completado vinte e
cinco anos. Para as criancinhas substituiu o pai que lhes faltara, e por sua vez
passou a amparar a irm que o amparara a ele. Esta mudana operou-se com a
maior simplicidade, como se fora um dever, e at com certo orgulho da parte de
Joo. Assim consumira a mocidade num trabalho rude e mal retribudo. Nunca
lhe tinham conhecido afeio amorosa, nunca tivera tempo para se preocupar
com o amor.
      noite recolhia a casa fatigado e comia a sua sopa sem proferir uma s
palavra.
     s vezes, sua irm, quando ele estava a comer, tirava-lhe da tigela o melhor
da ceia, isto , o bocado de carne, de toucinho, ou o olho de couve, para dar a
algum dos filhos; ele no deixava de comer, curvado sobre a mesa e com a cabea
quase metida na tigela, os compridos cabelos cados para diante dos olhos, nem
opunha resistncia, parecendo no dar por coisa alguma. Havia em Taverolles,
prximo da habitao dos Valjeans, do outro lado do lugar, uma caseira chamada
Maria Cludia; s vezes, os filhos de Joana, quase sempre esfaimados, iam pedir
em nome da me, uma poro de leite a Maria Cludia e bebiam-no atrs de
algum valado ou na volta de qualquer caminho, arrancando-se to sofregamente a
bilha uns aos outros, que s vezes as rapariguinhas entornavam-no pelas roupas
que traziam. Se a me tivesse conhecimento destes pequenos abusos de confiana,
castigaria severamente os delinquentes. Joo Valjean, apesar dos seus modos
bruscos, pagava o leite a Maria Cludia s escondidas da me e as criancinhas no
eram castigadas.
     No tempo das podas, ganhava vinte e quatro soldos por dia; terminadas elas,
ajustava-se como ceifeiro, como cavador, como moo de gado, como jornaleiro,
enfim, fazia tudo o que podia. A irm, pela sua parte, tambm no ficava ociosa.
Mas que valia o trabalho de dois para sustentar um rancho de sete criancinhas?
Era um triste grupo, que a misria pouco a pouco foi abraando e apertando no
seu crculo de ferro.
     Chegou um Inverno muito rigoroso, em que Joo Valjean no encontrou que
fazer.
     Ficou sem trabalho e a famlia sem po. Sete criancinhas sem po!
     Num domingo  noite, preparava-se Maubert Isabeau, padeiro com
estabelecimento no largo da igreja, em Taverolles, para se deitar, quando ouviu
uma violenta pancada na vidraa gradeada da sua loja. Correu imediatamente
para ali e chegou a tempo de ver um brao passando por uma abertura feita no
vidro com um murro, pegar num po e lev-lo. Isabeau saiu apressadamente e
correu atrs do ladro, que fugia como lhe permitiam as pernas, conseguindo
alcan-lo.
     O ladro largara o po no caminho durante a corrida, mas tinha ainda o
brao ensanguentado. Era Joo Valjean.
     Passava-se isto em 1795.
     Joo Valjean foi levado aos tribunais daquele tempo pelo crime de roubo
nocturno com arrombamento, praticado numa casa habitada. Possua uma
espingarda de que se servia como o melhor atirador e exercia s vezes o mister de
caador furtivo.
     Tudo isto lhe foi prejudicial. H contra os caadores furtivos um preconceito
legtimo.
     O caador furtivo e o contrabandista vizinham paredes meias com o
salteador.



     Contudo, seja dito de passagem, entre estas raas de homens e o medonho
assassino das cidades h ainda um profundo abismo.
     O caador furtivo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar.
As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corrup-tos. A
montanha, o mar e a floresta, produzem homens selvagens: desenvol-vem a parte
feroz, porm muitas vezes sem destruir a parte humana.
     Joo Valjean foi considerado criminoso. Os termos do cdigo eram formais.
     Existem na nossa civilizao momentos terrveis: os momentos em que a
penalidade  descarregada sobre um culpado. Que lgubre momento aquele em
que a sociedade se desvia e consuma o irreparvel desamparo de uma criatura
racional! Joo Valjean foi condenado a cinco anos de gals.
     A 22 de Abril de 1796, proclamava-se em Paris a vitria de Montennotte,
alcanada pelo general em chefe do exrcito de Itlia, que a mensagem do
Directrio de Quinhentos, chama Buonaparte, e nesse mesmo dia saa de Bictre
uma numerosa leva de forados. Joo Valjean fazia parte dessa leva. Um antigo
carcereiro daquela priso, que conta hoje perto de oitenta anos, lembra-se ainda
perfeitamente desse infeliz que foi acorrentado na extremidade do quarto cordo,
no ngulo norte do ptio.
     Jazia sentado no cho como todos os outros e parecia no compreender mais
nada alm do horror da sua situao.  provvel que por entre as vagas ideias da
sua lamentvel ignorncia se lhe afigurasse excessivo o tormento que os homens
lhe infligiam. Todo o tempo que lhe estiveram a soldar a argola da gotilha, pelo
lado de trs, o que se fazia descarregando sobre o ferro grandes marteladas, o
infeliz chorou sempre e, sufocado pelas lgrimas que lhe embargavam a voz,
apenas de quando em quando se lhe ouvia dizer: Eu era um pobre podador em
Taverolles! Ao dizer isto, no meio de contnuos soluos, levantava e baixava
gradualmente a mo direita sete vezes, como se tocasse sucessivamente em sete
cabeas desiguais, e por este gesto depreendia-se que o crime que cometera, fora
para alimentar sete crianas.
     Partiu para Toulon, onde chegou ao cabo de uma viagem de vinte e sete dias,
num carro e com a corrente de forado ao pescoo. Em Toulon vestiram-lhe a
jaqueta vermelha, que constitui o trajo dos sentenciados s gals. Desde ento,
tudo o que constitura a sua existncia at a se desvaneceu, incluindo o nome;
deixou de ser Joo Valjean para ser apenas um nmero, o 24.601. E sua irm? Que
destino levou? Que destino levaram aquelas sete criancinhas? Quem se ocupa de
semelhantes coisas?
     Perguntai ao tufo que passa para onde arremessou as folhas secas da
pequena rvore serrada pelo p.
      sempre a mesma histria. Aquelas pobres criaturas de Deus, agora sem
apoio, sem guia nem asilo, partiram ao acaso, talvez mesmo que cada qual pelo
seu lado, e pouco a pouco se foram embrenhando nessa nvoa frgida em que se
perdem os destinos solitrios, trevas espessas no meio das quais sucessivamente
desaparecem tantas frontes assinaladas com o estigma do infortnio, durante a
triste peregrinao da humanidade. Abandonaram a terra que os viu nascer; o
campanrio da sua aldeia esqueceu-os; esqueceu-os o marco do campo que fora
seu; no fim de alguns anos passados nas gals, at o prprio Joo Valjean os
esqueceu. Naquele corao, onde existira uma ferida, ficara uma cicatriz. Eis tudo.
Durante todo o tempo que esteve em Toulon, uma s vez ouviu falar da irm. Foi
pelos fins do seu quarto ano de cativeiro.
     Algum que os conhecera na terra tinha visto a irm. Residia em Paris, onde
morava numa rua pobre das proximidades de S. Sulpcio, chamada a rua de
Geindre. Apenas tinha na sua companhia um filho, o mais novo de todos. Onde
estavam os outros seis?
     Nem ela mesmo o saberia dizer. Todas as manhs ia trabalhar para uma
tipografia na rua do Sabot, n. 3, onde exercia o mister de encadernadora, e onde
tinha de estar s seis horas da manh, hora que de Inverno ainda nem se conhece
o dia. No mesmo edifcio havia uma escola, para onde ela levava o filho, que tinha
sete anos. Como ela, porm, entrava s seis horas, e a escola no se abria seno s
sete, a pobre criana, a quem no consentiam entrada na tipografia, tinha de
esperar uma hora c fora, no Inverno, ao relento da noite, antes de principiar a
aula. Todas as manhs, os operrios que passavam, viam a infeliz criana sentada
no cho, pendendo com sono, e muitas vezes a dormir nalgum canto, acocorado e
encostado ao seu cestinho.
     Quando chovia, a porteira, compadecida do rapazinho, recolhia-o no seu
cubculo, onde havia apenas uma enxerga, uma roda de fiar e duas cadeiras de
pau; o pequeno deitava-se a um canto e adormecia abraado ao gato para no ter
tanto frio.
     s sete horas abria-se a escola e ele l se apresentava.
     Eis o que disseram a Joo Valjean. Contaram-lhe isto um dia, foi um
momento, um relmpago, como uma janela repentinamente aberta sobre os
destinos dos entes que ele tanto amava e que logo aps se fechou. Depois disto no
tornou a ouvir falar deles, foi aquela a ltima vez. Nada mais soube a seu respeito,
nunca os tornou a ver, nem no decurso desta dolorosa histria se tornar a fazer
meno a eles.
     Nos fins do quarto ano, chegou a Joo Valjean a vez de se evadir, no que foi
auxiliado pelos seus camaradas, como  costume de to triste lugar. Evadiu-se e
andou dois dias errante pelos campos, usufruindo a liberdade, se  ser livre ver-se
perseguido, voltar a cabea a todo o instante, estremecer ao menor rudo, ter
medo de tudo, da chamin que fumega, do homem que passa, do co que ladra, do
cavalo que galopa, da hora que bate, do dia porque se v, da noite porque se no
v, da estrada, do atalho, do arvoredo, do sono.
     Na noite do segundo dia, Joo Valjean era recapturado.
     Havia trinta e seis horas que no tinha comido nem bebido.
     Em virtude deste novo delito, foi condenado pelo tribunal martimo a uma
prolongao de trs anos, o que perfez oito anos.
     Ao fim do sexto ano, chegou-lhe novamente ocasio de se evadir;
aproveitou-se dela, mas no chegou a consumar a fuga. Apenas deram pela sua
falta na ocasio da chamada, dispararam o tiro de pea do costume, e, apesar da
escurido da noite, deram com ele escondido debaixo da quilha de um navio em
construo. Resistiu aos guardas que o prenderam.
     Crime de evaso e rebelio Este novo delito, previsto pelo cdigo especial, foi
punido com um agravo de cinco anos, sendo dois de dupla grilheta. Treze anos.
     No dcimo ano, tentou a fuga novamente, porm, no foi mais feliz do que
das outras vezes. Mais trs anos por esta nova tentativa. Dezasseis anos.
     Finalmente, no dcimo terceiro ano, tentou mais uma vez evadir-se e foi
novamente preso depois de quatro horas de liberdade. Trs anos por estas quatro
horas.
     Em Outubro de 1815 foi posto em liberdade, tendo entrado em 1796, por ter
quebrado um vidro e furtado um po.
     Permitam-nos aqui um parntesis.
      a segunda vez, nos seus estudos sobre a penalidade e sobre a condena-o
pela lei, que o autor deste livro encontra o roubo de um po, como origem da
catstrofe de um destino Cludio Gueux roubara um po; Joo Valjean tinha
roubado um po; segundo uma estatstica inglesa, est provado que em Londres
de cinco roubos quatro tm por causa imediata a fome.
     Joo Valjean entrara para as gals soluante e trmulo; saiu de l impass-vel.
     Entrara angustiado, saiu sombrio.
     Que se passara naquela alma?
    VII
    O interior do desespero



    Vamos tentar descrev-lo.

      indispensvel que a sociedade olhe para estas coisas, visto serem obra sua.
     Joo Valjean era ignorante, mas no imbecil. Ardia ainda naquele homem a
luz natural. O infortnio, que traz consigo um tal ou qual claro, aumentou a
pouca claridade que havia naquele esprito. No obstante o azorrague, a grilheta, o
calaboio, o trabalho incessante, o sol ardente das gals, a tarimba dos forados,
Joo Valjean concentrou-se na sua conscincia e reflectiu.
     Constitura-se em tribunal e principiou por julgar-se a si prprio.
     Reconheceu ento que no era um inocente injustamente punido.
     Confessou a ss consigo que cometera uma aco violenta e repreensvel; que
talvez lhe no recusassem aquele po, se o tivesse pedido; que, em todo o caso,
sempre lhe fora melhor esper-lo, ou da compaixo ou do trabalho; que no era,
em suma, razo definitiva e sem rplica dizer-se: no  possvel a espera quando se
morre de fome. Primeiro, porque  rarssimo que algum morra literalmente 
fome; segundo, porque, feliz ou infelizmente, o homem  conformado de tal
modo, que pode padecer muito e por espao de muito tempo, sem morrer, quer
fsica, quer moralmente; que devia, portanto, ter sofrido com resignao, o que
mesmo teria sido melhor para aquelas pobres criancinhas; que fora por certo um
acto de loucura nele, mesquinha criatura impotente, querer arcar com a sociedade
a peito descoberto e imaginar que o roubo o podia tirar da misria; que,
finalmente, era m porta para sair da misria aquela por onde se entra na infmia
e concluiu que procedera mal.
     Depois fez a si prprio as seguintes perguntas:
     Fora ele o nico que procedera mal na sua fatal histria? Antes de tudo, no
era uma coisa grave que um trabalhador como ele no tivesse em que se ocupar;
que um homem laborioso como ele no tivesse que comer? Em segundo lugar,
confessada a culpa cometida, no fora brbaro e desmesurado o castigo infligido?
No houvera maior abuso da parte da lei na pena do que da parte do criminoso na
culpa? No houvera excesso de peso no prato da balana que contm a expiao?
O excesso do castigo no seria a aniquilao do delito e no daria em resultado
inverter as situaes, substituindo a culpa do delinquente pela culpa da represso,
fazendo do criminoso a vtima e do devedor credor e pondo definitivamente o
direito da parte daquele mesmo que o violara? Aquele castigo, complicado com
sucessivos agravos por tentativas de evaso, no viria a ser, por ltimo, um
atentado do mais forte contra o mais fraco, um crime da sociedade contra o
indivduo, crime que recomeara todos os dias, crime que durara dezanove anos?
     Perguntou a si prprio se a sociedade humana podia ter o direito de fazer
sofrer igualmente a todos os seus membros, num caso a sua desarrazoada
imprevidncia, noutro a sua previdente inexorabilidade, e de sequestrar para
sempre a liberdade a um infeliz entre uma falta e um excesso - falta de trabalho,
excesso de castigo.
     Se no era exorbitante que a sociedade assim tratasse injustamente os seus
membros mais mal contemplados na repartio dos bens que d o acaso, e, por
conseguinte, mais dignos de considerao.
     Propostas e resolvidas estas questes, julgou a sociedade e condenou-a.
     Condenou-a ao seu dio. Tornou-a responsvel pela sorte que experimentava
e pareceu-lhe que talvez no hesitasse em pedir-lhe contas algum dia a si prprio
afirmou que no havia equilbrio entre o dano que causara e o dano que lhe
causavam; concluiu, por fim, que o seu castigo no era, na verdade, uma injustia,
mas uma incontestvel iniquidade.
     A clera pode ser louca e absurda; pode o homem sentir-se irritado sem forte
motivo para isso, mas a indignao tem sempre por base uma razo poderosa.
Joo Valjean sentia-se indignado.
     Alm disso, a sociedade humana nunca lhe fizera seno mal; nunca lhe
conhecera seno o aspecto irado, chamado por ela a sua justia, que mostra
queles a quem fere. Nunca homem algum se achegara a ele seno para o
mal-tratar. O contacto com eles fora-lhe sempre motivo de alguma dor. Nunca
mais, depois da sua infncia, morta sua me, perdida sua irm, nunca mais
encontrara uma palavra amiga, um olhar benvolo. De sofrimento em sofrimento,
chegara a pouco e pouco  convico de que a vida  uma guerra, guerra em que o
vencido era ele. A nica arma que possua era o seu dio. Resolveu afi-la nas
gals e lev-la consigo quando dali sasse.
     Havia em Toulon uma escola para os forados, na qual se ensinava o essencial
a alguns daqueles desgraados que tinham boa vontade. Joo Valjean foi do
nmero desses homens Frequentou a escola tendo quarenta anos e aprendeu a ler,
a escrever e a contar. Sentiu que desenvolvendo a inteligncia, fortificava o seu
dio. Em certos casos, a instruo e a luz podem servir para desenvolver a
maldade.
     Triste  diz-lo, mas depois de ter julgado a sociedade que o fizera
desgra-ado, julgou a Providncia, que estabelecera a sociedade e condenou-a
tambm.
     Assim, durante aqueles dezanove anos de tormentos e escravido, aquela
alma elevara-se e precipitara-se ao mesmo tempo. Por um lado recebera luz, pelo
outro as trevas Joo Valjean no era dotado de maus instintos. Quando entrou
para as gals, ainda no tinha perdido a natural bondade. L condenou a
sociedade e conheceu que se tornara mau; condenou a Providncia e tornava-se
mpio.
     No podemos continuar sem reflectir um momento.

     Em verdade, a natureza humana transforma-se assim to completamente? O
homem que saiu bom das mos de Deus pode tornar-se mau entre as mos do
homem?
     A alma pode ser integralmente transformada pelo destino e tornar-se m,
sendo mau esse destino? O corao pode tornar-se disforme e contrair
enfermidades incurveis sobre a presso de um desproporcionado infortnio,
como a coluna vertebral debaixo de uma abbada extremamente baixa? Acaso no
existe na alma de qualquer homem, acaso no existia na alma de Joo Valjean em
particular, uma centelha primitiva, um elemento divino, incorruptvel neste
mundo, imortal no outro, que pode desenvolver o bem, acender e fazer fulgurar
esplendorosamente e que jamais o mal pode extinguir inteiramente?
     Graves e obscuras perguntas,  ltima das quais qualquer fisiologista talvez
respondesse negativamente e sem hesitao, se tivesse visto em Toulon, nas horas
de repouso, que para Joo Valjean eram horas de melanclica medi-tao,
sentado, de braos cruzados, em cima de algum dos poiais que servem para a
amarrao dos navios, com a extremidade inferior da grilheta suspensa da
abertura do bolso, para no andar com ela de rastos, aquele forado taciturno,
grave, silencioso e pensativo, pria das leis que contemplava os homens com
aspecto irado, condenado pela civilizao, que contemplava o cu com severidade.
     Por certo que o fisiologista teria visto naquele homem uma misria
irremedivel; teria lamentado aquele enfermo produzido pela lei, mas nem sequer
tentaria um tratamento; desviaria os olhos das cavernas que entrevisse naquela
alma, e, como Dante fez da porta do inferno, riscaria daquela existncia a palavra
que o dedo de Deus, apesar de tudo, escreveu na fronte de todo o homem:
Esperana! Seria este estado da alma de Joo Valjean, to perfeitamente claro
para ele, como ns diligencimos que o fosse para quem nos l? Joo Valjean veria
acaso distintamente aps a sua formao e veria distintamente  medida que se
tinham ido formando, todos os elementos de que se compunha a sua misria
moral? Teria esse homem rude e ignorante claro conhecimento da sucesso de
ideias, mediante a qual gradualmente subira e descera at aos lgubres aspectos
que eram, havia j tantos anos, o interior horizonte do seu esprito? Teria perfeita
conscincia de quanto se passara nele e todas as suas sensaes?
      o que no ousaremos dizer;  at o que no acreditamos.
     Joo Valjean era demasiadamente ignorante para que, mesmo aps to
grandes infortnios, se no desse na sua alma um grande vcuo Havia ocasies em
que nem ele prprio sabia ao certo o que experimentava. Joo Valjean jazia no
meio das trevas, sofria no meio das trevas, odiava no meio das trevas. Vivia por
hbito no meio desta escurido, s apalpadelas como um cego ou como um
homem que sonha.
     De tempos a tempos, originado nele ou produzido por uma causa exterior,
era de sbito acometido por um acesso de clera e que era como um requinte de
sofrimento, um plido e rpido fulgor que lhe iluminava todas as sinuosidades da
alma, fazendo repentinamente despontar em torno dele para qualquer parte que
lanasse a vista, os pavorosos precipcios e sombrias perspectivas do seu destino,
ao claro de uma medonha luz.
     Extinto esse fulgor, envolvia-o de novo a escurido e nem ele prprio sabia
onde se encontrava.
     O caracterstico das punies desta natureza, nas quais domina o inexo-rvel,
isto , o elemento embrutecedor,  transformarem gradualmente, por uma espcie
de estpida transfigurao, um homem num animal perigoso.
     Algumas vezes num animal feroz. Bastariam para provar esta singular aco
exercida pela lei sobre a alma humana, as necessrias e pertinazes tentativas de
evaso levadas a efeito por Joo Valjean Ele renovaria essas tentativas, to
completamente ineficazes e tolas, tantas vezes quantas se lhe oferecesse ensejo
para as realizar, sem reflectir, por um s instante, nem no resultado nem nas
experincias j feitas. Irrompia impetuoso, como o lobo que avista a janela aberta.
Dizia-lhe o instinto: Foge! O raciocnio ter-lhe-ia decerto dito: No fujas!
Porm, diante de to forte tentao, a razo desaparecia e ficava s o instinto. A
besta era quem agia. Depois agarravam-no outra vez e as novas severidades que
lhe infligiam apenas conseguiam torn-lo ainda mais bravio.
     Uma particularidade se dava nele que no devemos omitir.
     Joo Valjean era dotado de uma fora fsica, a respeito da qual nenhum dos
seus companheiros das gals o igualava. No trabalho de alar um cabo ou de puxar
um cabrestante, valia por quatro homens. Levantava e conduzia muitas vezes s
costas enormes pesos, substituindo quando era preciso o instrumento chamado
crie, que outrora tinha o nome de orgueil, donde, seja dito de passagem,
tomou nome a rua de Montorgueil.
     Em razo disto, os seus camaradas alcunharam-no de Joo-le-Cric.
     Uma ocasio, andando a fazer-se alguns reparos na varanda da casa da
cmara de Toulon, uma das admirveis cariatides de Puget que sustentam a
varanda deslocou-se e esteve quase a vir a terra. Joo Valjean, que se encontrava
prximo, deitou os ombros  cariatide e sustentou-a sozinho enquanto os outros
operrios no acudiram.
     A sua destreza ultrapassava ainda o vigor de que era dotado. Certos fora-dos,
perptuos sonhadores de evases, chegam a fazer da fora e da destreza
combinadas, verdadeira cincia.  a cincia dos msculos. Uma completa e
misteriosa estatstica  quotidianamente posta em prtica pelos presos, eternos
invejosos dos pssaros e das moscas. Trepar por uma vertical e achar pontos de
apoio onde apenas se via uma salincia, era um brinquedo para Joo Valjean.
Dado o ngulo de uma parede, com a tenso das costas e das curvas das pernas,
com os cotovelos e os calcanhares fincados nas asperezas da pedra, iava-se como
por magia  altura de um terceiro andar. As vezes subia deste modo at ao telhado
da priso.
     Joo Valjean falava pouco e nunca se ria. Era necessrio uma comoo
extraordinria para lhe arrancar, uma ou duas vezes por ano, aquele lgubre riso
do forado, que  como que o eco de um rir infernal. Ao ver a expresso habitual
do seu rosto, dir-se-ia que aquele homem trazia de contnuo os olhos fitos em
alguma pavorosa viso. Andava, com efeito, absorto.
     Por entre as confusas percepes de uma natureza incompleta e de uma
inteligncia atrofiada, Joo Valjean conhecia vagamente que pesava sobre ele o
que quer que fosse de monstruoso. No meio da obscura e desmaiada penumbra
em que se arrastava, de cada vez que voltava a cabea e tentava elevar os olhos, via
com terror misturado de raiva, surgir, erguer-se, elevar-se em alturas
incomensurveis, com horrveis escarpamentos, uma espcie de pavoroso monto
de coisas, leis, preconceitos, homens e factos, cujos contornos mal distinguia, cuja
aglomerao o amedrontava, e que no era nada mais do que essa maravilhosa
pirmide a que ns chamamos civilizao.
      No meio desse conjunto desigual e disforme, divisava aqui e alm, ora
prximo a ele, ora longe e em alturas inacessveis, algum grupo, alguma salin-cia
iluminada por um claro mais vivo; aqui, por exemplo, o guarda-chusma com o
seu azorrague, alm o gendarme com o seu sabre, mais ao longe o arcebispo
mitrado, mais acima ainda e no meio de uma como aurola resplandecente, o
imperador coroado e coruscante.
      Parecia-lhe que esses longnquos esplendores, em vez de dissipar as trevas que
o circundavam, as tornavam mais carregadas e fnebres.
      Tudo isso, leis, preconceitos, factos, homens, cruzava-se numa regio
superior, consoante o misterioso e complicado movimento que Deus imprime 
civilizao, caminhando por cima dele e esmagando-o com o que quer que era de
serena crueldade e inexorvel indiferena.
      Almas despenhadas no abismo do mais intenso infortnio, homens infelizes
perdidos no mais fundo desses limbos, para os quais ningum deita os olhos, os
rprobos da lei sentem sobre si todo o peso da sociedade humana, to horrvel
para os que se acham de fora, to terrvel para os que se acham por baixo.
      Vtima desta situao, Joo Valjean meditava. De que natureza poderiam ser
as suas cogitaes?
      Se o gro de milho debaixo da m pensasse, pensaria, sem dvida, o que Joo
Valjean pensava.
      Todas estas coisas, realidades cheias de espectros, fantasmagorias cheias de
realidade, tinham, por ltimo, criado nele certo estado interior quase inexplicvel
s vezes, no meio da sua tarefa de forado, parava e punha-se a meditar. E ento,
a sua razo, conjuntamente mais aperfeioada e mais desorientada do que noutro
tempo, revoltava-se contra o destino. Parecia-lhe absurdo quanto lhe tinha
acontecido, afigurava-se-lhe impossvel quanto o rodeava. Dizia no recndito do
seu pensamento: Isto  um sonho. E olhava para o guarda-chusma que
estacionava de p a pequena distncia dele; o guarda-chusma afigurava-se-lhe um
fantasma; e, de repente, o fantasma descarregava-lhe uma chicotada.
      Para ele mal existia a natureza visvel.
      No se ficaria muito longe da verdade, dizendo-se que para Joo Valjean no
havia sol, nem amenos dias de Estio, nem cu lmpido, nem frescas madrugadas
de Abril. A nica luz que, de ordinrio, lhe iluminava a alma era um como claro
bao coado por ferros.
      Resumindo, finalmente, o que pode ser resumido e traduzido por resultados
positivos quanto acabamos de expor, limitar-nos-emos a dizer, que em dezanove
anos, Joo Valjean, o inofensivo podador de Taverolles, o temvel forado de
Toulon, tornara-se capaz, graas ao modo como as gals o tinham amoldado, de
duas espcies de ms aces: primeiro de uma m aco, rpida, irreflectida, filha
do primeiro movimento, inteiramente instintiva, espcie de represlias pelo mal
sofrido; segundo, de uma m aco, grave, considerada pesada em conscincia e
meditada com as falsas ideias que pode dar to grande infortnio. As suas
premeditaes passavam pelas trs fases sucessivas, que s as naturezas de certa
tmpera so capazes de percorrer: raciocnio, vontade, obstinao Tinha por
instigadores a habitual indignao, a amargura da alma, o profundo
conhecimento das iniquidades sofridas, a reaco mesmo contra os bons, contra
os inocentes e os justos, se  que os havia.
     A origem e o alvo de todos os seus pensamentos era o dio contra a lei
humana, dio que, no sendo sustado no seu desenvolvimento por algum acaso
providencial, se transforma, chegado certo tempo, em dio contra a sociedade,
depois em dio contra a humanidade, em seguida em dio contra a criao, e se
traduz por um vago, incessante e brutal desejo de fazer mal, seja a quem for, a um
ser animado qualquer.
     A vista disto, no era, pois, sem razo, que o passaporte classificava Joo
Valjean de homem perigosssimo.
     De ano para ano, aquela alma fora-se dissecando cada vez mais, lenta mas
fatalmente. Para coraes insensveis, olhos enxutos Quando saiu das gals, havia
dezanove anos que Joo Valjean no vertera uma lgrima.



    VIII
    A onda e a sombra



    Homem ao mar!
    Que importa? O navio no pra. O vento  fresco e o navio tem um rumo que
 obrigado a seguir. No pode deter-se. Segue sempre.
    O homem que caiu ao mar desaparece, torna a aparecer, mergulha, sobe 
superfcie, estende os braos, chama. Ningum o ouve. O navio, balouado pelas
vagas, obedece ao impulso da manobra de quem o dirige; equipagem e passageiros
nem sequer divisam j o homem submergido; a cabea do infeliz  apenas um
ponto escuro na imensidade do mar.
     No espao retumbam os seus gritos desesperados ao ver o espectro daquela
vela que lhe foge. Contempla-a, crava nela os olhos com frenesi. E ela afasta-se, vai
decrescendo, vai-se esfumando, confundida no ambiente nebuloso do horizonte.
H pouco ainda que ele ia dentro desse navio, que fazia parte da sua equipagem,
que passeava no convs com os outros, que tinha a sua parte de respirao e de
sol, que era um vivo. Agora, que foi que sucedeu? Escorregou, caiu, acabou-se.
     Ei-lo em luta com a voracidade da gua. Tenta firmar os ps e no encontra
um ponto de apoio; estende os braos e no encontra a que se apegar. As ondas
revoltas e retalhadas pelo vento rodeiam-no medonhas. As vagas envolvem-no,
sacudidas pelo vento em pavorosos escaracus; as ondulaes impetuosas e
desencontradas do abismo fazem dele seu ludbrio; a espuma das ondas
fustiga-lhe a cara, como se fora a lava deste vulco lquido, como se fora um
escarro de pungente ironia atirado s faces do infeliz por aquele povolu de vagas
indmitas; a cada passo o drago imenso abre as fauces de chofre e subverte-o,
devora-o; e ele, de cada vez que mergulha, avista precipcios de trevas cerradas;
medonhas vegetaes desconhecidas o enleiam, emaranham-se-lhe nos ps, o
atraem para si; sente que se torna abismo, faz parte da espuma, as vagas trazem-no
aos repeles, bebe a amargura, o oceano porfia cobardemente no intento de o
afogar, a imensidade zomba da sua agonia. Parece que toda aquela gua lhe tem
dio.
     E ele luta sempre! O infeliz tenta defender-se, tenta suster-se, esbraceja,
emprega todos os esforos, consegue nadar. Ele, pobre fora de repente exausta,
combate a que  inexaurvel.
     Onde est o navio? Muito longe. Mal se avista nas lvidas sombras do
horizonte.
     O vento continua em rajadas; a espuma das ondas vence-o Ergue os olhos e
v apenas a lividez das nuvens. Presenceia agonizante o imenso delrio do mar e a
vtima dessa demncia  ele. No meio da sua angstia, ouve rudos estranhos ao
homem, que parecem provir no sei de que terrvel regio de alm da terra.
     Por entre aquelas nuvens pairam aves, como os anjos por cima dos
infortnios humanos. Mas que podem fazer por ele?
     Voam, cantam, fendem os ares e ele agoniza.
     V-se sepultado por dois infinitos ao mesmo tempo: o oceano e o cu; um  o
sepulcro, o outro a mortalha.
     Desce a noite.
      J as foras lhe escasseiam, porque h umas poucas de horas que nada; o
navio, esse vulto longnquo em que havia homens, desapareceu: o infeliz est s na
medonha voragem crepuscular; mergulha, debate-se, sente por debaixo de si
monstruosas e invisveis vagas, chama e pede que lhe acudam.
      Chama.
      No h um s homem que o oia.
      Onde est Deus?
      Chama ainda, brada por socorro!
      Nada no horizonte, nada no cu!
      Implora  imensidade, s vagas,  alga marinha, ao escolho;  tudo surdo.
      Suplica  tempestade; a tempestade, imperturbvel, s obedece ao infinito.
      Em torno dele a escurido, o nevoeiro, a solido, tumulto tempestuoso e
inconsciente, o redemoinho infinito das guas enfurecidas. Nele o horror e a
fadiga. A seus ps o abismo incomensurvel e nem um s ponto de apoio.
Lembra-se das tenebrosas aventuras do cadver no meio da escurido ilimitada.
Paralisado o frio sem fim. Crispam-se-lhe as mos, fecha-as e apanha o nada.
      Ventos, nuvens, turbilhes, lufadas, estrelas inteis! Que fazer? Desesperado,
cansado de lutar, entrega-se sem esperana, deixa-se arrastar, deixa-se despedaar,
adopta a resoluo de morrer, e ei-lo que desaparece para sempre nas lgubres
profundidades do abismo.
       impiedosa marcha das sociedades humanas, em que se no d ateno aos
homens e s almas que se vo perdendo! Oceano que absorve sem remdio quanto
a lei deixa cair! Sinistra desapario do socorro!  morte moral!
      O mar  a inexorvel escurido social a que a penalidade arremessa os seus
condenados. O mar  a imensa misria!
      A alma que cai a este golfo pode tornar-se cadver.
      Quem a ressuscitar?



    IX
    Novos agravos



     Ao soar para Joo Valjean a hora da liberdade, em que ouviu ressoar esta
frase extraordinria: Ests livre!, foi para ele um momento inverosmil, um raio
de fulgurante luz, um claro da Verdadeira luz dos vivos, que subitamente o
iluminou por dentro.
     Mas esse claro em breve empalideceu.
     A ideia da liberdade deslumbrara-o; acreditara na possibilidade de uma vida
nova, mas bem depressa teve ocasio de avaliar o que era a liberdade
acompanhada de um passaporte amarelo Quantas amarguras ainda o esperavam!
     Calculara que o seu peclio, durante o tempo de permanncia nas gals,
deveria elevar-se a cento e sessenta francos. Deve contudo acrescentar-se, que se
esquecera de fazer entrar nos seus clculos o descanso forado dos domingos e
dias santos, o que, ao cabo de dezanove anos, produziam uma diminuio de vinte
e quatro francos aproximadamente.
     Fosse como fosse, a verdade  que, depois de diversas retenes locais, o seu
peclio ficara reduzido a cento e nove francos e quinze soldos.
     Nada tendo compreendido das contas que lhe haviam feito, julgou-se lesado,
ou melhor dizendo, roubado.
     No dia seguinte ao que foi posto em liberdade, vendo em Grasse,  porta de
uma fbrica de destilao de flores de laranjeira, alguns homens a descarregar
fardos de um carro, ofereceu tambm os seus servios. Como o trabalho era
urgente, admitiram-no imediatamente. Deitou mos  obra. Era inteligente,
robusto e desembaraado; empregava tamanha diligncia no trabalho, que o
patro se sentia satisfeito por o ter contratado.
     Andava ele na sua nova ocupao, quando um gendarme que passava nesse
momento, olhando-o atentamente, se lhe dirigiu, perguntando-lhe pelos papis.
     Joo Valjean mostrou-lhe o passaporte amarelo e continuou a trabalhar.
Pouco tempo antes havia indagado de um dos companheiros quanto ganhavam
por aquele trabalho, ao que ele respondeu: Trinta soldos.
     Quando anoiteceu e como no dia seguinte tinha de partir, apresentou-se ao
dono da fbrica, pedindo que lhe pagasse. Este, sem lhe dirigir uma nica palavra,
deu-lhe vinte soldos. Joo Valjean reclamou, mas o dono da fbrica respondeu:
     - Pe-te a andar, para ti  quanto basta!
     Joo Valjean objectou ainda, mas o homem encarou-o fixamente,
dizendo-lhe:
     - Nas gals no ganhavas tanto!
     Ainda desta vez se considerou roubado. A sociedade, o estado, roubara-o em
grande escala, desfalcando-lhe os seus haveres. Agora chegara a vez ao indivduo
de o roubar em escala menor.
     Liberdade no  alforria; o forado sai das gals, mas  perseguido pela
condenao.
    Eis o que lhe sucedera em Grasse. J se viu o modo como foi recebido em
Digne



    X
    O hspede acordado



     Soavam duas horas da manh no relgio da catedral, quando Joo Valjean
acordou.
     O que o acordou foi justamente a boa cama que a bondade do bispo lhe dera.
     Havia quase vinte anos que ele no dormia numa cama e, conquanto no se
tivesse despido, a sensao de semelhante contraste fora em extremo nova para
que deixasse de lhe perturbar o sono.
     Dormira mais de quatro horas. Fora o necessrio para se recompor da fadiga,
alm de que estava habituado a descansar poucas horas.
     Abriu os olhos, olhou um momento a escurido que fazia em volta dele e
fechou-os novamente para tornar a adormecer.
     Quando muitas sensaes diversas nos agitam durante o dia, quando o
esprito se encontra a braos com numerosos motivos de preocupaes, podemos
adormecer, mas uma vez acordados, impossvel ser tornar a conciliar o sono, que
vem com mais facilidade do que volta.
     Foi o que sucedeu a Joo Valjean.
     Como no pudesse tornar a adormecer, ps-se a meditar.
     Joo Valjean encontrava-se num desses momentos em que as ideias se nos
amontoam confusamente no esprito. Sentia no crebro uma espcie de vaivm
tumultuoso. As recordaes do passado, as lembranas do presente, flutuavam-lhe
em tropel, cruzavam-se confusamente nele, perdendo as formas, tomando vulto
descomunal, para em seguida desaparecerem de sbito como que numa pouca de
gua lodacenta e agitada. Numerosos pensamentos lhe ocorriam ao esprito,
porm havia um que o assaltava de contnuo e expelia todos os outros. Esse
pensamento, digamo-lo j, era o dos seis talheres de prata e da colher de sopa que
Magloire pusera na mesa e que lhe havia prendido a ateno.
     Aqueles seis talheres de prata obcecavam-no Encontravam-se ali, a dois
passos.
     Na ocasio em que ele passara pelo quarto imediato para vir para aquele em
que se encontrava, vira a criada a arrum-los num armrio que ficava  cabeceira
da cama do bispo.
     Os talheres eram de prata macia, juntamente com a colher de sopa, dariam,
pelo menos, duzentos francos. O dobro do que ele tinha ganho em dezanove anos.
 verdade que teria ganho mais, se a administrao o no tivesse roubado.
     O seu esprito oscilou mais de uma hora em reflexes incessantes,
entremeadas de certo esforo renitente.
     Neste momento, soaram trs horas.
     Joo Valjean reabriu os olhos, ergueu-se de chofre, estendeu o brao,
procurou s apalpadelas a mochila, a qual tinha arrumado perto da cama, deixou
pender as pernas, pousou os ps no cho e achou-se, quase sem saber como,
sentado na beira da cama.
     Aps haver permanecido durante algum tempo nesta atitude, com ar
pensativo, que teria parecido sinistra a quem assim o visse, acordado no meio da
escurido, numa casa em que todos dormiam, agachou-se de sbito, descalou os
sapatos, p-los cautelosamente no capacho ao p da cama, voltou  primitiva
posio pensativa e ficou imvel.
     No meio das suas pavorosas meditaes, as ideias que acima indicamos
tumultuavam-lhe de contnuo no crebro, entravam, saam, tornavam a entrar,
oprimiam-no como se carregasse um peso sobre ele, no meio de tudo isto,
ocorria-lhe maquinalmente ao esprito, com singular pertincia, a lembrana de
um forado chamado Brevet que ele conhecera nas gals, que usava as calas
seguras apenas por um suspensrio de algodo trabalhado a agulha de meia. No
se lhe afastava do esprito o desenho em xadrez daquele suspensrio.
     Conservava-se, pois, nesta posio e permaneceria nela indefinidamente at
amanhecer, se no ouvisse o som do relgio, dando um quarto ou meia hora.
     Dir-se-ia que aquela badalada lhe dissera: Vamos!, porque se ps logo de
p, hesitou ainda um instante, escutou, e, sentindo o mais completo silncio em
casa, encaminhou-se cautelosamente para a janela, que apenas entrevia A noite
no estava muito escura, mas no cu corriam algumas nuvens impelidas pelo
vento. Este estado do firmamento produzia, fora, alternativas de sombra e
claridade, eclipses, por assim dizer, totais, e em seguida momentos do mais
lmpido luar; dentro de casa havia uma espcie de crepsculo. Este crepsculo,
intermitente em virtude das nuvens, mas suficiente para distinguir os objectos,
assemelhava-se  baa claridade que penetra pelo respiradouro de um
subterr-neo, no meio da qual se reflectem as sombras dos que passam.
     Joo Valjean aproximou-se da janela e examinou-a No tinha grades, deitava
para o jardim e, segundo o uso da terra, era apenas fechada por uma simples
aldraba.
     Abriu-a, mas como no quarto penetrasse repentinamente uma rajada de
vento frio, tornou logo a fech-la, tendo previamente olhado para o jardim com
olhar mais de investigao e estudo, do que de simples observao.
     Viu neste exame que o jardim era cercado por um muro caiado,
extremamente baixo e fcil de escalar. Alm do muro, distinguiu a copa de
algumas rvores igualmente espaadas, o que indicava haver ali uma avenida ou
rua arborizada.
     Depois deste exame, fez um movimento como de quem tomou a sua
resoluo, dirigiu-se para a cama, pegou na mochila, abriu-a, revolveu-a, tirou de
dentro qualquer coisa, que ps em cima da cama, meteu os sapatos num bolso,
atou o saco, deitou-o ao ombro, ps o bon na cabea, descendo a pala para os
olhos, procurou o cajado s apalpadelas, foi p-lo ao canto da janela, voltou outra
vez para junto da cama e pegou resolutamente no objecto que tinha poisado sobre
ela, e que parecia uma barra de ferro curta, aguada como um chuo numa das
extremidades.
     Seria difcil perceber na escurido o fim para que fora assim preparado aquele
pedao de ferro. Seria para servir de alavanca? Seria para servir de maa?
     Visto  claridade, reconhecer-se-ia que no era mais do que um instrumento
de caboqueiro. Como ento empregavam s vezes os forados em extrair pedras
das altas colinas que circundavam Toulon, no era raro que tivessem  sua
disposio ferramentas daquele gnero.
     Pegou no ferro com a mo direita e encaminhou-se para a porta do quarto
imediato que era o do bispo, contendo a respirao e abafando os passos para no
ser pressentido. Chegado  porta, encontrou-a entreaberta.
     O bispo no a tinha fechado



    XI
    O que ele faz



    Joo Valjean escutou. Nem o mais leve rudo.
     Empurrou a porta.
     Empurrou-a com a ponta dos dedos, ligeiramente, com a furtiva e inquieta
delicadeza do gato que quer entrar.
     A porta cedeu  presso e fez um movimento imperceptvel e silencioso, que
alargou pouco mais a abertura. Deteve-se um momento, depois empurrou de
novo a porta, desta vez com mais fora.
     A porta continuou a ceder silenciosa. A abertura era j suficientemente
grande para que ele pudesse passar, mas uma mesa pequena, que formava com ela
um ngulo, obstrua a entrada Joo Valjean reconheceu o obstculo. Era
necessrio, custasse o que custasse, que a abertura se alargasse mais.
     Decidiu-se e empurrou a porta pela terceira vez, mais energicamente do que
das duas antecedentes. Desta vez, um dos gonzos, decerto enferrujado, soltou um
grito rouco e prolongado no meio do silncio.
     Joo Valjean estremeceu.
     O rudo do gonzo soou-lhe aos ouvidos, estrondoso e tremendo, como a
trombeta do juzo final.
     Na fantstica exagerao do primeiro momento, quase se lhe afigurou que
aquele gonzo acabava de animar-se e assumir de repente vida terrvel, latindo
como um co para avisar toda a gente e despertar os adormecidos.
     Estacou, trmulo e desorientado, deixando-se cair das pontas dos ps sobre os
calcanhares As artrias temporais pulsavam-lhe com tal fora, que as ouvia bater
como dois martelos numa bigorna, afigurava-se-lhe que a respirao lhe saa do
peito sussurrante, como uma rajada de vento sada de uma caverna. Parecia-lhe
impossvel que o horrvel clamor daquele gonzo irritado no abalasse toda a casa,
como medonho repelo de um terramoto; a porta empurrada por ele assustara-se
e clamara; o velho no tardaria a levantar-se, as duas mulheres no tardariam a
gritar, no tardaria a acudir gente em socorro; antes de um quarto de hora, a
cidade estaria em movimento e a gendarmaria a postos. Por um instante
considerou-se perdido.
     Deixou-se pois ficar onde estava, petrificado como a esttua de sal e sem se
atrever a fazer o menor movimento. Decorreram alguns minutos. A porta
abrira-se de par em par. Joo Valjean espreitou para dentro do quarto. O mais
completo sossego. O rangido do gonzo enferrujado no despertara ningum.
     Estava passado este primeiro perigo, mas nem por isso era menos terrvel o
tumulto que ainda se agitava dentro dele.
     Joo Valjean, porm, no recuou. No recuara nem mesmo na ocasio em
que se considerara perdido. Do que tratava agora era de operar com presteza
Avanou um passo e entrou no quarto.
     Este jazia no mais profundo silncio.
     Aqui e alm divisavam-se algumas formas vagamente confusas, que, vistas 
claridade, eram papis espalhados por cima de uma mesa, in-folios abertos, muitos
volumes amontoados sobre um banco, uma poltrona carregada de roupa, um
genuflexrio, objectos que, quela hora, eram apenas vultos informes,
branquejando por entre as trevas.
     Joo Valjean continuou a caminhar com a maior precauo, para no
esbarrar com os mveis Do lado oposto do quarto, ouvia a igual e serena
respirao do bispo adormecido De sbito, parou, porque se encontrava junto da
cama, onde tinha chegado mais depressa do que pensara.
     A natureza, s vezes, nos seus efeitos e espectculos, estabelece com as nossas
aces uma espcie de correlao to sombria e inteligente, que parece querer, por
meio dela, fazer-nos reflectir e sondar-nos a ns prprios. Havia perto de meia
hora que uma espessa nuvem cobria o cu No momento em que Joo Valjean
parou, em frente do leito, a nuvem rasgou-se, como se o fizesse de propsito, e um
raio de luar, coando-se por entre a janela rasgada do quarto do bispo, veio
subitamente iluminar o plido rosto do prelado, que dormia serenamente.
Resguardava-o do frio da noite, que nos Baixos Alpes se faz sentir com especial
intensidade, uma camisola de l escura, que lhe cobria os braos at aos pulsos. A
cabea debruava-se-lhe sobre o travesseiro na atitude indolente do repouso; a
mo, aquela mo de onde tinham sado to boas e santas aces, pendia-lhe fora
da roupa, ornada com o anel pastoral. O rosto iluminava-se-lhe de uma vaga
expresso de satisfao, esperana e beatitude.
     Era mais do que sorriso, era quase irradiao. Respirava daquela fronte a
inexprimvel reverberao de uma luz que contempla um cu misterioso.
     No momento em que o raio de luz se sobreps, por assim dizer, quela
claridade interior, o vulto do bispo adormecido destacou-se como no meio de
uma aurola, ficando, todavia, este espectculo suave velado por uma luz mal
distinta, mas inefvel.
     A Lua no cu, o repouso da natureza, o jardim em perfeita quietao, a casa
em completo sossego, a hora, a ocasio, o silncio, tudo acrescentava um no sei
qu de solene e indizvel ao venervel repouso daquele homem, envolvendo, numa
majestosa e serena aurola, aqueles cabelos brancos e os olhos fechados, a fronte
em que tudo era esperana e confiana, a cabea de ancio e o sono infantil.
     Havia naquele homem, sem que ele o suspeitasse, o que quer que fosse quase
divino.
     Joo Valjean conservou-se na sombra, de p, imvel, com a barra de ferro na
mo, a braos com a mais estranha impresso. O aspecto daquele ancio
coruscante apavorava-o. Nunca na sua vida vira coisa semelhante. O seu grande
destemor amedrontava-o.
     O mundo moral no possui mais grandioso espectculo do que o de uma
conscincia perturbada e inquieta chegada  beira de uma m aco e
contemplando o sono de um justo.
     Esse sono, naquele isolamento e com um vizinho de semelhante estofo, tinha
o que quer que fosse de sublime, que ele prprio sentia, vaga mas imperiosamente.
     Ningum, nem ele mesmo, pudera dizer o que dentro dele se passava. Para
tentar avali-lo  necessrio imaginar o que h de mais violento em presena do
que h de mais suave. Nem no rosto se lhe pudera distinguir coisa alguma com
certeza. Sentia uma espcie de assombro desvairado. Contemplava aquele vulto.
Nada mais.
     Qual era o seu pensamento?
     Seria impossvel adivinh-lo.
     O que era evidente  que ele se achava impressionado e profundamente
abalado.
     Mas de que natureza era esta comoo?
     O seu olhar no se afastava do ancio. A nica coisa que claramente deixara
transparecer a atitude e a fisionomia dele era uma singular perplexidade. Dir-se-ia
que hesitava entre dois abismos: entre o da perdio e o da salvao.
     Parecia prestes a esmagar aquela cabea ou a beijar aquela mo Ao cabo de
alguns instantes, levantou vagarosamente o brao esquerdo  altura da testa, tirou
o bon, tornou a deixar cair o brao com a mesma lentido e voltou  sua
primitiva postura de contemplao, com o bon na mo esquerda, a barra de ferro
na direita, os cabelos eriados, a expresso do rosto selvtica.
     O bispo continuava a dormir com a maior serenidade sob aquele temeroso
olhar.
     O reflexo do luar tornava confusamente visvel por cima do fogo o vulto do
crucifixo, que parecia abrir os braos a ambos, com uma bno para um e o
perdo para o outro.
     De repente, Joo Valjean ps o bon na cabea, caminhou rapidamente ao
longo da cama, sem olhar para o bispo, direito ao armrio, que ele entrevia junto 
cabeceira. Feito isto, levantou a barra de ferro como para forar a fechadura, mas
viu nela a chave. Apenas abriu a portinhola, deparou-se-lhe logo o aafate em que
estava a prata; pegou nele, atravessou o quarto a largas passadas, sem a menor
precauo, indiferente ao rudo que poderia produzir, chegou  porta, entrou no
oratrio, abriu a janela, pegou no cajado, saltou para o jardim, meteu a prata na
mochila, atirou para longe de si o aafate, transps o muro como o faria um tigre e
fugiu.



    XII
    O bispo trabalha



     No dia seguinte, ao nascer do sol, andando Monsenhor Bemvindo a passear
no jardim, viu Magloire vir a correr na sua direco com ar transtornado.
     - Monsenhor! Monsenhor! - gritou ela. Sabe onde est o aafate da prata?
     - Sei - respondeu o bispo.
     - Ora graas a Deus! - tornou ela. - J no sabia o que pensar!
     O bispo que naquele instante levantava o aafate de um alegrete,
apresentou-o  senhora Magloire.
     - Est aqui.
     - Mas no tem nada dentro. E a prata?
     - Ah! - replicou o bispo. - Era a prata que procurava? No sei onde est.
     - Jesus! Roubaram-na! Foi decerto o homem que c ficou!
     Num abrir e fechar de olhos, com a vivacidade prpria de velha sagaz e bem
conservada, Magloire correu ao oratrio, entrou na alcova e voltou logo para
junto do bispo. Este agachara-se havia um instante e contemplava com a maior
tristeza um p de cochlearia de Guillons, que o aafate tinha quebrado, ao cair no
meio do alegrete; ao ouvir, porm, os gritos de Magloire, ergueu-se.
     - Ai, Monsenhor! O homem roubou a prata e fugiu!
     Ao mesmo tempo que soltava esta exclamao, dirigiu o olhar para o muro,
onde se viam os vestgios da escalada.
     - Olhe, foi por ali que ele fugiu! Saltou para a travessa de Cachefilet. Que
crueldade! Roubar-nos a prata!
     O bispo conservou-se por momentos silencioso; por fim, disse com a maior
serenidade, erguendo os olhos para Magloire:
     - Aquela prata pertencia-nos porventura?
     Magloire ficou sem saber o que havia de responder.
     Seguiu-se outra pausa, aps a qual o bispo prosseguiu:
     - Magloire, h muito tempo que eu era ilcito possuidor daquela prata, que
pertencia de direito aos pobres. E quem era aquele homem? No era, sem a menor
dvida, um pobre?
     - Valha-me Nossa Senhora! - replicou Magloire. - No falo por mim, nem
pela senhora Baptistina, a ns no nos faz falta, mas com Monsenhor j no
sucede o mesmo com que talher h-de comer agora?
     O bispo encarou-a com ar de espanto e respondeu:
     - Essa agora! Pois no h colheres de estanho?
     Magloire encolheu os ombros.
     - O estanho tem mau cheiro.
     - Nesse caso, h os de ferro.
     A criada fez uma careta expressiva, dizendo:
     - O ferro tem muito mau sabor.
     - Pois ento, colheres de pau.
     Da por alguns instantes, o bispo estava a almoar naquela mesma mesa em
que Joo Valjean, no dia antecedente, estivera sentado. No decurso do almoo,
Monsenhor Bemvindo notou, gracejando, a sua irm, que no proferira palavra, e
a Magloire, que resmungava surdamente, no ser preciso garfo nem colher,
mesmo de pau, para molhar um pedao de po numa chvena de leite.
     - Nunca se viu uma coisa assim! dizia Magloire, andando de um para outro
lado.
     - Recolher um homem daqueles e deit-lo quase ao p de si! Ainda devemos
dar graas a Deus, por s nos ter roubado! Parece-me que ainda sinto um
estremecimento quando me lembro de semelhante coisa!
     No instante em que o bispo e a irm se levantaram da mesa, bateram  porta.
     - Entre disse o bispo.
     A porta abriu-se e um estranho e violento grupo assomou no limiar. Trs
homens traziam um quarto agarrado no meio deles. Os trs eram gendarmes, o
quarto era Joo Valjean.
     Apenas em presena do bispo, o gendarme que parecia ser o comandante do
grupo, adiantou-se para ele, fazendo a continncia militar e disse:
     - Monsenhor... Ouvindo este tratamento, Joo Valjean, que se mostrava
sombrio e abatido, ergueu a cabea com ar de estupefaco e murmurou:
     - Monsenhor?! Pensei que era o cura... - Silncio! - ordenou um dos
gendarmes. -  o senhor bispo.
     Entretanto, Monsenhor Bemvindo aproximara-se dos homens com a presteza
que lhe permitia a sua avanada idade e exclamou, com os olhos fitos em Joo
Valjean:
     - Ah, ento voltou?! Estimo muito tornar a v-lo Mas agora me lembro: eu
tambm lhe dei os castiais, que so de prata, como o resto, e que lhe podem
render duzentos francos ou mais. Porque no os levou?
     Joo Valjean abriu os olhos e encarou o venervel bispo com uma expresso
que nenhuma linguagem poderia traduzir.
     - Ento  verdade o que este homem disse, Monsenhor? - perguntou o cabo
que comandava os gendarmes. - Ns encontrmo-lo como quem ia a fugir e
prendemo-lo como suspeito. Levava consigo esta prata... - E disselhes - atalhou o
bispo, sorrindo  que um pobre padre em casa de quem passara a noite, lhos tinha
dado? Os senhores no acreditaram e trouxeram-no aqui.
     Pois disselhes a verdade.
     - Sendo assim, podemos deix-lo ir? - perguntou o cabo.
     - Sem dvida respondeu o bispo.
     Os gendarmes largaram Joo Valjean, que recuou estupefacto.
     - Ento, estou livre?! - exclamou ele em voz quase inarticulada e como se
falasse a dormir.
     - Pois no ouviste? - disse um dos gendarmes.
     - Meu amigo - tornou o bispo - no se v embora sem levar os castiais. Aqui
os tem.
     E, dirigindo-se ao fogo, pegou nos dois castiais de prata e entregou-os a
Joo Valjean.
     As duas mulheres olhavam para tudo aquilo, sem fazerem o menor gesto,
nem proferirem uma s palavra que pudesse contrariar o prelado.
     Joo Valjean, que tremia como varas verdes, pegou maquinalmente nos dois
castiais, com ar desvairado.
     - Agora - disse o bispo - v em paz.  verdade, meu amigo, se voltar, 
escusado passar pelo jardim. Pode entrar e sair sempre pela porta da rua, que est
fechada apenas por uma simples aldraba, seja de dia ou de noite.
     E, em seguida, voltando-se para os gendarmes, acrescentou:
     - Os senhores podem retirar-se.
     Os gendarmes saram.
    Joo Valjean sentiu-se como que prestes a desfalecer.
    O bispo aproximou-se dele e disselhe em voz baixa:
    - No se esquea nunca de que me prometeu empregar o dinheiro desta prata
em tornar-se homem de bem.
    Joo Valjean, que no se recordava de lhe ter prometido coisa alguma, ficou
sem saber o que havia de dizer. O bispo, que acentuara muito as suas palavras,
acrescentou:
    - Joo Valjean, meu irmo, lembre-se que j no pertence ao mal, mas sim ao
bem. Resgatei a sua alma. Libertei-a dos maus pensamentos e do esprito de
perdio, para a dar a Deus.



    XIII
    O pequeno Gervsio



     Joo Valjean saiu da cidade como se se soubesse perseguido. Principiou a
caminhar apressadamente pelo meio dos campos, seguindo todos os caminhos e
atalhos que se lhe ofereciam, sem reparar que a cada instante voltava aos mesmos
lugares por onde j tinha passado. Assim andou vagueando toda a manh, sem
comer nem ter fome. Um sem nmero de sensaes desconhecidas o agitavam.
Sentia uma espcie de ira, mas nem sabia contra quem. Impossvel lhe seria dizer
se as sensaes que o agitavam eram de arrependimento ou humilhao. s vezes
sentia-se acometido por um singular enternecimento, que repelia, opondo-lhe o
endurecimento dos seus ltimos vinte anos. Semelhante estado afligia-o.
Assustava-se ao ver como dentro dele se abalava essa espcie de pavorosa
serenidade que a injustia do seu infortnio lhe havia dado. A si mesmo
perguntava o que  que viria substituir isso. Preferia ter ido entre os gendarmes
para a cadeia ao desfecho que as coisas haviam tido, porque no se veria to
agitado.
     Posto que a estao fosse bastante adiantada, viam-se, todavia, aqui e alm,
por entre as sebes, algumas flores extemporneas, cujo cheiro, ao passar, lhe
suscitava recordaes da infncia, que se lhe tornavam insuportveis, porque
havia muito que elas o no tinham acometido.
     Inexprimveis pensamentos se amontoaram assim nele durante o dia todo.
     Ao declinar do sol no ocidente, a essa hora em que a sombra do mais
pequeno seixo se estende desmesuradamente no cho, encontrava-se Joo Valjean
sentado atrs de uma moita, numa extensa e escalvada plancie, absolutamente
deserta. No horizonte apenas se avistavam os Alpes. Nem o vulto de um s
campanrio de alguma aldeia longnqua. Joo Valjean achava-se a trs lguas de
Digne, pouco mais ou menos.
     A poucos passos distante da moita, passava um carreiro que cortava a
plancie.
     No meio da sua meditao, que no pouco contribuiria para tornar os seus
andrajos mais medonhos a qualquer pessoa que o encontrasse, ouviu um rumor
alegre.
     Voltou a cabea e viu, caminhando pelo carreiro, um rapazinho saboiano, de
dez anos, pouco mais ou menos, cantando com a sua sanfona ao lado. Era um
desses rapazinhos simplrios e alegres, que andam de terra em terra, com as
calcinhas rotas e os joelhos  mostra.
     O saboiano interrompia de vez em quando a cantiga e parava para atirar ao ar
algumas moedas que trazia na mo e que constituam talvez toda a sua fortuna.
Entre elas havia uma moeda de quarenta soldos.
     Chegando ao p da moita, o pequeno parou sem ver Joo Valjean e atirou ao
ar o punhado de soldos que, at ento, tinha aparado nas costas da mo com toda
a destreza.
     Desta feita, porm, escapou-lhe a moeda de quarenta soldos, que rolou por
entre o mato at onde estava Joo Valjean. Este viu-a e ps-lhe o p em cima.
     O pequeno, que seguira a moeda com os olhos e vira perfeitamente onde ela
tinha ido parar, no deu o menor indcio de admirao e caminhou direito ao
homem.
     Era um lugar absolutamente solitrio. Desde ali at onde a vista podia
alcanar, no se avistava vivalma, nem na plancie nem no carreiro. Apenas se
ouvia o chilrear de um ou outro bando de passarinhos que atravessavam o espao.
     O rapazinho estava de costas voltadas para o sol, que parecia pr-lhe fios de
oiro na cabea e purpureava o rosto selvagem de Joo Valjean de um reflexo cor
de sangue.
     - O senhor faz favor de me dar o meu dinheiro? - disse o pequeno, com essa
infantil resoluo que se compe de ignorncia e inocncia.
     - Como te chamas? - perguntou-lhe Joo Valjean.
     - Gervsio.
     - Ento pe-te a andar! - tornou Joo Valjean.
     - Mas d-me o meu dinheiro! - replicou o rapazinho.
     Joo Valjean curvou a cabea e no respondeu.
     O pequeno repetiu:
     - O meu dinheiro! D-me o meu dinheiro!
     Joo Valjean parecia no ouvir. O pequeno agarrou-o pela gola da blusa e
abanou-o, diligenciando ao mesmo tempo tirar-lhe o pesado sapato ferrado de
cima da moeda de quarenta soldos.
     - D-me o meu dinheiro! - exclamava a pobre criana, debulhada em
lgrimas.
     Joo Valjean, que se encontrava ainda sentado, levantou a cabea, fitou na
criana os olhos embaciados com uma espcie de pasmo, e, por fim, exclamou em
voz terrvel, lanando a mo ao cajado:
     - Quem est a?
     - Sou eu, senhor, sou o Gervsio! Faa favor de tirar o p, d-me o meu
dinheiro!
     Em seguida exclamou irritado e com um gesto ameaador, apesar da sua
estatura:
     - Tira o p ou no tira? V, deixe-se de brincadeiras, d-me o dinheiro!
     - Pois tu ainda a ests, tratante? - disselhe Joo Valjean.
     E, erguendo-se repentinamente, sem tirar o p de cima da moeda,
acrescentou:
     - Vais-te j embora, ou eu... O rapazinho olhou para ele muito assustado,
pondo-se a tremer como um vime e, ao cabo de alguns instantes de medrosa
irresoluo, deitou a fugir, correndo quanto podia, sem se atrever a olhar para trs
nem a soltar um grito.
     Todavia, a certa distncia, cansado pela correria parou; e, apesar da sua
abstraco, Joo Valjean ouviu-o soluar.
     Passados alguns instantes, o rapazinho tinha desaparecido.
     Era sol posto. A noite ia descendo gradualmente.
     Joo Valjean principiou a ver-se rodeado pelas sombras; no tinha comido
nada em todo o dia, e era provvel que tivesse fome.
     Desde que o pequeno saboiano se afastara que se conservava de p e sem
mudar de atitude. A respirao elevava-lhe o peito com intervalos prolongados e
incertos. O seu olhar, fito a dez ou doze passos de distncia, parecia estudar com
profunda ateno a forma de um caco de loua azul que jazia entre a erva De
repente, estremeceu, ao sentir a primeira impresso da aragem da noite.
      Enterrou mais o bon na cabea, sobreps e apertou maquinalmente a blusa,
deu um passo e curvou-se para levantar do cho o cajado.
      Nessa ocasio, avistou a moeda de quarenta soldos, que com o peso do p
quase enterrara no cho e que brilhava por entre as pedras.
      - Que diabo  isto? - murmurou ele por entre dentes.
      Em seguida recuou trs passos e parou, sem poder despregar os olhos daquele
ponto que calcava com o p havia um instante, como se aquele objecto que ali
luzia no meio da obscuridade fosse um olho aberto fito nele.
      Ao cabo de alguns minutos, caminhou convulsivamente em direco  moeda
de prata, apanhou-a, endireitou-se e ps-se a olhar pela plancie, espacejando a
vista por todos os pontos do horizonte ao mesmo tempo, imvel e trmulo como
um animal feroz em busca de guarida.
      Nada avistou, porm.
      A noite avizinhava-se, a plancie jazia solitria, a aragem comeava a
tornar-se penetrante, grandes nuvens cor de cobre pairavam no meio da luz
crepuscular.
      Joo Valjean fez ento um gesto como de quem repentinamente se lembra de
uma coisa e principiou a caminhar rapidamente na direco em que o rapazinho
tinha desaparecido. Depois de ter dado uns trinta passos parou, olhou em volta de
si e, no descobrindo nada, gritou com quanta fora tinha:
      - Gervsio! Gervsio!
      Aps isto, calou-se e esperou.
      Ningum lhe respondeu.
      A plancie jazia deserta e melancolicamente silenciosa. Via-se rodeado pela
imagem da extenso indeterminada. Em volta dele apenas havia sombra e silncio,
onde se lhe perdia a voz e o olhar.
      Aoitava-lhe o rosto a brisa glacial, que dava aos objectos que o rodeavam
uma espcie de vida lgubre. Ao ver a incrvel fria com que alguns arbustos
agitavam as pequeninas frondes, dir-se-ia que eles ameaavam e perseguiam
algum.
      Joo Valjean, aps alguns instantes de muda expectativa, continuou a
caminhar e em seguida a correr. De vez em quando, porm, parava e punha-se a
gritar com voz de acento to consternado como se no poderia ouvir outra:
      - Gervsio! Gervsio!
      Por certo que se o pequeno o tivesse ouvido, se esconderia cuidadosa-mente
Nesse momento, avistando um padre que ia a cavalo, encaminhou-se para ele e
perguntou-lhe:
     - O senhor cura viu por a um rapazinho?
     - No - respondeu o sacerdote.
     - Um pequeno saboiano chamado Gervsio?
     - No vi ningum.
     Joo Valjean tirou de dentro da mochila duas moedas de cinco francos e
entregou-as ao padre, dizendo-lhe:
     - Aqui tem para os seus pobres, senhor cura. O rapazinho ter por a uns dez
anos e leva uma sanfona.  um desses saboianos que andam de terra em terra... o
senhor cura bem sabe.
     - Pois no o vi.
     - Gervsio? O senhor cura sabe se ele  destas aldeias por aqui?
     - Sendo como vossemec diz,  algum rapazito estrangeiro. Passam numa
terra, mas ningum os conhece.
     Joo Valjean tirou violentamente do saco outros dez francos e deu-os ao
padre, dizendo-lhe:
     - A tem mais para os pobres.
     Depois acrescentou com aspecto alucinado:
     - Senhor cura, prenda-me, porque eu sou um ladro!
     O padre cravou as esporas no animal e deitou a fugir amedrontado.
     Joo Valjean deitou igualmente a correr na direco que primeiro levava.
     Percorreu assim uma grande distncia, chamando sempre, mas no
encontrou ningum. Por duas ou trs vezes deitou a correr para uma ou outra
coisa que se lhe afigurava uma pessoa deitada ou de ccoras, mas no encontrava
mais do que alguma moita ou grande pedra.
     Finalmente, parou num ponto em que trs caminhos se cruzavam,
circunvagou a vista por longe  claridade da Lua, que acabava de aparecer no
horizonte e bradou pela derradeira vez:
     - Gervsio! Gervsio! Gervsio!
     Os seus gritos perderam-se sem acordar sequer um eco. Murmurou ainda, em
voz fraca e quase inarticulada: Gervsio!.
     Foi esse o seu ltimo esforo; os joelhos dobraram-se-lhe de sbito, como se
alguma potncia invisvel o oprimisse repentinamente debaixo do peso da
conscincia da sua m aco, e caiu desfalecido para cima de uma pedra com as
mos metidas por entre os cabelos e a cara escondida entre os joelhos,
exclamando:
     - Sou um miservel!
     Naquele momento, o corao no pde ser superior  comoo que o
alanceava e desatou a chorar.
     Era a primeira vez que chorava havia dezanove anos!
     Joo Valjean sara de casa do bispo alheado de tudo aquilo em que pensara
at ento. Nem ele prprio podia explicar o que se passava dentro dele.
Diligenciava reagir contra as suaves palavras do velho.
     Lembre-se que me prometeu tornar-se homem de bem. Resgatei a sua alma,
arranquei-a ao esprito da perversidade e entrego-a a Deus.
     A lembrana de tais palavras ocorria-lhe de contnuo ao esprito. A esta
celeste indulgncia, porm, opunha ele a soberba, que  em ns como que a
fortaleza do mal.
     Conhecia confusamente que o perdo daquele padre era o maior assalto e o
mais temvel ataque que em dias da sua vida o tinha abalado; que o seu
endurecimento seria definitivo, se resistisse a tamanha clemncia; que, se cedesse,
ser-lhe-ia necessrio renunciar ao dio de que as aces dos outros homens, ao
cabo de muitos anos, lhe tinham, por fim, saturado a alma, e em que ele achava
certo gosto; que, desta feita, era necessrio vencer ou ser vencido e que uma luta
colossal e definitiva estava travada entre a sua perversidade e a bondade daquele
homem.
     Na presena de todas estas consideraes, Joo Valjean sentia-se como que
embriagado.
     Caminhando assim, com aspecto desvairado, teria porventura percepo
distinta do que poderia resultar da sua aventura de Digne?
     Ouviria de todos esses misteriosos zumbidos que advertem ou impor-tunam
o esprito em certos momentos da vida?
     Dir-lhe-ia acaso alguma voz ao ouvido que acabava de atravessar a hora
solene do seu destino; que j no havia meio termo para ele; que se, desde ento,
no se tornasse o melhor dos homens, seria o pior; que necessitava, para assim
dizer, elevar-se mais alto do que o bispo ou cair mais fundo do que o forado; que,
se quisesse tornar-se bom, havia de tornar-se anjo; que, se quisesse continuar
perverso, havia de tornar-se monstro?
     Cumpre fazer ainda aqui a pergunta que noutra parte a ns prprios fizemos:
Produziria tudo isto porventura no pensamento daquele homem uma tal ou qual
sombra?
      certo, como ns mesmo j dissemos, que o infortnio faz a educao da
inteligncia; porm, no caso presente,  duvidoso que Jean Valjean se achasse em
estado de discriminar quanto aqui apontamos. Se acaso ele tinha percepo de tais
ideias, mais as entrevia do que via, e apenas serviam para lhe causar uma
perturbao inexprimvel e quase dolorosa. Ao sair dessa coisa disforme e negra
chamada as gals, o bispo causara-lhe na alma a impresso molesta que lhe
produziria nos olhos uma claridade muito intensa ao sair das trevas A vida futura,
a vida possvel que actualmente se lhe oferecia, fulgurante e pura, enchia-o de
temor e ansiedade Nem sabia bem que transformao era aquela.  semelhana de
uma coruja que visse surgir de repente o sol, o forado sentia-se ofuscado e quase
que cego com o aspecto da virtude.
     O que era certo e do que nem ele prprio duvidava,  que Joo Valjean j no
era o mesmo homem,  que tudo nele se achava alterado,  que j no estava na
mo dele fazer com que o bispo lhe no tivesse falado nem com que o no tivesse
comovido.
     Nesta disposio de esprito, encontrara Gervsio e roubara-lhe os quarenta
soldos. Porqu? Decerto nem ele o soubera explicar. Seria um derradeiro efeito e
como que um supremo esforo dos maus pensamentos com que sara das gals,
um resto de impulso, um resultado do que em esttica se denomina fora
adquirida!
     Era isso e talvez ainda menos do que isso.
     Digamo-lo francamente: no fora ele quem roubara, no fora o homem, fora
a besta, que por hbito e instinto, pusera estupidamente o p em cima daquela
moeda de prata, na mesma ocasio em que a inteligncia se debatia no meio de
tantas obsesses inauditas e desconhecidas. Quando a inteligncia acordou e viu a
aco do bruto, Joo Valjean recuou com angstia e soltou um grito de aflio.
      que - estranho fenmeno apenas possvel na situao em que ele se achava -
roubando o dinheiro quela criana, praticara uma coisa de que j no era capaz.
     Fosse como fosse, o certo  que esta sua ltima m aco produziu nele um
efeito decisivo; atravessou rapidamente o caos que tinha na inteligncia e
dissipou-o, separou-lhe a luz das trevas e operou sobre a alma, no estado em que
se achava, como certos reagentes qumicos operam sobre uma mistura turva,
precipitando um elemento e clarificando o outro.
     No primeiro momento, antes de se examinar e de reflectir, alucinado e como
quem tenta fugir, fez toda a diligncia para encontrar o pequeno, a fim de lhe
restituir o dinheiro; porm, depois que viu a inutilidade e impotncia dos seus
esforos, parou, desesperado.
     Na ocasio em que exclamou: Sou um miservel!, aquele homem acabava
de se ver tal qual era, e j se achava a tal ponto separado de si prprio, que se lhe
afigurava j no ser mais do que um fantasma que tinha ali diante de si em carne e
osso, de cajado na mo, com a blusa vestida e a mochila s costas, cheia de
objectos roubados, de semblante resoluto e sombrio, com o pensamento cheio de
abominveis projectos, o medonho forado Joo Valjean.
     O excesso de infortnio tornara-o at certo ponto visionrio Tudo isto foi
pois uma viso. Viu realmente diante de si Joo Valjean e o seu rosto sinistro.
Esteve a ponto de perguntar a si mesmo quem era semelhante homem e teve
horror.
     O seu crebro encontrava-se num desses momentos violentos e, ao mesmo
tempo, temerosamente serenos, em que a abstraco  to profunda que absorve a
realidade. No vemos ento os objectos que temos diante de ns e deparamos
como que fora de ns com as figuras que temos no esprito.
     Joo Valjean contemplou-se, por assim dizer, face a face, e ao mesmo tempo,
no meio da sua alucinao, via a uma misteriosa profundidade, uma espcie de luz
que, ao princpio, se lhe afigurou um archote. Olhando com mais ateno para
essa luz que se mostrava  sua conscincia, viu que ela tinha forma humana, que o
archote era o bispo.
     A sua conscincia comparou simultaneamente aqueles dois homens assim
colocados na sua presena, o bispo e Joo Valjean. S o primeiro fora capaz de
fazer desaparecer o segundo. Por um desses singulares efeitos, particulares a esta
espcie de xtases,  medida que se prolongava a sua abstraco e que crescia e
resplandecia a seus olhos o vulto do bispo, o de Joo Valjean diminua e
desfazia-se. Em certa ocasio, ficou apenas reduzido a uma sombra. De sbito
desapareceu e ficou s o bispo, enchendo a alma daquele miservel de uma
irradiao magnfica.
     Joo Valjean, durante muito tempo, no fez seno chorar. Chorou
copiosa-mente, chorou e soluou com mais fraqueza do que uma mulher, com
mais pavor do que uma criana.
     Enquanto assim chorava, o crebro parecia iluminar-se-lhe com
extraordinria luz, ao mesmo tempo encantadora e terrvel. A sua vida passada, a
sua primeira falta e a longa expiao que se lhe seguira, o embrutecimento
exterior, o endurecimento interior, a reconduo  liberdade acompanhada por
tantos planos de vingana, o que lhe tinha acontecido em casa do bispo, a ltima
coisa que fizera, esse roubo de quarenta soldos a uma criana, crime tanto mais
cobarde e monstruoso, por isso que o cometera depois do perdo do bispo, tudo
isto lhe ocorreu claramente, porm no meio de uma claridade que ele ainda at
ento no tinha visto. Olhou para a sua vida e pareceu-lhe horrvel; olhou para a
alma e pareceu-lhe medonha; porm uma luz suave se lhe reflectia na vida e na
alma. Parecia-lhe que via Satans  luz do paraso.
     Quantas horas chorou assim? O que fez depois de ter chorado? Para onde foi?
     Nunca ningum o soube.
     Apenas parece averiguado que, nessa mesma noite, o estafeta que conduzia a
mala do correio de Grenoble para Digne e que chegava a este ltimo ponto pelas
trs horas da manh, ao atravessar a rua da catedral, viu um homem prostrado de
joelhos, na atitude de quem orava, em frente da porta de Monsenhor Bemvindo


L03:
    LIVRO TERCEIRO
    Em 1817



    I
    O ano de 1817



     1817  o ano que Lus XVIII, com certo aprumo rgio, no destitudo
inteiramente de altivez, denominava o vigsimo segundo ano do seu reinado.
     Foi o ano em que o senhor Bruguire de Sorsun se tornou clebre, em que
todas as lojas de cabeleireiro foram pintadas de azul com flores de liz, esperando
novamente o uso dos ps e o regresso da ave real.
     Era o inocente tempo em que o conde de Lynch se apresentava todos os
domingos, como tesoureiro, no seu banco de Saint-Germain-des-Prs, com o seu
trajo de par de Frana, a sua fita vermelha e o seu grande nariz, aquele aspecto de
majestade particular ao homem que praticou uma aco clebre.
     A aco clebre praticada por Lynch consistia, sendo maire de Bordus, em
12 de Maro de 1814, em ter entregado a cidade demasiadamente cedo ao duque
de Angoulme, do que lhe proveio a sua nomeao de par.
     Em 1817, a moda inventara para os rapazinhos de quatro a seis anos uns
enormes bons de couro fingindo marroquim, quase  maneira de barretes de
esquims, debaixo dos quais as pobres crianas desapareciam totalmente. O
exrcito francs usava uniformes brancos  austraca; os regimentos chamavam-se
legies e, em lugar de nmeros, traziam os nomes dos departamentos. Napoleo
estava em Santa Helena, e como a Inglaterra lhe no dava pano verde, mandava
virar os casacos do avesso Em 1817, cantava Pellegrini e danava Bigottini; reinava
Potier e Odry ainda no existia.
     Madame Saqui sucedia a Torioso Havia ainda prussianos em Frana O
senhor Delalot era um homem notvel. A sua legitimidade acabava de se
consolidar, cortando a mo e em seguida a cabea a Pleignier, a Carbonneau e a
Tolleron. O prncipe de Talleyrand, camarista-mor, e o abade Lus, apontado para
ministro das finanas, encaravam-se, rindo com o riso de dois arspices; ambos
no dia 14 de Julho de 1790, haviam celebrado a missa da federao no Campo de
Marte; Talleyrand oficiando-a como bispo, Lus como dicono Em 1817, nos
passeios laterais desse mesmo Campo de Marte, viam-se grossos cilindros de
madeira, lanados por terra, expostos  chuva e apodrecendo no meio da erva,
pintados de azul e ainda com vestgios de guias e abelhas, que tinham sido
douradas. Eram as colunas que dois anos antes tinham servido para sustentar o
estrado do imperador no Campo de Maio. Aqui e alm divisavam-se-lhe manchas
negras causadas pelas balas do acampamento dos austracos situado prximo a
Gros-Caillou. Duas ou trs destas colunas haviam desaparecido nas fogueiras
desses acampamentos e servido para aquecer as enormes mos dos Kaiserliks.
     Nesse ano de 1817, duas coisas eram populares: o Voltaire-Trouquet e as
caixas de rap  cartista. A emoo parisiense mais recente era o crime de Dautun,
que lanara a cabea do irmo ao tanque da Praa das Flores. No ministrio da
marinha principiava a reinar inquietao por no haver notcias da fatal fragata
Medusa, que devia cobrir de vergonha Chautnareix e de glria Gricault. O
coronel Selves partia para o Egipto, onde devia tornar-se Solimo-Pach. O
palcio das termas, na rua de La Harpe, servia de oficina a um tanoeiro. Na
plataforma do torreo octgono do palcio de Cluny, via-se ainda a barraquinha
de tbuas que servira de observatrio a Messier, astrnomo da marinha no
reinado de Lus XVI. A duquesa de Duras lia a trs ou quatro amigos ntimos, no
seu toucador mobilado com XX estofados de cetim azul celeste, o manuscrito de
Ourika, ainda indito.
     No Louvre raspavam-se os NN. A ponte de Austerlitz abdicava do seu ttulo e
passava a chamar-se ponte do Jardim do Rei, duplo enigma que encobria ao
mesmo tempo o Jardim das Plantas e a Ponte de Austerlitz. Lus XVIII, ao mesmo
tempo que anotava com a unha em Horcio, os heris que chegavam a
imperadores e os sapateiros que se fazem delfins, tinha dois cuidados que
seriamente o preocupavam: Napoleo e Mathurin Bruneau. A Academia Francesa
dava para assunto de prmio : a felicidade filha do estudo.
     O senhor Ballart era oficialmente eloquente;  sua sombra via-se germinar o
futuro delegado geral de Bro, destinado aos sarcasmos de Paulo Lus Courier.
Havia um falso Chateaubriand por nome Marchangy,  espera de um falso
Marchangy, chamado de Arlincourt. Clara de Alba e Malek-Adel eram reputadas
obras-primas, e Madame Cottin era proclamada a primeira entre os escritores da
poca. O Instituto deixava riscar da sua lista o acadmico Napoleo Bonaparte.
Em virtude de um decreto real, Angoulme era elevada a escola naval, pois sendo
o duque de Angoulme almirante, era evidente que a cidade de Angoulme
possua de direito todas as qualidades de um porto de mar, sem o que ficaria
abalado o princpio monrquico.
     No conselho de ministros discutia-se se se deviam ou no consentir as
vinhetas representando volantins, que adornavam os cartazes de Franconi, e que
juntavam grupos de garotada nos pontos em que se encontravam afixados. O
senhor Paer, autor da Agnese, ancio de rosto quadrado com uma verruga na face,
dirigia os concertos ntimos da marquesa de Sassenaye, na rua de Ville-l'-vque.
As jovens cantavam o Ermito de Samt-Avelle, latra de Edmond Graud. O Ano
Amarelo transformava-se em Espelho. O caf Lemblin era pelo imperador contra
o caf Valois, que era pelos Bourbons.
     Acabava de casar com uma princesa da Siclia o duque de Berry, j olhado por
Louvei do fundo das trevas. Havia um ano que Madame de Stael tinha morrido.
Os guardas de corpo pateavam Mademoiselle Mars. Os grandes jornais
publicavam-se em formato pequeno. Este tinha sido restringido, mas a liberdade
era grande. O Constitucional era constitucional. A Minerva chamava a
Chateaubriand Chafeaucrianf.
     Este f era motivo para que os burgueses rissem muito  custa do grande
escritor.
     Alguns prostitudos jornalistas insultavam, em jornais vendidos, os proscritos
de 1815; David no tinha talento, Arnoult no tinha esprito, Carnot era um
homem sem probidade, Soult no ganhara uma s batalha; a verdade  que
Napoleo deixara de ser o gnio que fora. Ningum ignora quanto  raro que as
cartas dirigidas pelo correio a qualquer exilado lhes cheguem  mo, por isso que a
policia tem como rigoroso dever intercept-las. O facto no  novo; j Descartes,
do seu desterro, se queixava disso. Ora, havendo David, num jornal belga, dado
mostras de descontentamento por no receber as cartas que lhe escreviam, as
folhas realistas achavam o caso digno de riso e aproveitavam a ocasio para
ridicularizar e achincalhar o proscrito. Dizei regicidas ou votantes, inimigos
ou aliados, Napoleo ou Bonaparte, separava dois homens mais do que um
abismo.
     Todas as pessoas sensatas concordavam que a era das revolues fora de uma
vez para sempre encerrada por Lus XVIII, cognominado o imortal autor da Carta
No terraplamo da Ponte Nova gravava-se a palavra Redivivas no pedestal
destinado a receber a esttua de Henrique IV Na rua Teresa, n  4, Piet dava
princpio ao seu concilibulo para consolidao da monarquia Os chefes da
direita, diziam nas conjunturas graves:  preciso escrever a Bacot Canuel,
O'Mahony e de Chappedelaine, esboavam com tcita aprovao do irmo do rei,
o que mais adiante havia de vir a ser a Conspirao da Borda d'agua.
     O Alfinete Negro conspirava igualmente. Delaverderie conferenciava com
Trogof. Decazes, esprito liberal at certo ponto, dominava Chateaubriand, todas
as manhs defronte da janela da sua casa, na rua de S. Domingos, n. 27, em calas
e de chinelas, com um leno de seda da ndia atado na cabea povoada de cabelos
brancos, os olhos fitos num espelho e um estojo completo de dentista aberto
diante de si, ocupava-se em limpar os dentes, que eram magnficos, ditando ao
mesmo tempo a Pilorge, seu secretrio, a Monarquia segundo a Carta.
     A crtica autorizada preferia Lafont a Talma.
     O senhor de Felatz assinava-se com um A e o senhor Hoffman com um Z
Carlos Nodier escrevia Teresa Aubert. O divrcio fora abolido. Os liceus
chamavam-se colgios e os colegiais, que traziam na gola uma flor de lis de oiro,
sustentavam fortes altercaes acerca do rei de Roma. A polcia secreta do castelo
denunciava a Sua Alteza Real Madame, o retrato, por toda a parte exposto, do
duque de Orles, o qual tinha melhor parecer com o uniforme de coronel-general
de hussardes do que o duque de Berry com a farda de coronel-general de drages,
inconveniente gravssimo A cidade de Paris mandava dourar de novo  sua custa
o zimbrio dos Invlidos. Os homens srios perguntavam uns aos outros o que
faria o senhor de Tringuelague em tal ou tal conjuntura. Clausel de Montalg
divergia em diversos pontos, de Clausel de Coussergues, e o senhor de Salaberry
no se sentia satisfeito.
     O actor Picard, membro da Academia em que Molire no conseguiu ser
admitido, fazia representar Os Dois Felisbertos no teatro do Oden, em cuja
frontaria, apesar dos esforos para arrancar as letras, se lia ainda distintamente:
Teatro da Imperatriz, Uns eram a favor, outros contra Cugnet de Montarlot.
Fabvier era faccioso, Bavoux revolucionrio. O livreiro Plicier publicava uma
edio de Voltaire com o ttulo Obras de Voltaire, da Academia Francesa. Isto
atrai os compradores, dizia o ingnuo editor. Era opinio geral que Carlos
Loyson havia de vir a ser o gnio do sculo; a inveja comeava a morder-lhe,
indcio de glria, e recitava-se a seu respeito este verso:
     At mesmo quando Loyson voa, mostra ter patas.
     Como o cardeal Fesch recusava demitir-se, a diocese de Lyon era
administrada pelo senhor de Pins, arcebispo de Amasie. Entre a Frana e a Sua
principiava a questo dos vales de Dappe, por uma memria do capito Dufour,
depois general.
     Saint-Simon, ainda ignorado, elaborava o seu sublime sonho. Na Academia
das Cincias havia um Fourier clebre, que a posteridade esqueceu, e no sei em
que guas-furtadas um Fourier obscuro, de que o futuro se recordar. Lord Byron
principiava a despontar; uma nota de um poema de Milevoye anunciava-o 
Frana nos seguintes termos: um certo lord Byron. David de Angers fazia as
primeiras experincias sobre o mrmore. O abade Caron falava lisonjeiramente,
em pequena reunio de seminaristas, no beco das Feuillantines, de um padre
desconhecido chamado Felicidade Roberto, o qual depois veio a ser Lamennais.
     No Sena via-se andar fumegando e girando por baixo das janelas das
Tulherias, da ponte Real para a ponte Lus XV, fazendo o estrpito de um co a
nadar, uma coisa que para pouco servia, uma espcie de brinquedo, um sonho de
inventor, mas um sonho oco, uma utopia, finalmente, um barco a vapor. Os
parisienses olhavam com indiferena para semelhante inutilidade. O senhor de
Vaublanc, reformador do Instituto, por golpe de Estado, ordem rgia e formada,
distinto autor de muitos acadmicos, depois de tantos ter feito, no conseguia
chegar a s-lo. O arrabalde de Saint-Germain e o pavilho Marsan desejavam para
prefeito de polcia o senhor Delavau, por causa da sua devoo. Dupuytren e
Rcamier travavam--se de razes no anfiteatro da Escola de Medicina e
ameaavam chegar a vias de facto por causa da divindade de Jesus Cristo. Cuvier,
com um olho no Gnesis e o outro na natureza, esforava-se por agradar  reaco
religiosa, Ipondo os fsseis de acordo com os textos e fazendo que os mastodontes
lisonjeassem Moiss.
     Franois de Neufchteau, louvvel cultivador da memria de Parmentier,
fazia mil esforos para que pomme de ferre (batata), se pronunciasse parmentire e
no conseguia. O abade Gregrio, antigo bispo, antigo convencional, antigo
senador, tinha na polmica realista passado ao estado de infame Gregrio. A
locuo que acabamos de empregar: passar ao estado de, fora denunciada como
neologismo por Royer-Collard. Debaixo do terceiro arco da ponte de lena
podia-se distinguir ainda, pela sua alvura, a pedra nova com a qual, havia dois
anos, fora tapado o buraco da mina praticado por Blucher para fazer ir a ponte
pelos ares. A justia chamava ao seu tribunal um homem que, ao ver entrar o
conde de Artois na igreja de Nossa Senhora, exclamara em voz alta: com a
fortuna! Tenho saudades do tempo em que via entrar, no Bal-Sauvage, Bonaparte
e Talma pelo brao um do outro! Por estas ideias sediciosas foi condenado a seis
meses de priso.
     Os traidores mostravam-se descaradamente; os homens que se tinham
passado para o inimigo na vspera de uma batalha no escondiam a recompensa e
caminhavam impudicamente em pleno dia, no cinismo das riquezas e das
dignidades; os desertores de Ligny e de Quatre-Bras, em toda a indecncia da sua
vil torpeza, ostentavam claramente a sua dedicao  monarquia, esquecendo o
que em Inglaterra se encontra escrito na parede interior dos water-closets
pblicos: Please adjust your dress before leaving (Faa favor de se compor antes de
sair.).
     Eis desordenada e confusamente o que sobrenada do ano de 1817, hoje
esquecido. A histria desdenha quase sempre estas minuciosidades e no pode
deixar de o fazer, alis tornar-se-ia infinita. Todavia, estes pormenores que so
apelidados de insignificantes no h nem pequenos factos na humanidade, nem
pequenas folhas na vegetao so teis.  das feies dos anos que se compe o
carcter dos sculos.



    II
    Quatro pares



     Estes parisienses eram naturais um de Toulon, outro de Limoges, o terceiro
de Cafaors e o quarto de Montauban; mas eram estudantes, e quem diz estudante
diz parisiense. Estudar em Paris  nascer em Paris.
     Eram quatro moos vulgares; no h ningum que no tenha visto figuras
semelhantes; imaginem-se quatro estudantes desses que por a se encontram com
frequncia; nem bons nem maus, nem instrudos nem ignorantes, nem gnios
nem imbecis, e dotados da beleza do encantador Abril que se chama vinte anos.
Eram quatro scares quaisquer; nesta poca ainda no existiam os Artures.
Queimai diante dele os perfumes da Arbia dizia a cano. Oscar avana, vou
v-lo! Estava em moda Ossian; a elegncia era escandinava e calednia; a moda
inglesa pura s mais tarde tinha de dominar; e o primeiro dos Artures,
Wellington, acabava apenas de ganhar a batalha de Waterloo.
     Chamavam-se estes scares, um Flix Tholomys, de Toulouse; outro
Listolier, de Cahors; outro Fameuil, de Limoges; o ltimo Blachevelle, de
Montauban.
     Como  natural, cada qual tinha a sua amante.
     Blachevelle amava Favorita, assim apelidada porque tinha estado em
Inglaterra; Listolier adorava Dlia, que tomara por nome de guerra um nome de
flor; Fameuil idolatrava defina, abreviatura de Josefina; a Tholomys pertencia
Fantine, chamada a Loira em consequncia dos seus belos cabelos cor de sol.
     Favorita, Dlia, Zefina e Fantine eram quatro encantadoras raparigas,
perfumadas e joviais, ainda um tanto costureiras, no tendo de todo abandonado
a agulha, desarranjadas por causa dos namoros, mas conservando no semblante
um resto da serenidade do trabalho e na alma essa flor de honestidade que na
mulher sobrevive  primeira queda.
     Entre as quatro havia uma a quem chamavam a Pequena, por ser a mais nova
e outra a quem denominavam a Velha, que tinha vinte e trs anos.
     Para nada ocultar, as trs primeiras eram mais experientes, descuidosas e
amigas do bulcio da vida do que Fantine, a Loira, que se achava na sua primeira
iluso. O mesmo no poderiam dizer Dlia, Zefina e, especialmente, Favorita.
Mais de um episdio havia j no seu romance, apenas em princpio; o amante, que
no primeiro captulo se chamava Adolfo, no segundo chamava-se Afonso e no
terceiro Gustavo. A pobreza e o luxo so dois conselheiros fatais; um recrimina,
outro lisonjeia, e as bonitas raparigas do povo todas os ouvem falando-lhes aos
ouvidos, cada um de seu lado.
     Estas almas mal guardadas, do-lhes ateno, e da as suas quedas e as pedras
que lhes atiram. Oprimem-nas com o esplendor de tudo o que  imaculado e
inacessvel. Oh!, se a Jungfrau tivesse fome?!
     Favorita, tendo hesitado em Inglaterra, tinha por admiradoras Zefina e Dlia.
     Comeara muito cedo a sua vida independente. Seu pai era um idoso
professor de matemtica, brutal e fanfarro; no era casado e, apesar da avanada
idade, amigo ainda de se divertir. Uma ocasio, sendo ainda rapaz, vira pegar-se a
um guarda-cinza o vestido de uma criada e apaixonou-se pelo incidente. Resultou
da Favorita. De tempos a tempos, a rapariga encontrava o pai, o qual nunca
deixava de a cumprimentar. Um dia, uma velha com cara de beata entrara-lhe pela
casa dentro, dizendo-lhe:
     - No me conheces, menina?
     - No - Sou tua me.
     Aps isto, foi ao armrio, comeu e bebeu, mandou trazer um colcho que
tinha e instalou-se em casa da rapariga. Rabugenta e devota, no dirigia palavra a
Favorita; almoava, jantava e ceava por quatro e fazia sala em casa da porteira,
dizendo mal da filha.
     O que arrastara Dlia para Listolier, para outros talvez, para a ociosidade, era
ter umas bonitas unhas rosadas muito para se verem. No seria uma barbaridade
obrigar to bonitas unhas a trabalhar? Quem quer conservar-se virtuosa no deve
ter d das mos Quanto a Zefina, conquistara Fameuil pelo modo ao mesmo
tempo traquinas e acariciador, com que costumava dizer:
     - Sim, meu senhor.
     Como os rapazes eram companheiros, as jovens eram amigas. Estes amores
costumam andar sempre acompanhados destas amizades.
     Honestidade e filosofia so duas coisas diferentes, e a prova  que, feitas todas
as reservas respectivas a cada um destes diversos pares, Favorita, Zefina e Dlia
eram raparigas filsofas, e Fantine uma rapariga honesta.
     - Honesta? - dir-nos-o decerto. - Ento Tholouiys?
     Salomo responderia que o amor faz parte da honestidade. Limitamo-nos a
dizer que o amor de Fantine era um primeiro amor, amor nico, amor fiel.
     Era das quatro a que no tinha sido ainda tratada por tu seno por um nico
homem.
     Fantine era uma dessas criaturas que desabrocham, para assim dizer, do seio
do povo. Sada das mais insondveis regies das trevas sociais, trazia na fronte o
sinal do annimo e do incgnito. Nascera em Montreuil-sur-mer. Quem eram
seus pais? Quem o poderia dizer? Ningum lhe conhecera nunca nem pai nem
me. Chamava-se Fantine. Porque se chamava assim? Nunca ningum lhe
conheceu outro nome. Por ocasio do seu nascimento existia ainda o directrio.
Nem o mais pequeno nome de famlia, porque no tinha famlia; nem um simples
nome de baptismo, porque no havia igreja.
     O seu nome deu-lho a bel-prazer o primeiro transeunte que a encontrou na
rua, muito pequenina e de p descalo. Recebeu um nome, como na fronte recebia
a gua das nuvens, quando chovia. Chamavam-lhe Fantine e era quanto bastava.
Esta criatura humana viera assim ao mundo. Aos dez anos, Fantine deixou a
cidade e foi servir para casa de uns rendeiros dos arrabaldes.
     Aos quinze anos foi para Paris, em busca de fortuna. Fantine era formosa e
conservou-se pura o maior espao de tempo que lhe foi possvel. Era uma linda
rapariga loira e com bonitos dentes. Oiro e prolas eram o seu dote, mas o oiro
tinha-o na cabea e as prolas na boca.
     Trabalhou para viver; depois, ainda para viver, porque o corao tambm
necessita de alimento, amou.
     Amou Tholomys, Para ele era apenas um passatempo, para ela era uma
paixo As ruas do bairro Latino, em que formigam continuamente estudantes e
costureiras, presenciaram o princpio deste sonho.
     Fantine, nesses ddalos da colina do Panteon, onde comeam e desfazem
tantas aventuras, esquivara-se por muito tempo a Tholomys, porm de modo a
encontrar-se sempre com ele. H um modo de fugir que se assemelha a procurar.
A cloga realizou-se.
     Blachevelle, Listolier e Fameuil formavam uma espcie de corpo de que
Tholomys era a cabea. Quem tinha o esprito era ele.
     Tholomys era antigo estudante veterano; era rico, possua quatro mil francos
de rendimento, o que na montanha de Santa Genoveva era um esplndido
escndalo. Era um pndego de trinta anos, mal conservado. Tinha a pele
encarquilhada, faltavam-lhe dentes e comeava j a aparecer-lhe uma calva, de que
ele prprio dizia sem tristeza:
     - Calva aos trinta, gota aos quarenta!
     Digeria mal e sofria de uma inflamao na vista. Porm,  medida que a
juventude se lhe apagava, reanimava-se-lhe a jovialidade; substitua os dentes por
gestos cmicos, os cabelos pela alegria, a sade pela ironia e o olho que chorava ria
de contnuo. Estava estropeado, mas cheio de vio. A sua mocidade, fechando a
bagagem muito antes da idade prpria, retirava-se em boa ordem, rindo sempre e
fazendo fogo.
     Era autor de uma pea que foi rejeitada no teatro do Vaudeville e, de tempos
a tempos, tambm compunha versos. Alm de tudo isto duvidava superiormente
de todas as coisas, o que denotava grande fora de esprito aos olhos dos fracos.
Por isso, sendo irnico e calvo, era o chefe.
     Iron  uma palavra inglesa que quer dizer ferro. Ser dessa palavra que
provm ironia?
     Um dia, Tholomys chamou os amigos de parte, fez um gesto de orculo e
disselhes:
     - H quase um ano que Fantine, Dlia, Zefina e Favorita nos pedem que lhes
faamos uma surpresa e ns prometemos-lha solenemente. Todos os dias nos
falam nela, principalmente a mim. Do mesmo modo que as velhas em Npoles
gritam a S.
     Janurio: Faceia gialluta, fa o miracolo, face amarela, faz o milagre, assim as
nossas belas me dizem sem cessar: Tholomys, quando dars  luz a tua
surpresa? Ao mesmo tempo, os nossos pais escrevem-nos, estamos apertados por
dois lados.
     Portanto,  chegado o momento. Conversemos.
     Dito isto, Tholomys principiou a falar em voz baixa e disse o que quer que
fosse de engraado, que uma grande e entusistica gargalhada saiu das quatro
bocas ao mesmo tempo e Blachevelle exclamou:
     - Que grande ideia!
     Nisto, chegaram  porta de um botequim cheio de fumo, entraram e o resto
da sua conferncia perdeu-se nas trevas O resultado dessa conferncia foi uma
esplndida passeata, para que foram convidadas as quatro raparigas e que se
efectuou no domingo seguinte.



    III
    A quatro e quatro



     Hoje mal se pode fazer ideia do que era, h quarenta e cinco anos, um passeio
ao campo entre estudantes e costureiras. Paris j no tem os mesmos arredores.
Aquilo a que se podia chamar vida circumparisiense mudou completamente h
meio sculo a esta parte. Onde rodava a diligncia, Voa a locomotiva; onde
navegava a barca, corre o vapor; fala-se hoje de Fcamp, como ento se falava de
Saint-Cloud. O Paris de 1862  uma cidade que tem a Frana por arrabaldes.
     Os quatro pares praticaram consciensiosamente todas as loucuras
campes-tres possveis naquele tempo.
     Era em princpios de frias, por um quente e lmpido dia de Vero No dia
anterior, Favorita, a nica que sabia escrever, mandou em nome das quatro, o
seguinte bilhete a Tholomys: Quanto mais cedo tiver lugar a partida, melhor.
     Foi, pois, em consequncia deste bilhete que eles se levantaram s cinco horas
da manh e foram num carro para Saint-Cloud; ao verem a cascata seca,
exclamaram:
     - Deve ser magnfica quando deitar gua!
     Almoaram na Tte-Noir, que ainda ento no pertencia a Castaing, jogaram
as argolas no bosque do tanque grande, subiram ao mirante de Digenes, jogaram
a doces na roleta da ponte de Svres colheram flores em Puteaux, compraram
pssegos em Neuilly, comeram fruta em toda a parte, divertiram-se muito e todos
se sentiram felizes.
     As raparigas corriam e chilreavam como toutinegras em liberdade. Era um
delrio. De vez em quando voltavam-se para os rapazes e batiam-lhe ligeiramente
nas faces. Embriaguez matutina da vida! Adorveis anos! Todas quatro estavam
arrebatadamente lindas!
     Um poeta clssico, ento em voga, excelente velho que tinha uma Leonor, o
cavalheiro de Labouisse, andando nesse dia a passear no souto de Saint-Cloud, ao
v-las passar, seriam dez horas da manh, exclamou:
     - Vai uma a mais! - referindo-se s Trs Graas.
     Favorita, a amante de Blachevelle, a que tinha vinte e trs anos e a quem
apelidavam de velha, corria na frente por entre os grandes ramos verdes,
atravessava os fossos e as moitas com a alegria e entusiasmo de uma jovem fauna.
Zefina e Dlia, que o acaso fizera belas, de modo que uma ao p da outra
sobressaam mais e se. completavam, caminhavam sempre juntas, mais ainda por
instinto de garridice do que por amizade, e, encostadas uma  outra, tomavam
atitudes inglesas; acabavam de aparecer os primeiros Keapsakes, despontava a
melancolia para as mulheres, do mesmo modo que mais tarde o byronianismo
para os homens, e os cabelos do sexo amvel principiavam a usar-se em cachos.
Zefina e Dlia traziam-nos em caracis.
     Listolier e Fameuil, embrenhados numa discusso sobre os seus professores,
explicavam a Fantine a diferena que havia entre os senhores Delvincourt e
Blondeau.
     Blachevelle parecia ter nascido expressamente para levar no brao, aos
domingos, o desbotado xaile de Favorita.
     Tholomys ia atrs, dominando o grupo. Folgazo como os outros,
conhecia-se, todavia, que era ele quem governava; na sua jovialidade descobria-se
ditadura. O seu principal ornamento consistia numas calas pernas de elefante,
com presilhas de trana de cobre; levava na mo uma potente bengala que lhe
custara duzentos francos, e na boca uma coisa singular chamada charuto, porque,
como fazia tudo quanto queria, at fumava - Este Tholomys  espantoso! -
diziam os outros respeitosamente. - Que calas!
     Que energia!
     Quanto a Fantine era a personificao da alegria. Os brilhantes dentes que
possua tinham evidentemente recebido de Deus a misso do riso. Levava de
melhor vontade na mo do que na cabea o seu chapelinho de palha guarnecido
de fitas brancas. Os abundantes cabelos loiros sempre prontos a flutuar,
soltando-se a cada instante, o que a obrigava a segur-los continuamente,
pareciam ter nascido para a fuga de Galateia por entre os salgueiros. Os lbios
deliciosamente rosados brilhavam de modo encantador. Os cantos da boca
voluptuosamente contrados como nas carrancas de Erigone, como que estavam
provocando a desejos; porm, as compridas e espessas sobrancelhas baixavam-se
discretamente como que para abafar a provocao dos lbios. No vesturio havia
um no sei qu de cantante e fulgurante Trazia um vestido de barege cor de
malva, sapatinhos abotinados, de um pardo duvidoso, cujas fitas se traavam
airosamente sobre finssimas meias abertas e essa espcie de corpete de cassa,
inveno marselhesa, cujo nome canezou, corrupo da frase quinze aout,
pronunciada na Canebiere, significa bom tempo.
     As outras trs, menos tmidas, trajavam vestidos decorados, o que de Vero,
por baixo de chapus cobertos de flores,  extremamente gracioso e provocador;
mas ao lado destes atrevidos vesturios, o canezou da loira Fantine, com as suas
transparncias, indiscries e reticncias, escondendo e mostrando ao mesmo
tempo, parecia uma provocadora descoberta da decncia, a que o notvel tribunal
do amor, presidido pla viscondessa de Cette, de olhos verde-mar, talvez desse o
prmio da garridice quele canezou que. concorria para a castidade. O mais
ingnuo  s vezes o mais acertado. Acontece disto.
     Rosto resplandecente, perfil delicado, olhos azuis-escuros, plpebras grandes,
ps pequenssimos, pulsos e tornozelos admiravelmente talhados, pele branca,
mostrando aqui e alm as ramificaes azuladas das veias, faces pueris e frescas, o
pescoo robusto das Junos eginenses, ombros como que modelados por Couston,
tendo no centro uma voluptuosa cavidade, visvel atravs da cassa, uma alegria
melanclica, formas esculturais e delicadas, eis como era Fantine.
     Sob aqueles trapos e fitas, adivinhava-se a existncia de uma esttua e nessa
esttua havia uma alma.
     Fantine era bela sem que tivesse conscincia disso. Os raros pensadores,
misteriosos sacerdotes do belo, que confrontam silenciosamente tudo com a
perfeio, teriam entrevisto naquela jovem costureira, atravs da transparncia da
graa parisiense, a antiga eufonia sagrada. Aquela filha das trevas possua nobreza
de raa.
     Era bela sob as duas espcies, que so o estilo e o ritmo. O estilo  a forma do
ideal, o ritmo  o seu movimento.
     Dissemos que Fantine era a personificao da alegria, mas era igualmente a
personificao do pudor.
     Para um observador que a estudasse atentamente, o que transpirava dela, por
entre toda aquela embriaguez da idade, da estao e dos amores, era uma
irresistvel expresso de comedimento e modstia. Tudo lhe causava admirao, e
esta casta simplicidade  a diferena que separa Psych de Vnus. Fantine tinha os
compridos, alvos e delgados dedos da vestal que revolve as cinzas do fogo sagrado
com um alfinete de oiro.
     Conquanto nada tivesse recusado a Tholomys, como em breve se ver, o seu
rosto, em repouso, era soberanamente virginal; uma espcie de grave e quase
austera dignidade a acometia de repente, em certas ocasies, e no havia coisa
mais singular e embaraosa do que ver extinguir-se nela to rapidamente a alegria
e suceder-se sem transio o recolhimento  expanso. Esta sbita gravidade, s
vezes severamente acentuada, parecia o desdm de uma deusa.
     A fronte, o nariz e o queixo ofereciam esse equilbrio de linhas,
demasiadamente distinto do equilbrio de proporo, do qual resulta a harmonia
do rosto; no intervalo to caracterstico que separa a base do nariz do lbio
superior, tinha essa imperceptvel e graciosa ruga, misterioso sinal da castidade
que fez que Barbaroxa se apaixonasse de uma Diana encontrada nas escavaes de
cone.
     Se o amor  uma falta, Fantine era a inocncia sobrenadando nela.



    IV
    A alegria de Tholomys  to grande que at canta uma cano espanhola



     Aquele dia foi uma permanente aurora. Toda a natureza parecia repousar e
sorrir. Os jardins de Saint-Cloud exalavam doces perfumes; a virao do Sena
agitava brandamente as folhas; os ramos gesticulavam no ar; as abelhas saqueavam
os jasmins; as borboletas pousavam continuamente nas flores; e no augusto
parque do rei de Frana via-se um bando de vagabundos: os pssaros.
     Os quatro alegres pares resplandeciam confundidos com o sol, os campos, as
flores e as rvores.
     E, no meio desta comunho de paraso, falando, cantando, correndo,
danando, caando borboletas, colhendo flores, molhando os rosados braos no
orvalho das plantas, todas recebiam, de quando em quando, beijos de todos,
excepto Fantine, encerrada na sua vaga resistncia pensativa e arisca, porque
amava.
     -  que tens, Fantine? Ests hoje com um ar to esquisito! - dizia-lhe
Favorita.
     Eis como  o prazer.
     Estas passagens de pares venturosos so um profundo apelo  vida e a
natureza, fazendo desabrochar de tudo carcias e luz Houve uma fada que fez os
prados e as rvores expressamente para os namorados. Da provm a eterna escola
campesina dos amantes, que sem cessar recomea e que h-de durar enquanto
houver campos e estudantes. Da a popularidade da Primavera entre os
pensadores. O patrcio e o plebeu, o duque, o par e o pobre, as pessoas da corte e
as da cidade, como noutro tempo se dizia, so todos sbditos desta festa. Todos
riem, todos se procuram, h uma claridade de apoteose iluminando a atmosfera.
Que transfigurao produz o amor! No campo at os escreventes de tabelio
parecem deuses. E os gritinhos, as lutas na relva, os abraos furtivos, a linguagem
enigmtica que se assemelha a uma melodia, as adoraes que se mostram no
modo de pronunciar uma slaba, as cerejas arrancadas por uma boca  outra, tudo
isto flameja e passa no meio de resplendores celestes.
     As raparigas bonitas tornam-se graciosamente prdigas de si mesmas. Parece
que aquilo jamais acabar.
     Os filsofos, os poetas, os pintores, contemplam estes xtases e no sabem o
que ho-de fazer deles, tal  o seu deslumbramento. A partida para Cythera!,
exclama Wateau, Lancret, o pintor da plebe, contempla os burgueses arrebatados
para o espao; Diderot estende os braos a todos estes amores de um dia e d'Urfe
mistura-lhes druidas.
     Depois do almoo, os quatro pares foram ver o que ento se chamava o
Canteiro do Rei, uma planta h pouco chegada da ndia, cujo nome nos no
lembra agora, e que naquela ocasio atraa Paris inteiro a Saint-Cloud. Era um
esquisito e gracioso arbusto de haste elevada, cujos inumerveis ramos, delgados
como fios, sem folhas, eram cobertos de prodigiosa quantidade de pequeninas
rosas brancas, o que dava ao arbusto o aspecto de uma cabeleira coberta de flores
Havia sempre grande multido a admir-lo.
     Visto o arbusto, Tholomys exclamara:
     - Ofereo jumentos!
     E, ajustando o preo com um burriqueiro, tinham voltado por Vanves e Issy,
onde houve incidente.
     O parque, propriedade nacional, possudo nesta poca pelo fornecedor
Bourguin, estava aberto. Entraram e visitaram na sua gruta o anacoreta autmato,
experimentaram os efeitos misteriosos do famoso gabinete dos espelhos, lasciva
armadilha digna de um stiro transformado em milionrio, ou de Turcaret
metamorfoseado em Priapo. Baloiaram robustamente o grande balano preso aos
dois castanheiros celebrados pelo abade de Bernis.
     Enquanto as raparigas se baloiavam uma aps outra, o que fazia esvoaar as
saias entre risadas universais, o toulousiano Tholomys, meio espanhol, visto
Toulouse ser prima de Tolosa, ps-se a cantar numa melanclica melopeia a
antiga cano galega, provavelmente inspirada por alguma bonita rapariga,
voando em toda a fora sobre uma corda presa a duas rvores:
     Soy de Badajoz, Amor me llama Toda mi alma Es en mis ojos Porque enseas
As sus piernas
     S Fantine recusou baloiar-se - Gosto pouco de quem se faz assim
importante! - murmurou Favorita agastada.
     Abandonados os jumentos, novo prazer: passaram o Sena num barco, e de
Passy dirigiram-se a p para a barreira da Estrela. Aquelas alegres criaturas
estavam a p desde as cinco horas da manh Quem sente cansao ao domingo?
dizia Favorita Ao domingo no trabalha a fadiga As trs horas, os quatro pares,
arquejantes de prazer, trepavam pelas montanhas russas, edifcio singular que
ocupava ento as alturas de Beaujon e cujo tortuoso lineamento se avistava por
cima das rvores dos Campos Elseos.
     De vez em quando, Favorita exclamava:
     - E a surpresa? Queremos essa surpresa!
     - Tenham pacincia! - respondia Tholomys.



    V
    Em casa de Bombarda



     Terminado o divertimento das montanhas russas, trataram de ir jantar.
Assim, o alegre grupo, j um tanto fatigado, fundeara na casa de (pasto de
Bombarda, sucursal estabelecida nos Campos Elseos pelo clebre restaurante de
Bombarda, cuja tabuleta se ostentava ento na rua de Rivolli, prximo  travessa
Delorme.
     Uma sala grande, mas feia, com uma cama ao fundo (em vista da grande
afluncia na casa de pasto aos domingos, os jovens tiveram de contentar-se com
este aposento); duas janelas, de onde se podia contemplar por entre os olmos o
cais e o rio; duas mesas: numa, uma triunfante pilha de ramos misturados com
chapus de homem e de mulher; na outra, os quatro pares sentados em volta de
um risonho amontoamento de pratos, travessas, copos, garrafas de vinho e de
cangires de cerveja  mistura; pouca ordem sobre a mesa, alguma desordem por
baixo dela: Faziam sob a mesa Um tal motim c'os ps, que ensurdeciam.
     diz Molire.
     Eis aqui onde acabava, s quatro horas da tarde, a peregrinao pastoril
principiada s cinco da manh. O sol declinava e o apetite extinguia-se.
     Os Campos Elseos, cheios de sol e de gente, cobriam-se de luz e de poeira,
duas coisas de que se compem a glria Os cavalos de Marly, mrmores
relinchantes, empinavam-se no meio de uma nuvem dourada. Os carros iam e
vinham. Pela avenida de Neuilly descia um esquadro de magnficos guardas de
corpo, de clarim na frente; a bandeira branca, ligeiramente rosada pelos ltimos
raios de sol, flutuava na cpula das Tulherias. A Praa da Concrdia, ento praa
de Lus XV, regurgitava de passeantes satisfeitos Muitos traziam a flor de liz de
prata pendente da fita branca, que em 1817 ainda no tinha inteiramente
desaparecido das casacas. Aqui e alm, no meio dos passeantes que as cercavam e
aplaudiam, viam-se grupos de raparigas danando e lanando ao vento uma
cantiga bourboniana, ento clebre, destinada a fulminar os Cem Dias, cujo
estribilho era o seguinte:
     Venha o nosso pai de Gand.
     Venha, venha o nosso pai.
     Grupos de habitantes dos arrabaldes em trajos domingueiros e alguns at
com as suas flores de liz como os burgueses, espalhavam-se pelo grande jardim e
pelo jardim de Marigny, jogavam as argolas e giravam nos cavalos de madeira; uns
bebiam, outros, aprendizes de impressor, traziam barretes de papel; era uma
multido compacta, cujas risadas se ouviam ao longe.
     Todos se mostravam satisfeitos. Era um tempo de incontestvel paz e de
profunda tranquilidade realista; era a poca em que um relatrio confidencial e
especial do prefeito da polcia Angles ao rei, a respeito dos arrabaldes de Paris,
terminava por estas linhas: Considerando bem, senhor, no h nada a recear da
parte desta gente. So criaturas descuidosas e indolentes como gatos. O povo
mido das provncias  desinquieto, o de Paris no Compem-se de homens
pequenos. Seriam necessrios dois para fazer um granadeiro de Vossa Majestade.
Da parte do povo mido de Paris no h que recear.  notvel como a estatura
desta gente tem diminudo h cinquenta anos a esta parte; o povo dos arrabaldes
est mais pequeno do que antes da Revoluo: No  gente perigosa. Enfim, 
canalha inofensiva.
     Os prefeitos da polcia no julgam possvel que um gato se transforme em
leo; todavia,  este o milagre do povo de Paris. Alm disso, o gato, to desprezado
pelo conde de Angles, tinha a estima das repblicas antigas; incarnava a seus olhos
a liberdade, e, como para servir de confronto com a Minerva sem braos do Pireu,
havia na praa pblica de Corinto o colosso de bronze de um gato.
     A ingnua polcia da Restaurao encarava o povo de Paris por um lado
muito favorvel. No  to inofensiva canalha como parece. O parisiense  para o
francs o que o ateniense  para o grego; ningum dorme melhor; ningum  mais
francamente frvolo e preguioso; ningum melhor do que ele d mostras de ser
esquecido; porm, no se fiem nas aparncias.  propenso a toda a espcie de
indolncia, mas quando da pode resultar glria,  incrvel como ele se entrega a
toda a qualidade de furor. Dai-lhe um chuo e vereis o 10 de Agosto; dai-lhe uma
espingarda, tereis Austerlitz. O povo de Paris  o ponto de apoio de Napoleo e o
recurso de Danton. Tratando-se da ptria, alista-se; tratando-se da liberdade,
levanta barricadas. Cuidado! Os seus cabelos irados tornam-se picos; a sua blusa
transforma-se em clmide. Acautelai-vos. Da primeira rua Grenetat que vir, far
forcas caudinas. Em soando a hora, o habitante dos arrabaldes cresce, o homem
pequeno levanta-se e o seu olhar ser terrvel, o seu hlito torna-se tempestade, e
daquele dbil peito saem rajadas capazes de derrubar as eminncias dos Alpes. 
ajudada por esses habitantes dos arrabaldes de Paris que a revoluo conquista a
Europa. Esses homens cantam;  a sua alegria. Proporcionai-lhe a cano  sua
natureza e vereis! Quando s tm por estribilho a Carmagnole, derrubam Lus
XVI; fazei-o cantar a Marselhesa e libertaro o mundo!
     Escrita esta nota  margem do relatrio de Angles, voltemos aos nossos
quatro pares, que acabavam de jantar.



    VI
    Captulo consagrado ao amor



    Conversas de mesa, conversas de amor, so to impalpveis umas como
outras; as conversas de amor so nuvens, as conversas de mesa so fumo.
    Fameuil e Dlia contarolavam; Tholomys bebia, Zefina ria, Fantine sorria.
    Listolier soprava numa gaitinha de madeira comprada em Saint-Cloud.
    Favorita fitava BlacheveHe com ternura e dizia-lhe:
    - Adoro-te, Blachevelle!
     Isto deu lugar a uma pergunta feita por Blachevelle:
     - Que farias tu, Favorita, se eu deixasse de te amar?
     - O que fazia? - exclamou Favorita. - No digas isso nem a brincar! Se
deixasses de amar-me, atirava-me a ti, arranhava-te, esmurrava-te, deitava-te gua
e mandava-te prender!
     Blachevelle sorriu com a voluptuosa fatuidade de quem se v acariciado no
seu amor prprio e Favorita prosseguiu:
     -  o que te digo, chamava pela guarda para te prender! Ora experimenta!
     Blachevelle, extasiado, recostou-se no espaldar da cadeira e fechou os olhos.
     Dlia, sem deixar de comer, disse em voz baixa a Favorita, no meio da
confuso geral:
     - Pelo que vejo, idolatras o teu Blachevelle?
     - Detesto-o! - respondeu Favorita no mesmo tom e tornando a pegar no
garfo. -  um avarento! De quem eu gosto  de um rapaz que mora defronte de
mim. Aquilo  que  um rapaz a quem d gosto amar! Conhece-lo? Parece-me que
 actor. Eu gosto dos actores. Apenas ele entra em casa, a me diz logo: Ah, meu
Deus! Estava tudo to sossegado e a vai ele pr-se a quebrar a cabea da gente
com as suas cantorias! Porque, apenas ele pe o p em casa, vai para as
guas-furtadas, para o telhado, para o lugar mais alto que pode e principia a
cantar, a declamar, nem eu te sei dizer o que , a ponto de se ouvir c de baixo. J
ganha vinte soldos por dia, em casa de um tabelio, a rabiscar sentenas.  filho de
um ex-cantor de S. Jacques do Haut-Pas. Oh,  um rapaz muito interessante!
Gosta tanto de mim, que, um dia, vendo-me estar a fazer massa para as filhs,
disseme:  menina, faa sonhos das suas luvas e ver como eu as como. S os
artistas  que sabem dizer destas coisas Estou quase enfeitiada por ele!
     Mas isso no quer dizer nada, porque vou dizendo a Blachevelle que o adoro
Que tal, sei ou no mentir?
     Aps uma pausa, Favorita prosseguiu:
     - Mas olha, Dlia, estou triste! Todo o Vero tem chovido, o vento no
abranda, Blachevelle  um sovina, na praa s se encontram ervilhas, a gente no
sabe o que h-de comer, tenho spleen, como dizem os ingleses, a manteiga est
carssima! E, por fim, ainda isto: estar a jantar numa sala que tem uma cama, v l
tu se no tenho razo de estar desgostosa da vida!
    VII
    Prudncia de Tholomys



     Ao mesmo tempo que uns cantavam, outros falavam tumultuosamente, era
uma verdadeira confuso. Por fim, Tholomys interveio:
     - No falemos ao acaso nem precipitadamente. Se queremos ser
deslumbrantes, meditemos. O muito improvisar cansa e embrutece o esprito.
Senhores, nada de pressas. Aliemos a majestade ao regabofe, comamos com
comedimento, prolonguemos o banquete, no nos apressemos. Vejam a
Primavera; se se adianta demais, cresta-se, isto , gela-se. O excesso de zelo perde
os pessegueiros e abrunheiros, anula a graa e o prazer dos bons jantares. Nada de
zelo, senhores! Grimold de la Reynire  da opinio de Talleyrand.
     No grupo manifestou-se surda rebelio.
     - Tholomys, deixa-nos tranquilos! - disse Blachevelle.
     - Abaixo o tirano! - exclamou Fameuil.
     - Bombarda, Bombance e Bamboche! gritou Listolier.
     - Tholomys, contempla o meu sossego!, (mon calme) atalhou Blachevelle.
     - Mas tu s o marqus deste ttulo  respondeu Tholomys.
     Este insignificante jogo de palavras fez o efeito de uma pedra atirada a um
charco: todas as rs se calaram. O marqus de Montcalm era ento um realista
clebre.
     - Amigos - exclamou Tholomys, no tom de quem reassumiu a perdida
autoridade - tranquilizem-se! No recebam com tamanha admirao um
calemburgo cado das nuvens. Nem tudo o que aparece de semelhante modo 
verdadeiramente digno de entusiasmo e respeito. O calemburgo  a imundcie do
esprito que voa. O epigrama cai seja onde for e o esprito, depois de uma tolice,
volatiliza-se. A ndoa esbranquiada que se alastra num rochedo no impede o
condor de pairar. Longe de mim insultar o calemburgo! Honro-o unicamente na
proporo do seu mrito. Quanto tem havido de mais augusto, sublime e gracioso,
tudo tem feito trocadilhos de palavras. Jesus Cristo fez um calemburgo a respeito
de S. Pedro; Moiss, a respeito de Isaac; Esquilo, a respeito de Polynice; Cleopatra,
a respeito de Octvio. E notem que o calemburgo de Cleopatra precedeu a batalha
de Accio e que, a no ser ele, ningum hoje se lembraria da cidade de Torino,
nome grego que quer dizer colher de caldo.
     Posto isto, volto  minha exortao. Repito, meus irmos, nada de zelo, nada
de excessos, nem gracejos, nem trocadilhos de palavras. Prestem-me ateno,
porque eu possuo a prudncia de Anfiarao e a calvcie de Csar.  necessrio um
limite, mesmo nos enigmas. Est modus in rebus. Repito, tudo tem um termo, at
os bons jantares. As meninas gostam de pastis de fruta, mas no abusem. At
para comer  preciso arte e bom senso. A gulodice castiga o gluto. Gula puniu
Gulax. As indigestes so encarregadas por Deus de moralizar os estmagos. E,
tomem sentido, cada uma das nossas paixes, mesmo o amor, tem um estmago,
que no devemos encher de mais.
     Em todas as coisas  preciso escrever a tempo a palavra finis; quando isso se
torna urgente  foroso que cada um se contenha, que corramos os ferrolhos sobre
o nosso apetite, que encarceremos a fantasia e que se prenda a si mesmo. O mais
prudente  aquele que sabe num dado momento efectuar a sua prpria priso.
Tenham confiana em mim. Eu conheo um poucochinho de Direito, segundo
dizem as minhas certides, porque sei a diferena que existe entre questo movida
e questo pendente, porque sustentei uma tese em latim sobre o modo como eram
torturados os delinquentes em Roma no tempo em que Munacio Demens era
questor do Parricdio, porque estou em vsperas de ser doutor, no se segue
necessariamente, no meu entender, que eu seja um parvo. Recomendo-lhes
moderao nos seus apetites e, to certo como eu chamar-me Flix Tholomys,
digo uma coisa acertada. Feliz aquele que, chegada a hora, toma uma resoluo
herica, abdicando como Sylla ou Origenes!
     Favorita escutava com profunda ateno.
     - Flix - disse ela -  um nome muito bonito! Em latim quer dizer Prspero.
     Tholomys prosseguiu:
     - Quirites, gentlemen, caballeros, amigos! Querem deixar de ser aguilhoados
pelos desejos, passar sem leito nupcial e zombar do amor? Nada mais simples. Eis
a receita: limonada, exerccio violento, trabalho forado, pegar em grandes pesos,
levantar pedras, no dormir, velar; tomar beberagens nitrosas e tisanas nnfeas,
saborear emulses de papoilas e de agnus-castus, acompanhar isto com dieta
rigorosa, at estalar de fome e juntar-lhe banhos frios, cintos de ervas, aplicao de
uma chapa de chumbo, lavagens com licor de Saturno e fermentaes de oxicrato.
     - Gosto mais duma mulher! - disse Listolier.
     - A mulher! - continuou Tholomys.  Desconfiem delas! Desventurado do
que se entrega ao volvel corao de uma mulher. A mulher  prfida e tortuosa.
Detesta a serpente por rivalidade de ofcio. A serpente  a loja fronteira!
     - Ests bbedo, Tholomys? - gritou Blachevelle.
     - Eu, bbedo? retorquiu Tholomys.
     - Ento ests alegre! - tornou Blachevelle.
     - Concedo! - respondeu Tholomys. E, levantando-se de copo cheio em
punho, exclamou: Glria ao vinho! Nunc te, Bacche, canam! Desculpem, meninas,
isto  espanhol. E a prova, senhoritas, ei-la: tal povo, tal vasilha. A arroba de
Castela contm dezasseis litros, o cntaro de Alicante doze, o almude das Canrias
vinte e cinco, o quartin das Baleares vinte e seis, a bota do czar Pedro trinta. Viva
o czar, que era grande, e viva a sua bota, que ainda era maior! Minhas senhoras,
um conselho de amigo: se lhes no desagrada, faam que se enganam e mudem de
parceiro. O erro  prprio do amor. A namorada deve servir para mais alguma
coisa do que para estar acocorada e embrutecer-se como criada inglesa que tem
calos nos joelhos. O doce namoro deve ser alegremente errante! Dizem que o erro
 prprio do homem, eu digo que errar  prprio dos amantes. Minhas senhoras,
adoro-as a todas!  Zefina,  Josefina, cara mais que amarrotada, serias
encantadora se no andasses de esguelha!
     A tua cara parece um formoso rosto em cima do qual algum se sentou por
engano!
     Quanto a Favorita,  ninfas e musas! Um dia que Blachevelle ia a saltar a
enxurrada da rua de Gurin Boisseau, viu uma bonita rapariga de meias brancas
muito justas, que deixava ver as pernas. Agradou-lhe este prlogo e eis Blachevelle
namorado. A escolhida do seu corao era Favorita.  Favorita, tens uns lbios
jnios! Havia um pintor grego chamado Euforion, a quem puseram o nome de
pintor de lbios. S esse grego seria capaz de pintar a tua boca! Antes de ti, no
existia criatura digna deste nome Tu nasceste para aceitar o pomo como Vnus ou
para o comer como Eva. A beleza teve princpio em ti! Falei agora em Eva: foste tu
que a criaste. Mereces privilgio de inveno das formosas! Favorita, deixo de
tratar-te por tu, porque passo da poesia para a prosa. H um bocado, falava do
meu nome. Enterneceu-me isso; porm, a todos digo, sejam quem forem, que se
no deixem levar dos nomes, porque podem achar-se enganados. Eu chamo-me
Flix e no sou feliz. As palavras so mentirosas. No aceitemos cegamente as
indicaes que elas nos do. Seria um erro escrever para Lige (Lige significa
cortia), pedindo rolhas, ou para Pau (Pau significa pele), mandando vir luvas.
Miss Dlia, no seu lugar, tomava o nome de Rosa.
     A flor deve cheirar bem e a mulher ser espirituosa. Em Fantine no falarei; 
uma abstracta, uma sonhadora, uma melanclica, uma pensativa, uma sensitiva; 
um fantasma com forma de ninfa e pudor de freira, que vive extraviada da vida de
costureira, que se refugia nas iluses, que canta e reza e fita a vista no cu sem bem
saber o que v nem o que faz, e que, de olhos fitos no ar, vagueia por um jardim
onde h todos os pssaros que no existem.  Fantine, deves saber uma coisa: eu,
Tholomys, sou uma iluso; mas querem ver que ela nem me escuta, a loira filha
das quimeras? No obstante, tudo nela  frescura, suavidade, juventude, fagueira
claridade matutina.  Fantine, rapariga digna de ser Margarita ou Prola, s a
mulher mais belamente oriental que eu conheo! Outro conselho, minhas
senhoras: no casem. O casamento  um enxerto, que ora pega, ora no; evitem
semelhante risco... Mas para que estou aqui a perder tempo com as minhas
pregaes? As raparigas so incurveis no assunto casamento; tudo o que ns
dissermos, ns, os prudentes, no impedir que essas costureiras e debruadeiras
de botinhas, deixem de sonhar com maridos cobertos de diamantes! Enfim, seja
assim; mas reparem bem, minhas belas, comem demasiado acar. Reparem no
que lhes vou dizer: as mulheres no tm seno um defeito,  a gulodice.  amvel
sexo roedor, os vossos dentinhos alvos morrem de amor pelo acar! O acar 
um sal.
     Todo o sal  dissecante. O acar  o mais dissecante de todos os sais. Suga os
lquidos do sangue atravs das veias; daqui a coagulao, em seguida a
solidificao do sangue; daqui os tubrculos do pulmo; depois a morte.  por isso
que a diabetes confina com a tsica. Portanto, no comam acar e vivero!
Volto-me agora para os homens. Senhores, faam conquistas! Roubem as amantes
uns aos outros sem remorsos! Revezem-se. Em amor no h amigos! Onde houver
uma mulher bonita esto abertas as hostilidades! Nada de quartel, guerra e mais
guerra! Uma mulher bonita  um casus belli,  um flagrante delito. Todas as
invases de que reza e histria foram causadas por saias. Rmulo roubou as
Sabinas, Guilherme as Saxnias, Csar as Romanas. O homem que no  amado
paira como abutre sobre as amantes dos outros.
     Da minha parte, a esses infelizes que se vem vivos, lano a sublime
proclamao de Bonaparte ao exrcito da Itlia: Soldados, falta-vos tudo, mas o
inimigo est bem provido.
     Tholomys interrompeu-se:
     - Toma flego, Tholomys! - disse Blachevelle.
     E, dizendo isto, Blachevelle, acompanhado por Listolier e Fameuil, em tom de
queixume entoou uma dessas canes de oficina, compostas das primeiras
palavras que ocorrem, rimadas a torto e a direito e vazias de sentido como o
vergar de uma rvore e o sussurro dovento, nascidas do fumo dos cachimbos e
dissipando-se com ele.
     Eis o que o grupo respondeu  arenga de Tholomys:
     Uns pobres patetas deram A certo agente dinheiro.
     Impondo como condio Clermont-Tonerre fazer Papa eleito em S. Joo
     Mas ele por no ser padre, No pde a Papa chegar E o agente com tristeza
     Foi o dinheiro entregar.
     Pouco prprio era isto para acalmar o improviso de Tholomys. O rapaz,
contudo, esvaziou o copo, tornou a ench-lo e continuou:
     - Abaixo a sabedoria! Faam de conta que no ouviram nada do que eu disse.
     No sejamos nem graves, nem prudentes, nem prticos. Proponho um brinde
 alegria, sejamos alegres! Completemos o nosso curso de Direito, comendo e
fazendo loucuras.
     Indigesto e digesto! Seja Justiniano o varo e Ripaille a fmea! Haja alegria
at s profundidades! O mundo  um grande diamante. Sinto-me feliz. Os
pssaros so admirveis. Que festa por toda a parte! O rouxinol  um Elleviou
grtis. Eu te sado,  Vero!  Luxemburgo,  gergicas da rua da Madame e da
lea do Observatrio!  graciosas criadinhas que olhais para as crianas que
trazeis a passeio e vos entreteis a dar-lhes princpio! Gostaria dos pampas da
Amrica, se no tivesse as arcadas do Odon. A minha alma voa para as savanas e
para as florestas virgens!  tudo belo! As moscas zumbem no meio da luz. O sol
espirrou o beija-flor. D-me um beijo, Fantine!
     Mas enganou-se e beijou Favorita.



    VIII
    Morte dum cavalo



     - Janta-se muito melhor no don do que no bombarda! - exclamou Zefina.
     - Eu prefiro Bombarda a don - declarou Bachevelle. -  mais luxuoso, mais
asitico. Vejam a sala de baixo, com as paredes cobertas de espelhos.
     - E eu prefiro o luxo do prato, antes queria que servissem melhor! - disse
Favorita.
     Blachevelle insistiu:
     - No Bombarda, os cabos das facas so de prata, no don so de osso. Ora a
prata creio que  mais preciosa do que o osso.
     - Excepto para os que tm queixo de prata!  observou Tholomys, olhando
para o zimbrio dos Invlidos que se via das janelas do Bombarda.
     Seguiu-se uma pausa.
     - Tholomys! - bradou Fameuil. - Ainda h pouco eu e Listolier tivemos uma
discusso.
     - Uma discusso no  coisa m, mas uma briga  muito melhor.
     - Discutamos sobre filosofia.
     - Est bem.
     - Qual preferes tu, Descartes ou Spinosa?
     - Dsaugiers - respondeu Tholomys.
     Depois de proferir esta sentena, bebeu mais um trago e continuou:
     - Consinto em viver. Nem tudo na terra acabou ainda, visto que  permitido
fazerem-se extravagncias! Rendo graas aos deuses imortais! Mente-se, mas ri-se.
     Afirma-se, mas duvida-se. Brota do silogismo o inesperado.  magnfico!
Ainda h neste mundo homens que sabem abrir e fechar alegremente a caixa de
surpresas do paradoxo. Saibam que isto que as meninas esto bebendo com to
descansado modo  vinho da Madeira, da quinta do Curral das Freiras, que fica a
trezentas e dezassete toezas acima do nvel do mar! Atendam quando beberem:
trezentas e dezassete toezas, e o senhor Bombarda, o excelente proprietrio desta
casa, d-lhes trezentas toezas por quatro francos e cinquenta cntimos!
     Fameuil interrompeu-o novamente:
     - Tholomys, as tuas opinies constituem lei. Qual  o teu autor favorito?
     - Ber... - Quin?
     - No. Choux.
     E Tholomys prosseguiu:
     - Viva o Bombarda! Seria capaz de igualar Munofis de Elefanta, se pudesse
colher-me uma almeia, e Thygelion de Cheroneia, se conseguisse trazer-me uma
hetaira; porquanto, minhas senhoras, na Grcia e no Egipto havia Bombardas.
Assim no-lo afirma Apuleio. Oh, sempre as mesmas coisas e nada de novo! Nada
indito na criao do Criador! Nihil sub sole novum, diz Salomo; amor omnibus
idem, diz Virglio; e Carabina embarca com Carabino na galiota de Saint-Cloud,
como Aspasia se embarcava com Pricles na armada de Samos, Sabem o que era
Aspasia, minhas senhoras? Conquanto vivesse num tempo em que as mulheres
ainda no tinham alma, era uma alma; uma alma cambiante de rosa e prpura,
mais abraseada que o fogo, mais fresca do que a aurora. Aspasia era uma criatura
em que se tocavam os dois extremos da mulher: era libertina e deusa. Scrates
mais Manon Lescaut. Aspasia foi criada para o caso em que fosse necessrio um
modelo a Prometeu.
      Tholomys, uma vez impelido, dificilmente pararia, se, naquele momento, o
cavalo de um carro que passava no cais no tivesse cado. O efeito da queda do
animal fez parar o carro e o orador. Era uma gua magra e velha, digna do
esfolador, puxando um pesado carro. Chegando em frente da casa de pasto, o
animal, exausto, recusou-se a ir mais avante. Este incidente fez juntar em redor
um magote de pessoas Mal o carroceiro, zangado e praguejando, acabou de
proferir a sacramental palavra: Arre!, seguida de uma tremenda chicotada, o
sendeiro caiu para nunca mais se erguer.
      Ao tumulto dos transeuntes, todos os alegres ouvintes de Tholomys
voltaram a cabea, e o orador aproveitou logo o momento para fechar a sua
alocuo com esta melanclica estrofe:
      Dizem que a vida  como folha leve, Que qualquer ar revira, Assim ; seno
vejam esse bruto Que um arre s virou.
      - Pobre cavalo! - disse Fantine, suspirando.
      - No querem ver a Fantine a chorar pelos cavalos?! - exclamou Dlia. Ora
isto, realmente,  de fazer andar aos tombos com riso!
      Neste momento, Favorita cruzando os braos e inclinando a cabea para trs,
encarou resolutamente Tholomys, dizendo:
      -  verdade! Quando aparece essa surpresa?
      - Chegou exactamente o momento! - respondeu Tholomys. - Meus amigos,
soou a hora de surpreendermos estas belas damas. Minhas senhoras, esperem-nos
por um instante.
      - A coisa comea por um beijo - disse Blachevelle.
      - Na testa - acrescentou Tholomys.
      Cada qual deps gravemente um beijo na fronte da amante, aps o qual todos
quatro em fileira se dirigiram para a porta, com o dedo pousado na boca.
      - Isto j  divertido! - disse Favorita, batendo as palmas no momento em que
eles transpunham a porta.
      - No se demorem muito - murmurou Fantine. - Lembrem-se de que ficamos
 espera.
    IX
    Alegre fim de festa



     Ficando ss, as raparigas encostaram-se a duas e duas em cada uma das
janelas e comearam a falar umas com as outras, debruando-se pela parte de fora.
     Viram sair os rapazes de brao dado, voltarem-se, dizerem-lhes adeus entre
risos e desapareceram no meio da poeira e da multido, que todos os domingos
invade os Campos Elseos.
     - No se demorem! - gritou Fantine.
     - O que nos traro eles? - indagou Zefina.
     - No pode deixar de ser uma coisa bonita  respondeu Dlia.
     - Eu desejo que seja de oiro o que nos trouxerem! - disse Favorita.
     Dentro em pouco foram distradas pelo movimento que se operava junto do
cais, que distinguiam por entre os ramos das rvores e que muito as divertia. Era a
hora da partida das mala-postas e diligncias.
     Quase todos os transportes do sul e do oeste passavam ento pelos Campos
Elseos. A maior parte deles seguia pelo cais e saa pela barreira de Passy. De
instante a instante, um grande veculo pintado de amarelo e preto, em extremo
carregado, cuidadosamente aparelhado, disforme  fora de malas, de bas e
trouxas, cheio de cabeas que mal se viam, esmagava a calada, arremessando-se
por entre a multido, espargindo mais fascas do que uma forja, levantando uma
nuvem de poeira, correndo impetuoso como uma fria. Este rudo continuado
causava imenso prazer s raparigas.
     Favorita exclamou:
     - Que barulheira! Dir-se-ia serem montes de correntes de ferro
despenhando-se pelo ar!
     Sucedeu que um destes veculos, que dificilmente se distinguia por entre a
espessura dos ulmeiros, parou por um momento, partindo logo depois a galope.
Isto causou grande espanto a Fantine.
     -  singular! - disse ela. - Sempre julguei que a diligncia no parava.
     Favorita encolheu os ombros e replicou:
     - Esta Fantine  nica! Faz rir a gente, ainda que no tenha vontade! Merece
ser vista por curiosidade! Espanta-se com as coisas mais simples! Ora supe tu que
eu sou um viajante e digo ao cocheiro da diligncia: Eu vou andando e quando
passar no cais, entrarei. A diligncia passa, o cocheiro v-me, pra e eu entro. 
uma coisa que se faz todos os dias. Olha, minha cara, no conheces mesmo nada
das coisas deste mundo!
     Decorreu assim algum tempo. De sbito, Favorita com um movimento de
quem desperta, exclamou:
     -  verdade, e a surpresa?
     - Tens razo - acudiu Dlia - a tal famosa surpresa?
     - Demoram-se tanto! - disse Fantine.
     Mal Fantine acabara de dizer isto, quando o criado que servira o jantar
entrou, trazendo na mo uma coisa que parecia uma carta.
     - O que  isso? - perguntou Favorita.
     -  um papel que aqueles senhores deixaram para entregar s meninas -
respondeu o criado.
     - Mas porque no o trouxe h mais tempo?
     - Porque me recomendaram que o no entregasse seno passada uma hora.
     Favorita arrancou o papel das mos do criado e viu que era com efeito uma
carta.
     - Querem ver? - disse ela. - No traz sobrescrito, mas tem escrito por fora: A
VAI A SURPRESA!
     Em seguida abriu rapidamente a carta e leu j dissemos que Favorita sabia
ler: Queridas amantes:

     Saibam que temos pais. Decerto no imaginam bem o que isto quer dizer. 
uma coisa de que se fala no cdigo civil, pueril e honesto. Ora, estes parentes
choram de saudades, esses velhos reclamam-nos, essas excelentes criaturas
chamam-nos filhos prdigos, esto ansiosos por nos ver e prometem receber-nos com
uma grande festa. No podemos deixar de satisfazer to virtuoso desejo. Quando
lerem isto, cinco fogosos cavalos nos transportaro ao seio de nossos paps e mams.
Levantamos campo, como diz Bossue. Ausentamo-nos, ou, por outra, partimos.
Fugimos nos braos de Laffite e nas asas de Caillard. A diligncia de Toulouse
arranca-nos ao abismo, e o abismo sois vs, encantadoras pequenas! Voltamos 
sociedade, ao dever e  ordem, a trote largo,  razo de trs lguas por hora. A
ptria quer que sejamos, como toda a gente, perfeitos pais de famlias, guardas
campestres e conselheiros de Estado. Venerem-nos, porque nos sacrificamos.
     Chorem-nos rapidamente e substituam-nos depressa. Se esta carta vos magoar,
faam-lhe o mesmo. No nos guardem rancor. Adeus.
     Assinado:
     Blachevelle Fameuil Listolier Flix Tholomys
     P. S. O jantar est pago.
     As quatro raparigas olharam-se mutuamente.
     Favorita foi a primeira que rompeu o silncio:
     - Ento?! - exclamou ela. - Ho-de concordar que foi uma boa pea!
     - Tem graa, na verdade! - disse Zefina.
     - Foi decerto o Blachevelle quem teve esta lembrana - tornou Favorita. - Isto
faz com que o ame. Se mais depressa se fosse, mais depressa o amava, esta  que 
a verdade!
     - No! - atalhou Dlia. - Esta ideia foi do Tholomys. Bem se v!
     - Nesse caso - replicou Favorita - morra Blachevelle e viva o Tholomys!
     - Viva o Tholomys! - exclamaram Dlia e Zefina.
     E desataram a rir s gargalhadas. Fantine riu como as outras.
     Decorrida uma hora, porm, quando se encontrou s no seu quarto, chorou.
Era este o seu primeiro amor; dera-se a Tholomys como a um marido e a pobre
rapariga tinha um filho.


L04:
    LIVRO QUARTO
    Confiar  por vezes abandonar



    I
    Encontro de duas mes



     No primeiro quartel deste sculo, havia em Montfermeil, nas proximidades
de Paris, uma espcie de taberna que hoje j no existe e que era administrada por
um indivduo e sua mulher, chamados Thenardier. Esta taberna ficava situada no
beco do Boulanger. Por cima da porta via-se uma tabuleta de madeira pregada na
parede, ostentando uma pintura que pretendia figurar um homem com outro s
costas, tendo este ltimo grandes dragonas de general doiradas e largas estrelas de
prata, alguns borres vermelhos figuravam sangue, o fundo do quadro era
composto de nuvens de fumo, representando provavelmente uma batalha Em
baixo lia-se esta inscrio: Estalagem do Sargento de Waterloo.
     Nada mais natural do que um carro  porta de uma estalagem Todavia, o
veculo, ou para melhor dizer, fragmento de veculo, que numa tarde da
Primavera de 1818, pejava a rua diante do Sargento de Waterloo, teria
infalivelmente atrado, pelo descomunal da grandeza, a ateno de um pintor que
por ali passasse.
     Era o jogo dianteiro de uma dessas carroas, usadas nas terras muito
povoadas de arvoredo, e que servem para transporte de grandes pranchas e
troncos de rvores.
     Constava aquele aparelho de um eixo de ferro macio, onde se prendia a
pesada lana e em cujas extremidades giravam duas rodas de tamanho
descomunal, que o sustentavam. Todo aquele conjunto era grosseiro, pesado e
disforme. Dir-se-ia ser a carreta de uma boca de fogo gigante.
     Os caminhos estreitos tinham dado s caimbas, aos cubos das rodas, ao eixo e
 lana, densa camada de lama, suja e feia, de cor amarelada, bastante parecida
com a que to vulgarmente serve para pintar as catedrais.
     A madeira desaparecia sob a lama, e o ferro sob a ferrugem. Por baixo do eixo
e em guiza de sanefa, pendia uma grossa corrente digna de Golias forado, que
mais fazia lembrar os mastodontes e mamutes, que a ela poderiam ser jungidos,
do que as traves de madeira, em cujo transporte se empregava: tinha um ar de
priso de forados, mas priso de forados ciclpica e sobre-humana, e parecia
despegada de algum monstro. Homero ter-lhe-ia preso Polyfemo, e Shakespeare,
Caliban.
     Porque estava aquele jogo dianteiro de uma carroa naquele stio da rua?
     Primeiro para pejar a rua; em segundo lugar para acabar de se enferrujar.
     H na antiga ordem social um sem nmero de instituies, que cada um
encontra daquele modo no caminho, em pleno ar, sem haver outras razes que
justifiquem a sua estada a.
     No centro da corrente que pendia por baixo do eixo at quase tocar no cho,
viam-se nessa tarde sentadas e singularmente entrelaadas, como se fora sobre a
corda de um balano, duas rapariguinhas de quase dois anos e meio uma e a outra
de dezoito meses, tendo a mais velha a pequenita nos braos Um leno
cuidadosamente atado em volta delas, impedia-as de cair. Aquela temvel cadeia
havia sido vista por uma me, que exclamava:
     - Ora ali est uma coisa para eu entreter as crianas!
     As duas crianas, graciosamente e at com certo esmero ataviadas, estavam
radiantes; dir-se-iam duas rosas cadas num monto de ferros velhos; nos olhos
tinham o triunfo, nas faces frescas e mimosas o riso, uma era loira-escuro, a outra
trigueira; os seus rostos ingnuos eram duas maravilhas; ficava-lhes prxima uma
moita florida, que enviava a quem passava uns odores perfumados, que pareciam
sair delas; a de dezoito meses com a casta indecncia da pequenez, mostrava o alvo
ventre nu, sem a mnima compostura. Por cima  em volta daquelas duas
delicadas cabeas, amassadas na felicidade e temperadas na luz, arredondava-se,
como a embocadura de um antro, o gigantesco jogo dianteiro, negro de ferrugem,
de aspecto quase terrvel, todo formado de curvas e ngulos ferozes A alguns
passos de distncia, acocorada  porta da estalagem, estava a me, mulher de
aspecto pouco agradvel, mas enternecedor neste momento, baloiando as duas
crianas por meio de uma comprida corda, vigiando-as de contnuo com ternura,
receosa de algum acidente, com aquela expresso animal e celeste, peculiar 
maternidade; a cada movimento de vaivm, os disformes elos da corrente
produziam um rangido estrdulo, que semelhava um grito de clera, as
criancinhas extasiavam-se, o sol, prximo do ocaso, misturava um reflexo doirado
a esta alegria, e nada mais surpreendentemente encantador do que este capricho
do acaso, que fazia de uma corrente de tits um baloio de querubins.
     Ao mesmo tempo que baloiava as duas criancinhas, a me cantava com voz
de falsete uma romanza ento clebre
     Que fazer, Dizia um guerreiro..
     A sua cano e a contemplao das duas filhinhas Impediam-na de ver e
ouvir o que se passava na rua.
     Entretanto, algum se lhe acercara, ao comear a primeira copla da romanza,
e, de sbito, a mulher ouviu uma voz que lhe dizia muito prximo dos ouvidos:
     - Que crianas to lindas a senhora tem!
     A bela e terna Imogina,
     respondeu a me, continuando a romanza e voltando depois a cabea.
     A alguns passos de distncia, estava tambm uma mulher com uma criana
ao colo e segurando ao mesmo tempo um saco que parecia ser muito pesado.
     A criana que esta mulher apertava contra si era um dos mais divinos entes
que seria possvel ver-se. Era uma menina de dois a trs anos, que pela garridice
do seu trajo se podia juntar com as outras duas crianas; trazia um leno de linho
fino, umas roupinhas com fitas e uma coifa com rendas. A sainha levantada de um
lado, deixava-lhe a descoberto a coxa branca, rolia e firme. Era rosada e o seu
aspecto do mais saudvel, sentindo-se tentaes de lhe morder nas faces. Nada
havia a dizer dos olhos seno que deviam ser muito grandes e eram povoados de
magnficas sobrancelhas Estava a dormir.
     Dormia naquele sono de absoluta confiana prprio da sua idade. Os braos
das mes so feitos de amor; as crianas dormem profundamente neles.
     Quanto  me, que era ainda jovem, o seu aspecto era pobre e triste.
Apresentava o todo de uma operria, que tende a tornar-se alde. Era formosa,
mas com tal vesturio no o parecia. Os cabelos, dos quais se escapava uma
madeixa loira, pareciam espessos, mas ocultavam-se severamente debaixo de uma
coifa feia, apertada, estreita e atada por baixo do queixo. O riso faz mostrar os
dentes belos a quem os tem, mas ela no ria. Os olhos no pareciam enxutos h
muito tempo.
     Divisavam-se-lhe no rosto plido visveis sinais de cansao e doena e olhava
a filhinha adormecida com aquele ar particular de me que amamentou o fruto
das suas entranhas. Envolvia-lhe o busto um leno largo, azul, como aqueles a que
os invlidos se assoam e que lhe dava um aspecto carregado; trajava um vestido de
chita, uma manta escura de l grosseira, trazia calados uns sapatos grossos e
tinha as mos tisnadas e todas sarapintadas de sardas, e o ndex calejado e picado
da agulha. Era Fantine.
     Era Fantine, mas difcil de reconhecer. Ao examin-la, todavia, atentamente,
via-se que tinha ainda a sua beleza, apesar da face direita mostrar uma ruga de
tristeza, que indicava um princpio de ironia. Quanto ao vesturio, aquele srio
vesturio de musselina e de graciosas fitas, que se diria ser composto de alegria, de
loucura e de harmonia, perfumadas de lils e que parecia guarnecido de cascavis,
desaparecera com as resplandecentes gotas de geada, que ao sol parecem
diamantes, mas que se derretem e deixam o ramo enegrecido.
     Dez meses haviam decorrido desde a clebre patuscada.
     Que se tinha passado nesses dez meses? Facilmente se adivinha.
     Aps o abandono, a tortura da misria. Fantine desde logo perdera de vista
Favorita, Zeina e Dlia; quebrado o lao do lado dos homens, desfez-se do lado
das mulheres; quem quinze dias depois lhes tivesse dito que tinham sido amigas,
deix-las-ia admiradas; j no havia razo de ser para tal amizade, Fantine ficara
s. O pai de sua filha afastara-se - aqueles rompimentos so irrevogveis -
achou-se absolutamente isolada, tendo de menos o hbito do trabalho e demais o
gosto do prazer, visto que, arrastada pela sua ligao com Tholomys a abandonar
a pouco lucrativa profisso, que sabia, desprezara os fregueses, que por sua vez
no tornaram a procur-la.
     Nenhum recurso, pois. Fantine sabia ler, mas no sabia escrever; na sua
infncia haviam-lhe apenas ensinado a assinar o nome, razo porque mandou por
um escrevente pblico escrever uma carta a Tholomys, depois segunda e ainda
terceira.
     Tholomys, porm, no respondera a nenhuma. Um dia, Fantine ouviu os
vizinhos dizerem, olhando para sua filha:
     - Quem  que toma a srio crianas destas? Todos encolhem os ombros
quando se trata de filhos desta natureza!
     Lembrou-se ento que Tholomys encolheria os ombros acerca da sua
filhinha, que no tomaria a srio aquela inocente criaturinha e o seu corao
cobriu-se de tristeza ao pensar naquele homem. Que resoluo tomaria? No sabia
a quem dirigir-se Tinha,  verdade, cometido uma falta, mas o fundo da sua
natureza, como estareis lembrados, era de pudor e virtude. Conheceu vagamente
que estava em vsperas de cair na misria, de ir de mal a pior. Era necessrio
muita coragem; teve-a e defrontou-se desassombrada com o aspecto da desgraa
Ocorreu-lhe a ideia de regressar  sua terra natal, Montreuil-sur-mer, onde talvez
algum a conhecesse e lhe desse trabalho; sim, mas era necessrio ocultar a sua
falta. E Fantine entrevia confusamente a necessidade possvel de uma separao
mais dolorosa ainda do que a primeira.
     Confrangeu-se-lhe o corao de angstia, mas decidiu-se. Era dotada da feroz
bravura de quem deseja viver Havia renunciado voluntariamente aos enfeites,
vestira-se de algodo e aplicara todas as sedas, todas as fitas e rendas, a embonecar
a filhinha, nica vaidade que lhe restava, mas esta era vaidade santa.
      Vendeu tudo quanto tinha, apurando duzentos francos e, depois de pagar as
suas pequenas dvidas, ficaram-lhe apenas uns oitenta francos. com vinte e dois
anos, numa bela manh de Primavera, saiu de Paris levando a filha s cavaleiras.
Quem as visse passar, compadecer-se-ia inevitavelmente delas. Aquela mulher no
tinha no mundo seno a criana que levava consigo e a criana s tinha no mundo
a mulher que a conduzia. Fantine alimentara a filhinha no seu prprio seio, o que
a enfraquecera e lhe deixara alguns acessos de tosse, que a intervalos a acometiam.
      No tornaremos a ter ocasio de falar de Flix Tholomys. Limitemo-nos a
dizer que vinte anos mais tarde, no reinado de Lus Filipe, era um anafado
procurador de provncia, influente e rico, eleitor circunspecto e jurado
severssimo, mas, apesar de tudo, sempre dado ao prazer.
      Pelo meio-dia, depois de ter, para descansar, caminhado de espao a espao,
mediante trs ou quatro soldos por lgua, no que ento se chamavam pequenas
carruagens dos arrabaldes de Paris, Fantine encontrava-se em Montfermeil, no
beco de Boulanger.
      Ao passar por diante da estalagem dos Thenardier, a presena das duas
criancinhas, encantadas sobre o seu monstruoso baloio, causara-lhe uma espcie
de deslumbramento, que a fizera parar em frente daquela alegre regio.
      H encantos no mundo e aquelas duas criancinhas encontraram aquela infeliz
me.
      Fantine contemplou-as muito comovida. A presena dos anjos  anncio do
paraso. Julgou ver por cima daquela estalagem o misterioso AQUI da
Providncia. As duas pequenitas eram evidentemente felizes. Observava-as de tal
modo enternecidas, que no momento em que a me tomava flego entre dois
versos da sua cano, no pde deixar de dizer:
      - Que crianas to lindas a senhora tem!
      As criaturas mais bravias sentem-se desarmadas quando lhe acariciam os
filhos.
      A me ergueu a cabea, agradeceu o elogio, fez sentar a desconhecida no
banco da porta, ficando ela na soleira e puseram-se ambas a conversar.
      - Eu chamo-me Thenardier - disse a me das duas crianas. - Meu marido  o
dono desta estalagem.
      Depois, sem se esquecer da romanza, continuou por entre dentes: Sou
cavaleiro,  preciso Que parta para Palestina.
     Esta senhora Thenardier era uma mulher ruiva, fornida de carnes, angulosa; o
tipo da mulher de soldado em todo o seu desgracioso desaire, e, coisa
extraordinria, tinha um ar afectado, proveniente de leituras romanescas. Os seus
gestos e trejeitos eram de uma verdadeira virago. Os velhos romances desfiados
nas imaginaes baiuqueiras causam estes efeitos. Era ainda nova, pois contava
apenas trinta anos. Se a mulher que estava sentada se levantasse, talvez a sua
elevada estatura e o tronco espadado de colosso ambulante, prprio para
mostrar-se nas feiras, tivessem desde logo assustado a viandante e perturbado a
sua confiana. Uma pessoa que est sentada em vez de estar de p, influi s vezes
num destino!
     A viajante contou-lhe a sua histria, porm com algumas modificaes.
     Disselhe que era costureira, que lhe tinha morrido o marido e, faltando-lhe o
trabalho em Paris, o ia procurar noutra parte,  sua terra; que tinha sado de Paris
a p naquele mesmo dia pela manh e, sentindo-se cansada por causa da criana
que trazia, encontrou a carruagem de Villemomble e metera-se nela; que de
Villemomble tinha vindo a p para Montfermeil, que a ipequenita tinha andado
um pouco, mas como era muito pequenina, fora indispensvel lev-la ao colo,
onde tinha adormecido.
     E, ao pronunciar esta palavra, deu-lhe um beijo to apaixonado que a
acordou. A criana abriu os olhos, uns grandes olhos azuis, como os da me, e
olhou. O que viu ela? Tudo e nada, com o ar srio e por vezes severo das crianas,
que  um mistrio da sua luminosa inocncia diante dos nossos crepsculos de
virtudes. Dir-se-ia que se sentem anjos e nos saem homens. Em seguida, comeou
a rir, e ainda que a me a segurasse, escorregou para o cho com a indomvel
energia de um pequeno ser que quer correr. De repente, avistou as outras duas
crianas no baloio, parou de sbito e deitou a lngua de fora em sinal de
admirao.
     A me Thenardier desprendeu as filhas e ajudou-as a descer, dizendo:
     - Vo brincar todas trs!
     Em tais idades a familiaridade  espontnea: passados alguns instantes, as
pequenas da senhora Thenardier divertiam-se com a recm-chegada a fazer
covinhas no cho, prazer incomensurvel para as crianas.
     A recm-chegada era muito alegre; a bondade da me estava representada
pela alegria da filha. A pequenita tinha pegado num pauzinho que lhe servia de p
e cavava energicamente a fim de fazer um buraco para uma mosca. O que faz o
coveiro torna-se gracioso feito por uma criana.
     As duas mulheres continuavam a conversar.
     - Como se chama a sua pequena?
     - Cosette.
     A pequena chamava-se Eufrasia, mas a me, por esse doce e gracioso instinto
das mes e do povo, que muda Maria em Micas e Francisca em Chica, fizera-a
Cosette  este um gnero de derivados que contraria toda a cincia dos
etimologistas Conhecemos uma av que teve a habilidade de fazer de Teodora,
Gnon.
     - Que idade tem ela?
     - Anda em trs anos.
     -  a idade da minha pequena mais velha.
     Entretanto, as trs crianas tinham-se agrupado numa posio de ansiedade e
beatitude profundas. Dava-se um grave acontecimento: acabava de sair da terra
um grande verme que lhes metera medo e ficaram em xtase.
     As trs cabecinhas tocavam-se, parecendo circundadas por uma aurola.
     - O que so as crianas! - exclamou a senhora. Thenardier. - Tomam logo
conhecimento umas com as outras! Ningum diria que no so trs irms!
     Esta frase foi a fasca que a outra me provavelmente esperava, porque travou
da mo da estalajadeira e disselhe, olhando-a fixamente:
     - Quer a senhora ficar com a criana?
     A senhora Thenardier teve um desses movimentos de surpresa, que no so
nem consentimento nem recusa.
     A me de Cosette prosseguiu:
     - A senhora bem v, eu no posso levar a pequena comigo para a minha terra;
o trabalho no o permite. Ningum d que fazer a quem tem uma criana. A gente
da minha terra  muito esquisita. Foi Deus que me moveu a passar pela sua casa.
Quando vi as suas pequenitas to lindas, to asseadas e contentes, no sei o que
senti e disse comigo: Ali est uma boa me!  o que a senhora disse, sero trs
irms. E depois, no me demorarei em voltar. Diga, quer cuidar dela?
     - Mas  preciso ver... - disse a senhora Thenardier. - Dar-lhe-ei seis francos
por ms.
     Neste instante ouviu-se uma voz de homem gritar do fundo da taberna:
     - Menos de sete francos, nada feito, e seis meses pagos adiantados.
     - Seis vezes sete... quarenta e dois; quarenta e dois francos - disse a senhora
Thenardier.
     - Est bem, d-los-ei - disse a me de Cosette.
     - E mais quinze francos para as primeiras despesas - acrescentou a voz do
homem.
     - Faz ao todo cinquenta e sete francos - disse a senhora Thenardier.
     E, no meio de todas estas contas, ia cantarolando:
      necessrio, Dizia um guerreiro.
     - D-los-ei tambm - disse Fantine - tenho oitenta francos e ainda me ficar
com que chegar ao meu destino, indo a p. Chegando l ganharei a minha vida, e
apenas quando tiver alguma coisa virei logo busc-la.
     A voz do homem tornou a ouvir-se, dizendo:
     - A pequena tem enxoval?
     -  meu marido - disse a estalajadeira.
     - Sim, senhor, tem enxoval, o meu querido anjinho! Logo me pareceu que era
seu marido. E que bom enxoval, tudo s dzias!... E vestidos de seda, como uma
senhora.
     Est tudo no meu saco.
     - Pois ento h-de deix-lo! - tornou a voz do homem.
     - Est visto que o hei-de deixar! - replicou a me. - Ento a minha filha havia
de ficar nua?
     Neste momento apareceu o dono da casa.
     - Est bem - respondeu ele.
     O ajuste concluiu-se Fantine passou a noite na estalagem, deu o dinheiro
exigido, entregou a filhinha, tornou a atar o saco, aliviado do peso do enxoval, e
na manh seguinte continuou o seu caminho, esperando voltar brevemente.
Preparam-se tranquilamente estas partidas, mas depois  um sentir-se a gente
desesperada de angstia ao separar-se.
     Uma vizinha dos Thenardier encontrou a pobre me, quando de novo se ps
a caminho e voltou, dizendo:
     - Encontrei agora uma mulher a chorar, que metia d v-la!
     Depois da me de Cosette ter partido, o homem disse  mulher:
     - Ora com isto paga-se a minha letra de cento e dez francos, que se vence
amanh. Faltavam-me cinquenta francos; e olha que se no a pagasse tinha
protesto, processo, que sei eu! Realmente, engendraste uma boa ratoeira com as
pequenas!
     - Pois foi sem querer! - respondeu a mulher.
    II
    Primeiro esboo de duas figuras suspeitas



     O rato apanhado na ratoeira era bastante franzino, mas o gato regala-se ainda
que seja com um rato magro.
     Quem eram os Thenardier?
     Digamos desde j alguma coisa a seu respeito. Depois completaremos o
esboo.
     Estas criaturas pertenciam  classe bastarda, composta de gente grosseira
aventureira e gente inteligente decada, situada entre a classe chamada mdia e a
chamada inferior e que combina alguns defeitos da segunda com quase todos os
vcios da primeira, sem ter o assomo de generosidade do artista nem a ordenada
honestidade do burgus.
     Eram dessas naturezas ans que se tornam monstruosas, se por acaso as
aquece algum fogo sombrio. Havia na mulher o fundo de uma selvagem e no
homem a capa de um velhaco. Ambos eram desmesuradamente susceptveis
daquela espcie de progresso abjecto, que se faz no sentido do mal. Existem almas,
espcie de caranguejos, recuando continuamente para as trevas, retrogrando na
vida mais do que avanam, empregando a experincia em aumentar a sua
deformidade, piorando sem cessar, e impregnando-se cada vez mais, de crescente
negrura. Este homem e a mulher eram dessas almas.
     O marido, principalmente, era incmodo para o fisionomista. H homens
que basta encar-los para se desconfiar deles, pressentindo-se desde logo as ideias
tenebrosas. Homens destes apresentam por trs de si a inquietao e na frente a
ameaa. H neles qualquer coisa de desconhecido. No se pode responder pelo
que fizeram nem pelo que faro. Denuncia-os o olhar sombrio. Simplesmente por
os ouvir pronunciar uma palavra ou v-los fazer um gesto, logo se lhes descobrem
sombrios segredos no passado e sombrios mistrios no futuro.
     Este Thenardier, se devemos dar-lhe crdito, tinha sido soldado; sargento,
dizia ele; fizera provavelmente a campanha de 1815 e at, ao que parece, se tinha
portado com bravura. Mais tarde veremos o que ele era realmente. A tabuleta da
estalagem continha uma aluso a um dos seus feitos de armas. Pintara-a ele
mesmo, porque aquele homem sabia um pouco de tudo, mas mal.
     Era na poca em que o antigo romance clssico que depois de ter sido Clelia
j no era seno Lodoiska, sempre nobre, mas cada vez mais vulgar, que descera
de Mademoiselle de Scudry para Madame Barthlemy-Hadot, e de Madame de
Lafayette para Madame Bournon-Malarme, incendiava a alma ardente das
porteiras de Paris e levava mesmo a sua devastao a alguns pontos dos
arrabaldes.
     A senhora Thenardier era justamente de inteligncia suficiente para ler esta
espcie de livros. Nutria-se com a sua leitura, afogava ali todo o seu
enten-dimento, e isto havia-lhe dado, enquanto foi rapariga e mesmo ainda
alguma coisa depois, uma espcie de atitude pensativa, ao p de seu marido,
velhaco dotado de certa profundidade, rufio quase entendido em gramtica,
grosseiro e fino ao mesmo tempo, mas, pelo que respeita a sentimentalismo, ledor
de Pigault-Lebrun, e em tudo o que toca ao sexo, como ele dizia, na sua
linguagem habitual, parvo rematado e sem mescla. A mulher tinha uns doze ou
quinze anos menos do que ele. Mais tarde, quando os cabelos romanticamente
soltos, comearam a embranquecer, quando a megera se desligou da Pamela, a
senhora Thenardier no passou de uma gorda e m mulher, que saboreava
romances estpidos. Ora, ningum l imbecilidades impunemente; resultando
daqui que a filha mais velha foi mimoseada com o nome de Eponine, enquanto a
mais nova esteve a ponto de se chamar Gulnare; deveu, porm, a no sei que feliz
diverso, causada por um romance de Ducray-Duminil, chamar-se apenas
Azelma.
     Todavia, digamo-lo de passagem, nem tudo  ridculo e superficial naquela
curiosa poca a que fizemos aluso e a que poderamos chamar a anarquia dos
nomes de baptismo. Ao lado do elemento romntico, existe o sintoma social. No
 raro hoje em dia que um boieiro se chame Artur, Alfredo ou Afonso, e que um
visconde se ainda h viscondes se chame Toms, Pedro ou Jacques. Esta
deslocao que d ao plebeu o nome elegante e o nome rstico ao aristocrata, no
 seno um borboto de igualdade. Conhece-se nisto como em tudo, a irresistvel
penetrao do novo sopro.
     Sob esta aparente discordncia, existe uma coisa grande e profunda: a
Revoluo Francesa.
    III
    A Cotovia



     Para prosperar no basta ser mau O negcio da estalagem no dava lucro.
     Graas aos cinquenta e sete francos de Fantine, Thenardier pudera evitar o
protesto de uma letra e, por conseguinte, o descrdito da sua assinatura. No ms
seguinte, tiveram ainda necessidade de dinheiro; a mulher dirigiu-se a Paris e
empenhou no Monte de Piedade o enxoval de Cosette por sessenta francos.
     Apenas este dinheiro se consumiu, logo os Thenardier se acostumaram a ver
na pobre pequenita unicamente uma criana que tinham em casa por caridade e
passaram a trat-la como tal. Como j no possua enxoval, vestiram-na de saias e
camisas velhas que tinham sido do uso das outras duas pequenas, isto , de
farrapos No lhe davam para comer seno os sobejos de todas as outras pessoas,
alimentao um pouco melhor que a do co e alguma coisa pior que a do gato. O
co e o gato eram, de resto, os seus comensais habituais; Cosette comia com eles
debaixo da mesa, numa escudela de pau, igual  deles.
     A me, que se tinha fixado, como mais tarde se ver, em Montreuil-sur-mer,
escrevia, ou, para melhor dizer, mandava escrever todos os meses, pedindo
notcias da sua filhinha. Os Thenardier respondiam invariavelmente:
     - Cosette passa magnificamente.
     Findos os primeiros seis meses, Fantine enviou sete francos para pagamento
do stimo ms e continuou a mandar com a maior exactido as suas remessas
mensais.
     No tinha ainda terminado o ano, quando Thenardier disse:
     - Ora olhem que grande favor! Que quer ela que se faa com sete francos?
     Escreveu pois imediatamente  pobre me, exigindo-lhe doze francos.
Fantine, persuadida de que sua filha era feliz e passava bem, submeteu-se 
exigncia e mandou os doze francos Certas naturezas no podem amar por um
lado sem odiar pelo outro A Thenardier queria apaixonadamente s suas duas
filhas, o que fazia com que detestasse a que lhe era estranha.  triste a ideia de que
o amor maternal possa apresentar aspectos repugnantes. Por mais pequeno que
fosse o lugar que Cosette ocupava naquela casa, parecia-lhe um roubo feito aos
seus e que a pobre pequenita lhes diminua o ar que respiravam Esta mulher,
como muitas da sua espcie, tinha para prodigalizar em cada dia uma soma de
carcias e outra de pancadas e injrias. Se ela no tivesse Cosette,  certo que suas
filhas, apesar de idolatradas, teriam recebido tudo, mas a criana estranha
prestava-lhes o servio de afastar delas e fazer recair sobre si as pancadas que lhes
eram destinadas e em troco das quais elas s tinham carcias. Cosette no fazia um
movimento que no visse desabar sobre si uma saraivada de castigos violentos e
imerecidos.
     Doce e frgil criaturinha, que no devia compreender nada deste mundo nem
de Deus, sem ser incessantemente punida, repreendida, tratada com a maior
rudeza, espancada e vendo a seu lado duas criancinhas como ela, a viver num raio
de aurora!
     A Thenardier, sendo m para Cosette, fez com que Eponine e Azelma o
fossem tambm, porque as crianas naquela idade so simples cpias da me. A
diferena  o formato ser mais pequeno.
     Assim se passou um ano e depois ainda outro.
     Entretanto, dizia-se na aldeia:
     - Que excelentes pessoas so estes Thenardier. Apesar de no serem ricos
sustentam e educam uma pobre criana que foi abandonada em sua casa!
     Todos julgavam que a me de Cosette a tinha abandonado.
     Thenardier, contudo, tendo sabido por qualquer obscura via, que a criana
provavelmente era bastarda, e que a me no o podia confessar, exigiu quinze
francos por ms, dizendo que a pequena comia e crescia cada vez mais,
ameaando-a ao mesmo tempo de p-la fora de casa.
     - No pense ela que est a tratar com algum tolo! - exclamou ele. Se se pe a
torcer o nariz, mando-lhe a pequena, sem me importar com os seus segredos.
Preciso de mais dinheiro! - E a infeliz me pagou os quinze francos.
     De ano para ano, a criana crescia, crescendo tambm a sua misria.
     Cosette, enquanto pequena, foi sempre maltratada pelas faltas das suas duas
companheiras; apenas comeou a desenvolver-se, quer dizer, antes ainda de ter
cinco anos, tornou-se a criada da casa.
     Com cinco anos, dir-se-, isso  inverosmil! Infelizmente,  verdade. O
sofrimento social comea em qualquer idade. No vimos ainda h bem pouco o
processo de um tal Dumolard, rfo que se tornou bandido, o qual desde a idade
de cinco anos, segundo dizem os documentos oficiais, vendo-se s no mundo,
trabalhava para viver, roubando?
     Obrigavam a pobre Cosette a fazer os recados, a varrer os quartos, o ptio e a
rua, a lavar a loia e at a carregar com coisas pesadas. Os Thenardier julgavam-se
muito mais autorizados a proceder deste modo, porque a me, que continuava a
estar em Montreuil-sur-mer, comeava a pagar mal, chegando a ficar alguns
meses em atraso.
     Se a pobre me tivesse voltado a Montfermeil no fim destes trs anos, no
teria decerto reconhecido a filha. Cosette, to fresca e rosada quando chegou
quela casa, estava agora magra e amarela. O seu aspecto era sempre inquieto Os
Thenardier chamavam-lhe sonsa.
     A injustia fizera-a rabujenta e a misria tornara-a feia. J no lhe restavam
seno os seus belos olhos, que causavam pena, porque, grandes como eram,
pareciam conter ainda maior quantidade de tristeza.
     Partia o corao ver de Inverno aquela pobre criana, que ainda no contava
seis anos, envolta em farrapos e tiritando com frio, a varrer a rua, antes de
amanhecer, com uma enorme vassoura nas mozinhas arroxeadas e uma lgrima
suspensa dos seus belos olhos rasgados.
     A gente das redondezas chamavam-lhe a Cotovia.
     O povo, propenso s figuras, comprazera-se de assim denominar aquela
criaturinha, pouco mais gorda do que um passarinho, trmula e assustada, sendo
a primeira que de manh se erguia, no s em casa, mas em toda a aldeia, e
sempre antes de ser dia j na rua ou nos campos.
     Somente a pobre Cotovia no cantava nunca.


L05:
    LIVRO QUINTO
    A Descida

    I
    Histria de um melhoramento no fabrico dos vidrilhos pretos



      Entretanto, o que fora feito da me, que no dizer dos habitantes de
Montfermeil, abandonara a filha? Onde estava e o que fazia?
      Depois de ter deixado a criana entregue aos mercenrios cuidados dos
Thenardier, continuava o seu caminho e chegara a Montreuil-sur-mer. Passava-se
isto, como estaro lembrados, em 1818.
      Fantine tinha deixado a sua provncia havia dez anos. Montreuil-sur-mer
mudara de aspecto. Enquanto Fantine descia lentamente de misria em misria,
fora prosperando a sua terra natal.
      Havia dois anos que se tinha realizado um desses factos industriais que
constituem os grandes acontecimentos das terras pequenas.
      Este pormenor  importante e por isso julgamos til desenvolv-lo, quase
diramos, sublinh-lo.
      Desde tempos remotssimos que Montreuil-sur-mer tinha por indstria a
imitao do azeviche ingls e dos vidrilhos pretos da Alemanha, indstria que
vegetara sempre, sem tomar desenvolvimento em grande escala, por causa da
carestia das matrias-primas, que reagiam sobre a mo-de-obra Na ocasio em
que Fantine voltara a Montreuil-sur-Mer, tinha-se operado uma transformao
inaudita na produo dos artigos pretos. Por fins de 1815, viera estabelecer-se na
cidade um homem, um desconhecido, a quem ocorreu a ideia de substituir neste
fabrico, a resina pela goma laca e, para os braceletes em particular, as correntes
apenas juntas em vez de soldadas.
      Esta, se bem que, na aparncia, pequena mudana, tinha sido contudo uma
revoluo, porque, com efeito, reduzira espantosamente o preo da
matria-prima, o que permitia: primeiro, elevar o preo da mo de obra, benefcio
para a localidade; em segundo lugar, melhorar o fabrico, o que era uma vantagem
para o consumidor; e em terceiro, vender por melhor preo, triplicando os lucros,
benefcio para o industrial.
      Deste modo uma s ideia tivera trs resultados.
      Em menos de trs anos, o autor deste processo enriquecera, o que foi uma
coisa boa, enriquecendo tambm todos em torno de si, o que ainda foi melhor.
Aquele homem era estranho ao departamento; da sua origem nada se sabia, dos
seus princpios muito menos.
     Contava-se que viera para a cidade com muito pouco dinheiro, algumas
centenas de francos, quando muito fora deste pequeno capital, posto ao servio
duma ideia engenhosa, fecundada pela boa ordem e pela inteligncia, que ele
fizera surgir a sua fortuna e a de toda aquela terra. Quando chegou a
Montreuil-sur-mer, no tinha mais do que o fato que levava no corpo; o seu
aspecto e linguagem eram apenas os de um simples operrio.
     Parece que no mesmo dia em que entrava obscuramente na pequena cidade
de Montreuil-sur-mer, no fim da tarde de um dia de Dezembro, com uma
mochila s costas e um cajado na mo, se manifestara um grande incndio na casa
do concelho municipal, do qual tinha salvo, com risco da prpria vida, duas
crianas, filhas do capito da gendarmeria, o que deu causa a que no lhe
exigissem o passaporte. Desde essa ocasio, ficara-se, porm, a saber o seu nome.
Era o tio Madelaine.



    II
    Madelaine



     A seu respeito s se podia dizer que era um homem de cinquenta anos, pouco
mais ou menos, bondoso, parecendo sempre preocupado.
     Graas aos rpidos processos da indstria que ele to admiravelmente
reformara, Montreuil-sur-mer tornara-se um considervel centro de comrcio. A
Espanha que consome muito azeviche, fazia todos os anos grandes encomendas.
Neste ramo de comrcio, Montreuil-sur-mer fazia concorrncia a Londres e a
Berlim. Eram tais os lucros do tio Madelaine, que logo no segundo ano pudera
construir uma grande fbrica, em que havia duas vastas oficinas, uma para
homens, outra para mulheres.
     Quem tivesse fome, podia a apresentar-se, que tinha de antemo a certeza de
encontrar trabalho e po.
     O tio Madelaine exigia boa vontade dos homens, pureza de costumes das
mulheres, e probidade de todos. Para mais facilmente conseguir todas estas coisas,
dividira as oficinas, para que, separados os dois sexos, as mulheres e as raparigas
no viessem a perverter-se com o contacto dos homens, nem estes a deixarem-se
arrastar de vergonhosos desvairamentos por aquelas. Neste ponto era inflexvel.
Era esta a nica coisa para a qual se tornava de alguma maneira intolerante,
empregando para conter o mal tanta maior severidade, quanto mais frequentes
eram na terra as ocasies de corrupo, por Montreuil-sur-mer ser uma cidade
com guarnio militar. De resto, a sua vinda tinha sido um benefcio e a sua
presena era uma providncia. Antes da chegada do tio Madelaine, tudo naquela
terra jazia num estado de desalentada languidez; depois todos passaram a viver a
vida s do trabalho, aquecia tudo e penetrava em (toda a parte o movimento duma
forte circulao. Tanto a falta de trabalho como a misria eram ali desconhecidos.
No havia bolsa, por mais mesquinha que fosse, em que no se encontrasse algum
dinheiro, nem casa to pobre que no penetrasse um quente raio de alegria.
     O tio Madelaine empregava toda a gente, fazendo uma nica exigncia:
     - Seja homem de bem! Seja mulher honesta!
     Como j dissemos, no meio desta actividade, de que era a causa e o eixo, fazia
o tio Madelaine a sua fortuna; mas, coisa assaz singular num simples homem de
comrcio, no mostrava ser esse o seu principal cuidado. Parecia que cuidava
muito nos outros e pouco em si. Em 1820 sabia-se que tinha seiscentos e trinta mil
francos, depositados em seu nome na casa Laffite; antes, porm, de reservar para
si esses seiscentos e trinta mil francos, tinha gasto mais de um milho em favor da
cidade e dos pobres.
     O hospital estava mal dotado; o tio Madelaine mandou estabelecer mais dez
camas. Montreuil-sur-mer era dividida em cidade alta e cidade baixa A cidade
baixa, onde ele morava, tinha apenas uma escola, velho pardieiro quase em runas:
fundou duas, uma para meninas e outra para rapazes, dando aos professores, do
seu bolso, o dobro do magro ordenado oficial que recebiam, dizendo um dia a
algum que se admirava de que ele fizesse estas despesas: Os primeiros
funcionrios do Estado so as amas de leite e os professores de instruo
primria. Criara a expensas suas uma casa de asilo, coisa ento quase
desconhecida em Frana, e uma caixa de socorros para os operrios velhos e
enfermos. Como a sua fbrica se tornasse um centro, surgiu rapidamente em
torno dela um novo bairro, onde morava um grande nmero de famlias
indigentes e onde estabeleceu uma farmcia gratuita.
     Ao princpio, quando o viram comear os alicerces da sua fortuna, as boas
almas disseram:  um atrevido que quer enriquecer. Quando o viram
enriquecer a terra onde estava, antes de se enriquecer a si prprio, disseram ainda
as mesmas boas almas:
      um ambicioso. Isto parecia tanto mais provvel, por ele ser religioso e at
certo ponto zeloso nas prticas externas, coisa muito bem vista naquela poca. Ia
regularmente ouvir uma missa rezada todos os domingos.
     O deputado local, que por toda a parte farejava concorrncia, no tardou a
inquietar-se com a sua religio. Este deputado, que tinha sido membro do
conselho geral, participava das ideias religiosas de um padre da Congregao do
Oratrio, conhecido sob o nome de Fouch, duque de Otranto, de quem fora
amigo ntimo. No fundo da sua conscincia, ria-se de Deus e das coisas sagradas.
Mas quando viu o rico industrial Madelaine ir  missa rezada das sete horas,
entreviu a possibilidade de um candidato e resolveu ultrapass-lo em zelo,
tomando um jesuta para confessor e nunca faltando  missa cantada e a vsperas.
     Naquele tempo, a ambio era, na verdadeira acepo da palavra, o caminho
do campanrio. Foi proveito dos pobres, tanto como de Deus, aquele terror,
porque o respeitvel deputado dotou o hospital com mais duas camas, o que fez
subir o seu nmero a doze.
     Todavia, em 1819, espalhou-se um dia na cidade o boato de que, por proposta
do senhor prefeito e em considerao aos servios prestados quela localidade
pelo tio Madelaine, ia este ser nomeado pelo rei, maire de Montreuil-sur-mer. Os
que  sua chegada o tinham apodado de ambicioso, aproveitaram com
entusiasmo esta ocasio, que todos desejam, para exclamar: A est! Que
tnhamos ns dito? Em Montreuil-sur-mer no se falava noutra coisa e o boato
tinha fundamento. Passados alguns dias apareceu o decreto da nomeao no
Monitor e, no dia seguinte, o tio Madelaine declarou que no aceitava.
     Nesse mesmo ano de 1819, figuravam na exposio industrial os produtos do
novo sistema inventado por Madelaine, o que fez em vista do relatrio do jri,
com que o rei o nomeasse cavaleiro da Legio de Honra. Novo rumor na pequena
cidade:
     Est visto, o que ele queria era a cruz! Porm, o tio Madelaine recusou a
venera.
     Decididamente aquele homem era um enigma, mas as boas almas, no o
podendo decifrar, saam do embarao em que se viam, dizendo: Afinal de contas,
no passa de um aventureiro.
     Como j se viu, a localidade devia-lhe muito e os pobres deviam-lhe tudo;
Madelaine era to til, que fora indispensvel que acabassem por lhe render o
respeito que lhe era devido, era to bondoso, que tinha sido impossvel deixarem
de lhe querer bem; os seus operrios, especialmente, adoravam-no, adorao que
ele recebia com uma espcie de gravidade melanclica. Depois de se tornar
incontestvel a sua riqueza, as pessoas da sociedade passaram a
cumpriment-lo, chamando-lhe todos na cidade o senhor Madelaine; contudo, os
seus operrios e as crianas continuaram a chamar-lhe tio Madelaine, sendo isto o
que o fazia sorrir de melhor grado. A medida que subia, choviam sobre ele os
convites. A sociedade reclamava-o.
      As mesquinhas e pretensiosas salas de Montreuil-sur-mer, que, bem
entendido, se teriam fechado nos primeiros tempos ao homem, trabalhador,
abriram as suas portas de par em par ao milionrio, Madelaine, porm,
esquivou-se sempre aos convites.
      Ainda desta vez as boas almas no puderam conter-se:  um homem
ignorante e de fraca educao. Ningum sabe de onde veio, e seria incapaz de
portar-se com decncia entre pessoas de sociedade. Nem ainda se provou que
saiba ler.
      Quando o viram ganhar dinheiro, disseram:  um comerciante. Ao v-lo
distribuir o dinheiro que ganhara, bradaram:  um ambicioso. Quando viram
que repelia todas as honras, exclamaram:  um aventureiro!. E, finalmente,
disseram, ao v-lo fugir esquivo  convivncia da sociedade:  um homem
grosseiro! Em 1820, cinco anos depois da sua chegada a Montreuil-sur-mer,
eram j to notveis os servios que prestara  localidade em que se estabelecera e
o voto de todo o distrito fora de tal modo unnime, que o rei nomeou-o
novamente maire. Tornou a recusar, mas o prefeito resistiu  sua recusa, as
pessoas notveis instaram todas com ele para que aceitasse, o povo, mesmo no
meio da rua, suplicava-lho; numa palavra, viu-se de tal modo solicitado, que
aceitou finalmente.
      Notou-se que o que pareceu sobretudo decidi-lo, foi a apstrofe quase
irritada de uma velha mulher do povo, que lhe gritara com mau modo do limiar
da sua porta:
      - Um bom maire  muito til. Ningum tem o direito de recuar diante do
bem que pode fazer Foi esta a terceira fase da sua ascenso O tio Madelaine
tinha-se tornado o senhor Madelaine, o senhor Madelaine tornou-se o senhor
maire.
    III
    Somas depositadas na casa Laffite



     Era ainda, porm, o mesmo homem bondoso e simples de outro tempo.
Tinha os cabelos grisalhos, o olhar grave, a tez morena de um operrio e o rosto
pensativo de um filsofo. Trazia habitualmente um chapu de abas largas e uma
comprida sobrecasaca de pano grosso, abotoada at ao pescoo. Exercia as suas
funes de maire, mas fora disso vivia isolado, convivendo com pouca gente,
furtando-se a cumprimentos e troca de finezas, saudando de passagem,
esquivando-se rpido, sorrindo para se dispensar de conversar e dava para se
dispensar de sorrir. As mulheres quando falavam a seu respeito, exclamavam:
Que grande urso! Um dos seus maiores prazeres era passear sozinho pelos
campos. Comia sempre s, tendo diante de si um livro aberto em que ao mesmo
tempo ia lendo. Tinha a paixo dos livros e possua uma pequena biblioteca muito
bem guarnecida. Os livros so amigos imparciais e fiis. A medida que a fortuna
lhe ia dando mais descanso parecia que o aproveitava para cultivar o esprito.
Notava-se que desde que residia em Montreuil-sur-mer, a sua linguagem se
tornava de ano para ano mais polida e agradvel.
     Nos seus frequentes passeios, levava s vezes uma espingarda, de que raro se
servia, mas quando isso por acaso sucedia, atirava com uma infantilidade de
assustar Nunca matava um animal inofensivo, nunca atirava a um passarinho.
     Conquanto j no fosse novo, dizia-se ser dotado de prodigiosa fora. Dava
sempre a ajuda do seu brao a quem dele precisava; levantava um cavalo, impelia
uma roda atolada e segurava pelas pontas um touro fugido. Quando saa de casa
levava sempre os bolsos cheios de dinheiro, mas ao recolher vinha com eles vazios.
Se passava por alguma aldeia, as crianas esfarrapadas corriam alegremente atrs
dele e rodeavam-no como uma nuvem de mosquitos.
     Acreditava-se que aquele homem tinha outrora vivido a vida dos campos,
porque conhecia toda a qualidade de segredos teis, com que instruir os
camponeses.
     Explicava-lhes o modo de destruir o morro dos trigos, regando o celeiro e
inundando as fendas do soalho com uma dissoluo de Sal comum; a preserv-los
do gorgulho, suspendendo por toda a parte, nas paredes e nos tectos, nas
pastagens e nas casas, a planta que o afugenta. Sabia receitas para extirpar de
um campo o joio, a alforra, a ervilhaca, todas as ervas parasitas nocivas ao trigo.
Defendia uma coelheira dos ratos, simplesmente com o cheiro de um pequeno
porco da Barbaria, que nela introduzia.
     Um dia, estando a observar uns aldees muito atarefados a arrancar urtigas,
olhou para o monto de plantas arrancadas e j secas, dizendo:
     - Agora j esto inutilizadas. No obstante seriam aproveitveis se soubessem
servir-se delas. Quando a urtiga  nova, a sua folha  um legume excelente; depois
de velha, tem filamentos e fibras, como o linho e o cnhamo. O tecido de urtiga 
to bom como o fabricado de linho. Cortada,  excelente para a criao; pisada, 
boa para os animais corngeros. A semente da urtiga misturada na comida do
gado faz-lhe o plo luzidio, e a raiz misturada com sal produz uma bela cor
amarela, alm de ser ainda um excelente pasto, que se pode segar duas vezes. E o
que exige a urtiga? Um pedao de terra, nenhum cuidado, nenhuma cultura. S o
que custa  colher a semente, porque vai caindo, consoante vai amadurecendo; e
eis tudo. com mais algum trabalho, a urtiga tornar-se-ia til; desprezam-na, por
isso se torna nociva e ento destrem-na. Quantos homens h que se assemelham
s urtigas! E depois de uma pausa, acrescentou: Meus amigos, tomai bem sentido
nisto: no h ervas ms, nem maus homens, o que h so maus cultivadores.
     As crianas tambm o amavam, porque ele fazia-lhes bonitas coisas de palha e
casca de coco.
     Quando via a porta duma igreja armada de preto, entrava; este homem
procurava um enterro, como outros procuram um baptizado. Atraa-o o
espectculo da viuvez e da desventura alheia, por efeito da grande doura do seu
carcter; misturava-se com os amigos em luto, com as famlias vestidas de preto,
com os sacerdotes, gemendo em volta de um fretro. Parecia dar voluntariamente
por texto aos seus pensamentos os salmos fnebres, em que transparecia a viso
de um outro mundo.
     Escutava com os olhos voltados para o cu e uma espcie de aspirao para
todos os mistrios do infinito, aquelas vozes tristes que cantam  beira do escuro
abismo da morte.
     Praticava uma infinidade de boas aces, ocultando-se delas, como outros se
ocultam para praticar as ms. De noite, introduzia-se furtivamente nalgumas
casas, subindo cautelosamente as escadas, como um ratoneiro nocturno que
procura, a coberto da noite, lanar a mo criminosa. De modo que, um pobre
homem, ao recolher-se para o seu miservel tugrio, encontrava s vezes a porta
aberta, ou at com indcios de lha terem forado, durante a sua ausncia e
exclamava: Andaram aqui os ladres' Porm, ao entrar, a primeira coisa que via
era uma moeda de oiro em cima de algum mvel. O malfeitor que andara por
ali, era o tio Madelaine.
      Era um homem afvel e triste, o que fazia o povo dizer: Ali est um rico que
no tem ar de soberba, como muitos.  um homem feliz, com cara de quem no
vive satisfeito.
      Pretendiam alguns que era um personagem misterioso e afirmavam no
entrar ningum no seu quarto, o qual era uma verdadeira cela de anacoreta,
mobilada de ampulhetas com asas e adornada com caveiras e tbias dispostas em
cruz. Dizia-se isto com tanta certeza, que algumas jovens e elegantes senhoras de
Montreuil-sur-mer, foram um dia a sua casa e disseram-lhe:
      - Senhor maire, deixe-nos ver o seu quarto, todos dizem que parece uma
gruta.
      O maire sorriu e conduziu-as imediatamente  sua gruta. Foram punidas
pela sua curiosidade, porque viram simplesmente um quarto guarnecido de
mveis, de acaju, feios como todos os mveis deste gnero e com as paredes
forradas de papel de doze soldos. O que ali viram de mais notvel foram dois
castiais de feitio muito antigo, dispostos sobre a pedra do fogo e que pareciam
ser de prata, porque tinham a marca de contraste.
      Mas isto no obstou, todavia, a que se continuasse a dizer que no quarto dele
no entrava ningum, porque era uma caverna de eremita, uma toca, um tmulo.
      Segredava-se tambm que tinha somas enormes depositadas na casa Laffite,
com a particularidade de que estava sempre  sua imediata disposio; de tal
modo, acrescentavam, que o senhor Madelaine podia chegar num dia a casa
daquele banqueiro, assinar um recibo e trazer consigo dois ou trs milhes. A
verdade era que aqueles dois ou trs milhes, como j dissemos, reduzia-se a
seiscentos e trinta ou a seiscentos e quarenta mil francos.



    IV
    O senhor Madelaine de luto



     Em princpios do ano de 1821, os jornais deram a notcia da morte de
Monsenhor Myriel, bispo de Digne, apelidado de Monsenhor Bemvindo, o qual
falecera com oitenta e dois anos, com reputao de santidade.
     O bispo de Digne, para acrescentar aqui um pormenor que os peridicos
omitiram, quando morreu, havia muitos anos que estava cego, mas vivendo
satisfeito com a sua cegueira, por ter a irm junto de si.
      Digamo-lo de passagem, ser cego e ser amado,  com efeito, neste mundo,
onde nada  completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas da
felicidade.
      Ter de contnuo ao p de si uma mulher, uma filha, uma irm, um ser
encantador, que est ali porque lhe  preciso, porque no pode passar sem ele,
saber que  indispensvel ao ente que lhe  necessrio, poder incessantemente
medir a sua afeio pelas horas que o tem na sua presena e dizer consigo: Uma
vez que me consagra todo o seu tempo  porque possuo todo o seu corao.
Ver-lhe o pensamento,  falta de lhe poder ver o rosto, ter a certeza da fidelidade
de uma criatura no eclipse de um mundo, pressentir o roagar de um vestido,
como se fosse um rudo de asas, ouvi-la falar, cantar, andar de um lado para outro
e pensar que  o centro daquelas falas, daquele cantar, daqueles passos; manifestar
a todos os instantes a sua prpria atraco, sentir-se tanto mais poderoso quanto
mais fraco , e torna-se na escurido e pela escurido, o astro em torno do qual
gravita aquele anjo; poucas felicidades h no mundo iguais a esta. A suprema
felicidade da vida  a convico de que somos amados, mas amados por ns
mesmos, ou antes, a despeito de ns mesmos; esta convico tem-na o cego No
meio da sua desdita, ser servido  ser acariciado.
      Falta-lhe alguma coisa? No. Quando se conserva o amor no se perde a luz.
E que amor! Um amor inteiramente formado de virtudes. No h cegueira onde
exista certeza. A alma procura s apalpadelas a alma e encontra-a. E esta alma, que
tem j passado por todas as provas,  uma mulher. Quando um cego sente a mo
do seu guia,  a sua; os lbios que lhe tocam a fronte, sos os seus lbios; a
respirao que sente junto de si, pertence-lhe.
      Receber dela tudo, desde o culto  compaixo, no ser nunca esquecido, ter
sempre o socorro da sua doce fraqueza, apoiar-se num vime inabalvel, tocar com
as prprias mos a Providncia e poder tom-la nos braos! Deus palpvel! Que
encanto!
      O corao, essa celeste flor obscura, entra ento em misteriosa expanso.
Ningum trocaria uma tal sombra por toda a claridade! A alma anjo est sempre
ali; se acaso se afasta  para voltar de novo; desvanece-se como o sonho e
reaparece como a realidade.
       certa a sua presena, quando se sente a aproximao de um calor benfico.
O corao transborda de serenidade, de alegria e de xtase; e o cego torna-se um
esplendor no meio da noite. E depois, mil cuidadozinhos, mil desvelos. Nadas que
so enormes num tal vcuo como a cegueira Os mais inefveis sons da voz
feminina empregam-se em embalar o cego e suprem para ele o Universo
desaparecido. O cego  acariciado pela alma No v, mas sente-se adorado A
cegueira  um paraso de sombras.
     Fora deste paraso que Monsenhor Bemvindo passara para o outro.
     No dia seguinte ao da notcia em que a sua morte foi reproduzida pelo jornal
da localidade, o senhor Madelaine apresentou-se vestido de preto e com fumo no
chapu.
     Aquele luto tornou-se reparado na cidade, tirando da cada um o tema para
mais ou menos acertadas conjecturas. Este facto parecia vir deitar um raio de luz
nas sombras em que se escondia a origem do senhor Madelaine. Concluiu-se da
que tinha algumas relaes de parentesco com o venervel bispo. Anda de luto
pelo bispo de Digne, dizia-se nos sales. Este facto realou muito o senhor
Madelaine, dando-lhe subitamente certa considerao entre a nobreza de
Montreuil-sur-mer. O microscpico bairro Saint-Germain da localidade,
lembrou-se ento de pr fim  quarentena do senhor Madelaine, tornado parente
provvel dum bispo.
     O maire notou a considerao que obtivera pelos mais frequentes
cumprimentos das senhoras velhas e pelo sorriso das novas.
     Um dia, uma decana daquela sociedadezinha aristocrata, curiosa por direito
de antiguidade, arriscou-se a perguntar-lhe:
     - O senhor maire era sem dvida primo do falecido bispo de Digne?
     - No, minha senhora - respondeu ele.
     - Mas tornou a decana como tomou luto por ele?
     -  porque na minha mocidade fui lacaio da sua famlia.
     Havia ainda quem notasse mais uma coisa e era que, todas as vezes que pela
cidade passava algum jovem saboiano, oferecendo-se para limpar as chamins, o
senhor maire mandava-o chamar, perguntava-lhe o nome e dava-lhe dinheiro. Os
saboianas que por ali passavam contavam isto aos outros e resultava daqui
aparecerem muitos na cidade.
    V
    Vrios clares no horizonte



     A pouco e pouco e com o andar do tempo, tinham cado todas as oposies.
     Houvera a princpio quem tentasse denegrir com calnias o carcter do
senhor Madelaine, lei a que esto sujeitos todos os que se elevam; depois foram
apenas insinuaes malvolas, no passando em seguida de ditos malignos, e
afinal tudo isso se desvaneceu completamente O respeito tornou-se completo,
unnime, cordial, e uma ocasio chegou, em 1821, em que esta s frase, senhor
maire, foi pronunciada em Montreuil-sur-mer quase no mesmo tom em que na
cidade de Digne, em 1815, se dizia o senhor bispo.
     Vinha gente de dez lguas em redor consultar o tio Madelaine. Era ele quem
reconciliava os desavindos, impedia as demandas e reconciliava os inimigos.
Todos o tomavam por juiz do seu bom direito. Parecia que tinha por alma o livro
da lei natural.
     Foi um como contgio de venerao, que em. seis ou sete anos atacou toda a
gente daquela terra e seus arredores.
     Um nico homem, somente, em toda a cidade e arredores, se esquivou de
todo a este contgio e permaneceu rebelde, apesar de tudo o que fez o tio
Madelaine, como se uma espcie de instinto, incorruptvel e imperturbvel, o
despertasse e afligisse.
     Parece, com efeito, que existe em. certos homens um verdadeiro instinto
bestial, puro e ntegro como todo o instinto, que cria as simpatias e as antipatias,
que separa fatalmente uma de outra natureza, que no hesita, nem vacila, que
nunca se cala, nem desmente, claro na sua obscuridade, infalvel, imperioso,
refractrio a todos os conselhos da inteligncia e a todos os dissolventes da razo,
e que, quaisquer que sejam as formas do destino reservado a cada um,
secretamente adverte o homem-co da presena do homem-gato, e o
homem-raposa da presena do homem-leo.
     Acontecia frequentes vezes, quando Madelaine passava por uma rua, sereno,
afectuoso, coberto das gerais bnos, um homem de estatura elevada, com um
casaco pardo, chapu de copa baixa na cabea, e grossa bengala na mo, voltar-se
subitamente para trs e segui-lo com a vista at ele desaparecer, cruzando os
braos, abanando a cabea com lentido e levantando o lbio superior junto com
o inferior at ao nariz; trejeito significativo que poderia traduzir-se por estas
palavras:
     - Mas quem  este homem? Tenho a certeza de que j o vi algures. Em todo o
caso no  a mim que ele engana!
     Este personagem, de uma gravidade quase ameaadora, era daqueles que,
mesmo vistos de passagem, preocupam o observador.
     Chamava-se Javert e era funcionrio da polcia, exercendo ento em
Montreuil-sur-mer as penosas, mas teis funes de inspector. No assistira aos
primeiros passos que Madelaine dera no caminho da fortuna, porque Javert devia
o lugar que ocupava  proteco do senhor Ghabouillet, secretrio do ministro
conde Angles, ento prefeito da polcia em Paris. Quando Javert chegara a
Montreuil-sur-mer, j a fortuna do grande industrial estava formada e o tio
Madelaine se tinha tornado senhor Madelaine.
     Certos agentes da polcia tm uma fisionomia caracterstica, que  uma
mistura de baixeza e ar de autoridade. Javert tinha essa fisionomia, menos a
baixeza.
      nossa convico que, se as almas fossem visveis aos olhos, ver-se-ia
distintamente uma coisa extraordinria, e vem a ser, que cada um dos indivduos
da espcie humana corresponde a alguma das espcies da criao animal; e
poder-se-ia reconhecer facilmente a verdade, entrevista apenas pelo filsofo, de
que desde a ostra at  guia, desde o porco ao tigre, todos os animais esto no
homem e cada um num homem s, se  que s vezes no se d o caso de estarem
uns poucos.
     Os animais no so seno as figuras das nossas virtudes e vcios, divagando
diante dos nossos olhos, como fantasmas visveis das nossas almas, que Deus nos
mostra para nos fazer reflectir e pensar. Somente, como os animais so simples
sombras, no os fez Deus educveis em toda a extenso da palavra. com que fim?
Pelo contrrio, sendo as nossas almas realidades e tendo um fim que lhes 
prprio, deu-
     lhes Deus a inteligncia, isto , a educao possvel. A educao social bem
dirigida pode extrair de uma alma, qualquer que ela seja, toda a utilidade que em
si contiver.
     Dizemos isto, bem entendido, restringindo-nos ao ponto de vista circunscrito
da vida terrestre aparente e sem prejudicar a profunda questo da personalidade
anterior ou ulterior dos seres que no so o homem. O eu visvel de nenhum
modo autoriza o pensador a negar o eu latente. Feito este reparo, prossigamos.
     Agora, se por um momento admitem connosco, que em todo o homem h
uma das espcies animais da criao, ser-nos- fcil dizer o que era o polcia
Javert.
     H entre os aldees asturianos a convico de que de cada ninhada que uma
loba d  luz, sai um co, a quem a me mata, porque, se o deixasse, lhe devoraria
os outros filhos.
     Dai uma face humana a esse co, filho de uma loba, e tereis Javert.
     Javert nascera numa priso, de uma mulher que deitava cartas e cujo marido
estava nas gals. Depois de homem, lembrou-se que estava fora da sociedade e
perdeu para sempre a esperana de tornar a entrar nela Reparou que a sociedade
mantinha irremissivelmente fora de si duas classes de homens: os que a atacam e
os que a guardam; no podia escolher seno entre estas duas classes, ao mesmo
tempo que sentia em si um fundo de rigidez, de regularidade e de probidade, de
envolta com inexplicvel dio  raa de bomios a que pertencia. Entrou na
polcia e foi afortunado, porque aos quarenta anos era inspector. Na sua mocidade
sido vigia dos forados de Toulon.
     Antes de nos adiantarmos mais, entendamo-nos sobre as palavras face
humana, que h pouco aplicmos a Javert A face humana de Javert consistia num
nariz chato, de ventas largas, para as quais subiam, dos dois lados do rosto,
enormes sussas. Aquelas duas flores-tas de cabelos e as duas cavernas, causavam
certa sensao de terror, vistas pela primeira vez.
     Quando Javert ria, o que era raro e terrvel, descerravam-se-lhe os lbios
delgados, deixando ver no s os dentes, mas as gengivas, e formando-se-lhe em
roda do nariz uma ruga deprimida e selvtica, como as que se vem no focinho
dos animais ferozes Javert srio, era um co de fila; quando ria, era um tigre.
Quanto ao mais, crnio pequeno, mandbulas grandes, os cabelos cados para
diante dos olhos e entre estes uma ruga central permanente, como um indcio de
clera; olhar sombrio, boca encrespada e temvel com ar feroz.
     Este homem era composto de dois sentimentos muito simples e muito bons
relativamente, mas que ele tornava quase maus  fora de os exagerar; o respeito 
autoridade e o dio  rebelio. A seus olhos, o roubo, o assassnio, todos os crimes,
enfim, no eram seno outras tantas expresses de rebelio; deste modo, envolvia
numa espcie de f cega e profunda, tudo o que no Estado estava investido de
certas atribuies, desde o primeiro ministro at ao zelador municipal, cobrindo
de desprezo, de averso e de dio tudo o que uma vez ultrapassasse as raias legais
da justia. Era absoluto e no admitia excepes. Por um lado dizia:
     - O funcionrio no pode enganar-se, nem o magistrado de ter razo. - Pelo
outro pensava: - Esses esto irremediavelmente perdidos. No pode sair deles
coisa boa.
     Abraava plenamente a opinio desses espritos extremos, que atribuem  lei
humana no sei que poder de fazer ou, se assim o preferem, provar que h
demnios e que colocam uma Stige no fundo da sociedade. Era um homem
estico, srio e austero; atreito a cogitaes melanclicas, humilde e altivo, como o
so os fanticos. O seu olhar era uma verruma, frio e perfurante. Toda a sua vida
se encerrava em duas palavras: velar e vigiar.
     Introduzira a linha recta no que de mais tortuoso havia no mundo, tendo a
conscincia da sua utilidade, a religio das funes que desempenhava, e sendo
espio como outro qualquer seria sacerdote. Desgraado do que lhe casse nas
mos. Era homem capaz de prender o pai, se o encontrasse evadido das gals, de
denunciar a me, fugida do degredo, e t-lo-ia feito com essa espcie de satisfao
interior que d a virtude a quem a pratica. Ajuntai a isto uma vida de privaes, o
isolamento, a abnegao, a castidade, e nem uma s distraco. Era o dever
implacvel, a polcia.
     Compreendida como os espartanos compreendiam Esparta, uma atalaia
impiedosa, uma honradez feroz, um espio de mrmore, Bruto incarnado em
Vidocq.
     Toda a pessoa de Javert exprimia o homem que espia e que se esconde. A
escola mstica de Jos de Maistre, que naquela poca dava um sabor de alta
cosmogonia ao que chamavam jornais-ultras, t-lo-ia infalivelmente denominado
um smbolo. No se lhe descobria a cabea, oculta pelo chapu; no se lhe viam os
olhos, perdidos no emaranhado das sobrancelhas; no se lhe divisava a barba,
enterrada na amplido da gravata; no se lhe enxergavam as mos, de contnuo
metidas nas mangas; no se lhe descortinava a bengala, que trazia debaixo do
casaco. Mas, chegada a ocasio, via-se sair subitamente de toda esta sombra,
como de uma emboscada, uma fronte angulosa estreita, um olhar funesto, uma
barba ameaadora, umas enormes mos e um bordo monstruoso.
     Nos seus momentos de descanso, que eram pouco frequentes, Javert lia,
embora aborrecesse os livros, o que era causa de que ele no fosse de todo
ignorante.
     Reconhecia-se-lhe isso pelo nfase com que falava.
     J dissemos que no tinha um s vcio. Quando se sentia satisfeito de si
prprio, concedia-se a distraco de tomar uma pitada de rap. Era este um ponto
pelo qual se ligava  humanidade.
     Facilmente se compreende que Javert era o terror de toda esta classe, que a
estatstica anual do ministrio da justia designa sob a rubrica de gente sem
profisso.
     Bastava pronunciar o nome de Javert para p-la em debandada; o seu
aparecimento petrificava-a.
     Tal era este homem terrvel.
     Javert era uma espcie de olho sempre fito no senhor Madelaine, mas olho
cheio de suspeitas e conjecturas. O senhor Madelaine chegou por fim a fazer
reparo nisso, mas pareceu no lhe dar cuidado nenhum semelhante coisa. No fez
uma s pergunta a Javert, no o procurava nem lhe evitava a presena; lanava a
tudo, sem parecer dar por tal, aquele seu olhar mortificante e quase pesado,
tratando Javert como a toda a gente, com bondosa afabilidade.
     Por algumas palavras que Javert deixara escapar, adivinhava-se que ele tinha
investigado secretamente, com a curiosidade que denuncia a raa e onde h tanto
de instinto como de vontade, todos os vestgios anteriores que o tio Madelaine
tivesse por acaso deixado atrs de si noutras partes. Parecia saber e dizia-o s
vezes, enigmaticamente, que algum tomara vrias informaes em certa terra, a
respeito de uma famlia que desaparecera. Uma vez chegou at a dizer, falando
consigo prprio:
     - Parece-me que o filei!
     Depois disto, andou trs dias pensativo, sem pronunciar uma palavra. Parecia
ter-se-lhe quebrado o fio que conseguira segurar.
     Apesar de tudo isto, e  este o correctivo necessrio ao sentido
demasiadamente absoluto que se poderia dar a certas palavras, no pode haver
nada verdadeiramente infalvel numa criatura humana, e a principal propriedade
do instinto consiste precisamente em poder ser perturbado, apanhado e
derrotado. Sem isto seria superior  inteligncia, e encontrar-se-ia no animal
melhor luz que no homem.
     Javert ficara evidentemente algum tempo embaraado com a serenidade e o
modo inteiramente natural do senhor Madelaine.
     Um dia, todavia, o estranho proceder daquele homem pareceu impressionar
o maire de Montreuil-sur-mer. Eis aqui em que ocasio.
    VI
    O tio Fauchelevent



     O senhor Madelaine, certa manh, indo a passar por uma viela de
Montreuil-sur-mer, ouviu barulho, olhou e, vendo um grupo de gente a alguma
distncia, dirigiu-se para ali. A causa daquele ajuntamento era um velho thaniai
do o tio Fauichelevent, ter cado, ficando debaixo das rodas do carro que guiava,
acidente devido ao cavalo que o puxava ter tropeado e cado tambm.
     Este Fauchelevent era um dos raros inimigos que o senhor Madelaine tinha
ainda naquela poca.
     Quando Madelaine veio estabelecer-se na terra, Fauchelevent, antigo tabelio
e aldeo quase letrado, negociava, mas o seu negcio principiava a correr mal.
     Fauchelevent viu enriquecer aquele simples operrio, enquanto que ele, sendo
patro, se arruinava, e isto acometeu-o de inveja, de maneira que da em diante
no perdeu uma s ocasio de prejudicar Madelaine no que podia. Viera, porm, a
quebrar, e vendo-se velho, sem famlia e sem filhos, sem ter de seu mais que um
carro e um cavalo, fez-se carroceiro para ganhar a vida.
     O cavalo tinha as duas pernas quebradas, no podendo por isso levantar-se, e
o velho estava entalado entre as duas rodas. A queda fora de tal modo desastrosa,
que todo o peso da carroa, demasiado carregada, lhe oprimia o peito. O pobre
velho soltava os mais dolorosos gemidos, devido s dores que sentia. Haviam
tentado tir-lo dali, mas em vo. Qualquer esforo mal aplicado, qualquer ajuda
pouco jeitosa, podia mat-lo. Era impossvel livr-lo de to terrvel posio, seno
levantando a carroa por baixo. Javert, que apareceu ali no momento do desastre,
mandou imediatamente buscar um macaco para levantar o carro.
     Foi nesta ocasio que chegou o senhor Madelaine e todos se afastaram
respeitosamente.
     - Quem me acode! - gritava Fauchelevent.  No h a uma alma caridosa que
acuda ao pobre velho?
     O senhor Madelaine voltou-se para os assistentes.
     - No h por a um macaco?
     - Foram j arranj-lo - respondeu um aldeo.
     - Quanto tempo levar a chegar?
     - Mandou-se aonde era mais perto, ao lugar de Flachot, onde h um ferrador,
mas mesmo assim no gastar menos dum quarto de hora para chegar aqui.
     - Um quarto de hora! - exclamou Madelaine.
     Como tinha chovido na vspera, o terreno estava encharcado, de maneira que
o carro se enterrava cada vez mais, oprimindo cada vez mais o peito do
desventurado velho Era evidente que antes de cinco minutos estaria com as
costelas quebradas.
     -  impossvel esperar um quarto de hora - disse Madelaine para os que o
rodeavam.
     - Pois no h outro remdio!
     - Mas ento j ser tarde! No vem como a carroa se vai enterrando?
     - Valha-nos Deus!
     - Escutem tornou - Madelaine - debaixo da carroa h ainda bastante espao
para que ali se meta um homem e a levante com as costas. Bastar ergu-la por
meio minuto, para que se possa tirar o pobre homem. Se houver aqui algum que
tenha fora e bom corao, ganhar por isso cinco luzes de oiro!
     Nem um s se mexeu no meio do grupo.
     - Dez luzes! - disse Madelaine.
     Todos os presentes baixaram os olhos e um deles murmurou:
     - Era preciso ser de ferro... E depois pode-se ficar esmagado.
     - Vamos! - tornou Madelaine. - Vinte luzes!
     O mesmo silncio - No  boa vontade o que lhes falta! - disse uma voz.
     Madelaine voltou-se e reconheceu Javert, em quem no tinha reparado
quando ali chegara.
     Javert continuou:
     - O que lhes falta  fora. Seria preciso um homem muito possante para
levantar com os ombros um carro destes.
     Depois, olhando fixamente para Madelaine, prosseguiu, acentuando cada
uma das palavras que pronunciava:
     - Senhor Madelaine, ainda no conheci seno um homem que fosse capaz de
fazer o que o senhor quer.
     Madelaine estremeceu.
     Javert acrescentou com ar de indiferena, mas sem despregar os olhos de
Madelaine:
     - Era um forado.
     - Ah! - exclamou Madelaine.
     - Que estava nas gals de Toulon.
     Madelaine empalideceu.
     Entretanto, a carroa continuava a enterrar-se vagarosamente.
     O tio Faudhelevent gemia e gritava:
     - Acudam-me, seno morro aqui esmagado!
     Madelaine tornou a olhar em volta de si.
     - Ento no h ningum que queira ganhar vinte luzes, salvando a vida a este
pobre homem?
     Como da primeira vez, ningum se mexeu Javert repetiu:
     - Ainda no conheci seno um homem que fosse capaz de o fazer, era o tal
forado.
     - Ai que eu morro! - gritava o velho.
     Madelaine ergueu a cabea, encontrou o olhar de falco de Javert, sempre fixo
nele, olhou para os circunstantes imveis e sorriu com tristeza. Depois, sem dizer
uma palavra, deitou-se de joelhos e antes mesmo que a multido tivesse tempo de
soltar um grito, estava debaixo do carro.
     Seguiu-se um terrvel momento de silenciosa expectativa.
     Todos viram Madelaine quase de bruos, sob aquele enorme peso, tentar em
vo duas vezes aproximar os cotovelos dos joelhos e gritaram-lhe:
     - Saia da, tio Madelaine!
     O prprio Fauchelevent disselhe:
     - Olhe que se arrisca a ser esmagado como eu, senhor Madelaine! Bem v que
no me pode salvar, tenho por fora de morrer!
     Madelaine no lhe respondeu.
     Todos os presentes estavam arquejantes de ansiedade. As rodas tinham
continuado a enterrar-se e era j quase impossvel que Madelaine pudesse sair
debaixo do carro.
     De repente, todos viram mover-se a enorme massa, o carro erguia-se
lentamente, as rodas apareciam j meio desenterradas, ao mesmo tempo que se
ouvia uma voz, gritando:
     - Ajudem-me, depressa!
     Era Madelaine que acabara de fazer um derradeiro esforo.
     Precipitaram-se todos. A dedicao de um s dera fora e coragem aos
outros. A carroa foi levantada por vinte braos e o velho Fauchelevent foi salvo.
     Madelaine ergueu-se. Estava plido, conquanto escorrendo suor, e tinha o
fato todo rasgado e coberto de lama. Todos choravam de prazer, e o pobre Velho
abraava-o pelos joelhos, chamando-lhe o seu redentor. Quanto a ele, tinha no
rosto como que uma expresso de sofrimento feliz e celeste, e fixava o seu olhar
sereno em Javert, que continuava a encar-lo do mesmo modo.



    VII
    Fauchelevent torna-se jardineiro em Paris



      Fauchelevent tinha deslocado um joelho ao cair. O tio Madelaine mandou
conduzi-lo imediatamente para uma enfermaria que estabelecera para os seus
operrios, no prprio edifcio da fbrica, que era dirigida por duas irms de
caridade.
      No dia seguinte, o pobre velho encontrou sobre a mesa de cabeceira uma nota
de mil francos, com estas palavras escritas pelo punho do tio Madelaine:
      - Compro-lhe a carroa e o cavalo.
      Ora a carroa estava desconjuntada e o cavalo morto. Fauchelevent
restabeleceu-se, mas o joelho ficou-lhe sempre aleijado Madelaine, com as
recomen-aes das irms de caridade e do cura, arranjou-lhe o lugar de jardineiro
num convento de freiras no bairro de Santo Antnio em Paris.
      Da a algum tempo, Madelaine foi nomeado maire Javert, da primeira vez que
o viu revestido da faixa que lhe dava toda a autoridade sobre a cidade, sentiu a
espcie de estremecimento que percorreria o corpo de um co de fila ao farejar
um lobo debaixo da roupa do seu dono e, da em diante, evitou a sua presena
sempre que lhe foi possvel. Quando, porm, as necessidades do servio o exigiam
absolutamente e ele no podia deixar de se encontrar com o maire, falava-lhe
sempre com profundo respeito.
      A prosperidade de Montreuil-sur-mer criada peio tio Madelaine tinha, alm
dos sinais visveis que j indicmos, um outro sintoma que, conquanto no fosse
visvel, no deixava por isso de ser to significativo como os outros.  uma coisa
que nunca falha. Quando a populao sofre, quando falta o trabalho e o comrcio
 nulo, o contribuinte resiste ao imposto por penria, no paga dentro dos prazos
estabelecidos e o Estado faz grandes despesas para os obrigar ao pagamento dos
respectivos impostos. Quando, porm, abunda o trabalho, quando o pas  rico e
feliz, o imposto paga-se voluntariamente e custa pouco ao Estado. Pode dizer-se
que a misria e a riqueza pblica tm um termmetro infalvel: as despesas feitas
com a arrecadao dos impostos.
      Em sete anos, as despesas dessa natureza que o Estado se via obrigado a fazer,
tinham-se reduzido a um quarto em Montreuil-sur-mer, o que dava lugar a que o
nome deste distrito fosse frequentes vezes citado por Villle, ento ministro das
finanas.
     Tal era a situao daquela localidade quando Fantine ali regressou J
ningum se lembrava dela. Felizmente, porm, os portes da fbrica do tio
Madelaine era como que um rosto amigo, pois apresentando-se ali foi logo
admitida na oficina das mulheres. Todavia, aquele gnero de trabalho era
completamente novo para ela, no podendo haver-se nele com desembarao e por
consequncia tirar grandes lucros do seu trabalho dirio; mas, enfim, esse pouco
era-lhe suficiente e conseguira resolver o seu problema, ganhava a vida.



    VIII
    A senhora Victurnien despende trinta e cinco francos em favor da moral



     Quando Fantine viu que podia ir vivendo com o pouco que ganhava, teve um
momento de alegria. Que dom do cu, viver honradamente do seu trabalho!
Sentiu voltar-lhe novamente o gosto pelo trabalho. Comprou um espelho,
regozijou-se de contemplar a sua mocidade, os lindos cabelos e os belos dentes,
esquecendo muitas coisas para no pensar seno na sua Cosette e na possibilidade
de um porvir melhor, sentindo-se quase feliz. Alugou um pequeno quarto e
mobilou-o a crdito, dando como garantia o seu trabalho futuro, resto dos seus
hbitos de desregramento.
     No podendo dizer que era casada, evitara sempre falar da sua filha.
     Nos primeiros tempos, pagara com toda a pontualidade aos Thenardier a
(prestao porque ajustara a educao da criana, e como no sabia mais do que
escrever o seu nome, via-se obrigada a mandar fazer as cartas por um escrevente
de profisso.
     Tornou-se, porm, objecto de reparo a frequncia com que o fazia, de modo
que as suas companheiras de trabalho comearam a murmurar umas com as
outras que Fantine escrevia cartas e que tinha ms companhias.
     No h, para se intrometer na vida das pessoas, como aqueles a quem ela no
diz respeito. Porque ser que este sujeito s vem ao anoitecer? Porque motivo
fulano no deixa nunca a chave na porta  quinta-feira? Porque anda ele sempre
(pelos becos e travessas? Porque ser que aquela senhora se apeia sempre da
carruagem antes de chegar a casa? Para que manda comprar um caderno de papel
de escrever, quando tem tanto na sua pasta?, etc., Existem pessoas que, para
darem com estes enigmas resolvidos, gastam mais dinheiro, desperdiam mais
tempo e tm mais trabalho do que seria necessrio para praticar dez aces boas; e
isto gratuitamente, por gosto, sem receber de tal curiosidade seno a prpria
curiosidade. Andaro dias inteiros seguindo este ou aquele; estaro horas
esquecidas de sentinela a uma esquina,  entrada de uma alameda, de noite, ao frio
e  chuva, com bom ou mau tempo; subornaro os moos de recados,
embebedaro cocheiros e lacaios, corrompero uma criada grave e uma ou outra
porteira. E tudo isto para qu? Para nada. Puro encarniamento em ver, em saber
e penetrar. Puro desejo de falar. E no poucas vezes, o conhecimento destes
segredos, a publicao destes mistrios, a decifrao destes enigmas, trs consigo
catstrofes, duelos, falncias, a runa de muitas falncias, a desgraa de muitas
existncias, com grande prazer dos que descobriram tudo sem interesse e s por
instinto. Triste coisa!
     Certas pessoas so ms unicamente pela necessidade que tm de falar. A sua
conversao, loquacidade nos sales, murmrios nas antecmaras,  como os
foges que consomem a lenha rapidamente; necessitam de muito combustvel, e
esse combustvel  o prximo.
     Foi, pois, por esta simples razo, que as companheiras comearam a espreitar
Fantine, a quem no poucas invejavam os seus formosos cabelos loiros e a
deslumbrante alvura dos belos dentes.
     Repararam que, quando ela estava na oficina, no meio das outras, voltava
muitas vezes o rosto para o lado a fim de limpar uma lgrima. Eram os momentos
em que pensava na filha e talvez tambm no homem que amara.
      necessrio um esforo doloroso para quebrar os vnculos sombrios do
passado.
     Descobriram que ela escrevia, pelo menos duas vezes cada ms, sempre para a
mesma direco e franqueando as cartas que deitava no correio. Souberam
tambm que eram dirigidas a um tal Thenardier, estalajadeiro em Montfermeil.
Levaram o escrevente para a taberna e fizeram-no facilmente dar  lngua, porque
era um pobre velho que no podia encher o estmago de vinho sem despejar a
bolsa dos segredos.
     Soube-se assim que Pantine tinha uma filha e disseram logo: Aquilo 
decerto uma mulher das de vida fcil, ou coisa parecida. Houve at uma
bisbilhoteira que foi a Montfermeil falar aos Thenardier e que disse quando
voltou:
     -  verdade que gastei trinta e cinco francos, mas sosseguei a conscincia: vi a
criana!.
     A mulher que assim procedera era uma verdadeira fria, chamada
Victurnien, sentinela vigilante da virtude de toda a gente. Tinha cinquenta e seis
anos e juntava a fealdade  velhice. Voz de cabra, esprito de bode. E todavia, coisa
espantosa!, esta velha tinha sido jovem; na sua mocidade, em pleno 93, casara com
um frade fugido do convento de gorro vermelho na cabea e que se passara dos
Bernardos para os Jacobinos. Era uma velha esgrouviada, spera, espinhosa,
azeda, quase venenosa, mas sem nunca se esquecer do querido monge de quem
era viva, que a havia de certo modo amansado e subjugado. Era uma urtiga em
que se viam os sinais do roar da roupeta.
     No tempo da restaurao fizera-se beata, e em to fervidos arroubos se
mostrou extasiada, to alto guindou o misticismo devoto, que os padres chegaram
a perdoar-lhe aquele desvio da sua unio com o frade, levando-lhe em desconto da
culpa a abnegao com que cedera algum dinheiro que possua em favor de uma
comunidade religiosa, o que ela fez, procurando o melhor meio de tornar bem
falada a sua generosa aco. Granjeou-lhe a sua devoo e fervor religioso as
gerais simpatias no bispado de Arras, onde todos a viam com bons olhos A
senhora Victurnien foi pois a Montfermeil e voltou de l, dizendo: Vi a criana!.
     Tudo isto levou tempo. Havia mais de um ano que Fantine trabalhava na
fbrica, quando um dia a superintendente da oficina lhe entregou cinquenta
francos, da parte do maire, participando-lhe ao mesmo tempo que se considerasse
despedida e convidando-a tambm da parte do senhor maire, a abandonar a
cidade.
     Tinha isto lugar exactamente no mesmo ms em que os Thenardier, tendo
pedido j doze francos em vez de seis, lhe exigiram quinze em vez de doze.
     Fantine ficou aterrada. Como podia ela abandonar a cidade, se devia a renda
da casa e o custo dos trastes com que a mobilara? Cinquenta francos no
chegavam para pagar essa dvida. Balbuciou algumas palavras suplicantes, mas a
superintendente fez-lhe ver que devia sair imediatamente da oficina. Alm disso,
Fantine no passava de uma operria medocre. Acabrunhada mais pela vergonha
do que dominada pelo desespero, no se sentiu com fora de dizer uma s palavra
e, cabisbaixa, abandonou a oficina. No havia dvida, a sua falta era j conhecida
de toda a gente.
     Aconselharam-na a que fosse falar com o maire, mas no teve nimo de o
fazer.
     O maire dera-lhe cinquenta francos porque era bondoso, expulsava-a porque
era justo.
     A pobre rapariga curvou-se, pois, ao peso daquela sentena.



    IX
    Bom xito da senhora Victurnien



     Madelaine tinha por costume no entrar quase nunca na oficina das
mulheres.
     Colocara  testa dela uma mulher j idosa, que o cura lhe recomendara, e em
quem depositava inteira confiana, por ser uma pessoa na verdade respeitvel,
firme, justiceira, ntegra, cheia do esprito da caridade que consiste em dar, mas
no possuindo em igual grau esse outro esprito da caridade, que consiste em
compreender e perdoar. Madelaine delegara-lhe toda a responsabilidade da
gerncia dos negcios da sua fbrica, e foi no uso dos seus plenos poderes,
convicta de que fazia bem, que a superintendente instaurara o processo, julgara,
condenara e executara Fantine.
     Quanto aos cinquenta francos, dera-os, tirando-os de uma quantia que
Madelaine lhe confiara, para ser aplicada em esmolas e socorros e de cuja
aplicao no tinha que dar contas.
     Fantine ofereceu-se como criada a algumas pessoas da terra, mas andou de
casa em casa, sem deparar com ningum que se quisesse utilizar do seu prstimo.
A pobre rapariga no pudera sair da cidade, porque o adeleiro, a quem comprara
os mveis da casa, mas que mveis, lhe dissera:
     - Se se ausentar daqui sem me pagar, fao com que a prendam como ladra!.
     E o senhorio, a quem estava em dvida com a renda, tinha-lhe dito tambm:
     - Voc  jovem e bonita, portanto pode pagar.
     Em vista disto, ela dividiu os cinquenta francos pelo senhorio e pelo adeleiro,
restituiu a este trs quartas partes da moblia, ficando apenas com o estritamente
necessrio, e achou-se sem trabalho, no possuindo mais do que uma pobre cama
e devendo ainda quase cem francos.
     Ps-se ento a trabalhar de costureira, fazendo camisas grosseiras para os
soldados da guarnio, com que conseguia ganhar doze soldos por dia, dos quais
tinha de tirar dez para as despesas que lhe custava a filha. Foi por esta ocasio que
ela comeou a atrasar-se com o pagamento aos Thenardier, de quem a inocente
criana estava a cargo.
     Entretanto, uma velha que lhe acendia a vela quando ela voltava  noite para
casa, ensinou-lhe a arte de viver na misria. Para alm do viver de pouco, est
ainda o viver de nada. So dois compartimentos: o primeiro  sombrio, o segundo
 todo trevas.
     Fantine aprendeu como de Inverno se pode passar sem lume, como se
renuncia a um passarinho, que consome a quarta parte de um soldo de dois em
dois dias, como de uma saia se faz um cobertor, e como se poupa a vela, comendo
 luz que vem da janela fronteira. Ningum sabe o que certos entes frgeis,
envelhecidos na nudez da misria, sem se desviarem do caminho da honradez, so
capazes de tirar de um soldo.
     Afinal de contas, isto  uma habilidade, e foi essa habilidade, que em verdade
se pode chamar sublime, a que Fantine aprendeu, adquirindo assim um pouco de
nimo.
     Um dia, disse a uma vizinha:
     - s vezes digo para comigo que, dormindo s cinco horas e empregando o
resto do tempo na costura, sempre chegaria a ganhar quase para comer. E demais,
quando Se est triste, come-se menos. Por isso, com sofrimentos e inquietaes,
com um bocado de po de um lado e cuidados de outro, a gente vai vivendo.
     No meio desta penria, a presena da filha ter-lhe-ia sido um anjo de
consolao, um raio de felicidade nas trevas daquela misria. Lembrou-se, pois, de
a mandar vir Mas qu! Obrigar a inocente a provar to cedo o amargor do fel da
misria!? E demais, como havia de pagar o que devia aos Thenardier? Como
arranjar o dinheiro para a jornada da filha?
     A velha, que lhe dera o que se poderia chamar lies de vida indigente, era
uma bondosa mulher chamada Margarida, devota, mas de uma devoo em
termos, pobre e caridosa com os pobres, e at mesmo com os ricos, sabendo
apenas o necessrio para escrever o seu nome, e crendo em Deus, que  no que
consiste a verdadeira sabedoria.
     Existem muitas virtudes assim na terra, atascadas no lodaal da misria; um
dia, porm, vir em que da terra subiro muito mais alto. Sim, porque a esta vida
ergue-se outra.
     Tal fora a vergonha que se apossara de Fantine nos primeiros tempos, que a
pobre rapariga no ousava sair de casa. Quando ia por uma rua, adivinhava que
todos se voltavam para a olhar e que a apontavam a dedo; toda a gente olhava para
ela e ningum a cumprimentava. Este desprezo mordaz e frio dos transeuntes
penetrava-lhe na alma e na carne com a aspereza de uma rajada do nordeste.
      Uma infeliz, nas terras pequenas, parece que anda nua diante do sarcasmo e
da curiosidade de todos.
      Em Paris, ao menos, ningum a conhece, e essa mesma obscuridade serve-lhe
de vesturio. Como desejava voltar para Paris! Impossvel, porm!
      Fora-lhe indispensvel habituar-se  desconsiderao, do mesmo modo que
se afizera  indigncia. A pouco e pouco foi-se tornando mais resoluta e
decorridos dois ou trs meses expeliu de si toda a vergonha, comeando a sair
como se lhe fosse a coisa mais natural.
      - Ora, que me importa! -, dizia ela.
      Andava j de um para outro lado, de cabea erguida, com um sorriso amargo
nos lbios e conhecendo que se tornava descarada.
      A senhora Victurnien, da sua janela, via-a s vezes passar e, notando a misria
da pobre rapariga, felicitava-se por ver aquela criatura ocupando o lugar que lhe
competia, graas aos seus piedosos esforos. Os maus tm bem negras satisfaes.
      O excesso de trabalho veio a fatigar Fantine, de modo que aquela tossezinha
seca, que ela tinha, aumentou. s vezes, ela dizia  sua vizinha Margarida:
      - Olhe, veja como tenho as mos quentes.
      Todavia, quando pela manh se punha a pentear, com um pente quebrado, os
seus belos cabelos, que ondulavam qual seda aveludada, tinha um momento de
feliz garridice.



    X
    Continuao do bom xito



    Fantine havia sido despedida da fbrica pelos fins do Inverno; o Vero
passou, mas o Inverno tornou a voltar. Nos dias pequenos trabalha-se menos. No
Inverno no h calor, no h luz, no h sol, a manh parece tocar com a noite, o
nevoeiro  contnuo, o crepsculo interminvel, os dias pardos, quase no se v. O
cu  uma fresta. Durante o dia parece estar-se num subterrneo. O sol tem o
aspecto de um pobre. Medonha estao! O Inverno transforma em pedra a gua
do cu e o corao do homem.
     Os credores no deixavam Fantine nem um s instante. Era demasiado pouco
o que ganhava e as dvidas tinham aumentado Os Thenardier, mal pagos,
escreviam-lhe sucessivas cartas, cujo contedo a enchia de aflio, e o porte do
correio lhe aumentava a misria. Um dia escreveram-lhe, dizendo que a sua
Cosette andava nua de todo, numa quadra em que fazia tanto frio, que precisava
de uma saia de l e para isso era necessrio que ela lhes mandasse dez francos.
Fantine recebeu a carta e consumiu todo o dia em amarrot-la nas mos. No dia
seguinte, entrando na loja de um barbeiro que morava  esquina da rua, soltou os
admirveis cabelos loiros que lhe caram pelas costas abaixo.
     - Que lindos cabelos! - exclamou o barbeiro.
     - Quanto me d por eles? - perguntou Fantine.
     - Dez francos.
     - Ento, corte-os.
     Comprou em seguida uma saia de malha e mandou-a aos Thenardier, que
ficaram furiosos com isso. O que eles queriam era dinheiro. Todavia, deram a saia
a Eponine e a pobre Cotovia continuou a tiritar.
     Entretanto, Fantine dizia consigo:
     - Agora j a minha querida filha no ter frio. Vesti-a com os meus cabelos.
     E para ocultar a cabea rapada, comeou a usar umas toucas muito simples,
que nem mesmo assim a desfeavam.
     No corao de Fantine comeou ento a travar-se tenebrosa luta. Quando viu
que j no podia pentear-se, comeou a odiar tudo o que a rodeava. Por muito
tempo participara da venerao geral pelo tio Madelaine; todavia,  fora de
repetir a si mesma que fora ele quem a expulsara, e que era ele o causador da sua
desgraa, passou a odi-lo tambm. Quando passava em frente da fbrica  hora
do descanso dos operrios, fingia rir e cantarolar.
     Uma operria, j velha, que um dia a viu rir e a cantar daquela maneira,
exclamou:
     - Aquela rapariga por fora acabar mal!.
     Fantine arranjou um amante, o primeiro homem que encontrou .e a quem
no amava, mas aceitou-o por despeito, com a raiva no corao. Era um
miservel, uma espcie de msico mendigo, um gatuno ocioso, que a moeu de
pancadas e por fim a deixou como ela o aceitara, com indiferena.
     Ela porm, adorava a filha.
     Quanto mais fundo descia, quanto mais sombrio se tornava tudo em roda
dela, mais aquele anjo lhe resplandecia no fundo da alma. Dizia para consigo:
     - Quando eu for rica, Cosette estar sempre na minha companhia!.
     E desatava a rir. A tosse, porm, no a abandonava e o suor corria-lhe pelas
costas quase continuamente.
     Um dia recebeu uma carta dos Thenardier, concebida nestes termos: Cosette
foi atacada por uma doena que anda por estes stios e a que chamam febres
biliares. Os remdios precisos so muito caros e no os podemos pagar. Se no
manda quarenta francos por estes oito dias, a pequena decerto morre.
     Fantine, aps a leitura, desatou a rir s gargalhadas, dizendo para a velha, sua
vizinha:
     - Que graa eles tm! Quarenta francos! Nem mais nem menos do que dois
napolees? Onde querem eles que os v buscar? Esta gente do campo sempre 
muito estpida!
     Subiu entretanto a escada e foi ler a carta outra vez  luz de uma trapeira.
     Desceu-a depois e saiu a correr, saltando e rindo sempre.
     Uma vizinha, encontrando-a naquele desatino, perguntou-lhe:
     - Porque est to alegre?
     - Por causa duma tolice que acabam de me escrever umas pessoas do campo -
respondeu ela. - Ento no me pedem quarenta francos? Sempre so muito
estpidos!
     Ao passar na praa, viu muita gente rodeando uma carruagem de forma
extravagante, em cima de cujo tejadilho, de p, arengava um homem todo vestido
de vermelho. Era um dentista charlato que oferecia ao pblico dentaduras
completas, ps dentfricos e elixires.
     Fantine introduziu-se no grupo e comeou a rir, como todos os outros,
daquela arenga, em que havia gria para a gente baixa e fraseado para a gente de
bem. O dentista, vendo aquela formosa rapariga a rir-se, exclamou de repente:
     - Que bonitos dentes a menina tem! Se me quiser vender as suas duas
palhetas, dou-lhe um napoleo em oiro por cada uma.
     - Mas o que so as palhetas? - perguntou Fantine - As palhetas - tornou o
dentista - so os dentes da frente, os dois de cima.
     - Que horror! - exclamou Fantine.
     - Dois napolees! - rosnou uma velha desdentada, que ali se encontrava. -
Esta  uma criatura feliz!
     Fantine deitou a fugir, tapando os ouvidos para no ouvir a voz rouquenha
do homem, que continuava a gritar-lhe.
     - Pense bem, minha flor, olhe que dois napolees podem servir para muita
coisa.
     Se acaso se resolver, encontrar-me-  noite na estalagem do Convs de Prata.
     Fantine regressou a casa, furiosa, e contou o caso  sua vizinha Margarida.
     - J viu uma coisa assim? No  abominvel o demnio do homem?
Consentirem que semelhante gente ande assim a correr as terras! Arrancar-me os
meus dois dentes da frente! Ficaria horrvel! Os Cabelos tornam a crescer, mas os
dentes! O maldito do homem! Antes queria deitar-me de um quinto andar, de
cabea para baixo! Disseme que  noite estaria no Convs de Prata!
     - Quanto lhe ofereceu ele? - perguntou Margarida.
     - Dois napolees.
     - So quarenta francos.
     -  verdade - disse Fantine - so quarenta francos!
     Ficou pensativa, mas foi pegar na costura. Passado um quarto de hora, ps de
parte a costura e foi para a escada reler a carta dos Thenardier.
     Tornando a entrar, voltou-se para Margarida que estava a trabalhar ao p
dela, e perguntou:
     - Mas que vem a ser uma febre biliar, sabe?
     - Sei - respondeu a velha -  uma molstia.
     - E  preciso tomar muitos remdios?
     - Oh, um horror de remdios!
     - E como se manifesta?
     - Ora!  uma doena que ataca a gente, como se v.
     - Ataca tambm as crianas?
     - Principalmente as crianas.
     - Mas no se morre disso?
     - Oh, se morre! - exclamou Margarida.
     Nessa mesma noite saiu e vrias pessoas a viram dirigir-se para o ponto de
Paris onde esto situadas as estalagens.
     No dia seguinte, Margarida, ao entrar no quarto de Fantine antes do
amanhecer, pois trabalhavam sempre juntas, para deste modo no gastarem seno
uma luz, deu com ela sentada na cama, plida e gelada. No se tinha deitado. A
touca cara-lhe para cima dos joelhos e a vela, toda a noite a arder, estava quase
completamente consumida.
     Margarida estacou no limiar, petrificada em presena de to grande
desalinho, e exclamou:
     - Valha-me Deus! A vela toda gasta! Sucedeu por fora alguma coisa!
     Depois olhou para Fantine, que tinha voltado para ela a cabea desguarnecida
de cabelos.
     A pobre rapariga havia envelhecido dez anos desde a vspera.
     - Santo nome de Jesus! - exclamou Margarida. - O que  que tem, Fantine?
     - No tenho nada - respondeu ela. - Pelo contrrio, estou muito satisfeita. A
minha filha j no morre por falta de socorros.
     E, dizendo isto, mostrou  velha dois napolees que brilhavam em cima da
mesa.
     - Santo Deus! - exclamou a velha. - Como obteve esse dinheiro?
     - Ora, obtive-o! - respondeu Fantine, sorrindo ao mesmo tempo. Era um
sorriso cruel, aquele abrir de lbios. Ao claro trmulo da vela que lhe batia no
rosto, viam-se-lhe nos cantos dos lbios uma saliva avermelhada e um buraco
negro na bola.
     Os dois dentes haviam sido arrancados.
     Fantine remeteu os quarenta francos para Montfermeil. Porm, tudo aquilo
fora um ardil dos Thenardier para obter dinheiro. Cosette no estava doente.
     Desesperada, atirou o espelho pela janela fora. Havia tempo que se mudara
do quarto do segundo andar para umas guas-furtadas, fechadas apenas com um
ferrolho; era um desses stos, cujo tacto faz ngulo com o soalho e onde a cada
instante se d com a cabea nas vigas. O pobre no pode chegar ao fim do seu
albergue, seno curvando-se mais e mais, como para chegar ao fim do seu destino.
     Fantine j no tinha leito, restavam-lhe uns farrapos a que ela chamava
cobertor, uma enxerga que deitava no cho e uma cadeira arrombada. Uma
roseirinha que tinha, jazia a um canto, seca, esquecida. Noutro canto, estava uma
lata das que servem para manteiga, cheia de gua, que de Inverno gelava, deixando
por muito tempo marcados com crculos de gelo os diferentes nveis da gua.
Conto perdera a Vergonha, assim perdeu a garridice. ltimo sinal. Saa j  rua
com as toucas muito sujas; e ou fosse por falta de tempo ou por desleixo, no
remendava a roupa. A medida que os calcanhares das meias se iam rompendo,
ia-os ela puxando para debaixo dos ps, o que se lhe conhecia por certas rugas
perpendiculares. Remendava o seu colete velho e roto, com bocados de pano cru,
que se tornavam a rasgar ao menor movimento.
     As pessoas a quem ela era devedora descompunham-na constantemente, sem
lhe deixarem um instante de sossego; encontrava-se com elas na rua, tornava-se a
encontrar com elas nas escadas. Passava noites inteiras a chorar, sentindo
aumentar-lhe a tosse, sofrendo uma dor fixa no ombro, por cima da omoplata
esquerda com os olhos de contnuo a brilharem com um fulgor estranho. "Odiava
profundamente o tio Madelaine, mas no soltava nunca uma queixa. Trabalhava
dezassete horas por dia, porm um arrematante do trabalho das prises, que
vendia a obra das presas ao desbarato, fez de repente baixar os preos, o que
reduziu o salrio das costureiras livres a nove soldos. Dezassete horas de trabalho
a nove soldos por dia. Os credores mostravam-se mais do que nunca inexorveis;
o adeleiro que lhe havia tornado a levar quase todos tos trastes no cessava de
lhe dizer:
     - Quando me pagas tu, descarada?
     Que queriam que ela fizesse, santo Deus? A infeliz sentia-se desnorteada,
desenvolvendo-se em todo o seu ser o que quer que fosse de animal feroz,
sentindo-se assim encurralada. Ao mesmo tempo, recebeu uma carta dos
Thenardier, na qual lhe diziam que tinham esperado com demasiada bondade,
mas que necessitavam imediatamente de cem francos, seno poriam Cosette no
meio da rua, ainda convalescente da sua grave doena, exposta ao rigor do tempo
e aos perigos das estradas, ela que se arranjasse como pudesse.
     - Cem francos! - pensou Fantine. - Mas onde haver uma ocupao em que se
ganhe cem soldos por dia?
     - Vamos!  disse ela,. - Vendamos o resto! E a desgraada arrojou o corpo 
podrido do prostbulo.



    XI
    Christus nos Liberavit



     Que vem a ser esta histria de Fantine?  a sociedade comprando uma
escrava.
     A quem?  misria.
      fome, ao frio, ao isolamento, ao abandono e  nudez. Doloroso contrato.
Uma alma por um pedao de po. A misria oferece, a sociedade aceita!
     A sagrada lei de Cristo governa a nossa civilizao, mas ainda a no penetrou;
dizem que a escravido desapareceu da civilizao europeia;  um erro. Existe
como dantes, mas no oprime seno a mulher e chama-se prostituio.
     A escravido pesa sobre a mulher, isto , pesa sobre a sua graa, Sobre a sua
fragilidade e beleza, sobre a sua maternidade. Este facto no  decerto uma das
menores vergonhas do homem.
      No ponto a que chegmos deste drama doloroso, nada resta a Fantine do que
outrora foi. Tornou-se mrmore, convertendo-se em lama. Quem a toca sente
frio.
      Segue o seu caminho, suporta-vos e ignora quem sois;  a figura severa da
desonra, a criatura conspurcada, a quem a sociedade disse a derradeira palavra.
      Aconteceu-lhe j tudo o que lhe h-de acontecer ainda.
      Sentiu tudo, suportou tudo, experimentou tudo, tudo sofreu, perdeu e
chorou.
      Resignou-se, com aquela resignao que se assemelha  indiferena, como o
sono se assemelha  morte. J no teme nada, no evita coisa alguma, cai sobre ela
todo o aguaceiro, passa sobre ela todo o oceano. Que lhe importa?  uma esponja
embebida.
      Assim o julgou pelo menos. Mas  um erro imaginar que se chega ao termo
da carreira marcada pelo destino e que se toca o fundo de qualquer coisa.
      O que so, porm, estes destinos impelidos em tal confuso? Aonde vo?
Porque so eles assim?
      Aquele que o sabe, penetra todas as trevas.
       um s. Chama-se Deus.



    XII
    A ociosidade do senhor Barmatabois



     H em todas as terras pequenas e havia-a particularmente em
Montreuil-sur-mer, uma classe de rapazes que na provncia dissipam anil e
quinhentos francos de rendimento anual, com o mesmo ar com que em Paris
outros que tais devoram duzentos mil francos. Pertencem estes entes  grande
espcie neutra: parasitas, nulidades, que possuem alguns palmos de terra, alguma
coisa de parvos e um pouco de inteligncia, que fariam figura de rsticos num
salo e que se julgam fidalgos numa taberna, que falam das suas terras, do seu
gado, dos Seus servos; que no teatro pateiam as actrizes, para demonstrarem o seu
bom gosto; que se intrometem com os oficiais da guarnio, para basofiar de
destemidos e valentes; que vo  caa, fumam, bocejam, bebem, jogam o bilhar,
observam os viajantes que descem da diligncia, passam a vida nos cafs, jantam
nas estalagens, tm um co que come os ossos debaixo da mesa e uma amante que
lhes come os olhos da cara; que exageram as modas, admiram a tragdia, olham
para as mulheres com desprezo, copiam Londres atravs de Paris e Paris atravs
de Pont--Mousson, envelhecem patetas, no trabalham, nem servem para nada,
mas tambm no fazem grande mal a coisa alguma.
     Se Flix Tholomys tivesse permanecido na provncia sem nunca ter ido a
Paris, teria sido um destes homens Se eles fossem ricos, chamar-lhes-iam
elegantes; se fossem pobres, denomin-los-ia vadios. Pois no so nem mais nem
menos do que ociosos. Entre estes ociosos, encontram-se enfadonhos, enfadados,
distrados e alguns Velhacos.
     Naquele tempo um elegante constava de uns grandes colarinhos, uma grande
gravata, um relgio com muitos berloques, de trs coletes sobrepostos de cores
diferentes, o azul e o vermelho pela parte de dentro, uma casaca curta cor de
azeitona, de abas de tesoura, com duas ordens de botes de pirata, apertados uns
contra os outros e subindo at acima do ombro, e de umas calas tambm cor de
azeitona, mas mais clara, com pregas em nmero indeterminado, mas sempre
mpar, variando de uma a onze, limite que no era nunca ultrapassado.
Acrescente-se a isso, sapatos abotinados com chapinhas de ferro nos saltos,
chapu de copa alta e abas estreitas, grande cabeleira, enorme bengala e uma
conversao radicada de frases com pretenses a chistosas. E ainda alm de todas
estas coisas, esporas e bigode. Naquela poca bigode queria dizer burgus e
esporas significavam peo.
     O elegante da provncia usava esporas mais compridas e bigode mais
retorcido.
     Era no tempo da luta das repblicas da Amrica meridional. Contra o rei de
Espanha, de Bolvar contra Murillo Os chapus de abas estreitas eram realistas e
chamavam-se murillos; os liberais usavam chapus de abas largas e
denominavam-se bolvares.
     Oito ou dez meses depois do que foi narrado nas pginas precedentes, nos
primeiros dias de Janeiro de 1823, numa noite em que nevara, um desses elegantes
ociosos, mas dos bem pensantes porque usava murillo e mais ainda porque
estava aconchegadamente agasalhado num dos amplos capotes que, no tempo
frio, completavam o vesturio da moda, divertia-se em provocar e atormentar
uma mulher trajada com vestido de baile muito decotado, que girava em frente do
caf dos oficiais.
     Este elegante fumava, porque era decididamente essa a moda.
     De todas as vezes que a mulher passava por diante dele, o elegante
lanava-lhe, juntamente com uma baforada de fumo do charuto, uma apstrofe
que julgava espirituosa e engraada, como por exemplo: Sempre s muito feia!
Trata de te esconder! Que diabo fizeste aos dentes?, etc., etc.
     Este senhor chamava-se Barmatabois.
     A mulher, triste espectro paramentado, que divagava de um para outro lado
por cima da neve, no lhe respondia, nem mesmo olhava para ele, sem deixar por
isso de completar, em silncio, e com uma regularidade sombria, os seus giros,
que a levavam de cinco em cinco minutos para debaixo daquela chuva de
sarcasmos, como o soldado condenado que foge e volta logo a receber nas costas
os verges da chibata. O pouco ou nenhum efeito que produzia, indisps sem
dvida o ocioso, o qual, aproveitando um momento em que ela se voltava, a
seguiu nos bicos dos ps e, sufocando o riso, baixou-se, pegou num punhado de
neve do cho e meteu-lha rapidamente nas costas, entre os dois ombros nus. A
infeliz soltou um rugido, voltou-se, deu um salto de pantera e arremeteu contra o
homem, cravando-lhe as unhas no rosto, acompanhando os movimentos com as
mais medonhas palavras que podem sair da boca de uma regateira Estas injrias,
vomitadas com voz roufenha pelo abuso da aguardente, saam hediondas de uma
boca a que com efeito faltavam os dois dentes da frente Era Fantine.
     Ao rudo que esta cena causou, uma multido de oficiais saiu do caf, os
transeuntes agruparam-se tambm, formando-se imediatamente um grande
crculo, que ria, apulpava e aplaudia, em volta daquele turbilho formado por dois
entes, que mal se conhecia serem um homem e uma mulher; o homem debatia-se,
barafustando, j sem chapu, a mulher semeava murros e pontaps a torto e a
direito, uivando, desdentada e sem cabelos, plida de clera, horrvel.
     De repente, saindo do meio da multido, um homem de elevada estatura
agarrou a mulher por um brao e disselhe:
     - Acompanha-me.
     A mulher ergueu a vista e a voz furiosa extinguiu-se-lhe de sbito. Os olhos
envidraaram-se-lhe, de plida tornou-se lvida, estremecendo de terror No
homem que a prendera reconheceu Javert.
     O elegante, aproveitando aquela oportunidade, afastou-se rapidamente.
    XIII
    Soluo de algumas questes de polcia municipal



     Javert afastou os espectadores, rompeu o crculo e dirigiu-se a passos rpidos
para a repartio de polcia, que ficava na extremidade da rua, arrastando a infeliz,
que se deixava conduzir maquinalmente. Nem ele nem ela pronunciavam uma s
palavra A nuvem dos espectadores seguia-os, no paroxismo da alegria, com ditos e
gracejos A suprema misria causa obscenidades.
     Apenas chegado  repartio de polcia, que era uma sala no rs-do-cho,
aquecida por um fogo, com casa de guarda, uma porta envidraada e gradeada
que deitava para a rua, Javert abriu a porta e entrou com Fantine, fechando-a logo
em seguida, com grande desapontamento dos curiosos, que se ergueram em bicos
de ps e estenderam o pescoo para diante,, tentando ver o que se passava l
dentro, atravs dos vidros foscos. A curiosidade  uma gulodice. Ver  devorar.
     Fantine, apenas entrou, foi cair a um canto, imvel e muda, acocorada como
uma cadela assustada O sargento da guarda ps uma vela acesa em cima de uma
mesa.
     Javert tirou uma folha de papel selado e ps-se a escrever.
     Esta classe de mulheres so, pelas nossas leis, postas inteiramente  disposio
da polcia, que faz delas o que lhe apraz, punindo-as se assim lhe parece e
confiscando-lhes a seu talante essas duas tristes coisas, que elas apelidam a sua
indstria e a sua liberdade. Javert estava impassvel; o rosto severo no lhe traa a
mnima comoo; todavia, aquele homem estava grave e profundamente
preocupado. Era uma dessas ocasies em que ele exercia por sua conta e risco, mas
com todos os escrpulos de uma conscincia severa, o seu temvel poder
discricionrio. Em tais momentos conhecia perfeitamente que o seu banco de
agente de polcia era um tribunal e ele um juiz.
     Javert julgava e condenava. Chamava todas as ideias que podia ter no esprito
sobre a importante tarefa em que estava ocupado. Quanto mais examinava o
procedimento daquela mulher, mais revoltado se sentia, porque era evidente que
ele acabava de ver cometer um crime.
     Acabava de ver, ali, no meio de uma rua, a sociedade, representada por um
proprietrio-eleitor, insultada e atacada por uma criatura colocada fora de tudo.
     Um burgus insultado por uma prostituta. Ele, Javert, presenciara um tal
atentado. Escrevia, pois, em silncio. Depois de terminar, assinou, dobrou o papel
e disse ao sargento, entregando-lho:
      - Chame trs guardas e conduza esta mulher  cadeia. - Em seguida,
voltando-se para Fantine: - Tens cadeia para seis meses.
      A infeliz estremeceu.
      - Seis meses! Seis meses de priso!  exclamou ela. - Seis meses a ganhar sete
soldos por dia! Mas que ser de Cosette? Minha filha, minha filha! Mas eu ainda
devo mais de cem francos ao Thenardier, o senhor inspector no sabe?
      E arrastou-se no pavimento, hmido pelas botas enlameadas de todos aqueles
homens, sem se levantar, de mos postas, andando de joelhos.
      - Senhor Javert implorou ela tenha piedade de mim. Juro-lhe que no tive
culpa.
      Se o senhor presenciasse tudo, veria! Juro-lhe por Deus que no fui a culpada!
Foi aquele senhor, que eu no conheo, que me deitou neve nas costas.
Porventura os outros tm direito para nos fazerem semelhante coisa, quando ns
vamos a passar sossegadamente, sem fazermos mal a ningum? Aquilo fez com
que eu sasse de mim.
      O senhor bem v como eu sou doente; e depois, havia j algum tempo que ele
me provocava. Bem sei que sou feia e que me faltam dentes, no  preciso que mo
digam.
      Mas mesmo assim no lhe respondi e dizia para mim prpria: O que ele tem
 vontade de se divertir. Portara-me bem com ele, no lhe dirigi uma nica
palavra. Foi ento que me deitou a neve nas costas. Senhor Javert, meu bom
senhor inspector! Pois no estava ali ningum que visse como aquilo foi, para lhe
dizer que falo verdade? Fiz talvez mal em ter levado o caso quele ponto, mas o
senhor sabe perfeitamente que no primeiro momento no nos podemos conter.
Isto sucede a toda a gente. Sentir nas costas, quando no se espera, uma coisa to
fria! Bem sei que fiz mal em rasgar o chapu daquele senhor, mas para que se foi
ele embora? Pedir-lhe-ia perdo.
      Desculpe-me por esta vez, senhor Javert. Olhe, o senhor no sabe isto: nas
prises no se ganha seno sete soldos, eu bem sei que no  por culpa do
governo, mas em todo o caso no se ganham seno sete soldos, e imagine que
tenho de dar cem francos, ou ento mandam-me a minha filha e eu no posso
t-la comigo,  to vergonhosa a minha vida! Minha pobre Cosette! O que ser
daquele anjinho de Nossa Senhora!
      Olhe, so uns estalajadeiros, os Thenardier,  gente do campo que no sabe
pensar, o que eles querem  dinheiro. No me mande para a priso, senhor Javert.
Tenha d duma criancinha a quem atiraro para o meio da rua, no corao do
Inverno, e que no tem mais ningum no mundo vista em torno dos objectos que
a cercavam e a falar em voz baixa, como se falasse consigo prpria: - Que me
soltem! Que me deixem ir em liberdade. Que no v para a cadeia durante seis
meses?! Quem disse semelhante coisa? No  possvel, fui eu que percebi mal! No
podia ser o demnio deste maire!
     Foi o senhor Javert que disse que me pusessem em liberdade? Quando eu lhe
contar tudo deixar-me- ir embora.  este maldito maire, este monstro, que tem a
culpa de tudo. Este homem, senhor Javert, expulsou-me por causa dum bando de
velhacas que na oficina no se ocupam seno das vidas alheias. Veja se isto no 
horroroso!
     Despedir uma pobre rapariga que vivia honestamente do seu trabalho e
cumpria com o seu dever! Desde entono ganhei o suficiente e foi que me
sobrevieram todas as minhas desgraas. Em primeiro lugar h um mal que estes
senhores da polcia deviam tratar de remediar:  obstar a que os arrematadores
das prises prejudiquem os pobres.
     Ora escute, que eu vou explicar-lhe isto. Faa o senhor de conta que ganha
doze soldos nas camisas, mas eis que de repente desce de doze para nove, assim l
se vai o modo de vida, porque com semelhantes ganhos no se chega a nada. ,
pois, preciso remar cada um para onde pode. Eu, que tinha a minha filha, a minha
pobre Cosette, no tive outro remdio seno tornar-me uma m mulher. Agora j
sabe porque eu digo que foi este maldito maire a causa da minha desgraa. 
verdade que pisei o chapu daquele senhor ao p do caf dos oficiais, mas ele
tinha-me estragado o vestido com a neve.
     Ns, as mulheres que andamos nesta vida, s temos um vestido de seda para
sairmos  noite. Nunca fiz mal por minha vontade e por toda a parte vejo
mulheres piores do que eu que vivem mais felizes. Mas foi o senhor Javert quem
disse que me pusessem em liberdade, no foi? Tire informaes, fale com o meu
senhorio, a quem agora pago sempre a renda, e ver como todos lhe dizem que eu
sou uma mulher bem comportada Ai, meu Deus! Desculpe-me, senhor Javert,
toquei sem querer no fecho do fogo e fiz com que deite fumo Madelaine
escutava-a com profunda ateno e, enquanto ela esteve a falar, meteu a mo na
algibeira do colete, tirou a bolsa e abriu-a, mas achando-a vazia, tornou a
guard-la.
     Depois, voltando-se para Fantine, perguntou:
     - Quanto disse que devia?
     Fantine, que no tirava os olhos de Javert, voltou-se para o maire:
     - Quem foi que falou contigo?
     E dirigindo-se em seguida aos guardas:
     - Vocs no viram como eu lhe cuspi na cara? Viestes aqui para me meteres
medo, grande celerado, mas eu  que no tenho medo de ti. Quem eu receio  o
senhor Javert, s o senhor inspector  que me mete medo!
     E, dizendo isto, voltou-se para Javert:
     - Eu bem sei que o senhor inspector tem de fazer justia. Bem vejo que 
justo. A falar a verdade,  coisa simples que um homem se divirta a deitar neve nas
costas de uma mulher, o que fazia rir os oficiais, porque eles tm de divertir-se
com alguma coisa e ns no servimos para mais nada. E depois, o senhor que 
obrigado a manter a ordem, prende a mulher que procedeu mal; mas pensando
melhor, como tem bom corao, manda-me pr em liberdade, por causa da
pequenita, porque se eu estivesse seis meses presa no a poderia sustentar. Apenas
me diz: No te metas noutra, desavergonhada! No tornar a suceder, senhor
Javert! Daqui em diante podem fazer de mim o que quiserem que no me
queixarei. Hoje, sim,  verdade que gritei, porque a neve me deu um grande
choque e me fazia mal; no esperava semelhante coisa e, como lhe disse j, estou
doente, tenho muita tosse, parece que sinto lume no estmago e o mdico disseme
que precisava de me tratar. Apalpe com a sua mo, no tenha medo,  aqui.
     Fantine j no chorava, a sua voz tornara-se acariciadora.
     - A pobre rapariga apoiava no seu branco e delicado pescoo, a mo grosseira
e rude de Javert, olhando ao mesmo tempo para ele e sorrindo.
     De repente, comps com vivacidade o desalinho do vesturio, fez cair as
dobras do vestido, que o esforo de andar de rojo lhe fizera erguer at ao joelho e
caminhou para a porta, dizendo a meia voz aos guardas e fazendo-lhes com a
cabea um sinal amigvel:
     - Vou-me embora, porque o senhor inspector mandou que me soltassem.
     E ps a mo no fecho da porta. Mais um passo e estaria na rua.
     At este momento, Javert conservara-se de p, imvel, com os olhos fitos no
cho, deslocado no meio desta cena, como uma esttua apeada que espera que a
coloquem em qualquer parte.
     Despertou-o, porm, o rudo que fez Fantine tocando no fecho. Ergueu ento
a cabea com expresso de suprema autoridade, expresso tanto mais
assustadora quanto mais baixo se acha colocado o poder, feroz no animal bravio,
atroz no homem insignificante.
      - Sargento! - gritou ele. - No v que essa mulher vai a sair? Quem lhe disse
que a soltasse?
      - Fui eu - respondeu Madelaine.
      Fantine, ouvindo a voz de Javert, estremecera e largara o fecho da porta,
como um ladro surpreendido larga o objecto que tentava roubar. A voz de
Madelaine voltou-se, e desde esse momento, sem pronunciar uma s palavra, sem
mesmo ousar dar livre sada  respirao, o seu olhar ia alternadamente de
Madelaine para Javert e de Javert para Madelaine, consoante falava um ou outro.
      Era evidente que, para Javert apostrofar o sargento, de modo como o fizera,
depois do maire ter dado ordem de pr Fantine em liberdade, era necessrio que
ele, como vulgarmente se diz, estivesse fora de si. Teria ele chegado a
esquecer-se da presena do maire? Teria concludo consigo prprio ser impossvel
que uma autoridade desse semelhante ordem, e que decerto o senhor maire
dissera, sem querer, uma coisa por outra? Ou seria ento porque, na presena das
coisas extraordinrias que havia duas horas presenciava, teria julgado ser
indispensvel recorrer s resolues extremas, ser preciso que o pequeno se fizesse
grande, que o espio se transformasse em magistrado, que o agente de polcia se
tornasse homem de justia e nessa prodigiosa extremidade, a ordem, a lei, a moral,
o governo, a sociedade inteira, se achavam personificadas nele, Javert?
      Fosse como fosse, quando o senhor Madelaine pronunciou aquele fui eu, o
inspector de polcia voltou-se para o maire, plido, frio, com os lbios azulados, o
olhar desesperado, todo o corpo agitado de um imperceptvel tremor, e, coisa
inaudita, disselhe, com os olhos no cho, mas com voz Fria:
      - Isso no pode ser, senhor maire.
      - Porqu? - retorquiu Madelaine.
      - Esta desgraada insultou um burgus.
      - Inspector Javert - tornou Madelaine com serenidade e acento conciliador -
escute-me. O senhor  homem de bem, portanto no tenho a mnima dificuldade
em lhe dar uma explicao. Eis a verdade. Quando prendeu esta mulher, ia eu a
passar plo local; informei-me do ocorrido em alguns grupos que se encontravam
ainda ali e soube como o caso realmente se passara. O culpado foi o burgus e era
ele, em boa justia, que deveria ter sido preso.
      Javert replicou:
      - Mas esta desgraada ainda h pouco insultou o senhor maire.
      - Isso  comigo - continuou Madelaine. - A injria que recebi s a mim diz
respeito. Posso, portanto, proceder como entender.
     - Peo perdo ao senhor maire, mas essa injria ofendeu tambm a justia.
     - Inspector Javert - retorquiu Madelaine - a primeira justia  a conscincia.
Ouvi o que esta mulher disse e sei muito bem o que fao.
     - E eu, senhor maire, no sei o que vejo!
     - Se assim , contente-se em obedecer.
     - Obedeo ao meu dever. O meu dever ordena-me que esta mulher cumpra
seis meses de priso.
     Madelaine respondeu com doura:
     - Oia bem o que lhe digo: no h-de cumprir nem um s dia.
     A estas palavras decisivas, Javert ousou fitar os olhos do maire, e disselhe,
porm em tom de voz ainda profundamente respeitoso:
     - Sinto-me desesperado por ter de resistir ao senhor maire,  a primeira vez
na minha vida que tal me sucede. Mas permita-me observar-lhe que me acho
dentro dos limites das minhas atribuies, e, visto que assim o determina, no
tomarei em considerao seno o facto do burgus. Eu estava presente e vi como a
coisas se assaram. Foi esta mulher quem se lanou sobre o senhor Barmatabois,
que  eleitor e dono do magnfico prdio de trs andares, todo de cantaria, que faz
esquina para a esplanada. Enfim, so coisas deste mundo! Fosse como fosse,
senhor maire, isto pertence  polcia das ruas, que  da minha alada, e por isso
conservarei a mulher presa.
     Madelaine olhou fixamente para Javert, em seguida, com uma inflexo de voz
severa que ningum ainda na cidade tinha ouvido, exclamou:
     - O facto a que o senhor se refere diz respeito  polcia municipal. Nos termos
dos artigos 9., 11., 15. e 17.do cdigo criminal, sou eu o juiz destas causas: por
conseguinte, ordeno que esta mulher seja posta em liberdade.
     Javert tentou um ltimo esforo:
     - Mas, senhor maire... - E ao senhor, recordo-lhe o artigo 81. da lei de 13 de
Dezembro de 1799, sobre a deteno arbitrria.
     - Senhor maire, permita-me... - Nem mais uma palavra.
     - Todavia... - Retire-se! - ordenou Madelaine.
     Javert recebeu o golpe de frente, firme e em cheio no peito, como um soldado
russo. Cumprimentou respeitosamente o maire e saiu.
     Fantine afastou-se da porta e, no auge do espanto, viu-o passar na sua frente.
     A infeliz sentia-se estranhamente abalada. Acabava de se ver de certo modo
disputada por duas potncias opostas; observara ali, na sua presena, a luta de dois
homens que ento dispunham da sua liberdade, da sua vida, da sua alma, da sua
filha; um arrastava-a para as trevas, outro para a luz. Nesta luta presenciada
atravs de um espanto progressivo, aqueles dois homens tinham-lhe parecido dois
gigantes; um falava como o seu demnio perseguidor, o outro como o seu anjo da
guarda. O anjo vencera o demnio, mas, o que fazia estremecer dos ps  cabea,
era esse libertador ser precisamente o homem que ela aborrecia, esse maire que
por tanto tempo considerara como autor de todas as suas desgraas; era
Madelaine quem a salvava no mesmo momento em que ela o insultara de um
modo to repugnante! Ter-se-ia ela enganado? Deveria, pois, modificar,
transformar inteiramente a sua alma?... Tremia, no sabia o que pensar. Ouvia,
espantada, o que eles diziam e olhava-os desorientada, sentindo a cada palavra que
Madelaine proferia, fundir-se-lhe e desmoronar-se-lhe as medonhas trevas do
dio que lhe ensombravam a alma, sendo substitudas pelo que quer que era de
agasalhador e inefvel, que tinha em si a alegria, a confiana e o amor.
     Depois de Javert sair, Madelaine voltou-se para ela e disselhe com voz
pausada, custando-lhe a falar, como um homem sisudo quando quer evitar as
lgrimas.
     - Ouvi tudo o que disse, mas no tive conhecimento de coisa alguma. Creio,
porm, e sinto que  verdade Ignorava at que tivesse deixado de trabalhar na
minha fbrica. Mas porque no se dirigiu a mim? Aqui estou, porm: ficaro a
meu cargo as suas dvidas e mandarei buscar a sua filha, ou, se o desejar, ir ter
com ela e viver aqui, em Paris, ou onde quiser. Tom-las-ei ambas  minha
conta, dar-lhe-ei todo o dinheiro que necessitar. Sentindo-se feliz tornar-se-
honesta. E repare no que desde j lhe afirmo: se  verdade tudo quanto disse, o
que no duvido, nunca deixou de ser virtuosa aos olhos de Deus. Pobre mulher!
     Isto era mais do que a infeliz Fantine podia suportar. Ter Cosette na sua
companhia, libertar-se daquela vida infame, viver livre, rica, feliz e honesta com
sua filha! Ver surgir de repente do meio da extrema misria todas as realidades do
paraso!
     Olhou com expresso incrdula para o homem que lhe falava, e s pde
aliviar o peito do peso de tamanhas venturas no arquejar de dois ou trs soluos.
Os joelhos vergaram-se-lhe e, antes de Madelaine ter tempo de impedi-la, sentiu-a
agarrar-lhe as mos e depor nelas os lbios ardentes.
     Em seguida caiu desmaiada.


L06:
    LIVRO SEXTO
    Javert



    I
    Princpio de repouso



     Madelaine mandou transportar Fantine para a enfermaria que estabelecera na
sua prpria casa e confiou-a aos cuidados das duas irms de caridade, que
trataram imediatamente de a deitar. Sobreviera-lhe uma febre ardente, de modo
que passou parte da noite a delirar e a falar em voz alta. Por fim, adormeceu.
     Quando no dia seguinte, por volta do meio-dia acordou, ouviu o sussurro de
uma respirao muito prximo do leito, desviou o cortinado e deu com os olhos
em Madelaine, de p e olhando para o que quer que fosse que lhe ficava em frente
Naquele olhar lia-se a piedade, a aflio e a splica; Fantine seguiu lhe a direco e
viu que se dirigia para um crucifixo pregado na parede.
     Madelaine estava transfigurado aos olhos de Fantine. Afigurava-se-lhe v-lo
rodeado de luz e absorvido numa orao. Contemplou-o durante muito tempo
sem o interromper, at que por fim disselhe timidamente:
     - Que est a a fazer?
     Havia uma hora que Madelaine li estava, esperando que Fantine acordasse.
     Pegou-lhe na mo, tomou-lhe o pulso e respondeu:
     - Como est?
     - Muito bem, dormi bastante e creio que estou melhor. Isto no h-de ser
nada.
     Madelaine continuou, respondendo  pergunta que ela primeiro lhe fizera,
como se ainda a ouvisse:
     - Eu orava ao mrtir que est no cu.
     E acrescentou no seu pensamento: Pela mrtir que est na terra.
     Madelaine, que levara a noite e a manh a colher informaes, j sabia tudo,
conhecia a histria de Fantine nos seus mais pungentes pormenores. Continuou,
pois:
     - Pobre me, o que tem sofrido! Mas no se lastime agora, porque tem o dote
dos escolhidos da mo de Deus.  assim que os homens fazem anjos. Mas no 
por culpa deles; no sabem consegui-lo de outro modo. Esse inferno de que saiu 
a primeira forma do cu. Era indispensvel comear assim.
     E suspirou profundamente. Fantine, porm, sorria-lhe, com esse sorriso
sublime a que faltavam dois dentes.
     Naquela mesma noite, Javert escreveu uma carta que foi pessoalmente
entregar na administrao do correio de Montreuil-sur-mer no dia seguinte pela
manh. Era para Paris e ia dirigida ao senhor Chafoouillet, secretrio do senhor
prefeito da polcia.
     Como o caso passado na repartio de polcia se havia divulgado, tanto os
empregados do correio, como outras pessoas que viram a carta antes de seguir o
seu destino e reconheceram a letra de Javert, julgaram que era a sua demisso o
que ele enviava.
     Madelaine apressou-se a escrever aos Thenardier, aos quais Fantine devia
cento e vinte francos e a quem ele remeteu trezentos, dizendo-lhes que se
pagassem daquela quantia e trouxessem logo a criana a Montreuil-sur-mer, onde
sua me doente a reclamava.
     Os Thenardier ficaram deslumbrados.
     - Com a fortuna! exclamou o estalajadeiro, dirigindo-se  mulher. No
devemos entregar a pequena, parece-me que vai ser uma mina. Eu j sei o que isto
: foi algum papalvo que se agradou da me.
     A sua resposta foi uma conta de quinhentos e tantos francos. Nesta conta
figuravam, deitando a mais de trezentos francos, duas verbas incontestveis: uma
de um mdico e outra de um boticrio, os quais tinham sido, respectivamente,
assistente e fornecedor dos remdios em duas longas doenas de Azelma e
Eponine. Cosette nunca estivera doente. Bastava portanto uma substituio de
nomes para o negcio ser perfeito.
     Thenardier escreveu no fim da carta: Recebi por conta trezentos francos.
     Madelaine enviou imediatamente mais trezentos francos, recomendando que
no se demorassem em mandar Cosette.
     - Pois sim! Agora  que no a devemos largar!
     Entretanto, Fantine no melhorava e continuava a permanecer na enfermaria.
     As irms de caridade s com repugnncia  que a princpio aceitaram e
trataram daquela mulher perdida. Quem tem visto os baixos-relevos de Reims,
lembra-se da intumescncia do lbio inferior das virgens castas olhando para as
mulheres impdicas. Este antigo desprezo das vestais pelas mulheres da Vida fcil
 um dos mais profundos instintos da dignidade feminina; sentiram-no as irms,
com o acrscimo de intensidade que lhes d a religio. Fantine desarmou-as,
porm, em poucos dias, com as suas palavras cheias de doura e humildade e com
aquele enternecimento a que se no pode vedar o corao em presena de uma
mulher que  me. Um dia, as irms ouviram-na dizer, no meio do delrio da
febre:
     - Tenho sido uma pecadora, mas se chegar a ter comigo a minha filha, 
porque Deus me perdoou. Enquanto estive na m vida, no quis Cosette na minha
companhia, porque no poderia suportar o espanto triste dos seus belos olhos.
Contudo, foi por ela que eu me fiz m, e  talvez por isso que Deus me perdoou.
Sentirei a bno do Senhor quando ela aqui estiver. Vendo a sua inocncia,
sentir-me-ei melhor. Ela no sabe nada.  um anjo, minhas irms. Naquela idade,
ainda se conservam as asas.
     Madelaine ia v-la duas vezes por dia, e ela perguntava-lhe sempre:
     - Quando verei a minha Cosette?
     - Talvez amanh - respondia-lhe ele. - Deve chegar de um momento para o
outro.
     E o rosto plido da me resplandecia.
     - Que felicidade eu vou ter! - dizia ela.
     Fantine no se restabelecia, pelo contrrio, o seu estado agravava-se de
semana para semana. Aquele punhado de neve aplicado sobre a pele nua, entre as
duas omoplatas, determinara uma sbita supresso de transpirao, em virtude da
qual veio a declarar-se-lhe com a maior violncia a doena que ela havia muitos
anos como que chocava dentro de si. Comeavam ento a seguir-se as belas
indicaes de Laeinnec no estudo e tratamento das doenas de peito. O mdico
observou Fantine e abanara a cabea.
     Madelaine perguntou ao clnico:
     - Ento?
     - Ela no tem uma filha a quem deseja ver?  inquiriu o mdico.
     - Tem.
     - Nesse caso apresse-se em a mandar buscar.
     Madelaine sentiu um estremecimento.
     - O que disse o mdico? - perguntou-lhe Fantine.
     Madelaine respondeu, esforando-se por sorrir:
     . Disse que lhe mandasse buscar a sua filha, porque bastaria isso para lhe dar
sade.
     - E tem razo! - replicou ela. - Mas que interesse tm os Thenardier para se
demorarem tanto em ma trazer? No pode tardar. Vejo finalmente a felicidade
perto de mim.
     Entretanto, os Thenardier: no largavam a pequena, dando para isso uma
srie de pssimas razes. Cosette andava um pouco adoentada, para se expor ao
risco de fazer a jornada no Inverno. E, alm disso, havia ainda umas dividazitas
importunas na terra, cujas contas andava a ajuntar, etc., etc.
     - Mandarei algum buscar Cosette - disse Madelaine - e se for preciso, irei eu
mesmo.
     Sob a indicao de Fantine, escreveu a seguinte carta, fazendo-a depois
assinar: Senhor Thenardier:
     Queira ter a bondade de entregar Cosette ao portador desta carta. As pequenas
dvidas de que fala ser-lhe-o todas pagas. Sou com a maior considerao Fantine.
     Entretanto, sobreveio um grave incidente. Por mais que lidemos para
modelar com a perfeio que nos  possvel essa misteriosa massa de granito de
que a nossa vida  feita, jamais chegamos a fazer-lhe desaparecer o vu negro, nela
impresso pela mo do destino.



    II
    Como Jean se pode tornar Champ



     Uma manh, estando Madelaine no seu gabinete ocupado a pr em ordem
alguns negcios urgentes, relativos ao seu cargo, para os deixar prontos caso se
tornasse necessria a sua ida a Montfermeil, vieram dizer-lhe que o inspector
Javert pretendia falar-lhe. Madelaine, ouvindo este nome, no pde furtar-se a
uma impresso desagradvel. Javert, desde a ocorrncia da repartio de polcia,
evitava-o mais do que nunca, de modo que Madelaine no o tornara a ver.
     - Mandem-no entrar - disse ele.
     Javert entrou.
     Madelaine ficara sentado ao p do fogo, com uma pena na mo e os olhos
postos num mao de papis, que folheava e anotava e que continha autos de
contravenes de posturas. No se mexeu, pois, de onde estava, em respeito de
Javert.
     No podia deixar de lembrar-se da pobre Fantine e convinha-lhe mostrar-se
glacial.
     Javert cumprimentou respeitosamente o maire, que estava de costas para ele,
continuando a fazer as suas anotaes, sem sequer o encarar.
     O inspector de polcia deu dois ou trs passos no gabinete e parou, sem
quebrar o silncio.
     Um fisionomista que fosse familiar com a natureza de Javert, que tivesse
estudado aturadamente aquele selvagem servidor da civilizao, aquele
extravagante composto do romano, do espartano, do frade e do caporal, aquele
espio incapaz de uma mentira, aquele esbirro virgem, um fisionomista que
tivesse conhecimento da secreta e antiga averso que ele professava a Madelaine, o
seu conflito com o maire, e que naquele momento o observasse, teria dito consigo:
O que ter acontecido? Era evidente, para quem conhecesse aquela conscincia
recta, clara, sincera, proba, austera e feroz, que Javert conseguira resolver algum
problema ntimo. Javert no sentia nada na alma, que o no deixasse transluzir no
rosto. Era, como as pessoas de gnio violento, sujeito a mudanas repentinas.
Nunca a sua fisionomia denotara mais estranha e inesperada expresso. Ao entrar,
inclinou-se ante Madelaine, com um olhar em que no havia nem rancor, nem
clera, nem desconfiana; parara a alguns passos de distncia por trs da cadeira
de braos em que o maire se achava sentado e ali se conservava ainda, de p, numa
atitude quase disciplinar, com a rudeza ingnua e fria de um homem que nunca
soube o que era a afabilidade e foi sempre paciente; esperava sem proferir uma
palavra, sem fazer um movimento, numa humildade verdadeira e numa
resignao tranquila, que aprouvesse ao maire voltar-se; sereno, srio, de chapu
na mo e olhos baixos, com uma expresso que marcava o meio termo entre o
soldado diante do superior e o ru na presena do juiz Todos os sentimentos,
assim como todas as recordaes que se lhe poderiam ter suposto, haviam
desaparecido. Naquele rosto, simples e impenetrvel como o granito, havia apenas
a expresso de uma tristeza profunda. Todo o seu aspecto respirava submisso,
firmeza e uma espcie de corajoso esmorecimento.
     Finalmente, o maire pousou a pena e voltou-se um pouco:
     - Ento que ? O que h de novo, Javert?
     Javert conservou-se por um instante silencioso, como se estivesse a reunir as
ideias, dizendo depois com uma espcie de solenidade triste, que no exclua
contudo a simplicidade:
     - O que h, senhor maire,  que foi cometido um acto criminoso.
     - Que acto?
     - Um agente inferior da autoridade faltou ao respeito a um magistrado do
modo mais grave. Venho, pois, como  meu dever, dar-lhe notcia do facto.
     - Quem  esse agente? perguntou Madelaine.
     - Eu disse Javert - O senhor?
     - Eu mesmo.
     - E quem  o magistrado que tem motivo para se queixar do agente?
     -  o senhor maire.
     Madelaine endireitou-se na cadeira e Javert prosseguiu com ar sereno e de
olhos baixos como at ali.
     - Senhor maire, venho pedir-lhe que solicite a minha exonerao da
autoridade competente.
     Madelaine, estupefacto, ia para responder, mas Javert interrompeu-o:
     - O senhor dir talvez que posso pedir a minha demisso, mas isso no 
suficiente. Dar a demisso no comporta descrdito. Eu, porm, delinqui, devo ser
unido.  necessrio que seja expulso.
     Aps breve pausa, acrescentou:
     - Senhor maire, outro dia foi injustamente severo para comigo; seja-o hoje
justamente.
     - Mas porqu? - exclamou Madelaine. - Que quer dizer esse arranzel? Qual  a
aco culpvel que o senhor cometeu contra mim? O que foi que fez? Em que me
ofendeu? Acusa-se, quer ser demitido... - Expulso - disse Javert.
     - Ou expulso, como quiser; afiano-lhe que no o percebo.
     - Vai j perceber, senhor maire.
     Javert soltou um profundo suspiro e continuou, sempre frio e tristemente:
     - Senhor maire, faz agora seis semanas, ficando furioso depois do que sucedeu
por causa daquela rapariga, que o denunciei.
     - Denunciou-me!?
     -  prefeitura da polcia de Paris.
     Madelaine, que no costumava rir-se muito mais do que Javert, desta vez
ps-se a rir.
     - Por ter invadido as atribuies da polcia, sendo maire?
     - No, senhor, denunciei-o como antigo forado das gals.
     O maire tornou-se lvido.
     Javert, que no tinha erguido os olhos, continuou:
     - Assim o julgava. H muito que eu andava com isto na ideia, Uma grande
semelhana, as indagaes a que o senhor mandou proceder em Faverolles, a sua
grande fora, o que aconteceu com o velho Fauchelevent, a sua percia em atirar, o
modo como arrasta um pouco uma das pernas, em suma, que sei eu? Tolices! Mas,
enfim, tudo isto fizera com que eu o tomasse por um tal Joo Valjean.
      - Um tal?... Como foi que lhe chamou?
      - Joo Valjean.  um forado que eu conheci h vinte anos, quando era
guarda-ajudante da chusma de Toulon. Esse tal Joo Valjean, segundo consta,
depois que saiu das gals, roubou um bispo, depois cometeu outro roubo  mo
armada numa estrada, do qual foi vtima um rapazinho saboiano. Havia oito anos
que se escondera, escapando, sem se saber como, a todas as diligncias
empregadas para se dar com ele.
      A mim afigurou-se-me... Enfim, fiz o que disse. A clera decidiu-me a
denunci-lo  prefeitura de Paris.
      Madelaine, que tornara a pegar no mao de processos havia alguns instantes,
retorquiu em tom de indiferena:
      - E que lhe responderam?
      - Que eu tinha endoidecido.
      - E ento?
      - Tinham toda a razo para o supor.
      - Ainda bem que o reconhece!
      - No podia deixar de ser, pois o verdadeiro Joo Valjean foi encontrado.
      A folha de papel que Madelaine segurava escapou-se-lhe da mo e ele,
levantando a cabea, olhou fixamente para Javert, exclamando com inexprimvel
acento:
      - Ah!
      Javert prosseguiu:
      - Aqui est o que sucedeu. Parece que havia para os lados de
Ailly-le-Haut-Clacher um pobre homem, chamado Champmathieu, que vivia em
extrema misria. A gente dessa classe ningum sabe de que ela vive. Ultimamente,
neste Outono, Champmathieu foi preso por um roubo de umas mas, feito a um
tal... pouco importa o nome! Houve roubo, escalamento e ramos de rvores
quebrados. O caso  que prenderam Champmathieu, que ainda tinha na mo um
ramo da fruteira, e ferram-me com o maroto na cadeia. At aqui a coisa pouco
passa de um processo correccional.
      Mas o que  a Providncia! Como o crcere estava em mau estado, o senhor
juiz julgou acertado mandar transferir Champmathieu para Arras, onde  a priso
distrital. Ora, encontra-se ali um antigo forado, chamado Brevet, que est preso
no sei porqu, e a quem, por ter bom comportamento, fizeram porteiro. Ainda
bem, senhor maire, o Champmathieu no tinha posto o p dentro da priso,
Brevet exclamou: Ol! Eu conheo este homem! Tambm  c da malta! Olhe c
para mim, voc  o Joo Valjean! Champmathieu, mostrando-se muito
admirado, exclamou tambm: Joo Valjean! Quem  Joo Valjean?. No te
faas pacvio, tornou Brevet, tu s o Joo Valjean, estiveste nas gals de Toulon,
h uns vinte anos; estivemos l ambos.
     Champmathieu negou. Depois disto, o senhor maire bem compreende,
aprofundou-se o assunto, e eis o que veio a saber-se. H coisa de trinta anos, era
este tal Champmathieu podador de rvores em diferentes terras, mas
principalmente em Faverolles, onde se lhe perdeu o rasto. Passado muito tempo
tornou a ser visto em Auvergne, depois em Paris, onde ele diz ter sido carpinteiro
de carros e ter estado com uma rapariga lavadeira, mas isso parece no estar bem
provado. Ora, o que era Joo Valjean antes de ter ido para as gals pelo crime de
roubo qualificado? Podador.
     Aonde? Em Faverolles. Ainda outra prova: o nome de baptismo desse tal
Valjean era Joo e o apelido da me, Mathieu. No h nada mais natural do que
julgar-se que ao sair da priso tivesse adoptado o nome de sua me, para se
esquivar a indagaes, e passasse a chamar-se Joo Mathieu. Depois foi para
Auvergne, de Jean a pronncia da terra faz chan, e comeam a trat-lo por
Champmathieu. O homem no se importou com esta mudana, e ei-lo
transformado em Champmathieu. O senhor maire tem seguido o meu raciocnio,
no  verdade? Bem. Fizeram-se indagaes em Tiverolles. A famlia de Joo
Valjean tinha desaparecido, sem que ningum desse notcias dela.
     Como o senhor maire bem sabe, nesta classe h frequentes vezes destes
desaparecimentos completos de famlias. Procura por aqui, procura por ali, mas
nada.
     A gente desta qualidade quando no  lama,  (poeira. E depois, como o
princpio desta histria data de h trinta anos, j no h ningum em Faverolles
que se lembre de Joo Valjean. Indaga-se em Toulon. Alm de Brevet, h apenas
mais dois forados que conheceram Joo Valjean. So os condenados a priso
perptua, Cochepaille e Chenildieu. Mandaram-nos buscar para os confrontar
com o suposto Champmathieu.
     Para eles, como para Brevet,  Joo Valjean. A mesma idade, cinquenta e
quatro anos, a mesma estatura, o mesmo modo de andar, o mesmo homem,
enfim, era ele. Foi nesta ocasio que eu mandei a minha denncia  prefeitura de
Paris. Responderam-me que tinha perdido o juzo e que Joo Valjean estava em
Arras em poder da justia. Avalia decerto a admirao que isto me causou,
quando julgava ter aqui o prprio Joo Valjean! Escrevi logo ao senhor juiz, que
me mandou ir a Arras, fazendo conduzir Champmathieu  minha presena.
    - E ento? - interrompeu Madelaine.
    Javert respondeu com o seu ar incorruptvel e triste:
    - Senhor maire, a verdade  a verdade. Fiquei contristado, mas ele  Joo
Valjean.
    Reconheci-o tambm.
    Madelaine disse em voz muito baixa:
    - Est bem certo de no se ter enganado?
    Javert riu com esse riso doloroso em que se expande s vezes uma profunda
Convico e respondeu:
    - Mais do que certo.
    Em seguida, conservou-se um instante pensativo, pegando maquinalmente
em pitadas de areia do areeiro que estava sobre a mesa e acrescentou:
    - E agora que eu vi o verdadeiro Joo Valjean, no posso at entender como
cheguei a julgar outra coisa. Peo-lhe, portanto, que me perdoe, senhor maire.
    Ao dirigir estas palavras suplicantes e graves quele que seis semanas antes o
havia humilhado no departamento de polcia, dizendo-lhe:
    Saia daqui!, Javert, o homem altivo, apresentava, sem que o suspeitasse, o
aspecto da mais simples dignidade.
    Madelaine respondeu  sua splica com esta repentina pergunta:
    - E o que disse esse homem?
    - Ah, senhor maire, o caso  pssimo! Se  Joo Valjean, h reincidncia.
Escalar um muro, partir os ramos de uma rvore, furtar uma pouca de fruta, para
uma criana  uma diabrura; para um homem  um delito; mas para um forado 
um crime. Ora, no facto de que se trata houve escalamento e roubo. J no
pertence portanto  polcia correccional, pertence ao tribunal do jri, no so
alguns dias de cadeia, so as gals por toda a vida. E depois, h ainda a histria do
rapaz saboiano, que estou certo no deixar de ser apresentada. com os diabos!
Qualquer outro que no fosse Joo Valjean tinha com que se entreter. Mas Joo
Valjean  um grande manhoso. At nisso o reconheci. Se fosse outro, sentir-se-ia
quente com o caso; inquietar-se-ia, daria por paus e por pedras - a caldeira canta
sempre ao p do lume e no quereria ser Joo Valjean.
    Ele, pelo contrrio, finge no perceber o que lhe dizem: Sou Champmathieu,
ningum me tira disto!. Mostra-se muito admirado e finge-se estpido, porque
lhe parece melhor assim. O maroto  esperto, mas no lhe serve de nada a
esperteza, porque h todas as provas. Sendo, como , reconhecido por quatro
pessoas,  por fora condenado. Vai ser conduzido perante o jri de Arras, para
onde estou citado como testemunha.
     Madelaine aproximara-se novamente da mesa, lanando mo do mao de
papis e continuando a folhe-lo tranquilamente, lendo e escrevendo como que
deveras ocupado com o que estava fazendo. De repente, voltou-se para Javert e
disselhe:
     - Est bem, Javert. Afinal de contas, interessam-me muito pouco todos esses
pormenores. Estamos a perder tempo quando h tanto que fazer. V
imediatamente a casa daquela pobre mulher chamada Buseaupied, que vende
hortalia  esquina da rua de Saint-Saulve, e diga-lhe que apresente a sua queixa
Contra o carroceiro Pedro Chesnelong. Este homem  um bruto que ia
esmagando a pobre mulher e seu filho, por isso deve ser punido Em seguida v a
casa do senhor Charcellay, na rua Montre-de-Chamipigny, que se queixou de que
uma goteira da casa vizinha lhe deita a gua da chuva para a sua, deteriorando-lhe
os alicerces. Verifique depois se so exactas as contravenes das posturas, que me
participaram, na rua Guibourg, em casa da viva Doris, e na rua do
Garraud-Blanc, em casa da senhora Rene l Boss, lavrando o competente auto
no caso de o serem. Mas parece-me que isto  trabalho demais. No tem de se
ausentar? No me disse que ia a Arras, daqui a oito ou dez dias, por causa do tal
julgamento?
     - Antes disso, senhor maire.
     - Ento quando?
     - Parece-me ter dito ao senhor maire que o julgamento tinha lugar amanh e
que por isso partia esta noite na diligncia.
     Madelaine fez um movimento imperceptvel e tornou:
     - E quanto tempo durar o julgamento?
     - Um dia, quando muito. A sentena ser proferida o mais tardar amanh 
noite.
     Mas eu no esperarei pela sentena, que  infalvel; assim que acabar o meu
depoimento, voltarei imediatamente.
     - Est bem! - disse Madelaine.
     E despediu Javert com um gesto. Este, porm, no se moveu.
     - Perdo, senhor maire - disse ele.
     - Quer mais alguma coisa? - perguntou Madelaine.
     - Senhor maire, restame recordar-lhe... - O qu?
      - Que devo ser demitido.
      Madelaine levantou-se.
      - Javert, o senhor  um homem honrado, por isso merece a minha estima.
      Exagera a falta que cometeu, e demais,  uma ofensa que s a mim diz
respeito. O senhor  digno de subir e no de descer. Espero que continue no
exerccio das suas funes.
      Javert fitou Madelaine com o seu olhar cndido, no fundo do qual parecia
ver-se-lhe a conscincia pouco esclarecida, mas rgida e casta, e retorquiu com voz
tranquila:
      - No lhe posso conceder isso, senhor maire.
      - Repito-lhe que  uma coisa que s a mim diz respeito - replicou Madelaine.
      Porm, Javert, sem se afastar do seu pensamento, continuou:
      - Quanto a exagerar o que fiz, no  tanto assim. Eis aqui o meu raciocnio.
      Suspeitei do senhor injustamente.
      - Isto no valia nada. Temos o direito de suspeitar, conquanto seja abuso
suspeitar dos que nos so superiores.
      - Mas  que eu denunciei-o como forado, sem provas, num acesso de clera,
e com o fim de me vingar, ao senhor, um homem respeitvel, um maire, um
magistrado!
      Isto  grave quanto pode ser. Eu, agente da autoridade, ofendi a autoridade na
pessoa do senhor maire! Se algum dos meus subordinados tivesse feito o que eu
fiz, declar-lo-ia indigno do servio e t-lo-ia expulso. Mais uma palavra, senhor
maire. Tenho sido frequentes vezes, durante a minha vida, severo para com os
outros; era justo que assim fizesse. Agora, se no fosse severo para comigo, tudo
que tenho feito de justo, tornar-se-ia injusto. Acaso devo eu poupar-me mais do
que poupei aos outros? No, decerto. Se s servisse para castigar os outros e no a
mim, seria um miservel e teriam razo os que me chamam velhaco e mau!
Senhor maire, no desejo que me trate com bondade; a sua bondade azedou-me o
sangue manifestando-se para com os outros, portanto no a quero para mim.
Bondade m chamo eu  que consiste em dar razo  mulher pblica contra o
burgus, ao agente de polcia contra o maire, ao que est num lugar inferior
contra o que ocupa uma posio superior. com essa bondade desorganiza-se a
sociedade. Meu Deus, ser bom  fcil, o que custa  ser justo! Esteja certo, senhor
maire, que se o senhor fosse o que eu julguei que era, no me acharia, com certeza,
bondoso! Senhor maire, eu devo tratar-me, consoante trataria qualquer outro.
Quando reprimia os malfeitores, quando procedia contra os tratantes, dizia
muitas vezes a mim mesmo: Se tu algum dia tropeas, se chegas a cair em alguma
falta, fica descansado que no me escapas!. Ora eu tropecei, ca numa falta, tanto
pior!
     Devo ser demitido, expulso, humilhado  apenas o que deve ser Tenho bons
braos, pouco se me d ir pegar numa enxada. Senhor maire, o bem do servio
exige um exemplo. Peo, pois, a demisso do inspector Javert.
     Tudo isto fora pronunciado em tom humilde, mas altivo, desesperado e
convicto, que dava no sei que estranha grandeza quele homem, por quem as leis
da honra eram to desusadamente interpretadas.
     - Pois veremos - disse Madelaine, - estendendo-lhe a mo.
     Javert recuou e disse com ar feroz:
     - Desculpe-me, senhor maire, mas isto no deve ser. Um maire no aperta a
mo a um beleguim.
     E acrescentou por entre dentes:
     - Sim, beleguim; desde o momento que servi mal a polcia, no sou mais do
que um beleguim!
     Depois fez uma profunda cortesia e dirigiu-se para a porta. Antes de sair,
porm, voltou-se e disse:
     - Senhor maire, continuarei no servio at ser substitudo.
     E saiu. Madelaine ficou pensativo, escutando o eco daqueles passos firmes e
seguros que se afastavam pelo corredor.


L07:
    Livro Stimo
    O Processo de Champmathieu



    I
    A Irm Simplcia



     Em Montreuil-sur-mer no foram conhecidos todos os incidentes que vo
ler-se, porm, o pouco que transpirou deixou tal recordao nesta cidade, que
seria grave lacuna neste livro, deixarmos de dar deles circunstanciada notcia.
     Nestes pormenores encontrar o leitor duas ou trs circunstncias
inverosmeis, que conservamos em respeito  verdade.
     Na tarde que se seguiu  visita de Javert, Madelaine foi visitar Fantine. Como
de costume, porm, antes de ir ter com ela mandou chamar a irm Simplcia.
     As duas religiosas, que faziam o servio da enfermaria, lazaristas como todas
as irms de Caridade, chamavam-se irm Perptua e irm Simplcia. A irm
Perptua era o tipo de qualquer campnia que se encontra, grosseiramente irm
de caridade, que entrara para o servio de Deus como uma criada para qualquer
casa. Era religiosa como teria sido cozinheira, tipo que no  raro As ordens
monsticas aceitam de braos abertos esta pesada e grosseira loia alde,
facilmente modelada em capuchinho ou ursulina, e de ordinrio tais rusticidades
so utilizadas para as tarefas menos suaves da devoo. No tem nada de estranho
a transio de um vaqueiro para um carmelita; um transforma-se no outro sem
grande trabalho; o fundo comum da ignorncia da aldeia e do claustro  uma
preparao completa e que coloca rapidamente o campons no mesmo nvel do
frade. Dando-se mais alguma roda ao gabo tem-se logo a roupeta.
     A irm Perptua era uma robusta religiosa, natural de Marines, nas
imediaes de Pontoise, falando  moda da sua terra, salmodiando, resmungando,
adoando a tisana segundo a beatice ou hipocrisia do enfermo, tratando com
rudeza os doentes, com modo enfadado os moribundos, atirando-lhes quase com
Deus ao rosto, apedrejando a agonia com oraes em clera, ousada, honesta e
rubicunda. A irm Simplcia era branca, de uma brancura de cera. Ao lado da
irm Perptua, era um crio ao p duma vela de sebo. S. Vicente de Paulo fixou
divinamente a figura da irm de caridade nestas admirveis palavras, em que
mistura tanta liberdade com tamanha servido: As irms de caridade tero por
mosteiro a casa dos doentes, por cela um quarto de aluguer, por capela a igreja da
parquia, por claustro as ruas da cidade ou as salas dos hospitais, por clausura a
obedincia, o temor de Deus por grade, a modstia por vu. Via-se realizado este
ideal na irm Simplcia. Ningum lhe poderia assinalar a idade; nunca fora jovem
e parecia nunca ter de vir a ser velha. Era uma pessoa no ousamos dizer uma
mulher doce, austera, de boa companhia, fria, e que nunca dissera uma mentira.
Era to bondosa que parecia frgil; todavia, era mais slida do que o granito,
tocando nos desgraados com dedos puros, finos e encantadores. Havia, para
assim dizer, silncio no seu falar, falando somente o necessrio, e possuindo um
som de voz que teria simultaneamente edificado um confessionrio e encantado
um salo.
     Ataviava-se esta delicadeza com o vestido de burel, achando neste contacto
uma contnua lembrana do cu e de Deus. Insistimos num pormenor: no ter
nunca mentido, no haver nunca dito, sob qualquer pretexto de interesse, mesmo
indiferentemente, uma coisa que no fosse verdade, a santa verdade, era a feio
caracterstica da irm Simplcia, a base da sua virtude. A sua veracidade
imperturbvel tornara-a quase clebre na congregao. O abade Sicard, numa
carta ao surdo-mudo Massieu, fala da irm Simplcia. Por mais puros e sinceros
que sejamos, andamos todos, apesar da nossa candura, mais ou menos eivados de
pequenas e inocentes mentiras. Ela no Existe acaso pequena mentira, ou mentira
inocente? Mentir  maldade absoluta. No  possvel mentir pouco ou muito,
quem mente, mente. A mentira  a prpria face do demnio; Satans, alm deste
nome, chama-se tambm mentira. Era assim que ela pensava, e as suas aces
harmonizavam-se com o seu modo de pensar. Da resultava aquela brancura de
que falmos, brancura que se lhe irradiava nos lbios e nos olhos. Era branco o seu
sorriso, branco o seu olhar. No havia uma teia de aranha, um gro de poeira, no
espelhado daquela conscincia.
     Entrando na obedincia de S. Vicente de Paulo, adoptara o nome de
Simplcia, por escolha especial. Simplcia da Siclia, como se sabe, foi a santa que
preferiu deixar que lhe arrancassem os dois peitos, a responder que nascera em
Segesto, tendo nascido em Siracusa, mentira que a salvaria. A uma tal alma era a
padroeira que convinha.
     Quando a irm Simplcia entrou para a Ordem, tinha dois defeitos de que a
pouco e pouco se foi corrigindo; gostava de gulodices e de receber cartas. Depois,
porm, no lia seno num livro de oraes, de caracteres grandes e em latim. Ela
no entendia o latim, mas compreendia o livro.
     A piedosa religiosa afeioara-se a Fantine, por sentir nela talvez virtude
latente, e consagrara-se quase exclusivamente a trat-la.
     Madelaine chamou de parte a irm Simplcia e recomendou-lhe Fantine, com
um tom de voz singular, de que mais tarde ela se recordou.
     Depois que deixou a irm, aproximou-se de Fantine, a qual esperava todos os
dias a apario de Madelaine, como se espera um raio de calor e de alegria. Dizia
ela s irms: Eu no vivo seno quando vejo o senhor maire.
     Nesse dia estava ela com um grande acesso de febre.
     Apenas viu Madelaine, perguntou-lhe:
     - E Cosette?
     Ele respondeu-lhe, sorrindo:
     - No tarda.
     Madelaine conversou com Fantine como de costume.
     Somente, em vez de meia hora, demorou-se uma, com grande contentamento
da infeliz. Fez mil recomendaes a todos para que nada faltasse  enferma. Houve
um momento em que a fisionomia se lhe tornou demasiadamente sombria, o que
foi notado pelas pessoas presentes.
     Mas isso ficou explicado, quando se soube que o mdico lhe dissera ao
ouvido:
     Tem piorado muito Voltou depois para a administrao, e um funcionrio
viu-o examinar com toda a ateno um mapa das estradas de Frana, que se
achava suspenso na parede do seu gabinete e tomar depois alguns apontamentos a
lpis num bocado de papel.



    II
    Perspiccia de mestre Scaufflaire



    Em seguida, Madelaine saiu da administrao e dirigiu-se ao extremo da
cidade, a casa de um flamengo chamado Scaufflaire, nome que depois de
afrancesado ficou sendo Scaufflaire, que alugava cavalos e carruagens.
    O caminho mais curto para ir a casa deste Scaufflaire, era tomar por uma rua
pouco frequentada, onde ficava o presbitrio da freguesia em que Madelaine
habitava, e cujo abade, segundo se dizia, era um homem digno, (respeitvel e de
bom conselho.
     No momento em que Madelaine chegou em frente do (presbitrio, ia a passar
na rua uma nica pessoa, a qual reparou no seguinte: O maire, depois de ter
passado para l da residncia paroquial, parou, esteve imvel durante algum
tempo, voltou depois para trs e caminhou de novo at ao presbitrio; em seguida,
levando a mo  argola de ferro que havia na porta, levantou-a, suspendendo logo
o movimento, permaneceu por um instante pensativo e, passados alguns
segundos, em vez de deixar cair de repente a argola, p-la brandamente em
descanso e continuou o seu caminho, com uma certa pressa que antes no parecia
levar.
     Madelaine encontrou em casa mestre Scaufflaire, ocupado em consertar uns
arreios.
     - Mestre Scaufflaire - perguntou ele - tem algum cavalo que seja bom?
     - Senhor maire - disse o flamengo - todos os meus cavalos so bons. O que
entende o senhor por um bom cavalo?
     - Entendo que  um bom cavalo o que pode andar vinte lguas num dia.
     - Diabo! Vinte lguas!
     - Sim.
     - Atrelado a um cabriolet?
     - Sim.
     - E quanto tempo descansar ele depois?
     - Em caso de necessidade, deve poder continuar no outro dia.
     - Para fazer outra vez a mesma caminhada?
     - Sim - Diabo! Diabo! E so vinte lguas?
     Madelaine tirou do bolso o papel em que tomara os apontamentos e
mostrou-os ao flamengo. Eram os nmeros 5, 6, 8 1/2.
     - Bem v - disse ele. - Soma dezanove e meia, que  o mesmo que dizer vinte
lguas.
     - Senhor maire - tornou o flamengo - tenho com que o servir. J deve ter visto
passar algumas vezes o meu cavalo branco;  um animal pequeno, do
Bas-Bolognais, mas muito fogoso. Quiseram primeiro faz-lo cavalo de sela, mas
ningum foi capaz de o montar que no fosse para o cho. Julgaram-no vicioso e
no sabiam o que haviam de fazer dele. Foi ento que o comprei e meti-o logo ao
cabriolet. Era o que ele queria, tornou-se manso como um cordeiro e ligeiro como
o vento. Cada um tem a sua ambio. L para sela  que ele no estava disposto.
Puxar a um carro, quanto quiserem; levar algum em cima, isso  que no.
     - E ser capaz de fazer a jornada?
     - Andar as Vinte lguas, sempre a galope e em menos de oito horas. Mas vou
dizer-lhe as condies.
     - Queira dizer.
     - Em primeiro lugar, dar-lhe- uma hora de descanso a meio caminho;
comer a rao, mas estar algum ao p dele, para evitar que o moo da
estalagem lhe roube a aveia, porque tenho notado muitas vezes que nas estalagens
 quase sempre a aveia mais bebida pelos moos do que comida pelos cavalos.
     - Tomar-se- sentido nisso.
     - Em segundo lugar, o... cabriolet  para o senhor maire?
     -  - O senhor maire sabe gui-lo?
     - Sei - Nesse caso, o senhor maire viajar s e sem bagagem, para no
sobrecarregar o cavalo.
     - Est combinado.
     - Mas no levando ningum consigo, ser obrigado a dar-se ao incmodo de
vigiar por si mesmo a rao.
     - No tenho dvida nisso.
     - Dar-me- trinta francos por dia, incluindo os de descanso, nem menos um
real, ficando o sustento do animal por conta do senhor maire.
     Madelaine tirou trs napolees da bolsa e p-los sobre a mesa.
     - Aqui esto dois dias adiantados.
     - Alm do que j disse, um cabriolet seria demasiadamente pesado e fatigaria
o cavalo em to grande extenso. Era preciso que o senhor maire acedesse a fazer a
jornada num pequeno tilbury que a tenho.
     - No vejo nisso inconveniente.
     -  muito ligeiro, mas descoberto.
     - Isso para mim  indiferente.
     - Mas o senhor maire j reflectiu que estamos no Inverno?
     Madelaine no respondeu e o flamengo continuou:
     - Que faz muito frio? Que pode chover?
      Madelaine ergueu a cabea e disse:
     - O cavalo e o tilbury que estejam amanh, s quatro horas e meia da
madrugada,  porta da minha casa.
     - Est combinado, senhor maire - respondeu Scaufflaire. Depois, raspando
com a unha do polegar uma ndoa que havia na mesa, continuou com o ar de
indiferena que os flamengos sabem to bem aliar  finura de que so dotados: -
Mas, agora me lembro O senhor maire no me disse qual  o seu destino. Aonde
vai?
     Mestre Scaufflaire desde o principio da conversa que no pensava noutra
coisa, mas no sabia porque no ousara ainda fazer esta pergunta.
     - O cavalo tem as pernas dianteiras boas?  perguntou Madelaine.
     - Tem, sim, senhor maire, mas sempre  bom sofre-lo alguma coisa nas
descidas.
     H muitas descidas at aonde vai?
     - No se esquea de que deve estar  minha porta s quatro horas e meia em
ponto - respondeu Madelaine, saindo logo em seguida O flamengo ficou com
cara de asno, como ele prprio disse algum tempo depois.
     O maire tinha sado havia dois ou trs minutos, quando a porta se tornou a
abrir, dando-lhe entrada novamente. Tinha ainda o mesmo ar impassvel e
preocupado.
     - Senhor Scaufflaire -, disse ele, - em quanto avalia o cavalo e o tilbury que me
aluga, conduzindo um ao outro?
     - Um arrastando o outro, senhor maire?  disse o flamengo, soltando uma
gargalhada.
     - Pois seja assim. E ento?
     - O senhor maire quer comprar-mos?
     - No, mas quero garantir-lhos para o que possa acontecer. Quando eu voltar
restituir-me- o dinheiro. Vamos, em quanto avalia o tilbury e o cavalo?
     - Em quinhentos francos - Aqui os tem.
     Madelaine pousou uma nota em cima da mesa e saiu, mas desta vez no
tornou a entrar.
     Mestre Scaufflaire lastimou profundamente no ter pedido mil francos,
porque cavalo e tilbury no valiam juntos, cem escudos.
     O flamengo chamou a mulher, contou-lhe o facto e logo ambos celebraram
conselho.
     - Aonde ir o senhor maire?
     - Vai a Paris - disse a mulher.
     - No creio - respondeu o marido, O flamengo pegou no papel em que
Madelaine traara os algarismos e que ele por esquecimento deixara em cima do
fogo e ps-se a estud-lo.
     - Cinco, seis, oito e meia? Isto deve marcar as mudas da posta.
     Em seguida voltou-se para a mulher:
     - J sei.
     - O qu?
     - Olha: daqui a Hesdin so cinco lguas, de Hesdin a Saint-Pol, so seis, e dali
a Arras oito e meia. Vai a Arras.
     Madelaine, entretanto, tinha ido para casa. Voltando da de Scaufflaire,
tomara pelo caminho mais comprido, como se a porta do presbitrio fosse uma
tentao que ele quisesse evitar. Subira para o seu quarto e fechara a porta, o que
no tinha nada de extraordinrio, porque gostava de se deitar cedo Todavia, a
porteira da fbrica, que era ao mesmo tempo a nica criada de Madelaine,
observou que a luz que ele tinha acesa se apagara s oito horas e meia e disse-o ao
caixeiro quando este entrou, acrescentando:
     - O senhor maire est doente? Pareceu-me notar-lhe um ar to esquisito!
     O caixeiro, que habitava um quarto situado exactamente por baixo do de
Madelaine, no prestando ateno s palavras da porteira, deitou-se e adormeceu.
     Seria porm, meia-noite, quando acordou sobressaltado; ouvira atravs do
sono um rudo por cima da sua cabea e ps-se  escuta. Era um som de passos
que iam e vinham, como se algum andasse a passear no quarto de cima. Escutou
mais atentamente e reconheceu o andar de Madelaine. Isto pareceu-lhe estranho,
porque de ordinrio no se ouvia rudo de espcie alguma no quarto do maire,
antes da hora em que ele costumava levantar-se.
     Um momento depois, o caixeiro ouviu o quer que fosse que se parecia com o
abrir e fechar de um armrio; em seguida, o arrastar de um mvel e, aps alguns
instantes de silncio, recomearem os passos.
     Completamente desperto, sentou-se na cama, olhou para a janela e viu
atravs das vidraas, na parede fronteira, o revrbero avermelhado de uma janela
alumiada.
      Pela direco do reflexo, no podia ser seno a janela do quarto de
Madelaine. O reflexo era trmulo como se proviesse de uma fogueira e no de
uma luz. A sombra dos caixilhos envidraados no se desenhava na parede, o que
era sinal de que a janela estava aberta de par em par. com o frio que fazia era de
causar admirao aquela janela aberta.
     O caixeiro tornou a adormecer, mas da a uma ou duas horas acordou
novamente. Por cima da sua cabea continuavam a ouvir-se os mesmos passos,
lentos e regulares, e na parede fronteira desenhava-se ainda o reflexo da luz, agora
porm mais plida e serena como o reflexo de uma lmpada ou de uma vela. A
janela conservava-se do mesmo modo aberta.
     Eis o que se passava no quarto de Madelaine.
    III
    Tempestade num crnio



     Sem dvida o leitor j adivinhou que Madelaine no era outro seno Joo
Valjean.
     J deitmos um olhar (para as profundidades desta conscincia; , todavia,
chegada nova ocasio de lanar-lhes outro olhar. No o fazemos, porm, sem
emoo e estremecimento, porque no h nada mais aterrador do que esta espcie
de contemplao. Os olhos do esprito no podem encontrar em parte alguma
mais deslumbramentos nem mais trevas do que no homem, nem fixar-se em coisa
nenhuma, que seja mais temvel, complicada, misteriosa e infinita. H um
espectculo mais grandioso ainda do que o cu,  o ntimo da alma.
     Fazer o poema da conscincia humana, ainda que no fosse seno em relao
a um s homem, mesmo ao mais nfimo dos homens, seria fundir todas as
epopeias em uma s epopeia superior e definitiva. A conscincia  o caos das
quimeras, das ambies e das tentativas,  a fornalha dos sonhos, o antro das
ideias vergonhosas:  o pandemnio dos sofismas, o campo de batalha das
paixes. Penetrai, em certos momentos, atravs da face lvida de um ente humano
absorvido pela reflexo e olhai para alm, observai-lhe a alma, contemplai-lhe a
escurido. H ali, sob a superfcie lmpida do silncio exterior, combates de
gigantes como em Homero, brigas de drages, de hidras, e nuvens de fantasmas,
como em Milton, espirais visionrias como em Dante. Sombria coisa  o infinito
que todo o homem contm em si e pelo qual ele regula desesperado as vontades
do seu crebro e as aces da sua vida!
     Alighieri encontrou um dia uma porta sinistra, em frente da qual estacou
vacilante. Eis-nos tambm em frente de uma, em cujo limiar do mesmo modo
hesitamos. Contudo, entremos.
     Pouco temos que acrescentar ao que o leitor j conhece do que sucedera a
Joo Valjean, aps o seu encontro com o pequenito Gervsio. Desde esse
momento, tornara-se outro homem. Executou cabalmente os desejos do bispo. Foi
mais do que uma transformao, foi uma transfigurao.
     Conseguiu desaparecer, vendeu as pratas do bispo, conservando apenas os
castiais como recordao, andou de cidade em cidade, atravessou a Frana, veio
para Montreuil-sur-mer, concebeu e efectuou a ideia que j conhecemos, chegou a
tornar-se inacessvel a qualquer perseguio, e depois de tudo isto, estabelecido
em Montreuil-sur-mer, feliz por sentir a conscincia contristada pela recordao
do seu passado e a primeira parte da sua vida desmentida pela segunda, passou a
viver tranquilo, pacfico e cheio de esperanas, dominado apenas por dois
pensamentos: ocultar o seu nome e santificar a vida; escapar aos homens e
restituir-se a Deus.
     Estes dois pensamentos tinha-os ele to estreitamente ligados no esprito, que
quase formavam um s; ambos igualmente absorventes e imperiosos,
dominavam-lhe as mnimas aces. De ordinrio, achavam-se sempre de acordo
para regular os procedimentos da sua vida; faziam-no encarar incessantemente as
sombras, tornavam-no benvolo e simples, davam-lhe ambos os mesmos
conselhos. Todavia, davam-se algumas vezes conflitos entre eles. Em tais
circunstncias, todos se recordam, o homem a que toda a gente de
Montreuil-sur-mer, chamava o tio Madelaine, no hesitava nunca em sacrificar o
primeiro ao segundo; a segurana  virtude. Deste modo, a despeito de toda a
reserva e prudncia, conservara os castiais do bispo, cobrira-se de luto pela sua
morte, chamava e interrogava todos os rapazinhos saboianos que passavam pela
cidade, diligenciava obter informaes sobre as famlias de Faverolles e salvara a
vida ao velho Fauchelevent, apesar das inquietadoras insinuaes de Javert,
Parecia julgar, como j notmos, a exemplo de todos os que tm sido sbios,
santos e justos, que os seus primeiros cuidados no deviam ser nunca em proveito
prprio.
     Contudo,  necessrio diz-lo, ainda se no tinha apresentado nada de
semelhante como o presente caso. Jamais as duas ideias que governavam o
homem infeliz, cujos sofrimentos aqui narramos, haviam travado to sria luta.
Compreendeu-o ele confusa, mas profundamente, s primeiras palavras que
Javert pronunciara quando entrou no seu gabinete.
     No momento em que, de modo to abrupto, ouviu articular aquele nome, que
ocultava sob to grandes espessuras, sentiu-se atacado de paralisia, embriagado
pelo sinistro capricho do seu destino, invadido pelo estremecimento que precede
os grandes abalos; curvou-se como o carvalho  aproximao da tormenta, como
o soldado chegado o momento do assalto; sentiu descerem-lhe sobre a cabea
terrveis sombras, pejadas de raios e de relmpagos sinistros. Ao escutar Javert, o
primeiro pensamento que o assaltara, fora correr a denunciar-se, livrar
Champmathieu da priso e colocar-se em seu lugar; esta ideia, porm, foi-lhe to
dolorosa e pungente como uma inciso na carne viva; depois passou e ele disse
consigo: Veremos!
     Veremos. Reprimindo o primeiro impulso generoso e recuando ante o
herosmo.
     Seria belo, sem dvida, depois das santas palavras do bispo, ao cabo de tantos
anos de arrependimento e abnegao, no meio de uma penitncia to
admiravelmente principiada, que este homem, mesmo em presena de to terrvel
conjuntura, no tivesse hesitado um instante e continuasse a caminhar com o
mesmo passo para o precipcio aberto diante de si, no fundo do qual estava o cu;
teria sido belo, mas no foi assim. Devemos dar conta das coisas que se passavam
naquela alma e no podemos dizer seno o que l se encontrava. O que primeiro o
dominou foi o instinto da conservao; reatou  pressa o fio das suas ideias,
sufocou as emoes que sentia, considerou a presena de Javert, perigo enorme,
desviou, com a firmeza do terror, qualquer resoluo que pudesse tomar, fez por
olvidar o que devia fazer e tomou de novo o seu ar sossegado, como um lutador
levantando o escudo.
     Passou o resto do dia neste estado um turbilho l dentro, uma tranquilidade
profunda c fora, tomando apenas o que se poderia chamar medidas de
conservao. No crebro tudo se lhe debatia ainda em confuso; a perturbao ali
era tal, que no lhe deixava ver distintamente a forma de nenhuma ideia; ele
prprio no poderia dizer de si mesmo seno que recebera um grande golpe.
Transportou-se, como de costume, para junto do leito de Fantine, e prolongou a
sua visita, por um instinto de bondade, dizendo a si mesmo que era necessrio
proceder assim e recomend-la bem s irms, para o caso em que acontecesse ele
ter de ausentar-se. Conhecia vagamente que teria talvez de ir a Arras; e sem de
nenhum modo se haver resolvido a semelhante Viagem, disse consigo que,
estando ao abrigo de qualquer suspeita, como ele o estava, no havia
inconveniente em ser testemunha do que se passasse; e alugou o tilbury a
Scaufflaire, a fim de estar preparado para o que pudesse acontecer.
     Jantou com bastante apetite, e apenas entrou para o quarto, ps-se a meditar.
     Examinou a situao e achou-a inaudita; de tal modo inaudita, que no meio
das suas cogitaes, levado por um impulso de ansiedade, quase inexplicvel,
ergueu-se da cadeira em que estava sentado e foi correr os ferrolhos da porta.
Receou que entrasse ainda mais alguma coisa. Fortificou-se contra o possvel.
     Pouco depois apagou a vela. A luz incomodava-o.
     Parecia-lhe que podiam v-lo. Mas quem?
     Quem ele queria evitar que entrasse, entrara j; quem ele queria cegar,
fitava-o.
     Era a sua conscincia.
     A sua conscincia, isto , Deus.
     Todavia, no primeiro momento, chegou a iludir-se; teve certo sentimento de
segurana e de solido; corridos os fechos da porta, tornou-se inexpugnvel;
extinta a luz sentiu-se invisvel. Tornou-se ento senhor de si, fincou os cotovelos
na mesa, apoiou a cabea nas mos e ps-se a meditar nas trevas.
     Onde estou eu? No ser tudo -"isto um sonho? O que foi que me disseram?
 realmente verdade que vi o Javert e que ele me falou daquele modo? Quem ser
esse Champmathieu? Ser possvel que se parea comigo a tal ponto? Quando me
lembro de que ainda ontem estava to tranquilo e longe de suspeitar semelhantes
coisas! Que fazia eu ontem a esta hora? O que h, pois, em todo este incidente?
Qual ser o seu destino? Que hei-de fazer? Eis a tormenta que o agitava. As ideias
passavam-lhe como ondas pelo crebro, que perdera a fora de as reter; e ele para
o conseguir apertava a fronte entre as mos.
     Deste tumulto que lhe abalava a vontade e a razo, e do qual ele procurava
tirar uma evidncia e uma resoluo, saa apenas livre a angstia.
     A cabea escaldava-lhe. Dirigiu-se para a janela e abriu-a de par em par. No
cu no havia uma s estrela. Em seguida foi novamente sentar-se junto da mesa.
     Decorreu deste modo a primeira hora.
     Entretanto, a pouco e pouco, comearam a formar-se-lhe no meio da
meditao uns vagos delineamentos e pde entrever com a exactido da realidade,
no o conjunto da situao, mas alguns pormenores.
     Principiou por reconhecer que por mais extraordinria e crtica que fosse a
sua situao, estava completamente senhor dela.
     O seu espanto tornou-se ainda mais intenso.
     Independentemente do severo e religioso fim a que visavam as suas aces,
tudo quanto fizera at quele dia no fora mais do que aprofundar a cova em que
enterrara o seu nome. Era o seu nome o que ele sempre mais temera ouvir
pronunciar nas suas horas de insnia dizia consigo prprio que seria esse o fim de
tudo para ele; no dia em que esse nome tornasse a aparecer, o seu
desaparecimento faria desvanecer em torno de si a sua vida nova, e quem sabe se
talvez no interior dele a sua nova alma?
     Estremecia s com a lembrana da possibilidade de semelhante pensamento.
com efeito, se algum naquelas ocasies lhe houvesse dito que chegaria uma hora
em que esse nome lhe soaria aos ouvidos, em que esse medonho nome Joo
Valjean sairia subitamente da profunda obscuridade em que jazia e se ergueria
diante dele, em que essa luz temvel, feita para dissipar o mistrio em que ele se
envolvia, resplandeceria de improviso a seus olhos, e que esse nome o no
ameaaria, que essa luz s produziria uma obscuridade mais espessa, que o rasgar
desse vu aumentaria mais o mistrio, que aquele tremor de terra consolidaria o
seu edifcio, que esse prodigioso incidente no teria outro resultado, se a ele lhe
aprouvesse, seno tornar-lhe a existncia juntamente mais lmpida e mais
impenetrvel, e que do seu confronto com o fantasma de Joo Valjean sairia o
bom e digno burgus Madelaine, mais honrado, mais tranquilo e mais respeitado
do que nunca; se algum lhe tivesse dito tudo isto, encolheria os ombros e julgaria
insensatas tais palavras. Pois bem! Fora precisamente o que lhe sucedera; to
grande monto de impossveis era um facto e Deus permitira que tamanhas
loucuras se tornassem realidades!
     As suas vises continuavam a esclarecer-se; cada vez ia adquirindo mais
profundo conhecimento da sua posio.
     Parecia-lhe que acabava de acordar de um estranho sono e que no meio da
noite, de p,  beira de um abismo, diligenciando em vo recuar, resvalava para ele
num declive rpido e inevitvel. No mais denso das sombras entrevia um
desconhecido que o destino se comprazia em tornar seu substituto e que o impelia
em seu lugar para o medonho abismo. Era necessrio que um ou outro casse no
precipcio, para que ele se fechasse. No havia mais do que deixar correr as coisas.
A luz chegou  sua maior intensidade, e ele confessou a si prprio que o seu lugar
nas gals estava vago; que, por mais que fizesse, elas l o esperavam; que o roubo
ao pequenito Gervsio ali o conduziria outra vez que esse lugar vazio o aguardava
e atrairia at que o fosse preencher, o que era inevitvel e fatal. Em seguida disse
ainda para consigo que naquele momento tinha um substituto, porque parecia
que um tal Champmathieu tomava essa crtica posio e que quanto a ele,
presente nas gals na pessoa desse Champmathieu, presente na sociedade debaixo
do nome de Madelaine, j nada tinha a temer, contanto que no obstasse a que os
homens selassem sobre a cabea desse Champmathieu, essa pedra de infmia que,
semelhante  pedra do sepulcro, uma s vez cai, para nunca mais se erguer.
     Isto tudo era to violento e extraordinrio que subitamente se operou nele o
movimento indescritvel que nenhum homem experimenta mais de duas ou trs
vezes na vida, espcie de convulso da conscincia, que revolve quanto o corao
contm de duvidoso, que se compe de ironia, de alegria e desespero, e que bem
poderia chamar-se uma gargalhada ntima.
     De repente acendeu precipitadamente a vela e disse consigo:
     Mas que devo eu temer? Para que hei-de pensar nestas coisas? Estou salvo!
     Acabou-se tudo! No havia seno uma porta entreaberta pela qual o passado
poderia irromper na minha vida, e essa porta est para sempre fechada! Esse
Javert que h tanto tempo me perturba, esse temvel instinto que parecia ter-me
adivinhado, que me adivinhou e que por toda a parte me seguia; esse medonho
rafeiro que me no perdia a pista, ei-lo fora do rasto, atento para outra parte,
absolutamente desnorteado! Agora est satisfeito, encontrou o seu Joo Valjean;
deixar-me-, portanto, tranquilo! Quem sabe? Talvez at queira sair da cidade!
Fez-se tudo sem que eu desse um passo! No entrei com coisa alguma em tudo
isto! Mas, de facto, o que pode haver de desgraa neste acontecimento? Palavra de
honra que quem me visse havia de julgar que me sucedeu alguma catstrofe!
Afinal de contas, se isto acarreta prejuzo a algum, no  minha a culpa.  tudo
devido  Providncia, que aparentemente assim o quer! Tenho eu porventura
direito de contrariar os seus desgnios? O que exijo eu presentemente?
     Em que me vou envolver? Sou estranho a tudo! De que  que preciso? O fim a
que tenho aspirado por tantos anos, o sonho de todas as minhas noites, o objecto
das minhas splicas ao cu, a segurana, alcancei-a definitivamente! E para que o
quer Deus? Para que eu continue o que comecei, para que pratique o bem, para
que possa ser um dia grande e animador exemplo, para que chegue a dizer que
houve enfim alguma felicidade ligada  penitncia que tenho cumprido e  virtude
a que voltei!
     Realmente no compreendo porque tive medo de entrar em casa do excelente
cura, de lhe contar tudo como a um confessor e de lhe pedir conselho; ter-me-ia
evidentemente dito o mesmo que tenho pensado. Est decidido, deixemos
caminhar as coisas!
     Deixemos completar a obra de Deus! Assim raciocinava ele no mais ntimo
da conscincia, debruado sobre o que poderia chamar-se o seu prprio abismo.
Levantou-se por fim da cadeira e ps-se a passear no quarto.
     Vamos, disse ele, falando consigo prprio, no pensemos mais nisto.
Estou resolvido! No sentiu, porm, a mnima alegria. Pelo contrrio.
     Pretender obstar a que o pensamento volte a ocupar-se de uma ideia, seria o
mesmo que querer impedir o mar de voltar a humedecer a areia da praia. Para o
marinheiro, chama-se isto a mar; para o criminoso, chama-se remorso. Deus
agita a alma, como agita o oceano.
     Passados instantes e por mais que fizesse, continuou o sombrio dilogo, em
que era de que falava e quem escutava, dizendo o que desejaria calar, escutando o
que desejaria no ouvir, cedendo a essa potncia misteriosa que lhe dizia: Pensa!
Como h dois mil anos dizia a outro condenado: Caminha!
     Antes de nos adiantarmos mais e para sermos completamente
compreendidos, insistamos numa observao necessria.
      certo que o homem fala a si mesmo; no h um nico ser racional que o
no tenha experimentado. Pode mesmo dizer-se que o mistrio do Verbo nunca 
mais magnfico do que quando, no interior do homem, vai do pensamento 
conscincia e volta da conscincia ao [pensamento.  somente neste sentido que
devem ser entendidas at palavras, frequentemente empregadas neste captulo:
disse, exclamou: diz, fala, exclama, cada um consigo mesmo, sem que seja
quebrado o silncio exterior.
     H um grande tumulto; tudo fala em ns, excepto a boca. As realidades da
alma, por no serem visveis e palpveis, nem por isso deixam de ser tambm
realidades.
     Aquele homem perguntou, pois, a si prprio em que ponto estava.
Interrogou-se sobre aquela resoluo tomada. Confessou a si mesmo que tudo o
que ele acabava de dispor no seu esprito era monstruoso, que deixar correr as
coisas e no se opor  vontade de Deus, era nem mais nem menos do que uma
coisa horrvel. Consentir que se consumasse aquele engano do destino e dos
homens, no o impedir, antes favorec-lo com o seu silncio, nada fazer enfim, era
fazer tudo, era o ltimo grau da indignidade hipcrita, era um crime baixo,
cobarde, dissimulado, hediondo, abjecto!
     Pela primeira vez, ao cabo de oito anos, o desgraado sentia o amargo sabor
de um mau pensamento e de uma m aco.
     Cheio de desgosto cuspiu-a de si e continuou a interrogar-se. Perguntou a si
mesmo severamente o que entendera por: Alcancei o meu fim! Declarou que
tinha, com efeito, um fim na vida. Mas qual era esse fim? Ocultar o seu nome?
Iludir a polcia? Era por uma coisa to pequena, que fizera quanto tinha feito?
Porventura no tinha outro fim, que fosse o grande, o verdadeiro fim? Salvar, no
a sua pessoa, mas a sua alma, tornar a ser honrado e bom, ser um justo! No era
isto o que ele sobretudo, o que ele unicamente desejara sempre e o que o bispo lhe
ordenara: Fechar a porta ao seu passado? Mas  que ele no a fechava, grande
Deus, abria-a, praticando uma aco infame; tornava-se um ladro e o mais
odioso dos ladres: roubava a outro a sua existncia, a vida, a paz, o seu lugar ao
sol que nos alumia; tornava-se um assassino, matava moralmente um msero
homem, infligindo-lhe a medonha morte lenta, a morte a cu descoberto, que se
chama gals!
     Pelo contrrio, salvar esse homem, vtima de um erro to lgubre, tornar a ser
por dever o forado Joo Valjean, era completar verdadeiramente a sua
ressurreio e fechar para sempre o inferno de onde sara!
     Tornando a cair nele aparentemente, deixava-o na realidade! Era necessrio
fazer isto! Se o no fizesse, perderia quanto j fizera! Toda a sua vida teria sido
estril, toda a sua penitncia se tornaria intil! Bastava que dissesse: Para que fim?
Sentia que o bispo estava ali, que se encontrava muito mais presente por j no
existir, que no afastava dele os olhos, que dali em diante o maire Madelaine,
mesmo com todas as suas virtudes, lhe parecia abominvel e acharia puro e
admirvel o forado Joo Valjean; que os homens s lhe viam a mscara, mas que
o bispo lhe via o rosto; que os homens lhe viam a vida, mas que o bispo lhe via a
conscincia. Era indispensvel, pois, ir a Arras libertar o suposto Joo Valjean e
denunciar o verdadeiro! Ah, era este o maior dos sacrifcios, a mais pungente
vitria, o ltimo passo a dar, mas era indispensvel!
     Doloroso destino! No seria justo aos olhos de Deus sem tornar a ser infame
aos olhos dos homens!
     Bem, disse ele, adaptemos esta resoluo, faamos o nosso dever, salvemos
o homem Pronunciou estas palavras em voz alta, sem dar por tal.
     Pegou nos livros, verificou-os e p-los em ordem. Em seguida deitou fogo a
um mao de obrigaes de dvidas de que lhe eram devedores alguns comerciantes
em ms circunstncias. Escreveu e fechou uma carta em cujo sobrescrito teria
podido ler-se, se no quarto estivesse mais algum naquela ocasio:
     Ao senhor Laffite, banqueiro, rua d'Artois, Paris.
     Em seguida tirou da secretria uma carteira que continha algumas notas de
Banco e o passaporte de que naquele mesmo ano se servira para ir s eleies.
     Quem o tivesse visto procedendo quelas diversas operaes a que ligava to
grande meditao, nem mesmo suspeitaria o que lhe ia na alma. O que fazia por
vezes era mover os lbios, noutros momentos erguia a cabea e fitava os olhos
num ponto qualquer da parede, como se ali estivesse precisamente o que ele
necessitava esclarecer ou interrogar.
     Terminada a carta para Laffite, metera-a no bolso, assim como a carteira e
continuou a passear no quarto.
     A preocupao que o dominava no tivera o mnimo desvio. Continuava a
distinguir claramente o seu dever, escrito em letras luminosas, que lhe fulguravam
diante dos olhos e que via sempre para onde quer que olhasse:
     Dize quem s! Denuncia-te!" Via mesmo, e como se acaso se movessem
diante dele Com formas sensveis, as duas ideias que tinham constitudo at ento
a dupla regra da sua vida: ocultar o nome e santificar a alma. Pela primeira vez se
lhe mostravam absolutamente distintas, podendo apreciar a diferena que as
separava. Reconhecia que uma daquelas ideias era necessariamente boa, enquanto
a outra podia tornar-se m; que aquela representava a dedicao e esta a
personalidade; que uma dizia: o prximo, e a outra: eu:; que uma brotava da luz e
a outra provinha das trevas.
     Estas duas ideias combatiam-se e ele assistia ao combate.
      proporo que meditava, iam-se-lhe elas tornando grandes aos olhos do
esprito; atingiam j estaturas colossais; parecia-lhe que via lucrar em si mesmo,
no infinito de que h pouco falmos, no meio de sombras e relmpagos, uma
deusa e um gigante.
     Achava-se cheio de espanto, mas parecia-lhe que sentia vencer o pensamento
bom.
     Conhecia que chegara a outro momento decisivo para a sua conscincia e
para o seu destino; que o bispo marcara a primeira fase da sua nova vida e que
aquele Champmathieu lhe marcava a segunda. Aps a grande crise, a grande
prova.
     Entretanto, a febre, por um momento acalmada, foi-lhe voltando a pouco e
pouco. Mil pensamentos lhe atravessavam o crebro, mas todos continuavam a
fortificar-lhe a resoluo.
     Por um momento dissera para consigo que tomara o caso talvez muito a srio
porque, afinal de contas, esse Champmathieu era um ladro, e por isso no
merecia que se interessasse por ele.
     Mas a este pensamento retorquiu ele: se este homem roubou, com efeito,
alguma fruta, sofrer apenas um ms de priso. Daqui s gals vai muita distncia.
E quem sabe se roubou? Est isso porventura provado? O nome de Joo Valjean
pesando sobre ele parece dispensar as provas. No  deste modo que costumam
proceder os procuradores-rgios? Julgam-no ladro, porque o supem forado.
     De outra veio-lhe  lembrana que lhe perdoariam, quando ele se denunciasse
a si prprio, tomando em considerao o herosmo do seu acto, a sua vida limpa
de mculas h sete anos para c e os servios que prestara quela terra.
     Mas esta suposio desvaneceu-se logo, e ele sorriu-se amargamente,
lembrando-se de que o roubo dos quarenta soldos feito ao rapazinho Gervsio o
fazia reincidente, que esse processo reapareceria sem dvida e que, nos termos da
lei, o tornava ru de trabalhos forados por toda a vida.
      Afastou-se de toda a iluso possvel, desligou-se cada vez mais da terra,
procurando consolao e fora noutra parte, dizendo que era preciso cumprir o
seu dever; que talvez depois de o ter cumprido no fosse mais desgraado do que
depois de o ter iludido; que se deixasse correr as coisas, se ficasse em
Montreuil-sur-mer, a considerao de que gozava, a sua boa reputao, as suas
boas obras, a deferncia e venerao com que o tratavam, a sua riqueza,
popularidade e virtude, seriam temperadas com um crime. Que sabor poderiam
ter estas coisas to santas, ligadas a tal hediondez? Enquanto que se ele
preenchesse o seu sacrifcio, na priso, no pelourinho, na golilha, no barrete verde,
no trabalho incessante, na vergonha sem piedade, haveria em tudo aquilo um
como sabor celeste!
      Finalmente disse que havia necessidade disto, que assim estava decretado o
seu destino, que no tinha direito de contrariar o que Deus dispunha, que em todo
o caso era preciso escolher: ou a virtude fora e a abominao dentro, ou a
santidade dentro e a infmia fora.
      No lhe desfalecia o nimo a revolver ideias to lgubres, mas fatigava-se-lhe
o crebro, de modo que j principiava, mau grado seu, a pensar em outras coisas,
em coisas indiferentes.
      Batiam-lhe violentas as artrias nas fontes, e ele ia e vinha sempre Soou
meia-noite, primeiro no relgio da freguesia, depois na casa da cmara. Contou as
doze badaladas, nos dois relgios, comparando o som dos dois sinos e lembrou-se
nesta ocasio que alguns dias antes tinha visto em casa de um negociante de ferros
velhos um sino que ali estava  venda, no qual se via gravado este nome: Antnio
Albino de Romainville.
      Sentiu frio. Acendeu o fogo, mas no se lembrou de fechar a janela.
      Em seguida tornou a cair em meditao. Foi-lhe necessrio grande esforo
para se recordar do que estava passando antes de ouvir bater a meia-noite. Por
fim, sempre o conseguiu.
      Ah, sim!, murmurou ele. Tinha resolvido denunciar-me.
      De repente, lembrou-se de Fantine.
       verdade! E esta pobre mulher? Aqui declarou-se nova crise.
      Fantine, surgindo inopinadamente no meio da sua meditao, causava nele o
efeito de inesperado raio de luz. Pareceu-lhe que tudo em volta de si mudava de
aspecto e continuou a falar consigo prprio:
      Ainda no pensei seno em mim, no atendi seno a minha convenincia!
     Calar-me ou denunciar-me, ocultar a minha pessoa ou salvar a minha alma,
ser um magistrado venervel e respeitado, ou um forado infame e desprezvel,
so coisas que s a mim respeitam;  o eu, unicamente o eu! Mas, meu Deus! Isto 
ser egosta! So expresses diversas do egosmo, mas sempre  egosmo! Se eu
pensasse um pouco nos outros?  primeiro dos mais santos deveres  pensar no
prximo. Vejamos, examinemos! Posto eu de parte, desaparecendo, sendo
esquecido, o que poder suceder? Se me denuncio, prendem-me, soltam
Champmathieu e tornam a mandar-me para as gals; muito bem e depois? O que
se passa aqui? Aqui h um distrito inteiro, uma cidade cheia de fbricas, uma
indstria, operrios, homens, mulheres, velhos e crianas, uma multido de pobre
gente! Criei tudo isto, dei vida a tudo, em tudo, em todas as chamins que deitam
fumo foi o lume aceso por mim, fui eu quem meti na panela a carne para o jantar
da famlia; produzi o bem-estar, estabeleci a circulao e o crdito; antes de mim
no havia nada disto; animei, verifiquei, fecundei, estimulei e enriqueci todo o
pas, separando-me dele tiro-lhe a alma. Ausentando-me daqui, morre tudo. E
esta mulher que tem padecido tanto, em cuja perdio h tantos motivos de
estima e de quem eu, involuntariamente, ocasionei a ltima desgraa! E a criana
que eu queria ir buscar, que prometi a sua me! Porventura no devo alguma coisa
a essa mulher, em (compensao do mal que lhe fiz? Se eu desapareo, que
sucede? A me morre, a criana perde-se. Eis o que acontece se me denuncio. E se
o no fao?
     Vejamos, se no me denuncio? Depois de ter dirigido a si mesmo esta
pergunta, parou; teve um momento de hesitao e de abalo, mas este momento foi
rpido e respondeu com severidade:
     Esse homem vai para as gals,  verdade, mas que diabo! Para que roubou?
Por mais que repita a mim mesmo o contrrio,  um facto que roubou! Eu fico
aqui, continuo como at agora. Em dez anos terei ganho dez milhes, espalho-os
pelo pas, no terei nada de meu, mas que me importa? No  por mim que fao
tudo isto! A prosperidade geral vai crescendo, as indstrias nascem e excitam-se
mutuamente, a manufactura aumenta, as fbricas multiplicam-se e as famlias,
cem mil famlias, vivem felizes; o territrio povoa-se; nascem aldeias onde no
havia seno herdades, e nascem herdades onde no havia nada; a misria
desaparece e com ela os maus costumes, a prostituio, o roubo, o assassnio,
todos os vcios, todos os crimes Essa pobre me educa sua filha, e a par disto tudo,
o pas rico e honesto! Estava louco! Que absurdo, pensar em denunciar-me!
Realmente,  preciso meditar muito e no ser precipitado O qu! Porque me
agradaria representar de magnnimo a generoso; no fim de tudo era um
melodrama!
     Porque no pensara seno em mim; porque quis salvar de uma punio,
talvez um tanto exagerada, mas afinal justa, no sei quem, um ladro,
evidentemente um velhaco, deve perecer uma populao inteira; deve uma pobre
mulher morrer no hospital e uma infeliz criana ficar abandonada no meio da rua,
como se fosse um co?
      abominvel! Sem que mesmo a me tenha tornado a ver sua filha, sem que
a criancinha quase conhea sua me E tudo isto por causa de um srdido ladro
de fruta que, com certeza, se no merece as gals por este roubo, merece-as sem a
mnima dvida, por outra coisa Belos escrpulos que salvam um culpado
sacrificando muitos inocentes: que salvam o velho vagabundo, que poucos anos
poder viver, que no fim de contas no ser mais infeliz nas gals do que no seu
casebre, e que sacrificam uma populao inteira, homens, mulheres e crianas! E a
pobre pequenita Cosette, que s me tem a mim neste mundo e que est a estas
horas roxa de frio, na pocilga dos tais Thenardier que so tambm uns canalhas!
Pois hei-de faltar aos meus deveres para com toda esta pobre gente? Hei-de ir
denunciar-me? Hei-de cometer semelhante inpcia? Calculemos tudo pelo pior.
Suponhamos que h em tudo isto mau procedimento da minha parte e que mais
para diante a conscincia mo exprobra; no aceitar em proveito dos outros essas
exprobraes que s a mim respeitam, essa m aco que no prejudica seno a
minha alma,  que consiste a dedicao,  nisto que est a virtude.
     Em seguida levantou-se e continuou a passear. Desta vez pareceu-lhe que se
sentia mais satisfeito.
     No se encontram os diamantes seno nas tenebrosas entranhas da terra; s
se encontram as verdades nas profundidades do pensamento. Pareceu-lhe que
depois de ter descido a estas profundidades, depois de ter andado s apalpadelas
na maior densidade destas trevas, achara um desses diamantes, uma dessas
verdades, que a tinha enfim na mo; contemplava-a portanto como deslumbrado.
     Sim,  isto mesmo! Cheguei  verdade, encontrei a soluo.  necessrio
concluir alguma coisa. A minha resoluo est tomada, deixemos caminhar as
coisas!
     No vacilemos, no recuemos.  o interesse de todos e no meu. Sou
Madelaine, ficarei Madelaine. Desgraado do que  Joo Valjean! No sou eu, no
conheo esse homem, no sei de quem se trata; se sucede haver neste momento
algum que seja Joo Valjean, avenha-se como puder! No tenho nada com isso. 
um nome fatal que paira no meio das sombras; se poisou sobre alguma cabea, o
mal  para ela E, olhando para um espelho que estava sobre o fogo, acrescentou:
     E ento! Como alivia assentar numa resoluo! Sinto-me outro.
     Deu ainda alguns passos e parou de repente.
     Vamos!, disse ele.  necessrio no hesitar ante nenhuma das
consequncias do que resolvi. H ainda alguns fios que me ligam a esse tal Joo
Valjean!  necessrio quebr-los. Neste mesmo quarto h objectos que me
acusam, objectos mudos que serviriam de testemunha; est decidido,  necessrio
que desaparea tudo.
     E, tirando a bolsa da algibeira, abriu-a e procurou nela uma chavinha. Em
seguida introduziu-a numa fechadura, cujo pequeno buraco mal se distinguia,
perdida nas sombras mais carregadas da pintura do papel com que eram forradas
as paredes e abriu um esconderijo, espcie de armrio praticado entre o ngulo da
parede e o pano da chamin. No havia neste esconderijo seno alguns farrapos;
uma camisola de algodo azul, umas calas, uma mochila, tudo muito velho, e um
cajado de espinheiro, emponteirado em ambas as extremidades.
     Os que tinham visto Joo Valjean na poca em que atravessara Digne em
Outubro de 1815, teriam facilmente reconhecido todas as peas daquele miservel
vesturio. Conservara-as como conservara as castiais de prata, para se recordar
sempre do seu ponto de partida. S ocultava os andrajos que provinham das gals;
os castiais, que provinham do bispo, conservava-os patentes. Olhou depois
furtivamente para a porta, como se receasse que ela se abrisse apesar do ferrolho
que a fechava; em seguida, com um movimento rpido, inesperado, e de uma s
braada, sem mesmo olhar uma nica vez para os objectos que tinha to religiosa
e perigosamente guardado durante tantos anos, pegou nos farrapos, no cajado, na
mochila, e lanou tudo no fogo.
     Feito isto tornou a fechar o esconderijo; e redobrando as precaues, j
inteis, por isso que j estava vazio, ocultou a porta encostando-lhe um grande
mvel.
     Passados instantes, estavam o quarto e a parede fronteira iluminados com um
claro avermelhado e trmulo. Tudo ardia; o cajado de espinheiro estalava e
arrojava fascas at ao meio do quarto.
     A mochila, consumindo-se com os hediondos farrapos que continha, deixara
a descoberto o que quer que era que brilhava no meio da cinza. Quem se curvasse
um pouco teria facilmente reconhecido uma moeda de prata. Eram sem dvida os
quarenta soldos roubados ao pequeno saboiano.
     Madelaine no olhava para o lume e continuava a passear de um para o outro
lado, sempre no mesmo passo.
     De repente, os olhos fixaram-se-lhe nos dois castiais de prata, que o reflexo
da chama fazia reluzir vagamente sobre o fogo.
     Ainda reside ali um Joo Valjean completo, disse ele para consigo. 
necessrio destruir aquilo.
     E pegou nos dois castiais.
     O fogo tinha bastante lume para que pudessem ser rapidamente
desfigurados e transformados numa espcie de barra, impossvel de reconhecer.
     Curvou-se sobre o lume e aqueceu-se por um instante, sentindo verdadeiro
bem-estar.
     Que excelente calor! com um dos castiais remexeu o braseiro.
     Um minuto mais e estariam ambos no fogo.
     Neste momento, porm, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe gritava de dentro
de si mesmo:
     Joo Valjean! Joo Valjean! Os cabelos eriaram-se-lhe e apresentou ao
mesmo tempo o aspecto de um bom homem que est ouvindo uma coisa
Horrvel.
     Isso, acaba com tudo!, dizia a voz. Completa o que ests fazendo! Destri
esses castiais! . Apaga essa recordao! Esquece-te de tudo! Deita a perder esse
Champmathieu! No hesites! Muito bem. Aplaude-te! Assim mesmo: est
combinado, est dito e resolvido: reduz-se tudo a haver um homem, um velho que
no sabe o que lhe querem, que no fez talvez coisa alguma, um inocente de quem
o teu nome constitui toda a desgraa, sobre quem ele pesa como um crime, que
vai ser julgado em teu lugar, que vai ser condenado e terminar os seus dias na
abjeco e no horror! Muito bem. S tu homem honesto. Continua a ser o senhor
maire, conserva-te honrado e respeitado, enriquece a cidade, alimenta os
indigentes, educa os rfos, vive feliz, virtuoso e admirado; e durante esse tempo,
enquanto estiveres aqui rodeado de esplendor e alegria, haver algum que vestir
a tua camisola vermelha, que ignorado usar o teu nome, e que arrastar a tua
grilheta pelas gals! Sim, est tudo assim bem combinado! Ah, miservel! O suor
corria-lhe pela fronte e os olhos espantados no se lhe afastavam dos castiais.
Entretanto, o que lhe falava no ntimo, no terminara ainda. A voz continuava:
     Joo Valjean! Ouvir-se-o em roda de ti inmeras vozes que falaro muito
alto, que faro grande rudo, abenoando-te; mas haver uma, que ningum
ouvir e que te amaldioar nas trevas. Escuta, pois, infame! Essas bnos
tornaro a cair todas antes de chegarem ao cu, e s a maldio subir at Deus!
Esta voz, em princpio fraca, e que se lhe elevara do mais recndito da conscincia,
tornara-se gradualmente estrondosa e medonha, ouvindo-a depois junto do
ouvido. Parecia-lhe que sara de si mesmo e que passara a falar-lhe exteriormente.
     Julgou ouvir to claras as suas ltimas palavras, que correu a vista pelo quarto
com uma espcie de terror.
     - Est a algum?! - perguntou ele em voz alta e como desorientado.
     Depois acrescentou, soltando uma risada semelhante  de um idiota:
     Que estpido que eu sou! No pode estar aqui ningum.
     Estava ali algum com efeito, mas esse algum era dos que os olhos humanos
no podem ver.
     Tornou a pr os castiais sobre o fogo.
     Depois continuou o seu passeio montono e lgubre, o qual perturbava os
seus sonhos e despertava em sobressalto o homem que dormia no quarto que
ficava por baixo.
     Este passeio aliviava-o e embriagava-o ao mesmo tempo. Parece muitas vezes
que o homem, nas ocasies supremas, se agita para pedir conselhos a tudo que
pode encontrar, nas sucessivas mudanas do lugar. Passados segundos j nem
sabia onde estava.
     Agora recuava ante as duas resolues que adoptara simultaneamente. As
duas ideias que o aconselhavam pareciam-lhe igualmente funestas.
     Que fatalidade! Que encontro o daquele Champmathieu, que julgavam ser
ele!
     Ser precipitado justamente pelo meio que a Providncia parecia ter em
princpio empregado para o fortalecer e consolidar! Por um momento encarou o
futuro. Denunciar-se, grande Deus!, entregar-se!
     Encarou com grande desespero tudo o que tinha de abandonar e tudo a que
teria de voltar; teria de dizer adeus quela existncia to boa, to pura, to
radiante, ao respeito que todos lhe tributavam,  honra,  liberdade!
     No tornaria a passear pelos campos, no ouviria mais cantar os passarinhos,
no ms de Maio, no daria mais esmolas s criancinhas! No sentiria mais a
doura dos olhos de reconhecimento e de amor, que costumam fit-lo! Deixaria
aquela casa, que tinha construdo, aquele quartozinho! Tudo naquele momento
lhe parecia encantador.
     No tornaria a ler aqueles livros, nem a escrever sobre aquela mesa de pinho!
A velha porteira, a nica criada que tinha tido, no voltaria a levar-lhe o caf pela
manh!
      Grande Deus!, em vez de tudo isto a golilha, a vestimenta vermelha, a grilheta
ao p, a fadiga, o crcere, a tarimba, todos os horrores conhecidos! Na sua idade e
depois de ter sido o que fora! Ainda se fosse novo! Mas velho, receber o tu de toda
a gente, ser revistado pelo guarda-chusma e receber bastonadas do comitre!
Trazer os ps nus em sapatos ferrados! Apresentar pela manh e  tarde a perna ao
martelo do vigia que verifica a segurana das manilhas! Sofrer a curiosidade dos
visitantes, aos quais diriam: Aquele  o famoso Joo Valjean, que foi maire em
Montreuil-sur-mer!  noite, gotejando suor, acabrunhado pela fadiga, Com o
barrete verde cado sobre os olhos, tornar a subir a escada de mo da priso
flutuante ligado a outra criatura, sob a chibata do esbirro! Oh, que misria! Pode
porventura o destino ter tanta maldade como qualquer ente inteligente, e
tornar-se monstruoso como o corao humano!
      E por mais que fizesse, recaa sempre no mais pungente dilema que lhe
ocupava o fundo da meditao:
      Conservar-se no paraso e tornar-se a mesmo demnio! Voltar para o
inferno e tornar-se nele anjo! O que havia de fazer, grande Deus, o que havia de
fazer?! A tempestade de que se livrara com tanto trabalho, desencadeava-lhe
novamente no crebro. As ideias recomeavam a confundir-se-lhe e
apresentavam-se-lhe com a maquinal estupefaco prpria do desespero. O nome
de Romainville ocorria-lhe sem cessar ao esprito, com dois versos duma cantiga
que ouvira noutro tempo.
      Recordava-se de que Romainville era um bosquezinho nas imediaes de
Paris, onde os jovens namorados iam colher lilases no ms de Abril. Vacilava
tanto por dentro como por fora. Caminhava como uma criancinha a quem se
larga a mo.
      Em certos momentos, lutando com a fadiga, esforava-se em recobrar a
inteligncia. Diligenciava formular pela ltima vez e definitivamente, o problema
sob o qual tinha de certo modo cado exausto. Deveria denunciar-se? Deveria
calar-se? No conseguia ver coisa alguma distintamente. Os vagos aspectos de
todos os raciocnios esboados pela sua meditao, oscilavam e dissipavam-se
sucessivamente como o fumo. O que ele sentia era que, qualquer que fosse a sua
ltima resoluo, necessariamente e sem que fosse possvel escapar-lhe, morreria
nele alguma coisa; que entraria para um sepulcro, tanto pela direita como pela
esquerda; que passaria, de todos os modos, por uma agonia, a agonia da sua
felicidade, ou da sua virtude.
     Todas estas resolues o tinham de novo assaltado. No estava mais
adiantado do que no princpio.
     Assim se debatia no meio da angstia aquela desventurada alma. Mil e
oitocentos anos antes deste homem desafortunado, tinha tambm o ente
misterioso em que se renem todas as santidades e sofrimentos da humanidade
desviado com a mo, ao sussurrar das oliveiras agitadas pelo vento feroz do
infinito, o clix terrvel, que lhe aparecia envolto em sombras e transbordando de
trevas nas alturas recamadas de estrelas.



    IV
    Formas de sofrimento durante o sono



     Trs horas da manh acabavam de soar, havendo cinco que daquele modo
passeava quase sem interrupo, quando se deixou cair numa cadeira.
     Adormeceu e teve um sonho, sonho que, como a maior parte deles, no tinha
ligao com a situao em que ele se encontrava, seno pelo que quer que era de
funesto e pungente, que lhe causou grande impresso. De tal modo o feriu aquele
pesadelo, que escreveu mais tarde, e  esta uma das coisas que deixou escritas por
sua prpria mo. Julgamo-nos no dever de o transcrever aqui textualmente.
Qualquer que ele seja, seria incompleta a histria desta noite se o omitssemos.  a
sombria aventura de uma alma doente, Ei-lo, pois. No sobrescrito, achamos
escritas estas palavras: O sonho que eu tive naquela noite.
     Encontrava-me numa grande e triste campina, sem erva nem vegetao,
parecendo-me que no era nem dia nem noite.
     Andava a passear com meu irmo, o irmo dos meus anos da infncia, esse
irmo, em quem, devo diz-lo, nunca penso, e do qual j quase me no lembro.
     Conversvamos, interrompidos s vezes por uma outra pessoa que passava,
falando de uma vizinha que tivemos noutro tempo, a qual trabalhava sempre com
a janela aberta, desde que morava na rua, e, ao mesmo tempo que conversvamos,
sentamos frio proveniente daquela janela aberta.
     No se via uma s rvore em toda a extenso da campina.
     Nisto passou perto de ns um homem, cor de cinza, completamente nu,
montado num cavalo cor de terra. Este homem no tinha cabelos; ,via-se-lhe o
crnio, e nele as ramificaes azuladas das veias. Trazia na mo uma varinha
flexvel como um vime e pesada como ferro. Este cavaleiro passou por ns e no
nos disse nada.
     Meu irmo disseme: Tomemos pelo carreiro.
     Havia ali um carreiro em que se no via um p de tojo, nem um bocado de
musgo. Era tudo cor de terra, mesmo o cu.
     Ao cabo de alguns passos dados, como ningum me respondia, quando eu
falava, olhei e vi que meu irmo j no ia a meu lado.
     Entrei ento numa aldeia que avistei, lembrando-me que devia ser ali
Romainville (porque havia de ser Romainville (Este parntesis  do prprio punho
de Joo Valjean)?) A primeira rua em que entrei estava deserta. Entrei noutra.
Por detrs do ngulo formado pelas duas ruas estava um homem de p, encostado
 parede.
     Perguntei a este homem: Que terra  esta? Onde estou eu? O homem no
me respondeu. Vi a porta duma casa aberta e entrei.
     O primeiro quarto estava deserto: entrei no segundo. Por detrs da porta
deste quarto, estava outro homem em p, encostado  parede. Perguntei ao
homem: De quem  esta casa? Onde estou eu? O homem no deu resposta. A
casa tinha um jardim.
     Passei para o jardim, que tambm estava deserto. Por detrs da primeira
rvore encontrei ainda um homem em p. Perguntei-lhe: Que jardim  este?
Onde estou eu? O homem no respondeu.
     Percorri a aldeia e conheci que era uma cidade. Todas as ruas estavam
desertas e todas as portas abertas. No passava pelas ruas, no se encontrava nas
casas, no passeava no jardim, um nico vivente; mas atrs de cada ngulo do
muro, atrs de cada porta e de cada rvore estava um homem, de p, e que no
falava. No se via seno um por cada vez, mas todos eles me viam passar.
     Sa da cidade e comecei a percorrer os campos.
     Passado algum tempo, voltei-me, e vi atrs de mim grande multido.
Reconheci todos os homens que tinha visto na cidade. Tinham umas cabeas
extraordinrias; pareciam no se apressar, e contudo andavam mais do que eu. Os
seus passos no produziam o mnimo rudo. Num momento fui alcanado e
rodeado por aquela multido. Os rostos dos homens que a compunham eram cor
de terra.
     Ento, o primeiro que vira quando entrei na cidade e a quem fizera a
primeira pergunta, dirigiu-me a palavra, dizendo-me:
     Aonde vai? Porventura no sabe que est morto h muito tempo? Abri a
boca para responder e vi que no tinha ningum ao p de mim. Madelaine
acordou. Estava gelado.
     As vidraas da sacada aberta volteavam nos gonzos ao sabor de um vento frio
como a aragem da manh.
     Apagara-se o lume e a vela estava quase toda gasta. Era ainda noite fechada.
     Levantou-se e encaminhou-se para a janela. No cu continuava a no se ver
uma s estrela.
     Ao chegar  janela, de onde se avistava o ptio da casa e a rua, ressoou-lhe de
sbito aos ouvidos um rudo seco e duro, que lhe fez baixar os olhos para o cho, e
viu em baixo duas estrelas vermelhas, cujos raios se alongavam e encolhiam
extravagantemente no meio das sombras.
     Como tivesse ainda o pensamento meio submerso na neblina dos sonhos,
disse consigo:
     No as h no cu porque esto agora na terra.
     Entretanto, dissipou-se esta perturbao, e um segundo rudo semelhante ao
primeiro acabou de o despertar; olhou e reconheceu que as duas estrelas eram as
lanternas dum veculo. Era um tilbury puxado por um cavalo branco e pequeno.
O rudo que ouvira era produzido pelas ferraduras do cavalo batendo na calada.
     Que carruagem  esta? pensou ele. Quem ser, to cedo? Neste momento
bateram brandamente  porta do quarto.
     Madelaine estremeceu dos ps  cabea e gritou com voz terrvel:
     - Quem est a?
     - Sou eu, senhor maire - responderam de fora.
     Madelaine reconheceu a voz da velha porteira.
     - Que deseja? - tornou ele.
     - Senhor maire, so quase cinco horas da manh.
     - Que tenho eu com isso?
     -  que j ali est o cabriolet.
     - Qual cabriolet?
     - O tilbury.
     - Qual tilbury?
     - O senhor maire no mandou vir um tilbury?
     - No - disse ele.
     O cocheiro diz que vem procurar o senhor maire.
     - Qual cocheiro?
     - O do mestre Scaufflaire.
     - Scaufflaire Este nome produziu-lhe um estremecimento, como o que lhe
produziria o cair dum raio. Se a velhota o visse naquele momento ficaria
espantada.
     Seguiu-se prolongado silncio. Madelaine examinava com ar estpido a
chama da vela, tirando do pavio bocadinhos de cera derretida, e rolando-os entre
os dedos. A porteira continuava a esperar. Ouvindo tudo to silencioso, a
riscou-se a erguer a voz:
     - Senhor maire, o que hei-de dizer ao cocheiro?
     - Diga-lhe que j deso.



    V
    Concerto nas rodas



     Naquela poca, o servio do correio entre Arras e Montreuil-sur-mer, era
feito ainda por meio de pequenas mala-postas do tempo do imprio, que
consistiam nuns cabriolets de duas rodas, forrados por dentro de couro branco,
suspensas em molas de bomba e s com dois lugares, um para o condutor da
mala, outro para o viajante. As rodas eram armadas desses longos cubos ofensivos,
que conservam as outras carruagens a distncia, e que ainda se vem nas estradas
da Alemanha. Por trs do cabriolet ficava colocada a mala, imensa caixa oblonga,
que fazia corpo com ele. A caixa era pintada de negro e o cabriolet de amarelo.
     Essas carruagens, com as quais no h hoje nada que se parea, tinham
qualquer coisa de disforme e, quando se avistavam ao longe, rastejando por
alguma estrada no extremo horizonte, assemelhavam-se a esses insectos que, creio
eu, se chamam trmites (Formiga branca.), os quais com uma cinta de diminutas
propores arrastam a parte posterior do corpo, excessivamente mais grossa.
Todavia a velocidade destes veculos era grande. A mala-posta, que partia de Arras
todas as noites  uma hora, depois da chegada do correio de Paris, chegava a
Montreuil-sur-mer pouco antes das cinco horas da manh.
     Naquela noite, a mala-posta que se dirigia para Montreuil-sur-mer, pela
estrada de Hesdin, ao dobrar a esquina de uma rua, na ocasio em que ia a entrar
na cidade, embaraou-se num tilbury pequeno, puxado por um cavalo branco,
que vinha em sentido inverso, e no qual apenas havia uma nica pessoa, um
homem embrulhado numa manta. A roda do tilbury recebeu um choque bastante
violento; o condutor da mala gritou ao homem que ia dentro, que parasse, mas ele
no fez caso e continuou o seu caminho a galope.
     - Irra! Aquele homem vai com uma pressa dos diabos! - disse o condutor.
     O homem que levava tamanha pressa,  o que ns ainda h pouco vimos
debatendo-se em convulses dignas por certo de compaixo.
     Aonde ia ele? No o poderia dizer. Porque levava tanta pressa? No o sabia.
     Caminhava ao acaso, pelo caminho que via diante de si. Mas para onde? Sem
dvida para Arras; mas ia talvez tambm a outra parte. Sentia-o por momentos e
estremecia.
     Penetrava na escurido da noite como num pego Havia alguma coisa que o
impelia e que o atraa. O que nele se passava ningum o poderia dizer, e todos o
compreendero.
     Qual  o homem que no tem entrado, ao menos uma vez na vida, na escura
caverna do inesperado e imprevisto?
     No fim de tudo no tinha resolvido, decidido, assentado, nem feito coisa
alguma.
     Nenhum dos actos da sua conscincia fora definitivo. Estava, mais do que
nunca, como no primeiro momento.
     Que motivo o levava a Arras?
     Madelaine repetia o que j a si mesmo dissera, alugando o cabriolet de
Scaufflaire: que qualquer que fosse o resultado, no havia o mnimo inconveniente
em ver com os prprios olhos, em julgar por si mesmo as coisas; que isto era
prudente, porque precisava de saber o que ocorria; que nunca lhe seria possvel
decidir coisa alguma sem ter observado e escutado; que de longe os outeiros
parecem montanhas; que no fim de contas quando tivesse visto o tal
Champmathieu, com certeza um miservel sentiria provavelmente a conscincia
mais aliviada de o deixar ir para as gals em seu lugar; que na verdade ali
encontraria o tal Javert, o tal Brevet, o tal Cheneldieu e Cochepaille, ex-forados
que o tinham conhecido, mas que incontestavelmente, o no reconheceriam.
     Ora, que ideia! Javert estava a cem lguas da verdade: que todas as conjecturas
e suposies convergiam sobre Champmathieu, e que coisa nenhuma  to
irascivelmente teimosa como as conjecturas e suposies; e que, finalmente, no
corria o menor perigo.
     Que, sem dvida, era um passo bem intrincado da sua vida, mas que havia de
sair dele; que no fim de tudo, por pior que o seu destino quisesse ser, tinha-o
seguro, dominava-o. Era a este pensamento que ele se agarrava com todas as
foras.
     Mas, afinal, para dizermos tudo; estimaria no ir a Arras.
     Contudo, ia.
     Sem deixar de pensar chicoteava o cavalo, o qual trotava com o trote regular e
seguro que vence duas lguas e meia por hora.
     A maneira que o cabriolet avanava, sentia ele em si o que quer que era de
reanimador.
     Ao nascer do dia estava numa campina; a cidade de Montreuil-sur-mer
ficava-lhe j muito longe. Olhou para o horizonte que comeava a alvorecer e
encarou, sem as ver, todas as feias figuras duma aurora de Inverno, que lhe
passavam por diante dos olhos. O comeo do dia tem os seus espectros como o
fim dele. No os via, mas a seu pesar, e por uma espcie de penetrao quase fsica,
os negros vultos das rvores e das colinas juntavam-lhe ao estado violento da alma
o que quer que era de taciturno e sinistro.
     Cada vez que passava por uma casa das que orlam muitas vezes as estradas,
dizia consigo:
     Contudo h ali gente que ainda est dormindo! O trotar do cavalo, o ranger
dos arreios e o rodar do carro, produziam um rudo suave e montono. Estas
coisas so todas encantadoras quando se est alegre; mas quando se est triste so
lgubres.
     Era j dia claro quando chegou a Hesdin. Parou  porta de uma estalagem,
para deixar descansar o cavalo e mandar-lhe dar a rao.
     O cavalo, como dissera Scaufflaire, era dos da raa pequena do Boulonnais, de
cabea, pescoo e ventre muito grandes, mas de amplo peitoral, anca larga, jarrete
delgado e seco e o casco slido; raa feia mas robusta e s O excelente animal
andara cinco lguas em duas horas e no lhe escorria das ancas uma s gota de
suor.
     Madelaine no se apeara.
     O moo da cavalaria que trazia a aveia, baixou-se de repente e comeou a
examinar a roda esquerda.
     - O senhor tem muito que andar? - perguntou ele.
     O viajante respondeu, quase maquinalmente, e sem sair da sua preocupao:
     - Porqu?
     - Vem de muito longe?
     - De cinco lguas distante daqui.
     - Ora esta!
     - Porque se admira?
     O moo curvou-se novamente, permaneceu por um momento silencioso com
os olhos fitos na roda e depois endireitou-se, dizendo:
     -  porque est aqui uma roda que, segundo o senhor diz, rodou cinco lguas,
mas que, com toda a certeza, no rodar nem mais um quarto de lgua.
     Madelaine apeou-se.
     - Que me diz?
     - Digo-lhe que  um milagre que o senhor tenha percorrido cinco lguas, sem
que casse com o seu cavalo para dentro de algum barranco da estrada. Ora veja.
     A roda estava com efeito muito danificada. O embate da mala-posta
deslocara-lhe dois raios e fizera-lhe saltar a porca que no cubo segurava o eixo.
     - Diga-me perguntou ele ao rapaz - h aqui algum carpinteiro de carros?
     - H, sim, senhor.
     - Faz-me favor de o ir chamar?
     -  aqui ao p. Ol!  mestre Bourgaillard!
     Mestre Bourgaillard, carpinteiro de carros, que estava no limiar da sua porta,
foi logo examinar a roda, e fez a careta dum cirurgio ao contemplar uma perna
quebrada.
     - Poder vossemec concertar esta roda imediatamente?
     - Posso, sim, senhor.
     - E quando poderei continuar a minha jornada?
     - Amanh.
     - Amanh!
     - Isso leva um dia inteiro de trabalho. O senhor tem muita pressa?
     - Muita! No me posso demorar mais duma hora.
     - Isso  que no pode ser.
     - Pagarei o que quiser.
     -  impossvel.
     - E se me demorar duas horas?
     - Hoje  impossvel.  preciso fazer-lhe dois raios novos e o cubo. Antes de
amanh no poder partir.
     - Mas o negcio que me obriga a partir, no pode esperar para amanh. E se
em lugar de se concertar a roda, ela fosse substituda por outra?
     - Substituda como?
     - Vossemec no  carpinteiro de carros?
     - Sou, sim, senhor.
    - Ento no tem uma roda que me venda? Deste modo poderei continuar a
minha jornada imediatamente.
    - Uma roda de sobresselente?
    - Sim.
    - O que eu no tenho  uma roda feita de propsito para o seu cabriolet. Duas
rodas fazem um par: no se igualam assim  toa.
    - Nesse caso venda-me um par de rodas.
    - Mas, senhor, nem todas as rodas servem em todos os eixos.
    - Experimente sempre.
    -  intil, senhor. No tenho para vender seno rodas para carroas. Estamos
aqui numa terra muito pequena.
    - Tem vossemec um cabriolet que me queira alugar?
    O mestre carpinteiro, que logo  primeira vista conhecera que o tilbury era de
aluguer, encolheu os ombros e disse:
    - O senhor arranja bem os cabriolets que lhe alugam!
    - Ainda que eu tivesse algum no lho alugava.
    - Pois sim; e para me vender?
    - No tenho nenhum.
    - O qu! Pois no h ao menos uma carroa qualquer?
    - Bem v que no sou difcil de contentar.
    - J lhe disse que isto aqui  uma terra muito pequena. Tenho a a guardar
uma carruagem muito velha, dum burgus da cidade, que s se serve dela uma vez
cada ms. Eu alugava-lha de boa vontade; que me importava isso? Mas era preciso
que o dono o no visse passar; e depois  uma caleche: seriam precisos dois
cavalos.
    - Alugarei cavalos de posta.
    - Aonde  que o senhor vai?
    - A Arras.
    - E quer l chegar hoje?
    - Por fora.
    - Com cavalos de posta?
    - Por que no?
    - E no lhe faz diferena chegar a Arras s quatro horas da manh?
    - Isso de modo nenhum.
    -  que deve lembrar-se de uma coisa: alugando cavalos de posta... O senhor
tem passaporte?
    - Tenho.
    -  que o senhor alugando cavalos de posta, no chega a Arras seno amanh.
    Isto aqui no  estrada real. As mudas so mal servidas e os cavalos esto nas
pastagens. Estamos no tempo das lavouras, todo o gado  pouco e por isso
alugam-se cavalos em toda a parte: nem os da posta escapam. O senhor ver. Tem
de esperar trs ou quatro horas em cada muda; e depois ter de ir a passo, porque
tem muito que subir.
    - Sendo assim, irei a cavalo. Hei-de encontrar por a algum que me venda
um selim.
    - E este cavalo aguenta o selim?
    -  verdade que no me lembrava disso. No consente selim.
    - Ento... - Pois no haver na aldeia quem me alugue um cavalo?
    - Um cavalo para ir a Arras, de uma assentada?
    - Sem parar.
    - Para isso seria preciso um cavalo como no h nenhum em todo este stio. E
depois, como ningum conhece o senhor, tinha de o comprar. Mas  que no h
nem para alugar nem para vender: ainda que o senhor desse quinhentos ou
mesmo mil francos, no o encontraria.
    - Como h-de ser ento?
    - O que lhe digo, como homem de bem, o melhor  eu concertar a roda e o
senhor continuar a sua jornada amanh.
    - Amanh  tarde.
    - Diabo!
    - No h uma mala-posta que vai a Arras? Quando passa ela?
    - Na noite de amanh. As duas mala-postas fazem todo o servio de noite,
tanto a que vai, como a que vem.
    - Mas ento  preciso um dia inteiro para concertar a roda?
    - E h-de ser bem aproveitado.
    - E metendo mais dois operrios?
    - Ainda que metesse dez!
    - E ligando-se os raios com uma corda?
    - Os raios podiam amarrar-se, mas o cubo  que no. E depois a camba
tambm est em muito mau estado.
    - Na cidade no h carruagens de aluguer?
    - No, senhor.
    - E outro carpinteiro de carros no haver?
     - Nada - responderam ao mesmo tempo o mestre carpinteiro e o moo da
estalagem, abanando a cabea.
     Madelaine sentiu infinita alegria.
     Era evidente que a Providncia se opunha  sua jornada. Fora ela quem lhe
quebrara a roda do tilbury obrigando-o a parar no meio do caminho. Contudo
no tinha cedido quela espcie de primeira intimao; acabava de empregar
todos os esforos possveis para continuar a jornada; tinha leal e
escrupulosamente esgotado todos os meios; no recuara, no tinha nada de que se
arrepender. Se no ia mais longe, no era por falta de esforo! J no era sua a
culpa; no era obra da sua conscincia, mas sim da Providncia.
     Respirou, pois. Respirou livremente e com toda a fora dos pulmes, pela
primeira vez depois da visita de Javert. Parecia-lhe que o pulso de ferro que lhe
comprimia o corao havia vinte e quatro horas o largara enfim. Parecia-lhe que
Deus era por ele e que acabava de lho patentear.
     Repetiu consigo que fizera tudo o que estava ao seu alcance, e que ento s
lhe restava voltar tranquilamente para trs.
     Se o seu dilogo com o carpinteiro de carros se tivesse passado num quarto da
estalagem no teria testemunhas, ningum o teria ouvido, as coisas teriam ficado
assim, e  provvel que no tivssemos de contar nenhum dos acontecimentos que
se lhe seguiram; mas o dilogo passou-se na rua. No h conversao na rua que
no atraia um crculo de curiosos: h gente que no perde ocasio de saber o que
lhes no diz respeito.
     Enquanto Madelaine fazia perguntas ao carpinteiro, tinham parado em volta
deles algumas pessoas que iam passando. Um rapazito em que ningum tinha
reparado, depois de ter por um instante escutado, saiu do grupo a correr.
     No momento em que o viajante, depois da deliberao interior que
registamos, tomara a resoluo de voltar para trs, tornou a aparecer o tal
rapazito, acompanhado duma mulher j idosa, que se lhe dirigiu, dizendo:
     -  verdade o que o meu rapaz me disse? O senhor deseja alugar um
cabriolet?
     Esta simples pergunta, feita por uma velha conduzida por uma criana, f-lo
cobrir de suor. Julgou ver a mo que o largara tornar a aparecer na sombra, por
detrs dele, pronta a agarr-lo de novo.
     -  verdade - respondeu ele - desejo alugar um cabriolet.
     E apressou-se em acrescentar:
     - Mas no h por aqui nenhum.
     - H, sim, senhor - respondeu a velha.
     - Onde? - perguntou o carpinteiro.
     - Em minha casa - respondeu a velha.
     Madelaine estremeceu. A mo fatal apossara-se dele outra vez, apertando-lhe
o corao naquele comprimir doloroso, de que por momentos se sentira livre.
     A velha tinha, com efeito, debaixo dum alpendre, uma espcie de carro de
mato; mas o carpinteiro e o moo, desesperados por verem o viajante escapar-lhes
das mos, intervieram:
     - Isso  uma caranguejola que mete medo e assente em cima do eixo, sem
mais mola, nem mais nada;  verdade que os bancos que tem dentro so suspensos
com correias, mas entra-lhe a gua quando chove, e a ferragem est toda comida
de ferrugem. No  capaz de aguentar mais do que o tilbury; este senhor faz muito
mal se acaso se meter nela.
     Tudo isto era verdade, mas a caranguejola, fosse como fosse, tinha duas rodas
e podia ir a Arras.
     Madelaine pagou o que lhe pediram, deixou o tilbury entregue ao carpinteiro
para o concertar e encontr-lo pronto quando voltasse, mandou atrelar o cavalo
branco ao carro que alugara  velha e continuou o caminho que desde pela manh
seguia.
     No momento em que o carro se moveu, confessou a si mesmo que um
momento antes sentira certo prazer em pensar que o no levaria ao seu destino.
Examinou esse prazer, de certo modo encolerizado e achou-o absurdo. Porque se
havia de alegrar voltando para trs? No fim de contas fazia aquela jornada
voluntariamente. Ningum o obrigara a faz-la.
     E decerto, no sucederia seno o que ele quisesse que sucedesse.
      sada de Hesdin ouviu uma voz que lhe gritava:
     - Pare! Pare!
     Madelaine fez parar o carro com um movimento em que havia o que quer
que era de febril e convulsivo, que se assemelhava  esperana.
     Era o rapazito que fora chamar a velha.
     - Eu  que fui arranjar a carroa - disse ele.
     - E ento?
     - Ento o senhor no me deu nada.
     Ele que a todos dava to facilmente, achou esta pretenso exorbitante e quase
odiosa.
     - Ah, foste tu, velhaco? - disse ele. - Pois no hs-de ter nada!
     E fustigando o cavalo tornou a partir a galope.
     Perdera muito tempo em Hesdin, portanto queria recuper-lo. O cavalo era
vigoroso e puxava por dois; mas estava-se em Fevereiro, tinha chovido, e as
estradas achavam-se em pssimo estado. E depois j no tinha o tilbury; o carro
era pesado e difcil de mover. Alm disso, a maior parte do caminho era sempre
em subida.
     Gastou perto de quatro horas para ir de Hesdin a Saint-Pol.
     Em Saint-Pol parou na primeira estalagem que encontrou, mandou
desaparelhar e levar o cavalo para a cavalaria. Como tinha prometido a
Scaufflaire, conservou-se ao p da manjedoira enquanto o cavalo comeu, sempre
com o pensamento em coisas tristes e confusas.
     A mulher do estalajadeiro entrou na cavalaria.
     - O senhor no quer almoar? - perguntou ela.
     -  verdade - disse ele - sinto-me at com grande apetite.
     E seguiu a estalajadeira que tinha uma fisionomia fresca e prazenteira, a qual
o conduziu para uma sala situada no rs-do-cho, em que havia algumas mesas
cobertas de encerados  falta de toalhas.
     - Sirva-me depressa - disse ele - preciso de partir imediatamente. No posso
demorar-me.
     Logo em seguida apareceu uma robusta criada flamenga trazendo-lhe o
talher.
     Madelaine contemplava a rapariga com um certo sentimento de bem-estar.
     - Era isto o que me estava fazendo mal - pensou ele. - No tinha ainda
almoado.
     Serviram-lhe o almoo. Pegou no po, deu-lhe uma dentada, dep-lo
vagarosamente sobre a mesa e no tornou a tocar-lhe.
     Madelaine voltou-se para um carreiro que estava a comer sentado a outra
mesa e disselhe:
     - Porque  que o po  to amargo?
     Porm, como o carreiro era alemo, no entendeu, e Madelaine voltou para a
cavalaria.
     Da a uma hora tinha deixado Saint-Pol, dirigindo-se para Tinques, que fica
apenas a cinco lguas de Arras.
     Que fazia ele no decurso desta jornada? Em que pensava? Via passar, como
pela manh, as rvores, os tectos de colmo, os campos cultivados e o desaparecer
rpido da paisagem, que se desloca em cada cotovelo do caminho.  esta uma
contemplao que satisfaz a alma e quase a dispensa de pensar. Ver mil objectos
pela primeira e ltima vez! H a coisa mais profundamente melanclica? Viajar 
nascer e morrer a todo o instante. Talvez ele, na regio mais vaga do seu esprito,
fizesse paralelos entre aqueles horizontes cambiantes e a existncia humana.
Todas as coisas desta vida fogem - de contnuo diante de ns. Entremeiam-se as
sombras com os clares. Aps um deslumbramento de luz, um eclipse, as trevas;
olha-se, corre-se a toda a pressa, estendem-se as mos para agarrar o que passa; e
o que passa vai, e as mos ficam vazias; cada acontecimento  o dobrar de um
ngulo da estrada, e de repente somos velhos. Sente-se um como abalo,
afigura-se-nos tudo negro, distingue-se uma porta escura e esse sombrio cavalo da
vida, que vos arrastava, pra de sbito. E v-se um ente desconhecido, coberto
com um vu, a desatrel-lo nas trevas Principiava o crepsculo da tarde;  verdade
que se estava ainda nos dias curtos do ano na ocasio em que os rapazes, que
saam da escola, viram entrar aquele viajante em Tinques, por onde passou, sem
fazer paragem Ao desembocar da aldeia, um cantoneiro, que empedrava a estrada,
ergueu a cabea e disse:
     - Desgraado cavalo que vai estafado de todo!
     Com efeito, o pobre animal j no podia andar seno a passo.
     - O senhor vai a Arras? - perguntou o cantoneiro.
     - Vou.
     - Mas nesse passo no chega l muito cedo.
     O viajante fez parar o cavalo e perguntou ao cantoneiro:
     - Quanto falta ainda daqui a Arras?
     - Perto de sete lguas grandes.
     - Como assim! Mas o roteiro no marca seno cinco lguas e um quarto.
     - Mas  que o senhor no sabe que se est concertando a estrada e que a
encontra cortada daqui a um quarto de hora de caminho. No se pode passar para
diante.
     - Realmente?
     - Mas pode tomar  esquerda pelo caminho que vai a Carency e passar o rio;
chegando a Comblin volta  direita e est na estrada de Mont-Saint-Eloy, que
conduz a Arras.
     - Mas  j noite e perder-me-ei.
     - O senhor no  destes stios?
     - No.
     - Ento assim todo o caminho  mau. Olhe - continuou o cantoneiro - quer
que lhe d um conselho? O seu cavalo est estafado; volte para Tinques. H l uma
estalagem muito boa; fique nela esta noite e amanh ento seguir para Arras.
     - Preciso de l estar esta noite.
     - Isso ento  outra coisa. Mas v sempre  estalagem, alugue um cavalo de
reforo e o rapaz que o conduzir servir-lhes- de guia no atalho.
     O viajante adoptou o conselho do cantoneiro, voltou para trs e dali a meia
hora tornou a passar pelo mesmo stio, mas a trote largo, puxado ento por dois
cavalos.
     Sentado num dos varais do carro ia um moo de cavalaria que se intitulava
postilho.
     Contudo, Madelaine sentia fugir-lhe o tempo.
     Tinha j anoitecido completamente quando entraram no atalho. O caminho
tornou-se terrvel. O carro dava solavancos horrveis, pelas desigualdades do
terreno.
     Madelaine disse ao postilho:
     - Sempre a trote e tens gorjeta dobrada.
     Com um dos solavancos partiu-se um tirante.
     - O caminho  levado do diabo - disse o postilho - l se partiu o tirante.
Agora no sei como hei-de emparelhar os cavalos. Se o senhor quisesse voltar para
Tinques ficava l esta noite e de manh cedo podamos estar em Arras.
     - No tem um bocado de corda e uma navalha? - retorquiu-lhe o viajante.
     - Tenho, sim, senhor.
     Apeou-se, cortou um ramo de rvore e substituiu o tirante.
     Perderam nisto mais vinte minutos, mas partiram depois a galope.
     A plancie estava tenebrosa. Nevoeiros muito baixos, espessos e negros, como
que trepavam pelas colinas, destacando-se delas quais turbilhes de fumo. Nas
nuvens apareciam de vez em quando clares esbranquiados. O vento rijo do mar
produzia em todos os pontos do horizonte um rudo semelhante ao do arrastar de
mveis. Tudo o que se entrevia apresentava aspectos aterradores. Quantas coisas
se agitam com os vastos sopros da noite!
     Madelaine sentia-se repassado pelo frio. Desde a vspera que no tomara o
mnimo alimento. Recordava-se vagamente de outra corrida nocturna pelos
campos, nas proximidades de Digne, havia oito anos, e parecia-lhe que fora na
Vspera.
     De repente, ouvindo horas num relgio longnquo, perguntou ao postilho:
     - Que horas so?
     - Sete; s oito estaremos em Arras. Faltam apenas trs lguas.
     Neste momento, fez pela primeira vez a seguinte reflexo, achando
extraordinrio que lhe no tivesse ainda ocorrido: reflectiu que era talvez intil
todo o seu trabalho, que nem ao menos sabia a hora da audincia; que devia ter
obtido informaes a tal respeito; e que era uma coisa extravagante caminhar de
semelhante modo, sem saber se aproveitaria tamanha fadiga. Depois calculou que
ordinariamente as sesses de jri comeavam s nove horas da manh; que o
processo de que se tratava no devia ser demorado; que o roubo da fruta era coisa
insignificante; que no haveria em seguida seno uma questo de identidade,
quatro ou cinco depoimentos, e muito pouco que dizer pelos advogados; que,
portanto, chegaria depois de tudo concludo!
     O postilho fustigava os cavalos. Tinha j transposto a ribeira e deixado atrs
de si o Mont-Saint-Eloy.
     A noite tornava-se cada vez mais escura.



    VI
    A irm Simplcia em provao



     Na mesma ocasio, porm, em que isto se passava, sentiu-se Fantine
sobremodo alegre, depois de ter passado uma noite pssima, com uma tosse
terrvel, em crescimentos febris e sonhos contnuos, de tal modo que, quando o
mdico pela manh viera visit-la, a encontrara a delirar e com o ar desvairado,
que causam os acessos da febre.
     Fantine que havia recomendado que a prevenissem apenas chegasse
Madelaine, esteve triste toda a manh, falando pouco, fazendo dobras nos lenis
e murmurando em voz baixa clculos, que pareciam de distncias. Tinha os olhos
encovados e fixos, parecendo quase amortecidos, mas a intervalos
incendiavam-se-lhe, resplandecendo ento como estrelas. Parece que a claridade
do cu inunda de luz os que esto privados da claridade da terra, ao aproximar-se
de alguma hora sombria.
     De todas as vezes que a irm Simplcia lhe perguntava como se achava,
respondia ela invariavelmente:
     - Bem. O que eu queria era ver o senhor Madelaine.
     Alguns meses antes, Fantine, na ocasio em que acabara de perder o resto de
pudor, vergonha e alegria que ainda possua, era a sombra de si mesma; agora,
porm, era o espectro do que fora. O mal fsico completara a obra moral. Aquela
criatura de vinte e cinco anos tinha a fronte enrugada, as faces flcidas, as narinas
contradas, os dentes abalados, a ctis cor de chumbo, o pescoo descarnado, as
clavculas salientes, os membros mirrados, a pele terrosa, e muitos dos seus
cabelos loiros haviam embranquecido. Tal  o modo como a doena acelera
estranhamente a velhice!
     Ao meio-dia voltou o mdico, receitou, perguntou se tinha aparecido o
senhor Madelaine, e abanou a cabea.
     Madelaine costumava visitar Fantine pelas trs horas.
     Como a pontualidade provm da bondade, era pontual.
     Pelas duas e meia, Fantine comeou a agitar-se. No espao de vinte minutos
perguntou mais de dez vezes  religiosa:
     - Que horas so, minha irm?
     Deram afinal trs horas. Apenas soou a terceira martelada do relgio,
Fantine, que apenas se podia mover, sentou-se de repente na cama: juntou com
uma espcie de impulso convulsivo as duas mos descarnadas e amarelas, e a
religiosa ouviu sair-lhe do peito um suspiro profundo, dos que parece aliviarem de
um grande peso Fantine olhou em seguida para a porta. No entrou ningum; a
porta nem mesmo se abriu.
     Por um quarto de hora conservou-se na mesma posio, com os olhos fitos na
porta, imvel, e como contendo a respirao. A irm no ousava dizer-lhe coisa
alguma. O relgio da igreja deu um quarto depois das trs. Fantine deixou cair
novamente a cabea no travesseiro. No proferiu uma palavra e recomeou a fazer
dobras no lenol.
     Passou a meia hora, a hora, e no apareceu ningum. De cada vez que se
ouvia o som do relgio, Fantine erguia-se um pouco, olhava para a porta e tornava
logo a deixar-se cair.
     Sem que pronunciasse nome nenhum, sem que se queixasse, sem que
acusasse ningum, via-se-lhe claramente o pensamento. A tosse  que era cada vez
mais lgubre. Parecia que baixara sobre ela o que quer que era de obscuro. Estava
lvida e tinha os lbios azulados. Por momentos sorria-se.
     Soaram cinco horas; a irm ouviu-a dizer suavemente em voz baixa:
     - Mas, visto que eu me vou embora amanh, ele faz mal em no vir c hoje!
     A prpria irm se sentia surpreendida pela demora do senhor Madelaine.
     Entretanto, Fantine olhava para o dossel do leito; parecia diligenciar
recordar-se de alguma coisa. De repente, ps-se a cantar com voz fraqussima. A
religiosa apurou o ouvido Eis o que Fantine cantava:
     Havemos de ir  cidade Comprar mil coisas Formosas; Encarnadas so as
rosas, Roxo o lrio amo-te, amor!.
     Veio ontem visitar-me.
     L do cu, a virgem pura; Nos ombros trazia um manto De bordada cercadura.
     Entrou, sentou-se-me ao lado.
     Ps-se comigo a falar:
     - Aqui te trago - disse ela -, Envolto neste meu vu, O menino que me pediste
Duma vez, toma-o,  teu.
     Parte  cidade, traz pano,
     Compra linhas e dedal.
     Havemos de ir  cidade Comprar mil coisas Formosas.
     Virgem santa, um lindo bero, Que de fitas enfeitei, Para o meu querido
menino.
     Ao p do lar coloquei.
     No trocara o lindo infante Pela estrela mais brilhante, Que Deus faz luzir no
cu.
     - Dizei-me, agora, senhora.
     Deste pano que farei?
     - Faz um lindo enxovalzinho Para o menino que te dei.
     Encarnadas so as rosas, Roxo o lrio - amo-te, amor!
     - Lava-o primeiro no rio, Bem lavado, com sabo, E faz dele um roupozinho,
Que eu, por minha prpria mo, De mil flores bordarei.
     - Mas, senhora, que farei, Pois no vejo o meu menino?
     Que farei,  virgem pura?
     - Faz-me de pano um lenol,
     Para ir nele A sepultura.
     Havemos de ir  cidade Comprar mil coisas Formosas; Encarnadas so as
rosas, Roxo o lrio - amo-te, amor!
     Esta cano era uma velha romanza de embalar crianas, com que outrora ela
adormecia a sua Cosette, e que no se lhe tornara a apresentar ao esprito desde
que deixara de a ter consigo. Cantava-a, pois, com uma voz to triste e numa
toada to suave, que fazia chorar at uma religiosa. A irm de caridade, habituada
s coisas austeras, sentiu lgrimas nos olhos.
     O relgio deu seis horas. Fantine decerto no as ouviu. Parecia no dar
ateno a coisa alguma das que a rodeavam.
     A irm Simplcia mandou uma servente perguntar  porteira da fbrica se o
senhor maire j tinha entrado, e se iria sem demora  enfermaria. A servente
voltou passados poucos minutos. Fantine conservava-se imvel e parecia pouco
atenta s ideias que a dominavam. A servente contou em voz baixa,  irm
Simplcia, que o senhor maire sara antes das seis horas da manh num pequeno
tilbury, apesar do frio que fazia, que tinha ido s, sem ao menos levar cocheiro;
que no sabia o caminho que seguira; que algumas pessoas diziam t-lo visto
tomar pela estrada de Arras, e que outras asseguravam t-lo encontrado na estrada
de Paris; que quando partira se mostrara bondoso como de costume, e que apenas
dissera  porteira que o no esperasse naquela noite.
     Enquanto as duas mulheres segredavam, com as costas voltadas para a cama
da doente, a irm fazendo perguntas, e a servente conjecturas, Fantine, com a
vivacidade febril de certas doenas orgnicas, que confunde os movimentos livres
da sade com a medonha magreza da morte, ajoelhara na cama, com ambos os
punhos cerrados e apoiados no travesseiro, e dali passando a cabea pela abertura
das cortinas, pusera-se a escutar.
     De repente, exclamou:
     - Esto a falar do senhor Madelaine! Mas porque falam to baixo. O que fez
ele?
     Porque  que no vem?
     A sua voz era to spera e rouca que as duas mulheres, julgando ouvir uma
voz de homem, voltaram-se muito assustadas.
     - Respondam! - gritou Fantine.
     A criada balbuciou:
     - A porteira disseme que o senhor Madelaine no podia vir hoje.
     - Deite-se, minha filha - disselhe a irm - sossegue.
     Fantine, porm, sem mudar de atitude, tornou em voz alta e com um acento
ao mesmo tempo imperioso e dilacerante:
     - No pode vir? Porqu? Conhecem a razo, porque a diziam h pouco uma 
outra. Tambm eu a quero saber.
     A criada disse apressadamente ao ouvido da religiosa:
     - Diga-lhe que est ocupado no conselho municipal.
     A irm Simplcia corou ligeiramente: era uma mentira o que a criada lhe
aconselhara. Por outro lado bem sabia que dizer a verdade  doente, seria decerto
descarregar sobre ela um golpe terrvel, coisa extremamente grave no estado em
que se achava Fantine.
     Este rubor durou pouco. A irm ergueu para Fantine os olhos tranquilos e
tristes e disselhe:
     - O senhor maire ausentou-se da cidade.
     Fantine endireitou-se e sentou-se sobre os calcanhares. Os olhos
apresentaram de repente extraordinrio brilho; na dolorosa fisionomia
resplandeceu-lhe a mais inesperada alegria.
     - Partiu! - exclamou ela. - Foi buscar a minha Cosette!
     Depois ergueu ambas as mos ao cu, patenteando em todas as feies a mais
inefvel expresso. Movia os lbios: orava em voz baixa.
     Quando terminou a orao, continuou:
     - Minha irm, vou tornar a deitar-me; vou fazer tudo que me mandarem.
Ainda agora fui muito m, peo-lhe que me perdoe por ter falado to alto; bem sei
que no se deve falar alto, minha querida irm, mas bem v, agora estou satisfeita.
Deus  de muita bondade e o senhor Madelaine  muito boa pessoa. Imagine que
foi a Montfermeil, s para trazer a minha Cosette.
     E tornou a deitar-se, ajudou a religiosa a acomodar o travesseiro, e beijou
uma cruzinha de prata que trazia ao pescoo e que lhe fora dada pela irm
Simplcia.
     - Veja se sossega, minha filha - disse a irm  no fale mais.
     Fantine tomou entre as suas a mo da irm Simplcia, a qual sofria
extraordinariamente por lhe sentir aquele suor e prosseguiu:
     - Foi esta manh para Paris. Nem mesmo tem preciso de passar por l.
Vindo de l, Montfermeil fica um pouco  esquerda. Lembra-se como ele me
dizia: No tarda, no tarda? Quando eu ontem lhe falava de Cosette?  uma
surpresa que me quer fazer.
     Olhe, no sabe? Ontem fez-me assinar uma carta, dando ordem aos
Thenardier para a entregarem. Eles no podem neg-la, entreg-la-o, no 
verdade? No se lhes deve nada. As autoridades no consentiro que neguem uma
criana, tendo-se-lhes pago tudo. Minha irm, no me faa sinais para que no
fale! Sinto-me muito satisfeita, estou muito melhor, estou at j boa, porque vou
tornar a ver Cosette; at sinto vontade de comer. H quase cinco anos que no a
vejo. As religiosas como a minha irm no imaginam o apego que se tem aos
filhos! E depois, como ela deve estar bonita, ver! Tem uns dedinhos to rosados
H-de ter umas mos muito bonitas: quando tinha um ano eram ridculas. Agora
j est muito crescida; tem sete anos,  uma senhora. Eu chamo-lhe Cosette, mas o
seu nome  Eufrsia. Olhe, esta manh, estava eu olhando para a poeira que est
sobre o fogo, e no sei porque me veio  ideia que veria muito breve a minha
Cosette. Meu Deus! Que coisa to m que  estar assim anos sem ver os filhos! A
gente devia lembrar-se de que a vida no  eterna! Mas que bondade a do senhor
maire, em se ter posto a caminho!  verdade que faz muito frio, no ? Levaria ele
ao menos o seu capote? Amanh deve estar de volta, no  assim? H-de ser dia de
festa. Amanh pela manh, minha irm, h-de lembrar-me que ponha a minha
touca de rendas. Montfermeil  uma terra pequena. Noutro tempo andei aquele
caminho a p; para mim era muito longe, mas as diligncias andam depressa!
Amanh estar aqui com a minha Cosette. Quantas lguas so daqui a
Montfermeil?
     A irm de caridade que no tinha a mnima ideia das distncias,
respondeu-lhe:
     - Parece-me que poder estar de volta amanh.
     - Amanh! - exclamou Fantine. - Amanh beijarei a minha Cosette! V,
minha querida irm? J no estou doente. Sinto-me doida: era at capaz de
danar.
     Quem a tivesse visto um quarto de hora antes, no teria compreendido coisa
alguma daquela mudana. A cor voltara-lhe s faces, falava num tom de voz
natural, toda a sua fisionomia era um sorriso. Por momentos sorria-se, falando em
voz baixa.  que o jbilo materno assemelha-se  alegria infantil.
     - Est bem - disse a religiosa - agora que se sente feliz,  necessrio que faa o
que lhe digo: no fale mais.
     Fantine deitou a cabea no travesseiro e disse:
     - Sim, deita-te, s prudente, que vais ter a tua filha. A irm Simplcia tem
razo, todos aqui tm razo.
     E depois, sem se mover, sem voltar a cabea, ps-se a olhar para todos os
cantos, com os olhos muito abertos e com ar alegre, mas sem dizer mais nada. A
irm correu as cortinas, esperando que ela adormecesse.
     Entre as sete e as oito horas voltou o mdico. No sentindo o mnimo rudo,
julgou Fantine adormecida e entrou mansamente, aproximando-se do leito nos
bicos dos ps. Entreabriu as cortinas e  luz da lamparina viu os grandes e
sossegados olhos de Fantine que o fitavam.
     - No  verdade, senhor doutor, que a poderei ter ao p de mim, numa cama
pequenina?
     O mdico julgou-a em delrio. Fantine acrescentou:
     - H aqui exactamente lugar preciso para ela.
     O mdico chamou de parte a irm Simplcia, a qual lhe contou o que se
passara; contou-lhe que o senhor Madelaine se ausentara por um ou dois dias, e
que, na dvida, tinham julgado til no desenganar a doente, que acreditava ter o
senhor maire partido para Montfermeil; que era, em suma, possvel, que ela
tivesse adivinhado a verdade. O mdico aprovou o que tinham feito. Em seguida,
tornou a aproximar-se da cama de Fantine, que continuou:
     -  que, de manh, quando o pobre anjinho acordar, achar-me- logo ao p
de si; e de noite, como eu no durmo, v-la-ei dormir. H-de fazer-me bem a sua
respirao to suave, to doce.
     D-me a sua mo - disselhe o mdico.
     Fantine deitou o brao fora da roupa, exclamando e rindo ao mesmo tempo:
     - Olhe, j no tenho nada, j estou boa. Cosette chega amanh.
     O mdico ficou surpreendido. Estava com efeito, melhor. A opresso era
menor.
     O pulso estava regular.
     Aquele pobre ente exausto fora reanimado por uma espcie de vida
inesperada.
     - Senhor doutor, a irm no lhe disse que o senhor maire foi buscar a minha
jia?
     O mdico recomendou-lhe silncio e que evitasse todas as comoes
possveis.
     Receitou-lhe tambm um calmante para o caso de a febre reaparecer durante
a noite. A sada disse  irm de caridade:
     - Isto vai melhor. Se houvesse a felicidade do senhor maire chegar amanh
com a criana, quem sabe? H crises espantosas; tem-se visto grandes alegrias
fazer parar de repente doenas muito graves; bem sei que esta  uma doena
orgnica e muito avanada, mas estas coisas so de tal modo misteriosas! Se a
pequenita chegasse talvez a salvssemos.



    VII
    Depois de chegar ao seu destino, o viajante predispe-se para tornar a partir



    Eram quase oito horas da noite quando o carro que deixmos na estrada,
entrou no ptio da estalagem da casa da posta, em Arras. O homem a quem
seguimos at este momento, apeou-se, correspondeu distraidamente  solicitude
dos criados, mandou embora o cavalo que tomara de reforo, e conduziu
pessoalmente o branco  cavalaria; depois empurrou a porta de uma sala de
bilhar que havia no rs-do-cho, entrou, sentou-se e encostou-se a uma mesa.
     Gastara catorze horas no trajecto que contara fazer em seis. Tinha a
conscincia de que no fora sua a culpa; mas no ntimo no se sentia desgostoso
pela demora.
     Pouco depois apareceu a dona de estalagem e perguntou-lhe:
     - O senhor vem pernoitar? Quer cear?
     O viajante fez um sinal negativo com a cabea.
     - O moo da cavalaria disseme que o seu cavalo est muito fatigado.
     Aqui ele rompeu o silncio, dizendo:
     - Ento no poderei tornar a partir amanh de manh?
     -  senhor! O cavalo precisa, pelo menos, dois dias de descanso.
     - No  aqui a estao da posta? - perguntou ele.
     - , sim, senhor.
     E em seguida a dona da estalagem conduziu-o  administrao, onde visou o
passaporte, perguntando ele se seria possvel voltar na mala-posta dessa mesma
noite para Montreuil-sur-mer. Disseram-lhe que o lugar ao lado do condutor
ainda estava vago e ele tomou-o logo para si.
     -  necessrio que o senhor esteja aqui  uma hora em ponto para partir -
disse o escriturrio.
     Feito isto, saiu da estalagem e comeou a percorrer a cidade. No conhecia
Arras; as ruas eram escuras, caminhava ao acaso. Contudo, parecia obstinar-se em
no fazer a mnima pergunta. Atravessou a pequena ribeira Crinchon e achou-se
num ddalo de becos e travessas, nos quais se perdeu. Depois de ter hesitado por
um instante, resolveu dirigir-se a um burgus, mas no sem ter olhado para todos
os lados, como se receasse que algum ouvisse a pergunta que ia fazer:
     - Tem a bondade de me dizer onde  o palcio da justia?
     - O senhor, pelo que vejo, no  daqui?  retorquiu o burgus, um homem j
muito idoso. - Queira vir comigo; Vou tambm para esse lado, isto , para o lado
da prefeitura. Como se esto fazendo obras no palcio da justia, os tribunais
celebram provisoriamente as audincias na prefeitura.
     -  tambm a que tm lugar os julgamentos?
     - Sim, senhor. Onde  hoje a prefeitura era o pao do bispo antes da
revoluo. O senhor Conzi que era bispo desta diocese em 82, mandou fazer ali
uma grande sala, que  a mesma em que hoje se fazem as audincias.
     Continuando a caminhar, o burgus disse:
     - Se deseja assistir a algum julgamento, j  tarde. As audincias terminam,
ordinariamente, s seis horas.
     Todavia, chegando  praa, o burgus indicou-lhe quatro grandes janelas
iluminadas, na fachada de um vasto e tenebroso edifcio.
     - O senhor foi feliz, parece-me que ainda chegou a tempo. V aquelas quatro
janelas?  a sala do jri; e uma vez que esto iluminadas  porque ainda no
terminou a sesso. Naturalmente  alguma causa complicada, e por isso a
audincia entrou pela noite dentro.  talvez negcio em que o senhor se interessa?
 processo criminal? O senhor  testemunha?
     - No venho para nada disso - respondeu ele - preciso unicamente falar a um
advogado.
     - Isso  diferente - tornou o burgus. - Ali onde est a sentinela  que  a
porta, no ter mais do que subir a escada.
     Ao cabo de alguns minutos, conformando-se com as indicaes do burgus,
achava-se numa sala onde, estava muita gente e onde se viam, segredando nos
diferentes grupos, vrios advogados de toga.
      sempre uma coisa que aparta o corao, ver estes agrupamentos de homens
vestidos de preto, murmurando entre si nas proximidades das salas de audincia.
 muito raro que a caridade e a comiserao sobressaiam nas suas palavras. O que
delas sai, a maior parte das vezes, so condenaes resolvidas antecipadamente.
Estes grupos assemelham-se, para o observador que vai passando, a sombrios
cortios, onde os enxames de esprito zumbidores, constroem em comum toda a
espcie de tenebrosos edifcios.
     Aquela casa, espaosa e iluminada com um s candeeiro, ex-sala episcopal,
que agora servia de sala dos passos perdidos, e que era separada do tribunal por
uma porta de dois batentes, estava fechada naquele momento. A escurido era tal
que o senhor Madelaine no receou dirigir-se ao primeiro advogado que
encontrou:
     - Faz-me o favor de me dizer em que ponto esto?
     - J acabaram - respondeu o advogado.
     - Acabaram!?
     Esta palavra foi repetida por tal modo, que o advogado voltou-se para quem a
repetira - O senhor  talvez parente do ru?
     - No, senhor. No conheo aqui ningum. Mas houve condenao?
     - Sem dvida. No podia deixar de ser.
     - A trabalhos forados?
     - Por toda a vida.
     Madelaine continuou com voz fraca que mal se ouvia:
     - Foi provada a identidade?
     - Qual identidade? - perguntou o advogado. - No havia identidade a provar.
O caso era simples. A mulher tinha morto seu filho; provado o infanticdio e
rejeitando o jri a premeditao, foi condenada por toda a vida.
     -  ento uma mulher?
     - Certamente, chamada Limosin. Mas de que falava o senhor?
     - Eu, de nada; mas tendo terminado a audincia, porque  que a sala se
conserva iluminada?
     - Por causa do outro julgamento, que comeou h-de haver duas horas.
     - Que julgamento ?
     -  tambm um caso simples. Trata-se duma espcie de vagabundo, um
reincidente, um forado que cometeu um roubo. No sei o nome dele, mas tem
verdadeiro aspecto de bandido Pela minha parte bastava-me ver-lhe a cara, para o
mandar para as gals.
     - No haver maneira de entrar na sala?
     - No o julgo fcil, porque est l muita gente. A audincia agora est
interrompida, e como saram algumas pessoas, pode ser que encontre lugar para
quando continuar a sesso.
     - Por onde se entra?
     - Por aquela porta.
     E o advogado afastou-se. Em poucos instantes, Madelaine experimentava
quase ao mesmo tempo, e por assim dizer fundidas, todas as comoes possveis.
     As palavras daquele indiferente tinham-lhe atravessado simultaneamente o
corao quais agulhas de gelo, ou lminas candentes. Quando viu que ainda no
tinha terminado o julgamento, respirou: mas no teria podido dizer-se se o que
sentira era contentamento ou desgosto. Aproximou-se de vrios grupos e escutou
o que diziam.
     Como havia muitas causas a julgar, o juiz indicara para aquele mesmo dia,
dois processos simples e que deviam decidir-se com brevidade.
     Tinham comeado pelo infanticdio e passado depois ao forado, ao
reincidente, ao cavalo de retorno (Assim chamavam aos antigos grilhetas.).
     O tal homem tinha roubado uma poro de fruta, mas isso no parecia bem
provado; do que havia todas as provas era de ter estado nas gals de Toulon. Era
isto que lhe fazia maior carga.
     J tinha terminado o interrogatrio do ru e a inquirio das testemunhas,
mas faltava ainda a defesa pelo advogado e a requisitria do ministrio pblico;
isto tudo no podia terminar antes da meia-noite. O homem seria provavelmente
condenado; o delegado do procurador-rgio era muito bom nunca lhe escapavam
os acusados; era um moo de talento, que at fazia versos.
     Junto da porta que comunicava com a sala da audincia estava um oficial de
diligncias, a quem Madelaine perguntou:
     - Esta porta abre-se daqui a pouco, no  verdade?
     - No, senhor, no se torna a abrir.
     - Pois no se torna a abrir quando continuar a audincia?
     - A audincia j continuou - respondeu o oficial de diligncias - mas a porta
no se abre.
     - E porqu?
     - Porque a sala est cheia.
     - Pois no haver nem um lugar?
     - Nem um s. A porta est fechada, portanto no pode entrar mais ningum.
     O oficial de diligncias, depois de um momento de silncio, acrescentou:
     - H ainda dois ou trs lugares por detrs do senhor juiz, mas ele no deixa ir
para ali seno os funcionrios pblicos.
     O oficial de diligncias, disse estas palavras e voltou-lhe as costas.
     Madelaine retirou-se cabisbaixo, atravessou a antessala e tornou a descer a
escada vagarosamente e como hesitando a cada passo.  provvel que estivesse em
conselho consigo mesmo. O violento combate que nele se travava desde a vspera,
no terminara ainda, e a cada instante se sentia a braos com uma nova peripcia.
     Chegando ao patamar da escada, encostou-se ao corrimo e cruzou os braos.
De repente desabotoou a sobrecasaca, tirou do bolso a carteira, rasgou-lhe uma
folha e escreveu nela rapidamente a lpis, esta linha: Madelaine, maire de
Montreuil-sur-mer, depois tornou a subir rapidamente a escada, atravessou por
entre a multido, foi direito ao oficial de diligncias e entregou-lhe o papel,
dizendo ao mesmo tempo com autoridade:
     - Leve isto ao senhor juiz.
     O oficial de diligncias pegou no papel, lanou-lhe os olhos e obedeceu.
    VIII
    Entrada de favor



     O maire de Montreuil-sur-mer, sem que mesmo o suspeitasse, tinha uma
certa celebridade. Havia sete anos que a sua reputao de virtude percorria todo o
Baixo Bolonnais, acabando por ultrapassar os limites de um pequeno territrio e
espalhando-se pelas provncias vizinhas. Alm do servio que prestara  capital do
distrito, restaurando ali a indstria dos vidrilhos pretos, no havia uma s das
cento e quarenta comunas de Montreuil-sur-mer que lhe no devesse algum
benefcio. Tinha at achado o modo de ajudar e fecundar as indstrias dos outros
distritos. Fora assim que ele, numa ocasio crtica, sustentara com o seu crdito e
fundos a fbrica de fils de Bolonha, a fiao mecnica de linho de Prevent e a
manufactura hidrulica de tecidos de Boubers-sur-Canche. Por toda a parte se
pronunciava com venerao o nome do senhor Madelaine. Arras e Douai,
invejavam o maire da pequena mas feliz cidade de Montreuil-sur-mer.
     O conselheiro do supremo tribunal de Douai que presidia  audincia,
conhecia, como toda a gente, aquele nome to profundo e universalmente
respeitado. Quando o oficial de diligncias, abrindo discretamente a porta que
comunicava a casa do conselheiro com a sala da audincia, se inclinou por detrs
da cadeira do presidente e lhe entregou o papel que lhe tinham dado,
acrescentando: este senhor deseja assistir  audincia, o presidente fez um gesto de
deferncia e solicitude, pegou numa pena, escreveu algumas palavras no mesmo
papel, tornou a d-lo ao oficial de diligncias, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
     - Mande entrar.
     O desgraado de quem contmos a histria, ficara junto da porta da sala no
mesmo lugar em que o oficial de diligncias o deixara. Atrs da sua meditao
ouviu que algum lhe dizia:
     - O senhor maire d-me a honra de me seguir?
     Era o mesmo oficial de diligncias que pouco antes lhe voltara as costas e que
agora o cumprimentava, curvando-se at ao cho. Ao mesmo tempo entregou-lhe
o papel.
     Madelaine desdobrou-o e, como se encontrava prximo do candeeiro, pde
ler:
     O presidente do tribunal apresenta os seus respeitos ao senhor Madelaine.
     Amarrotou o papel nas mos, como se tivesse achado nas poucas palavras que
ele continha um sabor estranho e amargo.
     Em seguida acompanhou o oficial de diligncias.
     Dali a pouco achava-se numa espcie de gabinete estucado, de aspecto severo
e alumiado por duas velas, colocadas sobre uma mesa de pano verde. Tinha ainda
no ouvido as palavras do oficial de diligncias, que acabara de o deixar:
     Aqui  a casa do conselho, no tem mais do que levantar o fecho desta porta
para se encontrar na sala da audincia, por detrs da cadeira do senhor
presidente.
     Estas palavras confundiram-se-lhe no pensamento com uma vaga recordao
dos corredores estreitos e das escuras escadas que acabava de percorrer.
     O oficial de diligncias deixara-o s. Chegara o momento supremo.
Diligenciava recolher o esprito, mas no o conseguia.  principalmente nos
momentos em que h maior necessidade de ligar s pungentes realidades da vida
todos os fios do pensamento, que eles se quebram no crebro. Achava-se no stio
em que os juizes deliberam e condenam. Observava com estpida tranquilidade
aquela casa pacfica e temvel, onde se tinham destrudo tantas existncias, onde o
seu nome ia em breve ressoar e que o seu destino atravessava naquele momento.
Olhava para si e admirava-se de ser aquela uma tal casa e de ser ele quem ali se
encontrava.
     Havia vinte e quatro horas que no tomava alimento algum, tinha o corpo
pisado pelos solavancos do carro, mas no o sentia; parecia-lhe que no sentia
nada.
     Aproximou-se de uma moldura preta que estava pendurada na parede e sob
cujo vidro se via uma velha carta autografada de Nicolau Pache, ministro e maire
de Paris, datada, decerto por engano, de 9 de Junho, do ano XI, e na qual Pache
enviava  administrao do concelho a lista dos ministros e deputados presos em
suas casas.
     Quem o tivesse observado naquela ocasio, teria sem dvida julgado que lhe
causava grande interesse aquela carta, por isso que no afastava dela os olhos.
Leu-a duas ou trs vezes; leu-a maquinalmente e quase a seu pesar.
     Naquele momento era em Fantine e em Cosette que ele pensava. No meio da
sua meditao, voltou-se e viu o puxador da porta que o separava da sala da
audincia.
     Quase se esquecera daquela porta. Os olhos, em princpio sossegados,
fitaram-se nela, patentearam depois susto, e foram a pouco e pouco denotando o
mais sombrio espanto. O suor, saindo-lhe de entre os cabelos, corria-lhe pelas
fontes.
     Em certo momento e com uma espcie de autoridade mesclada de rebelio,
fez o gesto indescritvel, que quer dizer, e diz to bem: Com a fortuna! Quem 
que me obriga? Depois, voltou-se de repente, viu diante de si a porta por onde
tinha entrado, foi direito a ela, abriu-a e saiu.
     J no estava naquela casa: achava-se fora dela; num corredor muito
comprido e estreito, cortado de degraus e de portinhas, iluminado num e noutro
ponto por lanternas, cuja luz era to frouxa como a das lamparinas que
ordinariamente alumiam os quartos dos enfermos; era o mesmo corredor que j
percorrera. Respirou fundo e aplicou o ouvido; no ouviu o menor rudo de
nenhum dos lados e deitou a fugir como se o perseguissem.
     Depois de ter dado diferentes voltas pelo corredor aplicou novamente o
ouvido.
     Sempre o mesmo silncio e as mesmas sombras em torno de si. Faltava-lhe o
alento e tremiam-lhe as pernas; encostou-se ento ofegante  parede, porque os
seus passos eram vacilantes e trmulos como os de uma criana. Ao contacto da
pedra fria endireitou-se, estremecendo, com o suor gelado na fronte.
     Ento, a ss, de p, no meio daquela escurido, tremendo de frio e de outra
coisa talvez, ps-se a pensar. Pensara em toda a noite, pensara em todo o dia, e j
no ouvia seno uma voz que lhe bradava do ntimo:
     Ai de ti! Decorreu assim um quarto de hora. Por fim, curvou a cabea,
suspirou com angstia e voltou para trs, caminhando muito vagarosamente e em
extremo abatido.
     Parecia que algum o encontrava em fuga e o reconduzia para o stio donde
fugira.
     Tornou a entrar na casa do conselho. A primeira coisa para que olhou foi
para o puxador da porta. Este puxador, de cobre polido, resplandecia a seus olhos
qual estrela sinistra. Encarou-o como um cordeiro poderia encarar o olhar de um
tigre. No podia afastar dele os olhos.
     De vez em quando dava um passo e aproximava-se da porta. Se aplicasse o
ouvido, ouviria o confuso murmrio que vinha da sala vizinha, mas no escutava,
no ouvia nada.
     De repente, sem que soubesse como, achou-se ao p da porta e pegou
convulsivamente no puxador. A porta abriu-se.
     Estava na sala da audincia.
    IX
    Um lugar onde se vo formar convices



     Madelaine deu um passo, fechou maquinalmente a porta atrs de si e
conservou-se de p, contemplando quanto estava vendo.
     Era um vasto recinto frouxamente alumiado, ora cheio de rumor, ora em
completo silncio, onde todo o aparato de um processo criminal se desenvolvia
com a sua gravidade mesquinha e lgubre, no meio da multido.
     No extremo da sala em que ele se achava, alguns juizes com ar distrado, de
togas muito usadas, roendo as unhas, ou fechando os olhos com sono; no extremo
oposto uma multido de farrapos, gente de justia em toda a espcie de atitudes,
soldados de fisionomias honestas e rudes, velhas obras de talha ensebadas, um
tecto muito sujo, mesas cobertas de uma baeta mais amarela do que verde, portas
enegrecidas pelo contacto de muitas mos, pendurados quase junto do tecto
alguns candeeiros de botequim, dando mais fumo do que luz; sobre as mesas,
castiais de cobre com velas, a escurido, a fealdade e a tristeza; e, destacando-se
de tudo isto, uma impresso austera e augusta, que fazia sentir a presena dessa
grande coisa humana que se chama lei, e a dessa outra divina a que se chama
justia.
     Ningum de toda aquela multido atentou nele. Todos os olhos convergiam
para um nico ponto, para um banco de pau, encostado  portinha que ficava 
esquerda do presidente. Neste banco, alumiado por muitas velas, estava sentado
um campnio entre dois gendarmes.
     Este campnio era o tal homem.
     Madelaine no o procurou, viu-o logo. Os olhos fitaram-se-lhe nele, como se
soubessem antecipadamente onde o haviam de encontrar.
     Julgou ver-se a si mesmo, envelhecido, no completamente nas feies, mas
sim na atitude e no aspecto, os cabelos eriados, com o olhar bravio e inquieto,
com uma blusa, tal como ele estava no dia em que entrara em Digne cheio de dio
e ocultando na alma o pavoroso tesouro de pensamentos medonhos, que em
dezanove anos de gal ali acumulara.
     Ento, estremecendo, disse consigo:
     Oh, meu Deus! Tornar-me-ei assim?! O acusado parecia ter, pelo menos,
sessenta anos, e apresentava aspecto rude, estpido e espantadio.
     Ao rudo produzido pela porta, tinham-se afastado os que se lhe achavam
prximos para dar lugar ao recm-chegado; o presidente olhara para aquele lado,
e compreendendo que o personagem que entrara era o maire de
Montreuil-sur-mer, cumprimentara-o. O delegado do procurador-rgio que
conhecera o senhor Madelaine em Montreuil-sur-mer, onde as funes do seu
ministrio o tinham chamado mais de uma vez, reconheceu-o e cumprimentou-o
tambm.
     Ele apenas reparou nos cumprimentos; parecia alucinado, olhava e nada mais.
     Juizes, um escrivo, gendarmes, uma multido de cabeas cruelmente
curiosas, era o que j tinha visto uma vez, noutro tempo, havia vinte e sete anos.
Tornava a encontrar todas estas coisas funestas; estavam todas ali, moviam-se,
existiam; no representavam esforo de memria, ou miragem do pensamento,
eram verdadeiros juzes e verdadeiros gendarmes; verdadeira multido; homens
de carne e osso.
     Era tudo facto, via distintamente reaparecer e reviver em torno de si, com
tudo o que a realidade tem de terrvel, os aspectos monstruosos do seu passado.
Via tudo aquilo como veria a abertura de medonho abismo.
     Sentiu-se horrorizado, fechou os olhos e exclamou no mais profundo da sua
alma: Nunca!
     E por um trgico brinquedo do destino que lhe fazia vacilar todas as ideias e
quase o enlouquecia, tinha na sua presena um homem que era a sua sombra, que
era outro ele, a quem iam julgar e a quem todos chamavam Joo Valjean!
     Tinha diante dos olhos, inaudita viso!, uma espcie de comemorao do
momento mais horrvel da sua vida, executada pelo seu fantasma.
     No faltava nada; o mesmo aparato, a mesma hora da noite, quase os mesmos
rostos de juizes, de soldados e de espectadores.
     A nica diferena consistia em que por cima da cabea do presidente havia
um crucifixo, coisa que no se via nos tribunais do tempo em que fora condenado.
     Deus, quando o tinham julgado estava ausente.
     Atrs dele estava uma cadeira; sentou-se apavorado pela ideia de que
poderiam v-lo. Depois de estar sentado, aproveitou-se de uma ruma de pastas
que viu sobre a mesa dos juizes, para ocultar o rosto a toda a sala. Assim podia ver
sem ser visto.
     Entrou completamente no sentimento da realidade; a pouco e pouco, foi
recobrando a presena de esprito. Chegou por fim  fase do sossego em que 
possvel escutar.
     O senhor Barmatabois era um dos jurados.
     Procurou Javert, mas no o viu. O banco das testemunhas ficava oculto pela
mesa do escrivo. Alm disto, como j dissemos, a sala estava quase s escuras. No
momento em que ele entrou terminara o advogado do ru o seu discurso. A
ateno geral chegara ao maior grau de excitao; a audincia durava havia trs
horas.
     Havia trs horas que Aquela multido estava vendo vergar, a pouco e pouco,
sob o peso de terrvel verosimilhana um homem, um desconhecido, uma espcie
de ente miservel, profundamente estpido, ou profundamente hbil.
     Este homem,  j sabido, era um vagabundo que fora encontrado no campo,
levando um ramo de rvore carregado de fruta madura, e que tinha sido partido
no pomar dum cerrado de um vizinho, que se chamava Pierron.
     Quem era este homem?
     Fizera-se a inquirio, tinham sido ouvidas as testemunhas, unnimes nos
seus depoimentos, a luz brotara de todos os pontos da contestao.
     A acusao - dizia:
     Temos diante de ns, no somente um ladro de fruta, um ratoneiro, temos
em nosso poder um bandido, um relapso fora da residncia marcada; um
ex-forado, um celerado dos mais perigosos, um malfeitor chamado Joo Valjean,
que a justia procura h muito tempo, e que h oito anos, saindo das gals de
Toulon, roubou na estrada,  mo armada, um rapaz saboiano chamado Gervsio,
crime previsto pelo art. 383. do cdigo penal, pelo qual o processaremos depois,
quando a identidade estiver judicialmente provada.
     E cometeu agora um novo roubo.  um caso de reincidncia. Condenai-o
pelo facto recente; mais tarde ser julgado pelo facto remoto.
     Em presena desta acusao, em presena da unanimidade das testemunhas,
mostrava-se o ru, sobretudo, espantado. Ou fazia sinais e gestos negativos, ou
olhava para o tecto.
     Falava com dificuldade, respondia com embarao, mas, dos ps  cabea, todo
ele era uma negativa. Estava como um idiota na presena de todas aquelas
inteligncias dispostas em batalha  roda dele, como um estranho no meio
daquela sociedade que lhe lanara a mo.
     Todavia, tratava-se para ele do futuro mais ameaador; a verosimilhana
aumentava de minuto para minuto e toda aquela multido encarava com mais
ansiedade do que ele prprio, a sentena cheia de calamidades, que cada vez lhe
estava mais iminente sobre a cabea. Uma eventualidade deixara mesmo entrever
como possvel, alm das gals, a pena de morte, se o roubo de Gervsio terminasse
mais tarde por uma condenao.
     Quem era aquele homem?
     De que natureza era a sua apatia?
     Seria imbecilidade ou astcia?
     Compreendia ele tudo ou nada?
     Eram estas perguntas que dividiam a multido e que pareciam dominar
tambm o jri.
     Havia naquele processo qualquer coisa de aterrador e intrincado; no era
apenas sombrio aquele drama, era escuro, tenebroso.
     O defensor do ru desempenhara admiravelmente a sua misso, na
linguagem de provncia que noutro tempo constitua inteiramente a eloquncia
do foro e da qual usavam antigamente todos os advogados, tanto em Paris, como
em Romorantin ou em Montbrison, e que hoje, tendo-se tornado clssica, no  j
usada seno pelos oradores oficiais dos tribunais, aos quais ela convm pela
sonoridade grave e tom majestoso; linguagem em que a um marido se chama um
esposo, a uma mulher uma esposa, a Paris, o centro das artes e da civilizao; ao
rei um monarca, ao bispo um santo pontfice, ao delegado do procurador-rgio o
eloquente intrprete da vindicta, s acusaes e defesas os acentos que se acabam
de ouvir, a um teatro, o templo de Melpomene,  famlia reinante o augusto
sangue dos nossos reis, a um concerto uma solenidade musical, ao general
comandante da diviso o ilustre guerreiro, etc., aos alunos do seminrio tenros
levitas, aos erros imputados aos peridicos a impostura que destila o seu veneno
nas colunas desses rgos, etc., etc.: o advogado, pois, comeara por se explicar
sobre o roubo da fruta coisa pouco usada para bom estilo, mas o prprio Benigne
Bossuet foi obrigado a aludir a uma galinha, em plena orao fnebre, e soube
sair-se deste grave embarao pomposamente.
     O advogado estabelecera que no estava materialmente provado o roubo da
fruta.
     O seu cliente, a quem ele, na qualidade de defensor persistia em chamar
Champmathieu, no fora visto por pessoa alguma escalando o muro, ou
quebrando o tronco.
     Tinham-no prendido conduzindo aquele tronco (a que o advogado preferia
chamar ramo); mas ele dizia t-lo achado no cho. Onde estava a prova contrria?
     No havia dvida que aquele tronco fora quebrado e subtrado depois da
escalada, e em seguida abandonado pelo ratoneiro assustado; havia decerto um
ladro, mas o que provava que fosse Champmathieu esse ladro?
     Uma nica circunstncia. A sua qualidade de ex-forado.
     O advogado no negava que esta qualidade parecesse, desgraadamente,
provada; o acusado residia em Faverolles, exercera ali a profisso de podador; o
nome de Champmathieu bem podia ter tido por origem o de Joo Mathieu; tudo
isto era verdade; enfim, quatro testemunhas reconheciam sem hesitar e
positivamente Champmathieu, como sendo o forado Joo Valjean; a estas
indicaes, a estes testemunhos, no podia o advogado opor seno as negativas
interessadas, e portanto suspeitas, mas supondo mesmo que o forado fosse Joo
Valjean, era isso prova de que tivesse roubado a fruta?
     Era, quando muito, uma suposio e no uma prova.
     O advogado devia convir, na sua boa f, que fora pssimo o sistema de defesa
que o acusado adoptara.
     Obstinara-se a negar tudo: o roubo e a sua qualidade de forado. Ter-lhe-ia
sido inquestionavelmente muito mais til confessar este ltimo ponto, o que lhe
conciliaria a indulgncia dos juizes; o advogado aconselhara-lho, mas o acusado
recusara-se obstinadamente a isso, julgando sem dvida salvar-se no
confessando coisa alguma.
     Era um erro, mas no devia ter-se em conta a sua curta inteligncia? Aquele
homem era visivelmente estpido. A sua longa permanncia nas gals, a sua
grande misria fora delas, tinham-no embrutecido, etc., etc.; defendia-se mal, por
conseguinte, mas seria isso uma razo para o condenarem? Quanto ao caso de
Gervsio, no tinha o advogado que o discutir, por isso que no fazia parte da
acusao.
     O advogado conclura suplicando ao jri, se achasse evidente a identidade de
Joo Valjean, que lhe aplicasse as penas de polcia que puniam o condenado
quando mudava de residncia sem licena, e no o espantoso castigo que as leis
impunham ao forado reincidente.
     O delegado do procurador-rgio replicou ao defensor do ru; e foi veemente e
florido, como so habitualmente os delegados dos procuradores-rgios.
     Felicitou o advogado pela sua lealdade, de que ele se aproveitou com extrema
finura. Atacou o acusado com todas as concesses do defensor. O advogado
parecia conceder que o acusado fosse Joo Valjean. Tomou nota.
     O homem era, pois, Joo Valjean.
     Pertencia isto  acusao e no podia contestar-se.
     Aqui, o delegado, por uma hbil antonomsia, remontando s fontes e s
causas da criminalidade, declamou contra a imoralidade da escola romntica,
ento nascida apenas sob o nome de escola satnica, e que era combatida pelos
crticos da Quotidenne e da Oriflemane; e atribuiu, no sem verosimilhana 
influncia desta literatura perversa o dilecto de Champmathieu, ou para melhor
dizer, de Joo Valjean.
     Esgotadas estas consideraes, passou a tratar do prprio Joo Valjean. Quem
era Joo Valjean? Descrio de Joo Valjean: um monstro vomitado, etc.
     O modelo desta espcie de descries acha-se no recitativo de Thramne,
que no  til  tragdia, mas que presta todos os dias grandes servios 
eloquncia jurdica.
     O auditrio e os jurados tremeram. Terminada a descrio, continuou o
delegado num repto oratrio, prprio para no dia seguinte excitar ao mais alto
ponto o entusiasmo do jornal da prefeitura: E  um tal homem, etc., etc., etc.,
vagabundo, mendigo, sem meios de subsistncia, etc., etc., habituado pela sua.
vida passada s aces culpveis, e pouco corrigido pela pena de gals, que sofreu,
como o prova o crime cometido para com Gervsio, etc., etc.;  semelhante
homem, que encontrado numa estrada em flagrante delito de roubo e escalada,
nega tudo, nega o seu nome, a sua identidade!
     Alm de cem outras provas, sobre as quais no insistimos, quatro
testemunhas o reconheceram; Javert, o ntegro inspector de polcia Javert, e trs
dos seus antigos companheiros de ignomnia, os forados Brevet, Cheneldieu e
Cochepaile!
     Nega tudo. Que endurecimento! Fareis justia, senhores jurados, etc., etc.
     Enquanto o delegado falara, o acusado escutara-o de boca aberta, com uma
espcie de espanto que no era isento de admirao. Achava-se evidentemente
surpreendido de que um homem pudesse falar de semelhante modo.
     De tempos a tempos, nos momentos mais enrgicos da requisitria, nos
instantes em que a eloquncia, no podendo conter-se, transborda num fluxo de
eptetos infamantes e envolve o acusado como uma tempestade, meneara ele
lentamente a cabea da direita para a esquerda, e da esquerda para a direita,
espcie de protesto mudo e triste, com que se contentara desde o comeo do
julgamento.
     Duas ou trs vezes, os espectadores colocados mais perto dele lhe ouviram
dizer a meia voz:
     - Aqui est o que eu fiz em no pedir ao senhor Baloup!
     O delegado chamou a ateno do jri para aquela atitude estpida,
evidentemente calculada, e que denotava no imbecilidade, mas destreza, astcia,
hbito de iludir a justia, e que punha completamente a descoberto a profunda
perversidade daquele homem. Terminou em seguida mostrando-se reservado para
com o caso de Gervsio e reclamando severa punio.
    Esta punio como deve lembrar era o trabalho forado por toda a vida.
    O defensor levantou-se, comeou por cumprimentar o senhor delegado do
procurador-rgio, pelas suas admirveis palavras, e em seguida replicou como
pde, mas com menos firmeza: era claro que o terreno lhe fugia debaixo dos ps.



    X
    O sistema da negativa



    Chegara o momento de terminar o julgamento. O presidente mandou
levantar o ru e dirigiu-lhe a pergunta do estilo:
    - Tem alguma coisa a acrescentar  sua defesa?

     O ru, de p, enrolando e desenrolando o ensebado barrete, pareceu no
ouvir.
     O presidente repetiu a pergunta.
     O homem desta vez ouviu e indicou ter compreendido.
     Fez um movimento como de quem desperta, olhou  roda de si, encarou o
pblico, os soldados, o seu advogado, os jurados e o presidente, apoiou o
monstruoso punho sobre a velha teia que lhe ficava na frente, tornou ainda a olhar
para tudo, e de repente, fitando os olhos no advogado, comeou a falar. Foi uma
erupo.
     Pelo modo como as palavras lhe saam da boca, incoerentes, impetuosas,
embatendo-se umas com as outras e em perfeita confuso, parecia que lhe
acudiam todas duma vez, para sarem ao mesmo tempo. Disse ele:
     - O que eu tenho a dizer  que fui carpinteiro de carros em Paris, e at que
estive em casa do senhor Baloup.  uma peste aquele trabalho dos carros,
trabalha-se sempre ao ar livre, nos ptios, ou debaixo de telheiros, se o patro 
melhor, mas nunca em oficinas fechadas, porque vossemecs bem sabem que 
preciso campo largo. No Inverno, tem a gente tanto frio que  preciso esfregar os
braos, mas os patres  que no esto por isso, dizem eles que se perde tempo. 
uma coisa que custa muito lidar com ferro, quando as pedras esto cobertas de
neve. Isto d cabo dum homem muito depressa. Envelhece-se em pouco tempo:
quando um homem tem quarenta anos est pronto. Eu tinha cinquenta e trs e
estava muito doente. E depois, os operrios so ms peas! Quando um homem j
no  moo no fazem seno chamar-lhe estafermo! No ganhava mais que trinta
soldos por dia; os mestres aproveitavam-se da minha idade e pagavam-me o mais
barato que podiam. Ainda assim tinha a minha filha, que era lavadeira, e que
ganhava tambm alguma coisa; para os dois ia chegando. A rapariga levava
tambm muito m vida. Todo o dia metida numa celha at quase  cintura, 
chuva,  neve e ao vento, ainda que caia neve  preciso lavar sem descanso: h
gente que tem pouca roupa e que est sempre  espera da lavadeira; se no se lavar
com todo o tempo, perdem-se os fregueses. As aduelas so mal juntas e a gua cai
por toda a parte. Estar para ali uma mulher com as saias todas molhadas por
dentro e por fora.
     Isto  para matar! Ela trabalhava tambm no lavadouro dos Bnfants Rouges,
onde a gua sai por umas torneiras. L no se est na celha. A lavadeira ali lava
adiante de si,  torneira, e enxuga do outro lado, no tanque. Como  casa fechada
sente-se menos frio no corpo, mas fazem l uma barrela de gua quente que d
cabo da vista. A minha filha vinha para casa s sete horas da tarde, e sempre to
estafada que se deitava logo.
     O marido batia-lhe e ela morreu. Fomos pouco felizes. Sempre era uma
rapariga to sossegada, que nunca ia a divertimento nenhum Ainda me lembro
dum dia de Entrudo, em que ela s oito horas j estava deitada. Isto que eu digo 
verdico, no tm mais do que indagar. Mas,  verdade! Que bruto que eu sou!
Indagar o qu? Paris  muito grande, quem  que conhece ali o tio
Champmathieu? Ainda assim, em casa do senhor Baloup. Enquanto ao mais, nem
eu sei o que  que me querem.
     O homem calou-se e conservou-se de p. Tinha dito todas estas coisas com
uma voz alta, breve, rouca e spera, com uma espcie de ingenuidade irritada e
selvagem.
     No meio do seu aranzel interrompera-se para cumprimentar algum que
estava entre a multido.
     A espcie de afirmativas que ele parecia lanar ao acaso, saam-lhe como
soluos, acompanhando cada uma delas com o gesto de um rachador de lenha,
quando descarrega o machado.
     Quando ele terminou, rompeu o riso em todo o auditrio.
     Olhando ento para o pblico, e vendo que se ria, sem que compreendesse o
motivo, riu-se tambm.
     Era sinistro aquele espectculo.
     O presidente, homem recto e ao mesmo tempo benvolo, elevou a voz.
     Recordou aos senhores jurados que o senhor Baloup, antigo mestre
carpinteiro de carros, em casa de quem o acusado dizia ter servido, fora
inutilmente citado. Tinha falido, e no fora possvel encontr-lo.
     Depois, voltando-se para o acusado, convidou-o a escutar o que ia dizer-lhe e
acrescentou:
     - Voc est numa situao em que precisa reflectir. Pesam sobre a sua cabea
suspeitas muito graves e que lhe podem produzir consequncias capitais.
Acusado, em seu interesse interpelo-o ainda uma vez; explique-se claramente
sobre estes dois factos: Em primeiro lugar, saltou ou no o quintal de Pierron,
partiu o tronco e roubou as mas, isto , cometeu o crime de roubo com
escalada? Em segundo lugar,  ou no o forado liberto Joo Valjean?
     O acusado meneou a cabea com o ar de um homem que compreendeu
muito bem e que sabe o que vai responder.
     Abriu a boca, voltou-se para o presidente e disse:
     - Primeiro... Em seguida olhou para o barrete, depois para o tecto, e calou-se.
     - Acusado - tornou o delegado do procurador-rgio com voz severa - preste
ateno ao que se lhe diz: Voc no responde a coisa alguma das que se lhe
perguntam. A sua perturbao condena-o.  evidente que no se chama
Champmathieu, que  o forado Joo Valjean, que em princpio se ocultou sob o
nome de Joo Mathieu, que era o nome de sua me; que esteve no Auvergne e que
nasceu em Faverolles, onde exercia a profisso de podador.  evidente que
roubou, por meio de escalada, algumas mas maduras, do quintal de Pierron.
Tudo isto ser devidamente apreciado pelos senhores jurados.
     O acusado tinha-se sentado, mas quando o delegado acabou de falar,
levantou-se arrebatadamente e exclamou:
     - Voc  que  muito mau homem! Aqui est o que eu queria dizer, mas no
dava ao princpio com a palavra. Eu no roubei nada a ningum, eu sou um
homem que muitas vezes passo sem comer, porque o no tenho. Vinha de Ailly, e
como havia pouco tempo que tinha desabado uma grande trovoada de gua, que
ps os campos todos amarelos, de modo que os pntanos iam cobertos de gua a
mais no poder ser e no se viam seno as pontinhas da erva a sair das areias da
margem da estrada, achei um ramo quebrado no cho, ainda com mas, e
apanhei-o, muito longe de suspeitar que me havia de ser causa de tantos trabalhos.
H trs meses que estou preso e que andam comigo s voltas. Ora agora, que
hei-de eu dizer? Falam contra mim, dizem-me: Responda!. O gendarme, que 
bom rapaz, d-me sinal com o cotovelo e diz-me em voz baixa: Anda, responde;
mas eu no me sei explicar. Eu sou um pobre homem; disto no entendo, porque
nunca tive estudos. A est o que fizeram mal em no ver. Eu no roubei nada,
apanhei o que estava no cho. Os senhores falam de Joo Valjean, Joo Mathieu!
Eu no conheo esses homens, que so da aldeia, e eu trabalhei no boulevard do
Hospital em casa do senhor Baloup, e chamo-me Champmathieu.
     Tem graa dizerem-me onde eu nasci! Eu no o sei. Nem toda a gente tem
uma casa para vir ao mundo; se assim fosse, era um regalo. Eu julgo que meu pai e
minha me era gente que andavam por essas estradas; no sei mais do que isto.
Quando era criana chamavam-me pequeno, agora chamam-me velho So esses
os meus nomes de baptismo. Entendam l isto como quiserem. Estive em
Auvergne, estive em Faverolles.
     O que tem l isso? Ento no se pode ter estado em Auvergne, nem em
Faverolles, sem ter estado nas gals? Torno a dizer: eu sou Champmathieu, e no
roubei nada a ningum. Estive em casa do senhor Baloup, e a era o meu
domiclio. Os senhores, afinal de contas, j me aborrecem com os seus disparates
Porque  que andam to encarniados atrs de mim?
     O delegado do ministrio pblico, que permanecia de p, dirigiu-se ao
presidente:
     - Senhor presidente, em vista das negativas confusas, mas extremamente
hbeis do ru, que ainda que quisesse passar por idiota no seria capaz de o
conseguir, desde j o prevenimos, requeremos que tenha a bondade, bem como os
senhores jurados, de chamar a este recinto os condenados Brevet, Cochepaille e
Chenildieu, e o inspector de polcia Javert, e ainda outra vez interrog-los sobre a
identidade do ru com o forado Joo Valjean.
     - Devo observar ao senhor delegado - disse o presidente -, que o inspector de
polcia Javert, chamado no exerccio das suas funes,  capital do vizinho distrito,
apenas fez o seu depoimento saiu, no s da audincia, mas da cidade.
Concedemos-lhe a autorizao para se retirar, com o assentimento do senhor
delegado e do senhor advogado de defesa.
     -  exacto, senhor presidente - tornou o delegado.
     - Mas, em vista da ausncia do senhor Javert, julgo dever recordar aos
senhores jurados, o que ele h poucas horas disse neste mesmo lugar. Javert  um
homem geralmente estimado, e que honra pela sua rigorosa e estrita probidade as
funes subalternas, mas importantes.
     Eis o seu depoimento:
     No necessito de presunes morais e provas materiais que desmintam as
negativas do acusado. Reconheo perfeitamente. Esse homem no se chama
Champmathieu;  um ex-forado de pssimas qualidades e muito temido,
chamado Joo Valjean. Houve at grande pena de o soltarem, apesar de haver
concludo o tempo de castigo. Sofreu dezanove anos de trabalhos forados, por
um roubo qualificado. Alm do roubo de Gervsio, e desse de Pierron, tenho
ainda suspeitas de outro cometido em casa de sua grandeza o defunto bispo de
Digne. Quando fui guarda ajudante da chusma nas gals de Toulon, vi-o muitas
vezes. Repito que o reconheo perfeitamente.
     Esta declarao to categrica, pareceu produzir profunda impresso tanto no
pblico como no jri. O delegado terminou insistindo para que, na falta de Javert,
fossem ouvidas de novo e interpeladas solenemente as trs testemunhas, Brevet,
Cheneldieu e Cochepaille.
     O presidente deu uma ordem a um oficial de diligncias, e um momento
depois abriu-se a porta da sala em que estavam as testemunhas. O oficial de
diligncias, acompanhado de um gendarme, pronto a prestar-lhe auxlio,
introduziu na sala o condenado Brevet. O auditrio estava como suspenso, todos
os peitos palpitavam como se fossem animados por uma s alma.
     O antigo forado Brevet trazia o vesturio preto e pardo das casas centrais.
     Brevet era um homem de uns sessenta anos, com uma espcie de figura de
procurador de causas e o ar de um velhaco. Encontram-se por vezes juntas estas
qualidades. Na priso, aonde novas proezas o tinham reconduzido, tornara-se o
que quer que era como guarda-chaves. Era um homem de quem os chefes diziam:
Diligencia tornar-se til; e de quem os capeles testemunhavam os bons hbitos
religiosos.  necessrio no esquecer que tudo isto ocorria no tempo da
restaurao.
     - Brevet - disse o presidente - no pode prestar juramento porque sofreu uma
sentena infamante.
     Brevet baixou os olhos.
     - Todavia - continuou o presidente - mesmo no homem que a lei degradou,
pode conservar-se, quando a piedade divina o permite, um sentimento de honra e
de piedade.  para este sentimento que eu apelo neste momento decisivo. Se,
como julgo, ele existe ainda no seu ntimo, reflicta antes de me responder;
considere de um lado esse homem que uma palavra s pode perder, e do outro a
justia a quem pode esclarecer. O momento  solene; se julga ter-se enganado, 
ainda tempo de se retratar.
     Acusado, levante-se. Brevet, observe-o bem, concentre as suas recordaes e
diga-nos, com a alma e a conscincia, se persiste em reconhecer esse homem por
Joo Valjean, outrora seu camarada nas gals.
     Brevet olhou para o acusado e voltou-se para a mesa.
     - Sim, senhor presidente. Fui eu o primeiro que o reconheci e persisto em que
 o mesmo. Este homem  o Joo Valjean, que foi para Toulon em 1796, e que saiu
de l em 1815. Eu sa passado um ano. Agora parece ter assim o ar de um bruto: 
talvez da idade, nas gals era ele triste e dissimulado. Reconheo-o positivamente.
     - Sente-se - disse o presidente. - Acusado, conserve-se de p.
     Trouxeram em seguida Cheneldieu, condenado a trabalhos forados por toda
a vida, como o indicavam a roupeta vermelha e o barrete verde. Estava cumprindo
a sentena em Toulon de onde fora trazido a Arras para ser testemunha neste
processo.
     Era um homem baixo, com cinquenta anos, pouco mais ou menos, vivo,
encarquilhado, raqutico, amarelo, descarado, febril, que apresentava em todo o
seu fsico extrema fraqueza e no olhar uma fora imensa. Os seus companheiros
das gals tinham-no apelidado de Nega-a-Deus.
     O presidente dirigiu-lhe quase as mesmas perguntas que fizera a Brevet. No
momento em que o presidente lhe recordava que a sua infmia lhe tirava o direito
de prestar juramento, Cheneldieu levantou a cabea e encarou a multido. O
presidente convidou-o a recolher as recordaes e perguntou-lhe, como a Brevet,
se persistia em reconhecer o acusado.
     Cheneldieu soltou uma gargalhada.
     - Ora essa! Se o reconheo! Andmos cinco anos presos  mesma grilheta.
No te faas amarelo, meu velho!
     - Pode sentar-se - disse o presidente.
     O oficial de diligncias conduziu Cochepaille. Este outro condenado por toda
a vida, vindo de Toulon e vestido de vermelho como Cheneldieu, era um
campons de Lourdes, um semi-urso dos Pirinus.
     Guardara, rebanhos na montanha, e de pastor transformara-se em salteador.
     Cochepaille no era menos selvagem nem parecia menos estpido do que o
acusado.
     Era um desgraado dos que a natureza esboa para animais bravios, e que a
sociedade completa em forados.
     O presidente tentou mov-lo com algumas palavras patticas e graves, e
perguntou-lhe como aos outros, se persistia, sem hesitao ou dvida, em
reconhecer o homem que tinha diante de si.
     -  o Joo Valjean - disse Cochepaille -  o mesmo a quem chamavam
Jean-le-Cric (L], tanta era a fora que ele tinha!
     Cada uma das afirmativas destes trs homens, evidentemente sinceras e de
boa f, suscitara no auditrio um murmrio que crescia e se prolongava por muito
tempo, cada vez que uma nova declarao se juntava  precedente.
     O acusado escutara-as com a expresso de espanto que, segundo a acusao,
era o principal meio de defesa. A primeira, tinham-no os gendarmes que estavam
ao lado dele, ouvido dizer por entre os dentes: Bem, c est um! Depois, 
segunda, dissera um pouco mais alto e com ar quase satisfeito: bom!  terceira,
exclamou:
     Magnfico! - Acusado, ouviu o que se disse? O que tem a responder?
     - Eu respondo, magnfico!
     No mesmo momento rompeu no auditrio prolongado rumor, que quase se
comunicou ao juiz.
     - Oficiais de justia, faam restabelecer o silncio. Vo-se formular os
quesitos.
     Acto contnuo, houve certo movimento ao lado do presidente e ouviu-se uma
voz dizer:
     - Brevet, Cheneldieu, Cochepaille! Olhem para este lado!
     Todos os que ouviram esta voz se sentiram gelados, tanto ela era lastimosa e
terrvel. Todos os olhos se voltaram para o lado de onde ela partira. Um homem
que se encontrava entre os espectadores privilegiados que tinham assento por trs
da presidncia, levantara-se, empurrara a porta da teia que separava o tribunal do
pretrio, e avanara para o meio da sala. O presidente, o delegado, o senhor
Barmatabois, vinte pessoas em suma, o reconheceram imediatamente e
exclamaram:
     - O senhor Madelaine!
    XI
    Champmathieu cada vez mais admirado



     Era, com efeito, Madelaine. A vela que estava sobre a mesa do escrivo
iluminava-lhe o rosto. Tinha o chapu na mo, e a sobrecasaca cuidadosamente
abotoada; no se lhe notava o mnimo desalinho no vesturio. Estava muito plido
e tremia ligeiramente. Os cabelos, ainda grisalhos no momento em que chegara,
haviam-se-lhe tornado de todo brancos. Encanecera numa hora.
     Todas as cabeas se ergueram. A sensao foi indescritvel. Houve no
auditrio um momento de hesitao. A voz que se ouvira fora to pungente, o
homem que se apresentara no meio da sala parecia to tranquilo, que em
princpio ningum compreendeu coisa alguma. Todos perguntavam quem tinha
falado. Ningum podia acreditar que fosse aquele homem de aspecto to
sossegado, quem tivesse soltado o medonho grito.
     Esta indeciso durou apenas segundos. Antes mesmo que o presidente e o
delegado tivessem podido dizer uma palavra, o homem a quem todos ainda
chamavam senhor Madelaine, dirigira-se para as testemunhas Cochepaille, Brevet
e Cheneldieu.
     - No me reconhecem? - perguntou ele.
     Os trs forados ficaram estupefactos e fizeram com a cabea um sinal
negativo.
     Cochepaille, intimidado, fez-lhe uma continncia militar. Madelaine
voltou-se para os jurados e para a presidncia e disse com voz suave:
     - Senhores jurados, mandem soltar o acusado. Senhor presidente, mande-me
prender: o homem que procuram no  ele, sou eu. Sou Joo Valjean.
     Parecia que ningum respirava.  primeira comoo de espanto sucedera
silncio sepulcral. Sentia-se na sala uma espcie de terror religioso, que domina as
multides quando se efectua algum acontecimento.
     Entretanto, o rosto do presidente apresentava a expresso de simpatia e
tristeza, o presidente trocara rpido sinal com o delegado e algumas palavras em
voz baixa com os conselheiros assessores. Em seguida dirigiu-se ao pblico e
perguntou num tom que foi geralmente compreendido.
     - H por a algum mdico?
     Em seguida falou o delegado:
     - Senhores jurados, este incidente to extraordinrio e inesperado, no me
inspira, como aos senhores, seno um sentimento que no necessitamos
expressar.
     Todos conhecem, ao menos pela reputao, o honrado e respeitvel senhor
Madelaine, maire de Montreuil-sur-mer. Se no auditrio se encontra algum
mdico, juntemos o nosso pedido ao do senhor presidente, para que se apreste a
assistir ao senhor Madelaine, acompanhando-o  sua residncia.
     O senhor Madelaine no deixou o delegado acabar de falar. Interrompeu-o
num tom cheio de mansido e ao mesmo tempo de autoridade. Eis as palavras que
ele pronunciou; ei-las literalmente, tal como desde logo foram registadas na
audincia por uma das testemunhas desta cena, como soam ainda aos ouvidos dos
que as ouviram h perto de quarenta anos.
     - Agradeo ao senhor delegado os seus bons desejos, mas no estou louco,
como vou provar. Os senhores estavam a ponto de cometer um grave erro; soltem
esse homem, eu sou um infeliz condenado que venho cumprir um dever. Sou o
nico que digo a verdade, porque s eu vejo claro em tudo isto. O que fao neste
momento  compreendido por Deus, que me est vendo, e  quanto me basta.
Eis-me, pois, podem prender-me. No obstante, fiz quanto pude. Ocultei-me sob
outro nome, enriqueci, tornei-me maire, quis de novo ser contado entre a gente
de bem. Agora, parece-me uma coisa impossvel. Enfim, h muitas coisas que no
posso dizer, nem eu venho contar-lhes a minha vida, um dia a conhecero. 
verdade que roubei o senhor bispo,  ainda verdade que roubei o rapazinho
Gervsio. Tiveram razo para lhes dizerem que Joo Valjean era um malvado da
pior espcie. A culpa no , talvez, dele. Escutem, senhores juzes: um homem
cado to baixo como eu, no pode fazer a menor admoestao  Previdncia, nem
dar conselho algum  sociedade, mas notem que a infmia de que eu intentei sair 
uma coisa nociva. As gals fazem o forado. Registem, se querem, estas palavras.
Antes de ir para as gals, era eu um pobre campons pouco inteligente, uma
espcie de idiota; as gals transformaram-me. Era estpido, tornei-me mau; era
acha, tornei-me tio. Mais tarde, a Indulgncia e a bondade salvaram-me, como a
severidade me perdera. Mas desculpem-me, os senhores no podem compreender
o que lhes estou dizendo. Encontraro em minha casa, entre as cinzas do fogo, a
moeda de quarenta soldos que h sete anos roubei ao saboiano Gervsio. No
tenho mais nada a acrescentar. Agora prendam-me. Mas, meu Deus!, o senhor
delegado no me acredita, meneia a cabea e diz consigo: Madelaine perdeu a
razo.
     Eis o que em extremo me aflige. Ao menos no condenem este homem! O
qu Pois estas testemunhas no me reconhecem! Desejava que a estivesse Javert,
esse reconhecer-me-ia!
      impossvel dar ideia da benvola melancolia e do tom sombrio em que
foram ditas estas palavras.
     Em seguida voltou-se para os trs forados:
     - Pois bem, eu reconheo-o, Brevet! No se lembra... Interrompeu-se, hesitou
um momento e continuou:
     - No te lembras daqueles suspensrios bordados em xadrez, que tu tinhas
nas gals?
     Brevet sentiu uma espcie de repelo de surpresa e mirou-o de alto a baixo.
     Madelaine continuou:
     - Tu, Cheneldieu, que te apelidavas a ti mesmo f me Dieu, tens o ombro
direito todo queimado, porque te deitaste um dia em cima dum braseiro para
apagares as trs letras T. F. P , que ainda depois se continuaram a distinguir. 
verdade ou no ?
     -  verdade - disse Cheneldieu.
     Depois dirigiu-se a Cochepaille:
     - Cochepaille, tu tens junto do sangradouro do brao esquerdo uma data em
letras azuis.  a data do desembarque do imperador em Cannes; 1. de Maro de
1815.
     Arregaa a manga.
     Cochepaille, arregaou a manga e todos os olhos se lhe fitaram no brao nu.
     Um gendarme aproximou uma vela: ali estava, com efeito, a data.
     O desgraado voltou-se para o auditrio e para os juzes com um sorriso, que
ainda no se pde apagar da memria dos que o viram, e que se sentem ainda
angustiados quando pensam nele. Era o sorriso do triunfo, mas era tambm o do
desespero.
     - Bem vem - disse ele - que sou, com efeito, Joo Valjean.
     Em todo o recinto j no havia juzes, nem acusadores, nem gendarmes; no
havia seno olhos fitos num s ponto e coraes opressos. Ningum se lembrou
mais do papel que tinha de desempenhar: o delegado esqueceu-se de que estava ali
para acusar, o presidente para dirigir a audincia, e o advogado para defender.
     Coisa extraordinria! Ningum fez a mnima pergunta, no interveio
autoridade alguma.
     A feio caracterstica dos espectculos sublimes consiste no modo porque se
apoderam de todas as almas e transformam todas as testemunhas em
espectadores; sem dvida, nem uma s pensou em que estava vendo resplandecer
uma grande luz; e todos interiormente se sentiam deslumbrados. No havia a
menor dvida de que se achava presente Joo Valjean. Era clarssimo.
     A apario deste homem fora suficiente para inundar de luz toda aquela
questo, um momento antes to obscura. Sem que fosse necessria a mais
pequena explicao ulterior, toda aquela multido, por uma espcie de revelao
elctrica, compreendera rapidamente a simples e magnfica histria de um
homem que se denunciara para que em seu lugar no fosse condenado um
inocente. Os pormenores, as hesitaes, as fugitivas resistncias possveis, tudo se
passou naquele facto luminoso.
     Esta impresso dissipou-se depressa, mas naquele momento foi irresistvel.
     - No desejo interromper por mais tempo a audincia - disse Joo Valjean. -
Retiro-me, visto que me no prendem, tenho muito que fazer. O senhor delegado
sabe quem eu sou e para onde vou, far-me- prender quando quiser.
     E dirigiu-se para a porta. Nem uma voz se ouviu, nem um brao se levantou
para lhe obstar  sada. Todos se afastaram.
     Naquele momento tinha ele em si qualquer coisa de divino que fez recuar a
multido. Atravessou, pois, vagarosamente por entre ela. Nunca ningum soube
quem abriu a porta, mas  certo que a achou aberta. Chegando ali, voltou-se para
trs, dizendo:
       - Senhor delegado, fico  sua disposio.
     Depois dirigiu-se ao auditrio:
     - Todos me julgam digno de compaixo, no  verdade? Meu Deus., quando
penso no que estive a ponto de fazer, sinto-me digno de inveja. Todavia estimara
mais que nada disto sucedesse.
     Saiu e a porta fechou-se como se abrira; todos os que praticam certas aces
soberanas, tm sempre a certeza de ser servidos por alguns dos que os admiram.
     Ainda no tinha decorrido uma hora quando o veredicto do jri aliviou
Champmathieu de todas as acusaes.
     Champmathieu, solto imediatamente, saiu estupefacto, julgando toda aquela
gente doida, e sem compreender coisa alguma de to extraordinria viso.


L08:
    Livro Oitavo
    Desforra



    I
    Em que espelho Madelaine contempla os cabelos



     O dia comeara a despontar. Fantine passara uma noite de febre e insnia,
mas no obstante povoada de felizes imagens; de madrugada adormecera.
     A irm Simplcia, que toda a noite velara junto dela, aproveitou este sono
para ir preparar um calmante A digna irm de caridade estava, havia alguns
instantes, no laboratrio da enfermaria, curvada sobre as drogas e sobre os
diferentes vidros, observando-os muito de perto, por causa da espcie de nevoeiro
que o crepsculo lana sobre todos os objectos. De repente, voltou a cabea e
soltou um pequeno grito.
     Tinha diante de si o senhor Madelaine, que ali entrara silenciosamente.
     - Ah!  o senhor maire! - exclamou ela.
     Madelaine perguntou em voz baixa:
     - Como est essa pobre mulher?
     - Agora est menos mal. Mas chegmos a estar bem inquietas.
     Depois contou-lhe o que ocorrera: que Fantine estivera muito mal na vspera,
mas que se achara depois melhor, porque acreditara que o senhor maire tinha ido
a Montfermeil buscar-lhe a filha. A irm no ousou interrogar o maire, mas bem
percebeu que no era dali que ele vinha.
     - Fizeram muito bem em no a desenganar - disse ele.
     - Sim - tornou a irm. - Mas vendo-o ela agora e sabendo que no lhe traz a
filha, que lhe havemos de dizer?
     Madelaine conservou-se por um instante pensativo e depois respondeu:
     - Deus nos inspirar.
     - Seja como for, no se deve mentir - murmurou a irm, em voz baixa.
     Entretanto amanhecera. A claridade iluminava todo o quarto. De sbito, a
irm, levantando os olhos por acaso para Madelaine, a quem a claridade batia de
chapa no rosto, exclamou:
     - Jesus! Que foi que lhe sucedeu? Tem os cabelos todos brancos!
     - Brancos?! - disse ele.
     A irm Simplcia no tinha espelho, mas abriu um estojo de cirurgia e tirou
um espelhinho de que se servia o mdico da enfermaria para se convencer de que
qualquer doente estava morto vendo que j no respirava.
     Madelaine pegou no espelho, viu nele os cabelos e disse:
     -  verdade!
     Esta palavra pronunciou-a ele com indiferena e como que pensando noutra
coisa.
     A irm de caridade sentiu-se gelada pelo que quer que era de desconhecido,
que lhe parecia entrever em tudo aquilo.
     - Posso v-la? - perguntou ele.
     - Mas o senhor maire no lhe manda buscar a filha? - disse a irm, ousando
apenas arriscar-se a uma pergunta.
     - Sem dvida, mas para isso so necessrios dois ou trs dias.
     - Ento, se ela daqui at l no vir o senhor maire - tornou timidamente a
irm - no saber que j voltou e mais facilmente se obter que se resigne; quando
a criana chegar pensar naturalmente que foi o senhor maire quem a trouxe.
Deste modo no haver mentira.
     Madelaine pareceu reflectir um instante e disse depois com gravidade e
sossego:
     - No, minha irm, preciso v-la. No poderei talvez demorar-me.
     A religiosa pareceu no notar a palavra talvez e respondeu respeitosamente,
baixando os olhos:
     - Ela est a descansar, mas o senhor maire pode entrar.
     Madelaine fez algumas observaes sobre uma porta que se fechava mal e que
produzindo bulha podia despertar a doente, em seguida entrou no quarto de
Fantine, aproximou-se do leito e entreabriu as cortinas.
     Estava a dormir.
     A respirao saa-lhe do peito com o rudo trgico prprio daquelas doenas,
e que faz esmorecer as pobres mes que velam  cabeceira de um filho
adormecido, apesar de condenado. Mas esta respirao difcil mal lhe perturbava
uma espcie de serenidade inefvel espalhada em todo o rosto e que a
transfigurava enquanto dormia.
     Fantine tinha as faces vermelhas e o que era palidez convertera-se em
brancura.
     As compridas pestanas loiras, nica beleza que lhe restava da sua virgindade e
juventude, apesar de cerradas e baixas, palpitavam. Toda ela tremia como que um
abrir de asas prestes a levantar voo e a lev-las, asas que se sentiam agitar, mas que
no se viam. Quem a visse daquele modo no poderia acreditar que era uma
enferma quase sem esperana. Assemelhava-se mais ao que est para voar do que
ao que est para morrer.
     O arbusto, quando a mo se lhe aproxima para lhe tirar a flor, estremece, e
parece ao mesmo tempo esquivar-se e oferecer-se. O corpo humano participa um
tanto desse estremecimento quando chega o instante em que os dedos misteriosos
da morte lhe vo colher a alma.
     Madelaine conservou-se por algum tempo imvel junto do leito, olhando
simultaneamente para a doente e para o crucifixo, como o fizera dois meses antes,
no dia em que fora pela primeira vez visit-la quele asilo. Estavam ainda ambos,
na mesma atitude, ela dormindo, ele orando; a diferena era que agora, e depois
desses dois meses, tinha ela os cabelos grisalhos e ele tinha-os brancos.
     A irm no entrara juntamente com Madelaine.
     Este estava, pois, junto do leito, de p, e com um dedo sobre os lbios, como
se quisesse impor silncio a algum que estivesse no quarto. Entretanto, Fantine
abriu os olhos, e ao v-lo ali, disselhe, sorrindo com serenidade:
     - E Cosette?



    II
    Fantine feliz



     Fantine no fez um s movimento de surpresa nem de alegria. Aquela simples
pergunta: E Cosette?, foi feita com uma f to profunda, com tanta certeza, com
to completa ausncia de inquietao e de dvida, que Madelaine no achou uma
nica palavra que lhe responder.
     Fantine continuou:
     - Eu j sabia que o senhor se encontrava a, estava a dormir, mas via-o. H
muito tempo que o estava vendo; segui-o com os olhos toda a noite. O senhor
estava no centro de uma aurola brilhante e tinha em volta de si toda a espcie de
figuras celestes.
     Madelaine ergueu os olhos para o crucifixo.
     - Mas - continuou ela -, diga-me, onde est Cosette? Por que no a ps sobre
a minha cama, para que eu a visse assim que acordasse?
     Madelaine respondeu-lhe o que quer que foi de que mais tarde no pde
lembrar-se.
     Felizmente chegou o mdico, que tinha sido prevenido e que acudiu em
auxlio de Madelaine.
     - Sossegue, minha filha. A menina est ali.
     Os olhos de Fantine iluminaram-se e inundaram-lhe de luz todo o rosto.
Juntou ao mesmo tempo as mos com uma expresso que continha tudo o que na
splica pode haver de mais violento e mais suave.
     - Tragam-ma! - exclamou ela.
     Enternecedora iluso maternal! Cosette continuava a ser para ela a criancinha
de colo.
     - Por ora no, porque ainda tem febre - tornou o mdico. - A presena de sua
filha agit-la-ia e far-lhe-ia mal.  preciso, primeiro que tudo, restabelecer-se.
     Fantine interrompeu-o impetuosamente:
     - Mas eu j estou boa! Afiano-lhe que j no tenho nada!  tolo este mdico!
     Ento... quero ver minha filha!
     - Bem v - disse o mdico - o modo porque se inquieta. Enquanto estiver
nesse estado hei-de opor-me sempre a que lhe deixem ver a menina. No 
bastante v-la,  preciso que viva para ela. Quando se mostrar mais razovel eu
mesmo lha trarei.
     A pobre me curvou a cabea.
     - Perdoe-me, senhor doutor, peo-lhe que me perdoe. Noutro tempo no
teria falado como o fiz agora, mas tm-me sucedido tantas desgraas que s vezes
nem sei o que digo. Compreendo muito bem, o senhor receia alguma comoo;
esperarei quanto quiser, mas juro-lhe que me no faria mal v-la. Eu vejo-a, desde
ontem  noite que no tiro os olhos dela. Quer at que lhe diga? Se ma trouxessem
agora falar-lhe-ia muito devagarinho. A est. Pois no  natural que eu deseje ver
a minha filha, a quem expressamente foram buscar a Montfermeil? Eu no estou
zangada. Tenho a certeza de que vou ser feliz. Toda a noite estive vendo coisas
brancas e rostos que se sorriam para mim. Quando o senhor doutor quiser,
traga-me Cosette. J no tenho febre, j estou curada, sei muito bem que no
tenho nada, mas vou estar como se me achasse doente: no me hei-de mexer, para
fazer a vontade s senhoras que aqui esto. Quando virem que estou muito
tranquila, ho-de dizer: no h remdio seno entregar-lhe a filha.
     Madelaine sentou-se numa cadeira que estava ao lado da cama, Fantine
voltou-se para ele, fazendo visveis esforos para parecer tranquila e prudente,
como ela dizia com o enfraquecimento da doena que se assemelha  infncia, a
fim de que, vendo-a to pacfica, no tivessem dificuldade em lhe levarem Cosette.
     Entretanto, mesmo contendo-se, no podia abster-se de dirigir a Madelaine
interminveis perguntas:
     - Foi boa a sua jornada, senhor maire? Que bondade a sua em ir busc-la!
Diga-me s como ela est. Veio bem pelo caminho? Decerto no me conhece? H
tanto tempo, por fora se esqueceu de mim, pobre anjinho! As crianas no tm
memria, so como os passarinhos. Hoje vem uma coisa, amanh outra, e no
pensam em nada.
     E ela tem roupa branca? Os Thenardier traziam-na limpa? Alimentavam-na
bem? Se soubesse como eu sofria dirigindo a mim mesma todas estas perguntas
no meio da minha misria! Agora j no  assim! Estou muito alegre! Como eu
desejo v-la!
     Achou-a bonita, senhor maire? No  bonita a minha filha? O senhor havia
de sentir bastante frio na diligncia. No ma podiam trazer s por um bocadinho?
Levavam-na logo outra vez! Diga, senhor maire! Se o senhor quisesse! O senhor 
quem manda aqui!
     Madelaine pegou-lhe na mo.
     - Cosette  bonita - disse ele - e passa excelentemente. H-de v-la em breve,
mas por agora sossegue. Est falando com muita vivacidade e depois descobre os
braos, o que lhe faz aumentar a tosse.
     Com efeito, a tosse interrompia-a de momento a momento.
     Fantine no respondeu coisa alguma, receou ter comprometido por algumas
expresses demasiadamente apaixonadas a confiana que desejava inspirar, e
passou a dizer coisas indiferentes.
     - Montfermeil  uma terra bonita, no  verdade? No Vero vai l muita gente
passear. Os Thenardier fazem negcio? Por ali h pouco trnsito, e depois a
estalagem que eles tm  uma espcie de baiuca.
     Madelaine segurava-lhe ainda a mo e contemplava-a Com angstia. Era
evidente que fora ali para lhe dizer coisas, perante as quais o pensamento parecia
hesitar.
     O mdico, tendo feito a sua visita, retirara-se. S ficara junto deles a irm
Simplcia!
     De repente, no meio do silncio, Fantine exclamou:
     - Oio-a, meu Deus! Oio-a!
     Estendeu os braos para que se conservassem silenciosos, conteve a
respirao e aplicou ouvido como escutando.
     Era uma criana que andava a brincar no ptio, talvez a filha de alguma
operria.
     Era este um dos acasos que se encontram sempre e que parece fazerem parte
do misterioso cenrio dos acontecimentos lgubres. A criana era uma
rapariguinha, que andava correndo de um lado para o outro, rindo e cantando em
voz alta. Ah! Ao que se aliam muitas vezes os brinquedos de crianas! Era esta
pequenina que Fantine ouvia cantar.
     -  a minha Cosette! - tornou ela. - Bem lhe conheo a voz!
     A criana afastou-se pelo mesmo modo porque se aproximara, a voz deixou
de se ouvir. Fantine escutou ainda por algum tempo, depois o rosto
anuviou-se-lhe e o senhor Madelaine ouviu-a dizer em voz baixa:
     - Sempre  muito mau este mdico em no me deixar ver a minha filha! Se ele
tem to m cara!
     Todavia, o fundo risonho das suas ideias reapareceu.
     Com a cabea no travesseiro continuou a falar:
     - Como ns vamos ser felizes! Em primeiro lugar havemos de ter um
jardinzinho, o senhor Madelaine prometeu-mo. A minha filha h-de brincar no
jardim. Ela j deve conhecer as letras, hei-de faz-la soletrar. Como hei-de gostar
de a ver correr atrs das borboletas! E depois h-de ir  sua primeira comunho. 
verdade! Quando ir ela  primeira comunho? Um... dois... trs... quatro... tem
sete anos. H-de levar um vu branco e meias abertas, h-de parecer uma
mulherzinha. Oh, minha boa irm, ento no sou eu doida?! Pensar j na primeira
comunho da minha filha!
     E, dizendo isto, riu-se.
     Madelaine largara a mo de Fantine. Escutava o que ela dizia como se escuta
o sibilar do vento, com os olhos no cho e o esprito mergulhado em reflexes sem
fundo. A pobre me calou-se de repente, o que o fez erguer maquinalmente a
cabea.
     Fantine tornara-se medonha. No s no falava, mas parecia nem respirar,
estava quase sentada na cama, o ombro magrssimo saa-lhe da camisa, o rosto
pouco antes radiante, estava lvido e os olhos, parecendo ainda maiores por efeito
do terror, fitavam-se na extremidade oposta do quarto, como se ali estivesse
algum objecto tremendo.
     - Jesus! - exclamou Madelaine. - O que tem, Fantine?
     A doente no lhe respondeu, nem afastou os olhos do que quer que era que
julgava ver e, tocando-lhe no brao com uma das mos, fez-lhe com a outra sinal
para que olhasse para trs de si.
     Madelaine voltou-se e viu Javert.



    III
    Javert satisfeito



     Eis o que sucedera:
     Dava meia-noite quando Madelaine saiu do tribunal de Arras. Tinha chegado
 estalagem justamente a tempo de partir na mala-posta, da qual, como  sabido,
tomara um lugar. Pouco antes das seis da manh, chegara a Montreuil-sur-mer e
o seu primeiro cuidado fora lanar no correio a sua carta para Laffite e em seguida
dirigir-se  enfermaria para ver Fantine.
     Apenas, porm, ele se ausentara da sala da audincia, o delegado, voltando a
si do primeiro arrebatamento, tomou a palavra para deplorar o acto de loucura do
respeitvel maire de Montreuil-sur-mer, declarando que as suas convices em
nada tinham sido modificadas por aquele extraordinrio incidente, que mais tarde
se esclareceria, e requerera entretanto a condenao de Champmathieu, que era
evidentemente o verdadeiro Joo Valjean. A persistncia do delegado estava em
visvel contradio com o sentimento de todos, do pblico, do juiz e dos jurados.
O advogado tivera pouco trabalho para refutar esta arenga e estabelecer que,
depois das revelaes do senhor Madelaine, isto , do verdadeiro Joo Valjean, se
achava completamente prejudicado aquele processo e que o jri j no tinha na
sua presena seno um inocente. Ao advogado, que disto fizera objecto para
alguns epifonemas, infelizmente pouco originais, sobre os erros judicirios, etc.,
etc., juntara-se o presidente no seu sumrio e, da a poucos minutos,
Champmathieu era plenamente absolvido pelo jri.
     Todavia, o delegado necessitava dum Joo Valjean, escapando-lhe
Champmathieu, lanou mo de Madelaine.
     Imediatamente depois da soltura de Champmathieu, encerrou-se o delegado
com o presidente e conferenciaram ambos sobre a necessidade de se apoderarem
da pessoa do maire de Montreuil-sur-mer. Estas palavras foram escritas pelo
delegado na minuta do seu relatrio ao procurador-rgio.
     Passada a primeira impresso, o presidente fez poucas objeces. Era preciso
que a justia seguisse o seu curso. E depois, para se dizer tudo, o presidente, apesar
de ser um homem bondoso e bastante inteligente, era ao mesmo tempo muito
realista, e por isso sentira-se agastado por o maire de Montreuil-sur-mer, ter dito
imperador e no Bonaparte, quando falara do desembarque em Cannes.
     A ordem de priso foi logo expedida. O delegado mandou-a imediatamente
para Montreuil-sur-mer por um correio, a toda a brida, ao inspector de polcia
Javert.
     Como se sabe, Javert voltara para Montreuil-sur-mer, apenas fizera o seu
depoimento.
     Javert levantara-se da cama havia pouco, quando o correio lhe entregou o
mandato de priso.
     O prprio correio era um empregado de polcia muito entendido, o qual, em
duas palavras, ps Javert ao facto de quanto sucedera em Arras. A ordem de
priso assinada pelo delegado do procurador-rgio era concebida nestes termos:
     Ordeno ao inspector Javert que prenda o senhor Madelaine, maire de
Montreuil-sur-mer, que na audincia de hoje foi reconhecido como o forado livre
Joo Valjean.
     Quem no conhecesse Javert e que o tivesse visto no momento em que entrou
na antecmara da enfermaria, no poderia adivinhar coisa alguma do que se
passava, e ter-lhe-ia achado o aspecto mais natural que poderia imaginar-se.
Estava tranquilo, frio, grave, com os cabelos grisalhos perfeitamente penteados, e
acabara de subir a escada vagarosamente, como costumava.
     Mas quem o conhecesse bem e o examinasse atentamente, teria estremecido.
A fivela da sua gravata de coiro, em vez de estar na nuca, estava ao p da orelha
esquerda, sinal de agitao inaudita.
     Javert era um carcter completo, que to pouco consentia uma ruga no seu
dever como no seu vesturio; metdico com os celerados, rgido com os botes do
seu casaco.
     Para ele colocar to mal a fivela da gravata, era indispensvel que tivesse
experimentado uma dessas comoes que se poderiam denominar tremores de
terra ntimos. Apresentara-se com toda a simplicidade, requisitara um cabo e
quatro soldados na guarda vizinha, deixara os soldados no ptio e soubera onde
era o quarto de Fantine pela porteira, que no suspeitou de coisa alguma,
acostumada, como estava, a ver gente armada procurar o senhor maire.
     Javert, chegando ao quarto de Fantine, empurrou a porta com a brandura de
um espio e entrou.
     Verdadeiramente, no entrou. Conservou-se estacado na porta entreaberta,
com o chapu na cabea e a mo esquerda metida no peito da sobrecasaca,
abotoada at ao pescoo. Nas pregas do cotovelo direito distinguia-se o casto de
chumbo da sua enorme bengala, que desaparecia por detrs dele.
     Conservou-se assim perto dum minuto, sem que fosse notada a sua presena.
De repente, Fantine ergueu os olhos, viu-o, e fez com que Madelaine se voltasse.
No momento em que os olhos de Madelaine encontraram os de Javert, este, sem
se mover, sem se aproximar, tornou-se espantoso. Nenhum sentimento humano
consegue ser medonho como a alegria.
     Era o rosto de um demnio, apoderando-se da alma condenada que lhe
pertencia. A certeza de ter, enfim, em seu poder Joo Valjean, fez-lhe aparecer na
fisionomia tudo o que tinha na alma. O fundo revolvido subiu  superfcie. A
humilhao de lhe ter quase perdido a pista e de Se ter iludido por alguns
instantes com Champmathieu, desaparecia sob o orgulho de ter adivinhado to
bem e de ter conservado por tanto tempo um instinto to infalvel. O
contentamento de Javert patenteava-se-lhe na atitude soberana. A deformidade do
triunfo expandia-se-lhe na acanhada fronte. Era a horrorosa ostentao de um
rosto satisfeito.
     Javert, naquele momento, estava no cu. Sem que o compreendesse muito
claramente, mas, contudo, com uma confusa intuio da sua indispensabilidade e
do seu bom xito, conhecia que ele, Javert, personificava a justia, a luz e a
verdade, desempenhando o seu encargo de destruir o mal.
     Tinha por todos os lados em torno de si, a uma profundidade infinita, a
autoridade, a razo, o assunto julgado, a conscincia legal, a vindicta pblica,
todas as estrelas; protegia a ordem e fazia sair da lei o raio, vingava a sociedade,
auxiliava o princpio absoluto; elevava-se no meio dos esplendores da glria; na
sua vitria havia ainda um resto de desafio e de combate; de p, altivo, brilhante,
patenteava em pleno rosto a bestialidade sobrenatural de um arcanjo feroz; a
sombra tremenda da misso que desempenhava tornava-lhe visvel no punho
contrado o vago cintilar do gldio social; feliz e indignado, tinha debaixo dos ps
o crime, o vcio, a rebelio, a perdio, o inferno; estava radiante. Sorria-se porque
exterminava. Havia incontestvel grandeza naquele S. Miguel monstruoso.
     Javert por tal modo medonho, no tinha nada de ignbil.
     A probidade, a sinceridade, a candura, a convico, a ideia do dever, so
coisas que, enganando-se, podem tornar-se hediondas, mas que mesmo nesse
estado se conservam grandiosas; a majestade delas, prprias da conscincia
humana, persiste mesmo no horror; so virtudes estas que tm um vcio o erro. A
inexorvel alegria honesta de um fantico em plena atrocidade conserva no sei
que esplendor lugubremente venervel.
     Javert, sem que o suspeitasse, no meio da sua avantajada felicidade, era digno
de lstima, como todo o ignorante que triunfa.
     No podia haver coisa to pungente e terrvel como aquela figura, em que se
patenteava o que poderia chamar-se maldade do bem.



    IV
    A autoridade readquire os seus direitos



     Fantine no tornara a ver Javert desdeo dia em que o maire a livrara dele. O
seu crebro enfermo no compreendeu coisa alguma, apenas do que no duvidou
foi de que ele a ia buscar. No pde suportar a horrorosa apario, sentiu-se
expirar, ocultou o rosto com ambas as mos e gritou com a maior aflio:
     - Salve-me, senhor Madelaine!
     Joo Valjean doravante no o denominaremos de outro modo levantara-se.
     Ouvindo a exclamao de Fantine voltou-se para ela e disselhe com a maior
doura e tranquilidade:
     - No tenha receio. No foi por sua causa que ele veio aqui.
     Depois, dirigindo-se a Javert:
     - J sei o que me quer.
     Javert retorquiu:
     - Vamos, depressa!
     Estas palavras foram acompanhadas com uma inflexo em que havia
qualquer coisa de bravio e frentico. No h ortografia que pudesse transmitir o
acento com que elas foram pronunciadas. No foram palavras humanas, foi um
rugido. No fez como era costume, no entrou em matria, no exibiu o mandado
de priso.
     Para ele, Joo Valjean era uma espcie de inimigo misterioso e nsubjugvel,
um lutador tenebroso, a que ele se abraara havia cinco anos, sem que nunca
tivesse podido derrub-lo. Esta priso no era um comeo, mas um fim.
     Limitou-se, pois, a dizer: Vamos, depressa! Falando deste modo, no deu
um passo, lanou a Joo Valjean esse olhar que ele deitava como um arpo, e com
o qual costumava puxar para si os miserveis de quem queria apossar-se. Era o
mesmo olhar que Fantine, dois meses antes, sentira penetrar-lhe at  medula dos
ossos. Ao grito de Javert, Fantine abrira novamente os olhos. Mas o maire estava
ao p dela, o que poderia recear?
     Javert avanou at ao meio do quarto e gritou:
     - Ento, avias-te?!
     A desgraada olhou em roda de si. No estava ali mais ningum alm da
religiosa e do maire. A quem poderia dirigir-se aquele abjecto tratamento de tu
No podia ser seno a ela. A pobrezinha estremeceu.
     Em seguida, viu uma coisa inaudita e tal como nunca lhe aparecera nos mais
negros delrios da febre.
     Viu o espio Javert lanar a mo  gola da sobrecasaca do maire e este curvar
a cabea. Pareceu-lhe que se acabava o mundo.
     Javert, com efeito, segurou Joo Valjean pela gola da sobrecasaca.
     - Senhor maire! - gritou Fantine.
     Javert desatou a rir, mas com o tal riso que lhe descobria as gengivas.
     - J no h aqui nenhum maire!
     Joo Valjean no tentou livrar-se da mo que o segurava e disse:
     - Javert... Javert interrompeu-o:
     - Chama-me senhor inspector!
     - Desejava dizer-lhe uma palavra em particular, senhor inspector.
     - Fala alto, fala alto! - respondeu Javert.  Comigo no se fala em particular.
     Joo Valjean continuou, baixando a voz:
     -  uma splica que tenho a fazer-lhe... - J te disse que fales alto.
     - Mas o que eu tenho a dizer-lhe s deve ser ouvido pelo senhor.
     - Que me importa a mim isso? No tenho que ouvir!
     Joo Valjean voltou-se para ele e disselhe rapidamente em voz baixa:
     - Conceda-me trs dias! Trs dias para ir buscar a filha desta infeliz mulher!
     Pagarei o que for preciso! Acompanhar-me-, se quiser.
     - Ests a brincar?! - exclamou Javert. - No te julgava to estpido! Pedes-me
trs dias para te safares! Dizes ento que so para ires buscar a filha desta
meretriz! No pega!
     Fantine estremeceu.
     - A minha filha! - exclamou ela. - Ir buscar a minha filha! Ento no est
aqui?!
     Diga-me, minha irm, onde est Cosette? Senhor Madelaine, senhor maire,
quero a minha filha!
     Javert bateu com o p no cho.
     - Temos outra! V se te calas! Que diabo de terra esta em que os forados so
magistrados e as meretrizes tratadas como fidalgas! Mas tudo isto vai acabar e j
no era sem tempo!
     Olhou em seguida fixamente para Fantine e acrescentou, segurando melhor
Joo Valjean, agarrando-lhe desta vez, alm da gola, na gravata e na camisa.
     - J te disse que no h aqui nem senhor Madelaine, nem senhor maire. O
que aqui h  um ladro, um salteador, um grilheta chamado Joo Valjean, o qual
j me no escapa!
     Fantine ergueu-se convulsivamente, apoiou-se nos magros e hirtos braos,
olhou para Joo Valjean, para Javert, para a religiosa, e abriu a boca como que
para falar, mas apenas lhe saiu da garganta uma espcie de suspiro sufocado, os
dentes bateram uns nos outros, estendeu os braos aflitivamente, abrindo de um
modo convulsivo as mos, e procurando apoio em volta de si, como algum
prestes a afogar-se, caiu inopinadamente sobre o travesseiro. A cabea bateu no
encosto do leito e pendeu-lhe em seguida sobre o peito, com a boca aberta, os
olhos igualmente abertos, mas sem brilho.
     Estava morta.
     Joo Valjean ps a sua mo na mo com que Javert o segurava, abriu-lha
como teria aberto a de uma criana e disselhe:
     - O senhor matou esta mulher!
     - Acabemos com isto! - exclamou Javert furioso.
     - No estou aqui para ouvir satisfaes. Deixemo-nos de histrias, a escolta
est l em baixo; ou avias-te ou mando-te amarrar.
     No canto do quarto havia um leito velho de ferro, em mau estado, e que
servia s irms para repousar quando velavam junto das doentes. Joo Valjean
dirigiu-se ao leito, deslocou-lhe num abrir e fechar de olhos, a cabeceira j
desengonada, coisa faclima para msculos como os seus, empunhou a barra
mais grossa e encarou Javert.
     Este recuou at  porta.
     Joo Valjean com a barra de ferro na mo, dirigiu-se vagarosamente para a
cama de Fantine. Quando ali chegou, voltou-se para Javert e disselhe com uma
voz que mal se ouviu:
     - No o aconselho a que me inquiete neste momento.
     Javert lembrou-se de ir chamar a escolta, mas Joo Valjean podia aproveitar
essa curta ausncia para se evadir.
     Deixou-se pois estar onde estava, pegou na bengala pela ponteira e
encostou-se  ombreira da porta, sem afastar os olhos de Joo Valjean.
     Este apoiou o cotovelo na maaneta da cabeceira do leito, descansou a cabea
sobre a mo e ps-se a contemplar Fantine, hirta e imvel.
     Conservou-se assim, absorto, mudo e no pensando evidentemente em mais
coisa alguma desta vida. Na sua fisionomia e atitude no se distinguia mais do que
extrema piedade. Depois de alguns instantes de meditao, inclinou-se para
Fantine e falou-lhe em voz baixa.
     Que lhe disse ele? O que poderia dizer aquele homem rprobo, quela mulher
morta? Que palavras foram as suas? Ningum na terra as ouviu. Ouvi-las-ia a
defunta?
     H iluses tocantes, que so, talvez, realidades sublimes O que  fora de
dvida,  que a irm Simplcia nica testemunha desta cena, contou muitas vezes
que vira distintamente, no momento em que Joo Valjean falara ao ouvido de
Fantine, esboar-se-lhe nos lbios e nas pupilas vagas e cheias do espanto
sepulcral, o mais inefvel sorriso.
     Joo Valjean tomou nas suas mos a cabea de Fantine e acomodou-lha sobre
o travesseiro como qualquer me faria a um filho: depois atou-lhe o cordo da
camisa e aconchegou-lhe os cabelos para dentro da touca. Feito isto, fechou-lhe os
olhos.
     O rosto de Fantine pareceu naquele momento extremamente iluminado. A
morte  a entrada na luz suprema.
     A mo de Fantine pendia para fora da cama, Joo Valjean ajoelhou diante
daquela mo, levantou-a timidamente e beijou-a. Em seguida ergueu-se e
voltou-se para Javert, dizendo:
     - Agora estou s suas ordens.



    V
    Sepultura apropriada



    Javert conduziu Joo Valjean  cadeia da cidade.
    A priso de Madelaine produziu em Montreuil-sur-mer sensao, ou para
melhor dizer, uma comoo extraordinria. Entristece-nos no podermos
dissimular que s por efeito das palavras: era um forado, quase toda a gente o
abandonou. Em menos de duas horas foi esquecido todo o bem que fizera e no
ficou sendo mais do que um forado.  justo dizer que no se conheciam ainda os
pormenores do acontecimento de Arras. Durante todo o dia no se ouviram por
toda a cidade seno conversas como esta:
     - Ento no sabem? Era um antigo forado!
     - Quem?
     - O maire.
     - Ora adeus!
     - O senhor Madelaine?
     - Sim.
     - Realmente?
     - No se chamava Madelaine, tem um nome esquisito, Bjan, Bojean ou
Boujean.
     - Parece incrvel!
     - J est preso!
     - Preso!
     - Est na cadeia da cidade, esperando que o transfiram. Que o transfiram!
Para onde?
     - Tem de ser julgado por um roubo de estrada que cometeu noutro tempo.
     - Eu sempre desconfiei de alguma coisa. Era um homem bom de mais,
demasiadamente perfeito. Recusou o hbito e dava dinheiro a quantos vadios
encontrava. Sempre me pareceu que havia por baixo de tudo aquilo alguma
histria extraordinria.
     Os sales, sobretudo, abundaram em dilogos deste gnero. Uma senhora
idosa, assinante da Bandeira Branca, fez a seguinte reflexo, de que  quase
impossvel sondar a profundidade:
     - No me desagrada de todo. Ser uma lio para os bonapartistas!
     Foi assim que o fantasma que se chamava Madelaine se dissipou em
Montreuil-sur-mer. Em toda a cidade, apenas trs ou quatro pessoas se
conservaram fiis  sua memria. A velha porteira que o servia entrou neste
nmero.
     Na noite daquele mesmo dia, a idosa e digna porteira estava sentada no seu
cubculo, ainda sobressaltada e reflectindo tristemente. A fbrica estivera fechada
em todo o dia, a porta principal tinha corridos os ferrolhos, a rua estava deserta.
No havia em toda a casa mais do que as duas religiosas, Perptua e Simplcia, que
estavam velando junto do corpo de Fantine.
     A hora em que Madelaine costumava recolher-se, a excelente porteira
levantou-se maquinalmente, tirou duma gaveta a chave do quarto do maire e a
palmatria de que ele se servia todas as noites para subir a escada, depois
pendurou a chave no prego onde ele costumava encontr-la, e ps-lhe ao p a
palmatria, como se o esperasse. Em seguida tornou a sentar-se e continuou a
meditar.
     A pobre velha fizera tudo isto sem ter a conscincia de coisa alguma.
     S decorridas mais de duas horas  que ela saiu da sua meditao e exclamou:
     - Valha-me Deus! E eu a dependurar ainda a chave no prego!
     Neste momento o postigo da loja abriu-se, um brao passou pela abertura,
pegou na chave e na palmatria e acendeu a vela na candeia que estava sobre a
mesa.
     A porteira levantou os olhos e ficou de boca aberta, contendo na garganta um
grito prestes a escapar-lhe.
     Tinha reconhecido aquela mo, o brao e a manga que o cobria.
     Era o senhor Madelaine.
     Esteve alguns segundos sem poder falar, petrificada, como ela depois dizia,
contando o caso.
     - Jesus, senhor maire! - exclamou ela. - Enfim, julgava-o.
     E no terminou a frase porque desmentiria o respeito que devia ao princpio.
     Joo Valjean continuava a ser para ela o senhor maire.
     Joo Valjean, porm, completou-a.
     - Na cadeia - disse ele. - Ali estava, com efeito, mas quebrei um varo,
deixei-me cair num telhado e eis-me aqui. Vou ao meu quarto, v-me procurar a
irm Simplcia, que est, decerto, ao p dessa pobre infeliz.
     A velha obedeceu apressadamente.
     Joo Valjean no lhe fez a menor recomendao: estava bem certo de que a
velhota o guardaria melhor do que ele prprio.
     Nunca se pde saber como ele conseguira penetrar no ptio, sem ser pela
porta principal. Trazia sempre consigo um trinco com que abria uma porta lateral,
mas tendo sido decerto apalpado, deviam ter-lho tirado. Subiu, pois, a escada que
conduzia ao seu quarto.
     Chegando acima, deixou a palmatria num dos degraus, abriu a porta sem
fazer bulha e foi s apalpadelas fechar a janela por dentro; depois voltou a buscar a
vela e entrou no quarto A precauo era intil; como se sabe, a janela via-se da
rua.
     Olhou em redor de si, para a mesa e para a cama, que havia trs dias no se
tinha desmanchado. No se conhecia ali o mnimo vestgio da inquietao da
penltima noite.
     A porteira arrumara tudo O que ela unicamente fizera demais, fora tirar da
cinza e colocar sobre a mesa as ponteiras de ferro do cajado e a moeda de quarenta
soldos enegrecidos pelo fogo.
     Joo Valjean pegou numa folha de papel e escreveu:
     Aqui esto as duas ponteiras do meu cajado e a moeda de quarenta soldos
roubados ao pequenito Gervsio de que falei no tribunal.
     Colocou em seguida sobre o papel os dois bocados de ferro e a moeda de
prata, de modo que fosse a primeira coisa que vissem quando entrassem no
quarto.
     Tirou dum armrio uma camisa velha, que rasgou, e em cujos bocados
embrulhou os dois castiais de prata. E no meio de tudo isto no se mostrava
apressado nem inquieto. Enquanto embrulhava os castiais do bispo, foi comendo
um bocado de po negro. Era talvez o po que trouxera da cadeia quando se
evadiu. Isto provou-se pelas migalhas que foram encontradas no sobrado do
quarto, quando depois a justia ali passou busca.
     Passados instantes, bateram duas pancadas  porta.
     Era a irm Simplcia.
     Estava plida, tinha os olhos vermelhos e o castial que trazia na mo tremia.
So assim as violncias privativas do destino. Por mais perfeitos ou indiferentes
que cheguemos a ser, elas arrancam-nos a natureza humana do fundo das
entranhas e obrigam-na a demonstrar-se exteriormente. No meio das emoes
daquele dia a religiosa tornara-se mulher. Como mulher, chorara e tremera, Joo
Valjean acabava de escrever algumas linhas numa folha de papel, que apresentou 
religiosa, dizendo-lhe:
     - Minha irm, h-de entregar isto ao senhor cura.
     O papel estava desdobrado. A irm lanou-lhe os olhos e ele disselhe:
     - Pode ler.
     A religiosa leu:
     Peo ao senhor cura que queira olhar por tudo que aqui deixo.
     com o seu produto pagar as despesas do meu processo e o enterro da mulher
que aqui morreu hoje. O resto distribui-lo- pelos pobres.
     A irm quis falar, mas s pde balbuciar alguns sons inarticulados. Contudo,
sempre conseguiu dizer:
     - Ento o senhor maire no deseja ver ainda pela ltima vez a infeliz morta?
     - No - disse ele - andam j em minha perseguio, e se me prendessem no
seu quarto, isso podia perturb-la.
     Tinha apenas pronunciado estas palavras quando se ouviu grande rudo na
escada. Ouviram a bulha de muitos passos subindo e a voz da porteira dizendo o
mais alto que podia:
     - Juro-lhes que no entrou aqui ningum em todo o dia, nem em toda a noite,
no deixei a porta nem um instante!
     A isto uma voz de homem respondeu:
     - No obstante h luz neste quarto.
     Joo Valjean e a irm Simplcia reconheceram a voz de Javert.
     Como o quarto era construdo de modo que a porta ao abrir-se escondia o
recanto da parede do lado direito, Joo Valjean apagou a vela e correu a meter-se
nele.
     A irm Simplcia caiu de joelhos ao p da mesa.
     A porta abriu-se e Javert entrou.
     No corredor ouviu-se o cochichar de muitos homens e a voz da porteira, que
continuava a protestar que no tinha entrado ningum.
     A religiosa, que estava a orar, no se mexeu, nem sequer ergueu a vista.
     A vela estava sobre o fogo e dava pouca claridade.
     Javert viu a irm de caridade e parou estupefacto.
     Todos se lembraro de que o fundo de Javert, o seu elemento, o seu meio
respeitvel, era a venerao por toda a espcie de autoridade. Neste sentido era
feito duma s pea, no admitia objeces, nem a mais leve restrio.
     Para ele,  necessrio que se entenda, a primeira de todas as autoridades, era a
eclesistica, porque era religioso, e sobre este ponto, como sobre os outros, era
superficial e correcto.
     A seus olhos, um padre era um esprito infalvel, uma religiosa, uma criatura
impecvel. Eram almas muradas no meio do mundo, para onde no tinham seno
uma porta, que s dava sada  verdade.
     Vendo, pois, a irm de caridade, o seu primeiro movimento foi para se
retirar.
     Contudo, havia outro dever que o detinha e que impelia imperiosamente em
sentido contrrio. O seu segundo movimento foi de ficar e de fazer ao menos uma
pergunta.
      A irm de caridade que ali se achava era aquela irm que nunca em sua vida
mentira. Javert sabia-o e venerava-a particularmente por essa causa.
      - Minha irm - disse ele - estava s neste quarto?
      Seguiu-se um momento terrvel, no qual a porteira se sentiu prestes a
desfalecer.
      A irm ergueu os olhos e respondeu:
      - Estava.
      - Sendo assim tornou Javert, desculpe-me a insistncia,  o meu dever, no
viu esta noite uma pessoa, um homem que se evadiu e que ns procuramos, esse
tal Joo Valjean, no o viu?
      - No - respondeu a irm.
      E mentiu. Mentiu duas vezes seguidas, sem hesitar, com a rapidez da
dedicao.
      - Queira desculpar-me - disse Javert; e saiu, fazendo profundo cumprimento.
      Oh, santa mulher! H muito que sois deste mundo; j h muitos anos vos
reunistes s virgens vossas irms e aos anjos vossos irmos, seja-vos essa mentira
contada no paraso.
      A afirmativa da irm de caridade foi para Javert uma coisa to decisiva, que
nem reparou na vela que tinham acabado de apagar e que ainda fumegava sobre a
mesa.
      Passada uma hora, um homem caminhava atravs do arvoredo,
envolvendo-se com o nevoeiro e afastando-se de Montreuil-sur-mer, na direco
de Paris.
      Este homem era Joo Valjean.
      Foi provado pelo testemunho de dois ou trs carreiros que o tinham
encontrado, que levava vestida uma blusa, e debaixo do brao um embrulho.
Onde tinha ele obtido aquela blusa? Nunca se soube. Todavia, morrera poucos
dias antes na enfermaria da fbrica um velho operrio, que no deixara seno a
sua blusa. Era, talvez, a que ele levava.
      Uma ltima palavra a respeito de Fantine. Todos ns temos uma me
comum, a terra. Fantine foi restituda a essa me.
      O cura julgou que procedia com acerto, e procedeu decerto, reservando para
os pobres a maior quantia que pudesse do dinheiro que Joo Valjean lhe deixara.
No fim de contas, de quem se tratava?
      De um forado e de uma meretriz.
      Foi esta a razo porque ele simplificou o enterro de Fantine, reduzindo-o ao
estreito necessrio, que se denominava vala comum.
     Fantine foi pois enterrada no canto gratuito do cemitrio, que pertence a
todos e no pertence a ningum e onde para sempre se perdem os pobres.
Felizmente, Deus sabe onde h-de ir buscar as almas. Fantine foi lanada s trevas
entre montes de ossos desconhecidos, atirada  vala comum, onde sofreu a
promiscuidade das cinzas.
     O tmulo assemelhou-se ao leito.
     Fim do Primeiro Volume
Segundo Volume
Segunda Parte
Cosette
    Livro Primeiro
    Waterloo



    I
    O que encontra quem vem de Wiveles



     O ano passado (1861), por uma bela manh de Maio, um viajante a p, o
mesmo que conta esta histria, dirigia-se de Nivelles para La Hulpe. Seguia a larga
estrada calada, que por entre duas fileiras de rvores, e em contnuas ondulaes,
conduz quele ltimo ponto, ora subindo  crista das colinas, que se sucedem
umas aps outras, ora descendo ao cavado dos vales, aos altos e baixos, como
vagas enormes. J havia passado Lilois e Bois-Seigneur-Isaac, avistando a oeste o
campanrio de ardsia de Braine-l'Alleud, que tem a forma de um vaso voltado
com a boca para baixo, e deixando atrs uma eminncia povoada de arvoredo, e
na volta de um atalho, onde se via um poste carunchoso sustentando a inscrio:
Antiga barreira n. 4, uma taberna - em  cuja frente se lia o seguinte letreiro:
Echabeau, caf particular dos quatro ventos.
     Meio quarto de lgua adiante desta estalagem, chegou ao fundo de um
valezinho, cortado por um regato, a cujas guas d passagem um arco praticado
no aterro da estrada e onde o raro, mas verde arvoredo que cobre o vale de um
lado da calada, se estende do outro por dilatados prados, continuando em
graciosa desordem at Braine-l'Alleud.
      beira da estrada, do lado direito, ficava uma estalagem, a cuja porta se via
um carro de quatro rodas, um grande feixe de varas de lpulo, uma charrua, uma
ruma de mato seco ao p de uma sebe, uma pouca de cal a fumegar dentro de uma
cova quadrada e uma escada deitada ao comprido de um alpendre velho, fechado
por um tapamento de palha. Num campo onde ao sabor da virao, volteava um
grande cartaz amarelo, provavelmente anunciando o espectculo de alguns
comediantes ambulantes em alguma feira, uma rapariga andava a sachar; da
esquina da estalagem, junto de um pntano, onde sobrenadava uma flotilha de
patos, partia um carreiro que se entranhava pelo tojo. Deitou o viajante por esse
carreiro, e ao cabo de uns cem passos, depois de ter costeado uma parede do
sculo XV, coroada por uma empena aguda de tijolos contrapostos, achou-se em
presena de uma grande porta de pedra, construda em arco, com imposta
rectilnea, no estilo grave de Lus XIV e ornada de dois medalhes lisos. Do
frontispcio severo em que se abria esta porta partia perpendicularmente uma
parede flanqueando-a em ngulo recto. No prado que se estendia em frente da
porta jaziam trs grades, por entre as quais cresciam  mistura todas as flores de
Maio. A porta era fechada por dois batentes decrpitos ornados com um martelo
velho e cheio de ferrugem.
     Estava um lindo dia de sol; sobre uma grande rvore, cujos ramos
rumorejavam com esse sussurro mal distinto, que mais parece provir dos ninhos
que do vento, balouava-se um passarinho, naturalmente amoroso, descantando
em apaixonados gorjeios.
     O viajante curvou-se e ps-se a examinar uma escavao circular bastante
grande, semelhante ao alvolo de uma esfera, praticada numa pedra no fundo do
p direito da porta. Neste momento abriram-se os batentes que a fechavam e saiu
uma alde, que, ao ver o viajante e percebendo o que ele estava a examinar,
disselhe:
     - Foi uma bala francesa que fez isso.
     E depois acrescentou:
     - O que ali v em cima, ao p daquele prego,  o buraco de uma grande bala
que no chegou a atravessar a madeira.
     - Como se chama este lugar? - perguntou o viandante.
     - Hougomont - disse a alde.
     O viajante endireitou-se e deu alguns passos para ir olhar de cima das sebes,
de onde por entre as rvores que se destacavam no horizonte avistou um
montculo, e sobre ele o que quer que fosse, que de longe parecia um leo.
     Estava no campo da batalha de Waterloo.



    II
    Hougomont



     Hougomont foi um lugar fnebre; o comeo do obstculo, a primeira
resistncia que em Waterloo se ops ao grande lenhador da Europa, que se
chamava Napoleo; o primeiro n que ele encontrou sob o machado.
     Era um palcio acastelado, agora  apenas um casal.
     Hougomont, para o antiqurio,  Hugomons. Este solar foi construdo por
Hugo, sire de Somerel, o mesmo que dotou a sexta capelania da abadia de Villers.
     O viajante abriu a porta, empurrou uma calea que pejava o alpendre e
entrou no ptio.
     A primeira coisa que lhe atraiu a ateno foi uma porta do sculo XVI, que ali
simula uma arcada, por se haver derrocado tudo em torno dela O aspecto
monumental nasce muitas vezes da runa Prximo desta arcada abre-se num
muro outra porta cujo cimo se fecha pelo modo usado no tempo de Henrique IV,
deixando ver as rvores de um pomar. Ao lado desta porta uma estrumeira,
enxadas, ps, alguns carrinhos de mo, um velho poo com o seu desaguadouro e
mulinete de ferro, um galo saltando, um peru todo entufado andando
majestosamente de roda, uma capela sobrepujada por um campanriozinho, e
tendo a parede exterior coberta de ervilheira em latada, toda florida; tal era o ptio
cuja conquista constituiu um sonho de Napoleo. Se tivesse podido apoderar-se
deste canto de terra, apoderar-se-ia talvez do mundo. Vem-se ali algumas
galinhas espalhando a terra com o bico, e ouve-se ganir:  um grande co
substituindo os ingleses. Neste stio foram eles admirveis. As quatro companhias
das guardas de Cooke, resistiram ali durante sete horas, ao encarniamento de um
exrcito.
     Hougomont, visto no mapa, em plano geomtrico, compreendendo os
edifcios e tapadas, apresenta uma espcie de rectngulo irregular, no qual fosse
entalhado um dos ngulos  neste ngulo que fica a porta meridional, guardada
pelo muro, que a fuzila  queima-roupa.
     Hougomont tem duas portas; a meridional, que  a do solar, e a setentrional,
que  a do casal Napoleo mandou contra Hougomont seu irmo Jernimo; as
divises Guileminot, Foy e Bachelu, ali se encontraram; quase todo o corpo de
Reille, ali foi empregado e aniquilado; os esforos das balas de Kellerman foram
inteis sobre o herico muro.
     No foi demais a brigada Bouduin para forar Hougomont pelo norte; do sul,
a brigada Soye, pde apenas fazer-lhe mossa, sem consegui-lo.
     As construes do canal orlam o ptio do lado sul Preso ao muro est
pendurado um pedao da porta do norte, despedaada pelos franceses. So quatro
tbuas pregadas sobre duas travessas, nas quais se distinguem ainda os vestgios
do ataque.
     A porta setentrional, arrombada pelos franceses, e na qual puseram um
remendo para substituir a almofada suspensa do muro, entreabre-se quase
quadrada num muro do fundo do ptio, na base dele e por cima de ladrilho. 
uma simples porta de carro como costuma haver em todos os casais, de dois
largos batentes feitos de tbuas toscas, do outro lado os campos. A disputa desta
entrada foi furiosa. Por muito tempo se viram, por cima da porta, toda a espcie
de vestgios de mos ensanguentadas.
     Foi neste stio que morreu Bauduin.
     A tempestade do combate sente-se ainda neste ptio; o horror nele  visvel; o
destroo da refrega est ali petrificado; sente-se a vida e a morte, como se fosse
ainda ontem. As paredes agonizam, as pedras caem, as brechas gritam, os buracos
so feridas, as rvores inclinadas e trmulas parecem fazer esforos para fugir.
     Em 1815 este ptio era mais enlabirintado de edifcios do que o  hoje. Essas
construes, depois deitadas a terra, formavam frentes, ngulos e esquinas, que j
hoje no existem.
     A se entrincheiraram os ingleses e penetraram os franceses, os quais no
puderam, contudo, sustentar-se naquela posio. Ao lado da capela, sobressai em
runas um lano do solar, nico fragmento que resta da manso de Hougomont.
     O castelo serviu de reduto, a capela, de fortim. Naquele dia, cada qual
procurava exterminar o seu adversrio. Os franceses, espingardeados de todos os
lados, por trs das muralhas, de cima dos celeiros, do fundo das adegas, por todas
as janelas e postigos, por todas as fendas das pedras, trouxeram faxina, e lanaram
o fogo s paredes e aos homens  metralha replicaram com o incndio.
     No lano arruinado entrevem-se ainda por entre as grades de ferro, que
guarnecem as janelas, os quartos demolidos de um edifcio construdo de tijolo,
nos quais se tinham emboscado os guardas ingleses; a espiral da escada, rachada
desde o cho at ao telhado, parece o interior de uma concha esmagada. Os
ingleses, cercados na escada, que tem dois lanos, refugiaram-se nos degraus
superiores, cortando os inferiores, para obstar  subida dos inimigos. Os degraus
so hoje um monto de pedras, por cujas fendas crescem espontneas as urtigas
em abundncia. Juntos  parede apenas se conservam uns dez, sobre o primeiro
dos quais se v gravada a imagem de um tridente. Estes degraus inacessveis esto
slidos nos seus alvolos; o resto parece uma queixada sem dentes.
     Duas rvores existem ali, uma morta, outra ferida no p; esta ltima
reverdece em Abril, e desde 1815 que cresce por entre a escada.
     O interior da capela, que participou tambm do horror da luta, oferece um
espectculo estranho. L est ainda, encostado a um fundo de pedra bruta, o
grosseiro altar de madeira, onde se no tornou a dizer missa desde aquele dia de
carnificina.
     Quatro paredes caiadas, uma porta defronte do altar, duas janelas pequenas
em arco, um grande crucifixo de madeira por cima da porta, por cima do crucifixo
um postigo quadrado, tapado com um molho de feno, e no cho, a um canto, uma
vidraa velha toda quebrada eis o que  a antiga capela. Ao p do altar est
colocada uma imagem de Sant'Anna, de madeira, do sculo XV; a cabea do
menino Jesus foi levada por uma bala. Os franceses, um momento senhores da
capela, mas desalojados logo, deitaram-lhe fogo. As chamas envolveram-na,
convertendo-a numa fornalha, e queimando a porta e o soalho, s escapando o
Cristo de madeira. O fogo consumiu-lhe os ps, dos quais apenas se vem os cotos
enegrecidos; depois, parou, o que foi um milagre, no dizer da gente da terra. O
menino Jesus decapitado no foi to feliz como o Cristo.
     As paredes esto cobertas de inscries. Por baixo dos ps do Cristo l-se este
nome: Henquinez. Depois estes outros: Conde de Rio Maior; Marqus y Marquesa
de Almagro (Habana). Aquela parede, caiada em 1849, e sobre a qual se lem
nomes franceses com pontos de exclamao, como indicando clera, era o lugar
onde mutuamente se insultavam as naes.
      porta da capela foi encontrado um cadver que ainda tinha agarrado na
mo um machado. Era o do alferes Legros.
     Ao sair da capela encontra-se um poo  esquerda e pergunta-se:
     - Porque no h aqui balde nem roldana?
     - Porque j no se tira gua dele.
     - Ento porque no se tira gua dele?
     - Porque est cheio de esqueletos.
     O ltimo que tirou gua desse poo chamava-se Guilherme Van Kylsom; era
um aldeo morador em Hougomont, onde exercia a profisso de jardineiro. No
dia 18 de Junho de 1815, a famlia dele fugiu e foi esconder-se nos bosques.
     A floresta que se estende em volta da abadia de Villers abrigou por espao de
muitos dias e muitas noites estas infelizes povoaes dispersas. Ainda hoje se
vem vestgios reconhecveis, como troncos de rvores queimados, que denotam o
local destes pobres bivaques errantes no meio das saras.
     Guilherme Van Kylsom ficou em Hougomont para guardar o solar; os
ingleses foram dar com ele numa adega, onde se agachara, e, arrancando-o do seu
esconderijo, obrigaram-no a servi-los,  fora de espadeiradas. Os combatentes
tinham sede, Guilherme levou-lhes de beber. Era desse poo que ele tirava a gua.
Muitos beberam ali o derradeiro trago. Esse poo onde beberam tantos mortos
tinha tambm de morrer.
     Aps o combate, tratou-se com azfama de dar sepultura aos cadveres. A
morte tem uma maneira prpria de perseguir o vencedor, fazendo acompanhar a
glria pela peste. O tifo  um apenso do triunfo. Do poo, pois, que era fundo,
fizeram um sepulcro e deitaram nele trezentos mortos, talvez com demasiada
pressa. Estariam todos realmente mortos? Diz a lenda que no. Parece que na
noite seguinte ao dia em que se sepultaram aqueles trezentos cadveres se ouviram
sair vozes fracas como de quem chamava.
      O poo fica isolado no meio do ptio, rodeado de trs lados por trs paredes
de pedra e tijolo, dobradas como as folhas de um biombo, e fingindo um torreo
quadrado. O quarto lado est em aberto, e  por ali que se tira a gua. A parede do
fundo tem um como culo informe, talvez feito por alguma granada. Do tecto do
torreo apenas restam as traves, e os gatos de ferro, que sustentam a parede,
desenham uma cruz.
     Inclina-se a gente e perde-se a vista num profundo cilindro de tijolo, cheio de
trevas. Em roda das paredes que cercam o poo crescem moitas de urtigas que lhes
escondem as extremidades inferiores.
     No tem este poo a larga pia azul que serve de aparador a todos os poos da
Blgica; a pia azul  substituda nele por um travesso, em que se apoiam cinco ou
seis troos de madeira cheios de ns e encurvados, semelhando grandes ossadas.
Nem balde, nem cadeia, nem roldana se v ali j, mas ainda ali se conserva a celha
que servia de desaguadouro. Ali se junta a gua da chuva, e vem de tempos a
tempos alguma ave da floresta, que, depois de beber, levanta voo e foge.
     H ainda uma casa habitada no meio destas runas;  a casa da herdade, cuja
porta d para o ptio. Junto  chapa da gtica fechadura, v-se um puxador de
ferro posto de esguelha. Na ocasio em que o tenente hanoveriano Wilda deitava a
mo a este puxador, para se refugiar na herdade, cortou-lhe a mo com um golpe
de machado um sapador francs.
     A famlia que ocupava a casa tem por av o antigo jardineiro Van Kylsom,
que morreu h muito. Na ocasio em que ali estivemos, disse-nos uma mulher de
cabelos russos: Tinha eu trs anos, quando aqui se deu a batalha. Minha irm,
que era mais velha, chorava com medo. Levaram-nos para os bosques e eu fui nos
braos de minha me. Enquanto os outros se deitavam no cho e se punham a
escutar com o ouvido colado  terra, eu imitava o estrondo das peas, fazendo:
bum! bum!.
     O pomar, para o qual, como j dissemos, d uma porta situada  esquerda, 
terrvel.
     Compe-se de trs partes, ou quase, para melhor dizer, de trs actos. A
primeira  um jardim, a segunda  o pomar, a terceira  um bosque. Estas trs
partes tm um recinto comum, do lado da entrada dos edifcios do solar e da
herdade;  esquerda uma sebe,  direita uma parede, ao fundo outra parede,
aquela de tijolo, esta de pedra.
     Primeiro entra-se no jardim, que fica situado num plano inferior, e est
plantado de groselheiras e atulhado de vegetaes selvagens; fecha-o um eirado
monumental de pedra de cantaria, com balastres grossos em baixo e estreitos em
cima. Era um jardim senhorial no primitivo estilo francs, que precedeu Le Ntre,
porm, hoje em runas e coberto de silvas. As pilastras so coroadas por globos,
que parecem balas de pedra.
      Contam-se ainda quarenta e trs balastres, assentes nas suas respectivas
bases; os outros jazem deitados por cima da erva, e quase todos tm arranhaduras,
feitas pelas balas de mosquetaria. V-se ali um balastre partido, colocado em
cima da sua base, como uma perna quebrada.
     Foi neste jardim, que fica mais baixo que o pomar, que seis soldados de
caadores do primeiro regimento de infantaria ligeira, tendo ali penetrado, e no
podendo sair, apanhados e encurralados como urso na sua cova, travaram
combate com duas companhias hanoverianas, uma das quais fazia (fogo com
clavinas. Os hanoverianos, colocados em volta dos balastres, atiravam de cima,
porm, os caadores, apesar de serem seis contra duzentos, levaram um quarto de
hora a morrer, respondendo intrpidos debaixo, apenas abrigados pela rama das
groselheiras.
     Sobem-se alguns degraus e passa-se do jardim para o pomar propriamente
dito.
     Ali caram, naquelas poucas toezas quadradas, mil e quinhentos homens em
menos de uma hora. A parede parece prestes a recomear o combate. Ali existem
ainda as trinta e oito seteiras, abertas pelos ingleses a alturas irregulares. Em frente
da dcima sexta, jazem dois tmulos ingleses de granito. No h seteiras seno na
parede meridional, e era da que partia o ataque principal. Como a parede fica
exteriormente oculta por uma grande sebe, os franceses, cuidando que s tinham
a transp-la, chegaram-se, romperam-na e encontraram o obstculo da parede, os
guardas ingleses por trs em emboscada, as trinta seteiras a fazer fogo, uma
tormenta de balas e metralha, que deu cabo da brigada de Soye. Waterloo
principiou assim.
     O pomar foi tomado, e, como no havia escadas, os franceses treparam,
agarrando-se com as unhas. Ali arcaram peito a peito os inimigos uns com os
outros debaixo daquelas rvores, onde ficou fulminado um batalho de Nassau,
composto de setecentos homens. Toda aquela erva foi tinta do sangue dos
combatentes. Por fora, a parede contra a qual foram encurraladas as duas baterias
de Kellermann est toda esburacada da metralha.
     Aquele pomar  sensvel ao ms de Maio, como qualquer outro: tem seus
botes de ouro e suas boninas e erva crescida, em que vo pastar os cavalos
empregados no servio da lavoura; os intervalos que vo de rvore a rvore so
atravessados por cordas de cabelo, em que a gente da herdade enxuga a roupa, e
que fazem baixar a cabea a quem passa; a cada passo, metem-se os ps nos
buracos praticados pelas toupeiras naquele terreno inculto. Nota-se, derrubado
por sobre a erva, um tronco arrancado, mas ainda verde; foi onde se encostou o
major Bladkman para expirar. Sob uma grande rvore prxima caiu o general
alemo Duplat, oriundo de uma famlia francesa refugiada na ocasio da
revogao do dito de Nantes. Ao p debrua-se uma macieira velha, enferma,
pensada com uma ligadura de palha e barro. As macieiras caem de velhas quase
todas. No existe ali uma s que no tenha sinal de bala.
     Naquele pomar, no fundo do qual h um bosque cheio de violetas, abundam
os esqueletos de rvores mortas, sobre cujos ramos esvoaam os corvos de
contnuo.
     Bauduin morto, Foy ferido, o incndio, a carnificina, a mortandade, um rio
de sangue ingls, de sangue alemo e de sangue francs, furiosamente misturados,
um poo atulhado de cadveres, o regimento de Nassau e o de Brunswick
destrudos, Duplat morto, Blackman morto, os guardas ingleses mutilados, vinte
batalhes franceses, alm dos quarenta do corpo de Reille, dizimados, trs mil
homens mortos naquela manso solitria de Hougomont, espateirados,
acutilados, degolados, fuzilados, queimados; e tudo para um aldeo dizer hoje a
um viajante: Senhor, d-me trs francos que, se quiser, eu conto-lhe como foi esta
embrulhada de Waterloo!



    III
    O 18 de Julho de 1815



    Retrocedamos, que  esse um dos direitos do narrador, e imaginemo-nos no
ano de 1815, alguma coisa antes da poca em que principia a aco contada na
primeira parte deste livro.
     Se na noite de 17 para 18 de Junho de 1815 no tivesse chovido, o futuro da
Europa teria sido diferente. Algumas gotas de gua de mais ou de menos deitaram
Napoleo a perder. Para Waterloo ser o complemento de Austerlitz, bastou 
Providncia alguma chuva; uma nuvem que passou pelo cu em contrrio do que
era de esperar naquela estao, foi o suficiente para o desabamento de um mundo.
     A batalha de Waterloo no pde principiar seno s onze horas e meia, o que
deu tempo de chegar Blucher. Porqu? Porque a terra estava molhada.
     Foi necessrio que o solo enxugasse um tanto para que a artilharia pudesse
manobrar.
     Napoleo era oficial de artilharia, o que facilmente dava a conhecer. Todos os
seus planos de batalha so baseados no projecto: Fazer convergir a artilharia sobre
um ponto dado era a chave da vitria. Tratava a estratgia do general inimigo
como uma cidadela e batia at fazer-lhe brecha. Oprimia o ponto fraco com a
metralha; atava e desatava as batalhas com a artilharia. No seu grande gnio havia
o que quer que fosse de tiro. Esmagar os quadrados, pulverizar os regimentos,
romper as linhas, triturar e dispersar as massas, era tudo para ele; bater, bater,
bater sem cessar; misso de que encarregava a bala.
     Mtodo temvel, o qual junto ao gnio, tornou invencvel pelo espao de
quinze anos, o sombrio atleta do pugilato da guerra.
     No dia 18 de Junho de 1815 contava ele tanto mais Com a artilharia, quando
era superior o nmero pela sua parte. Wellington no tinha seno cento e
cinquenta e nove bocas de fogo; Napoleo dispunha de duzentas e quarenta.
     Suponha-se o solo enxuto, deixando rodar a artilharia, e a aco comeada s
seis horas da manh. A batalha estava ganha e terminada s duas, trs horas antes
da peripcia prussiana!
     Que quantidade de culpa tem Napoleo na perda desta batalha? O naufrgio 
acaso imputvel no piloto?
     O evidente declnio fsico de Napoleo agravava-se acaso nesta poca com
uma certa diminuio inferior?
     Tinham os vinte anos de guerra gasto tanto a lmina como a bainha, tanto a
alma como o corpo? Porventura o cansao do veterano se fez sentir no capito?
Numa palavra: esse gnio, como muitos historiadores de considerao o julgaram,
eclipsava-se? Tornava-se frentico para ocultar a si mesmo o seu
enfraquecimento? Comeava a oscilar sobre o desvairamento dum sopro de
aventura? Tornara-se ele, coisa grave num general, inconsciente do perigo? Na
classe de grandes homens materiais a que se pode chamar gigantes da aco, h
porventura uma idade para a miopia do gnio? A velhice no influi no gnio do
ideal; para os Dantes e Migueis ngelos envelhecer  engran-decerem-se; para os
Anbais e Bonapartes ser decrescer? Teria Napoleo perdido o sentido directo da
vitria? Teria chegado ao estado de no reconhecer o escolho, de no adivinhar o
lao, de no pressentir a beira escorregadia dos abismos? Faltar-lhe-ia o faro das
catstrofes? Ele que dantes conhecia todos os caminhos do triunfo, e que do alto
do seu carro coruscante os indicava com gesto soberano, teria ento o sinistro
atordoamento de conduzir aos precipcios as suas tumultuosas parelhas de
legies?
     Teria sido atacado, aos quarenta e seis anos, de uma loucura suprema? Aquele
cocheiro titnico do destino, j no seria mais do que um grandioso
quebra-costas?
     No o supomos.
     O seu plano de batalha, segundo todos confessam, era uma obra-prima. Ir
direito ao centro da linha aliada, fazer uma abertura no inimigo, dividi-lo em dois,
impelir a metade britnica sobre Hal e a prussiana sobre Tongres, fazer de
Wellington e de Blucher dois troos; tomar o Mont-Saint-Jean, apoderar-se de
Bruxelas, lanar o alemo no Reno e o ingls no mar. Napoleo tinha tudo isto
nesta batalha. Depois verse-ia.
     Convm dizer que no pretendemos desenvolver aqui a histria de Waterloo;
uma das cenas principais do drama que contamos tem ligao com esta batalha,
mas a sua histria no  o nosso assunto; e depois,  uma histria que j se
encontra feita, e feita magistralmente, num sentido por Napoleo, e noutro por
muitos historiadores (Walter Scott, Lamartine, Vaulabelle, Charras, Guinet,
Thiers.).
     Quanto a ns, deixamos os historiadores e que se avenham; ns no somos
mais do que uma testemunha em distncia, um caminhante que passa pela
plancie, um investigador inclinado sobre essa terra amassada com carne humana,
tomando talvez as aparncias como realidades; no temos direito de resistir, em
nome da cincia, a um conjunto de (factos, em que h decerto miragem, no
temos a prtica militar nem a competncia estratgica que autorizam um sistema,
segundo a nossa opinio, os dois capites foram dominados em Waterloo por um
encadeamento de acasos; e quando se trata do destino, misterioso acusado,
julgamos como o povo, juiz simples e ingnuo.
    IV
    Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de



     Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de Waterloo, no tem mais do
que imaginar um A maisculo deitado no cho. A perna esquerda do A  a estrada
de Nivelles, a direita a de Genappe e a corda do A o carreiro Ohain a
Braine-l'Alleud. O cimo do A  o Mont-Saint-Jean, onde est Wellington; a
extremidade inferior do lado esquerdo, Hougomont, onde est Reille com
Jernimo Bonaparte; a outra extremidade inferior  a Belle Alliance, onde est
Napoleo. Um pouco abaixo do ponto em que a corda do A encontra e corta a
perna direita, fica a Haie-Sainte. No meio dessa corda  o ponto onde se disse a
palavra final da batalha e onde se colocou o leo, smbolo involuntrio do
supremo herosmo da guarda imperial.
     O tringulo compreendido entre o cimo, as duas pernas e a corda do A  a
planura do Mont-Saint-Jean em cuja disputa consistiu toda a batalha.
     As alas dos dois exrcitos estendem-se  direita e  esquerda das duas estradas
de Genappe e de Nivelles, fazendo Erlon frente a Picton e Reille a Hill.
     Por trs da extremidade superior do A, isto , por trs da-planura do
Mont-Saint-Jean, fica a floresta de Soignes.
     Quanto  plancie em si, represente-se uma vastido de terreno ondulante,
cujas eminncias se vo imediatamente sucedendo umas s outras, dominando
esta aquela e esta a seguinte. As ondulaes vo subindo para o Mont-Saint-Jean,
at terminar na floresta.
     Dois exrcitos inimigos num campo de batalha so dois lutadores.  uma luta
a brao; cada qual procura deitar a terra o seu adversrio, agarrando-se quilo que
encontra; uma sara  um ponto de apoio; um recanto de uma parede um encosto;
escorrega um regimento por falta de uma casinhola a que se encostar; um rebaixe
na plancie, uma pouca de terra movida, um carreiro transversal em ensejo
oportuno, um bosque, um barranco, podem embaraar o calcanhar desse colosso
chamado exrcito, impedindo-o de recuar. O que sair do campo fica vencido. Da
a necessidade que tem o chefe responsvel de examinar a mais pequena moita de
rvores, de aprofundar o menor relevo.
     Os dois generais tinham estudado com toda a ateno a planura do
Mont-SaintJean, chamada hoje plancie de Waterloo. Wellington examinara-a no
ano precedente, com previdente sagacidade, como local onde tinha de dar-se uma
grande batalha.
     Nesse dia de 18 de Junho, estava de melhor lado, para o duelo em que se ia
empenhar com Napoleo. O exrcito ingls ficava de cima e o exrcito francs de
baixo.
     Esboar aqui o aspecto de Napoleo a cavalo, de culo em punho, na
eminncia de Rosomme, na madrugada do dia 18 de Junho de 1815, seria uma
coisa quase suprflua. Todos o viram, antes de ns o mostrarmos. Esse perfil
sereno, coberto com o pequeno chapu da escola de Brienne, esse uniforme verde,
com o sobrepeito branco a esconder o crach, o sobretudo a esconder as dragonas,
a volta do cordo vermelho no colete, os cales de pele, o cavalo branco com o
seu jaez de veludo cor de prpura, tendo nos cantos NN coroados e guias; botas 
escudeira sobre meias de seda, as esporas de prata, a espada de Marengo, toda essa
figura do ltimo Csar, aclamada por uns, encarada com olhar severo por outros,
tm-na todos presente  imaginao.
     Esta figura permaneceu por muito tempo na luz, livre de certa obscuridade de
lenda que se forma em volta da maior parte dos heris, velando sempre por mais
ou menos tempo a verdade; hoje, porm, faz-se o dia e a histria.
     O fulgor desta  impiedoso; tem isto de estranho e divino: que, apesar de ser
luz, e exactamente porque o , espalha sombra muitas vezes, onde s se viam
raios, do mesmo homem faz dois fantasmas diferentes; um ataca o outro, as trevas
do dspota lutam com o resplendor do capito, mas ela faz justia a ambos. Da
uma medida mais exacta para a definitiva apreciao dos povos. Babilnia,
violada, diminui Alexandre; Roma, manietada, diminui Csar; a morte de
Jerusalm diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraado do homem que
deixa aps si uma sombra escura com a sua forma.



    V
    O quid obscurum das batalhas



     Todo o mundo conhece a primeira fase desta batalha; o seu comeo foi
caliginoso, incerto, vacilante, ameaador para os dois exrcitos, porm mais para
os ingleses do que para os franceses.
     Toda a noite havia chovido; a terra estava impregnada de gua, que se
conservava encharcada nas cavidades da plancie como em tinas; em alguns stios
as carretas em que ia montada a artilharia estavam metidas em gua at ao eixo e
gotejando lama lquida; de modo que, se os trigos e centeios derribados e calcados
por aquela barafunda de carretas no tivessem formado um como estrado de
palha, sobre o qual se moviam as rodas, seria impossvel qualquer movimento,
mormente pelos vales que ficam do lado de Papelotte.
     O combate principiou tarde, porque Napoleo, como j dissemos, costumava
segurar a artilharia na mo, como uma pistola, fazendo pontaria ora a este, ora
quele outro ponto da batalha, e por isso quis esperar at que as carretas que
conduziam as peas pudessem rodar e galopar livremente; mas para isso era
necessrio que aparecesse o sol e secasse a terra, e o sol no apareceu. J no era a
entrevista de Austerlitz. Quando se disparou o primeiro tiro de pea, o general
ingls Carville olhou o relgio e viu que eram onze horas e trinta e cinco minutos.
     Travada a aco com fria, com mais talvez do que o imperador quisera,
sobre Hougomont, pela ala esquerda francesa, Napoleo atacou o centro,
precipitando a brigada de Quiot sobre a Haie-Sainte, e Ney moveu a ala direita
contra a ala esquerda inglesa, que se apoiava em Papelotte.
     O ataque de Hougomont tinha alguma coisa de simulado; o plano era atrair
ali Wellington, fazendo-o inclinar para a esquerda. Este plano teria sortido efeito,
se as quatro companhias de guardas ingleses e os bravos belgas da diviso de
Perponcher no tivessem guardado a sua posio a p firme, e se Wellington, em
vez de se lhes reunir em massa, se no tivera limitado a mandar-lhes um reforo
de outras quatro companhias de guardas e um batalho de Brunswick.
     O ataque, porm, da ala direita francesa no encobria o segundo fim; desfazer
a ala esquerda inglesa, cortar a estrada de Bruxelas, fechar a passagem aos
prussianos que pudessem sobrevir, forar o Mont-Saint-Jean, apertar Wellington
contra Hougomont, da contra Braine-l'Alleud e da contra Hal, nada mais claro.
Afora alguns incidentes, este plano foi bem sucedido. Papelotte foi tomado;
Haie-Sainte assaltada.
     H, porm, uma circunstncia a notar: na infantaria inglesa, e mormente na
brigada de Kempt, havia grande nmero de recrutas, que, todavia, em presena
dos nossos temveis infantes, foram valentes, no lhes obstando a inexperincia a
mostrarem-se intrpidos no perigo e fazendo excelente servio, principalmente
como atiradores; o soldado atirador, mais entregue de certo modo a si mesmo,
torna-se, para assim dizer, general de si prprio. Aqueles recrutas mostraram
ainda alguma coisa da inveno e da fria francesa, porm o entusiasmo desta
infantaria novia desagradou a Wellington.
     Aps a tomada de Haie-Sainte, a batalha comeou a vacilar. Aquele dia tem
um intervalo escuro, desde o meio-dia at s quatro horas; o meio-dia da batalha 
quase indistinto e participa do sombrio da refrega. A luz crepuscular do combate,
viam-se mil vultos flutuando em nuvens de fumo, uma como miragem
vertiginosa, o trem de guerra de ento, desconhecido hoje, as barretinas felpudas,
os boldris -e. as pastas dos hussardos, as correias cruzadas, as cartucheiras, os
dlmans, as botas vermelhas de mil dobras, os pesados shakos engrinaldados de
toral, a infantaria quase negra de Brunswick misturada com a infantaria escarlate
de Inglaterra, os soldados ingleses com dragonas feitas de grandes borrainas
brancas circulares, a cavalaria ligeira hanoveriana com os seus capacetes de couro
oblongos de barbicachos de cobre e penachos de cabelo vermelho; os escoceses de
joelhos nus, as grandes polainas dos nossos granadeiros; quadros e no linhas
estratgicas; o que  necessrio a Salvador Rosa e no a Gribeauval.
     Uma batalha tem sempre certa semelhana com uma tempestade . Quid
obscutum, quid divinum. Cada historiador traa como lhe apraz os lineamentos
desta confuso.
     Qualquer que seja a combinao dos generais, o choque das massas armadas
tem refluxos que se no podem de antemo calcular; na aco, os dois planos dos
dois chefes entram um no outro e deformam-se um pelo outro. A linha de batalha
flutua e serpenteia como um fio, corre o sangue em torrentes ilogicamente,
ondeiam as frentes dos exrcitos, os regimentos formam cabos ou golfos,
conforme entram ou saem, agitam-se continuamente estes escolhos uns por
diante dos outros; aonde est a infantaria, a chega a artilharia, aonde est a
artilharia a acorre a cavalaria; parecem nuvens de fumo os batalhes. Havia ali
no sei o qu; procurar, desapareceu; deslocam-se as abertas; avanam e recuam
aqueles vultos negros em meandros sombrios; um como vento do sepulcro leva,
agita, alarga e dispersa aquelas multides trgicas. Que  uma peleja Uma
oscilao.
     A imobilidade de um plano matemtico exprime um minuto e no um dia.
Para pintar batalhas  necessrio um pintor que saiba formar caos com o pincel; 
melhor Rembrandt que Van-Der-Meulen. Este exacto ao meio-dia, s trs horas
mente. Engana a geometria; s o furaco  verdadeiro, e  isto o que d a Folard
direito para contra-
     dizer Polibio. Acrescentemos que h sempre uma ocasio em que a batalha
degenera em combate, se singulariza e espalha em mil factos, que formam cada
um de per si uma circunstncia, e que, para nos servirmos da expresso do
prprio Napoleo, mais pertencem  biografia dos regimentos do que  histria
do exrcito. Neste caso, o historiador tem obrigao evidente de ser resumido,
porque no pode apanhar seno os contornos principais da luta, e no  dado a
nenhum, por mais consciencioso que seja, fixar absolutamente a forma desta
nuvem terrvel, chamada uma batalha.
     O que  verdadeiro a respeito dos grandes choques armados 
particularmente aplicvel a Waterloo.
     Todavia, de tarde, a batalha, em certa ocasio, fixou-se.



    VI
    Quatro horas da tarde



     As quatro horas, a situao do exrcito ingls era grave.  prncipe de
Orange, que comandava o centro, gritava aos holando-belgas, no desvairamento
da intrepidez: Nassau! Brunswick! Nada de recuar!
     Hill, que comandava a ala direita, vinha encostar-se a Wellington, mas j
enfraquecido. Finalmente, Picton, que comandava a ala esquerda, tinha morrido.
Na mesma ocasio em que os ingleses roubaram aos franceses a bandeira do 15
de linha, os franceses mataram-lhe o general Picton com uma bala na cabea.
Wellington nesta batalha tinha dois pontos de apoia Hougomont e Hae-Sainte;
Hougomont resistia ainda, mas estava em chamas: Haie-Sainte estava tomada. Do
batalho alemo que a defendia apenas sobreviviam quarenta e dois homens; os
oficiais haviam sido mortos ou feitos prisioneiros todos, menos cinco; o nmero
dos combatentes, vtimas do furor da peleja naquela granja, montava a trs mil.
Ali morreu s mos de um pequeno tambor francs um sargento dos guardas
ingleses, o primeiro jogador de soco de Inglaterra, reputado invulnervel pelos
seus companheiros. Baring retirou, Alten foi morto  espada. Perderam-se muitas
bandeiras, uma das quais pertencia  diviso de Alten e outra ao batalho de
Lunebourg, comandado por um prncipe da famlia de Deux-Ponts.
     Os escoceses bbados j no existiam; os gordos drages de Ponsonby tinham
sido despedaados; essa valente cavalaria foi derrotada pelos lanceiros de Bro e
pelos couraceiros de Travers; de mil e duzentos cavalos restavam seiscentos; de
trs tenentes-coronis, dois jaziam por terra, Hamilton ferido, Mater morto.
Ponsonby cara, atravessado por sete lanadas, Gordon fora morto, Marsh morto,
e duas divises, a quinta e a sexta, destrudas.
     Tomada Haie-Sainte e aberta brecha em Hougomont, restava um nico n, o
centro, que resistia ainda, animado pelo reforo de Wellington, que chamara Hill,
que estava em Merbe-Braine, e Chass, que estava em Braine-l'Alleud.
     O centro do exrcito ingls, um pouco cncavo, densssimo e compacto,
estava situado em posio forte. Ocupava a planura do Mont-Saint-Jean, tendo
por trs a aldeia e por diante a encosta, ento bastante spera, e defendido por essa
casa forte de pedra, nesse tempo propriedade senhorial de Nivelles, que marca a
interseco das estradas, massa do sculo dezasseis, to robusta, que as balas
recuavam em ricochete, sem lhe abrir mossa. Em volta da planura, os ingleses
haviam cortado as sebes aqui e alm, fazendo canhoneiras entre os espinheiros
para colocar as bocas das peas entre os ramos e abrindo seteiras entre as saras. A
artilharia deles estava de emboscada por trs dos tojos Este trabalho pnico,
incontestavelmente autorizado pela guerra, que admite o lao, estava to bem feito
que Haxo, expedido pelo imperador s nove horas da manh a reconhecer as
baterias inimigas, no dera f de nada e veio dizer a Napoleo que no havia outro
obstculo alm das duas trincheiras que obstruam as estradas de Nivelles e de
Genappe. Como era o tempo em que as searas estavam crescidas, facilmente se
pde esconder na espessura do trigo que cobria a orla da planura um batalho da
brigada de Kempt, o 95. armado de clavinas.
     Assim resguardado e seguro, o centro do exrcito anglo-holands podia
dizer-se em boa posio.
     O nico perigo dele era a floresta de Soignes, ento contgua ao campo de
batalha e cortada pelas lagoas de Groenendael e de Boitsfort. Por ali no podia
recuar um exrcito sem se desfazer; os regimentos desunir-se-iam logo e a
artilharia ter-se-ia perdido nos pntanos. A retirada, segundo a opinio de muitos
homens da profisso, contestada por outros, seria um verdadeiro
salve-se-quem-puder.
     Wellington ajuntou ao centro uma brigada de Chass, tirada  ala direita, e
uma brigada de Wincke, tirada  ala esquerda, e ainda a diviso de Clinton. Aos
seus ingleses, aos regimentos de Halkett,  brigada de Mitchell, aos guardas de
Maitland, deu por orelhes e contrafortes a infantaria de Brunswick, o
contingente de Nassau, os hanoverianos de Kielmansegge e os alemes de
Ompteda, ao todo vinte e seis batalhes. A ala direita, como diz Charras, foi
rebatida para trs do centro. Disfarada por sacos de terra, havia uma enorme
bateria no stio onde hoje est o chamado Museu de Waterloo. Afora isto,
Wellington tinha numa volta de terreno o regimento dos dragesguardas de
Somerset, que se compunha de mil e quatrocentos cavalos. Era a outra metade
dessa cavalaria inglesa to justamente clebre. Destrudo Ponsonby, ficava
Somerset.
      A bateria, que, se estivesse acabada, seria quase um reduto, estava disposta
por trs da parede de um jardim, muito baixa, revestida  pressa de uma camisa de
sacos de areia e de um talude de terra; esta obra, porm, no estava terminada,
porque no tinha havido tempo de a palissar.
      Wellington, que andava a cavalo, inquieto, mas impassvel, todo o dia
permaneceu na mesma atitude, um pouco adiante do moinho do
Mont-Saint-Jean, que ainda existe, debaixo de um olmo, que depois um ingls,
vndalo entusiasta, comprou por duzentos francos, e, serrado, o levou. Wellington
foi friamente herico nesse dia.
      Choviam-lhe as balas em derredor, caiu-lhe morto ao lado o ajudante de
campo Gordon, e nada o abalou.
      Lord Hill, disselhe, mostrando-lhe uma bomba que rebentara:
      - Millord, quais so as suas instrues e que ordens nos deixa, se se deixar
matar?
      - Fazerem como eu! - respondeu Wellington.
      A Clinton disse laconicamente:
      - Aqui resiste-se enquanto houver um homem!
      Era visvel que o dia corria mal. Wellington gritava aos seus antigos
companheiros de Talavera, de Victoria e de Salamanca:
      - Boys! (rapazes) Quem  que se lembra aqui de retirar? Recordai-vos da velha
Inglaterra!
      As quatro horas, a linha inglesa abalou para trs. De sbito, no se tornou a
ver na crista da planura seno a artilharia e os caadores; o resto desapareceu; os
regimentos, rechaados pelas bombas e pelas balas francesas, deitaram pelo fundo
que ainda hoje corta o carreiro, que d serventia para a herdade do
Mont-Saint-Jean, e, por um movimento retrgrado que se fez, a vanguarda do
exrcito ingls esconde-se e Wellington principiou a recuar.
      - J batem em retirada! - gritou Napoleo.
    VII
    Napoleo de bom humor



     O imperador, posto que doente e incomodado por um padecimento local,
proveniente de andar a cavalo, nunca estivera de to bom humor como naquele
dia.
     Aquele homem impenetrvel sorria desde pela manh. Essa alma profunda,
com mscara de mrmore, no dia 18 de Junho de 1815, resplandecia com as suas
trevas. O homem que estivera sombrio em Austerlitz, em Waterloo andava alegre.
Os maiores predestinados tm destes contra-sensos. As nossas alegrias so
sombra; o supremo sorriso s a Deus pertence.
     Ridet Caesar, Pompeius flebit, diziam os legionrios da legio Fulminatrix.
Desta feita, Pompeia no tinha de chorar, mas o certo  que Csar ria.
      uma hora da noite, quando, em companhia de Bertrand, exposto  chuva e
ao vento, foi a cavalo explorar as colinas que cercam Rossomme, satisfeito de ver a
longa linha das fogueiras inglesas que iluminavam todo o horizonte desde
Frischemonte at Braine-l'Alleud, parecera-lhe exacto o destino, comparecendo
no dia aprazado no campo de Waterloo, para onde o intimara; e, fazendo parar o
cavalo, ps-se a contemplar os relmpagos, a escutar o trovo, permanecendo por
algum tempo imvel na mesma postura e lanando ao vento da noite esta frase
misteriosa: Estamos de acordo. Enganava-se Napoleo; o destino no estava de
acordo.
     Cada instante daquela noite fora para ele um momento de prazer, e esses
instantes reunidos no o haviam deixado dormir um s minuto As duas horas e
meia, depois de ter percorrido a linha das guardas principais, julgou por um
momento, ao ouvir o rumor dos passos de uma coluna em marcha, que
Wellington se retirava, e disse para Bertrand:
     -  a retaguarda do exrcito ingls que marcha em retirada. Farei prisioneiros
os seis mil ingleses que h pouco chegaram a Ostende.
     A sua conversao era expansiva, animada como quando ele, aps o
desembarque do 1. de Maro, mostrava ao grande marechal o aldeo entusiasta
do golfo Juan e exclamava:
     - Ento, Bertrand? J aqui temos reforo!
     A chuva redobrava, o eco dos troves perdia-se no cavado dos vales, e ele
dizia, no meio daquele fragor, mofando de Wellington:
     - Este inglesinho precisa de levar uma lio!
     As trs horas da madrugada, porm, perdeu a primeira iluso;
anunciaram-lhe os oficiais que ele mandou em reconhecimento que o inimigo no
fazia movimento algum. No se mexia nada; nem uma s fogueira do
acampamento estava apagado, O exrcito ingls dormia. Era profundo o silncio
na terra; s no cu havia rudo. As quatro horas, os batedores trouxeram-lhe um
aldeo que servia de guia a uma brigada de cavalaria inglesa, talvez a brigada de
Vivian, que ia para tomar posio na aldeia de Ohain, na extrema esquerda. As
cinco, contaram-lhe dois desertores belgas, que acabavam de deixar o seu
regimento, que o exrcito ingls esperava pela batalha.
     - Melhor! - exclamara Napoleo. - Antes quero destru-los do que recha-los.
     Pela manh, na encosta que forma a volta do caminho de Plancenoit,
apeou-se no meio da lama, mandou buscar a uma herdade uma mesa de cozinha e
uma cadeira de aldeo, sentou-se, com um feixe de palha por tapete, e,
desenrolando em cima da mesa o mapa do campo de batalha, disse para Soult:
     - Que bonito tabuleiro de xadrez!
     Em virtude da chuva que cara de noite, no tinham podido chegar pela
manh os comboios de vveres, embaraados pelo mau estado dos caminhos; os
soldados no tinham dormido, estavam molhados e em jejum, mas nada disto foi
motivo para que Napoleo no gritasse alegremente a Ney.
     - Temos a nosso favor noventa probabilidades contra cem.
     s oito horas, trouxeram-lhe o almoo, para o qual convidou muitos
generais.
     Durante ele, contou-se que Wellington assistira na antevspera a um baile
que se dera em Bruxelas, em casa da duquesa de Richmond, e Soult, soldado rude,
com figura de arcebispo, dissera:
     - Hoje  que  o baile.
     O imperador gracejava com Ney por ter dito:
     - Wellington no h-de ser to simples que espere por Vossa Majestade.
     Era este o seu costume. Napoleo gostava de gracejar - diz Fleury de
Chaboulon. O fundo do seu carcter era um humor prazenteiro - diz Gougaud.
Napoleo abundava em gracejos, mais extravagantes porm, do que espirituosos -
diz Benjamin Constant. Vale a pena insistir nestas jovialidades de gigante. Aos
seus granadeiros chamava-lhes meus grulhas, beliscava-lhes as orelhas e
puxava-lhes pelo bigode. O imperador estava-nos sempre com chascos,  a frase de
um deles. Na viagem misteriosa da ilha de Elba para Frana, em 27 de Fevereiro,
tendo o brigue francs Zfiro encontrado no mar alto o brigue Inconstante,
que conduzia Napoleo, e perguntando-lhe notcias dele, o imperador que
naquela ocasio ainda trazia no chapu o lao branco e cor de amaranto, semeado
de abelhas, adoptado por ele na ilha de Elba, lanou mo do porta-voz a rir e
respondeu ele mesmo:
     - O imperador est bom!
     Quem deste modo ri  porque est familiarizado com os acontecimentos.
     Napoleo teve muitos desses acessos de riso naquele almoo de Waterloo,
aps o qual se concentrou em profunda meditao; dali a um quarto de hora, dois
generais sentaram-se em cima do feixe de palha, com uma pena na mo e uma
folha de papel sobre o joelho, e o imperador ditou-lhes a ordem da batalha.
     s nove horas, na ocasio em que o exrcito francs se ps em movimento,
formado em cinco colunas, com as divises em duas linhas, a artilharia entre as
brigadas e na frente a msica, tocando hinos marciais, com os quais se casava o
rufar dos tambores e o clangor das trombetas, poderoso, vasto, alegre mar de
capacetes, espadas e baionetas movendo-se no horizonte, o imperador exclamara
duas vezes transportado:
     - Magnfico! Magnfico!
     Das nove horas at s dez e meia, at parece incrvel, o exrcito tomou todo
posio, formando-se em seis linhas, que, para nos servirmos da expresso do
imperador, descreviam a figura de seis V V. Instantes depois que a vanguarda
formou em ordem de batalha, no meio desse silncio profundo do principiar de
uma tempestade, que precede os combates, o imperador, ao ver desfilar as trs
baterias de doze, destacadas por ordem sua do corpo de Erlon, de Reille e de
Lobau, e destinadas a principiar a aco, batendo o Mont-Saint-Jean no ponto
onde se cruzam as estradas de Nivelles e de Genappe, disse para Haxo,
batendo-lhe no ombro:
     - Que belas vinte e quatro raparigas, general!
     Certo do resultado, ao passar em frente dele a companhia de sapadores do
primeiro corpo, por ele designada para se entrincheirar no Mont-Saint-Jean,
apenas tomada a aldeia, animou-a com um sorriso. Aquela sua serenidade apenas
fora perturbada por uma frase de orgulhosa compaixo: ao ver agruparem-se  sua
esquerda, no stio onde agora h um tmulo, esses admirveis escoceses pardos,
montados nos seus soberbos cavalos, disse:
     -  pena!
     Depois montou a cavalo e transportou-se para a dianteira de Rossomme,
escolhendo para observatrio um estreito cmoro de relva  direita da estrada de
Genappe a Bruxelas, o qual foi a sua segunda estncia, enquanto durou a batalha.
A terceira estncia, isto , a que ocupou s sete horas da tarde, e que fica entre a
Belle Aliance e Haie-Sainte,  temvel;  um cabeo bastante elevado, que ainda
existe, por trs do qual se achava agrupada a guarda num declive da plancie. Em
volta choviam as balas no cho da estrada, at onde estava Napoleo, a quem,
como em Brienne, zuniam por cima da cabea as balas e os biscainhos. Quase no
lugar onde o cavalo dele tinha os ps, foram encontradas balas enferrujadas,
lminas de espadas velhas e projcteis informes, comidos de ferrugem. Scabra
rubigine. H poucos anos, desen-
     terrou-se ali uma granada de calibre sessenta, ainda carregada, com a culatra
partida pelo ouvido. Foi naquela estncia que o imperador disse ao seu guia
Lacoste, aldeo hostil, que se agarrava assustado ao selim do cavalo de um
hussardo, voltando-se ao rebentar de cada granada e procurando esconder-se por
trs de Napoleo:
     - Isso  uma vergonha, imbecil. Ainda arranjas com que te matem pelas costas.
     Quem estas linhas escreve achou no declive frivel daquele cabeo, ao cavar
no cho, o resto do bocal de uma bomba, desagregados pela ferrugem de quarenta
e seis anos e pedaos de ferro que se lhe quebravam nos dedos como pau de
sabugueiro.
     J no existem as ondulaes das plancies, diversamente inclinadas, onde
teve lugar o recontro de Napoleo com Wellington, mas ningum ignora o que
elas eram a 18 de Junho de 1815. Quiseram erigir-lhe um monumento daquele
campo fnebre e tiraram-lhe o seu relevo real, de modo que a histria perturba-se
e j no sabe onde est. Desfiguraram-no para o glorificar.
     Wellington, ao ver dois anos depois o campo de Waterloo, exclamou:
     - Trocaram-me o meu campo de batalha.
     Onde agora est a grande pirmide de terra coroada pelo leo, havia um alto
que abaixava em declive praticvel para a estrada de Nivelles, mas que pelo lado
da estrada de Genappe era quase escarpado. A elevao da escarpa ainda hoje se
pode medir pela altura dos cabeos das duas grandes sepulturas que bordam a
estrada de Genappe a Bruxelas;  esquerda o tmulo ingls;  direita, o tmulo
alemo. Tmulos franceses no os h ali; para a Frana  toda a plancie um
sepulcro. Em virtude das mil e mil carradas de terra, empregadas no cabeo, que
tem cento e cinquenta ps de altura, por meia milha de circunferncia, a subida
para a planura do Mont-Saint-Jean  hoje a meia ladeira; no tempo em que se deu
a batalha, era cortada a pique e inacessvel, principalmente da parte de
Haie-Sainte. Era to inclinado o declive, que a artilharia inglesa no podia fazer
fogo para a herdade situada no fundo do vale, que era o centro do combate. No
dia 18 de Junho de 1815, as chuvas tinham tambm escavoucado aquele alcantil, a
lama dificultava a subida, para a qual era necessrio ir de gatas, correndo-se ainda
assim o risco de se ficar atolado nela. Ao longo do alto da planura estendia-se um
fosso, que um observador colocado a distncia no seria capaz de dizer o que era.
     Para que era aquele fosso? Digamo-lo. Braine-l'Alleud  uma aldeia da
Blgica; Ohain outra. Essas duas aldeias, ocultas ambas nas curvas do terreno,
comunicam-se por um caminho de quase lgua e meia de extenso, que atravessa
uma plancie de nvel ondulante, e que em muitos stios entra e se perde, como
um rego, por entre as colinas, do que resulta ser em alguns pontos um verdadeiro
barranco. Em 1815, do mesmo modo que agora, essa estrada cortava o alto da
planura do Mont-Saint-Jean entre as duas estradas de Genappe e Nivelles, com a
diferena, porm, de que ento ia por baixo da planura, e hoje fica em nvel com
ela. Das duas escarpas formaram o plnto para o monumento. Essa estrada na
maior parte da sua extenso  uma vala, cavada em stios a doze ps de
profundidade e com os lados to escarpados, que em algumas partes desabavam,
principalmente de Inverno, com as torrentes formadas pelas chuvas, o que por
vezes dera lugar a lamentosos desastres. A entrada de Baine-l'Alleud era to
estreita, que uma ocasio ficou ali um homem esmagado debaixo de um carro,
como o prova uma cruz de pedra erguida ao p do cemitrio, que indica o nome
do morto, Monsieur Bernard Debye, negociante em Bruxelas, e a data do desastre,
Fevereiro de 1637.
     Era to profunda no alto do Mont-Saint-Jean, que em 1738 ficou ali sepultado
debaixo de uma ribanceira, que desabou, um aldeo chamado Matheus Nicaise,
como o provava outra cruz de pedra, cujo cimo desapareceu nas roteaduras, mas
cujo pedestal ainda hoje se v derrubado na encosta do monte,  esquerda da
estrada, entre Haie-Sainte e a herdade do Mont-SaintJean.
     Num dia de batalha, aquela quelha, que s ao p se via, bordando o alto do
Mont-Saint-Jean como um fosso no cimo da escarpa, como uma rodeira aberta na
terra, era invisvel, quer dizer: terrvel.
    VIII
    O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste



     Napoleo, estava, pois, alegre naquela manh de Waterloo, e tinha razo para
o estar.
     O plano de batalha concebido por ele era, com efeito, admirvel.
     Uma vez travada a batalha, nem as suas variadssimas peripcias, nem a
resistncia de Hougomont, nem a tenacidade de Haie-Sainte, nem a morte de
Bauduin, nem Foy posto fora do combate, nem a inesperada muralha, de encontro
 qual foi destruda a brigada de Soye, nem o fatal atabalhoamento de
Guilleminot, que no tinha balas, nem cartuchos, nem as baterias atoladas, nem as
quinze peas sem escolta, destrudas por Uxbridge, numa azinhaga, nem o pouco
efeito das bombas, que caam nas linhas inglesas e que se enterravam no cho
amolecido pela gua da chuva, sem outro efeito mais do que levantar vulces de
lama, de modo que a metralha tornava-se em salpicos, nem a inutilidade da
demonstrao de Pire contra Braine-l'Alleud, nem a cavalaria, que se compunha
de quinze esquadres, reduzida quase toda a nada, nem a ala direita do exrcito
ingls, mal atacada, nem a ala esquerda, mal combatida, nem o estranho equvoco
de Ney, agrupando, em vez de destacar, as quatro divises do primeiro corpo
espessuras de vinte e sete fileiras e vanguardas de duzentos homens, entregues
daquele modo  metralha, nem a destruio das balas naquelas massas, as colunas
de ataque desunidas, a bateria do flanco descoberta subitamente, nem Bourgeois,
Donzelot, Durutte em perigo e Quiot repelido, nem o tenente Vieux, esse
Hrcules sado da escola politcnica, ferido na ocasio em que arrombava, a
golpes de machado, a porta de Haie-Sainte, debaixo do fogo que lhe faziam de
cima da trincheira inglesa, que tapava a volta da estrada de Genappe a Bruxelas,
nem a diviso de Marcognet, apanhada entre a infantaria e a cavalaria,
espingardeada  queima-roupa, no meio das searas de trigo, por Best e Pack, e
acutilada por Ponsonby, nem a sua bateria de sete peas encravadas, nem a
resistncia do prncipe de Saxe-Weimar contra o conde de Erlon, Frischemont e
Smohain, para guardar a bandeira que havia tomado ao regimento 105., nem a
bandeira do regimento 45., tambm tomada, nem o hussardo negro prussiano,
feito prisioneiro pelos batedores da coluna volante de trezentos caadores, que
batiam a estrada entre Wavre e Plancenoit, nem as assustadoras notcias dadas
pelo prisioneiro, nem a demora de Grouchy, nem os mil e quinhentos homens
prostrados por terra em menos tempo ainda, em volta de Haie-Sainte; nenhum
destes incidentes tempestuosos, passando por diante de Napoleo, como as
nuvens de fumo de batalha, lhe perturbaram o olhar ou fizeram ensombrar aquela
face imperial do homem seguro de si. Napoleo estava acostumado a olhar a
guerra de frente, sem fazer a soma pungente das circunstncias, algarismo por
algarismo; importavam-lhe pouco os algarismos, contanto que eles dessem esta
soma: Vitria; nem se assustava que as coisas no corressem bem ao princpio,
pois julgava-se senhor e possuidor do fim delas; sabia esperar, supondo que
ningum lhe podia pedir contas do que fazia, e tratando o destino como de igual
para igual. Parecia que dizia  sorte; No s capaz.
     Napoleo, meio sombra, meio luz, sentia-se protegido no bem e tolerado no
mal.
     Dava-se, ou julgava que se dava com ele, uma convivncia, ou quase diramos
uma cumplicidade dos acontecimentos, equivalente  invulnerabilidade antiga.
     Parece, todavia, que quem tinha no seu passado Beresina, Leipsick e
Fontainebleau podia desconfiar de Waterloo. Na amplido do cu torna-se visvel
qualquer misterioso franzir de sobrancelhas.
     Napoleo estremeceu quando Wellington recuou.
     Ao ver subitamente desguarnecido o alto do Mont-Saint-Jean e desaparecer a
vanguarda do exrcito ingls, que se escondia, embora para se reunir de novo,
ergueu-se nos estribos e pelos olhos passou-lhe o relampejar da vitria.
     Wellington, encurralado na floresta de Soignes, era a Inglaterra
definitivamente derribada pela Frana; era a vingana de Crecy, Poitiers,
Malplaquet e Ramillies. Era o homem de Marengo passando um trao negro por
cima de Azincourt, O imperador, a quem a sua guarda, colocada por trs dele com
as armas em descanso, observava com uma espcie de religio, ao lembrar-se
ento da terrvel peripcia, deitou o culo pela ltima vez para todos os pontos da
batalha e ps-se a meditar, a examinar as confluncias dos montes, a notar os
declives, a perscrutar as moitas de rvores, a amplido das searas, os meandros
dos carreiros; parecia contar cada espinheiro das saras. Contemplou com certa
fixidez as trincheiras inglesas das duas estradas, formadas de grandes juncadas de
rvores, a saber: a da estrada de Genappe acima de Haie-Sainte, guarnecida de
duas peas, as nicas do exrcito que podiam fazer fogo para o fundo do campo de
batalha, e a da estrada de Nivelles, onde se viam brilhar as baionetas holandesas de
Chass.
     Notando ento ao p desta trincheira a capela de S. Nicolau, caiada de branco,
a qual fica na volta do atalho que vai para Braine-l'Alleud, curvou-se e falou a
meia-voz ao guia Lacoste, quefez um sinal de cabea negativo, decerto prfido.
    Depois endireitou-se e tornou a embrenhar-se nas suas cogitaes.
    Wellington tinha recuado. Restava, pois, acabar aquele retrocesso por uma
derrota completa.
    De sbito, Napoleo voltou-se e expediu para Paris um correio a toda a brida,
encarregado de anunciar que estava ganha a vitria.
    Napoleo, que era um desses gnios de que sai o trovo, acabava de encontrar
o seu raio, dando ordem aos couraceiros de Milhaud para tomar o alto do
Mont-SaintJean.



    IX
    O imprevisto



     Eram trs mil e quinhentos gigantes montados em cavalos colossos, que,
formados em linha, ocupavam um quarto de lgua de terreno; eram vinte e seis
esquadres, protegidos pela retaguarda, pela diviso de Lefebvre-Desnouettes;
cento e seis gendarmes escolhidos, mil cento e oitenta e sete caadores e
oitocentos e oitenta lanceiros. Traziam capacetes sem penacho e couraas de ferro
batido, com pistolas de aro nos coldres e o comprido sabre-espada.
     s nove horas da manh, admirou-os todo o exrcito, quando no meio do
clangor das trombetas e das harmonias das msicas que cantavam:
     - Velemos pela salvao do imprio Vieram em coluna cerrada e com uma das
baterias ao lado e a outra no centro, formar-se em duas filas, entre as estradas de
Genappe e a de Frischemont, e tomar o seu lugar para a batalha nessa valente
segunda linha, to sabiamente composta por Napoleo, a qual, para assim dizer,
tinha duas alas de ferro, porque na extremidade esquerda ficavam-lhe os
couraceiros de Kellermann e na extremidade direita os couraceiros de Milhaud.
     Recebida a ordem do imperador, que lhes foi levada pelo ajudante de campo
Bernard, Ney desembainhou a espada e ps-se  frente dos enormes esquadres,
que levantaram campo.
     Toda aquela cavalaria, de sabres em punho, estandartes e trombetas ao vento,
formada em duas colunas, desceu com movimento uniforme, parecendo um s
homem, e com a exactido de um arete aferindo uma brecha, a colina de Belle
Alliance, entranhou-se no terrvel vale, onde j tantos homens haviam cado, e
desapareceu por entre o fumo, saindo em seguida daquela sombra para reaparecer
do outro lado, ainda cerrada e compacta, subindo a galope, por entre um chuveiro
de granadas, que lhe rebentavam por cima, a medonha rampa de lama, que
conduzia ao alto do Mont-SaintJean. Eles subiam, graves, ameaadores,
imperturbveis; nos intervalos da mosquetaria e da artilharia, ouvia-se aquele
mover de p~colossal. Eram duas divises, formando duas colunas,  direita, a
diviso de Wathier,  esquerda; a diviso de Delord. Quem via de longe,
pareciam-lhe duas imensas cobras de ao, estendendo-se para o alto do
Mont-Saint-Jean. Aqueles homens atravessaram o campo de batalha como um
prodgio.
     Desde a tomada do grande reduto de Moskowa pela grossa cavalaria, no se
tornara a ver coisa semelhante; faltava ali Murat, mas estava Ney. Parecia que
aquela massa se tinha cqnvertido num monstro com uma s alma. Por entre uma
nuvem de fumo, rasgada aqui e alm, viam-se os esquadres estendendo-se,
ondulando, como os anis de um plipo. Era uma confuso de capacetes, gritos e
sabres, de saltos impetuosos dos cavalos, jogando de garupa, ao estrondo do
canho e ao tanger das trombetas, um tumulto disciplinado, mas terrvel, e por
cima de tudo isto as couraas, como as escamas sobre a hidra.
     Parece um conto de outros tempos isto que narramos. S nas antigas epopeias
rficas, em que se descrevem os homens-cavalos, os antigos hipantropos, tits
com rosto humano e peitos de cavalo, que escalaram o Olimpo, horrveis,
invulnerveis, sublimes; deuses e animais; s nas antigas epopeias rficas,
dizemos,  que aparecem coisas semelhantes a esta viso.
     Estranha coincidncia numrica! Aqueles vinte e seis esquadres iam ser
recebidos por vinte e seis batalhes. Por trs do alto da planura, esperava-os
muda, imvel protegida pela bateria oculta a infantaria inglesa, formada em treze
quadrados, a dois batalhes cada um, e em duas linhas, sete na primeira, seis na
segunda, de coronhas fincadas ao ombro, fazendo pontaria para o que vinha. Os
soldados ingleses, porm, no viam os couraceiros, nem os couraceiros viam os
soldados ingleses. Estes ouviam subir aquela mar de homens; ouviam cada vez
mais distinto o rudo de trs mil cavalos a trote largo, o bater alternado e simtrico
das ferraduras nas pedras da estrada, o atrito das couraas, o tinir dos sabres e um
como hlito feroz. Aps uma pausa terrvel, em que tudo era silncio, apareceu
subitamente em cima da esplanada uma comprida fileira de braos erguidos
brandindo sabres, uma multido de capacetes, trombetas e estandartes, e trs mil
cabeas de homens de bigode russo, gritando:
     - Viva o imperador!.
     Parecia que tremia a terra, ao desembocar na plancie toda aquela cavalaria.
     De sbito - trgico sucesso! - do meio da vanguarda da coluna dos
couraceiros levantou-se um clamor terrvel. Ao chegarem ao alto da encosta,
tinham dado de chofre com um fosso, uma vala que se estendia entre eles e os
ingleses. Era a azinhaga de Ohain.
     Foi medonho aquele momento, quando repentina, inesperadamente, lhes
surgiu diante aquele barranco, que se abria a prumo a uma profundidade de duas
toezas debaixo dos ps dos cavalos; estes empinavam-se, atiravam-se para trs,
levantavam as patas no ar e caam de costas, pisando e ferindo os cavaleiros, que
no tinham meio de recuar, porque a primeira fileira impelia a segunda, a segunda
a terceira. A coluna tornou-se um projctil; a fora adquirida para esmagar os
ingleses esmagou os franceses. Cavalos e cavaleiros, tudo caiu de roldo naquele
barranco inexorvel, que para se transpor era necessrio que estivesse entulhado,
esmagando-se uns aos outros, fazendo uma s carne, naquele sorvedouro. Cheia a
cova, o resto passou, caminhando por cima dos que tinham cado. Ali ficou quase
um tero da brigada de Dubois, e este desastre foi o princpio da perda da batalha.
     Diz uma tradio local, evidentemente exagerada, que dois mil cavalos e mil e
quinhentos homens ficaram sepultados na azinhaga de Ohain. Esta cifra, porm, a
que se faz subir o nmero dos mortos, compreende, provavelmente, todos os
outros cadveres que no dia do combate foram lanados quele barranco.
     Napoleo observara o terreno antes de ordenar a carga dos couraceiros de
Milhaud, porm, no pde ver a azinhaga, que no formava sequer uma ruga na
superfcie do terreno. Avisado, porm, e como que despertado pela capelinha
branca que marca a volta da estrada de Nivelles, fez, talvez receoso da
eventualidade de qualquer obstculo, alguma pergunta ao guia Lacoste. O guia
respondeu que no.
     Quase diramos, pois, que desse aceno de cabea de um aldeo  que brotou a
catstrofe de Napoleo.
     Outras fatalidades, porm, tinham de surgir. Era possvel que Napoleo
ganhasse esta batalha? Respondemos que no. Porqu? Por causa de Wellington?
Por causa de Blucher? No. Por causa de Deus.
     A lei do sculo XIX no concedia a Bonaparte a vitria de Waterloo.
Preparava-se outra srie de factos, em que Napoleo j no tinha lugar. Havia
muito que a m vontade dos acontecimentos se tinha declarado.
      Era chegado o tempo de to grande homem cair.
      A sua excessiva gravidade nos destinos humanos perturbava o equilbrio. Este
indivduo, s por si, pesava mais do que o grupo universal. Seriam mortais para a
civilizao, se durassem, estas pletoras da vitalidade humana concentrada toda
numa s cabea, o mundo junto no crebro de um s homem. Chegara o
momento em que a incorruptvel equidade suprema reconsiderava. Naturalmente
tinham feito ouvir as suas queixas os princpios e elementos, de que dependem as
gravitaes regulares, tanto na ordem moral como na ordem material. O sangue
ainda fumegante, o atulhamento dos cemitrios, as lgrimas das mes, so
arrazoados temveis. Quando a terra sofre com a demasia do peso que a
sobrecarrega, h gemidos misteriosos na sombra, que so ouvidos pelo abismo.
      Napoleo fora denunciado no infinito, e a sua queda estava decidida.
      Incomodava Deus.
      Waterloo no  uma batalha;  a mudana de aspecto do Universo.



    X
    A planura do Mont-Saint-Jean



     Ao mesmo tempo que os couraceiros deram com o barranco, depararam
diante de si com a bateria oculta, que os fulminava  queima-roupa com as suas
sessenta peas, e  qual o intrpido general Delord fez a saudao militar. Ao fogo
da bateria juntava-se o dos quadrados.
     A artilharia volante inglesa entrara toda a galope para dentro dos quadrados,
sem que os couraceiros tivessem um momento de espera. O desastre da azinhaga
dizimara-os, mas no lhes fizera perder o nimo. Eram desses homens que
crescem no corao, diminuindo no nmero.
     S a coluna Wathier  que tinha sofrido acidente; a de Delord chegara inteira
por Ney a ter feito ladear  esquerda, como se pressentisse a emboscada.
     Os couraceiros arrojaram-se contra os quadrados ingleses, galopando  rdea
solta, de sabre traado nos dentes e pistolas nas mos. Tal foi o ataque.
     Ocasies h nas batalhas em que a alma endurece o homem, a ponto de o
mudar de soldado em esttua e de massa de carne em massa de granito. Os
batalhes ingleses, assaltados desvairadamente, no se moveram.
     Deu-se ento uma coisa horrorosa.
     As faces dos quadrados ingleses foram atacadas todas ao mesmo tempo e
envolvidas num como rodopio frentico. Aquela fria infantaria ficou impassvel.
A primeira fileira recebia-os de joelho em terra nas pontas das baionetas, a
segunda espingardeava-os, e por trs desta os artilheiros carregavam as peas,
abria-se a frente do quadrado para deixar passar uma erupo de metralha e
tornava a fechar-se. Os couraceiros respondiam esmagando. Os seus grandes
cavalos empinavam-se, saltavam as fileiras, pulavam por cima das baionetas e
caam como gigantes no meio daquelas quatro paredes vivas. As balas faziam
abertas nos couraceiros, os couraceiros abriam brechas nos quadrados.
Desapareciam filas de homens esmigalhadas pelos ps dos cavalos, enterravam-se
as baionetas no ventre daqueles centauros. Era uma deformidade de feridas, que
talvez nunca se visse em parte nenhuma. Os quadrados dizimados por aquela
cavalaria enfurecida estreitavam-se sem demora e continuavam a fazer exploso
no meio dos assaltantes, com inesgotvel metralha. Era monstruoso o aspecto
daquele combate. Os quadrados no eram batalhes, eram crateras; os couraceiros
uma tempestade, no uma cavalaria. Era cada quadrado um vulco atacado por
uma nuvem; a lava a combater com o raio.
     O quadrado extremo da direita, formado pelo 75. regimento de
highlanders, que era o mais exposto, por estar em movimento, ficou quase
aniquilado aos primeiros choques. Enquanto em redor tudo era extermnio, o
tocador de gaita de fole, sentado num tambor, com o seu pibroch (Pibroch  o
canto guerreiro dos escoceses, mas a palavra  aqui empregada pelo autor,
indicando o fole do instrumento.) debaixo do brao, tocava as modas das
montanhas, descado em profunda abstraco com o olhar melanclico, cheio do
reflexo das florestas e dos lagos. Os escoceses morriam a pensar em Ben Lothian,
como morriam os gregos no meio das recordaes de Argos. Porm, o sabre de
um couraceiro fez cessar o canto, cortando o pibroch e o brao que o sustentava e
matando o cantor.
     Os couraceiros, relativamente pouco numerosos, porque haviam minguado
com o desastre do barranco, tinham contra si quase todo o exrcito ingls, porm,
multiplicavam-se, porque cada homem valia dez. Todavia, alguns batalhes
hanoverianos sucumbiam. Wellington, que o viu, lembrou-se da sua cavalaria, e se
Napoleo se lembrasse tambm naquela ocasio da sua infantaria, teria ganho a
batalha. Este esquecimento foi uma falta fatal para ele.
     De sbito, os couraceiros, que eram os que assaltavam, sentiram-se
assaltados; tinham pela retaguarda a cavalaria inglesa. Na frente os quadrados, na
retaguarda Somerset, isto , os mil e quatrocentos dragesguardas, com a cavalaria
ligeira alem, comandada por Domberg,  direita e  esquerda Trip, com os
carabineiros belgas. Os couraceiros, pois, atacados de lado, por diante e por trs,
pela infantaria e pela cavalaria, tiveram de fazer frente por todos os lados. Que
lhes importava aquele turbilho? A sua bravura tornou-se inexprimvel.
     Alm disto, tinham ainda pela retaguarda a bateria troando sempre. S assim
 que aqueles homens podiam ser feridos nas costas. Entre a coleco do museu de
Waterloo acha-se uma couraa, com um buraco na omoplata esquerda, feito por
uma bala de biscainho.
     Para franceses assim, s ingleses como aqueles.
     Aquilo no foi uma refrega, foi uma sombra, uma fria, um arrebatamento
vertiginoso de armas e coragens, um furaco de espadas-relmpagos. Dentro de
um instante, os mil e quatrocentos dragesguardas ficaram reduzidos a oitocentos
e o seu tenente Fuller caiu morto. Acudiu Ney com os lanceiros e os caadores de
Lefebvre-Desnouettes, e a planura do Mont-Saint-Jean foi tomada, retomada e
tornada a tomar; os couraceiros deixando a cavalaria para se voltarem contra a
infantaria, os quadrados resistindo sempre; era uma barafunda formidvel,
melhor diremos assim, junta num s grupo, sem que uns se desenvencilhassem
dos outros. Nesta refrega, que durou duas horas, durante as quais se deram doze
assaltos, mataram quatro cavalos a Ney e metade dos couraceiros ficou na
planura.
     Esta luta, porm, abalou profundamente o exrcito ingls. Para ns  fora de
dvida que, se o desastre da azinhaga no lhe tivesse enfraquecido o primeiro
mpeto, os couraceiros teriam destrudo o centro e assim decidido a vitria.
Wellington, quase vencido, admirava como heri aquela cavalaria extraordinria
que petrificara Clinton, Clinton que vira Talavera e Badajoz, e dizia a meia voz:
     - Sublime! (Splendid! palavra textual.).
     Sete quadrados aniquilaram os couraceiros de treze que eram; tomaram ou
encravaram sessenta peas de artilharia, e arrebataram aos regimentos ingleses
seis bandeiras, que trs couraceiros e trs caadores foram levar ao imperador, o
qual se achava em frente da herdade da Belle Alliance.
     A situao de Wellington piorara. Aquela estranha batalha era um como
encarniado duelo entre dois feridos, que, ao passo que iam combatendo e
resistindo, iam cada qual, pela sua parte, perdendo o sangue que lhe restava. Qual
ser o que h-de cair primeiro?
     Na plancie continuava a luta.
     At onde chegaram os couraceiros  coisa que ningum poder dizer. O que 
certo, porm,  que no dia seguinte ao da batalha foi encontrado morto um
couraceiro com o seu cavalo no Mont-Saint-Jean, junto ao madeiramento da
balana onde so pesadas as carruagens, mesmo no stio em que se cruzam as
quatro estradas de Nivelles, Genappe, La Hulpe e Bruxelas.
     O cavaleiro tinha atravessado as linhas inglesas. Ainda vive no
Mont-Saint-Jean um dos homens que levantaram aquele cadver. Chama-se
Dehaze e tinha ento dezoito anos.
     Estava prxima a crise. Wellington sentia-se enfraquecer.
     Os couraceiros no tinham tirado resultado do seu esforo, por que o centro
conservava-se firme. Sendo a plancie de todos, no era de ningum, mas em
suma, a maior parte pertencia aos ingleses. Wellington apossara-se da aldeia e da
plancie dominante; Ney estava senhor do alto e da encosta. Parecia cada qual
arraigado quele solo fnebre.
     O enfraquecimento dos ingleses tornava-se, porm, irremedivel. Era horrvel
a hemorragia daquele exrcito. Kempt, na ala esquerda, reclamava reforo.
     - No o h! - respondia Wellington. - Que se deixe matar!
     E quase ao mesmo tempo, singular paralelo que pinta a prostrao dos dois
exrcitos, Ney pedia infantaria a Napoleo e Napoleo exclamava:
     - Infantaria? Onde a tenho para lha mandar? Quer que me desfaa nela?
     O exrcito ingls, todavia, era o que estava mais enfermo. Os mpetos furiosos
daqueles grandes esquadres de couraas de ferro e peitos de ao haviam
esmagado a infantaria. O lugar de um regimento era denotado apenas por alguns
homens em volta de uma bandeira; batalhes havia que eram comandados por um
capito ou tenente; a diviso de Alten, j to maltratada em Haie-Sainte, estava
quase destruda; os intrpidos belgas da brigada de Van-Kluze juncavam os
campos de centeio, ao longo da estrada de Nivelles; dos granadeiros holandeses,
que em 1811, na Espanha, combatiam contra Wellington, ao nosso lado, e que em
1815 cobatiam contra Napoleo, ao lado dos ingleses, quase nada restava. A isto
devemos acrescentar a perda dos oficiais, que era considervel. Lord Uxbridge,
que no dia seguinte mandou enterrar a perna, tinha o joelho quebrado. Se nesta
luta dos couraceiros, da parte dos franceses estavam fora de combate Delord,
Lhritier, Colbert, Dnop, Travers e Blancard, da parte dos ingleses Alten e Barne
tinham sido feridos, Delancey, Van Merlen e Ompteda mortos, o estado-maior de
Wellington dizimado, de modo que a Inglaterra era a de pior partido naquele
sanguinolento equilbrio. O segundo regimento dos guardas a p perdera cinco
tenentes-coronis, quatro capites e trs alferes; o primeiro batalho do 30. de
infantaria perdera vinte e quatro oficiais e mil e duzentos soldados, o 79. de
montanheses tinha vinte e quatro oficiais feridos, dezoito mortos e cento e
cinquenta soldados mortos. Os hussardos hanoverianos de Cumber-land, isto ,
um regimento inteiro, comandado pelo coronel Hacke, que mais tarde tinha de
ser julgado e condenado, retiraram  vista do combate e refugiaram-se na floresta
de Soignes, semeando a derrota at Bruxelas. As carretas, os cabos de puxar as
peas, as bagagens, os carros cheios de feridos, ao ver ganhar terreno aos
franceses, que se aproximavam da floresta, fugiam diante deles, e os holandeses,
acutilados pela cavalaria francesa, soltavam gritos de terror!
     Segundo dizem testemunhas que ainda existem, desde Vert-Coucou at
Groenendael, numa extenso de perto de duas lguas na direco de Bruxelas, os
fugitivos eram tantos, que atulhavam a estrada. Tal foi o pnico que nem o
prncipe de Conde em Malines, nem Lus XVIII em Gand lhe escaparam. A
excepo da tnue reserva formada por trs da ambulncia estabelecida na
herdade do Mont-Saint-Jean, e das brigadas de Vivian e Vandeleur, que
flanqueavam a ala esquerda, Wellington j no tinha cavalaria. Grande nmero de
baterias jaziam desmontadas.  isto que narra Siborne; Pringle, porm,
exagerando o desastre, chega a dizer que o exrcito anglo-holands estava
reduzido a trinta e quatro mil homens. O duque-de-ferro estava sereno, mas tinha
os lbios descorados. O comissrio austraco Vincent e o comissrio espanhol
Alava, que assistiram  batalha, fazendo parte do estado-maior ingls, julgavam o
duque perdido. As cinco horas, Wellington puxou pelo relgio e ouviram-lhe esta
sombria frase:
     - Ou Blucher ou a noite!
     Foi ento que para a parte de Frischemont se viu uma linha longnqua de
baionetas a brilhar no alto de uma colina.
      aqui a peripcia deste drama gigante.



    XI
    Mau guia para Napoleo, bom guia para Bulow



    Todos conhecem o pungente equvoco de Napoleo, esperando Grouchy e
sobrevindo-lhe Blucher; a morte em lugar da vida.
     Tem destas voltas o destino. Em vez do trono do mundo, que esperava,
avistou ao longe, no horizonte, as rochas de Santa Helena.
     Se o pastorinho que servia de guia a Bulow, tenente de Blucher, o tivera
aconse-lhado a que antes desembocasse da floresta, acima de Prischemont, do que
abaixo de Plancenoit, talvez fosse diferente a forma do sculo XIX, porque
Napoleo teria ganho a batalha de Waterloo. Por qualquer outro caminho que no
fosse o que vinha sair abaixo de Plancenoit, o exrcito prussiano viria esbarrar-se
num barranco impossvel de transpor para a artilharia, e Bulow no chegaria.
     Mais uma hora de demora, pois, e Blucher, segundo declara o general
prussiano Muffling, j no encontraria Wellington em p: A batalha estava
perdida.
     Era, portanto, tempo, como se v, de chegar Bulow, que, todavia, se tinha
demorado bastante, pois tinha partido pela madrugada de Dion-le-Mont, onde
pernoitara.
     Os caminhos, porm, estavam intransitveis, o que foi causa de que os
soldados se atolassem na lama que os cobria e que as carretas em que vinha
montada a artilharia se enterrassem tambm at ao eixo. Alm disso, foi
necessrio passar o Dyle na estreita ponte de Wavre, o que se tornava ainda mais
difcil, porque os franceses haviam incendiado a rua que a ela conduzia, e como os
caixes da plvora e carros da artilharia no podiam passar por entre duas fileiras
de casas em chamas, tiveram de esperar que se apagasse o fogo.
     Ao meio-dia ainda a vanguarda de Bulow no tinha podido chegar  capela de
S. Lambert.
     Ora, se a aco tivesse principiado duas horas mais cedo, teria acabado s
quatro, e quando Blucher viesse, encontraria a batalha ganha por Napoleo. Estes
acasos, porm, posto que imensos, escapam-nos envoltos nas sombras do infinito.
     Fora o imperador, com o seu longo culo, o primeiro que ao meio-dia
avistara noextremo horizonte o que quer que fosse que lhe prendera a ateno e
disse:
     - Vejo l ao longe uma nuvem que me parece tropa.
     Depois perguntou ao duque de Dalmcia:
     - Soult, que  o que se v para o lado da capela de S. Lambert?
     O marechal apontou o culo naquela direco e respondeu:
     - Quatro ou cinco mil homens, sire.  decerto Grouchy.
     O que era, porm, permanecia imvel na neblina. Aps isto, todos os culos
do estado-maior estudaram a nuvem que o imperador apontara e uns disseram:
So colunas que fizeram alto, outros, e foi a maior parte, disseram: Aquilo so
rvores.
     A verdade era que a nuvem no se movia. Napoleo destacou portanto a
diviso de cavalaria ligeira de Domon para reconhecer aquele ponto escuro.
     Efectivamente, Bulow tinha feito alto. Como a sua vanguarda era pequena e
fraca, teve de esperar o corpo do exrcito, porque tinha ordem de se concentrar
antes de entrar em linha; s cinco horas, porm, vendo Blucher o perigo em que
estava Wellington, ordenou a Bulow que atacasse, proferindo esta notvel frase:
 preciso dar ar ao exrcito ingls.
     Da a pouco, formavam-se as divises de Losthin, de Hller, Hacke e Ryssel,
em frente do corpo de Lobau, a cavalaria do prncipe Guilherme da Prussia
desembocava do bosque de Paris, Plancenoit ardia em chamas e as balas
prussianas principiavam de chover at s fileiras da guarda de reserva colocada
por trs de Napoleo.



    XII
    A guarda



     O resto sabe-se; a irrupo de um terceiro exrcito, a deslocao da batalha,
oitenta e seis bocas de fogo troando de repente, a chegada sbita de Pirch 1. com
Bulow, a cavalaria de Zieten comandada por Blucher em pessoa, os franceses
recha- ados, Marcognet varrido da azinhaga de Ohain, Durutte desalojado de
Papelotte, retirada de Donzelot e Quiot, Lobau apanhado de lado, nova batalha
travada com os nossos desmantelados regimentos ao cair da noite, a linha inglesa
tomando toda outra vez a ofensiva e impelida para a frente, a rotura gigantesca
feita no exrcito francs, a metralha inglesa e a metralha prussiana auxiliando-se
mutuamente, o extermnio, a destruio pela frente e pelo lado, e a guarda a entrar
em linha no meio deste destroo formidvel.
     Ao conhecer que ia morrer, a guarda gritou: Viva o imperador!. No se
encontra na histria coisa mais pattica do que esta agonia, rompendo em
aclamaes.
     O cu, que todo o dia estivera encoberto, ficou limpo de sbito, exactamente
naquela ocasio (eram oito horas da tarde), afastando-se as nuvens do horizonte
para darem passagem  sinistra vermelhido do sol poente por entre os olmos da
estrada de Nivelles. Em Austerlitz viram-no os combatentes nascer.
     Naquele desenlace, cada batalho era comandado por um general. Ali se
acharam Friant, Michel, Roguet, Harllet, Mallet, Poret de Morvan. Quando as
barretinas dos granadeiros da guarda com a sua larga chapa da guia apareceram
no meio da neblina da refrega, simtricos, alinhados, tranquilos, o inimigo
sentiu-se dominado de respeito pela Frana, julgando ver entrar no campo da
batalha vinte vitrias de asas abertas, e os que eram vencedores recuaram,
julgando-se vencidos: Wellington, porm, gritou-lhes:
     - A p, guardas, e pontaria certa!
     O regimento vermelho dos guardas ingleses, deitado por trs das sebes,
levantou-se, a bandeira tricolor, que tremulava em volta das nossas guias, foi
crivada por uma nuvem de metralha, e os combatentes arrojaram-se uns contra os
outros principiando ento a suprema carnificina.
     A guarda imperial sentiu nas sombras o exrcito a fugir, sentiu o vasto abalo
da derrota, ouviu o salve-se quem puder! que substitura o viva o imperador!, mas
se bem que todos fugissem, ela continuou a avanar, cada vez mais dizimada pela
morte, a cada passo que dava. No houve ali irresolutos nem tmidos. Naquele
regimento, to herico era o soldado como o general.
     Nem um s homem fugiu ao suicdio.
     Ney, no meio daquela tormenta, oferecia-se aos golpes de todos, desvairado e
grande em toda a sua altura de homem que aceita voluntrio a morte. Ali lhe
mataram o quinto cavalo. A escorrer em suor, com a chama nos olhos, a escuma
nos lbios, a farda desabotoada, uma das dragonas meia cortada por uma cutilada
de um guarda a cavalo, a sua chapa com a grande guia amolgada por uma bala,
banhado em sangue, cheio de lama, magnfico, com uma espada quebrada na
mo, dizia:
     - Vinde ver como um marechal de Frana morre no campo da batalha!
     Porm, foi debalde; ele no morreu. Ney andava desvairado e indignado,
fazendo esta pergunta a Drouet de Erlon:
     - Ento tu no encontras quem te mate?
     E gritando no meio daquela artilharia a esmagar um punhado de homens:
     - Oh, quisera que todas estas balas inglesas me entrassem na barriga, mas para
mim no h nada!
     Estava reservado para as balas francesas, infeliz!
    XIII
    A catstrofe



     Lgubre foi a derrota na retaguarda daqueles intrpidos soldados. O exrcito
retrocedeu rapidamente de todos os lados ao mesmo tempo, de Hougomont, de
Haie-Sainte, de Papelotte, de Plancenoit, e ao grito de: Traio! seguiu-se o
grito: Salve-se quem puder! Um exrcito em debandada  um degelo. Tudo se
curva, se abre, estala, flutua, rola, cai, choca, apressa e precipita. Desagregao
inaudita. Ney pede um cavalo emprestado, mona e vai colocar-se no meio da
estrada de Bruxelas para fazer parar ingleses e franceses, sem chapu, nem gravata,
nem espada,- tentando reter o exrcito, chamando-o, insultando-o, agarrando-se
a tudo no meio daquela derrota, transbordando: os soldados, porm, fogem-lhe,
gritando:
     - Viva o marechal Ney!
     Dois regimentos de Durutte vo e vm como uma pla, entre os sabres dos
ulanos e a mosquetaria das brigadas de Kempt, de Best, Pack e de Rylandt; a pior
das refregas  a derrota; matam-se mutuamente os amigos para fugir;
dispersam-se e quebram-se uns contra os outros os esquadres e os batalhes;  a
espuma enorme de uma batalha rugindo e refervendo. Lobau numa extremidade,
Reille na outra foram arrebatados pela vaga. Debalde, Napoleo faz muralhas com
o que lhe resta da guarda; debalde empenha num ltimo esforo os esquadres s
suas ordens. Quiot retira diante de Vivian, Kellermann diante de Vandeleur,
Lobau diante de Bulow, Morand diante de Pirch, Domon e Subervic diante do
prncipe Guilherme da Prussia Guyot, que comandou na carga os esquadres do
imperador, cai aos ps dos drages ingleses.
     Napoleo corre a galope por entre os fugitivos, fala-lhes, insta-os, ameaa,
suplica.
     Porm, todas as bocas que pela manh gritavam, viva o imperador!, ficam
abertas; mal o conhecem. A cavalaria prussiana, vinda do fresco, precipita-se, voa,
acutila, corta, despedaa, mata, extermina. As peas fogem; os cavalos que as
puxam atropelam-se; os soldados do trem desatrelam as caixas e deitam mo dos
cavalos para fugir; as carretas quebram-se e ficam voltadas para o ar, embaraando
a estrada e dando ocasio a maior carnificina. Esmagam-se uns aos outros,
rechaam-se, caminham por cima dos mortos e por cima dos vivos. Os braos
sentem-se cansados. Enche as estradas uma multido vertiginosa, que se espalha
nos carreiros, nas pontes, nas plancies, nas colinas, nos vales, nos bosques,
atulhados pela evaso de quarenta mil homens. Gritos de desespero, sacos e
espingardas atirados para o meio das searas, passagens abertas a golpes de espada,
nem camaradas, nem oficiais, nem generais; um horror inexprimvel! Zieten
acutilando a Frana  sua vontade. Os lees tornados cabritos. Tal foi aquela
debandada.
     Em Genappe houve a tentativa de voltar-se, fazer frente, travar a roda. Lobau
reuniu trezentos homens, que se entrincheiraram  entrada da aldeia, porm, 
primeira descarga da metralha prussiana, deitou tudo a fugir e Lobau ficou
prisioneiro. Ainda hoje se v o sinal daquela descarga de metralha na empena
arruinada de uma casinhola, que fica  direita da estrada, alguns passos para c de
Genappe. Os prussianos arremessaram-se para o lado de Genappe, furiosos
decerto por serem to pouco vencedores. Foi monstruosa aquela avanada no
encalo dos inimigos. Blucher ordena o extermnio, porque Roguet dera o lgubre
exemplo de ameaar com a morte todo o granadeiro francs que lhe trouxesse um
prisioneiro prussiano. Blucher excedeu Roguet. Duhesme, general da guarda nova,
encurralado numa estalagem de Genappe, entregou a espada a um hussardo da
Morte, que pegou na espada e matou o prisioneiro. A vitria acabou pelo
assassnio dos vencidos. Punamos ns, que somos a histria: o velho Blucher
desonrou-se. Aquela ferocidade ps o cmulo ao desbarate.
     A derrota atravessou, desesperada, Genappe, Quatre-Bras, Grosselies,
Frasnes, Thuin, Charleroi, parando s na fronteira. Oh, Deus! E quem  que assim
fugia? O grande exrcito! Acaso no teria um motivo aquela vertigem, aquele
terror, a queda em runas daquela bravura, a mais elevada que em tempo algum
tenha feito o espanto da histria? Teve. Projecta-se sobre Waterloo a sombra de
uma recta enorme. Foi o dia do destino. A fora que domina o homem foi a que
deu aquele dia. Da a ruga do pavor desenhada nas testas; da a entrega das
espadas por todas essas grandes almas.
     Ficaram derribados na luta os que haviam vencido a Europa, sem ter que
dizer nem que fazer mais nada, porque conheciam na sombra uma presena
terrvel. Hoc erat in fatis. Aquele dia mudou a perspectiva do gnero humano.
Waterloo foi o gonzo do sculo dezanove. Era necessria a desapario do grande
homem para a chegada do grande sculo, e dela se encarregou algum a quem se
no replica. O pnico dos heris explica-se. A batalha de Waterloo foi mais do que
uma nuvem, foi um meteoro.
     Foi a passagem de Deus.
     Ao cair da noite, Bernard e Bertrand, num campo das imediaes de Genape,
fizeram parar, agarrando-o por uma aba do casaco, um homem desvairado,
pensativo, sinistro, que, arrastado at quele lugar pela torrente da derrota,
acabava de se apear do seu cavalo e que, depois de enfiar o brao pela rdea,
voltava s para Waterloo, com olhar espantado. Era Napoleo, sonmbulo imenso
daquele sonho desfeito, tentando ainda romper para a frente.



    XIV
    O ltimo quadrado



     No meio da torrente da derrota, porm, conservaram-se imveis at  noite,
alguns quadrados, como rochedos no meio da gua que se despenha. Sobrevinda a
noite e a morte tambm, arrostaram-se com essa dupla sombra e deixaram-se
envolver por ela, inabalveis no seu posto. Ali, cada regimento morria isolado dos
outros, porque j no havia laos que os prendessem ao exrcito, por todas as
partes desbaratados. Para travarem esta derradeira aco, uns tinham tomado
posio nas eminncias de Rossomme, outros na esplanada do Mont-Saint-Jean,
onde, abandonados, vencidos, terrveis, agonizavam formidavelmente aqueles
quadrados escuros.  que com eles morriam Ulm, Wagram, lena, Friedland.
     Ao escurecer, por volta das nove horas, restava um, no fundo da esplanada do
Mont-Saint-Jean, comandado por um oficial obscuro chamado Cambronne,
lutando ainda debaixo dos fogos convergentes da artilharia inimiga vitoriosa,
debaixo de uma densidade terrvel de projcteis naquele vale funesto, junto a essa
encosta por onde treparam os couraceiros, e agora inundada pelas massas
inglesas. A cada descarga, o quadrado diminua, mas respondia estreitando de
contnuo as suas quatro paredes e replicando  metralha com descargas de
espingardaria, cujo troar sombrio e decrescente ao longe os fugitivos aodados
paravam por um momento a escutar no meio das trevas.
     Quando, porm, aquela legio no era mais do que um punhado, quando a
bandeira flutuava rasgada em tiras, quando as espingardas se lhes tornaram
inteis por no terem balas, quando o monto de cadveres se tornou maior que o
grupo vivo, houve entre os vencedores um como terror sagrado em volta daqueles
moribundos sublimes e a artilharia inglesa calou-se para tomar flego. Foi uma
espcie de pausa.
     Aqueles combatentes tinham em roda de si um como formigueiro de
espectros, uma multido de sombras de homens a cavalo, visto de lado; o perfil
escuro das peas, o cu branco divisando-se por entre as rodas e as carretas; a
colossal cabea de morte, que os heris entrevm sempre nas nuvens de fumo de
uma batalha, avanava com os olhos fixos neles. Ouviram carregar as peas por
entre a sombra crepuscular, viram em volta das cabeas um crculo luminoso
produzido pelo claro dos morres acesos, que brilhavam como os olhos de um
tigre na obscuridade, aproximaram-se das peas todos os morres das baterias
inglesas, e ento um general ingls, segundo uns, Colville, segundo outros,
Maitland, gritou comovido, segurando o ltimo minuto suspenso sobre a cabea
daqueles homens:
     - Bravos franceses, rendei-vos!
     Cambronne respondeu:
     - Merda!



    XV
    Cambronne



     Ao leitor francs que quer ser respeitado no pode ser repetida a frase mais
bela que talvez tenham pronunciado lbios franceses.  proibir o sublime ao
historiador; ns, porm, infringimos a proibio, apesar de todos os riscos e
perigos que possamos correr.
     Entre aqueles gigantes, houve um tit, que foi Cambronne.
     O que pode haver de mais grandioso do que pronunciar essa palavra e em
seguida morrer! Porque  morrer empregar todos os esforos para o conseguir;
porque esse homem no  culpado de ter sobrevivido, a despeito da metralha.
     O homem que ganhou a batalha de Waterloo, no foi Napoleo, derrotado;
no foi Wellington, recuando s quatro horas, e sem esperana s cinco; no foi
Blucher, que no combateu: o homem que ganhou a batalha de Waterloo foi
Cambronne.
     Fulminar com tal palavra o trovo que nos aniquila,  vencer.
     Respondendo de semelhante modo  catstrofe, falar assim ao destino, dar
aquela base ao leo futuro, arremessar aquela rplica  chuva da noite precedente,
ao muro traidor de Hougomont,  azinhaga de Ohain,  demora de Gruchy e 
chegada de Blucher, ser a ironia do sepulcro, fazer com que ficasse de p depois de
tudo ter cado, afogar em duas slabas a coalizo europeia, oferecer aos reis as
sentinas j conhecidas dos Csares, fazer da ltima a primeira das pginas
juntando-lhes o relmpago da Frana, terminar insolentemente Waterloo com o
carnaval, completar Lenidas com Rebelais, resumir esta vitria numa palavra
suprema, impossvel de se pronunciar, perder o terreno e salvar a histria, depois
da carnificina ter por si os que riem,  imenso.
      o insulto ao raio. Este facto atinge a grandeza eschiliana.
     A palavra de Cambronne produz o efeito de uma fractura.  o arrombamento
de um peito pelo desprezo;  a exploso da superabundncia do sofrimento. Quem
venceu? Foi Wellington? No. Sem Blucher estava perdido. Foi Blucher? No. Se
Wellington no tivesse comeado, Blucher no teria podido acabar. Esse
Cambronne, esse transeunte da ltima hora, esse soldado ignorado, essa
insignificncia da guerra, conhece a mentira que h numa catstrofe, pungente
redobro de dor; e no momento em que estala de raiva, oferecem-lhe o escrnio, a
vida! Como deixaria de estoirar!
     Esto ali todos os reis da Europa, os generais felizes; os Jpiteres tonantes
contam cem mil soldados vitoriosos, e por trs dos cem mil mais um milho; as
suas peas esto escancaradas e com os morres acesos, tm debaixo dos ps a
guarda imperial e o grande exrcito, acabam de aniquilar Napoleo, e no resta
seno Cambronne; no h para protestar seno este pequeno verme. Mas o verme
protestar. Para isto, procurou uma palavra como se procurasse uma espada.
Sobrevm-lhe espuma e essa espuma  a palavra procurada.
     Em presena da vitria sem vitoriosos, aquele desesperado ergue-se; sofre-lhe
o peso enorme, mas regista-lhe a nulidade; faz mais do que escarrar-lhe em cima;
e, sob a opresso do nmero, da fora e da matria, encontra na alma uma
expresso, o excremento. Repetimo-lo, dizer, fazer, achar uma tal coisa,  ser
vencedor. O espirito dos grandes dias entrou no homem desconhecido naquele
fatal momento. Cambronne achou a expresso de Waterloo, como Rouget de 1Isle
achou a Marselhesa, pela visita de sopro que vem de cima.
     Um eflvio da tempestade divina destaca-se e vem passar atrs destes
homens, f-los estremecer, um entoa o cntico supremo, o outro solta o grito,
terrvel. Essa palavra de desprezo titnico no a lana Cambronne somente 
Europa em nome do imprio, seria pouco; lana-a ao passado em nome da
revoluo. Ouve-se e reconhece-se em Cambronne a velha alma dos gigantes.
Parece que  Danton falando, ou Klber rugindo.
     A palavra de Cambronne respondeu a voz inglesa: Fogo!
     As baterias flamejaram, a colina estremeceu, de todas aquelas bocas de bronze
saiu um ltimo e espantoso vmito de metralha; densa nuvem de fumo um pouco
esbranquiado pelos primeiros raios da Lua, toldou o espao, e quando se dissipou
no havia mais nada. Os temveis restos tinham sido aniquilados, a guarda estava
morta As quatro paredes do reduto vivo jaziam por terra, apenas se distinguia
num ou noutro ponto, algum estremecimento entre os cadveres.
     Foi assim que as legies francesas, mais grandiosas do que as romanas,
expira-ram em Mont-Saint-Jean, no solo ensopado em gua e sangue, no meio das
sombrias searas de trigo, no lugar em que hoje passa, s quatro horas da manh,
assobiando e fustigando alegremente o seu cavalo, o condutor Jos, que faz o
servio da mala-posta de Nivelles.



    XVI
    Quot libras in duce?



     O combate de Waterloo  um enigma  to obscura para os que a ganharam,
como para os que a perderam.
     Para Napoleo  um pnico (Uma batalha terminada uma jornada concluda,
reparao de medidas mal tomadas a certeza do melhor bom xito no dia seguinte
tudo se perdeu por um momento de terror pnico (Napoleon, Dictees de
Saint-Helene) Blucher no viu nela seno fogo, Wellington nem de leve a
compreendeu. Vede os relatrios Os boletins so confusos, os comentrios
intrincados Estes balbuciam, aqueles gaguejam.
     Jomini divide a batalha de Waterloo em quatro momentos Mufling corta-a
em trs peripcias; Charras, conquanto em alguns pontos apreciemos as coisas de
outro modo, foi o nico que soube abranger, com o olhar penetrante que se lhe
nota, os lineamentos caractersticos daquela catstrofe do gnio humano a braos
com o acaso divino. Todos os outros historiadores parecem vtimas de certo
deslumbramento que os fez andar s apalpadelas.
     Jornada fulgurante, com efeito, desmoronamento da monarquia militar, que
com grande espanto dos reis, arrastou todos os reinos; queda da fora, derrota da
guerra.
     Neste acontecimento impregnado de necessidade sobrenatural  nula a parte
tomada pelos homens.
     Tirando Waterloo a Wellington e a Blucher, tira-se alguma coisa  Inglaterra
e  Alemanha? No. Nem essa ilustre Inglaterra, nem essa augusta Alemanha
entram no problema de Waterloo. Graas ao cu, os povos so grandes fora das
lgubres aventuras da espada. Nem a Alemanha, nem a Inglaterra, nem a Frana,
tiram a sua grandeza de uma bainha.
     Na poca em que Waterloo no era mais do que o tinir de sabres, tinha a
Alemanha acima de Blucher, Goethe. E a Inglaterra acima de Wellington, Byron.
      prprio do nosso sculo o vasto aparecimento de ideias, e dessa aurora
produzem a Inglaterra e a Alemanha um claro magnfico. So majestosas porque
pensam. A elevao de nvel que trazem  civilizao -lhes intrnseca,
provm-lhes de si mesmas, e no de um acidente. O que elas tm de
engrandecimento no sculo XIX, no lhes brotou de Waterloo. S os povos
brbaros tm sbitas indigestes depois de uma vitria.
      a vaidade passageira das torrentes engrossadas pela tempestade.
     Os povos civilizados, sobretudo nos tempos em que estamos, no se elevam
nem se rebaixam pela boa ou m fortuna de um capito. O seu peso especfico no
gnero humano resulta de alguma coisa superior a um combate. A sua honra, a
sua dignidade, luzes e gnio, graas a Deus!, no so algarismos, que esses
jogadores, conquistadores e heris, possam arriscar na lotaria das batalhas. Muitas
vezes uma batalha perdida  um progresso adquirido. Menos glria, mais
liberdade. Cala-se o tambor, cabe a palavra  razo.  o jogo em que ganha quem
perde. Falemos, pois, de Waterloo, friamente por ambos os lados. Demos ao acaso
o que  do acaso e a Deus o que  de Deus. O que foi Waterloo? Uma vitria? No.
Uma partida de jogo. Jogo ganho pela Europa e pago pela Frana.
     No valia muito a pena de colocar ali um leo.
     Quanto ao resto, Waterloo  o mais extraordinrio encontro que figura na
histria. Napoleo e Wellington. No eram dois inimigos eram dois caracteres
opostos.
     Deus, que se apraz com as antteses, nunca produziu mais frisante contraste,
ou confronto mais extraordinrio. De um lado a exactido, a previso, a
geometria, a prudncia, a retirada segura, as reservas poupadas, um inaltervel
sangue-frio, um mtodo imperturbvel que se aproveita do terreno, a tctica que
equilibra os batalhes, a carnificina alinhada a cordo, a guerra dirigida de relgio
na mo, coisa alguma entregue voluntariamente ao acaso, a velha coragem clssica
e a correco absoluta; do outro a intuio, a predico, a excentricidade militar, o
instinto sobrenatural, a flamejante certeza da vista, o no sei qu, que olha como a
guia e fere como o raio, uma arte prodgio numa impetuosidade desdenhosa,
todos os mistrios de uma alma profunda, a associao com o destino; o rio, a
plancie, a floresta e a colina empregados, e de certo modo obrigados a obedecer, o
dspota tiranizando at o campo de batalha; a f numa estrela de envolta com a
cincia estratgica, engrandecendo-a.
     Wellington era o Bareme da guerra. Napoleo o seu Miguel Angelo; e desta
vez o gnio foi vencido pelo clculo.
     De ambos os lados se esperava por algum. Foi o calculista exacto o bem
sucedido. Napoleo esperava Grouchy, no apareceu. Wellington esperava
Blucher, no deixou de vir.
     Wellington  a guerra clssica tomando a sua desforra. Bonaparte, ainda na
sua aurora, encontrando-a na Itlia, Abatera-a soberbamente. A velha coruja
fugira diante do novel abutre. A tctica velha, fora no somente fulminada, mas
escandalizada.
     Quem era esse corso de vinte e seis anos, o que significava o ignorante
esplndido, que tendo tudo contra si, sem vveres, sem munies, sem artilharia,
sem calado, quase sem exrcito, com um punhado de homens contra enormes
massas, precipitando-se sobre a Europa coligada e ganhando absurdamente
vitrias impossveis? Quem era esse recm-chegado  guerra, mostrando a
arrogncia de um astro? A escola acadmica militar excomungava-o cedendo-lhe
o terreno. Daqui um implacvel rancor do velho contra o novo cesarismo, do
sabre correcto, contra a espada flamejante e do xadrez contra o gnio.
     No dia 18 de Junho de 1815, esse rancor soltou a sua ltima expresso, e por
baixo de Lodi, de Montebelo, de Montenotte, de Mantua, de Marengo e de Arcole,
escreveu Waterloo.
     Triunfo dos medocres, agradvel s maiorias. O destino consentiu esta
ironia.
     Napoleo, na decadncia, encontrou diante de si Wurmser moo.
     Com efeito, para se ter Wurmser, basta embranquecer os cabelos de
Wellington.
     Waterloo  uma batalha de primeira ordem, ganha por um general de
segunda. O que  indispensvel admirar na batalha de Waterloo,  a Inglaterra;  a
firmeza, a resoluo e o sangue ingls; o que a Inglaterra ali tem de soberbo, no
lhe desagrada,  ela mesma. No  o seu capito,  o seu exrcito. Wellington,
extravagantemente ingrato, declara numa carta a lord Bathurst que o seu exrcito
que combateu no dia 18 de Junho de 1815, era detestvel.
     O que pensar disto a sombria acumulao de ossadas no solo de Waterloo?
     A Inglaterra foi demasiadamente modesta em presena de Wellington. Fazer
Wellington to grande,  tornar a Inglaterra pequena, Wellington no  mais do
que um heri como qualquer outro.
     Os escoceses pardos, as guardas a cavalo, os regimentos de Maitland e de
Mitchell, a infantaria de Pack e Kempt, a cavalaria de Ponsomby e de Somerset, os
Highlanders, tocando a gaita de foks debaixo da metralha, os batalhes de
Rylandt, os recrutas completamente novatos, que sabiam apenas o manejo da
arma resistindo aos velhos corpos de Essling e de Rivoli, eis o que  grande.
     Wellington mostrou-se tenaz, foi esse o seu mrito, no lho contestamos, mas
o ltimo dos seus pees ou dos seus cavaleiros mostrou-se to firme como ele.
     O iron soldado valeu bem o iron duque. Quanto a ns, dirigimos toda a nossa
glorificao ao soldado ingls, ao exrcito ingls e ao povo ingls.
     Se h trofeu pertence  Inglaterra. A coluna de Waterloo seria mais justa, se
em vez da figura de um homem, sustentasse entre as nuvens a esttua de um povo.
Mas essa grande Inglaterra irritar-se-, decerto, com o que aqui dizemos. Depois
do seu 1688 e do nosso 1789, conserva ainda a sua iluso feudal. A Inglaterra cr
na hereditariedade e na hierarquia.
     Esse povo, que nenhum outro ultrapassa em poder e glria, estima-se como
nao, e no como povo. Enquanto povo, subordina-se voluntariamente e toma
um lord por uma cabea. Workman deixa-se aoitar. Todos se recordam da
batalha de Inkermann, onde um sargento, que, segundo parece, salvara o exrcito,
no pde ser mencionado por lord Raglan, porque a hierarquia militar inglesa no
permite que se faa meno alguma de qualquer heri, que no seja oficial, ao
menos subalterno.
     O que admirmos acima de tudo, num conflito do gnero do de Waterloo,  a
prodigiosa habilidade do acaso.
     Chuva nocturna, muro de Hougomont, azinhaga de Ohain, Grouchy surdo 
artilharia, Napoleo enganado pelo guia, Boulow esclarecido pelo seu; todo este
cataclismo  admiravelmente conduzido.
     Em concluso, digamo-lo: em Waterloo houve mais carnificina do que
batalha.
     Waterloo , de todas as batalhas campais, a que apresentou mais limitada
frente com tal nmero de combatentes.
     Napoleo, trs quartos de lgua, Wellington, meia lgua; de cada lado setenta
e dois mil combatentes; foi de to grande espessura que proveio a mortandade.
     Fez-se este clculo e estabeleceu-se esta proporo, sobre a perda de homens:
Em Austerlitz, franceses, catorze por cento; russos, trinta por cento, austracos,
quarenta e quatro por cento.
     Em Wagram, franceses, treze por cento; austracos catorze.
     Na Moskow, franceses, trinta e sete por cento; russos quarenta e quatro por
cento.
     Em Bautzen, franceses, treze por cento; russos e prussianos, catorze por
cento.
     Em Waterloo, franceses, cinquenta e seis por cento; aliados trinta e um por
cento.
     Total em Waterloo, quarenta e um por cento.
     Cento e quarenta e quatro mil combatentes; sessenta mil mortos.
     O campo de Waterloo apresenta hoje o sossego peculiar  terra, impassvel
sustentculo do homem, e assemelha-se a todas as plancies.
     Contudo, durante a noite, destaca-se dele uma espcie de nevoeiro fantstico,
e se algum viajante que por ali passa, olha, escuta e sonha como Virglio nas
funestas plancies de Philippes,  atacado pela alucinao da catstrofe.
     O medonho 18 de Junho revive; a falsa colina monumento desaparece, esse
leo qualquer dissipa-se, o campo da batalha volta  realidade, linhas de infantaria
ondu-lam na plancie, galopes furiosos atravessam o horizonte; o sonhador
assustado chega a ver o relampejar dos sabres, o cintilar das baionetas, o flamejar
das bombas, o monstruoso cruzar do trovo, qual estertor sado de um tmulo, o
clamor vago da batalha-fantasma; essas sombras, so os granadeiros; esses clares
so os couraceiros; esse esqueleto  Napoleo, esse outro esqueleto  Wellington;
nada disto existe j, e tudo se embate e combate ainda; os barrancos tingem-se de
prpura, as rvores estremecem, a poeira chega at s nuvens, e nas trevas, todas
as ferozes elevaes, Mont-Saint-Jean, Hougomont, Frischemont, Papelotte e
Plencenoit, aparecem coroadas por turbilhes de espectros exterminando-se.



    XVII
    Deve achar-se que Waterloo foi bom?



    Existe uma escola liberal assaz respeitvel que no odeia Waterloo. No
perten-cemos a ela. Para ns, Waterloo no  mais do que a data estupefacta da
liberdade.
     Que uma tal guia saia de semelhante ovo, , sem dvida, uma coisa
imprevista.
     Waterloo, examinando-se do ponto culminante da questo, 
intencionalmente uma vitria contra-revolucionria.  a Europa contra a Frana,
Peters-burgo, Berlim e Viena contra Paris. Paris,  o statu-quo contra a iniciativa,
 o 14 de Julho de 1789, atacado atravs de 20 de Maro de 1815,  o toca a
postos das monarquias contra a indomvel sublevao francesa. Aniquilar,
enfim, este grande povo, cuja erupo durava havia vinte e seis anos, era o grande
sonho Solidariedade dos Brunswick, dos Nassau, dos Romanoff, Hohenzollern e
Habsburgs com os Bourbons.
     Waterloo conduz pela mo o direito divino.  verdade que tendo o imprio
sido desptico, devia a realeza, pela reaco das coisas, ser forosamente liberal, e
que Waterloo, ainda que contra a vontade e com grande pesar dos vencedores,
saiu uma ordem de coisas constitucional.  que a revoluo no pode ser
verdadeiramente vencida e que, sendo providencial e absolutamente fatal,
reaparece sempre, antes de Waterloo, em Bonaparte derribando os velhos tronos,
depois de Waterloo, em Lus XVIII, outorgando e sofrendo a carta. Bonaparte pe
um postilho sobre o trono de Npoles e um sargento sobre o da Sucia, querendo
provar a igualdade. Lus XVIII, em Saint Ouen, assina em contrrio a declarao
dos direitos do homem. Quereis explicar-vos o que  a revoluo, chamai-lhe
progresso; quereis saber o que  o progresso, chamai-lhe Amanh. Amanh leva
irresistivelmente a cabo a obra comeada hoje.  extraordinrio, mas nunca deixa
de chegar ao seu fim. Emprega Wellington em fazer de Foy, que no era mais do
que um soldado, um orador Foy cai em Hougomout e ergue-se na tribuna. 
assim que procede o progresso. Para um tal operrio no h ferramenta m.
Adapta ao seu trabalho divino, sem se perturbar, o homem, que galgou os Alpes, e
o bom velho e doente Eliseu. Serve-se tanto do gotoso como do conquistador;
deste no exterior, do primeiro no interior.
     Waterloo, obstando por uma vez a demolio dos tronos europeus pela
espada, no teve por efeito seno continuar o trabalho revolucionrio por outro
lado. Os acutiladores acabaram: chegou a vez aos pensadores. O sculo que
Waterloo pretendia fazer parar, passou-lhe por cima e continuou o seu caminho.
Esta sinistra vitria foi vencida pela liberdade.
     Em suma, e incontestavelmente, o que triunfava em Waterloo, o que se sorria
por trs de Wellington, o que lhe dava todos os bastes de marechal da Europa,
compreendendo, segundo dizem, o marechal de Frana, o que fazia rolar
alegremente as carretas de terra cheias de ossadas para elevar o cabeo do leo, o
que triunfantemente escrevia sobre o pedestal a data: 18 de Junho de 1815, o que
animava Blucher a acutilar a derrota, o que do alto da plancie de Mont-Saint-Jean
se debruava sobre a Frana como sobre uma presa, era a contra-revoluo.
     Era a contra-revoluo que murmurava a infame palavra: Desmoronamento.
     Chegada a Paris viu a cratera de perto, sentiu que a cinza lhe queimava os ps
e modificou-se. Segurou-se, balbuciando uma Carta.
     No vejamos em Waterloo seno o que ele foi. De liberdade intencional,
nada. A contra-revoluo era involuntariamente liberal, do mesmo modo que, por
um fenmeno correspondente, Napoleo era revolucionrio. O dia 18 de Junho de
1815 apeou Robespierre do cavalo em que montava.



    XVIII
    Recrudescncia do direito divino



     Terminando a ditadura, desmoronou-se um sistema completo da Europa.
     O imprio ocultou-se numa sombra que se assemelhou  do mundo romano
agonisante. Tornou a ver-se o abismo como no tempo dos brbaros Somente a
barbrie de 1815, a que  necessrio nomear pelo seu nome prprio,
contra-revoluo, tinha pouco flego, cansou depressa e parou repentinamente. O
imprio foi, confessemo-lo, chorado por olhos hericos. Se a glria reside na
espada feita ceptro, o imprio fora a prpria glria. Derramara sobre a terra toda a
luz que a tirania pode dar, luz sombria.
     Digamos mais; luz escura. Comparada com a do dia,  trevas. Esta
desapario da noite produziu o efeito de um eclipse.
     Lus XVIII voltou a Paris. As danas de 8 de Julho apagaram os entusiasmos
de 20 de Maro. O corso tornou-se a anttese do bearns. Nas Tulherias flutuou a
bandeira branca. O desterro entronizou-se. A mesa de abeto de Hartwel tomou
lugar diante da poltrona ornada de flores de liz de Lus XVIII Falou-se de
Bouvines e de Fontenoy, como casos da vspera, porque Austerlitz envelhecera O
altar e o trono fraternizaram majestosamente. Uma das formas mais
incontestveis da salvao da sociedade no sculo XIX, estabeleceu-se na Frana e
no continente A Europa adoptou o lao branco.
     Trestaillon tornou-se clebre. A divisa non pluribus impar reapareceu nos
raios da pedra que figuravam um sol na fachada do quartel do cais do Orsay,
Onde tinha havido uma guarda imperial passou a haver uma casa vermelha. O
arco do Carrousel, todo carregado de vitrias mal conduzidas, no se reconheceu
no meio de tantas novidades: e um pouco envergonhado, talvez, de Marengo e de
Arcole, tirou-se do aperto com a esttua do duque de Angoulme. O cemitrio da
Madalena, temvel vala comum de 93, cobriu-se de mrmore e de jaspe, porque se
encontravam nele os ossos de Lus XVI e de Maria Antonieta. No fosso de
Vincennes surgiu da terra um cipreste sepulcral, recordando que o duque de
Enghien fora morto no mesmo dia em que Napoleo fora coroado. Pio VII, que
fizera esta sagrao to prxima daquela morte, abenoou tranquilamente a queda
como abenoara a elevao. Houve em Schoen-brunn uma pequena sombra, de
quatro anos de idade, a quem se tornou sedicioso chamar rei de Roma. E todas
estas coisas se fizeram, os reis voltaram aos seus tronos e o senhor da Europa foi
metido numa gaiola, o antigo regime tornou-se novo, e toda a sombra e toda a luz
da terra mudou de lugar, porque na tarde de um dia de Vero houve um pastor
que, num bosque, disse a um prussiano: V por aqui e no por ali Aquele 1815
foi uma espcie de tristonho Abril. As velhas realidades mrbidas e venenosas
revestiram-se de aparncias novas A mentira desposou 1789 e o direito divino
mascarou-se com uma Carta, as fices tornaram-se constitucionais, os
preconceitos, as supersties e as traies, com o art. 14. no corao,
envernizaram-se de liberalismo. Mudana de pele das serpentes.
     O homem fora ao mesmo tempo engrandecido e deprimido por Napoleo. O
ideal, sob o reinado da matria esplndida, recebeu o nome extraordinrio de
ideologia. Grave imprudncia dum grande homem, escarnecer do futuro Todavia,
os povos, esse alimento da artilharia to apaixonado do artilheiro, procuravam-no
com os olhos. Onde estar ele? O que fazia?
     - Napoleo morreu -, dizia um transeunte a um invlido de Marengo e
Waterloo - Morto, ele! - exclamou o soldado. - Conhecia-o bem!
     As imaginaes edificavam o homem esmagado.
     O futuro da Europa, depois de Waterloo, foi tenebroso; sentiu-se nela por
muito tempo, um enorme vcuo com o desaparecimento de Napoleo.
     Os reis colocaram-se neste vcuo. A velha Europa aproveitou-se disso para se
reformar, e operou-se nela uma Santa Aliana. Bela Aliana, dissera
antecipadamente o campo fatal de Waterloo.
     Em presena e na frente desta antiga Europa recomposta, esboaram-se os
contornos duma Frana nova. O futuro, escarnecido pelo imperador, teve o seu
momento de entrada, e trazia na fronte a estrela da Liberdade. Os olhos ardentes
das geraes novas voltaram-se para ele. Coisa singular: apaixonaram-se ao
mesmo tempo pela futura Liberdade e pelo passado Napoleo. A derrota
engrandecera o vencido, Bonaparte por terra pareceu mais alto do que Napoleo
de p.
     Os que tinham triunfado, sentiram medo. A Inglaterra mandou-o guardar
por Hudson Lowe, e a Frana mandou-o espreitar por Montchenu. Os seus braos
cruzados tornaram-se a inquietao dos tronos. Alexandre denominava-o sua
insnia. Este susto provinha da quantidade de revoluo que ele continha em si; e
 isto que explica e desculpa o liberalismo bonapartista. Aquele fantasma fazia
tremer o velho mundo.
     Os reis no puderam reinar  sua vontade com o rochedo de Santa Helena no
horizonte.
     Enquanto Napoleo agonizava em Longwood, apodreceram tranquilamente
os sessenta mil homens cados no campo de Waterloo, e espalhou-se pelo mundo
o que quer que era da paz que eles gozavam. O congresso de Viena assegurou os
tratados dessa paz em 1815 e a Europa chamou a isso Restaurao.
     Eis o que  Waterloo.
     Mas, que importa isto ao infinito? Toda essa tempestade, a guerra, a paz, toda
essa grande sombra, no perturbou um momento a luz do olho imenso, em cuja
presena o pulgo saltando de um a outro raminho de ervas iguala a guia voando
de um a outro campanrio nas torres de Nossa Senhora.



    XIX
    O campo de batalha durante a noite



     Voltemos a esse fatal campo de batalha, que assim o exige o contexto deste
livro.
     O claro da Lua, que no dia 18 de Junho de 1815 era cheia, favoreceu a
perseguio feroz de Blucher sobre os fugitivos, cujo rasto denunciava, e auxiliou
a carnificina, entregando aquela desastrosa multido ao encarniamento da
cavalaria prussiana. A noite tem s vezes nas catstrofes destas complacncias
trgicas.
     Aps o troar do ltimo tiro de pea, ficou deserta a planura do
Mont-Saint-Jean Os ingleses ocuparam o acampamento dos franceses.  a prova
habitual da vitria deitar-se o vencedor no leito do vencido. Os ingleses
acamparam para alm de Rossomme, avanaram os prussianos em perseguio
dos vencidos Quanto a Willington, dirigiu-se para a aldeia de Waterloo para
redigir o seu relatrio a lord Bathurst.
     Se o sic vos non vobis alguma vez foi aplicvel,  seguramente  ideia de
Waterloo.
     Waterloo, que nada fez, que fica a meia lgua do lugar da aco, que no
cooperou na batalha, foi a que ficou com as honras dela. O Mont-Saint-Jean, que
foi bombardeado, Hougomont, que foi incendiado, Papellote, que ficou reduzido
a cinzas, Plancenoit, que foi destrudo pelo fogo, Haie-Sainte, que foi tomada de
assalto, Belle Alliance, que viu o abrao dos dois vencedores, essas ficaram no
esquecimento; mal se sabem os nomes desses lugares.
     Ns no somos dos que lisonjeiam a guerra. A guerra tem belezas terrveis
que no temos ocultado, mas convimos tambm em que tem feios aspectos. Um
dos mais surpreendentes  a prontido no despojar dos mortos aps a vitria. A
aurora que se segue a uma batalha reflecte sempre os seus clares sobre um
monto de cadveres nus.
     Quem faz isto? Quem mancha assim o triunfo? Que mo abjecta  a que
furtivamente se intromete no bolso da vitria? Quem so esses ratoneiros que se
escondem por trs da glria para praticar a salvo os seus delitos?
     Afirmam alguns filsofos, e entre outros Voltaire, que so exactamente os que
fizeram a glria. So os mesmos, dizem eles, no h troca nenhuma; os que ficam
em p saqueiam os que jazem por terra. O heri do dia torna-se o vampiro da
noite Afinal de contas, o que  autor de um cadver tem o seu tanto de direito
para o roubar. Ns, porm, no o julgamos assim. Colher louros e roubar os
sapatos de um morto parece uma coisa impossvel para a mesma mo.
     O que  certo  que de ordinrio, aps os vencedores, vm os ladres.
Ponhamos, porm, fora da questo o soldado, principalmente o soldado
contemporneo.
     Todo o exrcito tem uma cauda, e  isso o que devemos acusar. Entes
morcegos, meio salteadores, meio criados, todas as qualidades de vespertlio,
engendradas por esse crepsculo chamado a guerra, gente que traz farda, mas que
no combate, doentes fingidos, estropiados temveis, taberneiros de contrabando,
trotando, s vezes com as mulheres, em cima de pequenos carros e roubando o
que tornam a vender, mendigos que se oferecem por guias aos oficiais, moos de
soldados, desertores, tudo isto acarretava outrora um exrcito em marcha no
falamos do tempo presente de modo que a lngua especial chamava-lhes a gente
de bagagem.
     Nenhum exrcito, nem nao, alguma, era responsvel por esses entes, que
falavam italiano e seguiam os alemes, que falavam francs e seguiam os ingleses.
Foi por um desses miserveis, que era espanhol, mas que falava francs, que o
marqus de Fervacques, enganado pela sua algaravia picarda, e tomando-o por
um dos nossos, foi morto como traidor e roubado no prprio campo de batalha,
na noite que se seguiu  vitria de Crisolles.
     Da pilhagem nascia o ladro. Produzia esta lepra, s curvel por uma grande
disciplina, a detestvel mxima: Viver do inimigo. Famas h que enganam, nem
sempre se sabe porque foram to populares certos generais, alis grandes.
Turenne era adorado pelos seus soldados, porque tolerava a pilhagem; a
permisso do mal faz parte da bondade; a tal ponto chegava a bondade daquele
general, que deixou passar o Palatinado a ferro e fogo. Na retaguarda dos exrcitos
viam-se sempre mais ou menos destes desbragados gatunos, consoante a maior ou
menor severidade dos chefes.
     Hoche e Marceau no traziam atrs de si nem um s dos denominados
soldados da bagagem; Wellington, de boamente lhe fazemos essa justia,
trazia-os, mas em pequeno nmero.
     Contudo, na noite de 18 para 19 de Junho, os mortos de Waterloo foram
despejados. No obstou a isto a rigidez de Wellington. Havia ordem de passar
pelas armas todo o que fosse apanhado em flagrante delicto; a rapina, porm, 
tenaz. Enquanto num canto do campo de batalha fuzilavam os gatunos colhidos
na sua habitual tarefa, os outros roubavam o outro canto.
     Pela meia-noite, vagueava, ou antes, rastejava, um homem do lado da
azinhaga de Ohain. Era, segundo todas as aparncias, um dos que ns acabamos
de caracterizar, nem ingls, nem francs, nem aldeo, nem soldado, com mais de
corvo do que de homem, atrado pelo faro dos mortos, tendo por vitria o roubo,
vindo a Waterloo para despojar os cadveres. Trazia vestida uma blusa com
semelhanas de capote, e parecia ao mesmo tempo inquieto e audaz, pois
caminhava sempre para diante e olhava de vez em quando para trs. Que homem
era aquele? Sabia talvez mais a noite a seu respeito do que o dia. Verdade  que
no trazia saco, mas  certo que eram desmesuradamente grandes os bolsos do seu
capote. De tempos a tempos, parava, examinava a plancie em derredor como para
ver se algum o observava, curvava-se rpido, mexia em alguma coisa que jazia
silenciosa e imvel no cho, endireitava e prosseguia o seu caminho com o mesmo
ar de quem se esquiva a ser visto. O modo como ele deslizava quase imperceptvel
nas sombras, as suas atitudes o seu gesto rpido e misterioso, assemelhavam-no a
essas larvas crepusculares, que povoam as runas, chamadas pelas antigas lendas
normandas os Divagadores.
     Esvoaam nos pntanos certas aves noctvagas, que apresentam o mesmo
perfil daquele homem, visto por entre a obscuridade da noite.
     Quem atentamente sondasse com os olhos a cerrao que encobria os
objectos, notaria, parado, a alguma distncia, e como que oculto por trs da
choupana situada na margem da estrada de Nivelles, que faz esquina para a
estrada do Mont-Saint-Jean a Braine-l'Alleud, um pequeno carro de vivandeiro
com um coberto de vime embreado, puxado por um esfaimado sendeiro, que
mesmo por entre o freio ia roendo as urtigas a que podia chegar com a lngua, e
em cima desse carro uma mulher sentada no meio de algumas caixas e embrulhos.
Talvez entre esta carroa e aquele vagabundo existisse algum lao.
     Era serena a obscuridade. Nem uma nuvem no znith. Que importa  luz que
a terra esteja vermelha? V-la-eis sempre branca.  isto o que podemos chamar as
indiferenas do cu. Agitados pelo vento da noite, balouavam levemente nos
prados os ramos das rvores quebrados pelas balas, mas no cados por terra e
retidos pela casca. Uma ligeira virao, um como hlito agitava a ramagem das
rvores, a folhagem das plantas silvestres. Direis, ao ver o estremecer dos
arbustos, que eram almas partindo dos corpos para uma regio desconhecida.
     Ao longe ouvia-se vagamente o passo cadenciado das patrulhas, indo e vindo,
e o das rondas do acampamento ingls.
     Hougomont e Haie-Sainte continuavam a arder, formando, uma a oeste,
outra a este, duas grandes colunas de chamas, s quais se vinha prender, como um
colar de rubis desatado, com dois carbnculos nas extremidades, o cordo de
fogueiras do acampamento ingls, estendendo-se num semicrculo imenso sobre
as colinas do horizonte.
     Ns j vos narrmos a catstrofe da azinhaga Qhain, Confrange-se o corao
de terror s em pensar no modo como ali acabaram irremessivelmente tantos
bravos.
     Se no mundo h coisa que aterre, se existe uma realidade que exceda as
fices de um sonho,  decerto isto: viver, ver o Sol, estar em plena posse da fora
viril, ter a sade e a alegria, rir com desassombro, correr aps uma glria que
temos diante de ns e nos incita com o seu deslumbramento, sentir no peito um
pulmo que respira, um corao que pulsa, uma vontade que raciocina; falar,
esperar, pensar, amar; ter me, mulher e filhos, possuir a luz, de sbito, em menos
de um minuto, em menos tempo do que o necessrio para soltar um grito, resvalar
num abismo, cair, rolar, esmagar, ser esmagado; ver espigas de trigo, flores, folhas
e ramos, sem poder deitar a mo a nada, sem poder cravar as unhas na aresta do
precipcio, vendo intil a espada, sentindo por baixo de si o peso dos homens e
por cima o dos cavalos, debater-se em vo com os ossos quebrados por algum
choque imprevisto nas trevas, sentir um calcanhar que vos deita os olhos fora,
morder com raiva as ferraduras dos cavalos, sufocar, uivar, contorcer-se, sentir-se
enterrado e dizer: Ainda h pouco eu era um vivo! Porm agora tudo era
silncio naquele lugar nefasto, onde as vtimas de to lamentoso desastre fizeram
ouvir o estertor da sua inconcebvel angstia. A azinhaga extravasava de cavalos e
cavaleiros, inextricvelmente amontoados, confundidos, emaranhados. Terrvel
emaranhamento! As ribanceiras do caminho desapareciam debaixo daquele
monto de cadveres que nivelava a azinhaga com a plancie, razando a aresta da
ribanceira, como um alqueire de cevada bem medido. Um monto de mortos por
cima, um rio de sangue em baixo, eis o que era aquele caminho na noite que se
seguiu ao dia 18 de Junho de 1815 Corria o sangue at  calada de Nivelles, onde
se espraiava num largo pntano, em frente da trincheira de troncos de rvores que
obstrua a estrada, no local que ainda hoje ali se mostra. Foi na parte oposta, como
lembrados estaro, que teve lugar a derrota dos couraceiros. A espessura dos
cadveres era proporcional  profundidade da azinhaga. Quase no meio, porm,
no stio onde ela se tornava plana, e por onde passara a diviso de Delord, a
camada dos mortos era mais delgada.
      Para esse lado, pois, se dirigia o vagabundo que acabamos de fazer entrever ao
leitor, esquadrinhando aquele tmulo imenso, circunvagando a vista para todos os
lados, passando uma como medonha revista a todos aqueles mortos, caminhando
com os ps metidos no sangue dos vencidos e dos vencedores De repente parou.
      A alguns passos na sua frente, no lugar em que terminava o monto de
cadveres que atulhavam a azinhaga, saa de sob aquela pilha enorme de homens e
de cavalos uma mo aberta, em que batia o reflexo da Lua, iluminando um objecto
que, pelo seu brilho, se conhecia ser um anel de ouro.
      O homem curvou-se, esteve um momento de ccoras, e, quando se levantou,
aquela mo de finado estava despojada do anel.
      No dissemos bem; ele propriamente no se levantou, ficou numa atitude
semelhante  do veado que a perseguio da matilha gela de susto,, com as costas
voltadas para o monto dos mortos, de joelhos, perscrutando o horizonte,
fincando-se no cho com o ndex de ambas as mos e de cabea levantada,
espreitando por cima da ribanceira da azinhaga Aces h para as quais  preciso
ter as quatro pernas do chacal.
      Depois levantou-se, como quem tinha tomado a sua resoluo.
      Neste momento, porm, estremeceu, ao sentir-se agarrado pelo lado de trs e
voltou-se.
      Era a mo aberta que se tinha fechado, apertando-lhe a aba do capote que o
cobria.
      Um homem honrado gelaria de susto; aquele, porm, desatou a rir.
      - Ora! - disse ele. - Cuidei que era outra coisa, e ele  s o morto! Antes me
quero com uma alma do outro mundo do que com um gendarme!
      Aquela mo, porm, desfaleceu e largou-o. Acaba rpido o esforo do
tmulo.
      - E esta! - tornou o vagabundo. - No querem ver que o diabo do morto est
vivo? Sempre vamos a ver.
      Curvou-se outra vez, procurou entre o monto, desviando o que lhe servia de
obstculo, pegou na mo do moribundo, agarrou-o pelo brao, livrou-lhe a
cabea, puxou o corpo para fora, e da a alguns instantes arrastava por entre as
sombras da azinhaga um homem inanimado, pelo menos desmaiado. Era um
couraceiro, um oficial, mas oficial de certa graduao, debaixo de cuja couraa
saa uma grande dragona dourada, mas que no tinha capacete. No rosto
divisava-se-lhe uma grande cutilada, que lho banhava todo em sangue. Contudo,
parecia que no tinha membro algum fracturado, porque os mortos, por algum
feliz acaso, se tal palavra aqui podemos empregar, haviam formado arco por cima
dele, impedindo-o assim de ser esmagado. Os olhos tinha-os fechados.
      O vagabundo, ao ver-lhe ao peito a cruz de prata da Legio de Honra,
arrancou-lha, e a cruz desapareceu num dos abismos que se abriam por baixo do
seu capote.
      Aps isto, apalpou-lhe o bolso da farda e tirou-lhe um relgio que lhe sentiu
Em seguida vasculhou-lhe os bolsos do colete e empolgou-lhe uma bolsa que neles
encontrou.
      Nesta fase, porm, dos socorros que ele dispensava ao moribundo, o oficial
abriu os olhos e disse com voz enfraquecida:
     - Obrigado.
     A precipitao dos movimentos do homem que lhe passava revista geral aos
bolsos, a frescura da noite e a respirao do ar livre, tinham-no arrancado ao
estado de letargia em que se achava quando o vagabundo dera com ele.
     Este, porm, em vez de responder, levantou a cabea. Ouvia-se na plancie um
rumor de passos, talvez os de alguma patrulha que se aproximava.
     O oficial murmurou, pois ainda havia na sua voz alguma coisa da agonia:
     - Quem ganhou a batalha?
     - Os ingleses - respondeu o vagabundo.
     O oficial tornou:
     - Procure-me nos bolsos, que h-de encontrar uma bolsa e um relgio, e
pegue neles.
     Isto j estava feito, porm o vagabundo fez que executou a ordem do
moribundo e disse:
     - No est c nada.
     - Ento roubaram-me - replicou o oficial. - Pois tenho pena, que lhe queria
dar tudo.
     A este tempo, os passos da patrulha tornavam-se cada vez mais distintos.
     - Vem a gente - disse o vagabundo, fazendo o gesto de quem se retira.
     O oficial, porm, reteve-o, levantando o brao a custo.
     - Devo-lhe a vida. Quem  o senhor?
     O vagabundo respondeu com rapidez e em voz baixa:
     - Eu era tambm do exrcito francs como o senhor. No tenho, porm,
remdio seno deix-lo, porque, se me agarram, fuzilam-me. Salvei-lhe a vida,
agora o resto arranje-o o senhor como puder.
     - Que posto tem?
     - O de sargento.
     - Como se chama?
     - Thenardier.
     - Nunca hei-de esquecer esse nome  disse o oficial.  Recorde-se sempre do
meu.
     Chamo-me Pontmercy.
    LIVRO SEGUNDO
    A Nau Orion



    I
    O nmero 24.601 torna-se o 9.430



     Joo Valjean fora novamente preso.
     Passando sobre alguns pormenores dolorosos, transcrevemos duas notcias
publicadas pelos jornais da poca, poucos meses depois dos surpreendentes
acontecimentos ocorridos em Montreuil-sur-mer.
     Essas notcias so um tanto sumrias. Porque, como se sabe, naquele tempo
no havia ainda a Gazeta dos Tribunais.
     A primeira extramo-la da Bandeira Branca, de 25 de Julho de 1823, e  assim
concebida:
     Acaba de ser teatro de um acontecimento pouco vulgar um dos distritos do
Pas-de-Calais. Um homem desconhecido na provncia, chamado Madelaine, tinha
restabelecido, havia alguns anos, graas a novos inventos, uma antiga indstria
local: o fabrico de vidrilhos pretos.
     Este homem, que fizera com isto a sua fortuna, e, digamos em abono da
verdade, a daquela localidade tambm, foi nomeado maire, em reconhecimento
dos seus valiosos servios. A polcia, porm, descobriu que Madelaine era nem
mais nem menos do que um antigo forado chamado Joo Valjean, sado das gals
e condenado em 1796 por crime de roubo; e como tal foi novamente posto a
ferros. Parece que, antes da sua priso, Joo Valjean conseguira receber do senhor
Laffite, em cujo poder se achava, uma quantia superior a meio milho, que,
todavia, segundo dizem, fora por ele licitamente ganha no ramo de comrcio a
que se dedicava. No tem, porm, sido possvel saber-se onde Joo Valjean
escondeu esse dinheiro quando tornou a dar entrada nas gals.
     A segunda notcia, mais circunstanciada do que a precedente,  extrada do
Jornal de Paris da mesma data e diz o seguinte:
     Acaba de comparecer perante o tribunal criminal do Var um antigo forado
livre, chamado Joo Valjean, facto que, pelas circunstncias que o revestem, se
torna digno de chamar a ateno. Este celerado, que chegara a enganar a polcia,
mudando de nome e adoptando outro, a coberto do qual chegou a conseguir ser
nomeado maire de uma das nossas vilas do norte, onde estabelecera um comrcio
bastante considervel, acaba de ser enfim desmascarado e preso, graas ao
infatigvel zelo do ministrio pblico.
     Vivia com uma rapariga de m vida, que morreu de susto na ocasio em que
o prenderam. Este miservel, que  dotado de uma fora herclea, achou meio de
evadir-se, mas, trs ou quatro dias depois da sua evaso, a polcia conseguiu
deitar-lhe de novo a mo, mesmo em Paris, na ocasio em que ele ia a subir para
uma dessas carruagens que transitam entre a capital e a aldeia de
Monffermeil-Sur-Oise). Dizem que ele aproveitara o intervalo destes trs ou
quatro dias de liberdade para tirar do poder de um dos nossos principais
banqueiros uma quantia considervel, que lhe havia entregue em depsito, e que 
avaliada em seiscentos ou setecentos mil francos. A julgar pelo auto de acusao, o
antigo forado escondeu essa soma em algum lugar s dele conhecido, onde tem
sido impossvel dar com ela; seja como for, porm, o tal Joo Valjean acaba de ser
entregue ao juiz criminal do departamento do Var, como salteador de estrada
acusado de um roubo, acompanhado de violncia, que h oito anos, pouco mais
ou menos, cometeu contra a pessoa de um desses honrados moos, que como
disse o patriarca de Ferney em versos imortais:
     ...de Sabia anualmente chegam, E cujas mos com ligeireza limpam As altas
chamins que o fumo suja.
     O bandido, apesar da sua prodigiosa fora, no ops resistncia aos agentes
de polcia. Segundo o hbil e eloquente rgo do ministrio pblico, provou-se
que o roubo foi praticado de cumplicidade, e que Joo Valjean fazia parte de uma
quadrilha de salteadores que infestava o Meio-Dia. Em consequncia disto, Joo
Valjean, reconhecido criminoso, foi condenado  pena de morte e recusou apelar
da sentena. O rei, porm, na sua inesgotvel clemncia, dignou-se comutar-lhe a
pena de morte, que lhe fora infligida, na de trabalhos forados por toda a vida, e,
em virtude da rgia resoluo, Joo Valjean foi imediatamente remetido para as
gals de Toulon.
     Joo Valjean, quando residente em Montreuil-sur-mer, possua hbitos
religiosos, que em alguns actos da sua vida tivera ocasio de patentear. Isto, pois,
deu lugar a que alguns jornais apresentassem esta comutao como um triunfo do
partido clerical.
     Joo Valjean mudou de nmero nas gals. De 24.601, que era da primeira vez
que ali estivera, passou para 9.430.
     Quanto ao mais, digamo-lo por uma vez, com Madelaine desapareceu a
prosperidade de Montreuil-sur-mer, tudo o que ele previra na sua noite de febre e
de hesita- o se realizou. Faltara-lhe ele, faltara-lhe a alma efectivamente. Aps a
sua queda, operou-se em Montreuil-sur-mer essa partilha egosta das grandes
existncias cadas, esse desmembramento fatal das coisas florescentes, que todos
os dias obscura-mente se d na comunidade humana, e de que a histria uma s
vez fez meno por ter acontecido aps a morte de Alexandre. Os tenentes
coroaram-se reis, os contra-mestres improvisaram-se fabricantes. As rivalidades
invejosas surgiram. As vastas oficinas de Madelaine fecharam-se, os edifcios
arruinaram-se, os operrios dispersaram-se. Uns saram do pas, outros
abandonaram a profisso. Da em diante tudo se fez em pequena escala, com a
mira no lucro, em vez de ser com a mira no bem. Descentralizou-se o comrcio,
estabeleceu-se por toda a parte a concorrncia e o encarniamento com que uns
pretendiam suplantar os outros.
      Madelaine dominava e dirigia tudo. Com a sua queda, cada qual puxou para o
seu lado; ao esprito da organizao sucedeu o esprito da luta;  cordialidade, a
aspereza;  benevolncia do fundador para com todos, o dio mtuo de uns
contra os outros. Os fios atados por Madeleine embaraaram-se e quebraram-se;
falsificaram-se os processos; envileceram-se os produtos; matou-se a confiana; e
disto, como era natural, resultou a diminuio na procura, e, por consequncia, a
diminuio do consumo, o abatimento dos salrios, a interrupo dos trabalhos
nas oficinas, a frequncia sucessiva das quebras. E, afora isto, nem um centavo
para os pobres. Tudo se esvaeceu.
      Estas consequncias fizeram sentir os seus efeitos ainda mais longe. O prprio
Estado conheceu que havia algures algum esmagado. Em menos de quatro anos
aps a sentena do tribunal criminal, que em benefcio das gals dera por provada
a identidade de Madelaine e de Joo Valjean, as despesas feitas com a percepo
dos impostos no distrito de Montreuil-sur-mer duplicaram, circunstncia esta que
o senhor de Villle julgou dever observar do alto da tribuna, como efectivamente
notou no ms de Fevereiro de 1827.



    II
    Onde se lem dois versos cujo autor  talvez o diabo



    H em Montfermeil uma velha superstio, tanto mais curiosa e preciosa,
quanto uma superstio nas vizinhanas de Paris se assemelha a um alos na
Sibria. Ns somos dos que respeitam tudo, que se apresenta no estado de planta
rara.
     Eis, pois, a superstio de Montfermeil: cr-se ali que o diabo escolheu, desde
tempos imemoriais, a floresta, para ocultar os seus tesouros. As mulheres bem
inten-cionadas afirmam que no  raro encontrar, no fim do dia, nos lugares mais
recnditos do bosque, um homem preto, com a figura de um carreiro ou de um
lenhador, de tamancos, com uma espcie de gabo, e que se torna notvel por dois
grandes chavelhos na cabea, em vez de bon ou de chapu. Por isto deve, com
efeito, reconhecer-se.
     Este homem ocupa-se ordinariamente a fazer umacova. H trs maneiras de
tirar proveito deste encontro. A primeira  ir direito a ele e falar-lhe. Neste caso
v-se que o homem no  mais do que um campons, que parece preto por ser a
hora do crepsculo, que no cava a mais pequena cova, mas que ceifa erva para as
suas vacas, e que o que se tinha julgado serem chavelhos no  seno um forcado
de estrumeira, que traz s costas, e cujos dentes, graas  perspectiva do fim do
dia, parecem sair-lhe da cabea. Entra-se em casa e morre-se nessa mesma
semana. A segunda maneira, consiste em observ-lo, esperar que ele tenha aberto
a cova, que a tenha fechado, e que se haja depois afastado; em seguida, correr
direito a ela, abri-la e tirar o tesouro, que o homem preto ali depositou
necessariamente.
     Quem assim fizer morre nesse mesmo ms. A terceira, enfim, consiste em no
falar ao homem preto no olhar para ele, e fugir a sete ps. O que assim proceder
ainda vive at ao fim do ano.
     Como estas trs maneiras tm todas os seus inconvenientes, a segunda, que
oferece pelo menos algumas vantagens, e outras a da posse do tesouro, ainda que
no seja seno por um ms,  a mais geralmente adoptada. Os atrevidos que no
resistem a qualquer gnero de tentao, tm, pois, por muitas vezes, segundo se
afirma, reaberto as covas feitas pelo homem preto e tentado roubar o diabo.
Parece que a operao  pouco de convidar. Pelo menos, dando-se crdito 
tradio, e particularmente a dois versos enigmticos em latim brbaro que foram,
a este respeito, legados por um mau frade normando, um tanto feiticeiro,
chamado Tryphon. Este Tryphon est sepultado na abadia de S. Jorge de
Bochervile, prximo de Rouen; sobre a sua sepultura nascem sapos.
     Empregam-se esforos extraordinrios, porque estas covas so
ordinariamente muito fundas, sua-se, cava-se, trabalha-se toda a noite, pois  de
noite que isto tem lugar, o ousado cavador nocturno sente a camisa alagada em
suor, queima-se uma vela, enche-se de bocas uma enxada, e quando enfim se
chega ao fundo da cova, quando se pe a mo no tesouro, o que se encontra?
     O que  o tesouro do diabo? Um soldo ou quando muito um escudo, uma
pedra, um esqueleto, um cadver ensanguentado, muitas vezes um espectro
dobrado em quatro como uma folha de papel numa carteira; e mesmo no  raro
achar nada.  isto o que parece anunciarem aos curiosos indiscretos os versos de
Tryphon: Fodit, et in fossa thesauros, condit opaca.
     As nammas, lapides, cadaver, simulacra, nihilque.
     Cava e nas sombras um tesouro oculta Da escura cova; um asse, algumas
pedras, Moedas, esqueletos; um cadver, s vezes tudo isto, outra vez nada.
     Nos nossos dias parece que tambm se encontra nestas covas ora um
polvorinho com balas, ora um baralho de cartas velho e ensebado, que de certo
serviu ao diabo.
     Tryphon no regista estes dois achados, mas deve-se atender a que Tryphon
vivia no sculo XII e que parece que o diabo no teve a habilidade de inventar a
plvora antes de Rogrio Bacon, nem as cartas antes de Carlos VI.
     Quem jogar, porm, com estas cartas pode de antemo ter a certeza de que
perder tudo quanto possuir, e, quanto  plvora do polvorinho, esta tem a
propriedade de vos fazer rebentar a vossa espingarda na cara.
     Ora pouco tempo depois da ocasio em que ao ministrio pblico pareceu
que o forado solto Joo Valjean, na sua evaso de alguns dias, vagueara em torno
de Montfermeil, notou-se na mesma aldeia que um velho chamado Boulatruelle,
de profisso cantoneiro, fazia as suas idas para o bosque. Acreditava-se na terra
que o tal Boulatruelle j tinha estado nas gals, pelo que andava sob a vigilncia da
polcia, e como, em razo daquele facto, no achava ningum que quisesse dar-lhe
que fazer, empregava-o a administrao como cantoneiro do ramal de Gagny a
Lagny,  conta de pouco salrio.
     Boulatruelle era um homem mal visto da gente da terra, mas respeitoso,
humilde e sempre pronto em tirar o seu bon a toda a gente, tremendo e sorrindo
em presena dos gendarmes, filiado talvez em alguma quadrilha, segundo se dizia,
e suspeito de sair  estrada, ao fechar da noite, nos stios mais escusos dela. A
nica coisa que tinha a seu favor, era o hbito de embebedar-se.
     Eis aqui, pois, o que aos moradores de Montfermeil tinha dado motivo para
reparo.
     Havia tempos que Boulatruelle despegava muito cedo da sua tarefa de britar
pedra e de vigiar pela conservao da estrada para se entranhar na floresta com o
seu alvio s costas. Ali era encontrado  noitinha nas clareiras mais desertas, nos
matagais mais fechados, com ar de quem procura o que quer que seja, s vezes
abrindo covas.
     Alguma pobre mulher que passava tomava-o primeiro por Belzebu, depois
conhecia que era Boulatruelle, mas no ficava com isso mais satisfeita. Estes
encontros, porm, pareciam contrariar Boulatruelle fortemente. Era visvel que ele
procurava ocultar-se e que no que fazia havia algum mistrio.
     Diziam na aldeia:
     - No h dvida nenhuma que apareceu o diabo. Boulatruelle viu-o e anda 
sua procura. Ele , com efeito, bastante esperto para que se no apodere do
peclio de Lcifer.
     Os voltaireanos acrescentavam:
     - Quem ser o logrado? Ser o diabo ou Boulatruelle?
     As velhas, ao ouvir todos estes comentrios, benziam-se atemorizadas,
repetidas vezes.
     Porm, os manejos de Boulatruelle no bosque cessaram e ele voltou ao seu
trabalho de cantoneiro, em que continuou com a regularidade antiga, fazendo
com isso que as conversas na aldeia versassem sobre outro objecto.
     Todavia, a curiosidade de algumas pessoas continuou, pois julgavam que
sempre havia nisto no os fabulosos tesouros de que rezava a lenda, mas algum
ganho inesperado mais palpvel do que as notas de Banco do diabo, cujo segredo
o cantoneiro teria naturalmente surpreendido at certo ponto. Os mais
encarniados eram o mestre-escola e o taberneiro Thenardier, o qual, sendo
amigo de toda a gente, no desdenhava a amizade de Boulatruelle.
     - J esteve nas gals - dizia Thenardier - e a gente no sabe para que est neste
mundo.
     Uma tarde, o mestre-escola afirmou que se fosse noutro tempo, j a justia
teria indagado o que Boulatruelle ia fazer ao bosque, que o obrigaria a confessar
tudo, aplicando-lhe sendo preciso a tortura, e que Boulatruelle no resistiria, por
exemplo,  tortura da gua.
     - Apliquemos-lhe ento a do vinho - disse Thenardier.
     Foi um momento enquanto se ps o plano em execuo e se deu de beber at
fartar ao velho cantoneiro. Boulatruelle, porm, bebeu extraordinariamente, mas
falou pouco, combinando com admirvel artifcio e em propores magistrais a
sede de um bebedor de fama com a discrio de um juiz. A fora, porm, de voltar
 carga e de confrontar e revirar as poucas e obscuras frases que ele deixou
escapar, Thenardier e o mestre-escola julgaram compreender o seguinte:
     Boulatruelle, ao dirigir-se um dia ao amanhecer para o trabalho, ficou decerto
maravilhado de ver, para assim dizer escondidos, debaixo de uma moita, num
lugar escuso do bosque, uma p e um alvio; mas, cuidando que talvez fosse a p e
o alvio do tio Six-Fours, aguadeiro, nem de tal coisa se tornou a lembrar. Na
tarde, porm, desse mesmo dia, Boulatruelle viu, sem poder ser visto, por se achar
encoberto com o tronco de uma rvore gigantesca ,dirigir-se da estrada para o
mais cerrado do bosque um sujeito que no era daqueles stios, mas que ele
conhecia perfeitamente, e cujo nome Boulatruelle obstinadamente se recusara a
declarar. Este sujeito, que, segundo a tradio de Thenardier, era um companheiro
das gals de Boulatruelle, trazia um embrulho, um objecto quadrado parecido com
uma boceta grande ou com um caixo pequeno. Boulatruelle, ao ver aquilo, ficou
estupefacto, de modo que s passados sete ou oito minutos foi que lhe ocorreu a
ideia de seguir o sujeito. Mas j era demasiado tarde; o sujeito entranhara-se no
mais emaranhado da floresta, e como j era noite fechada, Boulatruelle no pde
dar com o lugar para onde ele deitou e tomou ento a resoluo de percorrer o
bosque todo, pois fazia luar. Da por duas ou trs horas, Boulatruelle viu o
sujeito tornar a sair da espessura do bosque, trazendo desta feita no o tal
caixozinho, mas um alvio e uma p. Boulatruelle deixara-o passar sem tomar
logo a resoluo de se acercar dele, porque se lembrou que, sendo o outro trs
vezes mais forte, e achando-se de mais a mais armado de um alvio, daria decerto
cabo dele, conhecendo-o e vendo-se conhecido. Tocante efuso de dois antigos
camaradas que se tornam a ver!
     O alvio e a p foram, porm, um raio de luz para Boulatruelle, que correu ao
stio onde pela manh vira dois objectos semelhantes escondidos entre o mato e
no encontrou nem uma coisa nem outra. Daqui concluiu ele que o tal sujeito que
vira entrar para o bosque abrira algures uma cova com o alvio para enterrar o
caixo e que depois a tapara com a p. Ora, o caixo era pequeno de mais para
conter um cadver; logo continha dinheiro, e da as suas pesquisas. Boulatruelle
explorou, sondou, vasculhou, remexeu todos os lugares onde a terra lhe pareceu
revolvida de fresco, mas debalde.
     Por mais que fizesse, no desencantou coisa nenhuma, de modo que
ningum em Montfermeil se tornara mais a lembrar de tal. Apenas algumas
honradas vizinhas disseram umas para as outras nos seus concilibulos: Tenham
por certo que o cantoneiro de Gagny no andava com todos aqueles escavadouros
se no pressentisse isca; certo  que o diabo sempre apareceu.



    III
    De como era preciso que a grilheta tivesse passado por alguma operao
preparatria para assim se quebrar com uma s martelada



      Pelos fins de Outubro de 1823, os habitantes de Toulon viram entrar no seu
porto, para reparar algumas avarias que lhe causara uma tempestade, a nau Orion,
que depois foi empregada em Brest, como vaso de escola naval, mas que ento
fazia parte da esquadra do Mediterrneo.
      A entrada deste navio no porto, apesar de escalavrado com os estragos que
lhe havia causado o temporal, foi aparatosa. O pavilho que trazia hasteado
valeu-lhe uma salva regulamentar de onze tiros de pea, aos quais respondeu com
outros onze, total de vinte e dois tiros. Tem-se calculado que em salvas,
cumprimentos reais e militares, troca de estrondosas cortesias, sinais de etiqueta,
formalidades de portos e cidadelas salvas ao nascer e pr do sol, ao abrir e fechar
dos portos, dadas quotidianamente por todas as fortalezas e navios de guerra, etc.,
etc., dispara o mundo civilizado todas as vinte e quatro horas, cento e cinquenta
mil tiros de peas inteis na terra toda. Ora, a seis francos cada tiro, perfaz tudo
novecentos mil francos (Ao cmbio antigo) por dia, ou trezentos milhes por ano,
que se vo em fumo. Isto  apenas um pormenor. Neste meio tempo, os pobres
morrem de fome.
      O ano de 1823 foi aquele a que a Restaurao chamou a poca da guerra de
Espanha.
      Esta guerra encerrava num s muitos acontecimentos e grande fora de
singularidades. Uma importante questo de famlia concernente  casa de
Bourbon; o socorro e proteco que o ramo de Frana dispensava ao ramo de
Espanha, isto , o esforo que aquele fazia para provar os seus direitos de
primogenitura; um aparente retrocesso s nossas tradies nacionais, de envolta
com a sujeio e a escravido aos gabinetes do norte; a compreenso que o duque
de Angoulme, apelidado pelas gazetas liberais heri de Andujar, exercia numa
atitude triunfal, algum tanto contra-riada pelo seu gesto pacfico, sobre o velho
terrorismo, mais que real, do santo ofcio, em luta com o terrorismo quimrico
dos liberais; a ressurreio dos sem cales, com grande horror das matronas
nobres, debaixo do nome de descamisados; os obstculos que o monarquismo
fazia ao progresso alcunhado de anarquia; a repentina interrupo das teorias de
89 na sapa; um basta intimado pela Europa  ideia francesa, realizando a volta ao
mundo; ao lado do filho de Frana generalssimo, o prncipe de Carignan, depois
Carlos Alberto, envolvido como voluntrio nesta cruzada dos reis contra os povos,
com as suas dragonas de granadeiro de l vermelha; nova entrada em campanha
de soldados do imprio, porm aps oito anos de repouso, envelhecidos, tristes e
com o lao branco ao peito; a bandeira tricolor agitada no estrangeiro por um
herico punhado de franceses, como trinta anos antes o fora a bandeira branca em
Coblentz; os frades  mistura com os soldados dos nossos batalhes; o esprito de
liberdade e de novidade feito entrar na razo pelas baionetas; os princpios
hasteados a tiros de pea; a Frana desfazendo pelas armas o que tinha feito pelo
esprito; por ltimo a venda dos chefes inimigos, a hesitao dos soldados, as
cidades cercadas por milhes; a ausncia de perigos militares, e, todavia, a
possibilidade de diferentes exploses, como numa mina invadida de surpresa; o
pouco sangue derramado, a pouca honra conquistada; a vergonha para alguns,
para nenhum a glria - eis no que consistiu esta guerra feita por prncipes que
descendiam de Lus XVI e comandada por generais que tinham servido Napoleo,
luta que teve a triste sorte de no fazer recordar a grande guerra nem a grande
poltica.
     Alguns feitos de armas, porm, foram importantes; entre outros, a tomada do
Trocadero foi uma bela aco militar; mas, em suma, repetimos, as trombetas
desta guerra produzem um som fanhoso, o todo foi suspeito e a histria aprova a
Frana na dificuldade com que aceita este falso triunfo. Pareceu coisa evidente que
alguns oficiais espanhis encarregados da resistncia cediam com demasiada
facilidade, da vitria desprendeu-se a ideia de corrupo, afigurou-se a muitos que
o que fora ganho mais haviam sido os generais do que as batalhas e o soldado
vencedor recolheu-se humilhado. Guerra que diminua de efeito, porque nas
dobras da bandeira pareciam ler-se as palavras - Banco de Frana - em caracteres
distintos.
     Soldados houve da guerra de 1808 sobre quem, com estampido assustador,
desabaram as muralhas de Saragoa, que em 1823 franziam o sobrolho ao ver a
facilidade com que se lhes abriam as cidadelas e que tinham saudades de Palafox.
 o gnio da Frana: gostar ainda mais de ter na sua frente Rostopchine do que
Ballesteros.
     Sob um ponto de vista ainda mais grave, sobre o qual convm tambm
insistir, esta guerra, que dava ansa ao enfraquecimento do esprito militar em
Frana, causava a indignao do esprito democrtico. Era uma tentativa de
servido. O alvo a que nesta campanha tendiam os esforos do soldado francs,
filho da democracia, era a conquista de um jugo para outrem. Disforme
contra-senso! A Frana  feita para despertar a alma dos povos, no para a
sufocar. Desde 1792 para c, todas as revolues da Europa so a revoluo
francesa;  de Frana que irradia a liberdade para todos os outros povos.  um
facto solar este. Cego quem o no v! Assim o disse Bonaparte.
     A guerra de 1823 era, pois, juntamente um atentado contra a generosa nao
espanhola e um atentado contra a revoluo francesa. Quem cometia essa via de
facto monstruosa era a Frana, mas  fora, que  fora  quanto os exrcitos
praticam, no tendo a liberdade por alvo. Indica-o a frase obedincia passiva. Um
exrcito  um estranho primor de combinao, em que a fora resulta de uma
grande soma de impotncias. Deste modo explica-se a guerra feita pela
humanidade contra a humanidade, contra a vontade da humanidade.
     Pelo que respeita aos Bourbons, foi-lhes fatal a guerra de 1823, conquanto a
tivessem tomado por um sucesso.  que no viram o perigo que resulta de querer
matar uma ideia com uma senha, iludindo-se a tal ponto na sua simplicidade, que
introduziram como elemento de fora no seu estabelecimento a aco
imensamente debilitante de um crime. De modo que a sua poltica tornou-se
insidiosa, deitaram  terra em 1823, o grmen de 1830 e a campanha de Espanha
serviu de argumento para as violncias e azares do direito divino. Como a Frana
restabelecera el-rei neto em Espanha, entenderam, que tambm podia muito bem
restabelecer dentro de si o rei absoluto, e desse modo vieram a cair no terrvel erro
de tomar a obedincia do soldado pelo consentimento da nao. Esta confiana 
que deita os tronos a perder. No convm adormecer nem  sombra da
mancenilheira, nem a sombra de um exrcito.
     Voltemos, porm,  Orion.
     Enquanto duravam as operaes do exrcito comandado pelo prncipe
generalssimo, cruzava no Mediterrneo uma esquadra, e, como atrs dissemos, a
Orion pertencia a essa esquadra e dera entrada no porto de Toulon obrigada pelas
avarias que lhe causara uma tempestade no mar.
     A presena de um navio de guerra num porto tem certo atractivo que chama
e prende as atenes da multido.  que h nisto certa grandeza, e a multido ama
tudo o que  grande.
     Uma nau de linha  um dos encontros mais magnficos entre o gnio do
homem e o imenso poder da natureza.
     Uma nau de linha  composta simultaneamente das coisas mais pesadas e
mais leves que h, porque ao mesmo tempo tem de lidar com as trs formas da
substncia, slido, lquido e fludo, e contra todas trs lutar. Tem onze garras de
ferro para cravar no granito que forra o fundo do mar, e mais asas e antenas que
os insectos volteis para subirem s nuvens a recolher o hlito dos ventos. Cento e
vinte canhes do livre sada  sua respirao estrondosa, como outras tantas
enormes trombetas, e respondem altivamente ao raio. Forceja o Oceano pela
desvairar na imensidade das suas vagas, todas entre si terrivelmente semelhantes,
porm o navio tem uma alma, a bssola, e a bssola aconselha-o apontando-lhe
sempre o norte. Nas noites escuras, quando a vista do anil do cu  vedada aos
olhos dos peregrinos do mar, os faris que acende suprem as estrelas, que
encobrem a serrao. Assim, pois, contra o vento tem ela as cordas e os panos,
contra a gua a madeira, contra a rocha o ferro, o cobre, o chumbo, contra a
sombra a luz, contra a imensidade uma agulha.
     Quem quiser formar ideia de todas as propores gigantescas, cujo conjunto
constitui a nau de linha, no tem mais do que entrar nos estaleiros cobertos, de
seis andares, dos portos de Brest ou Toulon, onde os navios em construo se
encontram, para assim dizer, como que debaixo de uma campnula. Aquela trave
colossal  uma verga; aquela grossa coluna de madeira, que jaz no cho,  o mastro
grande, o qual desde a ponta da raiz at ao cimo, que se perde nas nuvens, tem
sessenta toezas de comprimento e trs ps de dimetro na base, O mastro grande
ingls eleva-se a duzentos e dezassete ps acima da linha de flutuao. A marinha
dos nossos antepassados empregava cabos, ns empregamos correntes. O simples
monto de correntes, que traz em si uma nau de cem peas, tem quatro ps de
altura, vinte de largura e oito de profundidade. E para construir um navio assim
que quantidade de madeira no  precisa? Trs mil esteres ou metros cbicos. 
uma floresta flutuante.
     E note-se que s se trata aqui da embarcao militar de h quarenta anos, do
simples navio de vela; o vapor, ento na sua infncia, acrescentou depois novos
milagres ao prodgio chamado navio de guerra. Presentemente, o navio misto de
hlice, por exemplo,  uma mquina maravilhosa, impelida por um velame que
tem trs mil metros quadrados de superfcie e por uma caldeira da fora de dois
mil e quinhentos cavalos.
     Sem falar dessas novas maravilhas, o antigo navio de Cristvo Colombo e de
Ruyter  uma das grandes obras-primas do homem. Inesgotvel em fora, como o
infinito em sopros, aloja o vento nas suas velas, flutua e reina, sem se extraviar da
esteira que segue, na imensa difuso das vagas.
     Chega, porm, uma hora em que o sopro da tempestade parte, como uma
haste de palha, aquela trave de sessenta ps de comprimento; em que o vento rijo
do furaco verga como um vime aquele mastro de quatrocentos ps de altura; em
que aquela ncora que pesa trezentas arrobas se torce nas goelas da vaga, como o
anzol do pescador nas guelras de um peixe, em que aqueles canhes monstruosos
soltam rugidos lamentosos e inteis, que o furaco arrebata pela amplido do
espao e por entre a serrao da procela; em que, finalmente, todo aquele poder e
majestade se abisma e se sente  merc de um poder superior, de uma majestade
mais alta.
     Todas as vezes que uma fora imensa se expande para chegar a uma imensa
fraqueza, o homem involuntariamente  levado a meditar. Daqui provm,
portanto, a multido de curiosos que pejam os cais de qualquer porto, e que, sem
bem saberem porqu, rodeiam essas maravilhosas mquinas de guerra e de
navegao.
     Todos os dias, pois, desde pela manh at  noite, estavam os cais, parapeitos
e molhes do porto de Toulon sempre cobertos de ociosos e basbaques, como em
Paris se diz, que vinham ali e se demoravam s para ver a Orion.
     A Orion era um navio doente, cujos achaques havia muito duravam. Nas suas
viagens anteriores haviam-se-lhe amontoado na quilha e adjacncias to espessa
camada de conchas e lixo, que a sua velocidade ficava reduzida a metade, o que fez
com que no ano antecedente o tivessem posto em seco para lhe rasparem o lixo e
as conchas, depois do que o lanaram de novo ao mar. Esta operao, porm,
alterou-lhe o cavilhame da quilha, de modo que na altura das Baleares, as juntas
abriram, e como ento as embarcaes no eram forradas de folha de ferro, o
navio fez gua. Alm disto, sobreveio um temporal equinocial que lhe quebrou o
talha-mar pelo lado de bombordo, metendo-lhe dentro uma canhoneira e
danificando-lhe o joanete de proa e a cevadeira. Em virtude, pois, destas avarias, a
Orion recolheu-se a Toulon, onde estava fundeado junto do Arsenal, sofrendo os
concertos de que carecia e aprestando-se para voltar de novo ao trfego da
navegao. O casco pelo lado de estibordo no sofrera dano; porm, segundo o
costume, estavam despregadas algumas cintas do costado aqui e ali para deixar
penetrar o ar no cavername.
     Um dia, pela manh, a multido que ali se aglomerava a contempl-lo foi
testemunha de um desastre.
     Estando a tripulao a tratar de ferrar o velame, o gajeiro, que se ocupava a
cozer a vela da mezena de estibordo, para a riar, perdeu o equilbrio, ameaando
despenhar-se da grande altura a que estava. Ao v-lo cambalear pela falta de
apoio, a multido que se aglomerava no cais do Arsenal soltou unnime um grito
de pavor. A cabea pesou-lhe mais que o resto do corpo e o homem deu uma volta
em roda da verga com as mos estendidas para o abismo; no mpeto da queda,
porm, em que se ia a despenhar, lanou uma das mos aos ovens, em seguida a
outra e ficou dependurado no ar, com o mar por baixo a uma profundidade que
causava vertigens. O abalo da queda, porm, imprimira aos ovens um violento
movimento de vaivm, de modo que o homem ficou baloiando na ponta daquela
corda como a pedra de uma funda.
     Ir em socorro dele era correr um risco terrvel. Nenhum dos marinheiros,
todos pescadores da costa, havia pouco recrutados para o servio da armada, a tal
ousava aventurar-se. Entretanto, o infeliz gajeiro ia perdendo as foras, pois bem
que se lhe no visse a angstia do rosto, conhecia-se-lhe em todos os membros
que eles iam a cansar-se-lhe. Os braos repuxavam-se-lhe em sacudidelas
horrveis. A cada esforo que ele fazia para tentar subir  altura do apoio que lhe
faltara, aumentavam as oscilaes do cabo a que se agarrara na queda; mas, apesar
de serem dolorosos os impulsos que o balano da corda lhe causavam, no gritava
com medo de perder foras. A cada instante se esperava o momento em que ele
largaria a corda e todas as cabeas se voltavam por vezes para o lado, a fim de o
no verem despenhar-se. H ocasies em que a ponta de uma corda, uma vara, o
esgalho de uma rvore so a prpria vida, e  uma coisa horrorosa ver despegar-se
e cair delas um ser animado, como se fora um fruto maduro.
     De sbito, os olhos de toda aquela multido ansiosa avistaram um homem
trepando pelo cordame com a agilidade de um smio. Esse homem era um
forado, pois estava vestido de vermelho, e um forado por toda a vida, porque
trazia um barrete verde. Ao chegar ao cesto da gvea, uma rajada de vento
arrebatou-lhe o barrete, deixando a descoberto uma cabea toda branca; aquele
homem pois, no era um rapaz.
     Efectivamente, apenas o homem ficara desastrosamente dependurado, um
forado, que fazia parte de uma chusma empregada a bordo da Orion, correu 
presena do oficial de quarto, no meio da perturbao e hesitao da equipagem, e
enquanto todos os marinheiros tremiam e recuavam, ele pediu licena para ir
arriscar a sua vida pela salvao do gajeiro. A um sinal afirmativo do oficial,
quebrara com uma martelada o gancho da grilheta que lhe prendia o p, e depois
de ter pegado numa corda, atirou-se aos ovens. Ningum naquela ocasio fez
reparo na facilidade com que ele quebrou a cadeia. S mais tarde  que tal
circunstncia foi lembrada.
     O forado chegou  verga num abrir e fechar de olhos e parou alguns
segundos como que a medi-la com a vista. Estes segundos, porm, durante os
quais o vento baloiava o gajeiro na extremidade de uma corda, pareceram sculos
aos que estavam a ver. Por fim, o forado elevou os olhos ao cu e deu um passo
para diante. A multido respirou. Viram-no ir a correr pela verga adiante.
Chegado  extremidade dela, atou uma ponta da corda que trouxera, deitou
abaixo a outra e principiou a descer com as mos ao longo da corda que deixara
pendente. Tornou-se ento inexprimvel a angstia que oprimiu o peito dos
espectadores; em lugar de um homem suspenso sobre o abismo eram agora dois.
     Dir-se-ia que aquele homem era uma aranha aprestando-se para se apossar de
uma mosca, com a diferena, porm, de que a aranha ali levava a vida e no a
morte.
     Dez mil olhares estavam fixos naquele grupo. Nem um grito, nem uma
palavra s, o mesmo tremor enrugava a fronte de todos. No meio daquela
multido nem uma s boca deixava de comprimir a respirao, como que
temendo juntar o mais ligeiro hlito ao vento que sacudia os dois desgraados.
     Neste meio tempo, o forado tinha conseguido chegar ao p do marinheiro
em perigo. Era tempo: um minuto mais e o homem, exausto de foras e
desesperado de socorro, deixar-se-ia cair no abismo. O forado amarrou-o
solidamente com a corda,  qual se segurava com uma das mos enquanto com a
outra trabalhava, e a multido viu-o enfim tornar a guindar-se para a verga e iar
o marinheiro para aquele lugar, no qual o susteve um instante para o deixar
recuperar foras, e, agarrando-o em seguida nos braos, traz-lo neles at ao cepo,
caminhando pela verga adiante e dali at ao cesto da gvea, onde o deixou nas
mos dos companheiros.
     Neste momento a multido rompeu em aplausos; dos olhos de alguns velhos
guardas das gals rebentaram involuntrias as lgrimas, no cais, as mulheres
abraaram-se e todas aquelas vozes gritaram com uma espcie de enternecido
furor:
     Perdo para esse homem! Neste meio tempo preparava-se ele para descer
imediatamente a fim de tomar o seu lugar entre os outros forados da chusma.
Para chegar mais depressa deixou-se escorregar pelo cordame e principiou a
correr por uma verga inferior adiante. Todos o seguiam com os olhos. Houve um
momento em que o susto foi geral; ou porque lhe escasseassem de sbito as foras
ou porque lhe desse alguma vertigem, afigurou-se aos espectadores v-lo hesitar e
cambalear. De repente, a multido soltou um grito pavoroso; o forado acabava de
cair ao mar.
     A queda era perigosa. Junto  Orion estava fundeada a fragata Algesiras, e o
pobre forado tinha cado entre os dois navios. Era portanto de recear que ele, no
mpeto do mergulho, viesse sair exactamente debaixo da quilha de um ou outro.
     Quatro homens se arrojaram a toda a pressa ao mar num barco, animados
pela multido, em cujas almas se abrigava de novo a ansiedade. O homem, porm,
no voltara  superfcie da gua, desaparecendo no mar sem deixar uma esteira de
espuma, sem levantar um borboto de gua, como se tivera cado numa pipa de
azeite.
     Sondaram, mergulharam, mas foi tudo baldado. Andou-se  procura at 
noite, mas nem o cadver apareceu.
     No dia seguinte, 18 de Novembro de 1823, o jornal de Toulon publicava as
seguintes linhas:
     Ontem, um forado que fazia parte da chusma da Orion, ao voltar de socorrer
um marinheiro, caiu ao mar e afogou-se. No foi possvel encontrar-se o cadver.
Presume-se que tenha ficado preso na estacaria da linqueta do Arsenal. O infeliz
cuja desastrada morte noticiamos, estava inscrito na priso com o n. 9.430 e
chamava-se Joo Valjean.
    LIVRO TERCEIRO
    Cumprimento da promessa feita  moribunda



    I
    A falta de gua em Montfermeil



     Montfermeil, que fica situado entre Livry e Chelles, na aba meridional da
elevada colina que separa o Ourcq do Marne,  hoje uma aldeia importante,
ornada todo o ano de casas de campo agradavelmente caiadas e aos domingos de
prazenteiros burgueses. Em 1823, porm, no havia em Montfermeil nem tantas
casas alvejantes, nem tantos burgueses satisfeitos; era apenas uma aldeia perdida
nos bosques. Encontravam-se aqui e ali,  verdade, algumas casas de recreio do
sculo passado, reconhecveis pelo seu ar de grandeza, pelas suas varandas de ferro
torneado e por essas janelas rasgadas, cujos vidros reflectem sobre as brancas
portadas interiores todos os cambiantes da cor verde.
     Montfermeil, porm, nem por isso deixava de ser uma aldeia.  que nem os
mercadores de pano retirados do negcio, nem os correctores aposentados a
tinham descoberto ainda. Era um lugar pacfico e bonito, que no ficava  beira de
estrada nenhuma, e onde se vivia nesse abundante e fcil aconchego da vida do
campo.
     Somente havia a notar a grande escassez de gua por causa da elevao da
colina, pelo que era necessrio ir busc-la a considervel distncia.
     Os que moravam no fim da aldeia, para a parte de Gagny, abasteciam-se dela
nos magnficos lagos que por ali h pelos bosques; os da outra extremidade
situada em volta da igreja, para o lado de Chelles, no tinham gua potvel seno
numa fonte que ficava a meia encosta junto  estrada de Chelles, quase a um
quarto de hora distante de Montfermeil.
     Como, pois, para todos se tornava difcil e incmodo o abastecimento de
gua, as casas grandes, a aristocracia, e no nmero delas se contava a taberna de
Thenardier, pagavam um liard por cada balde de gua a um pobre homem que
fazia disto o seu modo de vida e que com este negcio da gua em Montfermeil
ganhava perto de oito soldos por dia; porm, como este homem no trabalhava
seno at s sete horas da tarde, de Vero, e de Inverno at s cinco, chegada a
noite, fechadas as portas da rua, quem no tinha em casa gua para beber ia
busc-la por seu p ou ficava sem ela.
      Era esta a maior causa de terror para a pobre criancinha de quem o leitor
decerto se no esqueceu: a pequenita Cosette. A pobre criana tornava-se til por
duas maneiras aos Thenardier, os quais recebiam o dinheiro da me e
aproveitavam o trabalho da filha. Assim, quando a me cessou completamente de
lhes pagar, pelos motivos que se leram nos captulos precedentes, nem por isso os
Thenardier deixaram de continuar a ter Cosette consigo, visto ela lhes fazer as
vezes de criada, e como tal era ela quem ia buscar a gua quando se tornava
necessrio. A pobre criana, porm, a quem em extremo assustava a ideia de ter de
ir  fonte de noite, tinha sempre todo o cuidado que no faltasse nunca a gua em
casa.
      No ano de 1823, o Natal em Montfermeil foi sobremodo brilhante. Fora
temperado o princpio do Inverno; ainda no caa geada nem neve. Alguns
pelotiqueiros vindos de Paris obtiveram licena do maire para levantar as barracas
na rua principal da aldeia, e um bando de vendedores ambulantes, conseguida
igual tolerncia, construram tambm as suas tendas no largo da igreja, at ao
beco do Boulanger, onde, como de certo esto lembrados, fica a taberna dos
Thenardier. Isto fazia com que as tabernas e as estalagens estivessem cheias, e dava
quela pequena aldeia, habitualmente tranquila, uma existncia ruidosa e alegre.
Devemos at dizer, para sermos historiador fiel, que entre as curiosidades
expostas no largo da igreja figurava um barraco de animais, no qual uns abjectos
e maltrapilhos palhaos, vindos no se sabia de onde, mostravam em 1823 aos
aldees de Montfermeil um desses abutres terrveis do Brasil que o nosso Museu
Real s possui desde 1845 para c, e cujos olhos se parecem com um lao tricolor.
Os naturalistas chamam a esta ave, creio eu, Caracar Polyborus, e pertence 
ordem dos apicidos e  famlia dos abutres. Alguns velhos soldados que viviam na
aldeia retirados do servio iam ver devotamente o animal, cujo lao tricolor os
pelotiqueiros inculcavam como um fenmeno nico operado de propsito pela
bondade de Deus para a sua coleco de animais raros.
      Na noite do prprio dia de Natal, achavam-se sentados a uma mesa
iluminada por quatro ou cinco luzes no andar trreo da taberna de Thenardier
grande nmero de homens, dos quais uns eram vendilhes, outros carreiros. Este
andar trreo parecia-se com o andar trreo de todas as tabernas; mesas, canjires
de estanho, garrafas, bebedores, fumadores, pouca luz e muito barulho. Todavia, a
data do ano de 1823 era indicada pelos dois objectos ento em moda entre a classe
burguesa e que estavam em cima de uma mesa: um caleidoscpio e um candeeiro
de folha ondeada. A mulher de Thenardier vigiava pela preparao da ceia, que
estava cozinhando a uma fogueira; o estalajadeiro bebia com os fregueses e falava
de poltica.
     Alm das conversas polticas, que tinham por objectos principais a guerra de
Espanha e o duque de Angoulme, ouviam-se no meio daquele alarido uma srie
de parntesis todos locais como estes:
     - Para as bandas de Nanterre e Suresne houve muito vinho este ano. Quem
contava ter dez pipas, teve doze e assim em proporo. Era uma enchente em
todos os lagares.
     - Ora adeus! Mas a uva no devia ainda estar madura?
     - Naqueles stios no precisa vindimar-se madura; o vinho chega sempre 
conta com a Primavera.
     -  tudo vinho fraco.
     - Ainda mais que os daqui!  preciso fazer a vindima em verde, se se querem
remediar esses males.
     Ou ento era um moleiro que exclamava:
     - Ns somos por acaso responsveis pelo que est nos sacos? Achamos neles,
misturados com o trigo, grande quantidade de gros, que ns no podemos
divertir-nos a separar e que no h remdio seno deixar passar pela m;  joio,
alfarra, ervilhaca, linhaa, rabos de raposa e outras pestes ainda, sem falar na
pedra, que vem sempre em certos trigos, principalmente nos bretes. Eu c desejo
tanto moer trigo breto como os serradores serrar um madeiro em que haja
pregos. Faam ideia do mau resultado que tudo isto d. Depois queixam-se da
farinha, como se a culpa fosse nossa.
     Sentado a uma mesa, situada no vo de uma janela, um ceifeiro dizia a um
lavrador que tratava com ele do ajuste de certo trabalho no campo que se devia
executar na Primavera:
     - Olhe, senhor, o estar a erva molhada no lhe faz mal nenhum, antes 
melhor de segar. O orvalho -lhe bom. Mas c para o nosso caso... eu vou
dizer-lhe uma coisa; sim, a erva que diz est ainda muito tenra e no  boa de
cortar. Como est muito mole, embaraa-se a foucnha nela e no se faz coisa com
jeito.
     Cosette estava no seu canto do costume; sentada na travessa da banca da
cozinha, ao p da lareira, maltrapilha, de tamancos nos ps e trabalhando numas
meias de l para as filhas do estalajadeiro, ao claro projectado pela fogueira que
ardia no lar.
     Debaixo das cadeiras brincava e pulava um gatinho novo, e na sala prxima
ouviam-se as frescas vozes de duas crianas tagarelando e rindo: eram Eponine e
Azelma.
     A um dos lados do lar viam-se umas disciplinas penduradas num prego.
     De espao a espao, no meio do alarido de vozes e de ruidosa algazarra que
levantavam os joviais convivas da taberna, ouviam-se os gritos de uma criancinha
que estava algures dentro de casa. Era um menino que a mulher do estalajadeiro
havia dado  luz num dos; Invernos antecedentes sem saber como, dizia ela;
efeitos do frio, e que pouco mais contava do que trs anos. Fora a me que o
amamentara, mas nem por isso lhe consagrava demasiado afecto. Quando o
pequerrucho,  fora de gritar, se tornava importuno demais, o marido dizia-lhe:
     - Olha o teu filho que est a chiar, vai ver o que ele quer.
     - Ora! - respondia a me. - O rapaz j me aborrece.
     E a pobre criana continuava a gritar nas trevas, abandonada e sozinha, sem
que  me desse grande cuidado ir indagar a causa dos seus lamentosos choros.



    II
    Dois retratos completos



     Ainda no se viu seno de perfil os estalajadeiros de Montfermeil, que nesta
histria figuram debaixo do nome de Thenardier. Chegada , porm, a ocasio de
circunvagar em roda daquele par para o observar por todas as faces.
     Thenardier completara, havia pouco, cinquenta anos de existncia; a consorte
estava a tocar os quarenta, que so para a mulher o mesmo que os cinquenta para
o homem; de modo que entre a mulher e o marido havia equilbrio de idades.
     A Thenardier, alta, loura, vermelha, encorpada, fornida de carnes, quadrada,
enorme e gil, pertencia, como j dissemos, a essa raa de colossos selvagens que
andam em exposio pelas feiras, sustentando pedras nos cabelos. Era ela quem
tudo fazia em casa, que arrumava os quartos, que fazia as camas, a barrela, a
comida, a chuva, o bom tempo, o diabo. A sua nica criada era Cosette; um rato
servindo um elefante. Tudo tremia ao som da sua spera voz, vidraas, trastes e
pessoas. A sua cara larga, crivada de sardas, apresentava o aspecto de uma
escumadeira. Para que a coisa ficasse completa, tinha barba tambm. Era o ideal
do mais alentado regato vestido de mulher, soltando pragas como ningum,
gabando-se de quebrar uma noz com um murro. Se no fossem os romances que
lera e que s vezes faziam reaparecer a mulher-dengue por baixo da
mulher-papo, nunca ningum se lembraria de dizer dela:  uma mulher. A
Thenardier era como que o produto do enxerto de uma donzela numa peixeira.
Ao ouvi-la falar, dir-se-ia:  um gendarme; ao v-la beber, diriam:  um
carreteiro; ao presenciar finalmente o modo como ela tratava Cosette
exclamariam:  o carrasco. Quando dormia, saa-lhe da boca um dente.
     O marido era um homem baixo, magro, plido, anguloso, ossudo, fraco, com
aspecto de doente, mas gozando de uma sade de ferro. A sua velhacaria
principiava por isto. Era-lhe habitual o sorriso nos lbios e tratava com polidez
quase toda a gente, mesmo o mendigo a quem recusava uma esmola. Tinha olhar
de fuinha e gesto de literato. Parecia-se muito com os retratos do abade Delile. O
seu maior gosto consistia em beber com os carreteiros, e nunca ningum fora
capaz de o embebedar. Alm disto fumava num grande cachimbo, trajava uma
blusa e por baixo da blusa uma velha casaca preta. Thenardier tinha pretenses a
literato e materialista, costumando pronunciar frequentes vezes certos nomes para
apoiar o que dizia, como Voltaire, Raynal, Parny, e, extravagante coisa, Santo
Agostinho. Afirmava ele ter um sistema. Quanto ao resto, velhaco a no poder
mais. H destas combinaes no mundo.
     Devem lembrar-se de que pretendia ter sido militar; contava com certo
orgulho que em Waterloo, sendo sargento de um regimento, 6. ou 9. de
infantaria ligeira, tinha sozinho contra um esquadro de hussardos da Morte,
coberto com o seu corpo, e salvo atravs da metralha um general gravemente
ferido. Era daqui que lhe pro-viera, para a porta, a flamante tabuleta, e para a sua
estalagem, em todo aquele stio, o nome de tabernado sargento de Waterloo.
Era liberal, clssico e bonapartista. Subs-crevera para o campo de Asilo; e dizia-se
na aldeia que estudara para padre. Quanto a ns, julgamos que tinha
simplesmente estudado na Holanda para estalajadeiro.
     Este tratante de ordem compsita, era, segundo todas as probabilidades, um
flamengo de Lille em Flandres, francs em Paris, belga em Bruxelas, comandante a
cavalo em duas fronteiras.
     A sua proeza em Waterloo j ns conhecemos; como se v exagerava-a um
tanto.
     O fluxo e refluxo, a aventura, o intricado, eram os elementos da sua
existncia; da conscincia rasgada resulta a vida descosida; e, como era verosmil,
na tempestuosa poca de 18 de Junho de 1815, Thenardier pertencia  variedade
de vivandeiros ratoneiros de que falmos, que percorriam a estrada, vendendo a
estes, roubando queles, e que rodavam com toda a famlia, mulher e crianas, e
em qualquer carroa desconjuntada, atrs da tropa em marcha, e com o instinto
de se chegarem sempre para o exrcito vitorioso. Terminada esta campanha e
tendo como ele dizia, cum quibus, fora estabelecer-se em Montfermeil.
     Este  cum quibus, composto de bolsas e de relgios, de anis de oiro e de
cruzes de prata, colhidos no tempo da ceifa nas leiras semeadas de cadveres, no
montava a um grande total e no acompanhara at muito longe o vivandeiro
transformado em taberneiro.
     Thenardier tinha nos gestos qualquer coisa de rectilneo, que com uma praga
recordava a caserna, e quando se benzia, o seminrio. Falava bem e deixava-se
passar por erudito. No obstante, o mestre-escola tinha-lhe notado algumas
silabadas.
     Escrevia a conta dos seus hspedes com certa superioridade, mas os olhos
exercitados encontravam-lhe muitas vezes erros de ortografia. Thenardier era um
velhaco, guloso e mandrio, mas hbil. No desprezava as criadas, o que fazia com
que sua mulher as no tivesse. A gigante era ciosa; parecia-lhe que aquele
homenzinho magro e amarelo devia ser objecto de cobia universal.
     Thenardier principalmente homem de astcia e equilbrio, era um velhaco de
gnero temperado. Esta espcie  a pior de todas: baseia-se na hipocrisia.
     Isto no quer dizer que Thenardier no fosse susceptvel de se encolerizar,
chegada a ocasio prpria, tanto como sua mulher; mas essas ocasies eram muito
raras; em tais momentos, porm, como ele odiava todo o gnero humano, como
tinha em si profunda fornada de dio, como era dos que se vingam
perpetuamente, que acusam quanto lhes passa pela frente, tudo o que se sentem
cair-lhes em cima, e que esto sempre prontos a lanar ao primeiro que lhes
aparece, como legtima desforra, a totalidade das decepes, das bancarrotas e das
calamidades da sua vida; como todo este fermento se lhe levantava no ntimo, e
por assim dizer lhe fervia na boca e nos olhos, tornava-se medonho. Desgraado
daquele que ento lhe caa nas mos.
     Alm de todas estas qualidades, era Thenardier atento e penetrado, silencioso
ou falador, segundo a ocasio, e sempre com alta inteligncia. Tinha o que quer
que era do olhar dos marinheiros, habituados a aplicar os olhos aos culos de
alcance. Thenardier era um homem de estado.
     Todo o recm-chegado que entrava na baiuca dizia, vendo a estalajadeira: Eis
ali o dono da casa. Era um erro, nem mesmo era a dona. Dono e dona era o
marido: a mulher executava o que ele concebia. O marido dirigia tudo por uma
espcie de aco magntica invisvel e contnua. Bastava-lhe uma palavra, muitas
vezes um gesto; o mastodonte obedecia. Thenardier era para sua mulher, sem que
ela desse por isso uma espcie de ente particular e soberano.
     A Thenardier tinha as virtudes do seu modo de ser; nunca divergia, sobre
qualquer pormenor, da opinio de Thenardier, hiptese completamente
inadmissvel; e nunca contradizia publicamente o marido sobre o que quer que
fosse. Nunca teria cometido em presena de estranhos, a falta cometida muitas
vezes pelas mulheres, e a que se chama em linguagem parlamentar: descobrir a
coroa. Ainda que o seu inaltervel acordo no tivesse nunca em resultado seno o
mal, havia contemplao na submisso da Thenardier a seu marido. Aquela
montanha de rudo e carne movia-se sob o pequeno dedo do frgil dspota. Era
isto, encarado pelo seu lado ano e grotesco, uma coisa grande e universal: a
adorao do esprito pela matria; porque certas fealdades tm a sua razo de ser
nas prprias profundezas da beleza eterna. Em Thenardier havia o que quer que
era de desconhecido, donde provinha o imprio absoluto sobre sua mulher, a
quem, em certos momentos, se afigurava uma luz, noutros sentia-o como uma
garra.
     Esta mulher era uma criatura medonha, que no amava seno os filhos e que
no temia seno o marido. Era me por ser mamfera, Mas ainda assim, a sua
maternidade concentrava-se nas filhas; e, como se ver, no se estendia at aos
rapazes. O marido, esse s pensava em enriquecer.
     Contudo, no o conseguia. Faltava quele grande talento um teatro condigno.
     Thenardier em Montfermeil perdia tudo, se a perda  possvel em zero; na
Sua ou nos Pirinus, aquele pobreto tornar-se-ia milionrio. Mas o
estalajadeiro tem forosamente de pastar no stio em que a sorte o prende.
      necessrio entender-se que a palavra estalajadeiro  aqui empregada num
sentido restrito e que no se estende a uma classe inteira.
     Neste mesmo ano de 1823, achava-se Thenardier endividado em perto de mil
e quinhentos francos, e com credores inexorveis, o que lhe causava grande
inquietao.
     Qualquer que fosse para com ele a injustia teimosa do destino, Thenardier
era um dos homens que compreendiam do modo mais profundo e da maneira
mais moderna, uma coisa que  virtude entre os povos brbaros e mercadoria
entre os civilizados: a hospitalidade.
     Quanto ao mais, admirvel caador nas matas defesas, citado pela infalvel
pontaria e possuidor de um certo riso frio e pacfico, que era muito
particularmente perigoso.
     As suas teorias de estalajadeiro brotavam dele, por vezes, como relmpagos.
     Tinha aforismos profissionais que sem cessar inseria no esprito de sua
mulher. O primeiro dever do estalajadeiro, lhe dizia ele um dia violentamente e
em voz baixa,  vender ao primeiro que aparece, m comida, descanso, luz, fogo,
lenis sujos, pulgas e sorrisos; de fazer parar os transeuntes, de esvaziar as bolsas
magras e de aliviar honestamente as gordas, de abrigar respeitosamente as famlias
que vo em jornada, de esfolar o homem, de depenar a mulher e de limpar a
criana; de meter em conta a janela aberta, a janela fechada, o calor do fogo, a
poltrona, a cadeira, o banco, o moxo, o colcho de penas, a enxerga e o feixe de
palha; de conhecer quanto a sombra gasta o espelho e de avaliar este gasto; e com
quinhentos mil diabos, obrigar o hspede a pagar tudo, inclusive as moscas
comidas pelo seu co! Este homem e esta mulher representavam a aliana da
astcia e da raiva, medonha e terrvel parelha.
     Enquanto Thenardier ruminava e combinava, a mulher no se lembrava dos
credores ausentes, no pensava no dia presente nem no futuro, e vivia
arrebatadamente dentro do minuto presente.
     Tais eram estes dois entes. Entre eles estava Cosette, sofrendo-lhes a dupla
presso, como uma criatura que fosse ao mesmo tempo triturada por uma m e
despedaada por uma tenaz. O marido e a mulher tinham cada um seu modo
diferente de a atormentar: a estalajadeira moa-a com pancadas, o estalajadeiro
fazia-a andar descala no Inverno.
     Cosette subia, descia, lavava, esfregava, varria, corria, azafamava-se, suava,
carregava com objectos pesados, e pequena como era, fazia toda a espcie de
trabalho grosseiro. Para ela no havia piedade; uma ama feroz e um amo
malvolo. A baiuca de Thenardier era uma espcie de teia em que Cosette estava
presa e tremia. Esta domesticidade sinistra realizava o ideal da opresso.
     Era uma espcie de mosca servindo aranhas. A pobre criana, acostumada a
sofrer, calava-se.
     O que  que se passa nestas almas que h pouco saram do seio de Deus,
quando se vem assim, desde a aurora, entre os homens, to pequenas e nuas?
    III
    Vinho para os homens e gua para os cavalos



     Tinham chegado  estalagem quatro novos viajantes.
     Cosette meditava tristemente, pois se bem que ela tivesse apenas oito anos,
havia j sofrido tanto, que s vezes punha-se a reflectir com o ar lgubre de uma
velha.
     A pobre criana tinha uma das plpebras negra, de um murro que lhe dera a
Thenardier, o que dava lugar a que a ama dissesse de vez em quando: Est
horrenda com o remendo preto no olho! Cosette, pois, meditava em que era
noite, noite fechada, que fora necessrio encher de repente as garrafas e os jarros
nos quartos dos passageiros recm-chegados e que j no havia gua na tina.
     O que a tranquilizava alguma coisa era que em casa dos estalajadeiros no se
bebia muita gua. No faltava nela gente com sede, mas era dessa sede que se
dirige com mais gosto  pipa do que  tina. Pareceria um selvagem a todos aqueles
homens o que pedisse um copo de gua entre aqueles copos de vinho. Em certa
ocasio, porm, a criana estremeceu; a estalajadeira tirou a tampa de uma
caarola que estava fervendo ao lume, depois pegou num copo e aproximou-se
com desembarao da tina,  qual desandou a torneira.
     A criana levantara a cabea, e seguia-lhe todos os movimentos. Da torneira
apenas correu um delgado fio, que encheu o copo at meio.
     - Oh, j no h gua! - disse ela, e fez uma pequena pausa. A criana no
respirava.
     -  o que eu digo - tornou a Thenardier, examinando o copo meio cheio - o
mais que haver  tanta como esta.
     Cosette continuou outra vez no seu trabalho, mas durante mais de um quarto
de hora sentiu saltar-lhe o corao no peito com terrvel violncia. Contava os
minutos que decorriam; desejara estar j no dia seguinte.
     De tempos a tempos, algum dos bebedores exclamava, olhando para a rua:
Irra!
     Est escuro como um prego! ou: S quem for gato  que poder andar a
esta hora pela rua sem lanterna! E Cosette estremecia.
     De repente, um dos feirantes ambulantes alojados na estalagem entrou e disse
com voz dura:
     - Ainda no deram de beber ao meu cavalo.
     - Sim, senhor, deu-se-lhe de beber - disse a Thenardier.
     - E eu digo-lhe que no - tornou o feirante.
     Cosette saiu ento de debaixo da mesa e disse:
     - Oh, senhor! Olhe que o cavalo bebeu, bebeu no balde, um balde cheio; at
fui eu que lhe dei de beber e falei-lhe.
     Isto no era verdade. Cosette mentia.
     - Ora vejam como esta sirigaita to pequena j sabe pregar petas como torres!
- exclamou o homem.
     - J te disse que no bebeu, minha velhaquinha! Quando no bebe, sopra c
de certo modo que eu sei.
     Cosette insistiu, acrescentando com voz abafada pela angstia e que mal se
ouvia:
     - E at bebeu bastante!
     - Vamos - tornou o feirante encolerizado - deixem-se de histrias, dem de
beber ao cavalo e acabemos com isto!
     Cosette foi-se meter outra vez debaixo da mesa.
     - L isso  justo - disse a Thenardier - se o cavalo no bebeu,  preciso dar-lhe
de beber.
     Depois acrescentou, olhando em volta de si:
     - Ento? Onde est este estafermo?
     E, como se baixasse, descobriu Cosette acocorada na outra extremidade da
mesa, quase debaixo dos ps dos bebedores.
     - Vens da? - exclamou a Thenardier.
     Cosette saiu da espcie de buraco onde se tinha ido esconder e a Thenardier
tornou:
     - Senhora cadela sem nome, v dar de beber ao cavalo.
     - Senhora, mas  que no h gua nenhuma em casa - disse Cosette com voz
enfraquecida.
     A estalajadeira abriu a porta da rua de par em par e acrescentou:
     - Pois vai busc-la!
     Cosette curvou a cabea e foi pegar num balde vazio que estava ao p da
chamin e que era maior do que ela. A criana podia sentar-se e mover-se dentro
dele  vontade.
     A Thenardier voltou para a chamin e provou com uma colher de pau o que
estava na caarola, murmurando ao mesmo tempo:
     - Na fonte h muita. Se j se viu uma coisa assim! O que ela precisava sei eu.
     Depois meteu a mo numa gaveta onde havia algum dinheiro em cobre,
pimenta e alhos.
     - Aqui tens minha lesma -, acrescentou ela  quando voltares passa pelo
padeiro e traze um po dos grandes. Aqui tens quinze soldos.
     Cosette pegou na moeda sem dizer uma palavra e meteu-a numa algibeira
que tinha no avental.
     Em seguida ficou imvel, com o balde na mo, diante da porta aberta. Parecia
estar  espera que viesse algum em seu socorro.
     - Ento, avias-te? - gritou a Thenardier.
     Cosette saiu e a porta tornou a fechar-se.



    IV
    Entra em cena uma boneca



     Como estaro lembrados, a fileira de barracas que partia da igreja estendia-se
at  estalagem de Thenardier, e como dali a pouco havia de passar a gente da
aldeia para a missa do galo, estavam todas iluminadas com velas metidas em
cartuchos de papel, o que, como dizia o mestre-escola de Montfermeil, naquela
ocasio sentado a uma das mesas da taberna de Thenardier, fazia um efeito
mgico. Em compensao, no se via uma estrela no cu.
     A ltima destas barracas, situada exactamente em frente da porta da taberna,
era uma loja de quinquilharias, resplandecente de ouropis, avelrios e magnficas
coisas de lata. Na primeira estante da frente, colocara o dono da loja, num fundo
de pratos de folha, uma imensa boneca de dois ps de altura, vestida com um
vestido de crepe corde-rosa, com espigas de ouro na cabea, cabelos naturais e
olhos de esmalte.
     Estivera aquela maravilha exposta todo o dia ao deslumbramento dos
admira-dores de dez anos para baixo, sem que em Montfermeil se tivesse
encontrado uma me suficientemente rica ou assaz prdiga que a comprasse para
dar a uma filha. Eponina e Azelma haviam passado horas a contempl-la, e at a
prpria Cosette, furtivamente,  verdade, ousara observ-la.
     Na ocasio em que Cosette saiu com o seu balde na mo, apesar de
excessivamente triste e acabrunhada, no pde ter-se que no levantasse os olhos
para aquela maravilhosa boneca, para a senhora, como ela lhe chamava. A pobre
criana, porm, parou petrificada, pois ainda a no tinha visto de perto. A loja
parecia-lhe um palcio, a boneca para ela no era uma boneca, era uma viso. Era
a alegria, o esplendor, a riqueza, a ventura, que apareciam numa espcie de
irradiao quimrica, quele infeliz entezinho, to profundamente sepultado
numa fnebre e fria misria. Cosette media com essa ingnua e triste sagacidadeda
infncia o abismo que a separava daquela boneca, dizendo consigo mesma que era
necessrio ser rainha, ou, pelo menos, princesa, para possuir uma coisa assim.
Ela contemplava aquele belo vestido cor-de-rosa, aqueles belos cabelos to
lustrosos e dizia consigo: Aquela boneca sempre h-de ser muito feliz!. A pobre
criana no podia tirar os olhos daquela fantstica loja. Quanto mais olhava, mais
deslumbrada se sentia. Julgava ver o paraso. Por trs da boneca grande havia
outras que lhe pareciam fadas e gnios. O negociante, que passeava na loja de um
lado para o outro, como se lhe figurava o Padre Eterno.
     A pobre criana esquecia tudo naquela adorao, mesmo o recado a que fora
mandada. De repente, porm, a voz rude da estalajadeira chamou-a  realidade:
     - Pois tu ainda a ests, minha sirigaita! Espera que eu te arranjo! Sempre
quero saber o que ests a a fazer. Gira!
     A Thenardier havia chegado  porta a ver o que se passava e avistara Cosette
em xtase.
     Esta, ao ouvir a voz da estalajadeira, deitou a fugir com o balde, caminhando
o mais apressadamente que podia.



    V
    A pequena sozinha



     Como a estalagem dos Thenardier ficava na parte da aldeia prxima  igreja,
era  fonte do bosque situada para o lado de Chelles que Cosette tinha de ir buscar
a gua.
     A pobre rapariguinha no tornou a olhar para nenhuma outra barraca.
Enquanto no passou o beco do Boulanger nem os arredores da igreja, a
iluminao das lojas alumiava-lhe o caminho; bem depressa, porm, desapareceu
o ltimo claro da ltima barraca, e Cosette achou-se na obscuridade, mas
continuou a caminhar no meio dela.
     Somente, como se ia apossando dela certa comoo, agitava o mais que podia
a asa do balde. Isto produzia um rudo que lhe servia de companhia.
     Quanto mais caminhava, porm, mais espessas se tornavam as trevas. Pelas
ruas j se no via ningum. Todavia, Cosette encontrou uma mulher, que se
voltou ao v-la passar e que parou, murmurando por entre dentes:
     - Onde ir esta criana? Ser um lobisomem?
     Depois, a mulher, reconhecendo Cosette, exclamou:
     - Olha,  a Cotovia!
     Cosette atravessou assim o labirinto de ruas tortuosas e desertas onde termina
a aldeia de Montfermeil, para a parte de Chelles. Enquanto se viu no meio de casas
e mesmo s de paredes, caminhou afoita. De vez em quando via o claro de uma
vela, pelas fendas de alguma janela, e isto para ela era luz e vida.  porque ali havia
gente, e esta ideia tranquilizava-a. Todavia,  medida que caminhava, o seu passo
afrouxava, como que maquinalmente. Depois de passar a esquina da ltima casa,
parou. Passar adiante da ltima loja fora difcil; passar alm da ltima casa
tornava-se impossvel.
     Cosette, pois, pousou o balde no cho, meteu a mo por entre os cabelos e
ps-se a coar a cabea lentamente, gesto particular s crianas atemorizadas e
indecisas. J no era Montfermeil, eram os campos.
     Diante de si tinha o espao, negro e deserto. Cosette olhou com angstia para
aquela obscuridade, em que no havia ningum, em que s havia lobos ou talvez
almas do outro mundo. Esbugalhou mais os olhos e ouviu os lobos a caminhar
por cima da erva, e viu distintamente as almas do outro mundo agitando-se nos
ramos das rvores.
     Cosette, a quem o medo dava audcia, pegou ento outra vez no balde e disse:
     - Ora! Digo-lhe que no havia gua!
     E tornou a entrar resolutamente em Montfermeil. Apenas, porm, andou cem
passos, parou de novo e ps-se a coar a cabea. Agora era a Thenardier que lhe
aparecia; a Thenardier medonha com a sua boca de hiena e a clera a
chamejar-lhe nos olhos. A criana deitou um olhar lamentoso para diante e para
trs. Que fazer? Que expediente tomar? Para que lado caminhar?
     Na sua frente o espectro da Thenardier; por detrs todos os fantasmas da
noite e dos bosques. Recuou, pois, diante da Thenardier. A assustada criana
tornou a tomar o caminho da fonte, deitando a correr. E assim transps as casas
da aldeia e entrou no bosque, sem olhar para coisa nenhuma, sem nada escutar,
cessando apenas de correr quando lhe faltou a respirao, mas no deixando
nunca de andar. Caminhava como se fora um autmato e quase sem a certeza de
que vivia.
     Ao passo, porm, que ia andando, sentia vontade de chorar. Apossava-se dela
o estremecimento nocturno da floresta.
     Nem j pensava, nem via. Aquele entezinho fazia frente a imensidade das
trevas.
     De um lado a sombra toda, do outro um tomo.
     Da extremidade do bosque  fonte havia apenas sete ou oito minutos de
caminho, que Cosette conhecia perfeitamente por o ter passado muitas vezes de
dia.
     Estranha coisa! Aquela criana no se perdeu, e, contudo, no deitava os
olhos nem para a direita nem para a esquerda, com receio de ver alguma coisa nos
ramos das rvores ou na erva que cobria o cho. Conduzia-a vagamente um resto
de instinto: assim chegou  fonte, que era uma espcie de tanque natural, cavado
pela gua num terreno argiloso, de uma profundidade de perto de dois ps,
cercada de musgo e dessas ervas a que pelos seus rendilhados se d o nome de
golinhas de Henrique IV, e forrada com algumas grandes pedras.
     Da fonte deslizava um regatozinho, sussurrando mansamente.
     Cosette nem sequer parou para tomar o flego. Estava escurssima a noite;
porm, acostumada a vir quela fonte, procurou com a mo esquerda na
escurido um carvalho novo que se debruava sobre a nascente e que lhe servia
ordinariamente de ponto de apoio; encontrou um ramo, agarrou-se a ele,
baixou-se e meteu o balde na gua. A emoo daquele momento fora to violenta
que lhe triplicara as foras. Ao curvar-se, porm, no reparou que naquela posio
lhe ficava voltado para baixo o bolso do avental e caiu-lhe na gua a moeda de
quinze soldos. Cosette no a viu, nem a ouviu cair. Tirou para fora o balde quase
cheio e pousou-o em cima da erva.
     Feito isto, conheceu ento que estava extenuada de cansao. Bem quisera
tornar a partir imediatamente, mas fora tal o esforo de encher o balde., que lhe
foi impossvel dar um passo e viu-se obrigada a sentar-se. Deixou-se, pois, cair
sobre a relva e ali ficou acocorada.
     Fechou os olhos, depois tornou a abri-los, sem saber porqu, mas sem poder
esquivar-se a este movimento. Junto dela a gua, agitada no balde, formava
crculos, que pareciam serpentes de fogo branco.
     Por cima da sua cabea mal se divisava o cu coberto de vastas nuvens negras,
que eram como paredes de fumo. Sobre aquela criana parecia inclinar-se
vagamente a mscara trgica das sombras, no meio das quais deslizava Jpiter
radiante.
     A criana olhava desvairada para aquela grande estrela que no conhecia e
que lhe metia medo. Efectivamente, o planeta achava-se naquele momento muito
perto do horizonte e atravessava uma nvoa espessa, que a corava de uma
vermelhido horrvel. A nvoa lugubremente purpureada tornava maior o mbito
do astro. Dir-se-ia uma chaga luminosa.
     Da plancie soprava uma aragem fria. Espessas trevas envolviam o bosque,
onde se no ouvia nenhum rumor de folhas, nem se via um s desses vagos e
frescos clares do estio. Os ramos levantados para o ar pareciam espectros
terrveis. Nas clareiras zunia o vento por entre os silvados defecados e disformes, e
aos assobios das rajadas formigavam como enguias as ervas crescidas, torciam-se
as silvas como compridos braos armados de garras, tentando cravar-se em
alguma presa.
     De espao a espao passavam rapidamente, impelidas pelo vento, algumas
urzes secas, que pareciam fugir assustadas a qualquer coisa que as perseguia. De
todos os lados havia amplides lgubres.
     A escurido causa vertigens. O homem precisa de luz. O que se embrenha no
contrrio do dia sente apertar-se-lhe o corao. Onde os olhos vem negrura, v o
corao perturbao. O eclipse, a noite, a opacidade fuliginosa causa ansiedade,
ainda aos mais fortes. No h ningum que caminhe sozinho de noite por uma
floresta sem tremer. Sombras e rvores so duas serraes temveis. Na
profundeza indistinta afigura-se ao esprito uma realidade quimrica. Debuxa-se o
inconcebvel a alguns passos de vs, com uma limpidez de espectro. Vem-se
flutuar no espao, ou no prprio crebro, umas coisas vagas e impalpveis como
os sonhos das flores adormecidas. Toma atitudes ferozes o horizonte. Aspiram-se
os eflvios da grande e negra amplido do espao. Tem a gente medo e vontade de
olhar para trs. Sente-se indefesa contra as cavidades da noite, contra os objectos
que se tornam medonhos, contra os perfis taciturnos que se dissipam ao
aproximar-se, contra os vultos desgrenhados que se desenham nas trevas, contra
as montanhas irritadas, contra os charcos lvidos, contra o lgubre reflectido no
fnebre, contra a imensidade sepulcral do silncio, contra os seres incgnitos
possveis, contra o misterioso debruar dos ramos, contra o terrvel torcer das
rvores, contra os extensos punhados de ervas que se agitam rumorejando. No h
ousadia que no estremea e que no sinta a aproximao da angstia.
Experimenta-se o que quer que seja de pavoroso, como se a alma se amalga-masse
com a sombra. Esta penetrao das trevas, porm, numa criana 
inexprimivelmente sinistra.
     As florestas so apocalipses e o sacudir de asas de uma alma pequenina
produz um rudo de agonia sob a abbada monstruosa que as cobre.
     Cosette, sem ter conscincia do que experimentava, sentia-se penetrada por
esta grandeza obscura da natureza. No era simplesmente terror o que se apossava
dela; era alguma coisa mais terrvel ainda do que o terror. A rapariguinha
estremecia.
     Falecem-nos as expresses para dizer o que tinha de estranho esse
estremecimento que a gelava at ao fundo do corao. O seu olhar tinha-se
tornado desvairado. Julgava sentir que talvez no pudesse deixar de voltar ali no
outro dia  mesma hora.
     Cosette, ento, por uma espcie de instinto, para sair deste singular estado,
que no compreendia, mas que a aterrava, principiou a contar em voz alta um,
dois, trs, quatro, at dez, e, chegando ao fim, tornou a comear. Restituiu-lhe isto
a verdadeira percepo das coisas que a rodeavam. Sentiu frio nas mos, que havia
molhado ao meter o balde na gua, e levantou-se. Voltara-lhe o medo, mas um
medo natural e invencvel. No lhe ocorreu mais do que um s pensamento fugir;
fugir a toda a pressa pelo meio dos bosques, pelo meio dos campos, at s casas,
at s janelas, at s velas acesas. O seu olhar, porm, fixou-se no balde que tinha
diante de si, e tal era o susto que a Thenardier lhe inspirava, que no se atreveu a
fugir sem o balde. Pegou-lhe, pois, pela asa com as duas mos, custando-lhe a
levant-lo do cho.
     Assim andou uns doze passos, porm o balde estava cheio, era pesado, e a
pobre criana viu-se obrigada a pous-lo no cho outra vez. Respirou um instante,
depois pegou novamente na asa e continuou a caminhar, desta vez por mais
algum tempo.
     Foi-lhe necessrio, porm, tornar a parar, e, aps alguns segundos de
descanso, partiu de novo. Cosette caminhava vergada para diante, com a cabea
curvada como uma velha; o peso do balde distendia e inteiriava-lhe os magros
braos. A asa de ferro acabava de lhe entorpecer e gelar as mozinhas molhadas;
de espao a espao via-se obrigada a parar, e todas as vezes que parava caa-lhe
pelas pernas nuas a gua fria que extravasava do balde. Passava-se isto no fundo
de um bosque, de noite, no Inverno, longe de todas as vistas humanas; era uma
criana de oito anos a que ali estava; s Deus naquela ocasio  que via aquele
triste espectculo.
     E talvez tambm sua me. H coisas que fazem abrir os olhos aos mortos nos
seus tmulos!
     A sua respirao parecia uma espcie de estertor doloroso; os soluos
apertavam-lhe a garganta, mas ela no ousava chorar, tal era o medo que tinha da
Thenardier, mesmo na sua ausncia. Era sempre o seu costume afigurar-se que
estava na presena de Thenardier.
     Cosette, porm, daquele modo no podia andar muito, e por isso ia
vagarosamente. Debalde diminua a durao das estaes, caminhando entre uma
e outra o maior espao de tempo que podia; lembrava-se com angstia que levaria
mais de uma hora a chegar assim a Montfermeil, e que a Thenardier, portanto, lhe
bateria, e esta angstia misturava-se com o susto de se ver sozinha de noite no
meio do bosque. A pobre Cosette estava extenuada de cansao e ainda no tinha
sado da floresta.
     Chegada ao p de um velho castanheiro que conhecia, fez uma ltima
paragem, mais demorada que as outras, para se refazer bem de foras, e depois
reuniu quantas tinha, tornou a pegar no balde e ps-se de novo a caminho
corajosamente. A pobre criana, porm, no pde sufocar tanto a sua angstia que
no exclamasse:
     - Oh, meu Deus! Meu Deus!
     Neste momento, Cosette sentiu que o balde j no lhe pesava, pois acabava de
o agarrar pela asa, levantando-o vigorosamente, uma mo que lhe pareceu
enorme.
     A criana levantou a cabea e viu caminhando ao lado dela, na escurido, um
vulto negro direito e de p. Era um homem que viera por trs, mas que a criana
no sentiu vir, e que, sem lhe dirigir uma palavra, travara da asa do balde que ela
levava.
     H instintos para todos os encontros da vida.
     A criana no se assustou.



    VI
    O que prova talvez a inteligncia de Boulatruelle



    Na tarde daquele mesmo dia de Natal de 1823, um homem passeou durante
muito tempo na parte mais deserta do boulevard do Hospital, em Paris. Este
homem tinha o ar de quem procura um alojamento e parecia parar de preferncia
em frente das casas mais modestas, situadas na extremidade arruinada do
arrabalde Saint-Marceau.
     Mais adiante se ver que este homem tinha, efectivamente, alugado um
quarto neste bairro isolado.
     O homem de quem nos ocupamos, tanto no seu vesturio como em toda a
sua pessoa, realizava o tipo do que pode chamar-se o mendigo de boa feio; a
extrema misria combinada com a extrema limpeza.  uma mistura bastante rara,
que inspira aos coraes inteligentes esse duplo respeito pelo que  pobre e ao
mesmo tempo digno. Este homem trazia um chapu redondo muito velho e sem
plo, um casaco de pano cor de ocre, cor que nada tinha de extravagante naquele
tempo, to rapado que se lhe via o fio, um grande colete com bolsos de forma
secular, cales que de negros se tornaram russos, meias de l pretas e sapatos
grossos com fivelas de cobre. Dir-se-ia um antigo preceptor de alguma casa nobre,
de volta de emigrao. Os cabelos completamente brancos, a fronte enrugada, os
lbios lvidos, o acabrunhamento e o cansao da vida que respirava todo o seu
rosto, faziam supor que tinha muito mais de sessenta anos. Ao ver-lhe, porm, a
firmeza do andar, ainda que vagaroso, ao ver o vigor singular de todos os seus
movimentos, dar-se-lhe-iam apenas cinquenta. As rugas da fronte estavam bem
colocadas e teriam prevenido em seu favor quem o observasse com ateno. Os
lbios contraam-se-lhe com uma estranha ruga, que parecia severa e que era
humilde. No fundo do seu olhar havia certa serenidade lgubre. Na mo esquerda
trazia um embrulho escuro atado num leno e com a direita apoiava-se numa
espcie de cajado cortado numa sebe. Este cajado havia sido trabalhado com
algum cuidado e no tinha muito mau aspecto; o artfice que o fizera tirara
partido dos ns, coroando-o com um casto de lacre vermelho, a fingir coral: era
um cajado, mas parecia uma bengala.
      pequeno o trnsito naquele passeio, mormente de Inverno; contudo, o
homem cujo retrato fizemos, mais parecia evitar, bem que sem afectao, do que
procurar os poucos transeuntes que por ali passavam.
     Naquela poca ia o rei Lus XVIII quase todos os dias a Choisy-le-Roi. Era um
dos seus passeios favoritos. As duas horas, quase invariavelmente, via-se passar a
toda a brida pelo boulevard do Hospital a carruagem e a cavalgada real.
     Isto servia de relgio aos pobres do stio, que diziam: So duas horas. A vai
o rei outra vez para as Tulherias.
     E corriam uns e perfilavam-se os outros, porque a passagem de um rei 
sempre um tumulto. com efeito, o aparecimento e desaparecimento de Lus XVIII,
produzia certo efeito nas ruas de Paris. Era uma coisa rpida, mas majestosa.
Aquele rei impotente e estropiado gostava de galopar; como no podia andar,
queria correr, e de bom grado se deixaria arrastar pelo relmpago. Passava severo
e pacfico pelo meio dos sabres desembainhados, na sua berlinda macia, toda
dourada e com grandes ramos de lis pintados nas portinholas. Mal havia tempo de
deitar um rpido olhar para aquele veculo rodando com estrondo. No ngulo do
fundo,  direita, sobre almofadas acolchoadas de cetim branco, via-se uma cara
larga, firme e vermelha, uma fronte viosa empoada  ave real, uns olhos cheios de
altivez, dureza e finura, um sorriso de letrado, duas grandes dragonas de cordes
de retrs, flutuando por cima de uma casaca burguesa, o Toso de Ouro, a cruz de
S. Lus, a cruz da Legio de Honra, a chapa de prata do Esprito Santo, uma
grande barriga e um largo cordo azul; era o rei.
     Fora de Paris conservava o seu chapu de plumas sobre os joelhos, cobertos
de altas polainas inglesas; ao entrar, porm, na cidade, punha-o na cabea,
cumprimentando pouco. Lus XVIII olhava com frieza para o povo, que lhe
pagava na mesma moeda.
     Quando ele apareceu a primeira vez no bairro de Saint-Marceau, consistiu
todo o seu sucesso nesta frase dirigida por um morador do stio a um seu vizinho:
Aquele gordo que ali vai  que  o governo. Esta infalvel passagem do rei 
mesma hora era, pois, o sucesso quotidiano do boulevard do Hospital.
     Evidentemente, o passeante de casaco amarelo no era do bairro, nem talvez
de Paris, pois ignorava esta circunstncia. Quando s duas horas, depois de ter
dobrado a Salptrire, desembocou no boulevard a carruagem real, cercada por
um esquadro de guardas do corpo, agaloados de prata, aquele homem pareceu
ficar maravilhado e quase aterrado. Apenas ele se achava na lea lateral;
perfilou-se, pois, com ligeireza por trs de uma esquina da parede de
circunvalao, o que no obstou a que o duque de Havre o visse, o qual, como
capito dos guardas de servio naquele dia, estava sentado na carruagem defronte
do rei.
     - Est ali um homem - disse ele a Sua Majestade que no tem l muito boa
cara.
     Alguns agentes de polcia que abriam passagem ao rei, fizeram igualmente
reparo nele e um deles recebeu ordem para o seguir, O homem, porm,
embrenhou-se pelos becos solitrios daquele stio, e, como principiava a declinar
o dia, o agente perdeu-lhe o rasto, como o prova um relatrio dirigido nessa
mesma noite ao conde de Angles, ministro de Estado, que era ento o prefeito da
polcia.
     Apenas o agente perdeu de vista o homem do casaco amarelo, este apressou
o passo, no sem se virar muitas vezes para trs para se assegurar se era seguido.
s quatro horas e um quarto, isto , ao cair da noite, passava em frente do teatro
da porta de S. Martin onde nesse dia se representavam Os dois forados.
     Impressionou-o o cartaz, iluminado pelos lampies do teatro, pois, posto que
caminhasse depressa, parou para o ler. Um instante depois, estava no beco de La
Planchette e entrava no Prato de estanho, onde ficava o escritrio da diligncia de
Lagny, que partia s quatro horas e meia da tarde. Quando ele chegou j os cavalos
estavam atrelados e os viajantes, chamados pelo cocheiro, trepavam a toda a
pressa a escada de ferro que dava serventia para os assentos.
     - H algum lugar vago? - perguntou o homem - H um nico, aqui ao meu
lado, neste assento. - disse o cocheiro.
     - Desejo ocup-lo.
     - Suba.
     O cocheiro, porm, antes de partir, deitou um olhar para o medocre
vesturio do viajante e para a pequenez do seu embrulho e exigiu o dinheiro
adiantado.
     - Vai at Lagny?
     - Vou disse o homem.
     O viajante pagou, portanto, at Lagny e a diligncia partiu.
     Passada a barreira, o cocheiro tentou travar conversa com o viajante, mas
como este apenas respondia por monosslabos, o cocheiro tomou o expediente de
assobiar e praguejar aos cavalos e embuar-se no seu capote por causa do frio que
fazia. Parecia, porm, que o viajante nem de tal coisa se lembrava. Assim se passou
Guarnay e Neuilly-sur-Marne.
     Por volta das seis horas da tarde estava a diligncia em Chelles. O cocheiro
parou, para deixar resfolegar os cavalos,  porta da estalagem de carreteiros
instalada nos antigos edifcios da abadia real.
     - Eu deso aqui - disse o homem.
     Pegou no embrulho e na bengala e saltou abaixo da diligncia.
     Da a um instante havia desaparecido, mas no tinha entrado para a
estalagem.
     Quando ao cabo de alguns minutos a diligncia seguiu para Lagny, no o
encontrou na estrada real de Chelles. O cocheiro voltou-se ento para os viajantes
de dentro e disse:
     - Este homem no  daqui, eu no o conheo. A julgar pela figura, parece um
pobreto, mas no tem amor ao dinheiro; paga para Lagny e no vem seno at
     Chelles.  noite, as casas esto todas fechadas, ele no entrou para a estalagem
nem o tornmos a encontrar na estrada; o diabo do homem meteu-se, decerto,
pela terra dentro!
     O homem no se tinha metidopela terra dentro, mas tinha percorrido
velozmente no meio da escurido a estrada que atravessava Chelles, e depois
tomara  esquerda, antes de chegar  igreja, o caminho vicinal que conduz a
Montfermeil, como quem j conhecia a terra e tinha ido a ela.
     Seguiu, pois, este caminho rapidamente, e, como no stio onde ele  cortado
pela antiga estrada orlada de rvores que vai de Gagny para Lagny ouvisse passos
que se aproximavam, escondeu-se precipitadamente num valado  espera que se
afastassem as pessoas que iam a passar. A precauo era alis quase suprflua,
pois, como j dissemos, fazia uma escurssima noite de Dezembro. Apenas no cu
se viam duas ou trs estrelas.
      naquele lugar que comea a encosta da montanha. O homem no se meteu
no caminho de Montfermeil; tomou  direita, pelo meio dos campos, e principiou
a caminhar com ligeireza na direco do bosque.
     Chegado ali, afrouxou o passo e ps-se a olhar com cuidado para todas as
rvores, avanando passo a passo como se procurasse e seguisse um caminho
misterioso s dele conhecido. Em certa ocasio pareceu que se perdera, a julgar
pelo modo como parou indeciso. Por fim, de apalpadela em apalpadela, chegou a
uma clareira, onde havia um monto de grandes pedras esbranquiadas, e, depois
de se dirigir com presteza para elas, examinou-as com ateno por entre a neblina
da noite, como se as quisesse passar em revista. Depois foi direito a uma rvore
coberta dessas excrescncias que so as verrugas dos vegetais, que estava a alguns
passos dele, e correu-lhe a mo pela casca do tronco, como se pretendesse
conhecer e contar todas as verrugas.
     Defronte desta rvore, que era um freixo, havia um castanheiro com um
bocado descascado, o qual por aparelho desta ferida tinha pregada uma faixa de
zinco, que o homem tocou, depois de se pr em bicos de ps.
     Em seguida ps-se a bater com o p no cho durante algum tempo, no espao
compreendido entre a rvore e as pedras, como que assegurando-se se a terra no
teria sido movida de fresco.
     Feito isto, orientou-se e tornou a seguir o seu caminho pelo meio do bosque.
     Era este o homem que acabava de se encontrar com Cosette.
     Ao caminhar por entre o mato em direco a Montfermeil, avistara aquela
sombra pequenina que se movia com um gemido, que pousava um objecto pesado
no cho, e que depois tornava a pegar nele e continuava o seu caminho.
     Aproximara-se, pois, e reconhecera que era uma tenra criancinha carregada
com um enorme balde de gua e encaminhando-se para ela pegou
silenciosamente na asa do balde.



    VII
    Cosette no meio da escurido ao lado dum desconhecido



    Como j dissemos, Cosette no se assustara.
    O homem dirigiu-lhe a palavra: falava com voz grave e quase baixa:
    - Minha filha, o que a levas  pesado de mais para ti.
    Cosette ergueu a cabea e respondeu:
    - Isso , meu senhor.
    - D-mo c ento - tornou o homem - que eu levo-o.
    Cosette largou o balde e o homem principiou a caminhar ao lado dela.
    - Com efeito,  muito pesado! - disse ele por entre dentes, e depois
acrescentou: - Que idade tens tu, pequena?
    - Oito anos, meu senhor.
    - E vens assim de muito longe?
    - Ali da fonte do bosque.
    - E  muito distante o lugar para onde vais?
    - A um bom quarto de hora daqui.
    O homem esteve um momento sem falar e depois disse precipitadamente:
    - Ento tu no tens me?
    - No sei - respondeu a criana.
    E acrescentou antes do homem ter tempo de retomar a palavra:
    - Julgo que no. As outras tm, mas eu no.
    Aps uma pausa, continuou:
    - Eu julgo que nunca a tive.
    O homem parou, pousou o balde no cho, baixou-se e ps as mos nos
ombros da criana, forcejando por a examinar e ver-lhe o rosto no meio da
escurido.
     Ao lvido claro do cu desenhava-se vagamente a figura magra e doente de
Cosette.
     - Como te chamas? - disse o homem.
     - Cosette.
     O homem teve como que um choque elctrico. Contemplou-a outra vez, tirou
as mos de cima dos ombros de Cosette, pegou no balde e continuou a caminhar.
     Ao cabo de um instante, perguntou:
     - Onde moras tu, pequena?
     - Em Montfermeil, no sei se o senhor sabe onde .
     - E  para l que ns vamos?
     - , sim, senhor.
     O homem fez ainda outra pausa e depois continuou:
     - Quem foi que te mandou  gua ao bosque a semelhante hora?
     - Foi a senhora Thenardier.
     O homem replicou com um tom de voz que forcejava por tornar indiferente,
mas em que, no obstante, havia um tremor singular:
     - Quem  essa senhora Thenardier?
     -  a minha patroa - disse a criana -, a dona da estalagem.
     - Da estalagem? - disse o homem. - Ento vou l pernoitar hoje. Ensina-me o
caminho.
     - Ns para l vamos - disse a criana.
     O homem caminhava bastante depressa, Cosette, porm, seguia-o sem custo e
sem sentir cansao. De espao a espao levantava os olhos para este homem com
uma espcie de tranquilidade e abandono inexprimvel. Nunca ningum a
ensinara a voltar-se para a Providncia e a orar, porm ela sentia em si o que quer
que fosse que se parecia com a esperana e com a alegria, e que se dirigia para o
cu.
     Decorridos alguns minutos, o homem tornou:
     - Ento a senhora Thenardier no tem criada?
     - No, senhor.
     - Ento s tu s?
     - Sou, sim, senhor.
     Houve ainda outra interrupo, depois da qual Cosette elevou a voz:
     - Isto , l em casa h duas meninas.
     - Que meninas so essas?
     - Ponina e Zelma.
     Era assim que a criana simplificava estes romanescos nomes to caros 
estalajadeira.
     - Que vem a ser isso de Ponina e Zelma?
     - So as filhas da senhora Thenardier.
     - E que fazem elas?
     - Oh! - disse a criana. - Tm lindas bonecas, coisas de ouro, nem sabem para
onde se ho-de voltar! Jogam, brincam, fazem o que querem.
     - Todo o dia?
     - Sim, senhor.
     - E tu?
     - Eu c trabalho.
     - Todo o dia?
     A criana ergueu os seus grandes olhos, nos quais havia uma lgrima, que por
causa da escurido no se via e respondeu com doura:
     - Sim, meu senhor.
     E, aps um intervalo de silncio, prosseguiu:
     - s vezes tambm brinco, quando acabo o servio e me deixam.
     - E com que brincas?
     - Com o que posso. Ningum se importa. Mas eu no tenho muitos
brinquedos, e Ponina e Zelma no querem que eu brinque com as bonecas delas.
No tenho seno uma espadita de chumbo, que no  maior do que isto.
     E a criana mostrava o dedo mnimo.
     - E que no corta?
     - Ai, corta, sim, senhor; corta salada e cabeas de moscas.
     Nisto chegaram  aldeia e Cosette guiou o viajante pelas ruas. Passaram pela
padaria, porm, Cosette no se lembrou de que lhe tinham mandado levar um
po. O homem havia cessado de fazer-lhe perguntas e guardava um silncio triste.
Depois que passaram a igreja, o homem, vendo todas aquelas barracas ao ar livre,
perguntou a Cosette:
     - Isto aqui  alguma feira?
     - No, senhor,  o Natal.
     Ao aproximarem-se da estalagem, Cosette disse-lhe, tocando-lhe o brao
timidamente:
     -  senhor... - Que , minha filha?
     - Estamos ao p de casa.
     - E ento?
    - Faz favor de me dar agora o balde?
    - Porqu?
    -  porque, se a patroa v que no fui eu que o trouxe, bate-me.
    O homem deu-lhe o balde e um instante depois estavam  porta da taberna.



    VIII
    Desgosto de recolher em casa um pobre que  talvez rico



     Cosette no pde deixar, de olhar para a grande boneca ainda garbosamente
exposta na loja do quinquilheiro, aps o que bateu  porta. Esta abriu-se e
apareceu a Thenardier com uma vela na mo.
     - Ah, s tu, minha sonsa! Ora graas a Deus, custou-te! A sonsa ps-se por l
a brincar, decerto!
     - Senhora - disse Cosette, tremendo - est aqui um senhor que quer c ficar.
     A Thenardier substituiu logo o seu gesto de enfado pela sua careta amvel,
mudana visvel particular aos estalajadeiros, e procurou avidamente com os
olhos o recm-chegado.
     -  o senhor? - perguntou ela.
     - Sim, senhora - respondeu o homem, levando a mo ao chapu.
     No so to polidos os viajantes ricos. Este gesto e a inspeco do vesturio e
da bagagem do novo hspede, que a Thenardier passou em revista num relancear
de olhos, fizeram desvanecer a careta amvel e reaparecer o aspecto carrancudo. A
estalajadeira disse secamente:
     - Entre, bom homem.
     O bom homem entrou. A Thenardier deitou-lhe segundo relancear de
olhos, examinou com particularidade o seu casaco, que no tinha plo
absolutamente nenhum, e o chapu, que estava alguma coisa amassado, e
consultou com um abanar de cabea, com um franzir de nariz e um piscar de
olhos, o marido que continuava a beber com os carreteiros. O marido respondeu
por essa imperceptvel agitao do ndex, que apoiada pelo estender dos beios,
significava em tal caso: misria completa. Em virtude disto, a Thenardier
exclamou:
     - Ai,  verdade, honrado homem! Sinto muito, mas j no tenho lugar.
     - Seja onde for - disse o homem - no alpendre ou na cavalaria. Pagarei como
se dormisse num quarto.
     - Quarenta soldos.
     - Seja por quarenta soldos.
     - Pois ento est servido.
     - Quarenta soldos! - disse um carreteiro em voz baixa  Thenardier - o
costume so s vinte.
     - Mas para ele so quarenta - replicou a Thenardier no mesmo tom. - No
dou hospedagem a pobres por menos.
     -  verdade - acrescentou o marido tambm em voz baixa - no acredita nada
uma casa receber desta casta de gente.
     Neste meio tempo tinha-se o homem, depois de haver deixado em cima de
um banco o embrulho e o cajado, sentado a uma mesa, na qual Cosette pusera
com presteza uma garrafa de vinho e um copo. O homem que pedira o balde de
gua fora lev-lo ao cavalo. Quanto a Cosette tornara a pegar na meia e fora para o
seu lugar debaixo da mesa.
     O homem, que havia apenas molhado os lbios no copo de vinho que
despejara da garrafa, contemplava a criana com estranha ateno.
     Cosette era feia. Feliz, talvez tivesse sido bonita. Ns j esbomos esta
figura-zinha escura. Cosette tinha perto de oito anos. Ao ver, porm, a sua palidez
e magreza, dar-se-lhe-iam apenas seis. A fora de chorar tinha-se-lhe quase que
extinto o brilho dos seus grandes olhos, envoltos numa espcie de sombra. Nos
cantos da boca tinha essa curva de angstia habitual que se observa nos
sentenciados e nos doentes sem esperana de cura. As mos dela estavam como o
adivinhara sua me, comidas de frieiras. O claro da fogueira, que naquela
ocasio a iluminava, fazia-lhe sobressair os ngulos dos ossos., tornando
terrivelmente visvel a sua magreza. Como andava sempre a tiritar com frio,
contrara o hbito de apertar os joelhos um contra o outro. O seu vesturio era
todo um farrapo, que de Vero faria lstima e no Inverno causava horror. A pobre
criana no trazia sobre o corpo seno um pano esburacado; nem um nico trapo
de l.
     Aqui e alm via-se-lhe a pele e distinguiam-se-lhe por toda a parte umas
manchas azuis ou negras que indicavam os stios em que a Thenardier a havia
espancado.
     As suas delgadas perninhas andavam de contnuo expostas ao frio, o que as
tornava excessivamente vermelhas. A cavidade que se lhe formava nas clavculas
fazia chorar.
     O seu andar, a sua atitude, o som da sua voz, os seus intervalos entre uma e
outra palavra, o seu olhar, o seu silncio, o seu menor gesto, toda a sua pessoa,
enfim, exprimia e traduzia uma s ideia: o receio.
     O receio estava espalhado por ela toda; ela estava, para assim dizer, coberta
dele; o receio ligava-lhe os cotovelos aos quadris, escondia-lhe os calcanhares
debaixo das saias, fazia-lhe ocupar o menor espao possvel, deixava-lhe apenas
tomar a respirao necessria, e tornara-se-lhe o que se podia chamar o hbito do
seu corpo, sem variao possvel, seno para aumentar. No fundo das pupilas dos
seus olhos havia um espao espantado, onde existia o terror.
     Era tal o receio, que Cosette, ao chegar, apesar de toda molhada como estava,
no ousara ir enxugar-se ao lume, pondo-se de novo silenciosamente a trabalhar.
     A expresso do olhar daquela criana de oito anos era habitualmente to
triste e s vezes to trgica, que em certas ocasies parecia que ela estava prxima
a tornar-se uma idiota ou um demnio.
     Cosette jamais soubera o que era rezar, jamais pusera o p numa igreja:
     - Eu tenho l tempo para essas coisas? - dizia a Thenardier.
     O homem do casaco amarelo no despegava os olhos de Cosette.
     De sbito, a Thenardier exclamou:
     -  verdade! E o po?
     Cosette, segundo o costume, todas as vezes que a Thenardier elevava a voz,
saa apressadamente de debaixo da mesa.
     A infeliz criana esquecera-se completamente do po. Recorreu, portanto, ao
expediente das crianas a quem nunca larga o medo: mentiu.
     - Senhora, o padeiro estava fechado.
     - Batesses.
     - Eu bati, senhora.
     - E ento?
     - Ningum veio abrir.
     - Amanh hei-de saber se isso  verdade - disse a Thenardier - e, se mentiste,
conta que te farei danar! Mas d c os quinze soldos que te dei para o trazeres.
     Cosette meteu a mo na algibeira do seu avental e tornou-se verde. A moeda
de quinze soldos no estava l.
     - Ento? - tornou a Thenardier. - Ouviste o que eu te disse?
     Cosette virou a algibeira, mas esta nada tinha. De que modo teria
desaparecido aquele dinheiro? A infeliz criana no achou uma palavra. Estava
petrificada.
     - Querem vocs ver que os perdeu? - grunhiu a Thenardier. - Ou querers tu
roubar-mos?
     E ao mesmo tempo estendeu o brao para a palmatria pendurada ao p da
chamin.
     Este gesto temvel deu a Cosette fora para gritar:
     - Perdo, senhora! Senhora, eu no torno a fazer outra!
     A Thenardier, porm, tirou a palmatria.
     Neste momento o homem do casaco amarelo metera a mo no bolso do
colete sem que ningum reparasse neste movimento, pois que os outros viajantes
bebiam ou jogavam sem prestar ateno a mais nada.
     Cosette enovelava-se com angstia ao canto da chamin, procurando juntar e
esquivar os pobres membros meio nus ao castigo terrvel que a ameaava.
     - Perdo, senhora - disse o homem ao ver a Thenardier erguer o brao - h
pouco vi cair do bolso do avental dessa pequena, no sei o qu para o cho, e o
que foi rolou.
     Talvez seja isso.
     Ao mesmo tempo baixou-se e pareceu procurar no cho um instante.
     - Justamente, c est - tornou ele, erguendo-se.
     E estendeu a mo para a Thenardier com uma moeda de prata.
     -  verdade,  isso - disse ela.
     No era aquilo, pois era uma moeda de vinte soldos, e a que ela dera a Cosette
era de quinze. A Thenardier, porm, que lucrava, meteu o dinheiro na algibeira e
limitou-se a lanar um olhar feroz  pobre criana, dizendo:
     - Ora, no te torne a acontecer outra!
     Cosette recolheu-se ao que a Thenardier chamava o nicho dela e os seus
grandes olhos fixos no viajante desconhecido principiaram a tomar uma
expresso que nunca dantes tiveram. No era ainda mais do que um espanto
ingnuo, porm de envolta com uma espcie de confiana estupefacta.
     -  verdade, voc quer cear? - perguntou a Thenardier ao viajante.
     Este, porm, no respondeu. Parecia abismado numa meditao profunda.
     - Que diabo de homem ser este? - murmurou ela por entre dentes. -  algum
pobreto, que no tem um real de seu para cear. Pagar-me- ele ao menos a
noitada?
     Assim mesmo, foi uma fortuna no lhe ocorrera lembrana de pegar no
dinheiro que estava no cho e guard-lo.
     A este tempo abriu-se uma porta e Eponina e Azelma entraram.
     Eram, realmente, duas lindas rapariguinhas, mais burguesas do que
camponesas, sobremodo engraadas, uma com as suas tranas cor de castanha
muito luzidias, a outra com os seus compridos cabelos negros deitados pelas
costas abaixo, ambas vivas, asseadas, gordas, frescas e sadias, que era um gosto
v-las. Vestiam roupas de agasa-lho, porm com tal arte maternal, que a grossura
das fazendas nada tirava  garridice do vesturio. Provera-se s exigncias do
Inverno, sem desflorar as graas da Primavera. Parecia que irradiavam luz aquelas
duas crianas. Alm disto tinham maneiras de rainhas. No seu vesturio, na sua
alegria, no barulho que faziam havia certo aspecto de soberania.
     Quando elas entraram, a Thenardier disse, num tom de quem ralha, mas que
era cheio de meiguice:
     - A vm vocs agora!
     Depois exclamou, puxando-as para os joelhos uma aps outra, alisando-lhes
os cabelos, atando-lhes as tranas e largando-as em seguida com essa maneira
doce de sacudir prpria das mes:
     - Olhem, tm o fato todo amarrotado.
     As duas crianas foram sentar-se ao p do lume dando mil voltas a uma
boneca que tinham no regao e acompanhando o seu infantil folguedo com toda a
espcie de alegres gorjeios. De vez em quando, Cosette levantava os olhos da meia
em que trabalhava e punha-se a v-las brincar com ar lgubre. Porm, Eponina e
Azelma no olhavam para Cosette, a quem consideravam como um co. Aquelas
trs crianas no tinham vinte e quatro anos entre todas e j representavam toda a
sociedade humana: de uma parte a inveja, da outra o desdm.
     A boneca com que as filhas da estalajadeira brincavam, apesar de velha e
quebrada, nem por isso parecia menos admirvel a Cosette, que nunca na sua vida
tivera uma boneca, uma verdadeira boneca, para nos servirmos de uma expresso
que todas as crianas compreendero.
     De repente, a Thenardier, que continuava a passear pela casa de um lado para
o outro, deu f de que Cosette estava distrada e que em vez de trabalhar se
ocupava a olhar como as pequenas brincavam.
     - Ah, espera que eu j te digo! - gritou ela.  Eu quero saber se assim  que se
trabalha! Deixa que eu vou fazer-te trabalhar com a palmatria.
     O desconhecido voltou-se ento para a Thenardier, sem se levantar da
cadeira, e disse-lhe, sorrindo, quase com ar de receio:
     - Ora adeus, senhora, deixe-a tambm brincar!
     Da parte de qualquer hspede, que tivesse ceado convenientemente e bebesse
duas garrafas de vinho e que no tivesse o aspecto de um mendigo, seria uma
ordem a manifestao de semelhante desejo. Mas que um homem com
semelhante chapu tivesse a ousadia de ter um desejo, que um semelhante casaco
tivesse a ousadia de ter uma vontade, era o que a Thenardier julgava no dever
tolerar, e por isso replicou com azedume:
     - J que come, que trabalhe. Eu no a tenho em casa para ela estar com as
mos debaixo dos braos.
     - Mas que  que ela faz? - tornou o recm-chegado com uma voz doce, que
to estranhamente contrastava com os seus trajes de mendigo e com os seus
ombros de moo de fretes.
     A Thenardier dignou-se responder:
     - Faz meia para minhas filhas, que esto sem elas, quase, e que no tardaro a
andar descalas.
     O homem olhou para os pobres ps vermelhos de Cosette e continuou:
     - Quanto tempo levar ela a fazer aquele par de meias?
     - Da maneira como  preguiosa, ainda tem para trs ou quatro dias puxados.
     - E quanto valero depois de feitas?
     A Thenardier deitou-lhe um olhar desdenhoso.
     - Trinta soldos pelo menos.
     - Quer a senhora d-las por cinco francos?  tornou o homem.
     - Caramba! - exclamou com um sorriso alvar um carreteiro que escutava a
conversa. - Cinco francos? Repare bem! Olhe que so cinco rodinhas!... O
estalajadeiro julgou do seu dever tomar a palavra.
     - Pois no, senhor; se tem esse desejo, do-se-lhe as meias pelos cinco francos.
     Ns c nosabemos recusar nada aos viajantes.
     - Mas  no caso de pagar j - disse a mulher com o seu modo breve e
perem-ptrio.
     - Fico com as meias - respondeu o homem, e acrescentou, tirando do bolso
uma moeda de cinco francos que ps em cima da mesa - e pago-as j.
     Em seguida voltou-se para Cosette:
     - Brinca, minha filha, que o teu trabalho agora pertence-me.
     Aquela moeda de cinco francos impressionou tanto o carreteiro, que este
largou o copo e veio ver a correr.
     - E  verdade! - gritou ele, examinando-a.  Uma verdadeira roda traseira! E
no  das falsas!
     O Thenardier aproximou-se ento e meteu silenciosamente a moeda de cinco
francos na algibeira.
     Aquilo no tinha a mulher que replicar. Apenas mordeu os beios,
tomando-lhe o rosto uma expresso de dio.
     Cosette, porm, tremia, e aventurou-se a perguntar:
     - Senhora,  verdade? Eu posso brincar?
     - Brinca! - disse-lhe a Thenardier com uma voz terrvel.
     - Muito obrigada - disse Cosette.
     E enquanto com a boca agradecia  Thenardier, agradecia com o seu
corao-zinho ao viajante.
     O estalajadeiro foi pr-se outra vez a beber e amulher disse-lhe ao ouvido:
     - Quem ser este homem de amarelo?
     - Tenho visto milionrios com casaces assim - respondeu ele com gesto
soberano.
     Cosette pousou a meia e, sem sair do seu lugar, pois a pobre criana bulia-se o
menos que lhe era possvel, tirou de uma caixa que lhe ficava por trs, alguns
farrapos velhos e a sua espadazinha de chumbo.
     Eponina e Azelma no prestavam ateno nenhuma ao que se passava.
Acabavam de executar uma operao importante; tinham agarrado o gato sem
lhes importar a boneca, que atiraram ao cho, e Eponina, a mais velha,
enfaixava-o, apesar das suas contores e dos seus estrdulos miaus, com uma
infinidade de panos e farrapos vermelhos e azuis. Ao mesmo tempo, porm, que
se ocupava neste grave e difcil trabalho, dizia sua irm nessa doce e adorvel
linguagem infantil, cuja graa desaparece quando a pretendem fixar, semelhante
ao esplendor das asas das borboletas:
     - Olha, Zelma, vs como esta boneca  mais divertida do que a outra? Olha
como ela grita, como est quente e desinquieta. Brinquemos, sim? Eu sou uma
senhora, e depois isto h-de ser a minha filha, e eu hei-de vir visitar-te e tu pes-te
a examin-la.
     Pois sim? Tu depois comeas a ver-lhe pouco a pouco as barbas e ficas muito
admirada; depois as orelhas e o rabo, e cada vez te espanta isto mais. E hs-de
dizer-me: Ai, meu Deus! e eu digo-te: Sim, minha senhora, aqui lhe trago a
minha menina. Agora as meninas usam-se assim.
     Azelma escutava Eponina com admirao.
     Ao mesmo tempo, porm, que entre as duas crianas tinha lugar esta cena, os
fregueses da taberna puseram-se a cantar uma cantiga obscena que os fazia rir to
estrondosamente, que parecia que tremia o tecto.
     O estalajadeiro animava-os e acompanhava-os na ruidosa manifestao da
sua alegria.
     Do mesmo modo que as aves. com qualquer coisa fazem um ninho, assim as
crianas de qualquer coisa arranjam uma boneca. Enquanto Eponina e Azelma
enfaixavam o gato, Cosette, pela sua parte, enfaixara a espada. Feito isto, deitou-a
nos braos e ps-se a embal-la neles, cantando para a fazer adormecer.
     A boneca  uma das mais imperiosas necessidades e juntamente um dos mais
engraados instintos da infncia feminina. Preparar, enfeitar, vestir, despir, tornar
a vestir, ensinar, ralhar, embalar, afagar, adormecer, figurar de qualquer coisa uma
pessoa, todo o futuro da mulher consiste nisto. A cismar e a tagarelar, a fazer
enxo-vaizinhos e vestidinhos, corpinhos e roupezinhos, a criana torna-se
adolescente, a adolescente donzela, e a donzela mulher. A primeira criana
continua a ltima boneca.
     Uma criana sem boneca  quase to infeliz e to completamente impossvel
como uma mulher sem filhos.
     Cosette, pois, tinha feito da espada uma boneca.
     Quanto  Thenardier, chegara-se para o p do homem de amarelo e dizia
consigo: Meu marido tem razo, talvez este homem seja Laffite. H ricos to
pantomineiros! E aps isto foi encostar-se  mesa a que ele estava sentado.
     - Senhor... - disse ela.
     A esta palavra senhor, o homem voltou-se, pois, a Thenardier ainda o no
havia tratado seno por honrado homem, ou bom homem.
     - Olhe, senhor - prosseguiu ela, tomando o seu ar adocicado, que ainda era
mais desagradvel  vista do que o seu gesto feroz - eu no levo a mal que a
pequena brinque, nem me oponho a isso, mas  por esta vez s, porque o senhor 
generoso. Ela no tem nada de seu, portanto precisa de trabalhar.
     - Visto isto, no  sua a pequena?  perguntou o homem.
     - Oh, meu Deus! No, senhor!  uma pobrezita que ns recolhemos assim
por caridade. Uma espcie de tolinha; aquilo tem gua na cabea por fora; o
senhor bem v como ela tem a cabea grande. No somos ricos, mas, enfim,
fazemos-lhe o bem que podemos. Por mais que tenhamos escrito para a terra dela,
vai h seis meses que no nos respondem. Enquanto a mim,  porque a me
morreu.
     - Ah! - disse o homem, recaindo na sua meditao.
     - Tambm fraca me era - acrescentou a Thenardier - uma me que no quer
saber da filha!... Durante toda esta conversao, Cosette, como se um instinto a
avisasse de que falavam dela, no despregava os olhos da Thenardier, escutando,
porm, ouvindo apenas vagamente aqui e ali algumas palavras.
     No entanto, repetiam os bebedores, j quase a cair de bbados, a sua imunda
cantiga com maior alegria. Era um agregado de faccias infames, em que figurava
a Virgem e o Menino Jesus, de envolta com as maiores desonestidades. A
Thenardier fora tomar parte na alegria dos comensais, que se manifestava por
estrondosas gargalhadas. Cosette olhava debaixo da mesa para a fogueira, cujo
claro se lhe reverberava nos olhos fixos e pusera-se de novo a embalar a
trouxazinha que fizera, cantando em voz baixa, ao passo que a embalava: Minha
me j morreu! Minha me j morreu!
     Minha me j morreu!
     Em virtude de novas insistncias da estalajadeira, o homem de amarelo, o
milionrio, anuiu, enfim, a cear.
     - Que h-de querer o senhor?
     - Po e queijo - respondeu o homem.
     Decididamente  um farroupilha, disse consigo a Thenardier.
     Os bbados continuavam a cantar a sua obscena cantiga e Cosette debaixo da
mesa continuava tambm a sua.
     De repente, Cosette interrompeu-se. Acabara de se voltar e avistar a boneca
das filhas da estalajadeira, a qual haviam deixado pelo gato e atirado ao cho a
alguns passos da mesa da cozinha.
     A criana deixou ento cair a espada feita boneca que mal preenchia o seu fim
e circunvagou a vista por toda a casa. A Thenardier falava baixo ao marido e
contava dinheiro; Ponina e Zelma brincavam com o gato; os viajantes comiam ou
bebiam ou cantavam; ningum a via, ningum fixava os seus olhares sobre ela.
No havia, pois, um momento a perder. Saiu de debaixo da mesa, arrastando-se
nos joelhos e nas mos, certificou-se outra vez de que a no observavam e em
seguida dirigiu-se com ligeireza para a boneca e pegou nela. Da a um instante
estava outra vez sentada no seu lugar e imvel, porm, com as costas voltadas de
modo a fazer sombra  boneca que tinha no regao. Era to rara para ela aquela
ventura de brincar com uma boneca, que essa ventura tinha toda a violncia de
uma voluptuosidade.
     Ningum a vira, excepto o viajante do casaco, que comia pausadamente a
sua frugal ceia.
     Durou cerca de um quarto de hora aquela alegria.
     Porm, por maiores precaues que Cosette tomasse, no deu f que um dos
ps da boneca estava  mostra e que a fogueira a iluminava com um claro
demasiado vivo. Aquele p cor-de-rosa e luminoso, que se destacava na sombra,
feriu de sbito o olhar de Azelma, que disse para Eponina:
     -  mana, olha!
     As duas crianas estacaram, estupefactas. Cosette tivera a ousadia de lhes
pegar na boneca!
     Eponina ergueu-se e, sem largar o gato, dirigiu-se para sua me e ps-se-lhe a
puxar pela saia.
     - Deixa-me! - disse a me. - Que queres?
     -  me - disse a criana - ora olhe!
     E Eponina apontava para Cosette.
     Esta, porm, toda embevecida no xtase da posse, no via nem ouvia nada.
     O rosto da Thenardier tomou ento essa expresso particular, que se compe
do terrvel aplicado s ninharias da vida, e que  causa de que a esta casta de
mulheres se d o nome de megeras.
     Desta feita, a soberba ofendida ainda mais exasperava a sua clera. Cosette
transpusera todas as barreiras, atentando contra a boneca daquelas meninas. A
figura de uma czarina, ao ver pr a um moujick o grande cordo azul de seu
imperial filho, teria a mesma expresso.
     A estalajadeira gritou em voz enrouquecida pela indignao:
     - Cosette!
     A criana estremeceu como se o cho se lhe abrisse debaixo dos ps e
voltou-se.
     - Cosette! - repetiu a Thenardier.
     Cosette pegou na boneca e p-la cautelosamente no cho com uma espcie de
venerao misturada de angstia. Ento, sem despegar os olhos dela, apertou as
mos, e, coisa terrvel de dizer numa criana de tal idade, torceu-as; depois, o que
no pudera arrancar-lhe nenhuma das impresses daquele dia, nem a ida ao
bosque, nem o peso do balde, nem a perda do dinheiro, nem a vista da palmatria,
nem mesmo a sombria palavra que ouvira proferir  Thenardier Cosette desatou a
chorar.
     - Ento que  isto? - perguntou o viajante, que se levantara da mesa.
     - Pois no v? - respondeu a Thenardier, apontando para o corpo do delito
que jazia aos ps de Cosette.
     - Mas que foi? - tornou o homem.
     - Que foi? - respondeu a Thenardier. - Pois esta esfarrapada no teve o
atrevimento de tocar na boneca das pequenas?
     - Ora! E para isso  preciso tanto barulho?  disse o homem. - E ento que
tinha que ela brincasse com a boneca?
     - Tocar-lhe com aquelas mos sujas!  prosseguiu a Thenardier. - Com
aquelas mos que metem nojo!
     Cosette redobrou os soluos.
     - Tu calas-te?! - gritou-lhe a Thenardier.
     O homem foi direito  porta da rua, abriu-a e saiu.
     Mal ele sara, a Thenardier aproveitou a sua ausncia para dar a Cosette, por
baixo da mesa, um grande pontap, que a fez soltar descompassados gritos.
     A porta tornou a abrir-se e o homem do casaco apareceu de novo, trazendo
nas mos a fabulosa boneca de que falmos, e que todas as crianas da aldeia
contemplavam desde pela manh, com os mais visveis sinais de admirao.
     - Toma, isto  para ti - disse para Cosette, pondo a boneca de p diante dela.
     Devemos crer que havia mais de uma hora, tempo em que ali se encontrava,
que ele tinha, no meio do seu cogitar, notado confusamente aquela loja de
quinquilharias to esplendidamente esclarecida por velas e lampies, que se
avistava como uma verdadeira iluminao por entre as vidraas da taberna.
     Cosette, que o vira dirigir-se para ela com aquela boneca, como veria ir o Sol;
que lhe ouviu aquelas palavras inauditas: Isto  para ti, olhou para ele e para a
boneca, depois recuou lentamente e foi-se esconder debaixo da mesa no stio mais
retirado, ao p do recanto da parede.
     Cosette j no chorava, nem gritava, nem mesmo ousava tomar a respirao
livremente, ao que parecia.
     Thenardier, Eponina e Zelma, eram outras tantas esttuas. At os bebedores
tinham estacado no meio das suas estrepitosas libaes. Operara-se um silncio
solene em toda a sala da baiuca.
     A Thenardier, aps o primeiro sobressalto que a deixara petrificada e muda,
voltou de novo s suas conjecturas. Quem diabo ser este velho? Ser algum
pobre ou algum milionrio? Talvez seja ambas as coisas, isto , um ladro.
     Quanto ao estalajadeiro, a sua fronte encrespou-se-lhe nessa ruga expressiva
que acentua o rosto humano todas as vezes que a ele acode o instinto
predominante com todo o seu bestial poder. O taberneiro contemplava
alternadamente a boneca e o viajante, parecendo farejar aquele homem, como
farejaria um saco de dinheiro. Porm, isto durou apenas o tempo de um
relmpago. O estalajadeiro acercou-se da mulher e disse-lhe em voz baixa:
     - Olha que a boneca no custou menos de trinta francos; nada de asneiras,
pois; de cabea baixa diante do homem.
     Entre as naturezas grosseiras e as naturezas ingnuas h de comum o no
terem transies.
     - Ento, Cosette - disse a Thenardier, com uma voz que queria tornar doce,
mas que se compunha porm desse mel agro das mulheres ms - no pegas na tua
boneca?
     Cosette aventurou-se a sair do seu esconderijo.
     - Anda c, filha - tornou a Thenardier, com ar carinhoso - este senhor d-te
uma boneca, por consequncia pega nela, que  tua.
     A criana, porm, contemplava a maravilhosa boneca com uma espcie de
terror.
     O seu rosto estava ainda inundado de lgrimas, mas os seus olhos
principiavam a encher-se, como o cu ao crepsculo da manh, dos clares de
uma estranha alegria. O que ela naquela ocasio experimentava era alguma coisa
semelhante ao que sentiria, se repentinamente lhe dissessem: Pequena, tu s a
rainha de Frana.
     Parecia-lhe que se tocasse na boneca sairiam dela troves, o que, at certo
ponto, era verdadeiro, por isso que esperava que a Thenardier ralhasse e lhe
batesse.
     No obstante, a atraco venceu-a. Aproximou-se por fim da boneca e
murmurou, olhando timidamente para a Thenardier:
     - Posso pegar-lhe, senhora?
     No h expresso que pudesse representar o seu aspecto, ao mesmo tempo
desesperado, cheio de espanto e arrebatamento.
     - J te disse que  tua! exclamou a Thenardier.
     - Uma vez que este senhor ta ofereceu.
     - Deveras, senhor? - tornou Cosette. -  verdade? Aquela senhora  para mim?
     O desconhecido parecia ter os olhos cheios de lgrimas; parecia achar-se
nesse estado de comoo em que se no fala para no se chorar. Portanto,
limitou-se a fazer quela criana um aceno afirmativo com a cabea, colocando
sobre a dela a mo da senhora.
     Cosette retirou a mo com presteza, como se a da boneca a escaldasse, e
ps-se a olhar para o cho. Somos obrigados a acrescentar que ela, naquela
ocasio, estendia uma lngua desmesuradamente grande. De repente voltou-se e
pegou na boneca com arrebatamento.
     - Hei-de pr-lhe o nome de Catarina - disse ela.
     Foi um espectculo momentneo, porm sobremodo estranho, quando os
andrajos de Cosette encontraram e abraaram as fitas e as frescas cassas,
cor-de-rosa daquela boneca.
     - A senhora deixa-me p-la em cima de uma cadeira? - tornou ela.
     - Pe, filha, pem-na onde quiseres - respondeu a Thenardier.
     Agora eram Eponina e Azelma que olhavam com inveja para Cosette.
     Cosette ps a boneca, a quem dera o nome de Catarina, em cima de uma
cadeira, depois sentou-se no cho diante dela, e ficou imvel, sem dizer uma
palavra, em atitude contemplativa.
     - Ento, Cosette, no brincas? - disse-lhe o generoso hspede.
     - Oh, eu estou a brincar! - respondeu a criana.
     Aquele desconhecido, que parecia uma visita que a Providncia fazia a
Cosette, era naquela ocasio a coisa que a Thenardier mais odiava no mundo.
Todavia, no havia remdio seno constranger-se, conquanto as comoes porque
passava fossem mais que as; que ela podia suportar, por mais habituada que
estivesse  dissimulao pela cpia que procurava fazer de seu marido em todas as
suas aces. Apressou-se, pois, a mandar deitar as filhas, pedindo depois ao
desconhecido licena para mandar deitar tambm Cosette que devia estar
cansadinha de todo, acrescentou ela com ar maternal. Cosette foi deitar-se,
portanto, levando Catarina nos braos.
     De vez em quando, a Thenardier ia at  outra extremidade da sala, onde
estava o marido, para aliviar a alma, dizia, e trocava com ele algumas palavras,
tanto mais furiosas, por isso que no ousava diz-las em voz alta:
     - Maldito estafermo! Vir aqui dar-nos ordens! Quer agora ver brincar o
mostrengo da rapariga e dar-lhe a boneca! Dar bonecas de quarenta francos a uma
cadela que eu daria por quarenta soldos! Se se demora mais um instante,
tratava-se por majestade como  duquesa de Berry. Isto tem l ps, nem cabea?
Este velho misterioso est doido!
     - Porqu? Ora,  uma coisa muito simples  replicava o marido. - Se faz gosto
disso... Tu gostas que a pequena trabalhe, ele gosta de a ver brincar. Est no seu
direito. Um passageiro pode fazer o que quiser, uma vez que pague. Se o velho 
algum filantropo, que te importa a ti isso? Se  um pateta, isso no  contigo. Que
te importam essas coisas, uma vez que ele temdinheiro?
     Linguagem e raciocnio de estalajadeiro, duas coisas, das quais nenhuma
admitia rplica.
     O homem encostara-se  mesa e retomara a sua atitude meditativa. Os outros
viajantes, dos quais uns, eram bufarinheiros, outros carreteiros, tinham-se
afastado todos e j no cantavam. Contemplavam-no a distncia com uma espcie
de temor respeitoso. Aquele sujeito to pobremente vestido, que tirava do bolso
rodas traseiras com tanta facilidade; e que prodigalizava bonecas gigantescas a
sujas raparigas de tamancos, era decerto um velho magnnimo, mas temvel.
     Decorreram algumas horas. A missa do galo acabara, a ceia terminara, os
bebedores haviam sado, a estalagem estava fechada, a sala inferior ficara deserta, a
fogueira apagara-se, mas o hspede permanecia ainda no mesmo lugar e na
mesma postura. De tempos a tempos, mudava o cotovelo sobre que se apoiava, eis
tudo; quanto a falar, porm, desde que Cosette sara, no tornara a dizer uma
palavra, Na sala apenas se achavam os estalajadeiros, que tinham ficado por
convenincia e por curiosidade.
     - Queres tu ver que o homem quer passar aqui a noite? - murmurou a
Thenardier por entre dentes.
     Ao darem, porm, duas horas da manh, declarou-se vencida e disse para o
marido:
     - Eu vou deitar-me. Tu faz o que quiseres.
     O marido sentou-se  esquina de uma mesa, acendeu uma vela e ps-se a ler o
Correio Francs.
     Passou assim uma boa hora. O digno estalajadeiro tinha j lido o Correio
Francs pelo menos trs vezes, desde a data do nmero at ao nome da tipografia,
porm o viajante no se mexia.
     Thenardier moveu-se, tossiu, escarrou, assoou-se, fez barulho com a cadeira,
porm nenhum movimento da parte do homem.
     - Estar a dormir? - disse ele consigo.
     O homem no dormia, mas nada o podia despertar.
     Por fim, Thenardier tirou o seu barrete, aproximou-se cautelosamente e
aventurou-se a dizer:
     - O senhor no quer ir descansar?
     No quer ir deitar-se parecera-lhe excessivo e familiar. Descansar cheirava a
luxo e era uma frase respeitosa. Aquelas palavras tinham a misteriosa e admirvel
propriedade de alargar ao outro dia pela manh a cifra do rol das despesas. Um
quarto onde o passageiro se deita custa vinte soldos; um quarto onde repousa
vinte francos.
     - Ah,  verdade! - disse o desconhecido.  Tem razo. Onde  a cavalaria?
     - Ora, senhor! - disse Thenardier, sorrindo.  Eu vou conduzi-lo.
     Pegou em seguida no castial, enquanto o hspede pegava na bengala e na
trouxa, e conduziu-o ao primeiro andar, que apresentava certo esplendor, todo
mobilado de acaju e ornado com uma bela cama e cortinas vermelhas de algodo.
     - O que vem a ser isto? - perguntou o viajante.
     -  o nosso quarto de noivado - respondeu o estalajadeiro - mas eu e minha
mulher dormimos noutro. No se entra aqui seno trs ou quatro vezes por ano.
     - Antes queria ir para a cavalaria - disse o homem secamente.
     Thenardier fingiu no ter ouvido a pouco obsequiosa reflexo. Em seguida
acendeu duas velas de cera que, ainda por encetar, estavam sobre o fogo, onde
depois acendeu tambm excelente lume. Sobre o fogo e debaixo de uma redoma,
estava uma grinalda de fio de prata e flores de laranjeira.
     - E isto, o que ? - tornou o desconhecido.
     -  a grinalda do noivado de minha mulher.
     O hspede lanou para a grinalda uns olhos que pareciam dizer: Houve
tempo em que um tal monstro foi virgem! E, no fim de tudo, Thenardier
mentira. Quando arrendara a casinhota para estabelecer a baiuca, achara aquele
quarto assim guarnecido, comprara a moblia e fizera um alborque com a grinalda
de flor de laranjeira, julgando que um tal objecto produziria em sua esposa certa
sombra graciosa, dando  casa aquilo a que os ingleses chamam respeitabilidade.
     Quando o hspede se voltou, o estalajadeiro tinha desaparecido.
     Thenardier eclipsara-se discretamente, sem ousar dar as boas noites, no
querendo tratar com cordialidade pouco respeitosa um homem a quem
tencionava, no dia seguinte, esfolar soberanamente.
     O estalajadeiro foi para o seu quarto. Sua mulher estava deitada, mas no
dormia. Quando ouviu os passos do marido, voltou-se e disse-lhe:
     - J sabes que amanh pespego com a Cosette no andar da rua.
     Thenardier respondeu friamente:
     - Como andas depressa!
     O hspede, pela sua parte, pusera a um canto a bengala e a trouxa.
     Depois do estalajadeiro se retirar, sentou-se numa cadeira e conservou-se por
algum tempo pensativo. Em seguida descalou os sapatos, pegou numa das luzes,
apagou a outra e abriu a porta do quarto, olhando em volta de si como quem
procura alguma coisa. Atravessou um corredor e chegou  escada. Ali ouviu um
ligeiro rudo que se assemelhava  respirao de uma criana. Deixou-se conduzir
por este rudo e chegou a uma espcie de concavidade triangular praticada sob a
escada, ou, para melhor dizer, formada por ela. Esta barraca no era mais do que o
vo da escada.
     Neste lugar, entre toda a espcie de cacos e de cestos velhos, no meio de lixo e
de enormes teias de aranha, havia uma cama, se se pode chamar cama a uma
enxerga toda esburacada, deixando cair a palha por todos os lados, e uma manta
por cujos buracos se via a enxerga. Lenis no tinha e estava estendida no
sobrado. Nesta cama dormia Cosette.
     O homem aproximou-se e contemplou-a.
     Cosette dormia profundamente e estava toda vestida. De Inverno no se
despia para sentir menos frio.
     Estava abraada com a boneca, cujos olhos abertos brilhavam na escurido. A
pobre criana soltava de vez em quando um grande suspiro, como se estivesse
para acordar, e apertava a boneca contra si, quase convulsivamente. Ao lado da
cama no estava seno um dos seus tamancos.
     Por detrs do cubculo de Cosette havia uma porta aberta, deixando ver um
quarto bastante grande, mas sem luz. O hspede entrou nele. Ao fundo, alm
duma porta de vidraa, viam-se duas caminhas iguais, muito bem arranjadas e
com roupa muito branca. Eram as de Eponina e Azelma. Por detrs delas mal se
via um bero muito ordinrio, sem cortinas, onde dormia o pequenito que tanto
chorara toda a noite.
     O desconhecido conjecturou que aquele quarto devia comunicar com o dos
Thenardier.
     Dispunha-se j a retirar-se quando se lhe deparou a chamin; uma destas
vastas chamins de estalagem onde h sempre algum brasido, mas que fazem frio
a quem as v. Naquela no havia lume nem mesmo cinza.
     O que atraiu a ateno do desconhecido foram dois sapatinhos de criana, de
feitio elegante, e desiguais em tamanho. O homem recordou-se do gracioso e
imemorial costume das crianas deixarem na chamin o sapatinho, na noite de
Natal, para ali receber nas trevas algum brilhante presente da sua boa fada.
Eponine e Azelma no tinham faltado ao costume e haviam posto cada uma um
sapato na chamin.
     O hspede curvou-se sobre os sapatos.
     A fada, isto , a me, tinha j feito a sua visita, de sorte que se via luzir em
cada um dos sapatos uma moeda de dez soldos completamente nova.
     O homem endireitou-se e ia j retirar-se, quando descobriu no fundo, e como
escondido, um outro objecto. Aproximou-se novamente e viu que era um
tamanco grosseiro, muito velho, todo coberto de cinza e lama seca. Era o tamanco
de Cosette.
     Esta com a enternecedora confiana das crianas que pode ser sempre
iludida, sem nunca desanimar, pusera tambm na chamin o seu tamanco.
      sublime e suave coisa a esperana de uma criana que no conheceu nunca
seno a desesperao.
     Dentro do tamanco no havia coisa alguma.
     O desconhecido meteu os dedos no bolso do colete, curvou-se, e deitou no
tamanco de Cosette um lus de oiro.
     Em seguida dirigiu-se para o seu quarto nos bicos dos ps.



    IX
    Thenardier em exerccio



     De madrugada, duas horas antes de romper o dia, Thenardier, sentado a uma
mesa da sala de baixo da estalagem, com uma pena na mo, confeccionava,  luz
de uma vela, a conta do viajante do casaco amarelo.
     A mulher, de p, meio curvada sobre ele, seguia com os olhos o que o marido
escrevia. No trocavam uma palavra. De um lado era a meditao profunda, do
outro a admirao religiosa com que se v nascer e desabrochar uma maravilha do
esprito.
     Este silncio era apenas interrompido pelo rudo da Cotovia a varrer a escada.
     Aps um bom quarto de hora e de algumas raspaduras, Thenardier produziu
a seguinte obra-prima:
     CONTA DO HSPEDE DO N. 9 Ceia
     3 francos Quarto
     10  Luz
     5  Lume
     4  Servio
     1  Total ... 23
     Servio estava escrito servisso.
     - Vinte e trs francos! - exclamou a mulher com um entusiasmo misturado de
alguma hesitao.
     Thenardier, porm, como todos os grandes artistas, no estava satisfeito da
sua obra.
     - Ora! - disse ele.
     Era o mesmo acento de Castlereagh no congresso de Viena, redigindo a conta
que a Frana devia pagar.
     - Tu tens razo, Thenardier, por certo que s se lhe pede o que ele deve -
murmurou a mulher, que se lembrava da boneca dada a Cosette em presena das
filhas -, isso  justo, mas  de mais. Decerto o homem no h-de querer pagar.
     Thenardier sorriu com o seu sorriso frio e disse para a mulher:
     - Deixa, que ele pagar.
     Aquele seu riso era a suprema significao da autoridade e da confiana em si
mesmo. O que assim era dito, assim devia ser; por isso a mulher no insistiu.
     Ps-se a arrumar as mesas enquanto o marido passeava na sala de um lado
para o outro. Aps um instante, este acrescentou:
     - O pior  eu dever mil e quinhentos francos!
     E, depois de dizer isto, foi sentar-se prximo da chamin com os ps nas
cinzas quentes.
     -  verdade! - replicou a mulher. - No sei se te lembras que eu ponho hoje
Cosette no andar da rua. Monstro! Faz-me arder em febre por causa da tal boneca!
     Antes queria casar com Lus XVIII do que t-la mais um s dia das portas
para dentro!
     Thenardier acendeu o cachimbo e respondeu entre duas baforadas:
     - Entrega a conta ao homem.
     E dizendo isto saiu.
     Mal ele, porm, sara a porta da sala, entrou nela o viajante.
     Thenardier tornou logo atrs dele e ficou parado  porta, por entre a qual,
como estava entreaberta, s a mulher o podia ver.
     O homem do casaco amarelo trazia na mo o seu cajado e a trouxa.
     - A p to cedo! - disse a Thenardier.  Ento o senhor j nos deixa?
     E, ao falar assim, virava a conta nas mos com ar de embarao, fazendo-lhe
dobras com as unhas. Aquele rosto duro oferecia uma expresso que no lhe era
habitual o da timidez e o do escrpulo.
     Apresentar semelhante conta a um homem que parecia realmente um
pobre era para ela uma coisa difcil.
     O viajante, que parecia preocupado e distrado, respondeu:
     -  verdade, senhora, vou-me embora.
     - Ento o senhor no veio a Montfermeil para tratar de algum negcio?
     - Nada, foi s de passagem, simplesmente. Quanto  que lhe devo, senhora? -
acrescentou ele em seguida.
     A Thenardier, em vez de responder, apresentou-lhe a conta dobrada.
     O homem desdobrou o papel e correu-o com a vista, porm, a sua ateno
estava visivelmente noutra parte.
     - Ento faz muito negcio aqui em Montfermeil? - tornou ele.
     - Nem por isso, senhor! - respondeu a Thenardier estupefacta de no ver
outra exploso da parte do viajante.
     Depois prosseguiu, com acento lamentosamente elegaco:
     - Oh, senhor, os tempos correm to desgraados. Est tudo por tal forma! E
depois h to pouca gente de teres pelos nossos stios! Como o senhor havia de
reparar, so tudo fregueses que pouco gasto podem fazer. O que nos vale, assim
mesmo,  algum passageiro generoso como o senhor, que vem l de tempos a
tempos.
     Se no fosse isso, no sei o que havia de ser de ns, s despesas que temos! S
a pequena fica-nos pelos olhos da cara... - Que pequena?
     - Ora! A pequena que o senhor sabe, Cosette! A Cotovia, como c na terra lhe
chamam.
     - Ah! - disse o homem.
     Ela continuou:
      - Esta gente daqui  uma scia de parvos com as tais alcunhas. Ela tem mais
parecenas com um morcego do que com uma cotovia. Olhe, senhor, ns no
vamos bater  porta de ningum, mas... sabe Deus o que por c vai. No estamos
em circunstncias de fazer esmolas. O que ganhamos vai-se tudo para os credores;
e se fora s para esses, mas os tributos? Tanto para estradas, tanto pela licena,
tantos por cento por isto, mais tantos por cento para aquilo; o senhor bem sabe o
horror de dinheiro que se vai para o governo! E no fim de tudo isto, ainda tenho
as filhas para sustentar, tenho de sustentar-me a mim. Parece-me que no tenho
necessidade nenhuma de estar a dar de comer a estranhos.
      O homem replicou com aquela voz que ele tentava com esforo tornar
indiferente, mas em que se denotava certo tremor:
      - E se houvesse quem a livrasse dela?
      - De quem, da Cosette?
      - Sim.
      A fronte vermelha e violenta da taberneira iluminou-se de um fulgor
medonho, que se expandiu por toda ela.
     - Ah, senhor, meu bom senhor! Pegue nela, leve-a, tire-a, ensope-a, frite-a,
beba-a, coma-a, e que a Virgem Santssima e todos os santos do cu o guardem de
perigos!
     - Est dito.
     - Deveras? Leva-a?
     - Levo.
     - J?
     - J. Chame por ela.
     - Cosette! - gritou a Thenardier.
     - Entretanto - prosseguiu o homem - deixe-me pagar-lhe a minha conta.
Quanto ?
     O viajante deitou ento um olhar para o papel e no pde reprimir um
movimento de surpresa:
     - Vinte e trs francos?!
     E olhou para a taberneira, repetindo:
     - Vinte e trs francos?
     No tom com que estas palavras foram repetidas, havia o acento que separava
o ponto de admirao do de interrogao.
     A Thenardier, que tivera tempo de se preparar para o choque, respondeu com
desassombro:
     - Vinte e trs francos, sim, senhor, pois ento?
     O hspede ps cinco moedas de cinco francos em cima da mesa e disse 
taberneira:
     - Ento v buscar a pequena.
     Neste momento, porm, o marido avanou para o meio da sala e disse ao
homem do casaco:
     - O senhor deve vinte e seis soldos.
     - Vinte e seis soldos! - exclamou a mulher.
     - Vinte soldos pela cama - continuou o taberneiro friamente - e seis pela ceia.
     Quanto  pequena, preciso de conversar um bocado com o senhor.
     E acrescentou, voltando-se para a mulher:
     - Deixa-nos ss.
     A Thenardier sentia um desses deslumbramentos que causam os imprevistos
clares do talento. Conheceu que entrava em cena o grande actor, e por isso saiu
sem dizer uma palavra.
     Apenas ficaram a ss, Thenardier ofereceu uma cadeira ao viajante. Este
sentou-se e Thenardier ficou de p, com uma singular expresso de bondade
simples gravada no rosto.
     - Olhe, senhor, vou dizer-lhe uma coisa: sou doido por esta criana.
     O hspede olhou fixamente para o estalajadeiro e perguntou:
     - Qual criana?
     Thenardier continuou:
     -  uma tolice a gente tomar amizade s pessoas. Que me importa a mim este
dinheiro? Pode guardar as suas moedas de cem soldos. O que eu adoro  aquela
criana.
     - Mas quem ? - perguntou o homem.
     - Ora!  a nossa Cosette! No  essa que o senhor nos quer levar? Pois
digo-lhe com toda a franqueza dum homem honrado, que no posso consentir em
semelhante coisa.  uma criana que me h-de fazer muita falta: vejo-a desde
muito pequenita.  verdade que nos custa dinheiro e que tem defeitos,  verdade
que no somos ricos e pagmos mais de quatrocentos francos em drogas, s numa
doena que ela teve! Mas a gente sempre h-de fazer alguma coisa pelo amor de
Deus.  uma desgraadinha que no tem pai nem me; crimo-la ns. Para mim e
para ela sempre hei-de ter po; e depois no posso separar-me da pequena. O
senhor bem percebe o que  a gente ter afeio a uma pessoa; eu sou um pobre
diabo, que no tenho raciocnio, mas que sou amigo desta criana; minha mulher
tem mau gnio, mas tambm a estima. Bem v,  como se fosse nossa filha. No
posso passar sem a sentir em casa.
     O desconhecido continuou a olhar para o estalajadeiro, que continuou:
     - O senhor h-de desculpar-me, mas bem v que no se deve entregar assim
uma criana a uma pessoa que se no conhece. No  verdade que tenho razo?
Ao mesmo tempo no digo que no; o senhor  rico, parece muito boa pessoa, e
talvez seja para seu bem; mas assim mesmo  preciso vermos. O senhor bem
percebe. Supondo que eu me sacrificasse e a deixasse ir, queria saber para onde ia,
desejaria no a perder de vista e saber para casa de quem ia morar, para ir v-la de
vez em quando; era preciso que ela soubesse que seu pai adoptivo no deixava de a
ter na lembrana. Enfim, h coisas que no so possveis. Eu no sei como o
senhor se chama. O senhor levava-a, e depois, onde est a Cotovia? Para quem foi
ela? Era preciso, ao menos, ver um bocado de papel qualquer; que diabo! A ponta
de um passaporte, por exemplo... O desconhecido, sem afastar do estalajadeiro o
olhar que, por assim dizer, vai at ao fundo da conscincia, respondeu-lhe com
voz grave e firme.
     - Senhor Thenardier, no se tira passaporte para vir a cinco lguas de Paris. Se
levar Cosette, lev-la-ei e nada mais. O senhor nem saber o meu nome, nem a
minha morada, nem onde ela estar; a minha inteno  que ela no torne mais a
v-lo.
     Quebrando-lhe o fio que a prende pelo p, desaparecer para sempre.
Convm-lhe isto? Sim ou no.
     Pelo mesmo modo que os demnios e os gnios reconheciam, por certos
sinais, a presena de um deus superior, reconheceu Thenardier que tratava com
quem quer que era muito poderoso.
     Foi uma como intuio; compreendeu-o com toda a nitidez e sagacidade da
sua percepo. Na vspera, bebendo, fumando e cantando com os fregueses,
passara a noite a observar o desconhecido, espreitando-o como um gato e
estudando-o como um matemtico. Espionara-o por sua conta, por gosto e
instinto, e igualmente como se para isso fora pago. Nem um gesto ou um s
movimento do homem do casaco amarelo lhe escapara. Antes mesmo do
desconhecido manifestar o seu interesse por Cosette, j Thenardier o tinha
adivinhado, surpreendendo os detidos olhares que o velho incessantemente
deitava  criana. Em que se fundava tal interesse? Que homem era aquele?
Porque trajava ele to miseravelmente, com tanto dinheiro de seu?
     Questes eram estas que ele a si mesmo propunha e que o irritavam, sem que
conseguisse resolv-las. Toda a noite meditara sobre este objecto. No podia ser o
pai de Cosette. Seria av? Mas ento porque razo se no dera logo a conhecer?
Quem tem direitos, mostra-os. Era evidente: aquele homem no tinha direitos
nenhuns sobre Cosette. Ento quem era? Thenardier perdia-se em suposies,
porm no atinava com a sada do labirinto de dvidas em que se lhe embrenhava
o esprito. Entrevia tudo e no via nada. Fosse, porm, o que fosse, certo de que
nisto havia algum segredo de que o homem tinha interesse em no desvendar o
vu em que se envolvia, sentira-se forte ao encetar a conversa com ele; ao ouvir,
porm, a clara e firme resposta do desconhecido, ao ver que aquele personagem
misterioso era to simplesmente misterioso, sentiu-se fraco. No esperava por
semelhante coisa. Foi a derrota das suas conjecturas.
     Reuniu, pois, todas as suas ideias, pesou tudo aquilo no espao de um
segundo.
     Thenardier era desses homens a quem basta um relancear de olhos para
ajuizarem de uma situao. Viu que era chegada a ocasio de caminhar depressa e
direito ao alvo.
     Fez como os grandes capites no instante decisivo que s eles sabem conhecer
deixou repentinamente a descoberto a sua bateria.
     - Senhor - disse ele -, a pequena  sua, uma vez que me d mil e quinhentos
francos.
     O desconhecido tirou de um dos bolsos, que tinha ao lado, uma carteira velha
de couro preto, abriu-a e pegou em trs notas que ps em cima da mesa. Depois
apoiou sobre elas o largo polegar e disse para o taberneiro:
     - Mande chamar Cosette.
     Que fazia ela enquanto se passava isto?
     Apenas acordou, Cosette correu ao fogo e achara dentro do soco a
depositado a moeda em ouro, que o desconhecido l deixara. No era um
Napoleo, era uma moeda de vinte francos, nova, da restaurao, em cuja efgie,
como nas de todas as outras do mesmo cunho, a coroa de louro se achava
substituda pela caudazinha prussiana.
     Cosette ficou deslumbrada. Principiava a embriag-la o seu destino. A pobre
criana no sabia o que era uma moeda em ouro, nunca vira nenhuma, e
escondeu-a com a maior presteza no bolso, como se a tivera roubado. Conquanto
conhecesse que aquilo lhe pertencia realmente e adivinhasse de onde lhe vinha
aquele dom, sentia uma espcie de alegria entremeada de medo. Estava satisfeita,
e, mais que tudo, estupefacta; no lhe pareciam reais aquelas coisas to magnficas
e bonitas. Assustava-a a boneca, assustava-a a moeda em ouro, tremendo
vagamente diante daquelas magnificncias.
     S o desconhecido  que no a assustava, antes pelo contrrio, a tranquilizava.
Desde a vspera, que ela por entre os seus espantos, por entre as sombras vagas do
seu sonho, tinha o seu espritozinho de criana constantemente ocupado com a
lembrana daquele velho de aspecto to mesquinho e triste, mas to rico e cheio
de bondade. Cosette, menos feliz que a menor andorinha do cu, nunca soubera o
que era o refugiar-se uma criatura  sombra e sob as asas de uma me. Havia cinco
anos, isto , at onde podiam remontar as suas reminiscncias, que a pobre
criana tremia de medo e tiritava de frio.
     Nua sempre ao ventar agudo da desgraa, parecia-lhe agora que j se achava
vestida.
     A sua alma outrora sentira frio, agora sentia calor. Cosette j no temia tanto
a Thenardier, porque no se achava s; havia mais algum a seu lado, e esse
algum dava-lhe coragem para se defrontar menos receosa com os aspectos
medonhos do seu infortnio.
     Aps o seu precioso achado, principiara imediatamente a sua tarefa de todas
as manhs. Porm, aquele lus, que trazia consigo naquele mesmo bolso do avental
de onde to desastradamente lhe cara na noite antecedente a moeda de quinze
soldos, fazia-a andar distrada e como que fora de si. Ela no se atrevia a tocar-lhe,
mas passava s vezes cinco minutos a contempl-lo, de boca aberta. Ao varrer a
escada, parava e assim ficava, imvel, esquecida de tudo, alheada da sua vassoura e
do universo inteiro, e ocupada a ver brilhar aquela estrela no fundo do bolso do
seu roto avental.
     Foi quando ela se achava numa dessas contemplaes que a Thenardier, que
por ordem do marido a vinha buscar, se acercou dela, e, coisa inaudita, sem lhe
dar uma bofetada ou lhe atirar uma injria, lhe disse quase com doura:
     - Anda da j, Cosette.
     Um instante depois, Cosette entrava na sala do andar de baixo da estalagem.
     O desconhecido pegou na trouxa que tinha trazido e desatou-a. A trouxa
continha um vestido de l, um avental, um roupo de fusto, um saiote, um leno
para o pescoo, umas meias de l, uns sapatos, um vesturio completo para uma
rapariguinha de oito anos. Todos estes objectos eram pretos.
     - Minha filha - disse o homem - leva isto e veste-te depressa.
     Despontava o dia quando os habitantes de Montfermeil, que principiavam a
abrir as portas das suas casas, viram passar pela rua de Paris um velho pobremente
vestido, dando a mo a uma pequenina toda de luto, que levava nos braos uma
boneca cor-de-rosa. Os dois viandantes dirigiam-se para a parte de Livry.
     Era Cosette e o homem de casaco amarelo.
     Ningum o conhecia a ele, e quanto a Cosette, como j no ia coberta de
andrajos, tambm muitos no a conheceram.
     Cosette partia. Mas com quem? Ignorava-o. Para onde? No o sabia. O mais
que ela compreendia era que se ausentava da taberna de Thenardier e de sua
mulher.
     Ningum se lembrara de lhe dizer adeus nem ela de o dizer a ningum. Saa
daquela casa odiada e odiando.
     Pobre e meiga criatura, cujo corao at ali s fora oprimido!
     Cosette caminhava gravemente, abrindo os seus rasgados olhos e
contemplando o cu. De vez em quando curvava a cabea e deitava um olhar para
dentro do bolso do seu avental novo, onde metera o lus, olhando depois para o
velho. A pobre criana sentia-se como que na presena de Deus, to
entranhadamente celestial era a felicidade que lhe transbordava da alma!
    X
    Quem procura o melhor, s vezes encontra o pior



     Segundo o seu costume, a Thenardier deixara o marido, sem se intrometer
naquele negcio, de que aguardava sucessos de estrondo. Quando Cosette e o
homem partiram, Thenardier deixou passar um grande quarto de hora, aps o
qual chamou a mulher de parte e mostrou-lhe os mil e quinhentos francos.
     - Ora! Que grande coisa!
     Era a primeira vez, desde o dia em que principiaram a viver juntos, que ela
ousava criticar um acto do marido.
     O tiro acertou no alvo.
     - Realmente, tens razo! - disse ele. - Sou um imbecil! Deixa-me c ver o
chapu.
     E, dobrando as trs notas, meteu-as no bolso e saiu a toda a pressa, mas
enganou-se e tomou primeiro pela direita. Como, porm, alguns vizinhos, a quem
perguntou, o orientassem sobre o caminho que levava a Cotovia e o homem do
casaco, dizendo-lhe que os tinham visto caminhar na direco de Livry,
Thenardier seguiu a indicao que eles lhe deram, caminhando com ligeireza e
falando consigo prprio.
     - Aquele homem  um milho vestido de amarelo e eu sou um grande animal!
     Ele primeiro deu vinte soldos depois cinco francos, depois cinquenta francos,
depois mil e quinhentos, e sempre com a mesma facilidade. Por consequncia,
daria quinze mil, se lhos pedissem, mas eu vou j pilh-lo.
     E depois aquela trouxa de roupa, j de antemo preparada para a pequena,
tudo isto era singular; aqui anda grande mistrio. Ora quem tem seguro um
mistrio e o deixa fugir. Os segredos dos ricos so esponjas cheias de ouro, que se
devem espremer o mais que for possvel, porque sempre deitam alguma coisa.
Todos estes pensamentos lhe redemoinhavam no crebro e ele conclua sempre,
dizendo: Sempre sou muito burro!
     Quando se sai de Montfermeil e se transpe o cotovelo formado pela estrada
que vai para Livry, v-se estender esta at muito longe pela plancie. Thenardier
pois, ao chegar a, calculou que devia avistar o homem e a pequena, e por isso
olhou at onde lhe alcanava a vista, mas no viu nada. Perguntou outra vez; pois
tudo isto lhe fazia perder tempo. Disseram-lhe algumas pessoas que o homem e a
criana em cuja busca andava se tinham encaminhado para o bosque para o lado
de Gagny.
     Os dois viandantes levavam-lhe alguma dianteira, porm uma criana anda
devagar e ele caminhava depressa, e, alm disso, conhecia aqueles stios aos
palmos.
     De repente, Thenardier parou e ps-se a bater na testa, como quem esqueceu
o essencial e est disposto a voltar atrs.
     - E eu que no trouxe a espingarda! - disse ele consigo.
     Thenardier era dessas naturezas duplas que s vezes passam pelo meio de ns
sem darmos f delas e que desaparecem sem ser conhecidas, porque o destino no
as mostrou seno por uma face. A sorte de muitos homens  viver assim meio
submergidos. Numa situao serena e simples, Thenardier possua tudo o que era
necessrio para fazer no diremos para ser do que est convencionado chamar-se
um negociante honrado, um homem capaz. Ao mesmo tempo, porm, dadas
certas circunstncias, revolvendo-lhe certos abalos o fundo da natureza, ele
possua tudo o que era necessrio para ser um celerado. Era um lojista com laivos
de monstro.
     Satans devia s vezes ir acocorar-se ao canto da espelunca em que ele vivia e
pr-se a meditar em presena daquela obra-prima de medonha disformidade.
     Aps uma hesitao de alguns instantes, o estalajadeiro disse consigo:
     - Ora! Estava bem servido. Enquanto eu ia e vinha, punham-se-me eles ao
fresco.
     E continuou o seu caminho com presteza, quase com ar de confiana e com a
sagacidade da raposa que fareja um bando de perdizes.
     Com efeito, depois que transps os lagos e atravessou obliquamente a grande
clareira que fica  direita  da alameda de Bellevue, ao chegar ao estendal de
verdura que quase circunda a colina, cobrindo a abbada do antigo aqueduto da
abadia de Chelles, avistou por cima de um silvado um chapu, sobre o qual j
tantas conjecturas levantara. Era o chapu do homem. Como o silvado era baixo,
Thenardier conheceu que o homem e Cosette estavam ali sentados. No se via a
criana por causa da sua pequenez, mas descobria-se a cabea da boneca.
     Thenardier no se enganava. O homem sentara-se ali para deixar Cosette
descansar um bocado. O taberneiro afastou as silvas e apareceu subitamente aos
olhos dos viandantes em cuja procura vinha.
     - Mil perdes e desculpas, senhor - disse ele todo esbaforido - mas aqui tem o
seu dinheiro.
     E, ao dizer isto, apresentava ao desconhecido as trs notas.
     O homem olhou para ele e disse-lhe:
     - Que quer dizer isso?
     Thenardier respondeu respeitosamente:
     - Senhor, o que quer dizer  que torno a levar Cosette comigo.
     A criana estremeceu e cingiu-se muito ao seu protector.
     Quanto a este respondeu, cravando os seus nos olhos de Thenardier:
     - Tornar a levar Cosette?
     - Sim, senhor, torno-a a levar. Eu lhe conto; reflecti e vi que no tinha feito
bem em fazer o que fiz, por que, enfim, eu no tenho direito para lhe ceder a
criana.
     Senhor, saiba que eu sou um homem de bem. Ora a pequena no me
pertence, pertence  me. Quem ma confiou foi a me e por isso no a posso
entregar a mais ningum seno  me. O senhor dir: Mas a me morreu. Bem,
nesse caso no posso dar a criana seno a uma pessoa que me trouxesse um
escrito assinado por ela em como eu devo entregar a criana a essa tal pessoa. Isto
 claro.
     O homem, em vez de responder, meteu a mo no bolso e Thenardier, ao ver
tornar a aparecer a carteira das notas, sentiu um estremecimento de alegria.
     Bem! disse ele consigo. Sentido, que o homem vai-me querer corromper!
Antes de abrir a carteira, o viajante circunvagou a vista para todos os lados, como
se receasse ser visto naquela operao. O lugar estava completamente deserto.
     No havia vivalma nem no bosque, nem em toda a extenso do vale. O
homem abriu pois a carteira e tirou dela no o punhado de notas que Thenardier
esperava, mas um simples papelinho, que desembrulhou e apresentou aberto ao
estalajadeiro, acrescentando:
     - Tem muita razo. Leia.
     Thenardier pegou no papel e leu:
     Montreuil-sur-mer 25 de Maro de 1823
     Senhor Thenardier
     Far favor de entregar Cosette ao portador desta.
     A importncia de que fala ser-lhe- integralmente paga.
     Sou com a maior considerao, etc.
     Fantine.
     - Conhece essa assinatura? - tornou o homem.
     A assinatura era efectivamente de Fantine e Thenardier conheceu-a. No
havia que replicar. O estalajadeiro sentiu dois violentos despeitos o de renunciar 
corrupo que esperava e o de ser derrotado.
     O homem acrescentou:
     - Pode guardar esse papel para sua defesa.
     Thenardier submeteu-se em boa ordem, porm no sem resmungar por entre
dentes:
     - A assinatura est bem imitada. Mas, enfim, v l.
     Depois tentou um esforo desesperado.
     - Est bem, senhor - disse ele - uma vez que o senhor  o portador. Mas quero
que me paguem o que ainda falta, o que no  assim to pouco.
     O homem ps-se de p e disse, sacudindo aos piparotes o p que lhe cobria a
manga do casaco:
     - Senhor Thenardier, a me desta criana julgava dever-lhe, em Janeiro, cento
e vinte francos, porm em Fevereiro voc mandou-lhe uma conta de quinhentos,
dos quais recebeu trezentos em fins de Fevereiro e no princpio de Maro recebeu
mais outros trezentos. Desde ento at agora tm decorrido nove meses, que, a
quinze francos por ms, como se ajustou, perfaz cento e trinta e cinco francos.
Ora, tinha recebido cem francos de mais; restam, por consequncia, trinta e cinco,
que  quanto se lhe deve, e eu dei-lhe h pouco mil e quinhentos.
     Thenardier experimentou o que experimentam os lobos, quando se sentem
mordidos e agarrados pelos dentes de ferro da armadilha em que caram.
     Que diabo de homem este! disse ele consigo.
     Fez ento o que faz o lobo deu uma sacudidela  ratoeira para se desprender.
A audcia j uma vez lhe tinha produzido bom resultado.
     - Senhor d e quem no sei o nome - disse ele resolutamente e pondo desta feita
os modos respeitosos de parte - ou me d mil escudos ou eu torno a levar a
pequena comigo.
     O desconhecido, porm, disse tranquilamente para a criana:
     - Vamos embora, Cosette.
     Em seguida deu-lhe a mo esquerda e com a direita apanhou o cajado do
cho.
     Thenardier notou a grossura do pau e a solido do lugar e julgou conveniente
no pr embargos  partida dos dois.
     O homem meteu-se pelo bosque com a pequena, deixando o taberneiro
imvel e aturdido, e enquanto se afastavam, ele contemplava-lhe a largura dos
ombros, um tanto arqueados e a desmesurada grandeza dos punhos.
     Depois, voltando os olhos para si mesmo, via os seus braos dbeis e as suas
magras mos.
     Sempre  preciso ser muito bruto, dizia ele consigo, para no ter trazido a
espingarda, sabendo eu que vinha  caa.
     O estalajadeiro, porm, nem assim julgou dever abandonar a presa.
     Espera, que eu tambm agora vou ver para onde ele vai! E principiou a
segui-los a distncia. Ficavam-lhe nas mos duas coisas uma ironia, o sujo bocado
de papel com a assinatura de Fantine, e uma consolao, os mil e quinhentos
francos.
     O homem conduzia Cosette na direco de Livry e Bondy, caminhando
lentamente, com a cabea curvada, numa atitude de reflexo e tristeza. Auxiliado
pela luz do sol, que penetrava livremente no bosque por entre as rvores, que o
Inverno despojava da folha, Thenardier no os perdia de vista, conquanto lhes
fosse de longe no encalo. De vez em quando, o homem voltava-se, a ver se
algum o seguia. De sbito, avistou Thenardier e embrenhou-se com Cosette
numa moita cerrada de rvores, por entre a qual podiam desaparecer ambos aos
olhos de Thenardier.
     - Diacho! - disse este e apertou mais o passo.
     Como a espessura da moita o obrigara a aproximar-se mais deles, Thenardier,
vendo que o homem, ao chegar ao mais fechado da moita, se voltava para trs,
tentou esconder-se entre os ramos, porm, apesar dos esforos, no pde
conseguir que o homem o no avistasse. Este, porm, depois de olhar para ele com
ar inquieto, abanou a cabea e continuou o seu caminho. O estalajadeiro tornou
de novo a segui-los por espao de duzentos ou trezentos passos. De sbito, o
homem voltou-se outra vez e avistou o estalajadeiro. Desta feita, porm, olhou
para ele com to sombria expresso no olhar, que Thenardier julgou intil ir
mais adiante e voltou para trs.



    XI
    Reaparece o nmero 9.430 e como Cosette o ganha na lotaria Joo Valjean
no morrera.



    Ao cair ao mar, ou antes, ao atirar-se a ele, livre, como j dissemos, da cadeia
de ferro que trazem os forados e que lhe podia servir de embarao, nadou por
baixo de gua at ao ancoradouro em que estava amarrada uma embarcao,
dentro da qual achou meio de estar escondido.
      noite deitou-se outra vez a nado e arribou  costa a pouca distncia do cabo
Brun, onde, como no era o dinheiro o que lhe faltava, pde arranjar roupa. Era
ento uma tasca nos arredores de Balaguier o guarda-roupa dos forados
evadidos, especialidade lucrativa. Aps isto, Joo Valjean, como todos esses tristes
fugitivos que procuram fazer perder o rasto  vigia da lei e  fatalidade social,
seguiu um itinerrio obscuro e ondulante. O primeiro asilo que encontrou foi em
Pradeaux, nas imediaes de Beausset. Em seguida dirigiu-se para Grand-Villard,
junto a Brianon, nos Altos-Alpes. Fugida receosa e s apalpadelas, caminho de
toupeira, cujas ramificaes ningum conhece. Conseguiu-se mais tarde achar
alguns vestgios da sua passagem, por A, no territrio de Civrieux, pelos Pirinus
em Accons, no stio chamado a Granja de Doumecq, pelas imediaes do lugarejo
de Chavailles e pelos arredores de Perigueux, em Brunies, canto da Capella
Gonaguet, at que chegou a Paris.
     O seu primeiro cuidado, apenas chegara a Paris, fora comprar roupa de luto
para uma pequena de sete a oito anos e depois arranjar um domiclio. Feito isto,
dirigira-se a Montfermeil.
     Como ho-de estar lembrados, Joo Valjean fizera, por ocasio da sua
precedente evaso, uma viagem misteriosa a Montfermeil ou aos seus arredores,
da qual a justia tivera alguma luz.
     Todavia, como o julgavam morto, tornava-se mais espessa a obscuridade que
sobre ele se formara. Em Paris chegou-lhe s mos um dos jornais, que registavam
o facto da sua morte e sentiu-se tranquilizado e quase em paz, como se realmente
tivesse morrido.
     No fim do mesmo dia em que Joo Valjean arrancara Cosette das garras dos
Thenardier, voltou para Paris. Ao cair da noite, transpunha a barreira de
Monceaux, acompanhado pela criana, com a qual se meteu num cabriole que os
conduziu  esplanada do Observatrio. Chegado a, Joo Valjean apeou-se, pagou
ao cocheiro, pegou na mo de Cosette e dirigiram-se ambos, no meio da cerrada
escurido da noite, para o boulevard do Hospital pelas desertas ruas que ficam
prximas  Ourcine e  Glacire.
     Estranho e cheio de sensaes variadas fora para Cosette aquele dia; tinham
comido atrs das sebes po e queijo comprado em tabernas isoladas, tinham vastas
vezes mudado de carruagem, tinham andado alguns bocados de caminho a p; e
conquanto ela se no queixasse, estava contudo fatigada, o que Joo Valjean
conheceu, porque lhe puxava mais pela mo ao andar. Joo Valjean pegou ento
nela ao colo e Cosette, sem largar a boneca, pousou a cabea no ombro dele e
adormeceu.
    LIVRO QUARTO
    O casebre de Gorbeau



    I
    Mestre Gorbeau



     O passeante solitrio que h quarenta anos se aventurava a embrenhar-se
pelas remotas regies da Salptrire, e que subia pelo boulevard at  barreira de
Itlia, chegava a alguns stios em que se podia dizer que Paris desaparecia. No era
um ermo, pois passava por ali gente; no era campo, pois havia casas e ruas; no
era uma cidade, pois que se viam as ruas sulcadas pelas rodeiras, como as estradas
reais, e crescia a erva pelo meio delas; no era uma aldeia, pois que as casas eram
demasiado altas.
     Ento que era? Era um lugar habitado em que no havia ningum; era um
lugar deserto onde havia habitantes; era um arrabalde da grande cidade, uma rua
de Paris, de noite mais solitria do que uma floresta, de dia mais pesadamente
triste do que um cemitrio.
     Era o velho bairro do Mercado dos Cavalos.
     O mesmo passeante, se se arriscasse a transpor as quatro caducas paredes do
Mercado dos Cavalos, se se resolvesse a passar alm da rua do Petit-Banquier,
depois de haver deixado  direita uma horta fechada por elevadas paredes, em
seguida um prado, onde se erguiam montes de casca de carvalho semelhantes a
casinholas de castores gigantescos, depois um cerrado atulhado de madeira e de
montes de razes, serragem e cavacos, em cima dos quais latia um grande co, em
seguida uma comprida parede baixa, toda em runas, com uma portinha negra,
cheia de musgo, que na Primavera se enchia de flores, depois no stio mais deserto
um decrpito casebre, no qual se lia em grandes letras:  PROIBIDO PREGAR
AQUI CARTAZES o ousado passeante chegava  esquina da rua das Vinhas de S.
Marcai, latitudes pouco conhecidas. Neste stio via-se naquele tempo ao p de
uma fbrica e entre as paredes de dois jardins, um casebre, que  primeira vista
parecia pequeno como uma choupana, mas que na realidade era grande como
uma catedral. A sua aparente pequenez provinha de ficar de lado para o caminho,
de modo que s era visto pela empena. A casa ficava quase toda escondida,
descobrindo-se apenas uma porta e uma janela.
     O casebre constava de um s andar.
     A circunstncia que primeiro impressionava a quem o examinasse era que a
porta nunca teria podido ser seno a porta de uma espelunca, ao passo que a
janela, se fosse aberta em pedra de cantaria, em vez de o ser em alvenaria, poderia
passar pela janela de um palcio.
     A porta era apenas um conjunto de tbuas carunchosas, grosseiramente
unidas com travessas semelhantes a achas mal esquadradas. Abria logo para uma
ngreme escada, de degraus altos, enlameados, cheios de barro e p, da mesma
largura da porta que se via da rua subir direita como uma escada de mo e
desaparecer na sombra entre duas paredes. O cimo da informe cobertura formada
pela porta era tapado por uma estreita e delgada tbua, na qual haviam rasgado
um postigo triangular, que quando a porta estava fechada era juntamente trapeira
e corredia. Pelo lado de dentro, um pincel molhado em tinta de escrever, havia
traado duas pinceladas o nmero 52, e por cima do dois garatujara o mesmo
pincel o nmero 50, de sorte que se hesitava. Qual  o que regula? O cimo da porta
diz nmero 50; a parte de dentro replica 52. Da corredia triangular pendiam, em
guisa de cortinado, uns farrapos cobertos de p.
     A janela era larga, suficientemente elevada, guarnecida de persianas e de
vidraas de grandes caixilhos porm estes tinham variadas feridas, ao mesmo
tempo ocultas e descobertas por uma engenhosa faixa de papel e as persianas
desconjuntadas e fora do seu lugar, mais ameaavam os transeuntes, do que
guardavam os moradores.
     Nas persianas via-se aqui e ali, a falta de alguma das tabuinhas, que era
singelamente substituda por tbuas, pregadas perpendicularmente, de modo que
a coisa principiava como persiana e acabava como postigo.
     A porta, que tinha um aspecto imundo, e a janela posto que escalavrada, tinha
um ar de nobreza, assim vistas na mesma casa, produziam o efeito de dois
mendigos desemparelhados, que fossem juntos, caminhando a par, com dois
aspectos diferentes, debaixo dos mesmos andrajos, e dos quais um tivesse sido
sempre gatuno e o outro um fidalgo.
     Conduzia a escada a um edifcio destacado, mas vastssimo, que se
assemelhava a um alpendre, transformado em casa. Tinha este edifcio por tubo
intestinal um comprido corredor, para o qual se abria,  direita e  esquerda, uma
espcie de repartimentos variados em rigor habitveis, e mais parecidos com
stos que com celas.
     Davam para os terrenos vagos dos arredores. Tudo isto era escuro, fastidioso,
bao, melanclico, sepulcral; atravessado, consoante as fendas eram no telhado ou
na porta, por clares frios ou rajadas geladas. Uma particularidade interessante e
pitoresca deste gnero de habitao  a desmesurada grandeza das aranhas.
     A esquerda da porta de entrada, do lado do boulevard, havia  altura de um
homem uma trapeira tapada, formando um nicho quadrado, que os rapazes que
passavam tinham enchido de pedras.
     Ultimamente foi demolida uma parte deste edifcio, mas, pelo que ainda resta,
pode julgar-se do que aquilo foi. O conjunto do edifcio no tem mais de cem
anos de existncia. Cem anos  a juventude de uma igreja e a velhice de uma casa.
Parece que a morada do homem participa da sua brevidade e a de Deus da sua
eternidade.
     Os carteiros chamavam quele casebre o nmero 50-52, porm ele era
conhecido no stio pelo nome do casebre de Gorbeau.
     Digamos de onde lhe vinha esta denominao.
     Os curiosos de histriazinhas, que coligem anedotas como um botnico
plantas para um ervrio, e que gravam na memria com um alfinete as datas
fugazes, sabem que no sculo passado, pelo ano de 1770, existiam em Paris dois
procuradores do Chatelet, chamados, um, Corbeau (corvo), outro Renard
(raposa), dois nomes previstos por Lafontaine. Demasiado bela era a ocasio para
que os ms lnguas no dessem expanso aos seus chascos motejadores, e por isso
a seguinte pardia, em versos de p quebrado, correu logo de boca em boca:
     Estava mestre Corvo de uma vez Empoleirado em cima de uma cadeira,
Sustentando voraz, no adunco bico, Lucrativa sentena executaria:
     Mestre Raposa, em tretas rico, Cheirando-lhe de longe a chuchadeira, Acode
com presteza, e esta histria A mestre Corvo impinge, ora escutai-a; - Ol, bom dia,
amigo, etc.,
     Os dois honrados procuradores perseguidos pelos dichotes e perturbados no
empertigado da postura pelas gargalhadas que os seguiam, decidiram desfazer-se
dos nomes que tinham, e para isso resolveram dirigir-se ao rei. O requerimento
foi apresentado a Lus XV, no mesmo dia em que, de um lado o nncio do Papa,
do outro o cardeal de Roche-Aymon, ambos devotamente ajoelhados, ajudaram a
calar as chinelinhas a Madame Dubarry em presena de Sua Majestade, quando
aquela se levantou. O rei, que estava a rir, continuou a rir, passou alegremente dos
dois bispos para os dois procuradores e concedeu aos dois becas a graa pedida ou
pouco menos.
     A mestre Corbeau foi-lhe permitido pelo rei acrescentar uma cauda  sua
inicial e chamar-se Gorbeau; mestre Renard, porm, foi menos feliz; apenas pde
obter pr um P antes do R e chamar-se Prenard, de modo que o segundo nome
pouco diferia do primeiro.
      Ora, segundo a tradio local, este mestre Gorbeau tinha sido dono do
casebre nmero 50-52, situado no boulevard do Hospital, e era ele at o autor da
janela monumental.
      Daqui provinha, pois, ao casebre de que nos ocupamos, o nome de casa de
Gorbeau.
      Defronte do nmero 50-52 eleva-se, entre as plantaes do boulevard, um
olmo meio seco; quase em frente abre-se a barreira dos Gobelins, rua sem casas
ento, por calar, plantada de rvores enfezadas, verde ou lamacenta, consoante a
estao, que ia terminar em ngulo recto no muro de circunvalao de Paris. Dos
telhados de uma fbrica prxima saem baforadas com um pronunciado cheiro a
caparrosa.
      A barreira ficava ao p e em 1823 ainda existia o muro de circunvalao.
      S a barreira de per si lanava no esprito figuras funestas. Era aquele o
caminho de Bictre. Era por ela que no tempo do imprio e no da restaurao
entravam os sentenciados no dia da execuo. Foi ali que se cometeu o misterioso
assassnio chamado da barreira de Fontainebleau, cujos autores nunca a justia
pde descobrir, problema fnebre jamais resolvido, enigma horroroso jamais
decifrado. Andai mais alguns passos e encontrareis essa rua fatal de Croulebarbe,
onde Ulbach apunhalou a cabreira de Yvry, ao ribombar do trovo, como num
melodrama. Mais alguns passos ainda, e chegars aos abominveis olmos
decotados da barreira de S. Tiago, esse expediente dos filantropos para esconder o
cadafalso, essa mesquinha e vergonhosa praa de Greve de uma sociedade de
lojistas e burgueses, que recuou diante da pena de morte, sem ousar aboli-la com
grandeza, nem conserv-la com autoridade.
      H trinta e sete anos, pondo de parte a praa de S. Tiago, que era um como
lugar predestinado e que foi sempre horrvel, o ponto mais tristonho talvez
daquele tristonho boulevard era o stio, ainda hoje to aprazvel, onde ficava o
casebre nmero 50-52.
      As casas burguesas s dali a vinte e cinco anos  que principiaram a
despontar.
      Era triste aquele lugar. Alm das ideias fnebres, que se vos apossavam do
esprito, senteis-vos entre a Salptrire, cujo zimbrio se entrevia, e Bictre, cuja
barreira se tocava, quer dizer, entre a loucura da mulher e a loucura do homem.
Por mais longe que se estendesse a vista, s se avistavam os matadouros, o muro
de circunvalao e as vrias fachadas de algumas fbricas, que pareciam quartis
ou mosteiros; por toda a parte barracas e entulho, paredes velhas, negras como
mortalhas, paredes novas, brancas como lenis; por toda a parte fileiras de
rvores paralelas, casebres alinhados, construes chatas, compridas linhas frias e
a tristeza lgubre dos ngulos rectos. Nem um bocado de terreno acidentado, nem
um capricho de arquitectura, nem uma ruga.
      Era um conjunto glacial, regular, medonho. No h coisa que mais confranja
o corao do que a simetria.  que a simetria  o aborrecimento e o aborrecimento
 exactamente a essncia da tristeza. A desesperao boceja. Pode sonhar-se uma
coisa mais terrvel do que o inferno em que se sofre  o inferno em que
estivssemos condenados ao aborrecimento. Se tal inferno existisse, aquele pedao
de boulevard do Hospital podia ser a sua entrada.
      Todavia, ao cair da noite, na ocasio em que do horizonte foge a claridade,
principalmente de Inverno,  hora em que a brisa crepuscular arranca aos olmos
as suas ltimas folhas amareladas, quando  profunda a noite e se no v no cu
uma estrela, quando o vento, rasgando as nuvens, deixa passagem ao claro
mortio daquela grande lmpada funerria, chamada a lua, aquele boulevard
tornava-se de repente medonho. As linhas negras entranhavam-se e perdiam-se
nas trevas, como traos, de infinito, e o que por ali passava no podia deixar de
pensar nas inumerveis tradies patibulares do stio. A solido daquele local, em
que se haviam cometido tantos crimes, tinha alguma coisa de terrvel.
      Julgava-se pressentir algum lao naquela escurido, pareciam suspeitas todas
as formas confusas da sombra, e os amplos espaos quadrados entre rvore e
rvore figuravam-se covas. De dia era um espectculo feio, de tarde lgubre, de
noite sinistro.
      De Vero via-se  luz do crepsculo algumas velhas, quase sempre
mendigando, sentadas no sop dos olmos, em bancos cobertos pela chuva de uma
crusta esverdeada.
      Este bairro, porm, cujo aspecto mais era de soberania do que de velhice,
tendia ento a transformar-se. Nessa poca devia-se apressar quem o quisesse ver,
pois cada dia desaparecia alguma circunstncia daquele conjunto. H vinte anos
que o embarcadouro do caminho de ferro de Orles actua no antigo arrabalde e
todos sabem que onde quer que se coloque, na extrema de uma capital, o
embarcadouro de um caminho de ferro  a morte de um arrabalde e o nascimento
de uma cidade. Parece que em roda desses centros do movimento dos povos, ao
rodar dessas poderosas mquinas, ao resfolegar desses monstruosos cavalos da
civilizao que comem carvo e vomitam fogo, treme a terra cheia de germens e se
abre para tragar as antigas moradas dos homens e deixar sair as novas. Desabam
as casas velhas e as novas sobem.
      Desde que a estao do railway de Orles invadiu os terrenos de Salptrire,
as antigas ruas estreitas prximas aos fossos de S. Vtor e ao Jardim das Plantas
abalam-se violentamente, atravessadas trs ou quatro vezes cada dia por essa
torrente de diligncias, coches e nibus, que a um tempo dado apertam as casas
para a esquerda ou para a direita; pois h a enunciar coisas extravagantes, que
rigorosamente so exactas, e do mesmo modo que  verdadeiro dizer-se que o sol
nas grandes cidades faz vegetar e crescer as fachadas das casas, ao meio-dia, 
tambm certo que a passagem frequente das carruagens alarga as ruas. So
evidentes os sintomas de uma vida nova.
      Naquele antigo bairro provincial, nos recantos mais selvagens, mostra-se a
calada, os passeios principiam a rastejar e a alongar-se, mesmo por onde ainda
no passa gente.
      Numa manh de Julho de 1845, manh memorvel, viram-se de repente
fumegar ali os caldeires negros do betume; naquele dia podia-se dizer que a
civilizao tinha chegado  rua da Ourcine e que Paris entrara no arrabalde de S.
Marcal.



    II
    Ninho de um mocho e de uma cotovia



     Foi em frente daquele casebre de Gorbeau que Joo Valjean parou.
     Como as aves noctvagas, tinha escolhido aquele lugar deserto para nele fazer
o seu ninho.
     Joo Valjean meteu a mo no bolso do colete, tirou uma espcie de gazua,
abriu a porta, entrou, depois fechou-a com cuidado e subiu a escada ainda com
Cosette ao colo.
     No cimo da escada tirou do bolso nova chave e abriu outra porta, que tornou
imediatamente a fechar. O quarto para que entrou era uma espcie de sto,
bastante espaoso, cuja moblia consistia num colcho deitado no cho, numa
mesa e algumas cadeiras. A um canto ficava um fogo, que se via aceso na ocasio
em que falamos.
     Toda esta pobre manso era vagamente alumiada pelo claro do lampio do
boulevard. Ao fundo havia um gabinete com uma cama de lona, para a qual Joo
Valjean levou a criana, deitando-a nela sem que Cosette acordasse.
     Depois feriu lume e acendeu uma vela; tudo isto estava preparado de antemo
em cima da mesa, e, como na vspera fizera, ps-se a contemplar Cosette com um
olhar extasiado, em que a expresso da bondade e do enternecimento tocava as
raias do desvairamento. A pequenina, com essa extrema confiana tranquila,
adormecera sem saber com quem estava e continuava a dormir sem saber onde
estava.
     Joo Valjean curvou-se ento e beijou a mo da criana. Nove meses havia
que ele beijara a mo da me, no momento tambm em que ela adormecera.
     O mesmo sentimento doloroso, religioso e pungente de ento lhe enchia o
corao.
     Aps aquele beijo, Joo Valjean ajoelhou junto ao leito de Cosette.
     Era dia claro e Cosette ainda dormia. Um plido raio do Sol de Dezembro
penetrava pela janela do sto, arrastando pelo tecto compridos filamentos de
sombra e luz. De repente, uma carreta de cabouqueiro, pesadamente carregada,
que passava pela calada do boulevard, abalou as paredes do casebre, como o rugir
de uma tempestade, fazendo-o estremecer de cima at baixo, e Cosette, acordada
de chofre, gritou sobressaltada:
     - Senhora! Eu j aqui vou, eu j aqui vou!
     E deitou-se abaixo da cama com as plpebras meio fechadas pelo peso do
sono, estendendo o brao para o recanto da parede.
     - Ai! Jesus Senhor, que no encontro a vassoura! - disse ela.
     Porm, abrindo de todo os olhos, viu o rosto risonho de Joo Valjean e disse:
     - Ai,  verdade! Muito bons dias, meu senhor.
     As crianas aceitam logo, e familiarmente, a alegria e a ventura, porque elas
mesmo so ventura e alegria.
     Mal Cosette avistou a boneca aos ps da cama, pegou nela, fazendo, ao
mesmo tempo que brincava, mil perguntas a Joo Valjean. Perguntou-lhe onde
estava; se Paris era grande; se estava bem longe da Thenardier; se ela voltaria; etc.,
etc.
     De sbito, exclamou:
     - Como isto aqui  bonito.
     Era uma suja pocilga, mas Cosette sentia-se livre.
    - Quer que eu varra? - tornou ela por fim.
    - No, brinca - disse Joo Valjean.
    Assim se passou o decurso do dia. Cosette, sem lhe dar cuidado saber coisa
nenhuma, era inexprimivelmente feliz entre aquela boneca e aquele velho.



    III
    Duas desgraas juntas fazem uma ventura



     No dia seguinte, quando amanheceu, ainda Joo Valjean estava junto da cama
de Cosette, esperando imvel que ela acordasse.
     Joo Valjean sentia penetrar-lhe na alma um sentimento desconhecido.
     Aquele homem nunca tinha amado.
     Havia vinte e cinco anos que se via s no mundo, sem nunca ter sido pai,
amante, marido ou amigo. Nas gals era mau, sombrio, casto, ignorante e
insocivel.
     Estava cheio de virgindades o corao daquele velho forado. Sua irm e os
filhos de sua irm haviam-lhe deixado apenas uma recordao vaga e longnqua,
que viera por fim a desvanecer-se quase completamente. Fizera todos os esforos
para dar com eles, porm, como nunca o pde conseguir, esqueceu-os.  assim
feita a natureza humana.
     As outras impresses ternas da sua mocidade, se  que as tivera, haviam cado
num abismo.
     Quando viu Cosette, quando a tomou, arrebatou e libertou, sentiu
revolverem-se-lhe as entranhas. Todo o fogo de que era susceptvel o seu corao,
toda a intensidade do afecto que podia votar a um ser humano, se lhe despertou,
precipitando-se para aquela criana. Acercava-se da cama em que ela dormia e
tremia de alegria, experimentava emoes maternas.  uma coisa bem obscura e
agradvel esse grande e estranho movimento de um corao que principia a amar.
     Pobre corao aquele, que pulsava como novo num peito de velho Como ele,
porm, tinha cinquenta e cinco anos e Cosette oito, todo o amor que poderia ter
em toda a sua vida fundiu-se numa espcie de claro inevitvel.
     Era aquela a segunda apario branca que ele encontrava.
     O bispo fizera-lhe nascer no seu horizonte a aurora da virtude; Cosette
fazia-lhe nascer nele a aurora do amor.
      Neste deslumbramento decorreram os primeiros dias.
      Pela sua parte, Cosette tornava-se outra tambm, sem disso dar f, pobre
entezinho! Quando sua me a deixou, era to pequena que j no se lembrava
dela.
      Como todas as crianas semelhantes aos rebentos da vinha que a tudo se
agarram, Cosette tentara amar, porm no pde chegar a consegui-lo. Todos a
haviam repelido, os Thenardier, os filhos e as outras crianas. Amara o co, mas
este morrera, e aps isto, nem pessoas nem coisas se importaram com ela.
Lgubre coisa por ns j indicada, aquela criana aos oito anos tinha o corao
frio. No era por culpa dela, nem porque lhe faltasse a faculdade de amar; ai, era a
possibilidade. De modo que, desde o primeiro dia, tudo o que nela pensava e
sonhava, principiou a amar aquele velho.
      Experimentava o que nunca sentira uma sensao semelhante  da flor
quando desabrocha.
      O prprio Joo Valjean no lhe produzia o efeito de um velho ou de um
pobre.
      Achava-o belo, do mesmo modo que achava bonito o albergue miservel em
que estava.
      So efeitos estes produzidos pela aurora, pela infncia, pela juventude, pela
alegria. Concorre para eles a novidade da terra e a da vida.
      No h coisa mais encantadora do que o colorido reflexo da ventura sobre as
guas-furtadas. Todos ns assim temos no nosso passado uma mansarda azul.
      A natureza, cinquenta anos de intervalo, haviam posto uma separao
profunda entre Joo Valjean e Cosette, separao que o destino preencheu. O
destino uniu repentinamente e desposou com o irresistvel poder aquelas duas
existncias sem razes, diferentes pela idade, s pelo luto semelhantes.
Efectivamente uma completava a outra. O instinto de Cosette procurava um pai
como o instinto de Joo Valjean procurava um filho. Encontrarem-se foi
acharem-se. Soldaram-se-lhes as mos no momento misterioso em que se
tocaram. Quando aquelas duas almas se avistaram, reconheceram-se como sendo
a necessidade uma da outra e abraaram-se estreitamente.
      Podia-se dizer, tomando as palavras no sentido mais compreensivo e
absoluto, que separados de tudo pela, barreira de um tmulo, Joo Valjean era o
vivo como Cosette era a rf. Esta situao fez com que Joo Valjean se tornasse
de um modo celeste o pai de Cosette.
      E, em verdade, a misteriosa impresso produzida em Cosette, no meio do
bosque de Chelles, pela mo de Joo Valjean, ao travar-lhe da dela, por entre a
escurido da noite, no era uma iluso, mas uma realidade. A entrada daquele
homem no destino daquela criana fora a chegada de Deus.
     Por ltimo, acrescentaremos que Joo Valjean escolhera bem o seu asilo, pois
estava nele numa segurana que podia parecer completa.
     O quarto com alcova que ele ocupava com Cosette era o que tinha a janela
que dava para o boulevard, e como esta era a nica que havia na casa, no tinha
ele a recear os olhares dos vizinhos, tanto dos lados como da frente. O rs-do-cho
da casa nmero 50-52, espcie de telheiro, em runas, servia de guarida a hortelos
e no tinha comunicao com o primeiro andar, pois ficava separado deste pelo
soalho, em que no havia alapo nem escada, sendo como que o diafragma do
edifcio. O primeiro andar continha como dissemos, muitos quartos e mansardas,
s um dos quais era ocupado por uma velha que era quem tratava da casa de Joo
Valjean. O resto estava todo por habitar.
     Fora essa velha, ornada com o ttulo de principal locatria, e na realidade
encarregada das funes de porteira, quem lhe alugara aquele domiclio em dia de
Natal, inculcando-se-lhe ele como um rendeiro arruinado pelos vales de Espanha,
que pretendia ir para ali morar com uma filhinha. Joo Valjean pagara seis meses
adiantados, encarregando a velha de mobilar o quarto e o gabinete do modo que
se viu. Fora esta boa mulher quem acendera o fogo e preparara tudo na noite da
sua chegada.
     Sucederam-se as semanas. Aqueles dois entes passavam uma existncia feliz
naquele miservel aposento.
     Cosette logo pela manh comeava a rir, a brincare a cantar. As crianas tm
o seu canto de manh como as aves.
     Joo Valjean, s vezes travava-lhe da vermelha e engelhada mozinha e
beijava-lha, porm, a pobre criana, afeita a ser espancada, no sabia o que isto
queria dizer e retirava-a toda envergonhada.
     s vezes tornava-se sria e punha-se a contemplar o seu vestido preto.
Cosette j no andava coberta de andrajos, andava de luto; saa da misria e
entrava na vida.
     Joo Valjean comeava a ensinar-lhe a ler. s vezes, quando estava a faz-la
soletrar, lembrava-se de que fora com a ideia de praticar o mal que aprendera a ler
nas gals, ideia que aproveitava para ensinar a ler a uma criana, e ento o velho
forado sorria com esse sorriso pensativo dos anjos.
     Sentia nisto uma premeditao superior, uma vontade de algum sem ser o
homem, e perdia-se em fundas cogitaes. Os bons pensamentos tm seus
abismos como os maus.
     A vida de Joo Valjean quase se cifrava em ensinar Cosette a ler e deix-la
brincar, e, alm disto, em lhe falar da me e faz-la rezar.
     A pobre criana chamava-lhe pai e no lhe sabia outro nome.
     Joo Valjean passava horas inteiras a v-la vestir e despir a boneca, a ouvi-la
chilrear. Parecia-lhe agora cheia de interesse a vida, afiguravam-se-lhe bons e
justos os homens, j no descobria razo nenhuma para no poder chegar a muito
velho, agora que aquela criana o amava. Via diante de si um futuro iluminado
por Cosette como por uma luz encantadora. Os melhores homens no so isentos
de um pensamento egosta. Joo Valjean lembrava-se s vezes com uma espcie de
alegria que talvez ela viesse a ser feia.
     Isto  apenas uma opinio pessoal, mas para dizermos todo o nosso
pensamento, no ponto em que se achava Joo Valjean, quando principiou a amar
Cosette, no nos parece bem provado que ele no tivesse necessidade desta
revivificao para perseverar no bem. Ele acabava de ver sob novos aspectos a
maldade dos homens e a misria da sociedade, aspectos incompletos, que no
mostravam fatalmente seno um lado da verdade, a sorte da mulher resumida em
Fantine, a autoridade pblica personificada em Javert; voltara s gals, desta vez
por haver praticado o bem; tinham-lhe torturado o corao novas amarguras;
apossava-se dele outra vez o tdio e o cansao; at a mesma recordao do bispo
tinha talvez um momento de eclipse, para aparecer mais tarde luminosa e
triunfante; mas, enfim, esta recordao sagrada ia enfraquecendo. Quem sabe se
Joo Valjean estaria em vsperas de perder a coragem e cair de novo? Amou,
tornou-se forte. Ah! Porm no estava de novo menos vacilante do que Cosette.
Ele protegeu-a e ela fortaleceu-o. Por influncia dele, ela pde caminhar pela
senda da vida; por influncia dela, ele pde continuar na virtude. Ele foi o
sustentculo daquela criana e aquela criana foi o seu ponto de apoio. 
insondvel e divino mistrio dos equilbrios do destino!



    IV
    No que repara a principal inquilina



    Joo Valjean tinha a prudncia de nunca sair de dia. Todos os dias, porm, ao
descer do crepsculo, passeava uma ou duas horas, s vezes s, muitas vezes com
Cosette, procurando as leas laterais dos boulevards mais solitrios e entrando nas
igrejas ao cair da noite. Joo Valjean gostava de ir a S. Mdard, que  a igreja mais
prxima. Quando no levava Cosette consigo, esta ficava com a velha, mas o
maior prazer da criana era sair com o velho, preferindo at uma hora com ele aos
deliciosos dilogos com Catarina, a preciosa boneca. Quando Joo Valjean saa
com ela conduzia-a pela mo, dizendo-lhe coisas agradveis.
     Era ento que Cosette estava no auge da alegria.
     A velha tratava do arranjo domstico, cozinhava e ia s compras.
     Viviam sobriamente, tendo sempre o fogo aceso, mas como pessoas pouco
abastadas. Joo Valjean em nada alterara a moblia do primeiro dia; s mandara
substituir por uma porta a vidraa do quarto em que Cosette dormia.
     O seu trajo consistia ainda no mesmo casaco amarelo, nos mesmos cales
pretos e no mesmo chapu velho. Na rua tomavam-no por um pobre,
acontecendo s vezes voltarem-se algumas boas mulheres e darem-lhe um soldo.
Joo Valjean recebia o soldo e saudava profundamente. Sucedia tambm outras
vezes ele encontrar algum miservel implorando a caridade, e ento olhava para
trs a ver se algum o via, acercava-se furtivamente do infeliz e metia-lhe na mo
uma moeda de cobre, e s vezes de prata, e afastava-se rapidamente. Isto, porm,
tinha os seus inconvenientes. Joo Valjean principiava a ser conhecido no bairro
pelo nome do pobre que d esmolas.
     A velha, principal locatria, criatura rabugenta e invejosamente curiosa das
vidas alheias, examinava muito Joo Valjean, sem ele dar f. Era um tanto surda, e
isto tornava-a tagarela. Restavam-lhe do seu passado dois dentes, um de baixo
outro de cima, que de contnuo batia um contra o outro. A velha fizera
minuciosas perguntas a Cosette, porm como esta no sabia nada, nada lhe pde
dizer, seno que vinha de Montfermeil. Um dia, pela manh, vendo a curiosa
velha entrar Joo Valjean para um dos compartimentos desabitados do casebre,
com um ar que lhe pareceu particular, seguiu-o com o passo de uma gata matreira
e pde observ-lo, sem ser vista, pela fenda da porta, em frente da qual ele se
achava de costas voltadas, sem dvida para maior precauo. Viu-o meter a mo
no bolso e tirar um agulheiro, umas tesouras e linhas, pr-se depois a descoser a
costura de uma das abas do casaco e tirar da abertura um bocado de papel
amarelado, que desdobrou, A velha reconheceu espantada que era uma nota de
mil francos, a segunda ou terceira que via em dias de sua vida e deitou a fugir
aterrada.
     Um momento depois, Joo Valjean chegou ao p dela e pediu-lhe que lhe
fosse trocar a nota de mil francos, acrescentando que era o semestre da sua renda,
o qual tinha recebido na vspera.
     Onde, disse consigo a velha, se ele no saiu seno s seis horas da tarde? A
essa hora j a pagadoria no est de certo aberta.
     A velha foi trocar a nota, fazendo pelo caminho as suas conjecturas. Esta nota
de mil francos, comentada e multiplicada, produziu muitas e animadas conversas
entre as senhoras vizinhas da rua das Vinhas de S. Maral.
     Num dos seguintes dias, Joo Valjean ps-se a serrar um pau no corredor, em
mangas de camisa. A velha andava a arrumar o quarto e achava-se s, porque
Cosette estava entretida a v-lo serrar. Como avistasse o casaco dependurado de
um prego, aproveitou o ensejo e revistou-o. A costura tornara a ser cosida. A boa
mulher apalpou-a com ateno e julgou sentir nas abas e nas cavas grossura de
papel. Mais notas de mil francos decerto!
     Notou mais a velha que os bolsos continham uma variedade de objectos. No
s as agulhas, as tesouras e as linhas, que ela vira, mas uma grande carteira, uma
enorme navalha, e circunstncia suspeita, grande nmero de cabeleiras de
variadas cores. Cada bolso daquele casaco parecia um como depsito de recursos
para acontecimentos imprevistos.
     Assim chegaram aos ltimos dias de Inverno os moradores do casebre.



    V
    Barulho que faz uma moeda de cinco francos caindo no cho



     Prximo de S. Mdard, sentado,  beira de um poo pblico abandonado,
estava um pobre a quem Joo Valjean gostava de dar esmola. Vez nenhuma
passava por junto dele sem lhe dar algum soldo. As vezes punha-se a falar com ele.
Diziam os seus invejosos que aquele mendigo pertencia  polcia. Era um velho
bedel de setenta e cinco anos, que no fazia seno rosnar oraes.
     Uma noite, Joo Valjean, que no tinha levado Cosette consigo, ia a passar
por aquele stio e avistou o mendigo no seu costumado pouso, ao reflexo de um
lampio que acabavam de acender. O homem, segundo o seu costume, parecia
rezar e estava curvado. Joo Valjean foi direito a ele e deitou-lhe na mo a
costumada esmola. O mendigo ergueu repentinamente os olhos, olhou para Joo
Valjean com fixidez e baixou rapidamente a cabea. Este movimento, que foi um
como relmpago, produziu um estremecimento em Joo Valjean. Pareceu-lhe que
acabava de entrever ao claro do lampio, no o plcido e devotado rosto do
velho, mas uma figura assustadora e conhecida, e sentiu a impresso que
experimentaria quem se achasse de repente frente a frente com um tigre na
escurido das sombras. Recuou, pois, terrificado e petrificado, sem ousar respirar
nem falar, sem se atrever a ficar nem a fugir, contemplando o mendigo, que
baixara a cabea coberta com um farrapo e que parecia no saber que ele ainda ali
estava. Naquela estranha ocasio, um instinto, talvez o instinto misterioso da
conservao, fez com que Joo Valjean no pronunciasse uma palavra. O mendigo
tinha o mesmo talhe, os mesmos andrajos, a mesma aparncia de todos os dias.
     - Ora!... - disse Joo Valjean. - Estou doido ou a sonhar!  impossvel!
     E recolheu a casa profundamente perturbado.
     Quase que nem a si mesmo ousava confessar que era o rosto de Javert o que
ele julgara ver.
     De noite, ao reflectir nisto, sentia no ter interrogado o homem para o
obrigar a levantar a cabea outra vez.
     No dia seguinte, ao cair da noite, voltou ao mesmo stio. L estava o mendigo
no seu lugar.
     - Boas tardes, bom homem - disselhe resolutamente Joo Valjean, dando-lhe
um soldo.
     O mendigo levantou a cabea e respondeu com voz lastimosa:
     - Muito obrigado, meu bom senhor.
     Era efectivamente o velho bedel.
     Joo Valjean sentiu-se plenamente tranquilizado e ps-se a rir. Como diabo
imaginei eu que este homem era Javert? disse ele consigo. Querem ver que eu
me tornei visionrio? Alguns dias depois, seriam oito horas da noite, estando ele
no seu quarto, a fazer Cosette soletrar em voz alta, ouviu abrir e depois fechar a
porta do casebre. Pareceu-lhe singular isto. A velha, que era a nica pessoa que
habitava a casa, alm dele, deitava-se sempre apenas anoitecia, para no gastar
vela. Fez sinal a Cosette para que se calasse e ouviu algum subir pela escada
acima. Podia muito bem ser a velha, que, havendo-se achado incomodada, tivesse
ido  botica. Joo Valjean ps-se  escuta.
     Eram pesados os passos e soavam como os de um homem, mas a velha
andava de sapatos grossos e no h nada mais parecido com o passo de um
homem do que o passo de uma velha. Todavia, Joo Valjean apagou a luz.
     Mandou deitar Cosette, dizendo-lhe em voz baixa:
     - Deita-te devagarinho.
     Quando, porm, estava a beij-la na testa, os passos pararam, Joo Valjean
ficou em silncio, imvel, com as costas voltadas para a porta, sentado numa
cadeira, no meio da escurido, sem ousar mexer-se, nem dar livre sada 
respirao. Ao cabo de bastante tempo, como no ouvisse mais nada, voltou-se
sem fazer barulho, e, ao lanar o olhar para a porta do quarto, viu uma luz pelo
buraco da fechadura, a qual desenhava uma espcie de estrela sinistra no escuro
da porta e da parede. Evidentemente estava ali algum escutando e com uma luz
na mo.
     Decorridos alguns minutos, a luz desapareceu. Joo Valjean, porm, no
ouviu barulho de passos, o que parecia indicar que quem tinha vindo escutar 
porta havia tirado os sapatos.
     Joo Valjean deitou-se completamente vestido para cima da cama, mas no
pde pregar olho em toda a noite.
     Ao romper do dia, quando ia a adormecer de cansao, foi acordado pelo
ranger de uma porta, que se abria em alguma mansarda do fundo do corredor, e
ouviu os mesmos passos de homem que no dia antecedente haviam subido a
escada. Os passos aproximavam-se. Levantou-se rapidamente e aplicou o olho
pelo buraco da fechadura, que era bastante grande, esperando ver, ao passar, a
pessoa que de noite entrara no casebre e lhe fora escutar  porta. Efectivamente
era um homem, que desta vez passou sem parar pelo quarto de Joo Valjean. O
corredor, porm, estava demasiado escuro para se lhe poder distinguir o rosto;
porm, ao chegar ao corredor, um raio de luz exterior tornou-o saliente como um
perfil e Joo Valjean viu-o completamente pelas costas. O homem era de estatura
elevada e trazia um casaco comprido e uma grossa bengala debaixo do brao. Era
o mesmo talho formidvel de Javert.
     Joo Valjean podia v-lo mais  vontade pela janela do seu quarto, que
deitava para o boulevard, porm era preciso abri-la, e Joo Valjean no se atreveu.
     Era evidente que aquele homem tinha entrado com uma chave e como que
em sua casa. Quem lhe havia dado a chave? Que queria aquilo dizer?
     s sete horas da manh, quando a velha veio arrumar o quarto, Joo Valjean
deitou-lhe um olhar penetrante, mas no a interrogou. A mulher apresentou-se
como de costume.
     - A noite passada o senhor no ouviu entrar ningum? - disse ela por fim
continuando a varrer.
    Naquele tempo e naquele boulevard, s oito horas  noite fechada.
    -  verdade, agora me lembro - respondeu ele com o acento mais natural -
quem era?
    -  um novo inquilino que h c em casa  disse a velha.
    - E como se chama?
    - Nem por isso o sei j muito bem.  Dumont ou Daumont, uma coisa assim.
    - E o que faz esse senhor Dumont?
    A velha encarou-o com os seus olhinhos de fuinha e respondeu:
    - Um rendeiro, como o senhor.
    A velha no teria talvez nenhuma inteno; porm, Joo Valjean, julgou
entrever-lhe uma.
    Apenas a velha saiu, Joo Valjean embrulhou num papel cem francos que
tinha num armrio e meteu-os no bolso. Por mais precaues, porm, que
tomasse nesta operao, para que no o ouvissem mexer em dinheiro, escapou-lhe
das mos uma moeda de cem soldos que rolou pelo soalho.
    Ao escurecer, desceu  porta da rua e olhou com ateno para todos os lados
do boulevard, porm no viu ningum. O boulevard parecia absolutamente
deserto.
    Verdade  que podia estar algum escondido atrs das rvores.
    Depois tornou a subir e disse para Cosette:
    - Anda da.
    Pegou-lhe na mo e acto contnuo saram de casa.
    LIVRO QUINTO
    Para caada tenebrosa matilha silenciosa



    I
    Ziguezagues estratgicos



     Necessria se torna aqui uma observao para inteligncia do que vai ler-se e
do que mais adiante se ver.
     Bastantes anos h j que o autor deste livro, com pesar obrigado a falar de si,
vive ausente de Paris. Depois que ele de l saiu, Paris transformou-se; surgiu uma
nova cidade, que de certo modo lhe  desconhecida. Escusado  dizer que ama
Paris, porque Paris  a cidade natal do seu esprito. Em virtude, porm, das
demolies e reconstrues, o Paris da sua juventude, esse Paris que ele
religiosamente tem trazido sempre gravado na memria,  a esta hora um Paris de
outro tempo. Permitam-lhe falar desse Paris, como se ele ainda existisse. Possvel
 que onde o autor conduzir os leitores, dizendo-lhes: Em tal rua h tal casa, j
hoje no exista nem casa nem rua.
     Eles que verifiquem, se se quiserem dar a esse trabalho, que, pelo que lhe
respeita, ignora o Paris novo e escreve com o Paris antigo  vista duma iluso para
ele preciosa.
     -lhe doce a lembrana de que atrs dele ficou alguma coisa do que viu
quando estava na sua terra, e que nem tudo se desvaneceu. Enquanto a gente pisa
o solo da ptria, imagina que lhe so indiferentes aquelas ruas; sem valor aquelas
janelas, aqueles tectos e aquelas portas; estranhas aquelas paredes; como quaisquer
outras aquelas rvores com que deparamos no nosso caminho; inteis as casas em
que entramos, simples pedras o pavimento em que pousamos os ps. Mais tarde,
quando um sbito esforo da desgraa nos quebra os laos que nos prendiam ao
pas natal, vemos ento que aquelas ruas nos so caras; que nos faltam aqueles
tectos, aquelas janelas e aquelas portas; que nos so necessrias aquelas paredes;
nossas bem amadas aquelas rvores; que naquelas casas, em que no entrvamos,
todos os dias entrvamos; e que pegado quele solo, que j no pisamos, deixamos
parte das nossas entranhas, do nosso sangue e do nosso corao. Todos esses
lugares, que j no vemos, que talvez no tornaremos a ver, tomam para ns um
doloroso encanto, vem-nos  lembrana com a melancolia de uma apario,
tornam-nos visvel a terra santa, e so, para assim dizer, a prpria forma da
Frana; e amamo-los e evocamo-los tais quais eles so, tais quais eles eram, e
obstinamo-nos neles e no os queremos alterar em nada, porque nos afeioa-mos
 figura da ptria como ao rosto de uma me.
     Seja-nos lcito falar do passado no presente. Dito isto, pedimos ao leitor que o
tome em nota e continuamos.
     Joo Valjean deixara logo o boulevard e embrenhara-se pelas ruas, dando o
maior nmero de voltas que podia e voltando s vezes atrs a ver se algum o
seguia.
      manobra prpria do veado perseguido pela matilha. Nos terrenos em que
podem ficar impressas as pegadas, tem esta manobra, entre outras vantagens, a de
enganar no rasto os caadores e os ces. Chama-se a isto na arte venatria retirada
falsa.
     Era uma noite de Lua cheia, com o que Joo Valjean bem pouco se dava. A
Lua, ainda muito prxima do horizonte, projectava nas ruas grandes lanos de
sombra e luz. Joo Valjean podia, pois, deslizar ao longo das casas e das paredes,
observando do lado escuro a parte clara. Talvez ele, porm, no reflectisse bem
que lhe ficava por sondar convenientemente o lado escuro; todavia, em todos os
becos desertos prximos  rua de Poliveau, julgou com toda a certeza que
ningum ia atrs dele.
     Cosette caminhava sem fazer perguntas. Os sofrimentos dos seis primeiros
anos da sua vida tinham introduzido alguma coisa de passivo na sua natureza.
Alm disso e  este um reparo do qual mais do que uma vez teremos ocasio de
nos ocuparmos - estava acostumada, sem bem ter conscincia disso, s
singularidades do velho e s extravagncias do destino. Finalmente, sentia-se em
segurana, estando com ele.
     Joo Valjean no sabia melhor do que Cosette para onde ia. Confiava-se a
Deus, como ela se confiava a ele. Parecia-lhe que tambm um ser maior do que ele
lhe travava da mo e julgava sentir que um ente invisvel o conduzia. Finalmente,
no tinha nenhum propsito deliberado, nenhum plano, nenhum projecto. Nem
mesmo tinha a certeza de que aquele homem fosse Javert, e quanto mais, podia ser
Javert, sem que Javert soubesse que ele era Joo Valjean, Pois no andava
disfarado? No o supunham morto? Contudo, passavam-se coisas, havia alguns
dias, que se tornavam singulares. No lhe era preciso mais. Estava determinado a
no tornar a pr os ps na casa de Gorbeau. Como um animal expulso do covil,
procurava uma cova para se esconder at encontrar outra onde se alojasse.
     Joo Valjean descobriu grande nmero de variados labirintos no bairro de
Mouffetard, j adormecido como se ainda tivesse a disciplina da idade mdia e o
jugo do toque a recolher, combinando de diversos modos, em sbias estratgias, a
rua de Censier com a rua de Copeau, a rua do Passeio de S. Vtor com a do Poo
do Ermito.
     No falta por estes stios quem alugue quartos mobilados, Joo Valjean,
porm, nem neles entrou, porque no achou o que lhe convinha. Uma coisa que
ele tinha como fora de dvida era que, ainda quando por acaso lhe tivessem
andado em busca do rasto, lho tinham perdido.
     Ao dar onze horas em Santo Estvo do Monte, atravessava ele a rua de
Pontoise, em frente do comissariado da polcia, que fica na casa nmero 11.
Alguns instantes depois, o instinto obrigou-o a voltar-se e  luz do lampio do
comissariado, que os punha a descoberto, viu distintamente passarem por baixo
do dito lampio do lado da rua que estava em trevas trs homens que o seguiam
de muito perto. Um dos trs homens entrou no corredor da casa do comissrio. O
que caminhava na frente pareceu-lhe com toda a certeza suspeito.
     - Anda, filha - disse ele para Cosette, deixando com presteza a rua de
Pontoise.
     Para isso fez um rodeio, contornou a passagem dos Patriarcas, que estava
fechada pelo adiantado da hora, percorreu com ligeireza a rua da Espada de Pau e
a do Arete e meteu-se pela das Postas, onde h um beco, em que hoje est o
colgio Rollin, e ao qual vem sair a rua Nova de Santa Genoveva.
     (Convm dizer que a rua Nova de Santa Genoveva  uma rua antiga e que
pela rua das Postas nem de dez em dez anos passa uma sege de posta. Esta rua das
Postas, no sculo XIII, era habitada por oleiros e o seu verdadeiro nome  o de rua
dos Potes).
     A Lua lanava neste beco uma luz viva. Joo Valjean escondeu-se numa porta,
calculando que, se os homens ainda o seguissem, no podia deixar de os ver, ao
passarem por aquela claridade.
     Efectivamente, no eram decorridos trs minutos, quando os homens
apareceram. Agora, porm, eram quatro, todos de estatura elevada, vestidos com
compridos casaces pardos, de chapus redondos e grossas bengalas nas mos.
No era menos assustadora a sua marcha sinistra nas trevas do que a sua grande
estatura e a desmesurada grandeza dos seus punhos. Dir-se-ia quatro espectros
disfarados em burgueses.
     No meio do beco pararam e juntaram-se em grupo como que a consultar-se.
     Tinham ar indeciso. O que parecia gui-los voltou-se e apontou
acaloradamente com a mo direita na direco do lugar onde Joo Valjean estava
escondido; outro parecia indicar com obstinao a direco contrria. No instante
em que o primeiro se voltou, a Lua bateu-lhe em cheio no rosto e Joo Valjean
reconheceu perfeitamente Javert.



    II
     uma felicidade passarem veculos pela ponte de Austerlitz



     A incerteza cessou para Joo Valjean; mas felizmente durava ainda para os
homens misteriosos. Aquele aproveitou-se da hesitao destes; tempo perdido
para uns, e ganho pelo outro. Joo Valjean saiu da porta em que se ocultara e
meteu-se pela rua das Postas na direco do Jardim das Plantas. Cosette comeava
a sentir-se fatigada; Joo Valjean tomou-a nos braos e continuou a caminhar.
No encontrou vivalma e os candeeiros, por haver luar, no tinham sido acesos.
     Joo Valjean apertou o passo. Em poucos minutos chegou  fbrica de loia
de Goblet, em cuja fachada o luar tornava distintamente legvel a sua velha
inscrio: Ao grande fabricante Goblet filho Correi, vinde comprar: tubos de grs.
     Tijolos, bilhas, vasos, bom ladrilho, A preos de espantar qualquer fregus.
     Deixou atrs de si a rua da Chave, depois a fonte de S. Vtor, caminhou ao
longo do Jardim das Plantas e chegou ao cais. Ali olhou para trs. O cais e as ruas
estavam desertas. No vendo ningum atrs de si respirou fundo e dirigiu-se por
fim  ponte de Austerlitz. Naquela poca existia ali o direito de portagem,
portanto entrou na casa do empregado encarregado de o cobrar e deu-lhe um
soldo.
     - So dois soldos - disse o invlido da ponte.
     Leva consigo uma criana que pode andar, por conseguinte h-de pagar por
ela.
     Joo Valjean pagou, mas sentiu-se contrariado de que a sua passagem pela
ponte desse lugar a uma observao. Toda a espcie de fuga deve evitar incidentes.
     Ao mesmo tempo que ele, uma grande carroa passava o Sena para a margem
direita. Esta coincidncia foi muito til: pde atravessar toda a ponte abrigado
pela sombra da carroa.
     Quase no meio da ponte, Cosette, que tinha os ps dormentes, manifestou
desejos de andar; ele p-la no cho e travou-lhe da mo outra vez.
     Transposta a ponte, avistou  direita umas estncias de madeira e
encaminhou-se para elas. Para chegar, porm, ao stio em que elas ficavam era
preciso aventurar-se por um espao bastante largo, que estava a descoberto e
completamente alumiado.
     No hesitou. Evidentemente os que o perseguiam tinham-lhe perdido o rasto,
e por isso, Joo Valjean julgava-se livre de perigo. Procurado, sim; seguido, no.
     Entre duas estncias de madeira, cercadas por uma parede, abria-se uma
ruazinha, a rua do Caminho Verde de Santo Antnio, estreita, escura e como que
feita de propsito para ele. Antes, porm, de se meter por ela, olhou para trs.
     Do stio em que estava via a ponte de Austerlitz em toda a sua extenso.
     Acabavam de entrar na ponte quatro sombras, que voltavam as costas ao
Jardim das Plantas e se dirigiam para a margem direita.
     Estas quatro sombras eram os quatro homens.
     Joo Valjean sentiu o estremecimento do animal que  apanhado de novo.
     Restava-lhe, porm, uma esperana: era que talvez aqueles homens no
tivessem ainda entrado na ponte, nem o tivessem avistado na ocasio em que, com
Cosette pela mo, atravessara o grande espao iluminado.
     Nesse caso, metendo-se pela ruazinha que tinha  sua frente, se conseguisse
chegar s estncias de madeira, aos pntanos, aos campos, aos stios sem casas,
podia escapar.
     Pareceu-lhe digna de confiana aquela ruazinha silenciosa e meteu-se por ela.



    III
    Veja-se a planta de Paris em 1827



     Ao cabo de trezentos passos, chegou a um lugar em que a rua se bifurcava,
dividindo-se em duas, uma que ladeava  esquerda, outra  direita. Joo Valjean
tinha diante de si como que as duas hastes de um Y. Qual delas escolher?
     Tomou pela direita sem hesitaes.
     Porqu?
     Porque a ramificao esquerda conduzia para o arrabalde, isto , para os
lugares habitados, e a direita para o campo, para os lugares desertos.
     A este tempo, porm, j no caminhavam com tanta rapidez. O passo de
Cosette fazia afrouxar o de Joo Valjean, o que o obrigou a pegar nela ao colo
outra vez.
     Cosette apoiava a cabea no ombro do velho, sem dizer palavra.
     De tempos a tempos, ele voltava-se e olhava, tendo sempre o cuidado de se
conservar do lado escuro da rua. At ao ponto em que ele se achava, a rua no
fazia curvas. Das duas ou trs primeiras vezes que se voltou no viu nada, era
profundo o silncio, e por isso continuou o seu caminho um tanto mais
tranquilizado. De repente, em certa ocasio em que se voltou, pareceu-lhe ver ao
longe, na parte da rua por onde acabava de passar, uma coisa a mover-se no meio
da escurido.
     Joo Valjean no andou, precipitou-se para a frente, esperando encontrar
algum beco transversal para onde se evadisse e que lhe perdessem o rasto mais
uma vez.
     Foi dar ao p de um muro.
     Este muro, contudo, no impedia que se passasse alm: orlava um beco
transversal no qual terminava a rua por onde tomara Joo Valjean.
     Ainda aqui foi-lhe necessria uma resoluo: tomar pela esquerda ou pela
direita.
     Olhou para a direita. O beco prolongava-se tortuoso por entre casas, que
eram cocheiras ou celeiros, mas no tinha sada. Via-se distintamente a parede
que o fechava.
     Olhou para a esquerda. O beco deste lado era aberto e ao cabo de uns
duzentos passos desembocava numa rua de que era afluente. Era deste lado que
estava a salvao.
     No momento em que Joo Valjean se decidiu a voltar para a esquerda, para
alcanar a rua que entrevia no extremo do beco, avistou na esquina que ele
formava para aquela rua, uma espcie de esttua negra e imvel.
     Era um homem que evidentemente acabava de ali ser postado e que estava 
espera, impedindo a passagem.
     Joo Valjean recuou.
     O ponto de Paris em que Joo Valjean se achava, situado entre o arrabalde de
Santo Antnio e a Rape,  do nmero dos que os trabalhos recentes
transformaram completamente, afeando-os, segundo uns, segundo outros
transfigurando-os. Os campos, as estncias de madeira, as casas velhas,
desapareceram para dar lugar a grandes ruas novas, a arenas, circos e hipdromos,
a estaes de caminhos de ferro, a uma priso, Mazas; finalmente, como se v, ao
progresso com o seu correctivo.
     H meio sculo, nessa linguagem popular, toda formada de tradies, que
teima em chamar ao Instituto as Quatro Naes e Faydeau  pera-Cmica, o
stio a que Joo Valjean chegara chamava-se o Petit-Picpus. Porta de S. Tiago,
porta de Paris, barreira dos sargentos, Porcherons, Galeota, Celestinos,
Capuchinhos, Mail, Bourbe, a rvore de Cracvia, Pequena Polnia, Petit-Picpus,
so os nomes, do velho Paris sobrenadando no novo. A memria do povo flutua
sobre estes fragmentos do passado.
     O Petit-Picpus, que mal existiu, pois nunca passou do esboo de um bairro,
tinha quase o aspecto monacal de uma cidade espanhola. Os caminhos eram mal
nivelados, as ruas mal caladas. Exceptuando as trs ruas de que vamos falar, tudo
o mais eram paredes e solido. Nem uma loja, nem uma carruagem; apenas
alguma luz a uma janela ou outra, porm tudo apagado passadas as dez horas.
Jardins, conventos, estncias de madeira, pntanos; raras casas baixas e grandes
paredes da altura das casas.
     Eis o que este bairro era no sculo passado. A revoluo j o havia maltratado
bastante,     A    municipalidade      republicana     demolira-o,    esburacara-o,
desmoronara-o. H trinta anos este bairro, ultimamente convertido em depsitos
de entulho, desaparecia sob os borres das novas construes. Hoje o trao que
lhe passaram por cima escondeu-o totalmente.
     O Petit-Picpus, de que em planta nenhuma actual restam vestgios, est
claramente indicado na planta de 1827, impressa em Paris na oficina de Diniz
Thierry, rua de S. Tiago, defronte da rua do Gesso, e em Lyon na de Joo Girin,
rua dos Capelistas,  Prudncia. O Petit-Picpus era o que acima chamamos um Y
de ruas, formado pelo Caminho Verde de Santo Antnio, que se apartava em duas
ramifica- es, das quais a esquerda tomava o nome de viela do Picpus e a direita
o de rua de Polonceau. As duas hastes do Y eram reunidas no seu pice como que
por uma barra, que se chamava a rua do Muro Direito, onde vinha terminar a rua
de Polonceau.
     Quanto  viela do Picpus, passava adiante, subindo em direco ao mercado
de Lenoir.
     Quem, ao vir do Sena, chegava  extremidade da rua de Polonceau,
encontrava  esquerda a rua do Muro Direito, que fazia rapidamente volta em
ngulo recto, em frente  parede desta rua e  direita um prolongamento truncado
da rua do Muro Direito, sem sada, chamado o beco de Genrot.
     Era onde estava Joo Valjean.
     Como acabamos de dizer, este, ao descobrir o perfil negro, de vigia  esquina
da rua do Muro Direito e da viela do Picpus, recuou. No restava dvida
nenhuma. Era espiado por aquele fantasma.
     Que fazer?
     J no era tempo de retroceder. O que ele pouco antes vira por trs de si
agitar-se na sombra a alguma distncia era, sem dvida, Javert e a sua escolta.
Javert j de certo estava no princpio da rua, em cuja extremidade se achava Joo
Valjean. Javert, que, segundo todas as aparncias, conhecia aquele pequeno
ddalo, tomara as suas precau- es, mandando guardar a sada dele por um dos
seus homens. Estas conjecturas, to parecidas a evidncias, tumultuaram logo
como um punhado de p arrebatado por uma sbita rajada de vento no doloroso
crebro de Joo Valjean. Examinou, portanto, o beco de Genrot; deste lado, a
passagem tapada. Examinou a viela do Picpus; deste lado, uma sentinela, cuja
figura escura ele via destacar-se em negro sobre o pavimento inundado pela luz
branca da Lua. Avanar, era cair nas mos daquele homem; recuar, era lanar-se
nas de Javert. Ao sentir-se como que apanhado numa rede, que se ia lentamente
apertando, Joo Valjean fitou os olhos no cu com uma expresso de angstia
desesperada.



    IV
    Evaso s apalpadelas



     Para compreender o que em seguida se vai ler, necessrio que o leitor tenha
uma ideia exacta da viela do Muro Direito, e particularmente da esquina que
deixava  esquerda quem saa da rua de Polonceau para entrar nesta viela. Do lado
direito, a viela do Muro Direito era quase toda orlada por casas de pobre
aparncia, que se estendiam at  viela do Picpus; do lado esquerdo por um s
edifcio de uma linha severa, composto de muitas moradas, que gradualmente se
iam elevando  altura de um andar, consoante se iam aproximando da viela do
Picpus; de modo que este edifcio, elevadssimo do lado desta viela, do lado da rua
de Polonceau era bastante baixo, e tanto que no stio da esquina de que acima
falamos s tinha um muro. Este muro, porm, no ia terminar em esquadria com
a rua; fazia um recanto muito metido para dentro, que as duas esquinas tornavam
invisvel a quem se achasse na rua de Polonceau e na rua do Muro Direito.
     A partir das esquinas do recanto formado pelo muro, prolongava-se este pela
rua de Polonceau at uma casa com o nmero 49 e pela rua do Muro Direito,
onde o lano correspondente era mais estreito, at ao edifcio escuro de que acima
falmos, ao qual cortava a empena, formando deste modo um novo ngulo
reentrante na rua. A empena deste edifcio era de um aspecto pesadamente triste;
via-se-lhe apenas uma janela, ou, para melhor dizer, dois postigos revestidos de
uma folha de zinco, que se conservavam constantemente fechados.
     A planta que aqui levantamos, e cuja rigorosa fidelidade ningum nos
contestar, h-de despertar de certo uma lembrana exactssima no esprito dos
antigos moradores daqueles stios.
     O recanto de que acima fizemos meno era completamente pejado por uma
coisa semelhante a uma porta colossal e miservel. Era um agregado informe de
tbuas perpendiculares, presas por compridos gatos de ferro transversais. Ao lado
havia uma porta de carro de dimenses ordinrias, cuja abertura evidentemente se
conhecia que no datava de h cinquenta anos.
     Por cima do recanto via-se a ramagem de uma tlia e do lado da rua de
Polonceau o muro todo coberto de hera.
     No perigo iminente em que Joo Valjean se achava, o aspecto solitrio
daquele edifcio, que lhe parecia desabitado, tentava-o. Percorreu-o, pois,
rapidamente com a vista, dizendo consigo que se chegasse a penetrar nele, decerto
se salvaria. Ocorreu-lhe logo uma ideia e com ela sentiu nascer-lhe uma
esperana.
     Na parte mdia da frente do edifcio, que deitava para a rua do Muro Direito,
havia em todas as janelas diversas ordens de caleiros de chumbo. As variadas
ramificaes dos canos, que iam de um cano central terminar a todos estes
caleiros, desenhavam uma espcie de rvore. Estas ramificaes de tubos com os
seus cem cotovelos imitavam os troncos de vide velhos e despojados de folha que
serpenteiam em mil voltas pelos frontispcios das antigas herdades.
     Esta estranha ramada de ramos de lata e ferro foi o primeiro objecto que
impressionou Joo Valjean. Colocou Cosette encostada a uma pedra,
recomendando-lhe silncio, e correu para o stio onde o cano vinha tocar o cho.
Talvez que por ali houvesse meio de subir e entrar na casa. O cano, porm, estava
quebrado e inutilizado, porque mal se segurava pela soldadura. Alm disso, todas
as janelas daquela silenciosa morada eram gradeadas com espessos vares de
ferro, at mesmo as guas-furtadas. E, demais, a Lua batia de chapa na frontaria da
casa e o homem que observava Joo Valjean da extremidade da rua t-lo-ia visto
subir. E, finalmente, que fazer de Cosette?
     Como i-la ao alto de uma casa de trs andares?
     Joo Valjean renunciou, pois, a trepar pelo cano e foi de rojo ao longo da
parede, at tornar a entrar na rua de Polonceau.
     Ao chegar ao recanto onde deixara Cosette, notou que ali ningum o podia
ver.
     Ali escapava a todos os olhares, de qualquer parte que eles viessem. Alm
disto, ficava encoberto com a sombra. Finalmente, havia duas portas, que talvez
fosse possvel arrombar. A parede, por cima da qual Joo Valjean via a tlia e a
hera, dava decerto para algum jardim, onde ao menos se poderia esconder, posto
que as rvores ainda no tivessem folha, e passar o resto da noite.
     O tempo corria, era urgente uma resoluo qualquer.
     Chegou-se  porta de dimenses ordinrias, apalpou-a e reconheceu que
estava to inutilizada por dentro como por fora.
     Acercou-se ento da outra porta grande com mais esperana; e como esta era
terrivelmente decrpita e a sua prpria imensidade a tornava menos slida, como
as tbuas estavam podres e as. ligaduras de ferro, de que s restavam trs, se
achavam comidas de ferrugem, pareceu-lhe possvel penetrar naquela carunchosa
clausura.
     Ao examin-la, porm, viu que no era uma porta, pois nem tinha gonzos,
nem fechadura, nem fenda no meio. Os gatos de ferro atravessavam-na de lado a
lado sem soluo de continuidade. Pelas fendas das tbuas entreviu Joo Valjean
alguns calhaus e pedras grosseiramente cimentadas, que ainda h dez anos podia
ver quem por l passasse, e reconheceu ento com consternao que esta porta
aparente era um simples tapamento de madeira revestindo exteriormente uma
construo de pedra. Fcil era arrancar uma tbua, mas arrancada ela deparava-se
com uma parede.



    V
    O que seria impossvel com a iluminao a gs



    Neste momento principiou a ouvir-se a alguma distncia um rudo surdo e
cadenciado, que o fez aventurar um olhar rpido fora da esquina da rua.
Acabavam de desembocar na rua Polonceau sete ou oito soldados, cujas baionetas,
Joo Valjean via brilhar e que se dirigiam para ali.
     Os soldados,  frente dos quais ele distinguia a elevada estatura de Javert,
avanavam lentamente e com precauo, parando frequentes vezes. Era visvel que
exploravam todos os recantos das paredes e todos os vos das portas e corredores.
     Era, e nisso no se podiam enganar as suas conjecturas, alguma patrulha que
Javert encontrara e que requisitara para aquela diligncia.
     Nas suas fileiras marchavam os dois aclitos de Javert.
     No passo em que eles vinham e com as paragens que faziam, era-lhes
necessrio um quarto de hora, pouco mais ou menos, para chegar ao stio onde
Joo Valjean se achava. Foi para ele um momento terrvel aquele. Apenas alguns
minutos o separavam daquele temvel precipcio que pela terceira vez se lhe abrira
diante dos ps. E as gals agora j no eram s as gals, era a perda de Cosette para
sempre; isto , uma vida que se assemelhava ao interior de um tmulo.
     S havia uma coisa possvel nesta conjuntura.
     Joo Valjean tinha uma particularidade; podia-se dizer dele que trazia dois
alforges, num dos quais guardava os pensamentos de um santo, noutro o temvel
talento de um forado: e tanto em um como em outro metia a mo consoante a
ocasio.
     Entre outros recursos, Joo Valjean, graas s suas numerosas evases das
gals de Toulon, era mestre na arte incrvel de subir, sem escadas, nem ganchos de
ferro, s com o auxlio da fora muscular, apoiando-se com a nuca, com os
ombros, com os quadris e com os joelhos, e ajudado apenas pelas salincias da
pedra, pela aresta de uma parede, at  altura de um sexto andar sendo necessrio;
arte que to medonhamente clebre tornou o canto do ptio da Conciergerie de
Paris, pela qual h vinte anos se escapou o sentenciado Battemolle.
     Joo Valjean mediu com a vista o muro, por cima do qual se via a tlia, e
conheceu que tinha dezoito ps de altura, pouco mais ou menos. O ngulo, que ele
formava com a empena do grande edifcio, era cheio na sua parte inferior por um
macio de pedra de alvenaria de forma triangular, decerto destinado a preservar
de imundcies o recanto demasiadamente cmodo. Este preenchimento
preventivo das esquinas das paredes  muitssimo usado em Paris.
     Tinha o macio cinco ps de altura, pouco mais ou menos, de modo que para
chegar do alto dele acima da parede havia a transpor um espao de catorze ps.
     A parede era sobrepujada por uma pedra chata e sem rebordo.
     A dificuldade era Cosette, Cosette que no sabia trepar uma parede.
Abandon-la? Nem por pensamentos ocorria tal coisa a Joo Valjean. Lev-la
consigo, porm, era impossvel. Todas as foras de um homem lhe so necessrias
para ser bem sucedido nestas estranhas ascenses. O menor peso lhe deslocaria o
centro de gravidade e o faria precipitar.
     Era talvez necessria uma corda, mas Joo Valjean no a tinha, e onde havia
ele de achar uma  meia-noite, na rua de Polonceau? Certo que naquele instante,
se Joo Valjean possusse um reino, t-lo-ia dado por uma corda.
     Todas as situaes crticas tm seus relmpagos, que ora nos cegam, ora nos
iluminam.
     O olhar desesperado de Joo Valjean notou de repente o lampio no beco
sem sada.
     Naquele tempo as ruas de Paris ainda no eram iluminadas a gs. Ao cair da
noite acendiam-se lampies colocados de distncia em distncia, os quais subiam
e desciam por meio de uma corda, que se prolongava pela parede e que se prendia
numa espcie de cavalete. A poro de corda que tinha de subir para o lampio
descer, estava fechada num armriozinho de ferro, cuja chave o atia trazia
consigo, e a mesma corda era protegida por um tubo de metal.
     Joo Valjean, pois, com a energia de uma luta suprema, transps, de um salto
a rua, meteu-se pelo beco, fez saltar a lingueta do armriozinho com a ponta da
navalha que trazia e da a um instante estava outra vez de volta ao p de Cosette.
J tinha uma corda. Andam lestos estes sombrios achadores de expedientes,
quando a braos com a fatalidade.
     J dissemos porque naquela noite os lampies no tinham sido acesos, e por
isso o do beco de Genrot achava-se naturalmente apagado como os demais, de
modo que se podia passar prximo dele sem conhecer que j no estava no seu
lugar.
     Porm, a hora, o lugar, a escurido, a preocupao de Joo Valjean, os seus
gestos singulares, as suas idas e vindas, tudo isto principiava a incutir receios a
Cosette.
     Outra qualquer criana que no fosse ela h muito que teria desatado aos
gritos, porm ela limitou-se a puxar pela aba do casaco a Joo Valjean e a
dizer-lhe em voz baixa, porque cada vez se ouvia mais distintamente o rumor dos
passos da patrulha, que se ia aproximando:
     -  pai, tenho medo! Quem  que vem l?
     - Cala-te! - respondeu o desditoso homem. -  a Thenardier.
     Cosette estremeceu e ele acrescentou:
     - No digas nada. Deixa-me c. Olha que se tu gritas ou choras, a Thenardier
d contigo e ela ao que vem  para te levar outra vez.
     Joo Valjean ento, sem se apressar, mas sem fazer movimentos
desnecessrios, com uma preciso firme e breve, tanto mais para notar em tal
ocasio, por isso que Javert e a patrulha podiam aparecer de um instante para o
outro, tirou o leno do pescoo, passou-o em roda do corpo de Cosette por baixo
dos sovacos, tendo todo o cuidado em que ele no ferisse a criana, atou o leno 
ponta da corda com um n a que os marinheiros chamam de andorinha, segurou
nos dentes a outra ponta, descal- ou os sapatos e as meias, que atirou por cima da
parede, subiu ao macio de pedra e principiou a elevar-se pela esquina da parede e
da empena com tanta solidez e firmeza como se tivesse degraus onde apoiar os
calcanhares e os cotovelos. No havia decorrido meio minuto e j Joo Valjean
estava em cima da parede.
     Cosette contemplava-o cheia de pasmo e sem dizer palavra. Gelara-a a
recomendao de Joo Valjean e o nome da Thenardier.
     De repente, a criana ouviu a voz de Joo Valjean, que lhe dizia em voz baixa:
     - Encosta-te ao muro.
     Ela obedeceu.
     - No ds nem uma palavra e no tenhas medo - tornou Joo Valjean.
     Cosette sentiu-se ento levantada do cho, e, antes de ter tempo de ver bem o
que era, estava em cima do muro.
     Joo Valjean agarrou nela, p-la s costas, segurando-lhe com a mo
esquerda as mozinhas, deitou-se de bruos e foi-se arrastando por cima da
parede at ao ponto em que esta formava o recanto. Como ele supusera, havia ali
uma barraca de madeira, cujo telhado descia at muito prximo do solo, num
plano suavemente inclinado e tocando a tlia que se via na rua. Feliz circunstncia,
pois que o muro deste lado era muito mais alto do que pelo lado da rua. Joo
Valjean s a grande profundidade  que via o cho.
     Acabava ele de chegar ao plano inclinado do tecto, no tendo ainda largado a
aresta do muro, quando um violento rumor anunciou a chegada da patrulha,
ouvindo-se a atroadora voz de Javert, que gritava:
     - Dem busca ao beco. A rua do Muro Direito est guardada e a viela do
Picpus tambm. Respondo em como ele est no beco.
     A voz de Javert, os soldados precipitaram-se para o beco de Genrot.
     Joo Valjean deixou-se escorregar pelo telhado, segurando ao mesmo tempo
Cosette, e, chegado ao p da tlia, saltou ao cho. Fosse terror, fosse coragem,
Cosette-nem sequer respirava, apesar de ter as mos um tanto esfoladas.
    VI
    Princpio de um enigma



     Achava-se Joo Valjean numa espcie de jardim bastante vasto, mas de
aspecto singular, um desses jardins melanclicos que parecem servir s para
serem vistos de Inverno ou de noite. Era de forma oblonga, com uma rua de
grandes choupos no fundo, a cada canto uma mata bastante alta e no meio um
espao sem sombra, em que se distinguia uma grande rvore isolada, em seguida
algumas rvores frutferas torcidas e eriadas como grossos ps de tojo, canteiros
semeados de legumes, um meloal, cujas campainhas brilhavam ao claro da Lua, e
uma pia velha. Aqui e ali viam-se alguns bancos de pedra, que pareciam negros
com o musgo que os cobria. As ruas eram orladas por arbustozinhos escuros e
muito direitos. Metade do jardim estava coberto de ervas; a outra metade, de uma
camada verde de musgo.
     Ao lado de si tinha Joo Valjean o casebre de cujo telhado se servira para
descer, um monte de lenha, e por trs deles, mesmo encostada  parede, uma
esttua de pedra, cujo rosto mutilado era apenas uma informe mscara
aparecendo vagamente por entre a escurido.
     O casebre era uma espcie de pardieiro em que se distinguiam alguns quartos
desmantelados, um dos quais, todo em runas, parecia servir de alpendre.
     Para este jardim tinha a casa grande da rua do Muro Direito, que fazia
esquina para a viela do Picpus, dois lados em esquadria. Estes lados de dentro
ainda eram mais ttricos do que o de fora. Todas as janelas tinham grades, atravs
das quais se no entrevia uma s luz. Nos andares superiores havia cestos como
nas prises. Um dos lados projectava sobre o outro a sua sombra, que dava sobre
o jardim como um imenso lenol preto.
     No se descobria outra casa. O fundo do jardim perdia-se por entre a
escurido e a cerrao da neblina. Distinguiam-se, porm, confusamente, alguns
muros, que se cruzavam uns pelos outros, como se para l deles houvesse mais
quintais, e os telhados baixos da rua de Polonceau.
     No se podia imaginar coisa mais erma e solitria do que aquele jardim. No
se via vivalma, o que era muito simples em razo do adiantado da hora, mas  que
realmente parecia que aquele stio no servia para ningum andar por ele, mesmo
 luz do meio-dia.
     O primeiro cuidado de Joo Valjean foi procurar os sapatos e cal-los e em
seguida meter-se com Cosette para o alpendre. Quem se evade nunca se julga bem
escondido. A criana, que no tinha ainda varrido da lembrana a Thenardier,
participava do seu instinto de se ocultar o mais que lhe era possvel.
     Cosette tremia e chegava-se para ele. Para l do muro ouvia-se o sussurro
tumultuoso da patrulha a dar busca ao beco e  rua, as coronhadas de armas nas
pedras, os apitos que Javert dava para chamar os espias que tinha postado nas
imediaes do beco e as suas imprecaes de envolta com algumas palavras que se
no percebiam.
     Ao cabo de um quarto de hora pareceu que todo aquele sussurro tempestuoso
principiava a afastar-se. Joo Valjean, que no respirava, pusera tambm a mo na
boca de Cosette.
     O ermo porm em que ele se achava estava to estranhamente sossegado, que
todo aquele assustador rudo, to furioso e to prximo, nem por sombras lhe
podia incutir medo. Parecia que aquelas paredes eram construdas com as pedras
surdas de que fala a Escritura.
     De sbito, no meio deste profundo sossego, elevou-se um novo rumor, um
rumor celeste, divino, inefvel, que tinha tanto de arrebatador como o outro de
horr-
     vel. Era um hino saindo das trevas, um arroubo de orao e harmonia na
silenciosa e medonha escurido da noite; vozes de mulheres, mas vozes
simultaneamente compostas do acento puro das virgens e do tom ingnuo das
crianas, dessas vozes que no so da terra, dessas vozes parecidas com as que os
recm-nascidos ouvem ainda e o moribundos ouvem j. Este canto vinha do
sombrio edifcio que dominava o jardim.
     No momento em que ao longe se perdiam os ecos da algazarra dos demnios,
aproximava-se outro rumor, que dir-se-ia as melodias de um coro de anjos no
silncio da noite.
     Joo Valjean e Cosette caram de joelhos.
     Eles no sabiam o que aquilo era, nem onde estavam, mas ambos conheciam,
o homem e a criana, o penitente e o inocente, que se deviam prostrar de joelhos.
     O que aquelas vozes tinham de extraordinrio era que apesar de se ouvirem,
nem por isso o edifcio parecia menos deserto. Formavam como um cntico
sobrenatural numa casa desabitada.
     Enquanto as vozes cantavam, Joo Valjean no pensava em coisa alguma. A
noite para ele desaparecera, no via seno o cu do mais belo azul. Parecia-lhe
sentir as asas que todos temos dentro de ns mesmos.
    Por fim, o cntico extinguiu-se.
    Tinha talvez durado muito tempo. Joo Valjean no teria podido diz-lo. As
horas de xtase nunca so mais do que um minuto.
    Tudo ficara novamente silencioso. No havia o mnimo rudo nem na rua
nem no jardim. Tudo se desvanecera, tanto o que o ameaava, como o que o
tranquilizava. No se ouvia seno vento agitando no alto do muro algumas ervas
secas, que produziam um murmrio suavemente lgubre.



    VII
    Continuao do enigma



     A brisa da noite comeava a refrescar, o que indicava ser uma ou duas horas
da manh. A pobre Cosette no dizia coisa alguma. Como se tinha sentado ao lado
de Joo Valjean e lhe havia encostado a cabea ao ombro, julgou ele que
adormecera.
     Curvou-se e encarou-a.
     Cosette tinha os olhos muito abertos e um ar pensativo que muito afligiu Joo
Valjean.
     A criana no cessara de tremer.
     - Tens sono? perguntou Joo Valjean.
     - Tenho muito frio - respondeu ela.
     Um momento depois acrescentou:
     - Ela ainda l est?
     - Quem?
     - A senhora Thenardier.
     Joo Valjean esquecera-se j do meio de que se servira para obrigar Cosette a
estar calada.
     - Ah! - disse ele. - J se foi embora. No tenhas medo.
     A criana suspirou como se lhe tivessem tirado um grande peso de sobre o
peito.
     Como a terra estava hmida, o alpendre era aberto por todos os lados e a
brisa refrescava cada vez mais, Joo Valjean despiu a sobrecasaca e cobriu Cosette
com ela.
     - Tens menos frio assim? - perguntou ele.
     - Agora tenho menos, meu pai!
     - Ento deixa-te estar quietinha que eu j venho.
     Em seguida saiu das runas e comeou a caminhar ao longo do edifcio,
encostado  parede, em procura de algum abrigo melhor. Encontrou diversas
portas, mas todas fechadas; e as janelas do rs-do-cho eram guarnecidas de
grades.
     Quando passou o ngulo interior do edifcio, viu que se achava ao p das tais
janelas de grades, e lobrigou alguma claridade. Ps-se nos bicos dos ps e
espreitou por uma das janelas. Davam todas para uma sala assaz vasta, lajeada,
cortada de arcadas e de pilares, e onde se no distinguia seno pequenssima
claridade e grandes sombras. A claridade provinha de uma lamparina acesa a um
canto.
     A sala estava deserta e no havia nela a menor coisa que se movesse.
     Contudo,  fora de aplicar a vista, pareceu a Joo Valjean que via no cho,
sobre a pedra, um objecto que parecia coberto com um lenol e que se
assemelhava a um vulto humano estendido de bruos, com o rosto sobre a pedra,
os braos cruzados, e com a imobilidade da morte.
     Ter-se-ia dito, ao ver uma tal espcie de serpente arrastando-se pelo
pavimento, que a sinistra figura tinha uma corda ao pescoo. Toda a sala estava
cheia da espcie de nevoeiro prprio dos lugares pouco iluminados e que lhes
aumenta ainda o terror, Joo Valjean disse depois muitas vezes, que conquanto
muitos espectculos fne-bres lhe tivessem atravessado a vida, nunca presenciara
coisa alguma mais medonha e terrvel do que aquela figura enigmtica,
consumando no sabia que desconhecido mistrio, naquele lugar sombrio e assim
entrevisto no meio da noite. Era medonho supor que aquilo estivesse talvez
morto; porm mais medonho ainda pensar que estaria vivo.
     Joo Valjean teve a coragem de encostar o rosto  vidraa e de se pr em
observao para ver se o estranho objecto se movia. De repente, sentiu-se
dominado por inexplicvel espanto e fugiu, deitando a correr para o alpendre sem
se atrever a olhar para trs. Parecia-lhe que se voltasse a cabea veria a medonha
figura caminhando atrs dele a passos largos e agitando os braos.
     Chegou ao alpendre como que alucinado. Os joelhos vergavam-se-lhe e tinha
o corpo coberto de suor.
     Onde estava? Quem poderia ter imaginado coisa semelhante naquela espcie
de sepulcro no centro de Paris? Que extraordinria casa era aquela? Edifcio cheio
de mistrios nocturnos, chamando as almas na sombra com vozes de anjos, e
quando elas se apresentavam oferecendo-lhes inopinadamente to espantosa
viso; prometendo abrir a porta radiante do cu e abrindo a horrvel porta do
tmulo! E era, com efeito, um edifcio, uma casa, cuja porta tinha o seu nmero!
No era sonho! Joo Valjean necessitava tocar as pedras para crer na realidade de
tudo aquilo.
     O frio, a ansiedade, a inquietao, as comoes porque passara durante
aquela noite, tinham-lhe causado verdadeira febre; e todas estas ideias se lhe
embatiam no crebro.
     Aproximando-se de Cosette viu que adormecera.



    VIII
    Complica-se o enigma



    Deitada no cho, com a cabea sobre uma pedra, a criana adormecera. Joo
Valjean sentou-se ao lado dela e ps-se a contempl-la.
    A pouco e pouco,  medida que observava, sentia-se mais tranquilo e
readquiriu a liberdade do esprito.
    Notou-se ento distintamente esta verdade: que o fundo da sua vida, dali em
diante, enquanto existisse aquela criana, enquanto a tivesse junto de si, no teria
necessidades seno para ela, no temeria coisa alguma seno por sua causa. Tendo
despido a sobrecasaca para cobri-la, nem mesmo sentia que estava gelado de frio.
    Entretanto, e atravs da meditao a que estava entregue, ouvia, desde algum
tempo, um rudo singular.
    Era como o som de um guizo; este rudo partia do jardim e, ainda que fraco,
ouvia-se distintamente. Assemelhava-se ao tinir constante que, durante a noite, se
ouve nas vizinhanas de um redil.
    Joo Valjean voltou-se, olhou e viu que andava algum no quintal. Pelo
centro do meloal caminhava um ente que parecia ser um homem, levantando-se,
baixando-se e parando, com movimentos regulares, como se estivesse estendendo
ou arrastando alguma coisa pelo cho. Quem quer que era parecia coxear.
    Joo Valjean sentiu-se agitado pelo estremecimento contnuo dos
desgraados, a quem tudo se torna suspeito. Desconfiam do dia porque ajuda a
que os vejam, e da noite porque contribui para que os surpreendam. Havia pouco
tremia com a ideia de que o quintal fosse deserto, depois estremecia por ver que
nele havia algum.
     Dos terrores quimricos caiu nos terrores reais. Pensou consigo mesmo que
Javert e os beleguins no se tinham talvez retirado, que sem dvida haviam
deixado sentinelas na rua; que se aquele homem o descobrisse no quintal,
julg-lo-ia ladro, pediria socorro e entreg-lo-ia. Em seguida tomou
cuidadosamente Cosette nos braos, mesmo adormecida, e levou-a para trs de
um monto de mveis velhos e desmantelados, que estava no canto mais
recndito da barraca. Cosette no fez o menor movimento. Dali ps-se a observar
o aspecto da criatura que andava no meloal.
     O que parecia extravagante era que o tinir do guizo acompanhava todos os
movimentos do homem. Quando este se aproximava, aproximava-se tambm o
som do guizo, e se ele se afastava levava-o consigo; se fazia algum movimento
mais precipitado, o guizo acompanhava-o com um som trmulo, e quando parava
cessava o rudo.
     Parecia evidente que o guizo estava preso quele homem; mas sendo assim o
que podia aquilo significar? O que era aquele homem, que trazia um guizo
pendente como se fora um carneiro?
     Joo Valjean, mesmo fazendo estas reflexes, tocou nas mos de Cosette e
sentiu-as geladas.
     - Valha-me Deus! disse ele.
     E chamou em voz baixa:
     - Cosette!
     A criana no abriu os olhos. Sacudiu-a energicamente. A pobrezinha no se
moveu.
     Estar morta? pensou ele; e ergueu-se, tremendo como varas verdes.
     Ento atravessaram-lhe o esprito, em medonho turbilho, as ideias mais
medonhas. H momentos em que somos assaltados por toda a espcie de Ideias
hediondas, ideias que nos penetram violentamente no crebro, qual multido de
frias. Quando se trata daqueles que amamos, a nossa prudncia inventa toda a
espcie de loucuras.
     Joo Valjean lembrou-se de que o sono ao relento pode ser mortal numa
noite fria.
     Cosette, extremamente plida, tornara a cair no cho, depois dele a ter
sacudido, sem fazer o mnimo movimento.
     Chegou-lhe o ouvido ao rosto e ouviu-lhe a respirao, mas to fraca que
parecia prxima a extinguir-se. Como a aqueceria? Como conseguiria acord-la?
     Tudo o que no era isto se lhe apagou do pensamento; em seguida
precipitou-se desorientado para fora do pardieiro.
     Era absolutamente indispensvel que antes de um quarto de hora, Cosette
estivesse numa cama, e prxima de um bom lume.



    IX
    O homem do guizo



     Levando na mo o rolo de prata que tinha no bolso do colete, Joo Valjean
caminhou direito ao homem que andava no jardim.
     O homem tinha a cabea baixa e no o viu aproximar-se. Em poucas
passadas, Joo Valjean chegou junto dele e disse em voz alta:
     - Cem francos!
     O homem quase deu um salto e ergueu os olhos.
     - Ganha cem francos - tornou Joo Valjean  se me der asilo para esta noite!
     O luar iluminava de frente o rosto espantado de Joo Valjean.
     - Ora esta! - exclamou o homem. -  o tio Madelaine.
     Este nome assim pronunciado, a semelhante hora, num lugar desconhecido,
por um homem to desconhecido como ele, fez recuar Joo Valjean.
     Esperava tudo menos semelhante coisa. Aquele que lhe pronunciara o nome
era um velho todo curvado, coxo, vestido pouco mais ou menos como um homem
do campo e com uma joelheira de coiro no joelho esquerdo, de onde pendia um
grande guizo. O rosto no se lhe distinguia na sombra.
     Entretanto, tirara o bon e exclamava todo trmulo:
     - Valha-me Deus! Mas como est o senhor aqui, tio Madelaine? Por onde
entrou, Cristo Santo! S se caiu do cu! No  isso que me espanta, porque se o
senhor alguma vez cair, no pode ser doutra parte. E em que estado est! Sem
gravata, sem chapu nem casaco! Olhe que estava capaz de meter medo a quem
no o conhecesse! Em mangas de camisa! Valha-me Nossa Senhora! Poder ser
que os santos tambm percam o juzo? Mas como foi que entrou aqui?
     O velho falava com uma volubilidade campesina, que no tinha nada de
inquietadora. As palavras no esperam umas pelas outras. Tudo isto era dito com
a mais ingnua e estupefacta bondade.
     - Quem  voc e que casa  esta? - perguntou Joo Valjean.
     - Essa  que  melhor! - exclamou o velho.  Eu sou aquele que o senhor aqui
acomodou, e esta  a casa que o senhor me obteve para servir. O qu? Pois no me
conhece! No se lembra de mim?!
     - No me lembro - disse Joo Valjean.  Mas como  que voc me conhece?
     - Conheo-o, porque o senhor me salvou a vida - disse o homem.
     Dizendo isto, voltou-se um pouco, o luar desenhou-lhe o perfil e Joo Valjean
reconheceu o velho Fauchelevent.
     - Ah! - disse Joo Valjean. - Agora  que o conheo!
     - Com efeito! disse o velho num certo tom de repreenso.
     - Mas que anda fazendo aqui? - tornou Joo Valjean.
     - Ando a cobrir os meus meles.
     O velho Fauchelevent tinha com efeito, na mo, no momento em que Joo
Valjean se lhe aproximou, um pedao de esteira que estava estendendo sobre o
meloal.
     J assim estendera um certo nmero doutras desde que chegara ao quintal
havia uma hora.
     Fauchelevent continuou:
     - Disse comigo: o luar est claro, vai decerto cair geada; se eu fosse cobrir os
meus meles com os seus capotes?
     E acrescentou, olhando a rir para Joo Valjean:
     - Com a fortuna! O senhor precisava que lhe fizesse outro tanto. Mas como 
que se acha aqui?
     Joo Valjean vendo-se conhecido por aquele homem, pelo menos sob o nome
de Madelaine, no avanava seno com a maior precauo, multiplicando cada
vez mais as perguntas. Extraordinria coisa! Os papis estavam invertidos. Era ele,
intruso, quem interrogava.
     - O que quer dizer esse guizo que trs no joelho?
     - Isto? - respondeu Fauchelevent. -  para que fujam de mim.
     - Para que fujam? No percebo!
     O velho Fauchelevent piscou um olho com inexplicvel expresso.
     - Ora!  que nesta casa no h seno mulheres e muitas meninas; pelos
modos  perigoso que me encontrem, por isso trago o guizo para as avisar.
Quando eu chego vo-se elas.
     - Mas que casa  esta?
     - Ora essa! O senhor sabe-o muito bem.
     - No sei, decerto.
     - Pois se foi o senhor quem aqui me arranjou o lugar de jardineiro?
     - Responda-me como se eu no soubesse nada.
     - Ento sempre lho digo;  o convento do Petit-Picpus.
     Joo Valjean ia reunindo as recordaes. O acaso, isto , a Providncia,
lanava-o precisamente no convento do bairro de Santo Antnio, onde o velho
Fauchelevent, estropiado pela queda da sua carroa, fora admitido como
jardineiro por sua recomendao, havia dois anos. Lembrando-se de tudo isto,
repetiu como falando consigo mesmo:
     - O convento do Petit-Picpus!
     - Mas diga-me - tornou Fauchelevent - como diabo foi que entrou aqui, tio
Madelaine? O senhor  um santo, porque se fosse homem... Aqui no entram
homens.
     - Mas voc est aqui.
     - Sou o nico.
     - No obstante - tornou Joo Valjean -  indispensvel que eu aqui fique.
     - Jesus! Como h-de ser isso!? - exclamou Fauchelevent.
     Joo Valjean aproximou-se mais do velho e disselhe no tom mais grave:
     - Salvei-lhe a vida, tio Fauchelevent.
     - Fui eu quem me lembrei disso primeiro  respondeu ele.
     - Pois bem, hoje pode prestar-me o mesmo servio que eu j lhe prestei.
     Fauchelevent tomou em suas velhas mos encarquilhadas e trmulas as duas
mos robustas e vigorosas de Joo Valjean e ficou por alguns segundos como se
no pudesse falar. Por fim, exclamou:
     - Seria a bno de Deus, eu pagar-lhe um tal benefcio, salvar-lhe a vida!
Senhor maire, disponha  sua vontade do pobre velho, e no o poupe!
     O pobre homem parecia transfigurado pela admirvel alegria que se lhe via
no rosto.
     - O que quer que se faa? - continuou ele.
     - Depois lhe explicarei tudo. Diga-me: tem um quarto?
     - Tenho uma barraca isolada, ali por detrs das runas do convento velho,
num recanto que ningum v. Tem trs casinhas.
     A barraca estava, com efeito, to bem oculta pelas runas e to bem disposta
para que ningum a visse, que Joo Valjean no a notara.
     - Bem - disse Joo Valjean. - Agora peo-lhe duas coisas.
     - Quais so, senhor maire?
     - Em primeiro lugar no dizer a ningum o que sabe a meu respeito; depois
no fazer a menor diligncia para saber mais do que sabe.
     - Pode estar certo de que farei o que deseja. Sei muito bem que no pode fazer
nada que no seja honesto, e que tem sido sempre muito boa pessoa.E depois, foi
o senhor quem aqui me acomodou; pode dispor de mim.
     - Ento venha comigo. Vamos buscar a criana.
     - Ah! - disse Fauchelevent. - Tem uma criana.
     E, sem acrescentar nem mais uma palavra, seguiu Joo Valjean, qual co
seguindo seu dono.
     No decorrera ainda meia hora e j Cosette, tendo readquirido a sua cor
rosada na frente de um bom lume, dormia na cama do velho jardineiro; Joo
Valjean tinha j posto a gravata e vestido a sobrecasaca; enquanto Joo Valjean
vestia a sobrecasaca, Fauchelevent tirara a joelheira em que estava preso o guizo e
pendurara-o num prego que havia na parede, servindo-lhe de ornamento.
     Os dois homens, aqueciam-se encostados a uma mesa, sobre a qual
Fauchelevent pusera um bocado de queijo, po negro, uma garrafa de vinho e dois
copos. O velho dizia a Joo Valjean, descansando-lhe a mo sobre o joelho:
     - Ah, tio Madelaine, no me conheceu logo! Salva-nos a vida e depois
esquece-se da gente?  muito mal feito,  ser ingrato! Eu nunca me esqueci do tio
Madelaine!



    X
    Onde se explica como Javert bateu o monte e no encontrou caa



     Os acontecimentos de que acabamos de ver, para assim dizer, o reverso,
tinham-se realizado nas condies mais simples.
     Quando Joo Valjean, na prpria noite do dia em que Javert o prendeu junto
do leito morturio de Fantine, fugiu da cadeia Municipal de Montreuil-sur-mer, a
polcia sups que o forado evadido se deveria dirigir para Paris. Paris  um pego
em que tudo se perde; tudo desaparece naquele centro do mundo como no meio
do oceano.
     Floresta alguma oculta um homem como aquela multido; e no h fugitivo
de espcie nenhuma que o no saiba. Vo para Paris como para um sorvedouro;
h sorvedouros que salvam. A polcia sabe-o tambm e por isso  em Paris que vai
procurar o que perdeu noutra parte. Assim, foi ali procurar o ex-maire. Javert foi
chamado a Paris a fim de esclarecer as pesquisas. Javert contribuiu
poderosamente, com efeito, para que se encontrasse Joo Valjean; o seu zelo nesta
ocasio foi notado pelo senhor Chaboillet, secretrio da prefeitura, no tempo do
conde de Angles.
     O senhor Chabouillet, que j por vezes protegera Javert, fez com que ele
ficasse servindo na prefeitura de Paris. Ali tornou-se Javert, de diversos modos,
digamo-lo, ainda que a frase parea inesperada para semelhantes servios,
honrosamente til.
     No pensara mais em Joo Valjean esta espcie de ces sempre  caa,
esquecem o lobo de ontem pelo de hoje quando em Dezembro de 1843, leu um
peridico, ele que nunca lia peridicos; mas Javert, homem monrquico, tivera
interesse em conhecer os pormenores da entrada triunfal do prncipe
generalssimo em Bayona. Quando chegava ao fim do artigo que o interessava, a
ateno foi-lhe atrada por um nome que se lhe deparou no fim da pgina; era o
nome de Joo Valjean. O peridico anunciava a morte do forado Joo Valjean e
publicava o facto em termos to precisos que no podiam deixar a Javert a mnima
dvida. Limitou-se a dizer: aquilo  que era tmpera.
     E pondo o peridico de parte no pensou mais em semelhante coisa.
     Sucedeu que algum tempo depois apareceu uma nota da polcia transmitida
pela prefeitura de Seine-et-Oise  prefeitura de Paris, sobre o roubo de uma
criana, que fora efectuado, segundo diziam, em circunstncias particulares, no
concelho de Montfermeil. Uma rapariguinha de sete a oito anos, dizia a nota,
confiada por sua me a um estalajadeiro daqueles stios fora roubada por um
desconhecido; esta pequena tinha o nome de Cosette e era filha de uma meretriz
chamada Fantine, falecida no hospital, no se sabia quando nem onde. Esta nota
foi vista por Javert e tornou-o pensativo.
     O nome de Fantine era-lhe muito conhecido. Recordara-se de que Joo
Valjean lhe provocara o riso, a ele, Javert, pedindo-lhe uma espera de trs dias
para ir buscar a filha daquela criatura. Recordou-se de que Joo Valjean fora preso
em Paris no momento em que subia para a diligncia de Montfermeil.
     Algumas indicaes tinham mesmo feito pensar, naquela poca, que era a
segunda vez que ele entrava para a mesma diligncia e que j na vspera tinha
efectuado uma excurso pelos arredores da aldeia, por isso que o no tinham visto
no povoado. O que ia ele fazer a Montfermeil? Ningum o podia adivinhar, Javert,
em presena da nota da polcia, compreendeu tudo. Era ali que estava a filha de
Fantine.
     Joo Valjean ia procur-la. Ora, esta criana fora roubada por um
desconhecido; quem poderia ele ser? Seria Joo Valjean? Mas Joo Valjean
morrera. Sem dizer coisa alguma a ningum, Javert tomou lugar na carruagem do
Prato de estanho, no beco sem sada da Planchette, e dirigiu-se a Montfermeil.
     Esperava encontrar ali grandes esclarecimentos, mas s achou trevas.
     Durante os primeiros dias, os Thenardier, despeitados, tinham dado  lngua.
O desaparecimento da Cotovia causara sensao na aldeia. Tinham-se divulgado
logo em seguida muitas verses da histria, que acabava pelo roubo de uma
criana.
     Fora de tudo isto que resultara a nota da polcia. Entretanto, passada a
primeira impresso, Thenardier, com o seu admirvel instinto, compreendera
rapidamente que no havia nunca a mnima utilidade em incomodar o
procurador-rgio, e que as suas queixas acerca do rapto de Cosette teriam por
primeiro resultado o atrarem sobre ele, Thenardier, e sobre muitos dos seus
negcios intrincados, os penetrantes olhos da justia.
     A primeira coisa que os mochos no querem  que lhes apresentem a luz. E
depois, como se sairia ele da histria dos mil e quinhentos francos que recebera?
     Recuou, pois, ps uma mordaa na boca de sua mulher e passou a mostrar-se
muito admirado quando lhe falavam da criana roubada. No percebia nada: sem
dvida tinha-se queixado no primeiro momento de que lhe roubassem to cedo
aquela querida criancinha; quisera, pelo amor que lhe consagrava, t-la ainda
consigo dois ou trs dias; mas fora seu av quem muito naturalmente a levara. A
isto tinha ele acrescentado que o av fizera muito bem.
     Foi esta a histria que Javert encontrou quando chegou a Montfermeil.
Aquele av fazia desaparecer Joo Valjean.
     Javert, contudo, quais sondas, mergulhou algumas perguntas na histria
contada por Thenardier:
     - Quem era o tal av? Como se chamava?
     Thenardier respondeu com a maior simplicidade:
     -  um lavrador muito rico: eu vi-lhe o passaporte e parece-me que se chama
Guilherme Lambert.
     Lambert era um nome de homem de bem e que no tinha nada de suspeito.
     Javert voltou para Paris.
     Sou um alarve, disse ele consigo. Joo Valjean morreu com efeito.
     E tornara a esquecer-se de toda aquela histria, quando, no decurso de Maro
de 1824, ouviu falar dum personagem extravagante que morava na freguesia de S.
     Mdard, e a quem apelidavam o pobre que dava esmolas. Este personagem,
segundo diziam, era um rendeiro, cujo nome ningum sabia ao certo, que tinha na
sua companhia uma rapariguinha de sete a oito anos, a qual no sabia tambm
dizer seno que viera de Montfermeil. Montfermeil! Este nome, tornando assim a
aparecer, desafiou a ateno de Javert. Um velho mendigo espio, ex-bedel, a
quem o tal personagem costumava dar esmola, acrescentava alguns outros
pormenores. O tal rendeiro era quase intratvel, nunca saa de casa seno de noite,
no falava em geral com pessoa alguma, poucas vezes com os pobres; e assim
mesmo conservava-se sempre em certa distncia. Usava uma horrvel sobrecasaca
amarela que valia muitos milhes, por isso que era toda forrada de notas do
Banco. Tudo isto excitou a curiosidade de Javert, que quis ver de perto a fantstica
criatura sem que a assustasse. Para isso pediu ao velho bedel que lhe emprestasse o
fato e o lugar em que todos os dias se sentava resmungando oraes e espionando
atravs da devoo.
     O indivduo suspeito dirigiu-se, pois, a Javert, assim disfarado e deu-lhe a
esmola: neste momento, Javert levantou a cabea e o estremecimento que Joo
Valjean sentiu julgando reconhecer Javert, sentiu-o este igualmente julgando
reconhecer Joo Valjean.
     Entretanto, a escurido poderia t-lo enganado; a morte de Joo Valjean era
oficial; portanto, tinham ficado a Javert graves dvidas; e em estado de dvida,
sendo, como era, escrupuloso, no lanava a mo a ningum.
     Seguiu o homem at  casa de Gorbeau e fez falar a velha, o que no foi nada
difcil. A velha confirmou-lhe o caso da sobrecasaca forrada de milhes e
contou-lhe o episdio da nota de mil francos. Ela prpria tinha visto o forro da
sobrecasaca, tinha-o apalpado! Javert alugou um quarto e entrou para ele nessa
mesma noite. Foi escutar  porta do misterioso inquilino, esperando ouvir-lhe o
som da voz, mas Joo Valjean lobrigou a luz pelo buraco da fechadura e iludiu a
esperana do espio conservando-se silencioso.
     No dia seguinte, Joo Valjean deixou o quarto que habitava. Mas o rudo
produzido pela moeda de cinco francos caindo no cho foi notado pela velha, que
ouvindo mexer em dinheiro, suspeitou que iriam sair e apressou-se em avisar
Javert. A noite, quando Joo Valjean saiu, Javert, com dois homens, esperava-o
por detrs das rvores do boulevard.
     Javert pedira auxlio  prefeitura, mas no declarara o nome do indivduo que
queria prender. Era o seu segredo e guardara-o por trs razes: primeiro, porque a
menor indiscrio poderia servir de aviso a Joo Valjean; segunda, porque lanar a
mo a um velho forado evadido e reputado morto, a um condenado a quem
noutro tempo a justia classificara entre os malfeitores da mais perigosa espcie, era
um magnfico feito, que os antigos agentes da polcia parisiense no deixariam
decerto a um recm-chegado como Javert, e ele receava que por isso lhe
empalmassem o seu forado, e enfim, porque sendo Javert um artista, tinha
pronunciado gosto por tudo quanto era imprevisto. Odiava os cometimentos
anunciados e que perdem o efeito por se falar deles antecipadamente. Tinha todo
o empenho em elaborar as suas obras-primas na sombra, para depois as patentear
inopinadamente.
     Javert seguira Joo Valjean de rvore em rvore, depois de esquina em
esquina, e no o perdera de vista um s instante; mesmo nos momentos em que
Joo Valjean se julgara em maior segurana, no se tinham afastado dele os olhos
de Javert. Porque no o prendeu logo? Era porque ainda duvidava.
     Convm no esquecer que a polcia, naquela poca, no se achava  sua
vontade: a liberdade de imprensa incomodava-a. Algumas prises arbitrrias
denunciadas pelos peridicos, tinham ressoado nas cmaras e haviam tornado
tmida a prefeitura.
     Atentar contra a liberdade individual era um caso grave.
     Os agentes da polcia receavam enganar-se; o prefeito reportava-se a eles; um
engano equivalia  demisso. Imagine-se, por exemplo, o efeito que teria
produzido em Paris esta local, reproduzida por vinte peridicos: Ontem, um
velho respeitvel, coberto de cabelos brancos, um honrado capitalista que andava
passeando com uma neta de oito anos, foi preso e conduzido ao depsito da
prefeitura como forado evadido! Alm disso, repetimos, Javert tinha os seus
escrpulos; as recomendaes da conscincia juntavam-se s do prefeito.
Duvidava realmente.
     Joo Valjean ia de costas voltadas caminhando na escurido.
     A tristeza, o desassossego, a ansiedade, o acabrunhamento, este novo
infortnio de se ver obrigado a fugir de noite e a procurar um asilo ao acaso para
ele e para Cosette, a necessidade de regular o seu passo pelo de uma criana, tudo
isto lhe tinha, mesmo sem ele o saber, mudado tanto os modos e impresso neles
tal senilidade, que at a prpria polcia, incarnada em Javert, podia enganar-se e
enganou-se. A impossibilidade de se chegar muito a ele, o seu trajo de velho
preceptor emigrado, a declarao de Thenardier que o fazia av de Cosette,
finalmente o acreditar-se que ele tinha morrido nas gals, acrescentavam ainda
mais as incertezas que a Javert se lhe amontoavam no esprito.
     Javert teve um momento a ideia de se chegar ao p dele e perguntar-lhe de
chofre pelos seus papis, pois se aquele homem no era Joo Valjean, se no era
algum velho e honrado rendeiro, era, provavelmente, algum gatuno profunda e
gravemente envolvido na obscura trama dos delitos parisienses, algum perigoso
chefe de quadrilha, que dava esmolas para ocultar as outras habilidades que tinha,
manha h muito usada. Aquele homem tinha scios, cmplices, esconderijos,
onde decerto ia refugiar-se. Todos aqueles rodeios que ele fazia pelas ruas
pareciam indicar que no era um simples velho. Prend-lo de chofre, porm, era
matar a galinha dos ovos de ouro.
     Que inconveniente havia em esperar, se Javert estava segurssimo de que ele
lhe no escaparia?
     Caminhava, pois, sobremodo perplexo, fazendo a si mesmo cem perguntas
sobre aquele personagem enigmtico.
     S mais adiante, porm, na rua de Pontoise. foi que ele, em virtude do vivo
claro que saa de dentro de uma taberna, conheceu decididamente Joo Valjean.
     H neste mundo duas qualidades de entes que estremecem profundamente a
me que depara com o filhinho e o tigre que depara com a presa. Javert sentiu este
estremecimento profundo.
     Apenas conheceu positivamente Joo Valjean o temvel forado reparou que
eram s trs e mandou pedir reforo ao comissrio de polcia da rua de Pontoise.
Antes de se deitar a mo a uma vara de espinheiro, calam-se luvas primeiro.
     Esta demora e a paragem que fizera no beco de Rollin, a combinar com os
seus agentes, estiveram para lhe fazer perder o rasto do fugitivo. Javert, todavia,
logo adivinhou que Joo Valjean havia de querer meter o rio de permeio entre ele
e os seus perseguidores, e inclinando a cabea a reflectir, como um sabujo que pe
o focinho no cho para atinar com o caminho, dirigiu-se direito para a ponte de
Austerlitz, guiado pela poderosa certeza do seu instinto. Bastou-lhe uma palavra
ao homem ali empregado para se orientar sobre o caminho que levava o fugitivo.
     - Viu passar por aqui um homem com uma pequena?
     - Agora mesmo lhe fiz pagar dois soldos  respondeu o interpelado.
     Javert chegou  ponte ainda a tempo de ver do outro lado do rio, Joo Valjean
com Cosette pela mo, atravessando o largo iluminado pelo luar. Viu-o entrar na
rua do Caminho Verde de Santo Antnio, e lembrando-se do beco de Genrot,
disposto como uma ratoeira e da nica sada da rua do Muro Direito para a viela
do Picpus, mandou  pressa de volta um dos seus agentes a guard-la,
cercando-lhe a volta, como dizem os. Caadores. A este tempo, sucedendo
passar uma patrulha que se recolhia  casa da guarda do Arsenal, requisitou-a e
fez-se acompanhar dela. Neste jogo os soldados so trunfos. Alm disso,  ponto
assente que para agarrar um javali  necessrio ser bom caador e levar boa
matilha. Combinadas estas disposies, pressentindo Joo Valjean assim
encurralado entre o beco de Genrot pela direita, o seu agente pela esquerda e ele
por trs, tomou sossegadamente uma pitada e depois principiou a brincar. Aquele
homem teve um momento de infernal transporte; deixou caminhar o seu homem
adiante de si, sabendo que o tinha seguro, mas desejando demorar o mais possvel
o momento de o prender, sentindo um incomensurvel prazer em o ver livre e
t-lo preso, devorando-o com a vista com essa voluptuosidade da aranha que
deixa esvoaar a mosca e do gato que deixa correr o rato. A garra e a unha tm
uma sensualidade monstruosa -  o movimento obscuro do animal preso entre as
suas tenazes. Que delcia aquela estrangulao!
     Javert gozava. As malhas da sua rede estavam solidamente atadas e ele certo
do sucesso: agora no tinha mais do que fechar a mo.
     Acompanhado como estava, at a simples e nica ideia de resistncia era
impossvel, por mais enrgico e vigoroso que fosse Joo Valjean, por mais
desesperado que ele pudesse sentir-se.
     Javert continuou, pois, caminhando sempre, sondando e pesquisando, ao
passar, todos os recantos da rua, como o faria aos bolsos de um ladro.
     Ao chegar, porm, ao meio da teia, no encontrou a mosca.
     Imagine-se o seu desespero!
     Interrogou a sua vigia das ruas do Muro Direito e de Picpus, porm, o agente,
que ficara imperturbvel no seu posto, no vira passar o homem.
     Sucede s vezes escapar-se um veado, posto que com a matilha no encalo, e
ento os mais experientes caadores no sabem o que ho-de dizer. Duvivier,
Ligni-ville e Desprez sentem-se atnitos. Num mau sucesso deste gnero
exclamou Artonge: No  um veado,  um feiticeiro. Javert de bom grado teria
soltado o mesmo grito.
     O seu desapontamento participava do desespero e do furor.
      certo que Napoleo cometeu faltas na guerra da Rssia, que Alexandre as
cometeu na guerra da ndia, Csar na guerra da frica, Cyro na guerra da Scythia
e que Javert as cometeu nesta campanha contra Joo Valjean. Talvez fizesse mal
em no conhecer logo o antigo forado, pois devia bastar-lhe o primeiro relancear
de olhos.
     Fez mal em no o prender pura e simplesmente no casebre. Fez mal em no o
prender quando positivamente o conheceu na rua de Pontoise. Fez mal em se pr
a conferenciar com os seus auxiliares ao luar do beco de Rollin, pois  certo que os
avisos so teis e que  bom conhecer e interrogar os dos ces que merecem
crdito; porm, por mais precaues que o caador tome, nunca estas so
demasiadas, quando anda  caa de animais desconfiados, como o lobo e o
forado.
     Javert, ocupando-se de mais em orientar sobre o caminho os sabujos da
matilha, deu rebate ao animal, que conheceu pelo faro o que se lhe preparava e
deitou a fugir.
     Ele fez mal, sobretudo em se levar, apenas deu com o rasto na ponte de
Austerlitz, do pueril gosto de brincar com semelhante homem, brinco temvel,
que consistia em o ter seguro pela ponta de um fio, julgando-se deste modo mais
forte do que era e supondo poder brincar com um leo como quem brinca com
um rato, ao mesmo tempo que se supusera fraco de mais, quando julgara
necessrio reclamar auxlio, precauo fatal, perda de um tempo precioso. Javert
cometeu todas estas faltas, e nem por isso deixava de ser um dos espies mais
sbios e correctos que tm existido. Javert era, em toda a extenso da palavra, o
que os caadores chamam um co fino. Mas que h neste mundo que seja
perfeito?
     Os grandes estrategas tambm tm seus eclipses.
     De ordinrio, as grandes asneiras so, como as cordas grossas, formadas de
uma multido de fios. Pegai na corda e desfiai-a, tomai separadamente todos os
pequenos motivos determinantes, e direis, quebrando-os um a um: Pois  s
isto! Entranai-os, porm, e torcei-os todos, e ficar-vos- uma enormidade; ser
tila hesitando entre Marciano no Oriente e Valentiniano no Ocidente; ser
Anbal demorando-se em Capua, Danton adormecendo em Arcis-sur-Aube.
     Seja, porm, o que for, Javert, mesmo no momento em que conheceu que
Joo Valjean lhe escapava, no ficou fora de si. Certo de que o forado refractrio
no poderia estar muito longe, estabeleceu espias, organizou ratoeiras e
emboscadas, e toda a noite bateu aqueles stios. A primeira coisa que ele viu foi a
desordem do lampio, que tinha a corda quebrada. Indcio precioso, que, todavia,
o enganou, fazendo-o desviar todas as pesquisas para o beco de Genrot. H neste
beco paredes sobremodo baixas, que do para jardins que vo terminar em
imensos terrenos incultos. Joo Valjean, pois, com toda a certeza devia ter fugido
por aquele lugar. O facto  que, se ele tivesse penetrado mais dentro do beco de
Genrot, decerto o faria e estava perdido.
    Javert explorou aqueles jardins e terrenos como quem procura uma agulha.
Ao romper do dia, deixou em observao dois homens inteligentes e dirigiu-se 
prefeitura de polcia, envergonhado como um espio apanhado por um ladro.
    LIVRO SEXTO
    O Petit Picpus



    I
    Rua Picpus, nmero 62



     No havia, h meio sculo, coisa que mais se parecesse com qualquer porta de
cocheira do que a da casa nmero 62, situada na rua do Picpus. Esta porta, de
ordinrio entreaberta da maneira mais atractiva, deixava ver duas coisas que nada
tm de fnebre: um ptio rodeado de paredes atapetadas de folhas de videira, por
cima das quais, ao fundo, se avistavam algumas rvores corpulentas, e o rosto de
um porteiro a passear. Quando um raio de sol alegrava o ptio e um copo de
vinho o porteiro, era difcil passar pela casa nmero 62 da rua do Picpus sem
trazer dali uma ideia risonha.
     E, todavia, era um lugar sombrio que se tinha entrevisto.
     O limiar sorria, a casa rezava e chorava.
     Se algum chegava, o que no era fcil, a transpor o porteiro o que mesmo
para quase todos era impossvel pois havia um: Abre-te Ssamo, que era
necessrio saber; se, transposto o porteiro, se entrava num vestibulozinho 
direita, para o qual dava uma escada apertada entre duas paredes, e to estreita
que no podia passar por ela mais do que uma pessoa de cada vez; se os que
chegavam a isto no se deixavam aterrar com a cor amarelada de que eram caiadas
as paredes da escada e com a cor escura do rodap, aventurando-se a subir,
encontravam primeiro um patamar, depois outro, e chegava-se ao primeiro andar
por um corredor, pelo qual a pintura amarela e o roda-p cor de caf nos seguiam
com pacfico encarniamento. Tanto a escada como o corredor recebiam luz de
duas belas janelas, porm o corredor fazia uma volta e tornava-se escuro. Dobrado
este cabo, chegava-se, aps alguns passos, em frente de uma porta, mais misteriosa
ainda por estar apenas cerrada. Abrindo-se esta porta via-se uma saleta de seis ps
quadrados, pouco mais ou menos, ladrilhada, lavada, limpa, fria, forrada de papel
com florinhas verdes, de quinze soldos a pea, recebendo uma luz baa de uma
grande janela de pequenos caixilhos, que ficava  esquerda, e tomava toda a
largura da saleta.
     Olhava-se, no se via ningum; escutava-se, e no se ouvia nem um passo
nem um murmrio humano. Eram nuas as paredes, sem mveis a sala, nem uma
cadeira se via.
     Tornava-se a olhar e via-se na parede que ficava em frente da porta uma
abertura quadrangular de um p quadrado, pouco mais ou menos, gradeada com
uma grade de ferro, cujos vares se cruzavam uns pelos outros, negros, nodosos,
slidos, formando quadrados, quase diria, malhas, com menos de polegada e meia
de diagonal. Chegavam as florinhas de papel com sossego e ordem at aos vares
de ferro, sem que este contacto fnebre as assustasse e as fizesse redemoinhar em
desordenada confuso.
     Supondo que houvesse criatura humana to admiravelmente magra que
tentasse entrar ou sair pela abertura quadrada, aquela grade a impediria. Como,
porm, a grade, apesar de no deixar passar o corpo deixaria passar os olhos, isto
, o esprito, haviam-na forrado de uma lmina de lata, encaixada na parede para
dentro alguma coisa e cravada de mil buracos mais microscpicos do que os
buracos de uma escumadeira. Por baixo desta chapa havia uma abertura
inteiramente semelhante  boca de uma caixinha de correio, e do lado direito da
grade um cordo, com o qual se puxava uma campainha. Neste caso, se se puxasse
pelo cordo, ouvia-se uma voz ali mesmo ao p, o que causava um
estremecimento, perguntar:
     - Quem est a?
     Era uma voz de mulher, uma voz to doce, que de doce que era se tornava
lgubre.
     Aqui havia tambm uma frase mgica, que era necessrio saber. Se aquele que
tocava a no sabia, calava-se a voz, e a parede tornava-se silenciosa, como se do
outro lado estivesse a escurido aterradora do sepulcro.
     Se, porm, aquele que tocava, sabia a frase, a voz tornava:
     - Faa favor de entrar por essa porta,  direita.
     Dava-se ento f de uma porta envidraada, coroada por um caixilho,
tambm envidraado e pintado de cinzento, que ficava  direita defronte da janela.
Levantava-se o trinco, transpunha-se a porta e experimentava-se absolutamente a
mesma impresso que quando se entra no teatro para uma frisa gradeada, antes de
descer a grade e estar aceso o lustre. Achava-se efectivamente o que entrava numa
espcie de camarote do teatro, apenas alumiado pela vaga claridade que penetrava
pelos vidros da porta estreita, mobilada com duas cadeiras velhas e uma esteira
desfiada, verdadeiro camarote com seu parapeito a altura suficiente para nele se
apoiar qualquer, sustentando uma mesinha de pau preto.
     Este camarote tambm era gradeado, com a diferena, porm, de que a grade
no era de madeira dourada como na pera, mas um monstruoso tecido de
vares de ferro horrorosamente entrelaados e chumbados na parede em enormes
chumbadouros, que pareciam punhos fechados.
     Passados os primeiros minutos, quando a vista principiava a afazer-se a esta
claridade crepuscular, como a das adegas, tentava ento passar a grade, porm no
podia penetrar mais do que seis polegadas alm, porque encontrava uma barreira
de bambinelas negras, reforadas e seguras por meio de travessas de pau pintadas
de amarelo. Estas bambinelas, que eram de juntas e divididas em compridas
lminas delgadas, tapavam toda a grade e estavam sempre fechadas.
     Passados alguns instantes, ouvia-se uma voz chamando e dizendo:
     - Aqui estou. O que me querem?
     Era uma voz querida, uma voz adorada s vezes. Porm, no se via ningum;
ouvia-se apenas o sussurro de uma respirao. Parecia uma evocao a falar-nos
atravs da tampa de um tmulo.
     Se aquele que penetrava at ali se achava em certas condies, desejadas, mas
sobremodo raras, abria-se em frente dele a estreita lmina de uma das persianas e
a evocao tornava-se uma apario. Por trs da grade, por trs da persiana,
avistava-se, tanto quanto a grade o permitia, uma cabea, a que apenas se via a
boca e a barba; o resto cobria-o um vu preto. Entrevia-se um escapulrio preto e
uma forma mal distinta, coberta com uma mortalha negra. Falava-vos aquela
cabea, mas no olhava para vs, nem vos sorria nunca.
     Por tal modo era disposta a claridade que vinha do lado de trs, que vs a
veis branca e ela via-vos negro. Era um smbolo aquela claridade.
     No entanto, os olhos procuravam avidamente penetrar por aquela abertura
que se tinha feito naquele lugar vedado a todas as vistas. Por entre o vcuo
profundo que envolvia aquela forma vestida de luto, tentavam os olhos distinguir
o que havia em roda da apario. Ao cabo de muito pouco tempo, conhecia-se que
se no via nada. O que se via era a escurido, o vcuo, as trevas, uma neblina de
Inverno, de envolta com o vapor de um tmulo, uma espcie de paz que assustava,
um silncio de que no recolhia coisa alguma, nem mesmo alguns suspiros, uma
sombra em que se no distinguia nada, nem mesmo alguns fantasmas.
     O que se via era o interior de um claustro.
     Era o interior daquela melanclica e severa casa chamada o convento das
bernardas da Adorao Perptua. Aquele camarote era o locutrio. A primeira voz
que vos tinha falado era a voz da rodeira, que estava sempre sentada, imvel e
silenciosa do outro lado da parede, ao p da abertura quadrada, defendida como
por uma dupla viseira, pela grade de ferro e pela chapa crivada de mil buracos.
     A escurido em que se achava mergulhado o camarote gradeado, provinha de
o locutrio no ter janela nenhuma do lado do mundo, tendo uma do lado do
convento.
     No deviam olhos profanos ver nada daquele lugar sagrado.
     Todavia, para alm daquela sombra havia alguma coisa; havia uma luz; havia
uma vida naquela morte. Posto que este convento fosse o mais vedado de todos,
vamos tentar penetrar nele, acompanhado do leitor, e dizer, at os devidos termos,
coisas que os contistas nunca viram e, por consequncia, nunca disseram.



    II
    A obedincia de Martin Verga



     Este convento, que em 1824 existia havia j muitos anos na rua do Picpus, era
uma comunidade de freiras bernardas da obedincia de Martin Verga.
     Por consequncia, as freiras deste convento estavam na dependncia, no de
Clairvaux, como as bernardas, mas de Cister, como as beneditinas. Por outras
palavras, estas freiras eram sbditas no de S. Bernardo, mas de S. Bento.
     Todos os que mais ou menos tm manuseado os in-folios sabem que Martin
Verga fundou em 1425 uma congregao de bernarbas-beneditinas, sendo
Salamanca a sede da ordem e Alcal a sua filial.
     Esta congregao ramificava-se por todos os pases catlicos da Europa.
     No tm nada de inslito na igreja latina estas garras de uma ordem sobre
outra.
     Para no falarmos seno da ordem de S. Bento, que  a de que aqui se trata,
diremos que a esta ordem esto sujeitas, sem contar a obedincia de Martin Verga,
quatro congregaes: duas em Itlia, o Monte Cassino e Santa Justina de Pdua,
duas em Frana, Cluny e S. Mauro; e nove ordens, Valombrosa, Grammont, os
celestinos, os camaldulos, os cartuxos, os humilhados, os olivetanos, os
silvestrinos, e, finalmente, os cistercenses; porque Cister, tronco para outras
ordens,  apenas um ramo para S.
     Bento. Cister data de S. Roberto, abade de Molesne na diocese de Langres em
1098.
     Ora, foi em 529, que o diabo retirado para o deserto de Subiaco (estava velho.
Ter-se-ia ele feito eremita?), foi expulso do antigo templo de Apolo, onde
permanecia reputado como S. Bento, que ento tinha dezassete anos.
     Depois da regra dos carmelitas, que andam descalos, trazem um rolo de
vimes ao pescoo e nunca se sentam, a regra mais dura  a das
bernarbas-beneditinas de Martin Verga. Estas freiras andam vestidas de preto
com um escapulrio, que, segundo a prescrio de S. Bento, sobe at  barba. O
seu hbito consiste num vestido de sarja de mangas largas, num grande vu de l
no escapulrio, que sobe at  barba, cortado em esquadria sobre o peito, e no
capelo, que desce at os olhos.  tudo preto, excepto o capelo, que  branco.
     As novias trazem o mesmo hbito, porm todo branco. As professas, alm
disto, trazem um rosrio  cinta. As bernarbas-beneditinas de Martin Verga
praticam a Adorao Perptua, como as beneditinas, chamadas do Santssimo
Sacramento, as quais no princpio deste sculo tinham duas casas em Paris, uma
no Templo, outra na rua Nova de Santa Genoveva. As religiosas, porm, de quem
nos ocupamos, pertenciam a uma ordem inteiramente diferente da das freiras do
Santssimo Sacramento, enclausuradas na rua Nova de Santa Genoveva e no
Templo. Entre uma e outra havia numerosas diferenas na regra e no trajo. As
bernardas beneditinas do Petit-Picpus traziam escapulrio preto e as beneditinas
do Sacramento da rua Nova de Santa Genoveva traziam-no branco, e alm disto,
uma custdia vermelha ou de cobre doirado ao peito, de trs polegadas de altura,
pouco mais ou menos, custdia que as religiosas do Petit-Picpus no traziam. A
Adorao Perptua, comum  casa do Petit-Picpus e  casa do Templo, deixava,
todavia, as duas ordens perfeitamente distintas. Somente nesta prtica  que entre
as freiras do Santssimo Sacramento e as bernardas de Martin Verga havia
parecena, do mesmo modo que no estudo e glorificao de todos os mistrios
relativos  infncia,  vida e  morte de Jesus Cristo e  Virgem  que existia
semelhana entre duas ordens inteiramente distintas e por vezes inimigas: a
congregao do Oratrio de Itlia estabelecida em Florena por Filipe de Nery, e a
congregao do Oratrio de Frana estabelecida em Paris por Pedro de Brule. O
Oratrio de Paris pretendia a primazia, visto que Filipe de Nery, era apenas santo
e Brule cardeal.
     Voltemos, porm, s durezas da regra espanhola de Martin Verga.
     As bernardas-beneditinas desta obedincia guardam abstinncia de carne
todo o ano, jejuam na Quaresma e em muitos outros dias que lhes so especiais,
levantam-se no primeiro sono, desde a uma hora da noite at s trs, para lerem o
brevirio e cantarem matinas, deitam-se em lenis de sarja em qualquer estao e
em cima das palhas, no fazem uso de banhos, nunca acendem lume,
disciplinam-se todas as sextas-feiras, observam a regra do silncio, no falam
umas com as outras seno nas horas de recreio, que so muito curtas, trazem
camisas de burel, durante seis meses, desde 14 de Setembro, dia da exaltao da
Santa Cruz, at  Pscoa. Estes seis meses representam uma moderao, pois a
regra diz todo o ano; mas esta camisa de burel, nos calores do estio insuportvel,
produzia febres e espasmos nervosos, de modo que foi preciso restringir o seu uso.
Mesmo com esta modificao suave, quando as religiosas, a 14 de Setembro,
vestem de novo aquela camisa, tm trs ou quatro dias de febre. Os seus votos,
votos sobremodo agravados pela regra, so obedincia, castidade e estabilidade na
clausura.
     De trs em trs anos procede-se  eleio da prioresa, feita pelas madres
vocais, assim chamadas por terem voto em captulo. Uma prioresa no pode ser
reeleita mais que duas vezes, o que fixa em nove anos a durao do mais longo
reinado possvel de uma prioresa.
     Estas religiosas no vem nunca o padre celebrante que lhe  oculto sempre
por uma sarja estendida diante, que tem nove ps de altura. Ao sermo, quando o
pregador est na capela, baixam o vu sobre o rosto; devem sempre falar baixo e
andar com os olhos pregados no cho e a cabea inclinada. Um nico homem
pode entrar no convento -  o arcebispo da diocese.
     H ainda outro, o jardineiro, porm este  sempre um velho, e a fim de que
ele ande constantemente s no jardim e as religiosas sejam advertidas da sua
presena, traz uma campainha no joelho.
     Estas religiosas esto sujeitas  prioresa e a sua sujeio  absoluta e passiva. 
a sujeio cannica em toda a sua abnegao. Como  voz de Cristo, ut voci
Christi, ao primeiro gesto, ao primeiro sinal, ad nutum, ad primum signum logo
com prazer, com perseverana, com uma espcie de obedincia cega, prompte,
hitariter, pet severanter, et cceca quadam obedientia, como a lima na mo do
artfice, quasi limam un manibus abri, no podendo ler nem escrever o que quer
que seja sem expressa permisso, tegere vel scribere non adiscerif sem sine expressa
superioris licentia.
     Andam  roda, fazem cada uma por sua vez o que elas chamam a reparao.
     Consiste a reparao em orar por todos os pecados, faltas, desordens,
violaes, iniquidades e crimes que na terra se cometem. Durante doze horas
consecutivas, desde as quatro da tarde at s quatro da manh, ou das quatro da
manh at s quatro da tarde, a irm que faz a reparao est de joelhos nas
pedras diante do Santssimo Sacramento, de mos erguidas e corda ao pescoo.
Quando de todo em todo j no pode, prostra-se de bruos, com o rosto no cho e
os braos em cruz; nisto consiste todo o seu alvio. Nesta atitude, ora por todos os
culpados do universo. Esta prtica chega a tocar as raias do sublime.
     Como este acto tem lugar diante de um poste, em cima do qual arde uma vela
de cera, indistintamente se diz fazer a reparao ou estar no poste. Preferem
mesmo as religiosas esta ltima expresso, que encerra em si uma ideia de suplcio
e aviltamento.
     Fazer a reparao,  uma funo em que toda a alma se absorve. A religiosa,
posta em orao diante do poste, no se voltar, ainda que nas suas costas rebente
um trovo.
     Alm disto, uma religiosa est sempre de joelhos diante do Santssimo
Sacramento e cada estao dura uma hora, rendendo-se umas s outras, como os
soldados de sentinela. Nisto consiste a Adorao Perptua.
     Tanto as prioresas como as simples madres adoptam sempre nomes cheios de
uma gravidade particular, que recordam, no os santos ou mrtires da igreja
crist, mas alguns dos momentos da vida de Jesus Cristo, como, por exemplo, a
madre Natividade, a madre Conceio, a madre Apresentao, a madre Paixo.
Cumpre notar, porm, que no so proibidos os nomes de santos.
     Algum que as visita nunca lhes v mais do que a boca.
     Todas tm os dentes amarelos. Jamais entrou no convento uma escova de
dentes.
     A limpeza dos dentes fica no cimo de uma escada, em cujos degraus se acha a
perda da alma.
     Elas no dizem de coisa alguma - nem meu nem minha. No tm nada
propriamente seu, nem devem gostar de coisa nenhuma. De tudo dizem nosso,
como o nosso rosrio; se falassem da camisa, diriam - a nossa camisa. s vezes
afeioam-se a algum pequeno objecto, a um livro de horas, a uma relquia, a uma
medalha benzida; porm, mal conhecem que principiam a gostar desse objecto,
devem-no dar. Lembram-se do dito de Santa Teresa, a quem uma grande dama,
na ocasio em que entrava para a ordem, dizia: Madre, d-me licena de mandar
buscar uma Bblia em que tenho muito gosto.
     Ah! Vs tendes gosto em alguma coisa! Nesse caso no entreis nesta casa!
     A quem quer que seja  proibido ter um quarto, uma habitao a que possa
chamar sua. Vivem em celas abertas. Quando se encontram, diz uma: Bendito e
louvado seja o Santssimo Sacramento do altar! E a outra responde: Para sempre.
A mesma cerimnia se repete, quando uma bate  porta da outra. Mal a da parte
de fora toca na porta, ouve-se do outro lado uma voz dizer precipitadamente: Para
sempre!
     Como todas as prticas, isto torna-se maquinal com o uso, de modo que s
vezes diz uma: Para sempre, antes da outra ter tempo de dizei: Bendito e louvado
seja o Santssimo Sacramento do altar! O que na verdade  sobremodo demorado.
     Entre as freiras da Visitao, a que entra diz: Ave Maria e a outra responde:
Gratia plena. So os seus bons dias, que efectivamente so cheios de graa.
     De hora em hora, o sino da igreja do convento d trs badaladas
suplementares, e a este sinal, prioresa, madres vocais, professas, conversas,
novias, postulantes, todas interrompem o que esto a dizer, a fazer ou a pensar e
dizem todas  uma, se so cinco horas, por exemplo: s cinco e a toda a hora,
bendito e louvado seja o Santssimo Sacramento do altar! Se so oito: s oito e a
toda a hora, etc., e assim sucessivamente, consoante a hora que .
     Este costume, que tem por fim quebrar o pensamento, voltando-o de
contnuo para Deus, existe em muitas comunidades, com diferena somente na
frmula. Assim, as do Menino Jesus, dizem: Agora e sempre o amor de Jesus
inflame o meu corao!
     As beneditinas-bernardas de Martin Verga, enclausuradas h cinquenta anos
no Petit-Picpus, cantam os ofcios numa salmodia grave, cantocho puro, e
sempre em voz cheia, todo o tempo que dura o ofcio. Em todos os lugares em que
h um asterisco no missal fazem uma pausa e dizem em voz baixa: Jesus, Maria,
Jos. No ofcio dos defuntos cantam em tom to baixo, que mal pode descer tanto
uma voz de mulher.
     Daqui resulta um efeito trgico, que apavora a alma.
     Para sepultura da comunidade haviam as freiras do Petit-Picpus mandado
fazer um carneiro por baixo do altar-mor. O governo, porm, como elas dizem,
no permitiu que o carneiro recebesse os fretros, e por consequncia, tinham de
sair do convento, quando morriam, o que as afligia e consternava como uma
infraco.
     Haviam obtido,  verdade, ser enterradas a uma hora especial e num lugar
reservado no cemitrio de Vaugirard, que tinha sido construdo em terreno
noutro tempo pertencente  comunidade, porm isto no passava de uma
consolao medocre.
     A quinta-feira estas religiosas ouvem missa cantada, vsperas e todos os
ofcios, como nos domingos. Alm disto, observam escrupulosamente todos os
dias santos dispensados, desconhecidos das pessoas mundanas, que a igreja
outrora prodigalizava em Frana e ainda prodigaliza na Espanha e na Itlia. As
suas estaes na capela so interminveis. Quanto ao nmero e durao das suas
rezas, no podemos dar melhor ideia destas duas coisas do que citando o dito
ingnuo de uma delas: As rezas das postulantes so terrveis, as das novias ainda,
piores e as das professas muito piores ainda.
     Rene-se o captulo uma vez por semana; preside a prioresa e assistem as
madres vocais. Cada uma das irms vem por sua vez ajoelhar na pedra e confessar
em voz alta, diante de todas, as faltas e pecados que naquela semana cometeu.
Aps cada confisso, consultam-se as madres vocais e infligem em voz alta as
penitncias.
     Alm da confisso em voz alta, para a qual se reservam as faltas de mais
alguma gravidade, tm para as faltas veniais o que elas chamam a culpa. Fazer a
culpa  prostrar-se diante da prioresa, at que esta, a quem nenhuma religiosa
trata de outro modo seno por nossa me, advirta a paciente de que s se pode
levantar, batendo uma pancada na sua cadeira coral. A culpa faz-se por qualquer
tenussima coisa, por quebrar um copo, por ter rasgado um vu, por uma
involuntria demora de alguns segundos num ofcio, pela desafinao de uma
nota na igreja, etc. Isto basta para que a religiosa a quem tal coisa acontece faa
logo a culpa. A culpa, porm,  inteiramente espontnea;  a prpria culpada,
(julgamos etimologicamente prpria do lugar a expresso) que a si a inflige,
depois de se julgar. Nos domingos e dias santos, os ofcios so salmodiados por
quatro madres cantoras, diante de uma estante de quatro faces.
     Ora, um dia, uma das madres cantoras entoou um salmo, que principiava por
um Ecce; porm, como em vez de Ecce, dissesse em voz alta estas trs notas , do, si,
sol, sofreu por esta distraco uma culpa que durou todo o tempo do ofcio. A
falta tornava-se enorme, porque as outras religiosas tinham-se rido.
     Quando uma religiosa  chamada ao parlatrio, ainda que seja a prioresa,
baixa o vu de modo a no deixar ver mais do que a boca.
     S a prioresa pode comunicar com estranhos. As outras no podem ver seno
os parentes mais prximos e isso ainda raras vezes. Se sucede apresentar-se
alguma pessoa de fora para ver alguma religiosa a quem no mundo conheceu ou
amou,  necessrio uma negociao completa. Se  senhora, pode ser concedida a
autorizao algumas vezes; vem ento a religiosa e aquela fala-lhe atravs dos
postigos, que no se abrem seno para uma me ou irm. Escusado  dizer que aos
homens tal permisso  recusada sempre.
    Eis aqui, pois, a regra de S. Bento, agravada por Martin Verga.
    No so rosadas, frescas e joviais, como de ordinrio as filhas das outras
ordens, as religiosas de quem nos ocupamos. So plidas e no rosto trazem
impressos em traos visveis o selo das austeridades definhadoras, a que pela regra
que as rege, esto sujeitas. S de 1825 a 1830 endoideceram trs.



    III
    Severidades



     A que  admitida,  pelo menos dois anos postulante e s vezes quatro, ao que
se devem acrescentar outros quatro anos de noviciado.  raro, por consequncia,
que alguma faa os votos definitivos antes dos vinte e trs ou vinte e quatro. As
bernardas-beneditinas de Martin Verga no admitem vivas na sua ordem.
     Nas suas celas entregam-se a muitas maceraes em segredo, de que nunca
devem falar.
     No dia em que uma novia faz a sua profisso, adornam-na com os seus mais
belos enfeites, pem-lhe uma grinalda de rosas brancas, alisam-lhe e dispem-lhe
o cabelo em caracis e em seguida a novia prostra-se e as outras estendem-lhe
por cima um vu preto e cantam-lhe o ofcio de defuntos. Dividem-se ento as
religiosas em duas fileiras; uma passa prximo da novia, dizendo com acento
lastimoso: Morreu a nossa irm! E a outra responde em voz retumbante: Mas vive
em Jesus Cristo!
     Na poca em que se passa esta histria havia um recolhimento de meninas
adjunto ao convento. Recolhimento de donzelas nobres, pela maior parte ricas,
entre as quais se distinguiam as meninas de Sainte-Aulaire e de Blissen e uma
inglesa que tinha o ilustre nome catlico de Talbot. Cresciam estas donzelas,
educadas por aquelas religiosas entre quatro paredes, no horror do mundo e do
sculo. Um dia, dizia-nos uma delas: S o ver as pedras da rua fazia-me estremecer
dos ps  cabea! Andavam vestidas de azul com uma touca branca na cabea e
uma pomba figurando o Esprito Santo ao peito, de cobre ou prata dourada. Em
certos dias santos de guarda, com especialidade no dia de Santa Marta,
concedia-se-lhes, como subido favor e suprema ventura, vestirem-se de religiosas
e fazerem os ofcios e as prticas de S. Bento em todo o dia. Nos primeiros tempos,
as religiosas emprestavam-lhes os seus vestidos pretos; porm, como isto
parecesse profano, a prioresa proibiu-o e s foi permitido tal emprstimo s
novias.  para notar que estas representaes, decerto toleradas e favorecidas no
convento por um secreto esprito de proselitismo e para fazer antegostar quelas
crianas o santo hbito, fossem uma ventura real e uma verdadeira recreao para
as recolhidas. Era para elas um passatempo com que a sua simplicidade engraava
por ser uma coisa nova, uma coisa que as mudava. Cndidas razes infantis, que
no chegam, todavia, a fazer-nos compreender, a ns mundanos, a felicidade de
pegar num hissope e estar de p horas seguidas a cantar em quarteto diante de
uma estante de coro.
     Nas austeridades, as educandas quase se conformavam com todas as prticas
do convento. Donzela houve que ainda depois de voltar ao mundo, e aps muitos
anos de casada, no chegara a perder o costume de dizer apressadamente: Para
sempre!, todas as vezes que algum batia  porta. Do mesmo modo que as
religiosas, as educandas, s viam os parentes no locutrio e nem mesmo as mes
obtinham permisso de as abra- ar. A vai um exemplo que prova at onde
chegava a severidade a este respeito. Um dia, foi uma educanda visitada por sua
me, que trazia na sua companhia uma outra filhinha de trs anos. Debulhava-se
esta em lgrimas, porque queria abraar a irm.
     Impossvel. Suplicou a me que fosse ao menos permitido  criana passar a
mozinha pelos vares da grade para a irm lha poder beijar. Foi-lhe tambm
recusado, quase escandalosamente.



    IV
    Alegrias



     Aquelas jovens, porm, nem por isso deixavam de encher aquela severa casa
de recordaes aprazveis.
     Em certas horas fulgurava a infncia naquele claustro. Ao tocar ao recreio,
uma porta girava nos gonzos, os passarinhos exclamavam: bom. A vm as
crianas! Inundava aquele jardim, disposto em forma de cruz como uma
mortalha, uma irrupo juvenil, e a principiavam a divagar por aquelas trevas uns
rostos radiosos, umas frontes brancas, toda a espcie de auroras. Aps os salmos,
os sinos, os repiques, as matracas e os ofcios, rebentava sbito todo aquele
sussurro de criana, sussurro mais agradvel do que o das abelhas.
     Abria-se a colmeia da alegria e cada qual tirava o mel que lhe pertencia.
Brincavam, chamavam umas pelas outras, reuniam-se em grupos, corriam, ou,
sentadas a um canto, tagarelavam em suaves colquios, mostrando a espaos os
alvos dentinhos. De longe os vus vigiavam os risos, as sombras espiavam os raios,
mas que importava? Os lbios expandiam-se em risos, as frontes irradiavam de
prazer. Aquelas quatro paredes lgubres tinham tambm a sua vez de
arroubamento, assistindo quele doce redemoinhar de enxames, vagamente
branqueadas pelo reflexo de tamanha alegria.
     Era uma como chuva de rosas que passava pelo meio daquele luto. Folgavam
as jovens debaixo da vigilncia das religiosas; as vistas, porm, da impecabilidade
no incomodam a inocncia. Graas quelas crianas no meio de tantas horas
austeras, havia tambm a hora dos folguedos. As mais pequenas saltavam, as
grandes dana-vam. Naquele claustro os folguedos eram corados de um reflexo do
cu. No havia coisa mais arrebatadora e augusta do que o livre desabrochar
daquelas almas infantis.
     Homero viria ali sorrir em companhia de Perrault. Naquele escuro jardim
havia juventude, sade, sussurro, gritos, vozearia, prazer e ventura suficientes para
desenrugar a fronte de todas as avs, tanto as da epopeia como as do conto, tanto
as do trono como as da choupana, desde Hecuba at  Mre-Grand.
     Ouviram-se naquela casa, mais talvez do que em nenhuma outra, desses ditos
de criana que tanta graa tm e que fazem rir com um riso pensativo. Foi entre
aquelas quatro fnebres paredes que uma criana de cinco anos um dia exclamou:
 minha me! Disseme uma grande que s me faltam nove anos e dez meses para
sair daqui. Que felicidade!
     Foi tambm ali que teve lugar o seguinte memorvel dilogo: Uma madre
vocal: - Porque chora, filhinha?
     A criana (de seis anos), soluando: - Eu disse  Alice que sabia o meu
compndio da histria de Frana e ela disse que eu no o sabia e eu sei-o.
     Alice, a grande (de nove anos): - E no sabe, no, senhora.
     A madre: - Ento como foi isso, minha filha?
     Alice: - Disseme ela que abrisse eu o livro ao acaso e que lhe fizesse a pergunta
que l estivesse, que ela era capaz de responder.
     - E ento?
     - No foi capaz.
     - Ora vamos l. Que lhe perguntou a menina?
     - Eu abri o livro ao acaso, como ela dizia, perguntei-lhe a primeira coisa que
encontrei.
     - E que pergunta foi?
     - Foi esta: - Que aconteceu depois?
     Foi ali que a respeito de um periquito algum tanto gluto, pertencente a uma
senhora recolhida, foi feita a seguinte observao:
     Periquito mais lindo! Come: uma torrada tal qual como a gente!
     Foi no pavimento daquele claustro que algum achou a seguinte confisso de
uma pecadora de sete anos, por ela de antemo escrita para a no esquecer:
     - Acuso-me, padre, de ter sido avarenta.
     - Acuso-me, padre, de ter cometido adultrio.
     - Acuso-me, padre, de ter erguido os olhos para os senhores.
     Foi num dos bancos de relva daquele jardim que por uma rosada boca de seis
anos foi improvisado o seguinte conto, escutado por alguns olhos azuis de quatro
e cinco anos:
     Uma vez eram trs galos numa terra onde havia muitas flores. Pegaram os
galos e foram colher flores e meteram-nas nos bolsos. Depois colheram as folhas e
puseram-nas s bonecas. Mas nesta terra havia muitos bosques e andava l um
lobo, e vai o lobo comeu os galos.
     E mais este outro poema:
     Uma vez deram com um pau num gato.
     Sabidas as contas, tinha sido Polichinelo que lhe havia batido.
     Mas, como ele no fez bem ao gato, fez-lhe mal, pegou ento uma senhora e
mandou-o prender.
     Foi ali que a uma pequena abandonada, educada por caridade no convento,
foi ouvido o seguinte doce e pattico dito. Ouvindo, uma vez, estarem as outras a
falar de suas mes, murmurou ela no seu canto:
     - C eu, quando nasci, j no tinha me.
     Havia no convento uma rodeira gorda, que andava sempre a correr pelos
corredores com o seu molho de chaves  cinta.
     Era gatha o seu nome, porm as grandes - para cima de dez anos -
chamavam-lhe Agatocles.
     O refeitrio, grande sala oblonga e quadrada, que s recebia claridade por um
claustro de arquivoltas, ao nvel do jardim, era um lugar escuro e hmido, como
as crianas dizem, cheio de bichos. Todos os lugares circunvizinhos forneciam
para ele o seu contingente de insectos. Cada um dos quatro cantos havia recebido,
pois, na linguagem das recolhidas, um nome particular e expressivo. Havia o
canto das Aranhas, o canto das Lagartas, o dos Bichos-de-conta e o dos Grilos. O
dos Grilos ficava ao p da cozinha e era muito estimado por ser mais quente. Do
refeitrio haviam os nomes passado para o recolhimento, servindo para distinguir
nele, como no antigo colgio de Mazarino, quatro naes. Pertencia cada
educanda a alguma das quatro naes, conforme o canto do refeitrio em que se
sentava s horas de comida. Um dia, andando o arcebispo a fazer a visita pastoral,
viu entrar na aula onde se achava uma corada e galante pequenina de belos
cabelos louros, e perguntou a outra recolhida, interessante trigueirinha de faces
cheias de frescura, que estava ao p dele:
     - Quem  aquela?
     -  uma aranha, Monsenhor.
     - Oh! E a outra?
     -  um grilo, - E aquela outra alm?
     -  uma lagarta.
     - Na verdade? E ento a menina o que ?
     - Eu sou um bicho-de-conta, Monsenhor.
     Cada caso deste gnero tem as suas particularidades. No princpio deste
sculo, Ecouen era um desses lugares graciosos e severos, onde, a uma sombra
quase augusta, cresce a infncia das donzelas. Em Ecouen, pois, para tomar lugar
na procisso do Santssimo Sacramento, havia distino entre virgens e floristas.
Havia tambm os plios e os turbulos, conforme pegavam aos cordes do
plio ou iam a incensar o Santssimo Sacramento. s floristas pertenciam de
direito as flores. Na frente iam quatro virgens. Na manh desse dia no era raro
ouvir-se perguntar pelos dormitrios:
     - Quem  que  virgem?
     Madame Campan citava este dito de uma pequena de sete anos a uma
grande de dezasseis que havia de ir na frente da procisso, enquanto que a outra
tinha de ir atrs:
     - Tu s virgem, eu no.
    V
    Distraces



     Por cima da porta do refeitrio, via-se escrito em grandes letras pretas essa
orao chamada o Padre nosso pequeno, que tinha a virtude de levar a gente
direita ao cu: Padre nosso pequenininho, que Deus fez, que Deus disse e que
Deus ps no Paraso. A noite, ao deitar, encontrei na minha cama trs anjos: um
aos ps, dois  cabeceira e a boa Virgem Maria que est no meio diz-me que me
deite e que no duvide de nada. O bom Deus  meu pai, a Virgem  minha me, os
trs apstolos so meus irmos e as trs virgens minhas irms. A camisa com que
Deus nasceu, estou eu envolta nela; a cruz de Santa Margarida no meu peito est
escrita; a senhora Virgem anda pelos campos a chorar por Deus e encontra o
senhor S. Joo. Senhor S. Joo de onde vindes vs? Venho do Ave Salus. No viu
por l o bom Deus? Ele est na rvore da cruz, os ps pendentes, as mos
pregadas, um chapuzinho de espinhos brancos na cabea. Quem disser isto trs
vezes de manh e trs vezes de tarde ganhar o Paraso. Em 1827, esta orao
caracterstica, tinha desaparecido da parede, debaixo de uma trplice camada de
cal. A esta hora acaba ela de se apagar da memria de algumas jovens de ento,
hoje senhoras de idade avanada.
     Um grande crucifixo completava a decorao do refeitrio, cuja nica porta,
como julgamos ter dito, dava para o jardim. De uma extremidade do refeitrio 
outra corriam duas mesas estreitas, guarnecidas cada uma de dois bancos de pau,
formando duas compridas linhas paralelas. As paredes eram brancas, as mesas
negras; estas duas cores de luto so o nico matiz dos conventos. As comidas eram
speras, o prprio alimento das crianas, severo. O prato de luxo consistia numa
pouca de carne com legumes ou de peixe salgado. Todavia, esta medocre iguaria
era uma excepo e s as recolhidas tinham direito a ela. As crianas comiam
caladas, vigiadas pela madre de semana, que de quando em quando, se alguma
mosca dava para voar ou zunir, contra as prescries da regra, abria e fechava um
livro de pau com estrondo. Este silncio era temperado com a leitura da vida dos
santos, feita em voz alta num pulpitozinho com estante, que ficava aos ps do
crucifixo. A leitora era uma educanda grande, no que andavam s semanas. De
distncia em distncia havia em cima da mesa umas terrinas vidradas, em que as
prprias educandas lavavam o prato e o talher, e onde s vezes deitavam algum
bocado de carne dura ou de peixe estragado, que no podiam comer, porm isto
era punido. Chamavam a estas terrinas redondos de gua.
     A criana que quebrasse o silncio era obrigada a fazer uma cruz com a
lngua.
     Onde? No cho, lambendo o soalho. O p, o fim de todas as alegrias, era o
encarregado de castigar aquelas pobres folhinhas de rosa, rs do crime de
tagarelice.
     Havia no convento um livro, de que nunca foi impresso seno um exemplar
nico, que era proibido ler.  a regra de S. Bento Arcano, em que no devem
penetrar vistas profanas, de quem quer que sejam. Nemo regulas, seu
constitutiones nostras, externis cornmitnicabit.
     Um dia, as recolhidas conseguiram apanh-lo e principiaram avidamente a
l-lo, leitura frequentes vezes interrompida por terrores de serem surpre-endidas,
o que as fazia fech-lo precipitadamente. Deste grande perigo, porm, a que se
aventuraram, apenas tiraram um prazer medocre.
     Algumas pginas inteligveis sobre os pecados dos rapazes novos, eis o que
acharam de mais interessante.
     Apesar da extrema vigilncia e da severidade dos castigos, s vezes, quando o
vento sacudia as enfezadas fruteiras, que orlavam a lea onde elas costumavam
brincar, conseguiam apanhar furtivamente alguma ma verde, algum damasco
imperfeito ou alguma pra bichosa.
     Deixarei agora falar uma carta que tenho  vista, carta escrita h vinte e cinco
anos pr uma recolhida, hoje duquesa de... uma das senhoras mais elegantes de
Paris.
     Cit-la-ei textualmente:
     Esconde a gente a pra ou a ma como pode. Quando vai pr o vu na
cama, enquanto no chegam as horas de ceia, mete-as debaixo do travesseiro e
depois de deitada come-as, e quando no possa ser na cama, come-as na latrina.
     Era esta uma das suas mais vivas voluptuosidades.
     Uma vez, tambm por ocasio de uma visita do arcebispo ao convento, uma
das jovens, Mademoiselle Bouchard, aparentada ainda com os Montmorencys,
apostou em como era capaz de pedir um feriado, enormidade numa comunidade
to austera. Foi aceite a aposta, mas nenhuma das que a sustentavam acreditava
nela. Chegada a ocasio, quando o arcebispo passava por diante das recolhidas,
Mademoiselle Bouchard, com indescritvel espanto das suas companheiras, saiu
das fileiras e disse:
     - Monsenhor, um feriado.
     O senhor de Qulen, que viu a frescura e nacarado matiz daquela bonita
carinha, sorriu-se e disse:
     - S um, minha querida menina? Trs, se quiser. Concedo-lhe trs dias de
feriado.
     Falara o arcebispo, tanto bastava para que a prioresa a nada se pudesse opor.
     Escndalo para o convento, mas alegria para as recolhidas. Imagine-se o
efeito que tal acontecimento produziria.
     Todavia, aquele melanclico claustro no estava circundado de paredes to
altas, que a vida externa das paixes, que o drama, que o romance mesmo, no
penetrasse nele. Para prova, limitar-nos-emos a notar aqui, indicando-o de
passagem, um facto real e incontestvel, que alis no tem em si relao nenhuma,
nem de algum modo prende com o fio da histria que contamos. Mencionmo-lo
apenas para completar no esprito do leitor a fisionomia do convento.
     Por esta mesma poca havia no convento uma pessoa misteriosa, que no era
religiosa, a quem todas tratavam com grande respeito, dando-lhe o nome de
senhora Albertina. A respeito dela s se sabia que estava doida e que no mundo
passava por morta. Segundo se dizia, esta histria encobria arranjos de fortuna
necessrios para um grande casamento.
     Esta senhora tinha apenas trinta anos, era trigueira, bastante bela e vago o
olhar dos seus grandes olhos pretos. Era objecto de dvida se ela via ou no. O seu
andar mais parecia o de uma sombra que desliza rpida, do que o de uma pessoa
viva; jamais se lhe ouvia uma fala e no era bem certo se ela respirava. O nariz
tinha-o afilado e lvido, como o dos que exalam o ltimo suspiro. Tocar-lhe na
mo era como tocar num pedao de gelo. Aquela mulher tinha uma estranha
graa espectral.
     Onde ela entrasse sentia-se frio. Um dia uma irm, vendo-a passar, disse para
outra: Esta senhora passa por morta. Est-o efectivamente, talvez.
     Albertina servia de tema a cem histrias. Era a eterna curiosidade das
recolhidas.
     Assistia aos ofcios numa tribuna que havia na capela chamada a Clarabia,
porque apenas tinha uma abertura circular, uma clarabia, e era sempre ela s na
tribuna porque se podia ver dali, por ficar no primeiro andar, o pregador ou o
celebrante, o que era proibido s religiosas. Um dia, estava o plpito ocupado por
um jovem sacerdote da classe elevada da sociedade, o duque de Rohan, par de
Frana, oficial dos mosqueteiros vermelhos em 1815, quando ainda prncipe de
Leo, e que depois, em 1830, morreu cardeal e arcebispo de Besanon. Era a
primeira vez que o senhor de Rohan pregava no convento de Petit-Picpus. De
ordinrio, Albertina assistia aos sermes e ofcios com perfeita serenidade, e em
completa imobilidade. Naquele dia, porm, mal avistou o senhor de Rohan
levantou o corpo e disse em voz que dominou o silncio da capela: - Ai! Augusto! -
Toda a comunidade voltou a cabea, estupefacta; o pregador ergueu os olhos,
porm Albertina voltara  sua costumada imobilidade. Por aquele rosto descorado
e frio passara um instante como um sopro do mundo exterior, um como claro de
vida, depois desvaneceu-se tudo e a louca tornara-se cadver, como dantes era.
     Contudo, aquelas duas palavras deram que falar a tudo o que no convento era
capaz de proferir sons articulados. Que multido de coisas naquele - Ai! Augusto! -
que torrente de revelaes! Efectivamente, o senhor de Rohan chamava-se
Augusto. Era evidente, pois, que Albertina sara da classe mais elevada da
sociedade, pois conhecia o senhor de Rohan, que ela mesma nela ocupava
avantajado lugar, pois que to familiarmente falava de to grande personagem e
que tinha com ele relaes de parentesco, mas em todo o caso, e com toda a
certeza, relaes muito ntimas, pois quelhe sabia o nome de baptismo.
     Entre as pessoas que iam ao convento, havia duas severssimas duquesas, que
o visitavam frequentemente, penetrando nele decerto em virtude do privilgio
Magnates mulieres.
     Era incrvel o medo que as duas velhas senhoras incutiam s recolhidas.
Quando elas passavam, todas as jovens tremiam e baixavam os olhos.
     O senhor de Rohan, porm, era, sem que tal coisa soubesse, o objecto da
ateno das recolhidas. Apesar de vigrio geral do arcebispado de Paris, cargo
para que, por essa ocasio, acabava de ser nomeado, enquanto no obtinha a mitra
episcopal, costumava ir frequentes vezes cantar nos ofcios da capela das religiosas
do Petit-Picpus.
     Nenhuma das jovens reclusas o podia ver por causa da cortina de sarja, mas o
senhor de Rohan tinha uma voz agradvel e algum tanto delgada, que elas haviam
chegado a conhecer e a distinguir. Fora mosqueteiro, e depois diziam que era
muito namorador, que trazia os seus belos cabelos castanhos sempre muito bem
penteados dispostos em rolo em roda da cabea, e um magnfico cinto de melania,
e que a sua batina negra tinha o talho mais elegante do mundo. O senhor de
Rohan preocupava, pois, em extremo todas aquelas imaginaes de dezasseis
anos.
     Nenhum rudo exterior penetrava no convento. Todavia, um ano chegou at
l o som de uma flauta. Foi um sucesso, sucesso de que as recolhidas de ento
ainda hoje se lembram.
     Era algum da vizinhana que tocava flauta. A cano, hoje sobremodo
antiga, que o desconhecido msico tocava, era sempre a mesma : - Vem reinar em
minha alma, Zelbuthea - e ouvia-se duas ou trs vezes por dia. As jovens passavam
horas inteiras a escut-la, as madres vocais andavam como que fora de si,
trabalhavam os miolos, choviam os castigos. Durou isto muitos meses. Todas as
recolhidas estavam mais ou menos namoradas do msico desconhecido. Cada
qual se imaginava a Zelbuthea da cano. O som da flauta vinha do lado da rua do
Muro Direito; tudo elas dariam, tudo arriscariam e tentariam para ver, embora
por um s segundo, para entrever, para avistar o rapaz que to deliciosamente
tocava flauta, e que ao mesmo tempo, sem o saber, tocava todas aquelas almas.
Houve algumas que se escaparam por uma porta de serventia e que subiram ao
terceiro andar, que dava para a rua do Muro Direito, a ver se o avistavam pelos
buracos das grades. Impossvel. Uma chegou a passar o brao pela grade que lhe
ficava superior  cabea, e a agitar o seu leno branco. Duas foram ainda mais
ousadas. Arranjaram a subir com grande risco a um telhado e conseguiram,
finalmente, ver o rapaz. Era um fidalgo emigrado, velho, cego e indigente, que
se punha a tocar flauta na sua gua-furtada para matar o tempo.



    VI
    O pequeno convento



     Havia no recinto do Petit-Picpus trs edifcios inteiramente distintos: o
Grande Convento, habitado pelas religiosas, o Recolhimento, morada das
educandas, e, finalmente, o chamado Pequeno Convento, que era uma morada de
casas com jardim, onde viviam em comum religiosas velhas de todas as espcies,
pertencentes a diversas ordens, restos dos claustros destrudos pela revoluo;
uma reunio de malhas pretas, pardas e brancas, de todas as comunidades e
variedades possveis, o que se tal cpula de palavras fosse permitido, se podia
chamar uma espcie de convento-arlequim.
     Apenas se estabelecera o imprio, permitiram a todas aquelas pobres
mulheres dispersas e desterradas ir abrigar-se ali sob as asas das
bernardas-beneditinas, e aquelas religiosas, a quem o governo dava uma penso,
haviam sido recebidas, com o maior gosto, pelas; freiras do Petit-Picpus. Era uma
mistura extravagante. Cada qual seguia a sua regra. As vezes era permitido s
recolhidas, como grande recreio, ir visit-las, em virtude do que aquelas tenras
memrias guardavam a lembrana da madre Santa Baslia, da madre Santa
Escolstica e da madre Jacob.
     Uma destas refugiadas tornava-se a encontrar quase na sua casa. Era uma
religiosa de Santa Aura, a nica que sobrevivera da sua ordem. O antigo convento
das freiras de Santa Aura ocupava desde o princpio do sculo XVIII exactamente
aquela mesma casa do Petit-Picpus, que depois veio a pertencer s beneditinas de
Martin Verga. Aquela santa mulher, demasiado pobre para trazer o magnfico
hbito da sua ordem, que consistia num vestido branco com escapulrio escarlate,
vestira piedosa-mente com ele uma manequim, que gostava de mostrar, legando-o
por sua morte ao convento.
     Em 1824, daquela ordem no restava mais do que uma religiosa; hoje s resta
uma boneca.
     Alm destas dignas madres, havia algumas senhoras seculares, que, como
Albertina, tinham obtido permisso da prioresa para se recolherem ao Pequeno
Convento.
     Eram deste nmero Madame de Beaufort de Hautpoul e a marquesa
Dufresne. Havia ainda outra, que nunca foi conhecida no convento seno pelo
temvel barulho que fazia a assoar-se. Chamavam-lhe as educandas Madame
Vacarmini, Pelo ano de 1820 ou 1821, Madame de Genlis, que nessa poca
publicava uma miscelneazinha peridica, intitulada o Intrpido, solicitou a sua
admisso como secular no convento de Petit-Picpus, admisso em que se
empenhava o duque de Orles.
     Rumor na colmeia; as madres vocais tremiam, porque Madame de Genlis
tinha escrito romances; porm, ela declarou que era a primeira a detest-los, e
como, alm disso, tinha chegado  sua fase de devoo asctica, com a ajuda de
Deus e do prncipe tambm entrou para o convento. Ao cabo, porm, de seis ou
oito meses, saiu dando por motivo da sua sada no ter o jardim sombra.
     Ficaram arrebatadas as religiosas. Posto que velha, Madame de Genlis ainda
tocava harpa e muito bem.
     Quando saiu, deixou a sua firma na cela. Madame de Genlis era supersticiosa
e latinista. Estas duas palavras do dela um exactssimo perfil. Ainda h alguns
anos se viam colados na parte interna de um armriozinho da sua cela, onde
fechava o dinheiro e as jias, os cinco seguintes versos latinos, escritos pelo seu
punho com tinta vermelha em papel amarelo, que tinham, na sua opinio, a
virtude de afugentar os ladres:
     Imparibus mentis pendent Ma corpora ramis; Dismas et Gesmas, media est
divina potestas; Alta petit Dismas, infelix, nfima, Gesmas,
     Nos et tes nostras conservei sumtna poteeas.
     Hos versus dicas, ne tu furto tuo perdas,
     Trs erguidos madeiros se levantam, Do que pendem trs corpos, e diferentes
So os motivos. Num, que ao lado fica,  Dismas, noutro Gesmas, e no meio De
ambos, jaz a divina potestade.
     Busca Dismas salvar-se; infeliz, Gesmas, Contra o cu blasfemando, irado ruge.
     Deus o que  nosso e a ns p'ra sempre guarde.
     Estes versos repete, e preservado De ladres, vivers seguramente.
     Estes versos, escritos em latim do sculo dezasseis, lembram a questo de
saber se os dois ladres do Calvrio se chamavam, como vulgarmente se cr,
Dimas e Gestas, ou Dimas e Gesmas. Esta ortografia talvez desaprouvesse no
sculo passado ao visconde de Gestas, que pretendia descender do mau ladro.
Como quer que seja, a virtude til que lhe anda apensa e artigo de f na ordem das
hospitaleiras.
     A igreja do convento, construda de modo que separava, como um verdadeiro
tapamento, o Convento Grande do Recolhimento, era, j se v, comum ao
Convento Grande e ao Convento Pequeno. Era at admitido nele o pblico por
uma espcie de entrada de lazareto que deitava para a rua. Estava tudo, porm,
disposto de tal modo, que nenhuma das habitantes do claustro podia ver um rosto
de fora. Suponde uma igreja, cujo coro houvesse sido agarrado por uma mo
gigantesca e encurvado de modo que formava, no como nas igrejas ordinrias,
um prolongamento por trs do altar, porm uma espcie de galeria ou caverna
escura,  direita do celebrante; suponde esta galeria fechada pela cortina de sete
ps de altura, de que j falmos; amontoai  sombra daquela cortina, em assentos
de madeira, as religiosas professas  esquerda, as recolhidas  direita, no fundo, as
conversas e as novias e tereis uma ideia das religiosas do Petit-Picpus, assistindo
aos ofcios divinos. Esta caverna, chamada o coro, comunicava com o claustro por
um corredor, e as frestas da igreja deitavam para o jardim. Quando as religiosas
assistiam a ofcios, em que a sua regra impunha o silncio, o pblico s conhecia
que elas estavam no coro pelo estrondo que faziam, abrindo os fechando os
assentos mveis das cadeiras em que se sentavam.
    VII
    Vrios contornos desta sombra



     Durante os seis anos que decorrem de 1819 at 1825, a prioresa do
Petit-Picpus era Mademoiselle de Blemeur, que na religio se chamava madre
Inocncia. Descendia da famlia de Margarida de Blemeur, autora da Vida dos
santos da ordem de S. Bento.
     Havia sido reeleita. Era uma senhora de sessenta anos, baixa, gorda, com voz
de cana rachada, diz a carta que j citmos, excelente pessoa, porm, e a mais
jovial de todo o convento, e por isso mesmo adorada.
     A madre Inocncia parecia-se com a sua ascendente Margarida, que foi a
Dacier da ordem. Era literata, erudita, sbia, competente, historiadora curiosa,
recheada de latim, enfrascada de grego, cheia de hebraico e mais beneditino do
que beneditina.
     A sub-prioresa era uma espanhola velha, quase cega, chamada a madre
Cineres.
     As mais notveis entre as vocais eram a madre Santa Honorina, escriv, a
madre Santa Gertrudes, primeira mestra de novias, a madre Santa ngela,
segunda mestra, a madre Anunciao, sacrist, a madre Santo Agostinho,
enfermeira, a nica religiosa m em todo o convento; depois a madre Santa
Matilde (Mademoiselle Gauvain), muito nova e dotada de uma admirvel voz; a
madre dos Anjos (Mademoiselle Drouet), que havia estado no convento das filhas
de Deus e no do Tesouro entre Gisors e Magny; a madre S. Jos (Mademoiselle de
Cogolludo); a madre Santa Adelaide (Mademoiselle de Cifuentes, que no pde
resistir s austeridades); a madre Compaixo (Mademoiselle de Ia Miltire,
senhora riqussima, recebida aos sessenta anos contra as prescri- es da regra); a
madre Apresentao (Mademoiselle de Siguenza), que foi prioresa em 1847;
finalmente, a madre Santa Celnia (irm do escultor Ceracchi), que depois
endoideceu, e a madre Santa. Chantal (Mademoiselle de Suzan), que tambm
depois enlouqueceu.
     Havia tambm entre as mais bonitas, uma galante rapariga de vinte e trs
anos, natural da ilha Bourbon e descendente do cavalheiro Rosa, que no mundo se
chamara Mademoiselle Rosa e se chamava ento madre Assuno.
     A madre Santa Matilde, que era encarregada do canto e do coro, gostava de
empregar nele as recolhidas. De ordinrio tomava uma escala completa delas, isto
, sete, de dez at dezasseis anos inclusive, da mesma estatura e com a mesma voz,
s quais fazia cantar de p e todas enfileiradas pela ordem da idade, caminhando
da mais nova para a mais velha. Oferecia isto aos olhos a vista de um como arrabil
de pastor, feito de donzelas, uma espcie de flauta de Pan, feita de anjos.
      De entre as irms conversas, as que as recolhidas amavam mais, eram soror
Santa Eufrsia, soror Santa Margarida, soror Santa Marta, que estava idiota, e
soror S.
      Miguel, de quem muito se riam, por causa do seu comprido nariz.
      Todas aquelas mulheres eram agradveis para com todas aquelas crianas.
Eram severas as religiosas, mas s consigo. No se acendia lume seno no
Recolhimento, e o alimento, comparado com o do convento, era escolhido. Afora
isto, tinham com as educandas mil cuidados. S quando alguma delas passava por
alguma religiosa e lhe dirigia a palavra, a religiosa nunca respondia.
      Esta regra do silncio fizera com que em todo o convento fosse tirada a fala s
criaturas humanas e dada aos objectos inanimados. Ora era o sino da igreja que
falava, ora o chocalho do jardineiro. Alm disto, tinha a rodeira ao lado uma
sonora campainha, que se ouvia de todos os lugares do convento, a qual, por
toques variados, que eram uma espcie de telgrafo acstico, indicava todas as
necessidades materiais que havia a satisfazer e chamava ao locutrio quando era
necessrio esta ou aquela habitante do convento. Cada pessoa ou coisa tinha o seu
toque. Para chamar pela prioresa era um e um; pela sub-prioresa um e dois.
Seis-cinco anunciavam a aula, de modo que as educandas nunca diziam entrar
para a aula, mas ir s seis-cinco. Quatro-quatro era o toque de Madame Genlis.
Este toque ouvia-se frequentes vezes. -  pelo diabo a quatro! - diziam as menos
caridosas. Dezanove badaladas anunciavam um grande acontecimento. Era a
abertura da porta da clausura, horrvel chapa de ferro, eriada de ferrolhos, que
no girava nos gonzos seno perante o arcebispo.
      Excepto ele e o jardineiro, como j dissemos, nenhum outro homem entrava
no convento. As recolhidas, essas viam mais dois: o abade Bens, esmoler, velho e
feio, que lhe era concedido contemplar por entre uma grade, e o mestre de
desenho, o senhor Ansiaux, que a carta de que o leitor j leu algumas linhas
chama senhor Anciot e que qualifica de velhote corcovado.
      Daqui se v que os homens eram todos escolhidos.
      Tal era, pois, aquela curiosa casa.
    VIII
    Post corda lapides



     Aps havermos esboado a figura moral daquele convento, no ser intil
indicar em poucas palavras a sua configurao material.
     O convento de Santo Antnio do Petit-Picpus ocupava quase todo o trapzio
que resultava das interseces da rua de Polonceau, da rua do Muro Direito, da
rua do Picpus e do beco sem sada, chamado nas antigas plantas a rua de
Aumarais. Estas quatro ruas cercavam  maneira de fosso aquele trapzio.
Compunha-se o convento de muitos edifcios e de um jardim. O edifcio
principal, considerado em globo, era uma justaposio de construes hbridas,
que, vistas em linha recta, desenhavam com bastante exactido uma forca pregada
no cho. A haste mais comprida ocupava todo o troo da rua do Muro Direito,
compreendido entre a rua do Picpus e a rua de Polonceau; a haste pequena era
uma alta, escura e severa fachada gradeada, que deitava para a rua de Picpus;
marcava a sua extremidade a porta nmero 62. No meio da fachada havia uma
portinha velha, de arco, coberta de p e de cinza e cheia de teias de aranhas, que
s se abria por uma ou duas horas aos domingos, ou nas raras ocasies em que do
convento saa o fretro de alguma religiosa. Era a entrada pblica da igreja.
     O ngulo da forca era uma sala quadrada que servia de copa, a que as
religiosas davam o nome de despensa. Na haste comprida ficavam as celas das
madres e das sorores, e o noviciado. Na haste mais curta, as cozinhas, o refeitrio,
que era paralelo ao claustro, e a igreja.
     Entre a porta nmero 62 e a esquina do beco sem sada de Aumarais, ficava o
Recolhimento, que de fora no se via. Formava o resto do trapzio o jardim que
ficava inferior ao nvel da rua de Polonceau, o que fazia com que os muros da
parte de dentro ainda fossem mais altos do que pela parte de fora. No meio do
jardim, que fazia uma pequena volta, elevava-se no cimo de um montculo um
belo pinheiro, aguado em forma cnica, e do qual, como da rodela de um escudo,
partiam quatro grandes leas e dispostas duas a duas nas ramificaes das quatro
grandes, oito pequenas, de maneira que se a cerca fosse circular, o plano
geomtrico das leas semelharia uma cruz colocada sobre uma roda. Todas estas
leas, porm, orladas de groselheiras, eram de comprimentos desiguais, por isso
que os muros em que vinham terminar eram irregularssimos. No fim do jardim
havia uma lea de grandes choupos que partia das runas do convento velho que
ficava  esquina da rua do Muro Direito e ia terminar no edifcio do Pequeno
Convento, que ficava  esquina do beco de Aumarais. Em frente deste edifcio
estendia-se o chamado jardim pequeno. Junte-se a tudo isto um ptio, toda a
espcie de variados ngulos, que faziam as moradas inferiores, paredes como as de
uma cadeia, por nica perspectiva e vizinhana a comprida linha negra de
telhados que orlava o lado fronteiro da rua do Polonceau, e poder-se- formar
uma imagem completa do que h quarenta e cinco anos era o convento das
bernardas do Petit-Picpus. Observaremos por ltimo que aquela santa casa havia
sido edificada exactamente no local onde, desde o sculo XIV at ao sculo XVI,
existiu um famoso jogo de pela, chamado a Espelunca dos onze mil diabos.
     Todas aquelas ruas eram das mais antigas de Paris. Estes nomes de Muro
Direito e Aumarais so bastante velhos; porm, as ruas que designam ainda so
mais velhas.
     O beco de Aumarais chamou-se primeiro beco de Mangout, e a rua do Muro
Direito rua das Roseiras Bravas, porque antes dos homens saberem lavrar pedras,
j Deus ordenava s flores que desabrochassem.



    IX
    Um sculo sob um hbito



     J que to detidamente viemos a ocupar-nos do que noutro tempo era o
convento do Petit-Picpus, ousando abrir uma janela por onde devassssemos o
interior daquele discreto asilo, permita-nos ainda o leitor uma pequena digresso
estranha  essncia deste livro, mas caracterstica e til, por isso que d lugar a
sabermos que o convento tambm tem suas figuras originais.
     Havia no pequeno Convento, uma centenria que para ali tinha vindo da
abadia de Fontevrault. Antes da revoluo pertencera mesmo  boa sociedade.
Falava muito do senhor de Miromesnil, guarda dos selos no reinado de Lus XVI e
de uma presi-denta Duplat, a quem de muito perto conhecera. O seu gosto, a sua
vaidade, era vir  baila com estes dois nomes, a propsito de tudo em que se
falasse. Alm disto, contava maravilhas da abadia de Fontevrault, pintando-a
como uma cidade, e dizendo que no mosteiro havia ruas.
     A sua linguagem era um geringona picarda, que fazia rir as recolhidas.
Todos os anos renovava solenemente os seus votos, e na ocasio em que prestava
juramento, dizia para o sacerdote: Monsenhor S. Francisco arrendou-o a
Monsenhor S. Julio, Monsenhor S. Julio arrendou-o a Monsenhor S. Eusbio,
Monsenhor S. Eusbio arrendou-o a Monsenhor S. Procpio, etc., etc.; do mesmo
modo eu lho arrendo, meu padre.
     E as recolhidas riam no  socapa, mas por baixo do vu, graciosos risinhos
abafados que faziam encrespar o sobrolho s madres vocais.
     De uma vez, estando a centenria a contar histrias, disse para as que a
ouviam:
     No meu tempo os bernardas no ficavam a dever nada aos mosqueteiros. Era
um sculo que falava, mas era o sculo XVIII. Descrevia o costume dos quatro
vinhos usados em Champagne e Borgonha antes da revoluo. Quando por
alguma cidade de Borgonha ou de Champagne passava qualquer grande
personagem, como um marechal de Frana, um prncipe, um duque, um par,
vinha esper-lo a cmara e aps um estirado discurso apresentava-lhe quatro
vasos de prata contendo quatro vinhos diferentes. Na primeira taa lia-se esta
inscrio:  Vinho de macaco; na segunda, vinho de leo; na terceira, vinho de
carneiro; na quarta, vinho de porco. Estas quatro legendas exprimiam os quatro
graus da embriaguez: o da embriaguez que alegra, o da embriaguez que irrita, o da
embriaguez que entontece, o da embriaguez que embrutece.
     Tinha ela num armrio, fechado  chave, um objecto misterioso que muito
estimava, e que no era proibido pela regra de Fontevrault. No queria que
ningum o visse. Fechava-se na cela, o que a sua regra lhe permitia, e escondia-se
todas as vezes que o queria contemplar. Se sentia vir gente pelo corredor tornava a
fechar o armrio o mais precipitadamente que podia faz-lo com as suas trmulas
mos. Mal lhe falavam nisto calava-se, ela que to amiga de falar era. As mais
curiosas viram malogrados os seus esforos em presena do seu silncio e as mais
tenazes em presena da sua obstinao. Era este tambm um objecto de
comentrios para todas as ociosas do convento ou para aquelas que andavam
aborrecidas. Que seria aquela to preciosa e secreta coisa que era o tesouro da
centenria? Algum livro de santidade, decerto?
     Algum rosrio nico? Alguma relquia eficaz? Perdiam-se em conjecturas.
Apenas a pobre velha morreu, correram ao armrio mais depressa talvez do que
convinha e abriram-no. Acharam o misterioso objecto embrulhado numa toalha,
como uma patena benzida. Era um prato de Faenza representando uns amores a
fugir, perseguidos por uns praticantes de boticrio armados de enormes seringas.
Abundavam as figuras em caretas e posturas cmicas. A um dos lindos amorinhos
j um dos praticantes tinha espetado a atroz seringa. Ele debatia-se, agitava as
asinhas, tentando ainda voar, mas o bufo ria com um riso satnico. Agora a
moralidade do quadro: o amor vencido pela clica. Este prato, alis um tanto
curioso e que teve talvez a honra de sugerir uma ideia a Molire, existia ainda em
Setembro de 1848; estava  venda num adelo do boulevard Beaumarchais.
    No queria esta boa velha receber nenhuma visita de fora, porque, dizia ela,
era muito triste o locutrio.



    X
    Origem de adorao perptua



     Com efeito, o locutrio quase sepulcral, de que temos tentado dar uma ideia,
 um facto inteiramente local, que no se reproduz com a mesma severidade
noutros conventos, especialmente no convento da rua do Templo, que, na
verdade, era de outra ordem. Neste convento, os postigos negros eram
substitudos por cortinas de cor escura, e o locutrio era uma sala soalhada, com
cortinas de cassa nas janelas e quadros de toda a espcie pelas paredes entre os
quais figurava o retrato de uma beneditina com o rosto descoberto, ramalhetes
pintados e at a cabea de um turco.
     Era no jardim do convento da rua do Templo que se achava o castanheiro da
ndia que passava pelo mais belo e maior da Frana, e que entre o bom povo do
sculo XVIII, tinha a fama de ser o pai de todos os castanheiros do reino.
     Como j tivemos ocasio de dizer, o convento do Templo era ocupado por
beneditinas da Adorao Perptua, beneditinas, porm, muito diferentes das que
estavam na obedincia de Cister. A ordem da Adorao Perptua no  muito
antiga, pois no remonta a mais de duzentos anos. Em 1649 foi duas vezes e com
poucos dias de intervalo, profanado o Santssimo Sacramento, em duas igrejas de
Paris, em S.
     Sulpcio e em S. Joo da Greve, sacrilgio horroroso e raro que encheu de
comoo toda a cidade. Ordenou por este motivo o vigrio-geral, prior de S.
Germano-des-Prs, uma solene procisso, em que todo o seu clero tomou parte,
oficiando o nncio do papa. Duas senhoras, porm, Madame de Courtin,
marquesa de Boucs, e a condessa de Chateauvieux, julgaram insuficiente a
expiao. Aquele ultraje, bem. que passageiro, feito ao augustssimo sacramento
do altar no saa daquelas duas almas piedosas, parecendo-lhes que no podia ser
reparado seno por uma Adorao Perptua em algum mosteiro de freiras.
Fizeram ambas, pois, uma em 1652, a outra em 1653, doao de considerveis
quantias  madre Catarina de Bar, chamada do Santssimo Sacramento, religiosa
beneditina, para ela com este piedoso fim, fundar um mosteiro da ordem de S.
Bento; a primeira licena para esta fundao foi dada  madre Catarina pelo
senhor de Metz, abade de S. Germano com a condio de que nenhuma mulher
pudesse ser admitida, sem trazer trezentas libras de penso, que perfazem seis mil
libras de capital. Depois do abade de S. Germano concedeu o rei cartas-patentes,
e em 1654, tanto a licena abacial, como as cartas rgias, foram homologadas no
tribunal de contas e no parlamento.
     Eis aqui a origem e a consagrao legal do estabelecimento das beneditinas da
Adorao Perptua do Santssimo Sacramento em Paris. O seu primeiro convento
foi todo feito de novo na rua da Cassete  custa de Madame de Boucs e de
Madame Chateauvieux.
     Esta ordem, como se v, no se confundia com as beneditinas chamadas de
Cister. O seu superior era o abade de S. Germano-des-Prs, do mesmo modo que
o superior das freiras do Sagrado Corao era o geral dos jesutas, e o das irms da
caridade o geral dos lazaristas.
     Era tambm completamente diferente das bernardas do Petit-Picpus, cujo
interior acabamos de mostrar. Em 1657 o papa Alexandre VII, por um breve
especial, dera autorizao s bernardas do Petit-Picpus, para praticarem a
Adorao Perptua  semelhana das beneditinas do Santssimo Sacramento. As
duas ordens, porm, nem por isso deixaram de ficar inteiramente distintas, como
dantes.



    XI
    O fim do Petit-Picpus



    Desde o princpio da restaurao, que o convento do Petit-Picpus definhava;
o que faz parte da morte geral da ordem, a qual depois do sculo XVIII, vai
desaparecendo como todas as outras ordens religiosas. A contemplao, do
mesmo modo que a orao,  uma necessidade da humanidade; porm, esta, como
tudo que a revoluo tocou, h-de transformar-se, e de hostil ao progresso social,
se lhe tornar favorvel.
     A casa do Petit-Picpus despovoava-se a olhos vistos. Em 1840 tinha
desaparecido o Pequeno Convento e o Recolhimento. J nele no existiam nem as
velhas nem as donzelas; umas tinham morrido, as outras tinham-se retirado.
Volaverunt.
     A regra da Adorao Perptua  de uma rigidez que espanta; por isso as voca-
es recuam e a ordem no  coisa que se recrute. Em 1845 ainda se fazia uma ou
outra irm conversa, porm religiosa professa nenhuma. H quarenta e cinco
anos, eram quase cem as religiosas; h quinze, eram apenas vinte e oito. Quantas
so hoje? Em 1847, a prioresa era nova, sinal de que o crculo da escolha se ia
restringindo. Ainda no tinha quarenta anos.  medida que o nmero diminua,
aumentava o cansao, porque o servio de cada uma se tornava mais penoso;
via-se desde ento aproximar-se a ocasio em que s houvesse uma dzia de
ombros doridos e alquebrados para sustentar a pesada regra de S. Bento. O fardo 
implacvel e fica sempre o mesmo, tanto para poucas como para muitas. At aqui
pesava, agora esmaga. De modo que vo morrendo. No tempo em que o autor
deste livro ainda habitava em Paris, morreram duas. Uma tinha vinte e cinco anos,
a outra vinte e trs. Esta pode dizer como Jlia Alpinula: Hic jaceo. Vixi annos
viginti et tres. Por causa desta decadncia foi que o convento renunciou 
educao de meninas.
     No podemos passar por esta extraordinria, desconhecida e escura casa sem
entrarmos e fazer entrar connosco os espritos que nos acompanham e nos ouvem
contar, talvez para utilidade de alguns, a melanclica histria de Joo Valjean.
     Penetramos naquela comunidade cheia de prticas velhas, que hoje to novas
parecem.
      o jardim vedado. Hortas conclusos. Falamos daquele singular lugar,
circunstanciada-mente, mas com respeito pelo menos, tanto quanto uma coisa se
concilia com a outra.
     Nem tudo compreendemos, porm no insultmos nada. Estamos a igual
distncia do hossana de Jos de Maistre, que termina por consagrar o algoz, e do
riso escarnecedor de Voltaire, que chega a zombar do crucifixo.
     Ilogismo de Voltaire, seja dito de passagem, pois que Voltaire defenderia
Jesus como defendeu Calas; e, mesmo para os que negam as encarnaes
sobrenaturais, que representa o crucificado? O sbio assassinado.
     No sculo XIX, a religio sofre uma crise. Os homens esquecem certas coisas
e fazem bem, contanto que, esquecendo uma coisa, aprendam outra. Longe o
vcuo no corao humano. Fazem-se certas demolies e bom  que se faam, mas
com a condio de serem seguidas de novas construes.
    Entretanto, estudemos as coisas que j no existem.  necessrio conhec-las,
ainda que no seja seno para as evitar. As contrafaces do passado tomam
nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o
passado,  atreito a falsificar o seu passaporte. O passado tem um rosto, que  a
superstio, e uma mscara, que  a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e
arranquemos-lhe a mscara.
    Pelo que diz respeito aos conventos, estas sociedades oferecem uma questo
complexa, uma questo de civilizao que os condena e uma questo de liberdade
que os protege.
    LIVRO STIMO
    Parntesis



    I
    O convento considerado como ideia abstracta



    Este livro  um drama cujo primeiro personagem  o infinito.
    O segundo  o homem.
    Sendo assim, visto depararmos com um convento no nosso caminho, era
nosso dever penetrar nele. Porqu? Porque o convento que to prprio  do
oriente como do ocidente, da antiguidade como dos tempos modernos, tanto do
paganismo, do budis-mo, do maometismo como do cristianismo,  um dos
aparelhos de ptica aplicados pelo homem ao infinito.
    No  este o lugar para desenvolver certas ideias alm dos limites devidos;
todavia, devemos diz-lo, conservando absolutamente nossas reservas, restries e
at mesmo indignaes, todas as vezes que no homem encontramos o infinito,
bem ou mal compreendido, sentimo-nos tomados de respeito. H na sinagoga, na
mesquita, no pagode, no wigwam, um aspecto medonho que execramos e um
aspecto sublime que adoramos. Que fonte de contemplao para o esprito, que
manancial de cogitaes sem fundo! O reflexo de Deus nas paredes da
humanidade.



    II
    O convento considerado como facto histrico



     Debaixo do ponto de vista da histria, da razo e da verdade, o monaquismo
 condenado.
     Os mosteiros, quando abundam num pas, so tropeos que impedem a
circulao, estabelecimentos que servem de embarao, centros de preguia onde se
necessitam centros de trabalho. As comunidades monsticas so para a grande
comunidade social o que o agarico  para o carvalho, o que para o corpo humano
 a verruga. A sua prosperidade e nutrio so o empobrecimento do pas. O
regime monacal, bom no comeo das civilizaes, til para produzir a reduo da
brutalidade pelo espiritual, 
     mau na virilidade dos povos. Alm disto, quando ele se relaxa e entra no
perodo do seu desregramento, como continua a dar o exemplo, torna-se mau por
todas as razes que o faziam salutar no perodo da sua pureza.
     O tempo das instituies monsticas passou. Os claustros teis na primeira
educao da civilizao moderna, impediram-na na sua crescena e so nocivos ao
seu desenvolvimento. Como instituio e modo de formao para o homem, os
mosteiros, bons no sculo X, discutveis no sculo XV, so detestveis no sculo
XIX.
     A lepra monacal roeu at quase ao esqueleto duas naes admirveis, a Itlia e
a Espanha, uma a luz, outra o esplendor da Europa por alguns sculos, e
presentemente esses dois ilustres povos principiam a sarar, mas  em virtude da
salutar e vigorosa higiene de 1789.
     O convento, o antigo convento de freiras, tal como ainda no princpio deste
sculo aparece na Itlia, na ustria e na Espanha,  uma das mais sombrias
incrustaes da Idade Mdia. O claustro de que falamos,  o ponto de interseco
dos terrores. O claustro catlico propriamente dito  todo cheio da negra
irradiao da morte.
     Sobre todos, porm, o mais fnebre  o convento espanhol. Debaixo de
abbadas repletas de trevas, prenhes de escurido, sob zimbrios vagos pela muita
sombra, erguem-se macios altares bablicos da altura de catedrais; pendem de
cadeias no meio das trevas imensos crucifixos brancos; ostentam-se nus sobre o
bano grandes Cristos de marfim, mais do que ensanguentados, vertendo sangue,
medonhos e magnficos, com os ossos dos cotovelos  vista, com os tegumentos
das rodelas dos joelhos dilacerados, com as carnes rasgadas em profundas chagas,
coroados de espinhos de prata, pregados com cravos de ouro, com gotas de
sangue de rubis na fronte e lgrimas de diamantes nos olhos. Os diamantes e os
rubis parecem molhados e fazem chorar em baixo, nas sombras, criaturas cobertas
com vus que trazem os rins pisados do cilcio e das disciplinas com pontas de
ferro, os seios esmagados por corsaletes de vimes, os joelhos esfolados  fora de
rezar; mulheres que se julgam esposas; espectros que se julgam serafins. Acaso
pensam estas mulheres? No. Acaso tm vontade? No. Acaso amam? No. Acaso
vivem? No. Os nervos tornaram-se-lhes ossos; os ossos tornaram-se-lhes pedras.
O seu vu  um tecido de sombras. O seu hlito por baixo do vu assemelha-se a
no sei que trgica respirao da morte. A abadessa, uma larva, santifica-as e
terrifica-as. So imaculadas, mas intratveis. Eis o que so os antigos mosteiros de
Espanha. Covis da devoo terrvel, antros de virgens, lugares ferozes.
     A Espanha catlica ainda era mais romana do que a prpria Roma. O
convento espanhol era o convento catlico por excelncia. Ningum diria seno
que estava no Oriente. O arcebispo era como um Kislar-aga do cu, que
aferrolhava e espiava aquele serralho de almas reservado para Deus. A monja era a
odalisca, o eunuco o padre. As abrasadas eram escolhidas em sonhos e possuam
Cristo. De noite descia da cruz o belo mancebo nu e tornava-se o xtase da cela.
Muros elevados guardavam de qualquer distraco viva a sultana mstica, que
tinha o Crucificado por sulto. Um olhar estranho era uma infidelidade. O in pace
substitua o saco de couro.
     O que no Oriente se lanava ao mar, no Ocidente lanava-se  terra. Em
ambas as partes havia mulheres debatendo-se; para umas a vaga, para outras a
cova; l as afogadas, c as enterradas. Monstruoso paralelo!
     Hoje os defensores do passado, como no podem negar estas coisas, sorriem.
     Est em moda uma estranha, mas cmoda maneira de suprimir as revelaes
da histria, invalidar os comentrios da filosofia e elidir todos os factos molestos e
todas as questes escuras. Declamaes, repetem os parvos. Joo Jacques,
declamador; Diderot, declamador; Voltaire a respeito de Calas, Labarre e Sirven,
declamador. No sei quem ultimamente descobriu que Tcito era um declamador,
que Nero era uma vtima, e que decididamente se devia a gente compadecer
daquela pobre Holofernes.
     Os factos, porm, so pertinazes e difceis de destruir.
     O autor deste livro viu com os seus olhos, na abadia de Villers, a oito lguas
de Bruxelas (coisas da Idade-Mdia que todos tm  mo), no meio do prado que
serviu de ptio do claustro, o alapo das masmorras em que quem entrava
morria, e na margem do Dyle quatro calabouos de pedra, meios metidos no cho,
meios debaixo de gua. Eram quatro in pace. Em cada calabouo destes vem-se
restos de uma porta de ferro, uma latrina e uma trapeira gradeada, que por fora
fica a dois ps acima da gua e por dentro a seis ps abaixo do solo. Ao longo da
parede correm exteriormente quatro ps de gua. O cho est sempre molhado.
Esta terra hmida era o leito do habitante do in pace. Num dos calabouos v-se
um pedao de uma golilha chumbada na parede; noutro uma espcie de caixo
quadrado, formado de quatro lminas de granito, demasiado curtas para caber
nele uma pessoa deitada, demasiado baixas para a conter de p. Pois metiam
dentro uma criatura, com uma tampa de pedra por cima.
    Existe isto. V-se. Toca-se. Que declamadores aqueles in pace, aqueles
calabouos, aqueles gonzos de ferro, aquelas golilhas, aquela elevada trapeira, ao
nvel da qual corre a gua do rio, aquele caixo de pedra fechado com uma tampa
de granito, como um tmulo, com a diferena de que o morto ali era um vivo,
aquele solo hmido, ou antes, grossa camada de lodo, aquelas latrinas de que
ainda hoje se vem os buracos!



    III
    Sob que condio se pode respeitar o passado



     O monaquismo, do modo que existia na Espanha e existe ainda no Tibete, 
uma espcie de tsica para a civilizao. Suspende rpido a aco vital do corpo
social.
     Despovoa de um modo simples. Claustrao, castrao. Foi um flagelo para a
Europa.
     Acrescentai a isto a violncia, to frequentes vezes feita  conscincia, as
vocaes foradas, a feudalidade que se apoiava no claustro, a primogenitura que
vertia no monaquismo o excesso da famlia, as ferocidades de que acabamos de
falar, os in pace, as bocas fechadas, os crebros murados, tantas inteligncias
desditosas metidas no calabouo dos votos, eternos, a profisso, o enterramento
das almas vivas. Acrescentai os suplcios individuais s degradaes nacionais, e,
quem quer que sejais, sentir-vos-eis estremecer em presena da cogula e do vu,
duas mortalhas de inveno humana.
     Todavia, apesar da filosofia e do progresso, o esprito claustral persiste em
pleno sculo XIX a respeito de certos pontos e em certos lugares, e uma estranha
recrudescncia espanta nesta ocasio o mundo civilizado. A teima das instituies
envelhecidas em quererem perpetuar-se, assemelha-se  obstinao do perfume
ranoso que nos reclamasse os cabelos,  pretenso do peixe podre que quisesse
ser comido,  perseguio da roupa de criana que quisesse vestir o homem, 
ternura dos cadveres que voltassem a abraar os vivos.
     Ingratos!, diz a roupa. Protegi-vos do mau tempo e no quereis saber de mim!
     Porqu? Venho do alto mar, diz o peixe. Fui a rosa, diz o perfume. Eu
amei-vos, diz o cadver. Fui eu que vos civilizei, diz o convento.
     A isto uma nica resposta: Noutro tempo.
     Parece estranho haver quem pense na prolongao indefinida das coisas
defuntas e no governo dos homens por embalsamao, quem queira restaurar os
dogmas em mau estado, dourar de novo os retbulos, remoar os claustros, tornar
a benzer os relicrios, mobilar outra vez as supersties, reabastecer os fanatismos,
pr cabos novos nos hissopes e nas espadas, reconstituir o monaquismo e o
militarismo, quem acredite na salvao da sociedade pela multiplicao dos
parasitas, quem pretenda impor o passado ao presente. H tericos, todavia, que
professam estas teorias. O processo desses tericos, alis homens de esprito, 
simplssimo; aplicam sobre o passado um esboo a que do o nome de ordem
social, direito divino, moral, famlia, respeito aos passados, autoridade antiga,
tradio santa, legitimidade, religio, e vo gritando: Vede! Olhai para isto,
homens de bem! Esta lgica tambm era conhecida dos antigos. Cobriam de
greda uma novilha preta e diziam:  branca, Bos crtatus.
     Enquanto a ns, respeitamos uma ou outra coisa do passado, e poupamo-lo
todo, contanto que ele esteja pelo que realmente , uma coisa morta; pois se quer
ser uma coisa viva, nesse caso atacamo-lo e fazemos esforos para o matar.
     Supersties, hipocrisia, beatice, prejuzos, todas estas larvas, apesar de larvas,
tm apego  vida; tm dentes e unhas no seu fumo;  necessrio arcar com elas
peito a peito e fazer-lhes a guerra, mas guerra sem trguas; pois  uma das
fatalidades da humanidade ser condenada a combater eternamente com
fantasmas.  sempre difcil agarrar a sombra pela garganta e derrib-la.
     Um convento em Frana,  luz do meio-dia do sculo XIX,  um colgio de
mochos, fazendo frente ao dia. Um claustro, em flagrante delito de ascetismo no
meio da ptria dos cidados de 89, de 1830 e 1848, Roma dilatando-se por Paris, 
um anacronismo. Em tempos normais, para dissolver um anacronismo e faz-lo
desaparecer de todo, basta fazer-lhe soletrar uma data. Porm ns no estamos em
tempos normais.
     Combatamos, portanto.
     Combatamos, mas distingamos. O caracterstico da verdade  no ser nunca
excessiva. Que necessidade tem ela de exagerar? H coisas que  necessrio
destruir e coisas que devem simplesmente esclarecer-se e olhar-se. Que fora no
tem o exame benvolo e grave! No apliquemos a chama onde a luz basta.
     Na hiptese, pois, do sculo XIX somos contrrios, em tese geral, s clausuras
ascticas, entre todos os povos, tanto na sia como na Europa, tanto na ndia
como na Turquia. Quem diz convento, diz pntano.  evidente a sua putrefaco,
insalubre a sua estagnao, a sua fermentao d origem a febre entre os povos,
estiolando-os; a sua multiplicao torna-se uma praga do Egipto. No podemos
lembrar-nos sem horror desses pases em que os faquires, os bonzos, os santes,
os caloiros, os mara-butos, os falapes e os dervixes pululam como vermes.
     Dito isto, subsiste a questo religiosa. Esta tem certos aspectos misteriosos,
quase temveis; seja-nos lcito, pois, encar-la de frente.



    IV
    O convento  luz dos princpios



     Renem-se uns poucos de homens e habitam em comum. Em virtude de que
direito? Em virtude do direito de associao.
     Encerram-se em sua casa. Em virtude de que direito? Em virtude do direito
que todo o homem tem de ter a sua porta aberta ou fechada.
     No saem. Em virtude de que direito? Em virtude do direito que cada um tem
de ir para onde lhe aprouver, direito que traz consigo o de se deixar estar em casa.
     L em casa que fazem?
     Falam baixo, baixam os olhos, trabalham. Renunciam ao mundo, s cidades,
s sensualidades, aos prazeres, s vaidades, s soberbas, aos interesses. Andam
vestidos de grosseira l. Nem um s de entre eles possui como propriedade o que
quer que seja.
     Entrando ali, o que era rico, faz-se pobre. O que tem, d-o a todos. Aquele
que no mundo era o que se chama nobre, gentil-homem e senhor,  igual ao que
era aldeo. A cela  idntica para todos. Todos sofrem a mesma tonsura, trazem a
mesma cogula, comem o mesmo po negro, dormem sobre as mesmas palhas,
morrem sobre a mesma cinza. O mesmo saco nas costas, a mesma corda em volta
dos rins. Se resolvem andar descalos, andam todos descalos. Haja ali um
prncipe, esse prncipe ser a mesma sombra que as outras. No h ttulos ali. At
os nomes de famlia desaparecem. Apenas usam sobrenomes. Todos se curvam
sob a igualdade dos nomes de baptismo.
     Dissolvem a famlia carnal para constituir na sua comunidade a famlia
espiritual. Os seus parentes so todos os homens.
     Socorrem os pobres, tratam dos doentes. Elegem aqueles a quem obedecem, e
quando falam para os outros, dizem:
     - Meu irmo.
     Vs, porm, fazeis-me parar e gritais-me:
     - Isso  o convento ideal!
     Basta que seja o convento possvel para eu dever fazer meno dele.
     Da vem que no livro precedente falei de um convento em tom respeitoso.
     Afastada a meia idade, afastada a sia. reservada a questo histrica e
poltica, considerado o convento debaixo do ponto de vista puramente filosfico,
fora das necessidades da polemicamilitante, com a condio de que o mosteiro
seja absolutamente voluntrio e que os que nele se encerram consintam nisso e em
tudo, considerarei sempre a comunidade claustral com certa gravidade atenciosa e
a certos respeitos reverente. Onde houver comunidade h comuna e onde houver
comuna h direito. O mosteiro  o produto da frmula: Igualdade, Fraternidade.
Oh! Como  grande a liberdade! Que esplndida transfigurao! Basta a liberdade
para transformar o mosteiro em repblica!
     Continuemos.
     Mas esses homens ou essas mulheres, encerradas dentro dessas quatro
paredes, vestem-se de burel, so iguais, chamam-se irmos; bem est; mas fazem
mais alguma coisa?
     Fazem.
     O qu?
     Olham para a sombra, pem-se de joelhos e erguem as mos.
     Que significa isso?



    V
    A orao



     Fazem a orao.
     A quem?
     A Deus.
     - Que quer dizer a frase: orar a Deus?
     H ou no um infinito fora de ns?  ou no nico, imanente, permanente,
esse infinito; necessariamente substancial, pois que  infinito, e que, se lhe faltasse
a matria, limitar-se-ia quilo; necessariamente inteligente, pois que  infinito, e
que, se lhe faltasse a inteligncia, acabaria ali? Desperta ou no em ns esse
infinito a ideia de essncia, ao passo que ns no podemos atribuir a ns mesmos
seno a ideia de existncia?
     Por outras palavras, no  ele o absoluto, cujo relativo somos ns?
     Ao mesmo tempo que fora de ns h um infinito, no h outro dentro de
ns?
     Esses dois infinitos (que horroroso plural!) no se sobrepem um ao outro?
No  o segundo, para assim dizer, subjacente ao primeiro? No  o seu espelho, o
seu reflexo, o seu eco, um abismo concntrico a outro abismo? Este segundo
infinito no  tambm inteligente? No pensa? No ama? No tem vontade? Se os
dois infinitos so inteligentes, cada um deles tem um princpio de vontade sua, h
um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h no infinito de baixo, O eu de
baixo  a alma; o eu de cima  Deus. Pr o infinito de baixo em contacto com o
infinito de cima, por meio do pensamento,  o que se chama orar.
     No tiremos nada ao esprito humano;  mau suprimir.
     Devemos mas  reformar e transformar. Certas faculdades do homem
dirigem-se para o Incgnito, o pensamento, a meditao, a orao. O Incgnito 
um oceano. Que  a conscincia?  a bssola do Incgnito. O pensamento, a
meditao, a orao so tudo grandes irradiaes misteriosas. Respeitemo-las.
Para onde vo essas majestosas irradiaes da alma? Para a sombra, quer dizer,
para a luz.
     A grandeza da democracia consiste em no negar, nem regenerar nada da
humanidade. Ao p do direito do homem, pelo menos ao lado, h o direito da
alma.
     A lei  esmagar os fanatismos e venerar o infinito. No nos limitemos a
prostrar-nos debaixo da rvore da criao e a contemplar os seus imensos ramos
cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o
mistrio contra o milagre, adorar o incompreensvel e rejeitar o absurdo, no
admitindo em coisas inexplicveis seno o necessrio, tornando s a crena,
tirando as supersties de cima da religio, catando as lagartas a Deus.



    VI
    Bondade absoluta da orao



    Quanto ao modo de orar, todos servem, contanto que sejam sinceros. Voltai o
vosso livro do avesso e permanecei no infinito.
     Sabemos que h uma filosofia que nega o infinito. Tambm h uma filosofia,
patologicamente classificada, que nega o sol; chama-se cegueira.
     Erigir em fonte de verdade um sentido que nos falta,  arrojo de cego.
     O mais curioso so os modos altivos e superiores, o ar de compaixo que
toma esta filosofia que palpa, para com a filosofia que v a Deus. Parece ouvir-se
uma toupeira a gritar: Que gente, que me causa lstima com o seu Sol! Sabemos
que h ilustres e fortes ateus. Estes, no fundo impelidos para a verdade pela sua
mesma fora, no tm grande certeza de serem ateus; d-se com eles apenas uma
questo de definio, e em todos os casos, se no crem em Deus, sendo grandes
espritos, provam ao menos a sua existncia.
     Saudamos neles os filsofos, qualificando ao mesmo tempo, inexoravelmente,
a sua filosofia.
     Continuemos, porm.
     O mais admirvel tambm  a facilidade com que alguns se contentam com
palavras. Julgou uma escola metafsica do norte, algum tanto impregnada de
nevoeiro, que tinha feito uma grande revoluo no entendimento humano,
substituindo a palavra Fora pela palavra Vontade.
     Dizer: a planta quer, em vez de: a planta cresce, seria, com efeito, uma coisa
fecunda, se se acrescentasse: o Universo quer. Porque razo? Porque daria em
resultado isto: a planta quer, logo tem um eu; o Universo quer, logo tem um Deus.
     Quanto a ns, que, todavia, ao avesso desta escola, no rejeitamos nada 
priori, uma vontade na planta como a que esta escola aceita, parece-nos mais
difcil de admitir do que uma vontade no Universo, por ela negada.
     Negar a vontade do infinito, isto , negar a Deus,  uma coisa impossvel, a
no se negar tambm o infinito. J o demonstrmos.
     A negao do infinito leva-nos direitos ao niilismo. Torna-se tudo uma
concepo do esprito.
     Com o niilismo no h discusso possvel. Porque o niilismo lgico duvida
que o seu interlocutor exista, e nem ele prprio tem grande certeza de que existe.
     Debaixo do ponto de vista em que ele toma as coisas  possvel que ele
prprio no seja para si mesmo mais do que uma concepo do seu esprito.
     No repara, porm, que tudo o que ele negou admite-o em globo, s com
pronunciar esta palavra: Esprito.
     Em suma: uma filosofia, que faz terminar tudo no monosslabo. No, no
abre caminho ao pensamento.
     Para No, s h uma resposta: Sim.
     O niilismo  uma coisa sem alcance.
     O nada no existe. O zero no existe. Tudo  alguma coisa. Nada  nada.
     O homem ainda vive mais de afirmao do que de po.
     Nem mesmo ver e mostrar basta. A filosofia deve ser uma energia; deve ter
por esforo e efeito melhorar o homem. Deve entrar Scrates em Ado e produzir
Marco Aurlio; por outras palavras, fazer sair do homem da felicidade o homem
da sabedoria. Mudar o den em Liceu. A cincia deve ser um cordial. Se o seu fim,
se a sua ambio  s gozar, que triste fim, que deplorvel ambio! Ambio
brutal! O verdadeiro triunfo da alma consiste em pensar. Estender o pensamento 
sede dos homens, dar-lhes a todos, como elixir, a noo de Deus, fazer fraternizar
neles a conscincia e a cincia, torn-los justos por este misterioso confronto, eis a
funo da filosofia real. A moral  como um boto fechado que desabrocha em
verdades. Contemplar leva a agir.
     Deve ser prtico o Absoluto.  necessrio que o ideal possa ser respirado,
comido e bebido pelo esprito humano. O ideal  que tem direito para dizer:
Tomai, isto  a minha carne, isto  o meu sangue. A sabedoria  uma comunho
sagrada.  com essa condio que ela cessa de ser um estril amor da cincia para
se tornar o modo nico e soberano da unio humana e que de filosofia 
promovida a religio.
     A filosofia no deve ser uma sacada construda no mistrio para o vermos 
vontade, sem outro resultado mais do que o de podermos satisfazer a nossa
curiosidade sem incmodo.
     Pelo que nos toca, limitamo-nos a dizer, adiando para outra ocasio o
desenvolvimento do nosso pensamento, que no compreendemos, nem o homem
como ponto de partida, nem o progresso como fim, sem estas duas foras que so
dois motores: crer e amar. O progresso  o fim, o ideal  o tipo.
     Que  o ideal?  Deus.
     Ideal, absoluto, perfeio, infinito, so termos idnticos.



    VII
    Precaues que devem adoptar-se na censura



    A histria e a filosofia tm deveres eternos, que so ao mesmo tempo deveres
simples; combater Caifs bispo, Draco juiz, Trimalcio legislador, Tibrio
imperador;  uma coisa clara, direita e lmpida, que no oferece escurido
nenhuma. O direito, porm, de viver  parte, mesmo com os seus inconvenientes e
abusos, quer ser provado e poupado. O cenobitismo  um problema humano.
     Quando se trata dos conventos, desses lugares de erro mas de inocncia, de
desvairamentos mas de boa vontade, de ignorncia mas de dedicao, de suplcio
mas de martrio,  necessrio quase sempre dizer sim ou no.
     Um convento  uma contradio. Por fim, a salvao; por meio, o sacrifcio,
O convento  supremo egosmo com a abnegao suprema por resultado.
     A divisa do monaquismo parece ser esta: abdicar para reinar.
     No claustro sofre-se para gozar. Saca-se uma letra de cmbio sobre a morte,
descontando-se em escurido terrestre a luz celeste. No claustro aceita-se o
inferno como adiantamento de herana sobre o paraso.
     A profisso de um frade ou de uma freira  um suicdio pago com a
eternidade.
     Parece-nos imprprio de semelhante assunto o gracejo, porque tudo nele 
digno de seriedade, tanto o bem como o mal.
     O homem justo encrespa o sobrolho, mas nunca sorri com sorriso de
maldade. A clera compreendemo-la, a malignidade no.



    VIII
    F a lei



     Mais algumas palavras.
     Ns censuramos a igreja quando a intriga a satura; desprezamos o espiritual,
spero para com o temporal; porm em toda a parte respeitamos o homem que se
entrega  meditao, em toda a parte saudamos o que vemos de joelhos.
     A f  uma necessidade para o homem. Infeliz do que nada cr!
     No se segue que, por qualquer estar absorvido, esteja ocioso. H o labor
visvel e o labor invisvel.
     Contemplar  laborar; pensar  obrar. Trabalha-se de braos cruzados, faz-se
servio de mos erguidas.
     Olhar para o cu  uma obra.
     Thals esteve quatro anos imvel e foi o fundador da filosofia.
     Para ns nem os cenobitas so ociosos, nem os solitrios vadios.
     Pensar na treva  uma coisa sria.
     Sem nada invalidar do que atrs dissemos, julgamos que aos vivos convm
uma perptua lembrana do tmulo. Neste ponto esto de acordo o padre e o
filsofo.  necessrio morrer. A Horcio serve de rplica o abade da Trapa.
     Entremear a vida de certa presena do sepulcro  a lei do asceta. A este
respeito, sbio e asceta, ambos convergem.
     Gostamos do engrandecimento moral, assim como queremos o aumento
material.
     Dizem os espritos irreflectidos e rpidos:
     - De que servem e que fazem essas figuras imveis da parte do mistrio?
     Ah! Em presena da escurido que nos cerca e nos espera, sem sabermos o
que de ns far a disperso imensa, respondemos: - No h obra, talvez, mais
sublime do que aquela em que se empregam essas almas. - E acrescentamos:
-Talvez no haja trabalho mais til.
     Bem precisos so aos que nunca rezam os que esto sempre a rezar.
     Para ns toda a questo est na quantidade de pensamento que se mistura
com a orao.
      grande ver Leibnitz orando; belo ver Voltaire adorando. Deo erexit
Voltaire.
     Somos pela religio contra as religies.
     Somos dos que crem na misria dos discursos e na sublimidade da orao.
     Neste instante, porm, que vamos atravessando, instante que, felizmente, no
deixar ao sculo XIX a sua figura, a esta hora em que tantos homens andam de
fronte curvada e trazem a alma to pouco elevada, entre tantos vivos, cuja moral 
gozar, e que s se ocupam com as coisas breves e disformes da matria, parece-nos
venervel todo o que se exila. O mosteiro  uma renncia. O sacrifcio em falso
nem por isso  menos sacrifcio. H tal ou qual grandeza em tomar por dever um
erro severo.
     Tomado em si e idealmente (para girarmos em roda da verdade at  revista
imparcial de todos os aspectos), o mosteiro, e especialmente o convento de freiras,
pois na nossa sociedade a mulher  a que mais sofre, e esse exlio do claustro  um
como protesto, o convento de freiras, dizemos, tem incontestavelmente certa
majestade.
     Essa existncia claustral, to austera e melanclica, de que atrs indicmos
alguns lineamentos, no  a vida, porque no  a liberdade; no  o tmulo,
porque no  a plenitude;  o estranho lugar de onde, como do pinculo de uma
elevada montanha, se descobre de um lado o abismo em que estamos, do outro o
abismo em que havemos de estar;  uma fronteira estreita enevoada que separa
dois mundos, por ambos alumiada e escurecida ao mesmo tempo, e em que o
enfraquecido raio da vida se mistura com o raio vago da morte;  a penumbra do
tmulo.
     Quanto a ns, que no cremos o que crem essas mulheres, mas que, como
elas, vivemos pela f, nunca pudemos considerar sem uma espcie de terror
religioso e terno, sem uma espcie de piedade cheia de inveja, essas criaturas
dedicadas, trmulas e crentes, essas almas humildes e augustas que ousam viver
mesmo  beira do mistrio, esperando entre o mundo que se fechou e o cu que
no se abre, voltadas para a claridade, que se no v, s com a ventura de julgarem
que sabem onde ela est, aspirando ao abismo e ao incgnito com os olhos fixos
na escurido imvel, ajoelhadas, desvairadas, estupefactas, assustadas, soerguidas
a certas horas pelos sopros profundos da eternidade.
    LIVRO OITAVO
    Os cemitrios aceitam o que lhes do



    I
    Onde se trata do modo de entrar no convento



     Foi naquele convento que Joo Valjean, como dissera Fauchelevent, cara do
cu.
     Saltara pelo muro que formava o ngulo para a rua Polonceau. O hino de
anjos que ouvira no meio do silncio da noite eram as religiosas entoando
matinas; a sala que entre vira na escurido era a capela; o fantasma que vira
estendido no lajedo era a irm fazendo a reparao; o tinir que to
estranhamente o surpreendera, era o guizo do jardineiro, o guizo que
Fauchelevent trazia preso ao joelho.
     Depois de Cosette deitada, tinham Joo Valjean e Fauchelevent, como se viu,
ceado um copo de vinho e um bocado de queijo, junto dum bom lume; em
seguida, estando a nica cama que havia na barraca ocupada por Cosette, tinha-se
deitado cada um num feixe de palha. Joo Valjean dissera antes de fechar os olhos:
- Agora preciso ficar aqui.
     Estas palavras tinham-se agitado toda a noite no crebro de Fauchelevent.
     Para falar verdade, nemum nem outro dormiram.
     Joo Valjean sentindo-se descoberto e com Javert na pista, compreendeu logo
que tanto ele como Cosette estavam perdidos, se tornassem a entrar em Paris.
Uma vez que a nova rajada de vento que soprara sobre ele, o fizera encalhar
naquele claustro, j no tinha outro pensamento que no fosse o de ali ficar. Ora,
para um desgraado na sua posio, aquele convento era, ao mesmo tempo, o
lugar mais perigoso e o mais seguro; mais perigoso, porque no podendo ali
penetrar homem algum, a descoberta dele era um flagrante delito, e Joo Valjean
no dava mais que um passo do convento para a cadeia; e mais seguro, porque
conseguido que o aceitassem e deixassem l permanecer, quem o iria buscar?
Habitar num lugar em que fosse impossvel estar, era a salvao.
     Fauchelevent, pela sua parte, dava voltas ao miolo. Comeara por declarar a si
mesmo que no percebia nada. Como era que o senhor Madelaine ali se achava
apesar daqueles muros? Muros de claustro no se saltam. Como se achava ali com
uma criana? No se escala um muro com uma criana nos braos. Quem era
aquela criana? Donde tinham vindo ambos? Desde que Fauchelevent entrara no
convento, nunca mais ouvira falar em Montreuil-sur-mer, portanto no tinha a
mnima ideia do que ali se passara. O tio Madelaine tinha um aspecto que no
animava a fazer perguntas; e depois Fauchelevent dizia consigo: A um santo no
se pergunta nada.
     Madelaine conservara para ele todo o seu prestgio. S por algumas palavras
que escapavam a Joo Valjean, julgou o jardineiro dever concluir que o senhor
Madelaine tinha talvez quebrado em consequncia dos tempos correrem maus, e
que era perseguido pelos credores; ou que se comprometera em algum negcio
poltico, e que por isso se ocultava, o que no desagradou a Fauchelevent, o qual,
como muitos camponeses do norte da Frana, tinha um grande fundo
bonapartista. Madelaine querendo esconder-se tomara o convento por asilo; era
portanto simples que ali quisesse ficar. Mas o ponto inexplicvel de que
Fauchelevent se no esquecia e com que quebrava a cabea, era que Madelaine ali
estivesse, e de mais a mais com aquela criana. Fauchelevent via-os, tocava-lhes,
falava-lhes e no o podia crer. O incompreensvel acabava de entrar na choupana
do jardineiro. Fauchelevent andava s apalpadelas, mas no via seno isto.
     O senhor Madelaine salvou-me a vida. Esta nica certeza era-lhe bastante, e
foi o que o resolveu. Disse consigo: Toca-me agora a minha vez; e acrescentou
na conscincia: O senhor Madelaine no levou tanto tempo a pensar, quando viu
que era preciso meter-se debaixo da carroa para me livrar do seu peso. Decidiu
portanto que salvaria o senhor Madelaine. Dirigiu pois a si mesmo diversas
perguntas e deu diversas respostas: Depois do que fez por mim, se fosse um
ladro salv-lo-ia? Do mesmo modo. Salv-lo-ia se fosse um assassino? No tem
que ver. Salv-lo-ei, sendo um santo como ? Custe o que custar.
     Mas fazer com que ficasse no convento, que problema! Fauchelevent, na
presena desta tentativa quase quimrica, no recuou; o pobre campons picardo,
sem outra escada alm da sua dedicao, da sua boa vontade, e com alguma dessa
pouca figura campesina, posta, desta vez, ao servio de uma inteno generosa,
empreendeu escalar as dificuldades do claustro e as rudes escarpas da ordem de S.
Bento. O tio Fauchelevent era um velho que toda a sua vida fora egosta, e que no
termo dos seus dias, coxo, doente, no tendo no mundo o menor interesse, achou
doura em ser reconhecido; e vendo que havia a praticar uma aco virtuosa,
lanou-se a ela, como o homem que, prximo a deixar a vida, achasse ao alcance
da mo um copo de bom vinho que nunca houvesse provado e o bebesse
avidamente. Pode acrescentar-se que o ar que respirava havia anos, naquele
convento, lhe destrura a personalidade, acabando por lhe tornar necessria a
prtica de uma boa aco.
     Tomou, pois, uma resoluo: dedicar-se a Madelaine.
     Acabamos de o qualificar de pobre campons picardo. A qualificao  justa,
mas incompleta. No ponto em que nos achamos desta histria, tornam-se teis
alguns traos fisiolgicos do tio Fauchelevent. Era campons, mas fora tabelio, o
que lhe juntara  finura a chicana e a penetrao  sinceridade. Tendo por causas
diversas sado mal dos seus negcios de tabelio, cara em carroceiro e
trabalhador. Mas, a despeito das pragas e das chicotadas, necessrias aos cavalos,
parece que conservara ainda o que quer que era de tabelio.
     Tinha certo talento natural; no dizia eu temos nem eu sabemos; conversava,
coisa rara na aldeia, e os outros camponeses diziam dele: fala suavemente como
um senhor fidalgo. Fauchelevent pertenceu com efeito,  espcie que o
impertinente e ligeiro vocabulrio do sculo passado qualificava de: meio burgus
meio rstico; a que as metforas, caindo do palcio na choupana, apelidavam um
pouco cidado: sal e pimenta. Fauchelevent, ainda que muito experimentado e
usado pela sorte, espcie de pobre velha alma j no fio, era todavia homem de
primeiras impresses, e muito espontneo; qualidade preciosa que sempre impede
que se seja mau.
     Os seus defeitos e vcios, que os tinha tido, no passaram da superfcie; em
suma, a sua fisionomia era das que so bem aceitas pelo observador. Aquele velho
rosto no tinha nenhuma das desgraadas rugas da testa que significam maldade
ou estupidez.
     Ao romper do dia, depois de haver sonhado extraordinariamente,
Fauchelevent abriu os olhos e viu Madelaine sentado no feixe de palha,
contemplando Cosette adormecida. Fauchelevent sentou-se tambm e disse: -
Agora que est aqui, como foi que entrou?
     Estas palavras resumiram o facto e despertaram Joo Valjean da sua
meditao.
     Os dois homens celebraram conselho.
     - Em primeiro lugar - disse Fauchelevent o senhor h-de comear por no pr
o p fora desta barraca, nem to-pouco a pequenita. Um passo na cerca pode
deitar tudo a perder.
     -  justo.
     - Senhor Madelaine - tornou Fauchelevent - o senhor chegou em muito boa
ocasio, quero dizer muito m: uma destas senhoras est gravemente doente, o
que far com que olhem pouco c para o nosso lado. Parece que no escapa,
porque esto fazendo as preces das quarenta horas. Anda toda a comunidade no
ar. Isto d-lhe que fazer. A que est prxima a deixar-nos  uma santa. A falar
verdade, ns aqui todos somos santos; a diferena entre elas e eu,  que elas dizem:
a nossa cela, e eu digo: a minha choupana; haver a orao dos agonizantes, e
depois a orao pelos mortos. Por hoje estaremos tranquilos aqui; mas pelo
meio-dia de amanh no respondo.
     - Contudo - observou Joo Valjean - esta barraca est oculta pelas runas e
pelas rvores; no se v do convento.
     - E eu acrescento que as religiosas nunca se lhe aproximam.
     - E ento? - disse Joo Valjean.
     O ponto de interrogao que acentuava este ento, significava: Parece-me que
se pode estar aqui oculto. Foi no ponto de interrogao que Fauchelevent
respondeu.
     - Mas h as pequenas.
     - Quais pequenas? - tornou Joo Valjean.
     Quando Fauchelevent abrira a boca para responder, explicando as suas
palavras, ouviu-se o toque duma sineta.
     - Morreu a religiosa - disse ele. - A esto dobrando.
     E fez sinal a Joo Valjean para que escutasse.
     A sineta deu segunda badalada.
     -  o dobre, senhor Madelaine. A sineta continuar por vinte e quatro horas
dando aquelas badaladas, de minuto a minuto, at que o corpo saia da igreja. Mas
o senhor bem sabe, as crianas nunca param quietas. Nas horas de recreio vm
brincar para a cerca e basta que se desencaminhe alguma pela para que elas,
apesar das proibies, venham para este lado procur-las e comecem por a a
sarilhar por uma banda e por outra, revistando e mexendo em tudo. So uns
diabos aqueles querubins.
     - Quem? - perguntou Joo Valjean.
     - As pequenas. Era um instante enquanto aqui vinham dar consigo e logo
gritariam: Olhem um homem! Mas hoje no h perigo. No haver recreio. O dia
ir todo em oraes. Ouve a sineta?  o que eu lhe disse, uma badalada cada
minuto.  o dobre.
     E Joo Valjean disse consigo:
     E teria achado a educao de Cosette.
     Fauchelevent exclamou:
     - Com a fortuna! Um bando de pequeninas, que fariam grande gritaria  roda
do senhor e que em seguida fugiriam todas! Ser homem neste lugar  o mesmo
que estar empestado. Bem v que me atam um guizo a uma perna, como se eu
fosse um animal bravio.
     Joo Valjean cada vez meditava mais profundamente Este convento
salvar-nos-ia, murmurou ele.
     Depois, levantando a voz:
     - A grande dificuldade est em poder ficar.
     - Nada - disse Fauchelevent - a grande dificuldade est em poder sair.
     Joo Valjean sentiu o sangue refluir-lhe ao corao.
     - Sair!
     - Sim, senhor Madelaine; para tornar a entrar  preciso que tenha sado.
     E depois de deixar passar o rudo duma badalada do dobre, Fauchelevent
prosseguiu:
     - No  possvel que o encontrem aqui deste modo. De onde veio o senhor?
C para mim caiu do cu, porque o conheo; mas para as religiosas  preciso que
entre pela porta.
     De repente, ouviu-se o dobre acrescentado com o som doutra sineta.
     - A est! - disse Fauchelevent - tocam as madres vocais. Vo para o captulo
quando alguma morre. Esta morreu ao amanhecer;  quase sempre ao amanhecer
que se morre. Mas o senhor no poderia sair por onde entrou? Ora vejamos, isto 
curiosidade, por onde foi que entrou?
     Joo Valjean empalideceu; s a ideia de tornar a encontrar-se na temvel rua o
fazia estremecer. Sa de uma floresta infestada de tigres, e uma vez fora, imaginai
um amigo aconselhando-vos para que torneis a entrar nela. Joo Valjean supunha
ainda toda a polcia acumulada no bairro, parecia-lhe ver os agentes em
observao, sentinelas por todos os cantos, medonhos punhos pretendendo
agarr-lo pelo pescoo, e talvez Javert  esquina da rua.
     -  impossvel! - disse ele. - Tio Fauchelevent, diga que ca do cu.
     - Eu c por mim acredito - retorquiu Fauchelevent no precisa dizer-me.
Deus pegou-lhe talvez pela mo para o ver de mais perto, e deixou-o em seguida
cair. Mas enganou-se; o que Ele queria decerto, era deix-lo cair num convento de
homens. Olhe, ainda outro toque. Este  para dizer ao porteiro que v prevenir a
municipalidade para que mande avisar o mdico dos mortos., o qual deve vir
certificar-se de que morreu aqui uma pessoa. Tudo isto so as cerimnias da
morte. As pobres freiras nem por isso gostam desta visita, porque, enfim, um
mdico  um homem que no acredita em nada. Elevem, levanta o vu, s vezes
levanta tambm outra coisa. Mas como desta vez mandaram avisar o mdico
depressa! Que demnio haver l? A sua pequena ainda dorme? Como se chama
ela?
     - Cosette.
     -  sua filha, quero dizer,  sua neta?
     - .
     - L para ela sair daqui, isso  fcil. A porta por onde eu entro e saio, deita
para o ptio. Chego, bato, o porteiro abre e eu saio com o meu cesto s costas e a
pequena dentro. No tem nada;  o tio Fauchelevent que sai com o seu cesto. Mas
o senhor h-de dizer  pequena para ela estar muito quieta. Deste modo e com a
tampa por cima, ningum  capaz de adivinhar o que l vai dentro. Depois levo-a
para casa de uma fruteira minha amiga, que mora na rua do Caminho Verde. 
velha e surda, mas muito boa mulher. L fica a pequena bem, porque ela tem uma
caminha muito arranjada.
     Para ela no desconfiar, grito-lhe aos ouvidos que  uma sobrinha minha, e
que, portanto, ma guarde at ao outro dia. Depois a pequena h-de entrar consigo,
pois eu hei-de faz-lo entrar, isso  que no tem remdio. Mas para sair, para sair,
como h-de o senhor arranjar?
     Joo Valjean abanou a cabea.
     - Tio Fauchelevent, o ponto est em que ningum me veja. Veja se arranja a
que eu saia tambm, como Cosette, dentro de um cesto com uma tampa por cima.
     Fauchelevent, porm, em vez de responder, coava a ponta da orelha com o
dedo mdio da mo esquerda, sinal de srio embarao, a que um terceiro toque
veio fazer diverso.
     - L se vai embora o mdico dos defuntos  disse Fauchelevent. - O mdico
chega, olha e depois diz: Est bom; est morta. Depois que o mdico visa o
passaporte para o outro mundo, o armador manda um caixo. Se  alguma madre,
so as madres que a metem dentro; se  soror, so as sorores. Depois quem prega
sou eu. Esta tarefa tambm faz parte c da minha jardinagem. Um jardineiro
tambm  meio coveiro. O caixo leva-se para uma sala inferior da igreja que
comunica para a rua e onde no pode entrar mais homem nenhum seno o
mdico dos defuntos. Eu por homens no me conto, a mim nem aos
gatos-pingados. Nessa sala  onde eu prego o caixo. Depois vm os
gatos-pingados busc-lo, e toca para diante, cocheiro! Como se vai para o cu
assim. Trazem um carro vazio, levam-no com alguma coisa dentro. Aqui est
como  um enterro. De profundis.
     Joo Valjean, sem dar ateno ao que Fauchelevent dizia, pusera-se outra vez
a contemplar Cosette, que dormia ainda, com o rosto iluminado por um raio de
sol horizontal e a boca vagamente entreaberta, semelhando um anjo a beber luz.
     No ser escutado no  motivo para qualquer se calar. O honrado jardineiro
continuava, pois, sossegadamente a sua ladainha.
     - O lugar onde as enterram  no cemitrio de Vaugirard. Dizem que vo
suprimir o tal cemitrio de Vaugirard.  um cemitrio antigo, fora dos
regulamentos e sem uniforme, que vai ser aposentado.  pena, porque era
cmodo. O coveiro de l, o tio Mestienne,  um amigo meu. C as freiras tm o
privilgio de serem levadas para o tal cemitrio ao fechar da noite. H uma ordem
expressa da prefeitura que lhes concede isso. Mas que infinidade de coisas
acontecidas desde ontem para c! A madre Crucificao morta, o tio Madelaine...
- Enterrado! - atalhou Joo Valjean tristemente.
     Fauchelevent mudou o sentido a estas palavras:
     - Ora essa! Se estivesse aqui de todo, ento, sim, ento podia dizer que estava
enterrado.
     Soou novo toque. Fauchelevent tirou rapidamente do prego a joelheira do
chocalho e atou-a ao joelho.
     - Agora  por mim.  a madre prioresa que quer falar comigo. Mau, que me
piquei nos dentes da fivela! Senhor Madelaine, espere aqui por mim, mas no se
mexa.
     Ns temos novidade. Se tiver vontade de comer, acol est o vinho, o po e o
queijo.
     E saiu da casinhola gritando:
     - Eu l vou, eu l vou!
     Joo Valjean viu-o deitar a correr pelo jardim com a maior rapidez que a sua
perna coxa lhe permitia e lanando de passagem um olhar para o seu meloal. Da a
menos de dez minutos, o tio Fauchelevent, cujo chocalho afugentava as religiosas
por onde ele passava, batia ao de leve a uma porta e uma voz agradvel respondia:
Para sempre, Para sempre, o que queria dizer: Pode entrar.
     A porta a que ele batia era a do locutrio reservado ao jardineiro para as
necessidades do servio. Este locutrio ficava contguo  sala do captulo. Sentada
na nica cadeira que havia no locutrio, estava a prioresa  sua espera.
    II
    Fauchelevent na presena da dificuldade



      prprio de certos caracteres e de certas profisses, principalmente dos
padres e dos religiosos, ter um ar agitado e grave nas circunstncias crticas. Na
ocasio em que Fauchelevent entrou, via-se esta dupla forma da preocupao no
rosto da prioresa, que era a agradvel e instruda Mademoiselle de Blemeur,
madre Inocncia, de ordinrio to jovial.
     O jardineiro fez uma saudao receosa e ficou no limiar da cela. A prioresa,
que estava passando uma a uma as contas do seu rosrio, ao dar por ele, ergueu a
cabea e disse: - Ah!  voc, tio Fauvent.
     No convento tinha sido adoptada esta abreviatura.
     Fauchelevent fez nova saudao.
     - Eu mandei-o chamar, tio Fauvent... - Aqui estou, reverenda Madre.
     - Porque tenho que lhe dizer.
     - E eu - disse Fauchelevent com uma audcia de que ele interiormente tinha
medo - tambm tenho uma coisa para dizer a vossa reverendssima.
     A prioresa fitou os olhos nele.
     -Ah! Voc tem alguma comunicao a fazer-me?
     - Uma splica.
     - Bem, ento diga l.
     O ex-tabelio Fauchelevent pertencia  categoria dos camponeses dotados de
certa audcia. Uma tal ou qual ignorncia hbil  uma fora: como se no
desconfia dela, alcana sempre o seu fim. Fauchelevent habitava no convento
havia pouco mais de dois anos e obtivera as boas graas de toda a comunidade.
Sempre solitrio e entregue aos seus trabalhos de horticultura, no tinha outra
coisa a fazer alm de ser curioso. Distante como estava de todas aquelas mulheres
veladas, girando de um para outro lado, no via diante de si uma agitao de
sombras. A fora de ateno e de penetrao, chegara a restituir a carne a todos
aqueles fantasmas, de sorte que aquelas mortas viviam para ele. Era como um
surdo, cuja vista adquire maior alcance, ou como um cego cujo ouvido se torna
extremamente agudo. Aplicara-se a distinguir o som dos diferentes toques, e
conseguira-o: de modo que aquele claustro enigmtico e taciturno no tinha nada
oculto para ele; aquela esfinge dizia-lhe ao ouvido todos os seus segredos. Sabendo
tudo, fingia no saber coisa alguma. Era esta a sua arte. Todo o convento o julgava
estpido, o que em religio  um grande mrito. s madres vocais faziam muito
caso de Fauchelevent. Era um curioso mudo, inspirava confiana. Alm disto
tinha uma vida muito regular; no saa nunca seno por alguma reconhecida
necessidade do jardim ou da horta. A discrio deste procedimento era-lhe levada
em conta. Mas apesar disto no deixava ele de puxar pela lngua a dois homens;
no convento, ao porteiro, que sabia as particularidades do locutrio; no cemitrio,
ao coveiro, por cuja interveno conhecia as particularidades da sepultura; deste
modo, tinha, em relao s religiosas, dupla luz que lhe iluminava a vida e a
morte. Mas no abusava nunca. A congregao tinha por ele todo o interesse.
Velho, coxo, no vendo nunca coisa nenhuma, um tanto surdo; que excelentes
qualidades! Dificilmente o substituiriam.
     O bom do homem, com o desafogo de quem se sente apreciado, encetou, em
presena da prioresa, uma arenga campesina, muito difusa e extremamente
profunda.
     Falou por muito tempo da sua idade e enfermidades, do aumento dos anos,
que j tinha de contar pelo dobro, das crescentes exigncias do trabalho, da
grandeza da cerca, das noites que tinha de passar ao relento, como ainda lhe
sucedera na ltima, em que fora preciso cobrir o meloal com esteiras, por causa da
Lua, concluindo por dizer que tinha um irmo (a prioresa fez um movimento) um
irmo, j nada moo(segundo movimento da prioresa, mas revelando mais
tranquilidade) que, se lhe dessem licena, poderia aquele irmo ir viver na sua
companhia, podendo assim ajud-lo, porque era excelente hortelo, que a
comunidade teria no irmo um excelente servo, talvez melhor do que ele; que,
doutro modo, se lhe no admitissem seu irmo mais velho, como se sentia sem
foras e insuficiente para o trabalho, ver-se-ia obrigado, ainda que com bastante
pena, a retirar-se; e que seu irmo tinha uma neta que levaria consigo, que se
educaria religiosamente em to santa casa; e que talvez, quem poderia adivinhar?,
viesse um dia a ser religiosa.
     Quando o jardineiro acabou de falar, a prioresa interrompeu a passagem das
contas por entre os dedos e disselhe: - Poder voc, daqui at  noite, obter uma
barra de ferro bem grossa?
     - Para que fim, reverenda madre?
     - Para servir de alavanca.
     - Arranjar-se- - respondeu Fauchelevent.
     A prioresa no acrescentou nem mais uma palavra, levantou-se e entrou na
casa prxima, que era a sala do captulo, onde se achavam reunidas as madres.
    Fauchelevent ficou s.



    III
    Madre Inocncia



     Decorrido um quarto de hora, pouco mais ou menos, a prioresa tornou a
entrar e veio sentar-se outra vez na cadeira.
     - Tio Fauvent?
     - Reverenda Madre.
     - Conhece a capela?
     - Eu tenho l um lugar de onde oio missa e assisto aos ofcios.
     - J entrou alguma vez no coro?
     - Uma ou duas vezes.
     - Pois trata-se de erguer uma pedra.
     - Pesada?
     - A lage do pavimento que fica ao lado do altar.
     - A pedra que fecha o carneiro?
     - Sim.
     - Para isso era preciso ter a fora de dois homens.
     - Ajuda-o a madre Ascenso, que tem tanta fora como um homem.
     - Ora! Uma mulher nunca  um homem!
     - Mas ns para o ajudar no teinos seno uma mulher. Cada qual d o que
tem.
     L porque D. Mabillon d quatrocentas e dezassete epstolas de S. Bernardo e
que Merlonus Horstius d s trezentas e sessenta e sete, eu no desprezo
Merlonus Horstius.
     - Nem eu to-pouco.
     - O merecimento est em cada um fazer aquilo que pode. Um claustro no 
um estaleiro.
     - Nem uma mulher  um homem. Meu irmo  que  muito forte!
     - Voc levar uma alavanca.
     -  a nica chave que serve em semelhantes portas.
     - A pedra tem uma argola.
     - Por onde passarei a alavanca.
     - E a pedra est disposta de modo que gira sobre si.
     - Est bem, reverenda madre. Esteja vossa reverendssima descansada de que
hei-de abrir o carneiro.
     - Ho-de ajud-lo as quatro madres cantoras para o que for preciso.
     - E quando o carneiro estiver aberto?
     - Deve-se tornar a fech-lo - Mais nada?
     - No.
     - D-me as suas ordens, reverenda madre.
     - Fauvent, olhe que ns temos confiana em si.
     - Eu estou aqui para tudo o que for preciso.
     - E para no dizer nada.
     - Sim, reverenda madre.
     - Quando o carneiro estiver aberto... - Fech-lo-ei.
     - Mas antes disso... - O qu, reverenda madre?
     - Ser necessrio depositar nele alguma coisa.
     Seguiu-se um momento de silncio. A prioresa, depois de estender o lbio
inferior, o que indicava hesitao, continuou: - Tio Fauvent?
     - Reverenda madre.
     - Sabe que morreu esta manh uma madre?
     - No sabia.
     - No ouviu o dobre?
     - L no fim da cerca no se ouve nada.
     - Deveras?
     - Sabe Deus o que me custa a ouvir o toque que me diz respeito.
     - Pois morreu ao amanhecer.
     - E depois esta manh no soprava o vento l para o meu lado
     - Foi a madre Crucificao. Uma bem-aventurada.
     A prioresa calou-se, moveu por um instante os lbios como em orao
mental, e prosseguiu:
     - H trs anos que a senhora de Bethune, uma jansenista, se tornou ortodoxa,
s por ver orar a madre Crucificao.
     -  verdade, reverenda madre; agora  que oio o dobre.
     - As madres levaram-na para a casa morturia que d para a igreja.
     - Bem sei onde .
     - Nenhum outro homem alm de voc pode ou deve entrar naquela casa.
Teria que ver a entrada de um homem na cmara das defuntas!
     - A maior parte das vezes!
     - Heim?
     - A maior parte das vezes!
     - Que est dizendo?
     - Eu digo, a maior parte das vezes.
     - A maior parte das vezes o qu?
     - Reverenda madre, eu no disse a maior parte das vezes o qu: eu disse, a
maior parte das vezes!
     - No o percebo. Porque disse a maior parte das vezes?
     - Por dizer como a reverenda madre.
     - Mas eu no disse a maior parte das vezes.
     - A reverenda madre no disse, eu  que disse para dizer como a reverenda
madre.
     Neste momento soaram nove horas.
     - As nove horas da manh e a todas as horas bendito e louvado seja o
Santssimo Sacramento do altar! - disse a prioresa.
     - men! - acrescentou Fauchelevent.
     As horas soaram em muito boa ocasio, porque acabaram com a maior parte
das vezes.  provvel que se no fossem elas nunca a prioresa e Fauchelevent se
tirariam daquela meada.
     Fauchelevent limpou o suor.
     A prioresa tornou a fazer um murmriozinho interior, provavelmente
sagrado, e depois levantou a voz:
     - A madre Crucificao fez converses durante a sua vida; depois da sua
morte h-de fazer milagres.
     - Far decerto - respondeu Fauchelevent, firmando-se nas pernas e
esforando-se por no se tornar a mover dali em diante.
     - Tio Fauvent, a comunidade foi abenoada na madre Crucificao. Decerto
no  dado a todos morrer como o cardeal Brulle, celebrando o santo sacrifcio
da missa e entregar a alma a Deus pronunciando as palavras: Home igitur
oblaionem. Mas sem que alcanasse tanta felicidade, foi preciosssima a morte da
madre Crucificao. Teve perfeito conhecimento at ao ltimo instante. Falava
connosco, e depois falava com os anjos, dando-nos parte das suas ltimas
vontades. Se voc tivesse mais f e se pudesse ter estado na sua cela, ter-lhe-ia ela
curado a perna, tocando-lhe apenas. Conservou-se sempre risonha. Conhecia-se
que ressuscitava em Deus. Teve a morte de um anjo.
     Fauchelevent, julgando que era o fim de uma orao, disse com a maior
seriedade:
     - Amen!
     - Tio Fauvent,  preciso cumprir as vontades dos mortos.
     A prioresa passou entre os dedos algumas contas do rosrio. Fauchelevent
continuava calado. A prioresa prosseguiu: - Consultei sobre este ponto muitos
eclesisticos que trabalham para a glria de Nosso Senhor, que se ocupam no
exerccio da vida clerical, e que produzem admirveis frutos.
     - Reverenda madre, ouve-se aqui o dobre muito melhor do que l no jardim.
     - E depois  mais do que uma morta,  uma santa.
     - Como a reverenda madre prioresa.
     - Havia vinte anos que dormia no seu caixo, com permisso expressa do
nosso Santo Padre Pio VII.
     - Aquele que coroou o impera... Bonaparte.
     Para um homem hbil como Fauchelevent, a recordao era despropositada.
     Felizmente a prioresa, de todo entregue ao seu pensamento, no o ouviu e
continuou:
     - Tio Fauvent?
     - Reverenda madre.
     - S. Diodoro, arcebispo de Capadcia, quis que inscrevessem sobre a sua
sepultura esta nica palavra: Acarus, que significa verme da terra; assim se fez. 
ou no  verdade?
     -  verdade, reverenda madre.
     - O bem-aventurado Mezzocano, abade de Aquila, quis ser enterrado debaixo
da forca, e assim se fez.
     -  verdade.
     - S. Terncio, bispo de Port, na embocadura do Tibre para o mar, pediu que
lhe gravassem sobre a sepultura o sinal que costumavam pr sobre as dos
parricidas, com a esperana de que quem passasse lhe cuspisse no tmulo; e assim
se fez.  preciso obedecer aos mortos.
     - Assim seja.
     - O corpo de Bernardo Guidonis, nascido em Frana, prximo a
Roche-Abeille, foi levado, como ele prprio ordenara, e a despeito do rei de
Castela, para a igreja dos dominicanos de Limoges, conquanto Bernardo Guidonis
fosse bispo de Tuy em Espanha. Poder-se- dizer o contrrio?
     - Decerto que no, reverenda madre.
    - O facto  atestado por Plantavit della Fosse.
    Depois de passar silenciosamente mais algumas contas do rosrio, a prioresa
continuou:
    - Tio Fauvent, a madre Crucificao ser sepultada no caixo em que dormiu
por espao de vinte anos.
    -  justo.
    -  a continuao do seu sono.
    - Terei ento de a fechar nesse caixo?
    - Ter!
    - E poremos de parte o caixo das pompas fnebres?
    - Exactamente.
    - Estou s ordens da reverendssima comunidade.
    - Ajud-lo-o as quatro madres cantoras.
    - A pegar no caixo? No precisarei de ajuda.
    - No; a faz-lo descer.
    - Para onde?
    - Para o carneiro.
    - Qual carneiro?
    - O que est por baixo do altar.
    Fauchelevent quase deu um salto.
    - O carneiro debaixo do altar!
    - Debaixo do altar.
    - Mas... - Ter consigo uma barra de ferro.
    - Sim, mas... - Com a barra de ferro levantar a lage, por meio da argola.
    - Mas... -  preciso obedecer aos mortos. Ser sepultada no carneiro que est
por debaixo do altar da capela, no ser lanada em solo profano, ficar morta onde
orou viva; tal foi o voto supremo da madre Crucificao. Eis o que nos pediu, ou
antes, nos ordenou.
    - Mas  proibido.
    - Proibido pelos homens, ordenado por Deus.
    - E se vier a saber-se?
    - Ns temos confiana em si.
    - Quanto a isso sou como qualquer pedra dos muros do convento.
    - Reuniu-se o captulo. As madres vocais, que acabo de consultar e que esto
ainda deliberando, decidiram que a madre Crucificao seria sepultada, segundo o
desejo que expressou, no seu caixo, sob o nosso altar. Imagine, tio Fauvent, se
agora aqui iam fazer-se milagres. Que glria para Deus nesta comunidade! Os
milagres saem dos tmulos.
     - Mas, reverenda madre, se o delegado de sade... - S. Bento II, em matria de
sepultura, resistiu a Constantino Pogonat.
     - No entanto, o comissrio de polcia... - Chonodemaire, um dos sete reis
alemes que entraram nas Glias, sob o imprio de Constncio, reconheceu
expressamente o direito dos religiosos serem enterrados dentro dos muros dos
seus conventos, isto , debaixo do altar.
     - Mas o inspector da prefeitura... - O mundo no  coisa nenhuma em
presena da cruz. Martinho, dcimo primeiro geral dos Cartuchos, deu  sua
ordem esta divisa : Stat crux dum volvitur orbis.
     - men! - disse Fauchelevent, imperturbvel neste modo de se tirar de
embaraos, todas as vezes que ouvia alguma coisa em latim.
     Para quem por muito tempo se conservou calado  suficiente qualquer
auditrio.
     Gymnastoras saiu da priso tendo recolhidos em si muitos dilemas e
silogismos, parou diante da primeira rvore que encontrou, comeou a
arengar-lhe e fez grandes esforos para convenc-la. A prioresa, habitualmente
sujeita ao silncio, e tendo superabundncia no seu reservatrio, levantou-se e
exclamou com a loquacidade de represa solta: -  minha direita tenho Bento, 
minha esquerda Bernardo. Quem  Bernardo?  o primeiro abade de Claraval.
Fontaines, em Borgonha,  uma terra abenoada por t-lo visto nascer. Seu pai
chamava-se Tcelin e sua me Althe. Principiou Bernardo por Cister para
terminar por Claraval; foi ordenado abade por Guilherme de Chainpeaux, bispo
de Chalons-sur-Sane; teve setecentos novios e fundou cento e sessenta
mosteiros; no conclio de Sens, que teve lugar em 1140, derrotou Abeillard, Pedro
de Bruys, Henri, discpulo deste, e os sequazes de outra espcie de seita, chamados
os Apostlicos; confundiu Arnaldo de Brexe, fulminou o monge Raoul, o matador
de judeus, presidiu no conclio de Reims, que teve lugar em 1148, fez condenar
Gilberto de l Pore, bispo de Poitiers; fez condenar on de l'toile, comps as
desavenas que entre si traziam alguns prncipes, guiou o rei Lus o Novo,
aconselhou o papa Eugnio III, regulou o templo, pregou a Cruzada, fez duzentos
e cinquenta milagres em sua vida, e s num dia chegou o nmero destes a trinta e
nove. Quem  Bento?  o patriarca do Monte Cassino,  o segundo fundador da
Santidade Claustral,  o Baslio do Ocidente. A sua ordem produziu quarenta
Papas, duzentos cardeais, cinquenta patriarcas, mil e seiscentos arcebispos, quatro
mil e seiscentos bispos, quatro imperadores, doze imperatrizes, quarenta e uma
rainhas, trs mil e seiscentos canonizados, e dura h mil e quatrocentos anos. De
um lado S. Bernardo, do outro o delegado de sade! De um lado S. Bento, do
outro o inspector da higiene pblica! Ns queremos c saber do Estado, do
armador, do delegado, do inspector, dos regulamentos ou da administrao? No
passa por a ningum que se no indignasse, se visse o modo como nos tratam.
Pois nem sequer podemos ter o direito de dar a Jesus Cristo o nosso p! Fora l
com os vossos delegados de sade, que so uma inveno revolucionria! Deus
subordinado ao comissrio de polcia; aqui est como  o sculo! Fauvent,
silncio!
     Fauchelevent no se achava bem sob esta inundao, porm a prioresa
continuou:
     - O direito do mosteiro  sepultura  indubitvel para todos. S os fanticos e
os sequazes do erro  que o negam. Vivemos em tempos de bem terrvel confuso!
     Ignora-se o que se deve saber e sabe-se o que se deve ignorar. No se v seno
mpios e ignorantes em matria de religio. H gente, no tempo presente, que no
faz distino entre o grandssimo S. Bernardo e o Bernardo chamado dos Pobres
Catlicos, eclesistico cheio de bondade que vivia no sculo XIII. Outros
blasfemam, a ponto de comparar o cadafalso de Lus XVI com a cruz de Jesus
Cristo, sendo Lus XVI apenas um rei. J no h justo nem injusto. Sabe-se o
nome de Voltaire e no se sabe o nome de Csar de Bus, e, contudo, Csar de Bus
 um bem-aventurado e Voltaire um desgraado. O arcebispo passado, o cardeal
de Perigord, nem sequer sabia que Carlos de Gondren sucedeu a Brulle, e
Francisco de Bourgoin a Gondren e Joo Francisco Senault Bourgoin, e o pai de
Santa Marta a Joo Francisco Senault. Conhece-se o nome do Padre Coton, no
porque foi um dos trs que cooperaram para a fundao do Oratrio, mas por ter
sido objecto das imprecaes do rei calvinista Henrique IV. O que faz com que as
pessoas mundanas gostem de S. Francisco de Sales  ter ele sido trapaceiro ao
jogo. E, alm disto, ataca-se a religio, e porqu? Porque tem havido maus padres,
porque Sagitrio, bispo de Gap, era irmo de Salone, bispo de Embrun, e porque
ambos seguiram Mommol. Que tem l isso? Isto obsta acaso a que Martinho de
Tours fosse um santo e desse metade da sua capa a um pobre? Fecham os olhos s
verdades e no querem viver seno nas trevas. Os animais mais ferozes so os que
so cegos. Ningum se lembra que h um inferno. Oh, que maldade de gente! Da
parte do rei hoje significa da parte da revoluo. J ningum sabe o que deve, nem
aos vivos nem aos mortos.  proibido morrer santamente. O sepulcro  um
negcio civil. Isto causa horror. S. Leo II escreveu expressamente duas cartas,
uma a Pedro Notrio, outra ao rei dos Visigodos, para combater e rejeitar, nas
questes que dizem respeito aos mortos, a autoridade do exarca e a supremacia do
imperador. Gautier, bispo de Chalons, neste ponto resistia a Oto, duque de
Borgonha. Noutro tempo tnhamos ns voto em captulo, mesmo nas coisas do
Sculo. O abade de Cister, geral da ordem, era conselheiro nato no parlamento de
Borgonha. Quanto aos nossos mortos, desses fazamos o que queramos. O corpo
do prprio S. Bento no est em Frana, na abadia de Fleury, chamada S. Bento de
Loire, apesar de ter morrido na Itlia, no Monte Cassino, num sbado 21 de
Maro do ano 543? Tudo isto  incontestvel. Eu aborreo as coristas, odeio os
priores, execro os hereges, mas ainda detestaria mais quem me sustentasse o
contrrio. Basta ler Arnoul Wion, Gabriel Bucelin, Tritemo, Maurolicus e D.
Lucas de Achery.
     Neste momento a prioresa respirou e depois voltou-se para Fauchelevent:
     - Tio Fauvent, est combinado?
     - Sim, reverenda madre.
     - Podemos contar consigo?
     - Hei-de obedecer.
     - Est bem.
     - Eu sou inteiramente dedicado ao convento.
     - Ficamos entendidos. Voc fecha o caixo que as sorores ho-de levar para a
capela. Canta-se o ofcio dos defuntos e depois entra-se para o claustro. Por volta
das onze horas para a meia-noite, voc vem com a sua alavanca. Mas tudo h-de
ser feito com o maior segredo. Na capela no est mais ningum seno as quatro
madres cantoras, a madre Ascenso e voc.
     - E a soror que estiver no poste.
     - Essa est, mas no se volta.
     - Mas ouve.
     - Ela no escuta. Quanto mais, o que sabe o claustro. Ignora-o o mundo.
     Houve ainda outra pausa, aps a qual a prioresa prosseguiu:
     - Mas tire o chocalho.  escusado que a soror que estiver de poste conhea
que anda na capela.
     -Reverenda madre?
     - Que , tio Fauvent?
     - O mdico dos defuntos j veio fazer a visita do costume?
     - F-la hoje s quatro horas. J para ele vir se fez o sinal. Mas ento voc,
realmente, no ouve sinal nenhum?
     - Eu no presto ateno seno ao que  para chamar por mim.
     - Est bem, tio Fauvent - Reverenda madre, h-de ser precisa uma alavanca
que tenha pelo menos seis ps.
     - Aonde a h-de arranjar?
     - Onde no faltam grades no faltam barras de ferro. Num canto do jardim
tenho l um monto de ferros velhos.
     - No se esquea, trs quartos de hora antes da meia-noite, pouco mais ou
menos.
     - Reverenda madre?
     - Que ?
     - Se vossa reverendssima tiver mais alguma obra como esta, eu chamo meu
irmo, que  forte como um turco!
     - H-de andar o mais depressa que puder.
     - L isso  que eu no poderei muito bem, porque sou aleijado aqui de uma
perna. Por isso  que eu queria outro homem que me ajudasse. Sou coxo,
reverenda madre.
     - Ser coxo no  defeito, ou antes, talvez seja uma bno. O imperador
Henrique II, que combateu o anti-Papa Gregrio e restabeleceu Bento VIII, teve
dois sobrenomes, o de Santo e o de Coxo.
     - Oh, dois sobrenomes  bem boa coisa!  murmurou Fauchelevent, que na
realidade, no era muito fino de ouvido.
     - Tio Fauvent, lembra-me que ser melhor marcar uma hora inteira; talvez se
no arranje tudo nos trs quartos de hora. No  de mais. Esteja, portanto, ao p
do altar-mor, com a sua barra de ferro, s onze horas. O ofcio principia 
meia-noite. Porm deve estar tudo concludo um bom quarto de hora antes.
     - Hei-de fazer tudo para provar o meu zelo  comunidade. Aqui est como .
As onze horas em ponto, depois de ter pregado o caixo, devo estar na capela,
onde estaro as madres cantoras e a madre Ascenso. Dois homens era melhor.
Mas, enfim, no importa! Como eu levo a alavanca... Devemos abrir o carneiro,
descer o caixo e torn-lo a fechar. Depois passe por l muito bem. O governo no
saber de coisa nenhuma. Reverenda madre, fica tudo assim bem arranjado?
     - No.
     - Ento que temos ainda?
     - Resta o caixo vazio.
     Isto causou uma pausa. Fauchelevent e a prioresa meditavam.
     - Tio Fauvent, que se h-de fazer do caixo vazio?
     - Leva-se para o cemitrio.
     - Vazio?
     Outro silncio. Fauchelevent, porm, fez com a mo esquerda essa espcie de
gesto com que se despede uma pergunta molesta.
     - Reverenda madre, como sou eu o que hei-de pregar o caixo, na sala inferior
da igreja, como l no pode entrar mais ningum seno eu, cubro a tumba com o
pano morturio.
     - Sim, mas os que a conduzem, ao p-la no carro e ao desc-la  cova,
conhecero que no leva nada dentro.
     - Ah! di... - exclamou Fauchelevent.
     A prioresa fez o sinal da cruz, fitando os olhos no jardineiro. Abo ficou-lhe na
garganta.
     Apressou-se, porm, a improvisar um expediente para fazer esquecer a praga.
     - Reverenda madre, sabe o que eu fao? Encho o caixo de terra, de modo que
h-de parecer que leva gente.
     - Tem razo. A terra  a mesma coisa que o homem. De maneira que voc
arranja o caixo vazio?
     - Deixe-me c o negcio por minha conta.
     O rosto da prioresa, at ento turvo e escuro, serenou e a madre fez-lhe o
sinal do superior que despede o inferior. Fauchelevent dirigiu-se para a porta,
porm, no momento em que ia a sair, a prioresa elevou de mansinho a voz e
disselhe: - Tio Fauvent, estou satisfeita consigo; amanh depois do enterro,
traga-me seu irmo e diga-lhe que traga tambm a criana.



    IV
    Onde Joo Valjean faz acreditar que leu Austin Castillejo



     Passos de coxo so como olhares de vesgo; nunca chegam com presteza ao
alvo.
     Alm de que, Fauchelevent estava perplexo. Por isso, levou-lhe um quarto de
hora a chegar  barraca do jardim. Cosette j estava acordada, sentada ao p do
fogo, para onde a levara Joo Valjean. Mostrava-lhe ele no momento em que
Fauchelevent entrou, o cesto do jardineiro, pendurado da parede e dizia-lhe: -
Toma bem sentido no que eu te digo, Cosette. Ns no temos remdio seno
irmo-nos daqui embora, mas havemos de voltar e ficar optimamente. Aquele
velho que tu viste leva-te s costas dentro daquilo e hs-de esperar por mim em
casa de uma senhora, onde eu hei-de ir ter contigo. Mas olha bem, se no queres
que a Thenardier te leve outra vez, obedece e no digas nada.
     Cosette fez um aceno de cabea com ar grave.
     Ao rumor que Fauchelevent fez, abrindo a porta, Joo Valjean voltou-se e
disse rapidamente:
     - Ento?
     - Tudo se arranja e nada se arranja! disse Fauchelevent - Tenho licena para o
fazer entrar, mas, antes de o fazer entrar,  necessrio faz-lo sair. A  que pega o
carro. L quanto  pequena, isso  fcil.
     - Sempre a leva?
     - Ir ela calada?
     - Por isso respondo eu.
     - Mas, o senhor, tio Madelaine?
     E, aps um silncio cheio de ansiedade, exclamou:
     - Mas porque no sai por onde entrou?
     Joo Valjean limitou-se a dizer, como da primeira vez:
     - Impossvel!
     O jardineiro murmurou por entre dentes, mais falando consigo do que com
Joo Valjean:
     - Ainda h outra coisa que me apoquenta mais:  ter dito que lhe deitaria
terra dentro. A terra no se parece nada com um corpo, h-de mexer dum lado
para o outro e os homens ho-de por fora conhec-lo. Bem percebe, tio
Madelaine, pode ser descoberto pela autoridade Joo Valjean encarou-o e
julgou-o delirante.
     Fauchelevent prosseguiu:
     - Como di... acho h-de o senhor sair?  necessrio que fique tudo feito
amanh!
     Amanh  que hei-de apresent-lo; amanh  que a prioresa o espera.
     Em seguida explicou a Joo Valjean, que era a recompensa de um servio que
ele, Fauchelevent, prestara  comunidade. Que entrava nas suas atribuies tomar
parte nos enterros, que era ele quem pregava os caixes, e no cemitrio ajudava o
coveiro.
     Que a religiosa que morrera pela manh pedira para ser metida no caixo que
lhe servia de cama e sepultada no carneiro situado por baixo do altar da capela.
Que isto era proibido pelos regulamentos da polcia; mas que a defunta era
daquelas a quem no se nega coisa alguma. Que a prioresa e as madres vocais
esperavam executar a ltima vontade da finada, e que quem ficava mal era o
governo. Que ele, Fauchelevent, pregaria o caixo na cela, levantaria a pedra na
capela e faria descer a morta para o carneiro. Que a prioresa, para lhe agradecer
este servio, lhe admitia no convento seu irmo como jardineiro e sua sobrinha
como educanda. Que seu irmo era o senhor Madelaine, e sua sobrinha Cosette.
Que a prioresa dissera que lhe apresentasse seu irmo no dia seguinte, depois do
enterro fingido do cemitrio; mas que no poderia trazer de fora o senhor
Madelaine, se o senhor Madelaine ali no estivesse; que era esta a primeira
dificuldade, mas que depois desta ainda havia outra, que era o caixo vazio.
     - Mas que caixo vazio  esse? - perguntou Joo Valjean.
     - O caixo da administrao - respondeu Fauchelevent.
     - Qual caixo? Qual administrao?
     - Quando morre uma religiosa, o mdico dos mortos vem comprovar o facto.
O governo manda um caixo, e no dia seguinte o carro dos defuntos e os
gatos-pingados para lhe pegarem e o acompanharem ao cemitrio. Pois quando
vierem os gatos-pingados, levantaro o caixo e conhecero que no tem nada
dentro.
     - Mas meta-lhe alguma coisa.
     - Um morto? No tenho.
     - No  isso.
     - Ento o qu?
     - Um vivo.
     - Mas qual vivo?
     - Eu disse Joo Valjean.
     Fauchelevent, que se sentara, ergueu-se, como se aos ps lhe houvesse
rebentado uma bomba.
     - O senhor?!
     - Porque no?
     Joo Valjean mostrou um daqueles sorrisos que lhe apareciam no rosto, qual
claro num cu de Inverno.
     - Bem sabe, Fauchelevent, que quando disse: a madre Crucificao est morta,
acrescentei eu: e o tio Madelaine enterrado. No ser mais do que isto.
     - Ah, o senhor ri-se, no fala seriamente!
     - Muito seriamente. No  preciso sair daqui?
     - Sem dvida.
     - No lhe disse que visse se achava tambm para mim um cesto com tampa?
     - E ento?
     - O cesto ser de pinho e a tampa um pano preto.
     - No h-de ser preto, mas sim branco. As religiosas so enterradas de
branco.
     - Pois seja de branco.
     - O senhor no  um homem como os outros, tio Madelaine.
     Ter semelhantes ideias, que no representam seno as selvagens e temerrias
invenes das gals, sair das coisas pacficas que o rodeavam, e envolver-se no que
ele chamava mexericos do convento, era para Fauchelevent um motivo de
espanto, igual ao que experimentaria o transeunte que visse um groenlands
pescando na enxurrada das ruas de S. Diniz.
     Joo Valjean prosseguiu:
     - Trata-se de sair daqui sem ser visto. Aqui est um meio. Mas preciso de
informaes. Como  que se passam estas coisas todas? Onde est o caixo?
     - O vazio?
     - Sim.
     - Est l em baixo, no que chamam a cmara dos defuntos. Est sobre dois
cavaletes e coberto com um pano morturio.
     - Que cumprimento tem ele?
     - Seis ps.
     - Mas o que  a cmara dos defuntos?
     -  uma casa  beira da rua, com uma janela de grades para o jardim, que se
fecha pela parte de fora, e que tem um postigo e duas portas: uma para o interior
do convento, outra para a igreja.
     - Qual igreja?
     - A igreja que d para a rua, a igreja de toda a gente.
     - E tem a chave dessas duas portas?
     - No. Tenho a chave da porta que comunica com o convento; a da outra, a
que d para a igreja, tem-na o porteiro.
     - Quando abre o porteiro essa porta?
     - Unicamente quando tem de deixar entrar os gatos-pingados que vm buscar
o caixo. Apenas sai o caixo  logo a porta fechada.
     - Quem  que prega o caixo?
     - Sou eu.
     - Quem  que o cobre com o pano?
     - Sou eu - S voc - Alm de mim e do mdico da polcia, nenhum outro
homem pode entrar na cmara das defuntas Isto mesmo l est escrito na parede.
     - No poder, esta noite, quando estiver tudo a dormir no convento,
esconder-me nessa casa?
     - No. Mas posso escond-lo num cubculo que d para ela, onde guardo os
meus utenslios dos enterros e cuja chave est em meu poder.
     - A que horas vir amanh o carro buscar o caixo?
     - A pelas trs da tarde. O enterro  no cemitrio Vaugirard, pouco antes da
noite.
     - Pois ficarei escondido no tal cubculo toda a noite e toda a manh. E de
comer?
     Hei-de ter fome.
     - Comida levo-lha eu.
     - Em sendo duas horas pode ir fechar-me no caixo.
     Fauchelevent recuou espantado, fazendo estalar os ossos dos dedos.
     -  impossvel!
     - O qu! Impossvel pegar num martelo e pregar uma tbua?
     O que parecia inaudito a Fauchelevent, era da maior simplicidade para Joo
Valjean, que atravessara muito piores estreitos. Quem quer que tenha estado
preso, sabe a arte de se encolher segundo o dimetro das evases. O prisioneiro 
sujeito  fuga como o doente  crise, que o mata ou que o salva. Uma evaso  uma
cura. O que  que o doente no aceita para se restabelecer? Fazer com que o
pregassem e conduzissem num caixo, como qualquer mercadoria, viver por
muito tempo numa boceta, ter ar onda o no h, economizar a respirao durante
horas inteiras, saber abafar sem morrer, era um dos sombrios talentos de Joo
Valjean No fim de contas, se um caixo levando dentro uma pessoa viva, 
expediente de forado,  tambm expediente de imperador. Se dermos crdito a
Austin Castillejo, foi este o meio que Carlos V, querendo, depois da sua abdicao,
ver pela ltima vez a Plombes, empregou para a fazer entrar e sair no convento de
S. Justo.
     Fauchelevent, passado o primeiro momento de espanto, exclamou:
     - Mas como h-de arranjar-se para respirar?
     - Hei-de respirar - Dentro do caixo Eu sinto-me sufocado s por pensar
nisso - O senhor tem por fora uma verruma; faa com ela alguns furos no lugar
da boca e depois pregar a tbua sem a unir.
     - E se tiver vontade de tossir ou de espirrar?
     - Quem foge nunca tosse nem espirra.
     E Joo Valjean continuou:
     - Tio Fauchelevent,  preciso tomar-se uma deciso; ou hei-de ser apanhado
aqui, ou hei-de sair no carro No h ningum que haja notado o prazer que tm
os gatos em brincar entre os dois batentes de uma porta cerrada. Quem no tem
dito a um gato: Pode entrar! H homens que, num acidente entreaberto diante
deles, tm pelo mesmo modo pronunciada tendncia para ficar indecisos entre
duas resolues, mesmo correndo o risco de serem esmagados pelo destino, que
pode fechar de repente a aventura. Os demasiadamente prudentes, gatos como
so, e mesmo porque o so, correm muitas vezes maior perigo do que os audazes.
Fauchelevent pertencia a este gnero hesitante. Todavia, o sangue-frio de Joo
Valjean ia-o, a seu pesar, dominando de tal modo, que o obrigou a murmurar: -
Com efeito, no h outro meio.
     - A nica coisa que me inquieta,  o que suceder no cemitrio.
     - Isso  que me no d cuidado! - exclamou Fauchelevent.
     - Se o senhor tem a certeza de sair bem do caixo, da cova tiro-o eu sem
dificuldade. O coveiro  meu amigo e gosta muito de vinho  o tio Mestienne, um
velho doutro tempo Eu lhe digo o que se passar Chegar-se- um pouco antes do
sol posto, trs quartos de hora antes de se fechar o cemitrio. O carro rodar at 
cova e eu irei atrs;  a minha obrigao. Levarei na algibeira um martelo, uma
tesoura e uma turqus. O carro parar e os gatos-pingados, passando uma corda
em volta do caixo, f-lo-o descer para a cova. O padre recita as oraes e faz o
sinal da cruz, lana a gua benta e safa-se Mestienne, como j lhe disse,  meu
amigo. De duas coisas uma, ou ele est atestado ou no; se no est atestado,
digo-lhe: venha da, vamos beber uma golada; O bom Marmelo est ainda aberto.
Levo-o comigo e emborracho-o; o tio Mestienne custa pouco a emborrachar, est
sempre em princpio, deito-o debaixo da banca, tiro-lhe o bilhete para entrar no
cemitrio e volto ali s. Depois o senhor tem que se haver comigo Se ele, pelo
contrrio, est pesado, digo-lhe: vai-te embora, que eu arranjo tudo. Ele vai-se e
eu tiro-o do buraco.
     Joo Valjean estendeu-lhe a mo, que Fauchelevent apertou com
enternecedor e campesino entusiasmo.
     - Est combinado. Tudo se h-de fazer em bem.
     - Contanto que a coisa se no transtorne. Se isto tudo se tornasse terrvel.
    V
    No basta a embriaguez para se ser imortal



     No dia seguinte, quando o Sol j declinava, descobriam-se raros transeuntes
do boulevard do Maine, na passagem de um carro de antigo modelo, ornado de
caveiras, de tbias e de lgrimas Neste carro ia um caixo coberto com um pano
branco, sobre o qual se via uma grande cruz preta, semelhante a uma gigante
defunta com os braos pendentes. Atrs do carro ia uma berlinda levando um
padre de sobrepeliz e um menino de coro de batina vermelha. Aos lados do carro
marchavam dois gatos-pingados, de uniforme pardo com guarnies pretas. Atrs
de tudo caminhava um velho, com o trajo de trabalhador e que coxeava. O
prstito dirigia-se para o cemitrio Vaugirard.
     O cemitrio Vaugirard constitua excepo entre os demais cemitrios de
Paris.
     Tinha os seus usos particulares, pelo mesmo modo que tinha alm da porta
principal uma porta pequena: estas portas eram denominadas pelos teimosos,
porta dos cavaleiros e porta dos pees. Como j dissemos, as bernardas-beneditinas
do Petit-Picpus tinham obtido licena para ali serem enterradas em lugar  parte e
de noite, porque aquele terreno pertencera, noutro tempo,  comunidade. Os
coveiros, tendo deste modo no cemitrio servio de tarde no Vero, e de noite no
Inverno, estavam sujeitos a uma disciplina particular. As portas dos cemitrios de
Paris fechavam-se naquela poca ao pr-do-sol, e, por determinao municipal,
estava o cemitrio Vaugirard sujeito ao mesmo regime. A porta dos cavaleiros e a
porta dos pees eram contguas e juntas a um pavilho construdo pelo arquitecto
Perronnet, onde morava o porteiro do cemitrio.
     Aquelas portas, que eram de grade, giravam, pois, inexoravelmente em seus
gonzos, no momento em que o Sol desaparecia por detrs do zimbrio dos
Invlidos. Se neste momento algum coveiro se demorava no cemitrio, no tinha
para sair seno um recurso: a sua nomeao de coveiro, passada pela
administrao das pompas fnebres.
     No postigo da janela do porteiro havia uma fenda como as das caixas do
correio. O coveiro lanava a nomeao na caixa, o porteiro sentia cair o papel,
puxava uma corda, e logo se abria a porta dos pees. Se o coveiro no tinha
consigo a nomeao, dizia quem era; o porteiro muitas vezes j deitado e
dormindo, levantava-se, ia reconhecer o coveiro, abria a porta e este saa, mas
pagava quinze francos de multa.
     Este cemitrio, com as suas originalidades fora da regra, incomodava a
simetria administrativa. Em 1830 foi suprimido. Sucedeu-lhe o cemitrio do
Mont-Parnasse, chamado de Este, herdando a famosa taberna pegada ao cemitrio
de Vaugirard, que tinha em cima um marmelo pintado numa tbua e que fazia
esquina de um lado para as mesas dos fregueses e do outro para as sepulturas, com
esta tabuleta: Taberna do bom Marmelo.
     O cemitrio de Vaugirard era o que poderia chamar-se um cemitrio murcho.
Ia caindo em desuso; a erva ia-o invadindo e as flores deixando-o. Os burgueses
pouco apreo davam a -ser enterrados em Vaugirard, porque cheirava a pobreza.
No Pre-Lachaise era outra coisa Ser enterrado no Pre-Lachaise corresponde a
ter mveis de acaju. O cemitrio de Vaugirard era um recinto venervel, com a
forma dos antigos jardins franceses. Ruas muito direitas, grandes buxos,
caniados, etc., velhos tmulos sob velhos teixos e erva muito alta. A noite naquele
recinto era trgica; aquelas linhas eram todas fnebres.
     O Sol no tinha ainda de todo desaparecido quando o carro entrou na
avenida do cemitrio de Vaugirard. O homem que o acompanhava coxeando era
Fauchelevent.
     O enterro da madre Crucificao sob o altar, a sada de Cosette e a introduo
de Joo Valjean na sala das defuntas, fora tudo executado sem qualquer estorvo.
     Digamo-lo de passagem, a inumao da madre Crucificao sob o altar da
capela do convento,  para ns coisa perfeitamente venial;  uma falta das que se
assemelham a um dever. As religiosas tinham-no no somente desempenhado
sem perturbao, mas com aplauso de suas conscincias. No claustro aquilo a que
se chama governo no  mais do que uma ingerncia na autoridade, ingerncia
sempre discutvel. Em primeiro lugar, a regra; quanto ao cdigo, veremos. Faam
os homens quantas leis quiserem, mas guardem-nas para si. O tributo a Csar
nunca  mais do que a sobra do tributo a Deus; um prncipe no  nada ao p de
um princpio.
     Fauchelevent coxeava contentssimo atrs do carro. As suas duas
conspiraes gmeas, uma com as religiosas e outra com Madelaine; uma a favor
do convento, outra contra ele, tinham obtido ptimo resultado. A impassibilidade
de Joo Valjean era dessas tranquilidades poderosas que facilmente se
comunicam. Fauchelevent j no duvidava do completo bom xito. O que faltava
a fazer era nada. Havia dois anos que emborrachara dez vezes o coveiro, o tio
Mestienne, um pobre homem, um bochechudo. Ria-se consigo do tio Mestienne.
Fazia dele quanto queria, e penteava-o segundo a sua fantasia A cabea de
Mestienne adaptava-se ao barrete de Fauchelevent: a sua confiana era completa.
     Na ocasio em que o prstito entrou na avenida do cemitrio, ia Fauchelevent
to extremamente satisfeito, que olhou para o carro e esfregou as grosseiras mos,
dizendo: - No est m a farada!
     De repente o carro parou: chegara  porta. Era necessrio exibir a permisso
para o enterro. O empregado das pompas fnebres dirigiu-se ao porteiro. Durante
o colquio dos dois, que sempre ocasionou demora de um quarto de hora,
apareceu um homem desconhecido, que se colocou atrs do carro, ao lado de
Fauchelevent. Era uma espcie de trabalhador, com grandes algibeiras na blusa e
uma enxada na mo.
     Fauchelevent encarou o desconhecido.
     - Quem  voc? - perguntou ele.
     O homem respondeu:
     - Sou o coveiro.
     Se fosse possvel sobreviver a uma bala de artilharia recebida no peito,
far-se-ia uma careta semelhante  que fez Fauchelevent.
     - O coveiro!
     - Sim, senhor!
     - Voc.
     - Eu mesmo.
     - O coveiro  o tio Mestienne.
     - Foi.
     - Como foi?
     - Foi, porque j morreu.
     Fauchelevent tudo esperava, menos que um coveiro pudesse morrer. Todavia
 uma verdade: at os prprios coveiros morrem. A fora de fazerem covas para os
outros, abrem-nas para si mesmos.
     Fauchelevent ficou de boca aberta; teve apenas fora para murmurar:
     - No pode ser!
     -Pois  assim mesmo.
     - Mas - tornou ele -, com voz muito fraca o coveiro  o tio Mestienne.
     - Depois de Napoleo, Lus XVIII; depois de Mestienne, Gribier. Eu
chamo-me Gribier.
     Fauchelevent, empalidecendo, contemplou Gribier.
     Era um homem alto, magro, lvido, completamente fnebre. Tinha ar de
mdico infeliz, metamorfoseado em coveiro.
     - Ah! Ah! Sempre acontecem coisas mais ratonas! - exclamou Fauchelevent,
desatando s gargalhadas. - Ora, o tio Mestienne morreu! Adeus! Morreu o
tiozinho Mestienne, mas ficou o tiozinho Lenoir! Voc sabe quem  o tiozinho
Lenoir?  o cantarinho do belo vermelho.  o cantarinho do Suresne, do
verdadeiro Suresne de Paris! Ah! com que ento o Mestienne morreu! Tenho
pena, porque era um velho patusco. Mas voc tambm no lhe fica atrs, no 
assim, camarada? Daqui a bocado havemos de ir ambos beber uma pinga.
     Porm, o homem respondeu:
     - Eu estudei. Tenho o quarto ano. Beber  coisa que no uso.
     A este tempo tinha-se de novo posto a caminho o carro, rodando pela lea
principal do cemitrio.
     Fauchelevent afrouxara o passo. O pobre homem coxeava mais ainda por
causa da ansiedade em que ia do que por causa do aleijo que padecia.
     Adiante dele caminhava o coveiro, o inesperado Gribier, que Fauchelevent
passou outra vez em revista.
     Era um desses homens que so novos e tm aparncia de velhos, que so
magros, mas dotados de grande fora.
     - Camarada! - gritou Fauchelevent.
     O homem voltou-se.
     - Eu sou o coveiro do convento.
     Fauchelevent, que, conquanto no fosse erudito, era dotado de extrema
finura, conheceu que tratava com uma espcie temvel, com um bem-falante.
     - Com que ento o tio Mestienne morreu? - Murmurou ele.
     - Completamente - respondeu o homem. - Deus consultou o seu livro de
assentos, viu que era chegada a vez do tio Mestienne e o tio Mestienne morreu.
     - Deus... - repetiu Fauchelevent maquinalmente.
     - Deus, sim - repetiu o homem com autoridade. - Para os filsofos o Padre
Eterno; para os jacobinos o Sei Supremo.
     - Ento ns no havemos de ficar conhecidos? - balbuciou Fauchelevent.
     - Conhecidos j ns somos. Voc  um campnio e eu sou parisiense.
     - Ora, adeus! A gente no se conhece enquanto no bebe de companhia
alguns tragos. Quem abre as goelas para beber, abre o coraopara falar. H-de vir
beber comigo. A isto no h-de dizer que no.
     - Em primeiro lugar est a minha obrigao.
     Fauchelevent reflectiu e disse consigo: Estou perdido.
     Restavam apenas alguns passos para chegar ao stio onde as religiosas tinham
o privilgio de ser enterradas.
     Aps alguns instantes de silncio, o coveiro continuou:
     - Meu homem, eu tenho de sustentar sete rapazes. Para eles comerem 
preciso que eu no beba.
     E acrescentou com a satisfao de um homem que profere uma frase bonita:
     - A fome deles  inimiga da minha sede.
     O carro deu volta por uma moita de ciprestes, deixou a lea principal,
tomando por outra lateral e deitou por um matagal, o que indicava a proximidade
imediata da sepultura. Fauchelevent afrouxava o passo, mas no podia afrouxar o
andar do carro.
     Felizmente, como a terra era movedia e estava molhada com as chuvas do
Inverno, pegava-se s rodas e no deixava rodar o carro com grande ligeireza.
     - Eu sei onde h vinho de Argenteuil muito bom! - murmurou Fauchelevent,
acercando-se do coveiro.
     - Homem, eu no estava talhado para coveiro. Meu pai, que era porteiro no
Prytaneu, destinava-me para a literatura. Mas nem tudo corre como a gente quer.
Meu pai perdeu o que tinha na Bolsa, e eu vi-me obrigado a renunciar  minha
carreira literria. Contudo, ainda sou escrevente pblico.
     - Mas ento voc no  coveiro? - replicou Fauchelevent, agarrando-se a este,
na verdade, bem frgil apego - Um no tira o outro. Acumulo.
     Esta ltima palavra no a entendeu Fauchelevent.
     - Havemos de ir beber - disse ele.
     Torna-se aqui necessria uma observao. Fauchelevent, qualquer que fosse a
sua angstia, oferecia de beber, mas no se explicava sobre quem havia de pagar.
De ordinrio, Fauchelevent oferecia e o tio Mestienne era quem pagava. O
oferecimento resultava, certamente, da nova situao criada pelo novo coveiro e
era urgente faz-la, mas o velho jardineiro deixava na sombra o proverbial quarto
de hora, chamado de Rabelais. Quanto a ele, por mais impressionado que
estivesse, no lhe dava cuidado saber quem pagaria.
     O coveiro, porm, prosseguiu com um sorriso superior:
     - A gente precisa de comer. Por isso  que eu aceitei o cargo que tinha o tio
Mestienne. Quando qualquer chega quase a concluir os seus estudos,  filsofo.
Eu, ao trabalho das mos, acrescentei o trabalho dos braos. O meu escritrio de
escrevente pblico  na feira da rua de Svres. Voc bem sabe, na feira dos
guarda-chuvas. Todas as cozinheiras da Cruz Vermelha se dirigem a mim, quando
querem arrumar as suas declaraes a algum tunante. Pela manh escrevo cartas
de namoro, de tarde abro covas. A vida  assim, meu amigo.
     Cada vez, porm, mais o carro fnebre se aproximava do lugar do seu
destino.
     Fauchelevent olhava, no cmulo da inquietao, para todos os lados em roda
de si e o suor escorria-lhe da testa em grossas bagas.
     - Contudo - continuou o coveiro - no se pode servir a duas amas. -me
preciso escolher; ou a pena ou a enxada. A enxada essa faz-me calos nas mos.
     Neste momento parou o carro e da carruagem desceu o menino do coro e em
seguida o padre.
     Logo aps um monte de terra, sobre o qual pousava uma das rodas dianteiras
do carro, via-se uma cova aberta.
     - Ora a vai principiar a comdia - disse Fauchelevent, consternado.



    VI
    Entre quatro tbuas



     Quem estava no caixo? Era Joo Valjean, Joo Valjean que arranjara
maneira de viver dentro daquilo e que mal respirava.
      estranho at que ponto a segurana da conscincia d a segurana de tudo
mais. Toda a combinao premeditada por Joo Valjean caminhava, e caminhava
bem, desde o dia antecedente. Contava ele, como Fauchelevent, com o tio
Mestienne, e por isso no duvidava do fim. Jamais se vira situao mais crtica e
mais completa tranquilidade.
     As quatro tbuas do caixo produzem uma espcie de paz terrvel. Parecia
que a tranquilidade de Joo Valjean como que participava do repouso dos mortos.
Do fundo daquele esquife tinha ele podido seguir, e seguia todas as fases do
temvel drama que estava representando com a morte.
     Pouco depois que Fauchelevent acabara de pregar a tbua de cima, Joo
Valjean sentiu levarem-no, depois rolar. Pela diminuio dos solavancos
conheceu que passavam da calada para caminho de terra, isto , que acabaram as
ruas e principiavam os boulevards. Por um rudo surdo que ouviu adivinhou que
atravessavam a ponte de Austerlitz. Quando o carro parou a primeira vez
conheceu que entrava no cemitrio, e da segunda paragem disse consigo: A est
a escavao.
     Em seguida sentiu de chofre pegarem no caixo, e, logo depois, o roar rouco
de um objecto pelas tbuas, que conheceu ser uma corda que lhe atavam em roda
do caixo para o descer  cova.
     Aps isto, ficou como que atordoado.
     Provavelmente eram os gatos-pingados que tinham deixado balouar o
caixo, descendo-o primeiro da cabea que dos ps. Apenas, porm, voltou 
posio horizontal e se sentiu imvel, tornou a si.
     Em seguida sentiu certa frialdade. Tinha chegado ao fundo da cova.
     Elevou-se ento por cima dele uma voz glacial e solene, e ouviu pronunciar,
to lentamente que as percebia uma por uma, algumas palavras latinas, que no
entendia.
     - Qui domiunt in terrae pulvere, eviglabunt; alii in vitam eeternam, et alii in
opprobrium, ut videant semper.
     - De profundis - respondeu uma voz de criana.
     - Requiem alternam donna ei Domine - tornou a voz grave.
     - Et lux perpetua luceat ei.
     Aps isto, ouviu soar sobre a tbua que o cobria como que as pancadas leves
de algumas gotas de chuva.
      a gua benta, provavelmente, disse ele consigo, e acrescentou: - Isto est a
acabar. Mais um bocado de pacincia, que o padre vai-se embora, e Fauchelevent
leva o Mestienne para a taberna. Iro todos embora, mas depois vem Fauchelevent
sem o outro e tira-me daqui.  negcio de uma hora abonada.
     - Requiescat in pace - tornou a voz grave.
     - men - disse a voz da criana.
     Joo Valjean apurou ento o ouvido e como que sentiu um rumor de passos
afastando-se.
     - Eles l vo - disse consigo. - Fico eu s.
     De repente ouviu um rudo por cima da cabea que se lhe afigurou o ribombo
de um trovo.
     Era uma pasada de terra caindo sobre o caixo.
     Em seguida caiu outra e tapou um dos buracos poronde ele respirava.
     Depois terceira e quarta.
     H coisas mais fortes do que o homem mais forte.
     Joo Valjean desmaiou.
    VII
    Onde se encontra a origem da frase: no perder a carta



     Eis o que se passava por cima do caixo em que Joo Valjean jazia.
     Depois que o carro morturio se afastou e que o padre e o menino do coro
tornaram a entrar para a carruagem e partiram, Fauchelevent, que no despregava
os olhos do coveiro, ao v-lo baixar-se e pegar na p, que estava cravada a prumo
no monte da terra que sara da cova, tomou uma resoluo suprema.
     Colocou-se entre o coveiro e a cova e disse, cruzando os braos:
     - Quem paga sou eu!
     - Que ? - respondeu o coveiro olhando para ele com espanto.
     - Quem paga sou eu.
     - Paga o qu?
     - O vinho.
     - Que vinho?
     - O Argenteuil.
     - O Argenteuil aonde?
     - No bom Marmelo.
     - Ora! V para o diabo! - disse o coveiro.
     E atirou uma pasada de terra para dentro da cova.
     O caixo produziu um som oco que fez cambalear Fauchelevent.
     - Antes que o bom Marmelo se feche, camarada - gritou o pobre homem, no
longe de cair tambm na cova, com voz em que principiava a denotar-se o estertor
da angstia.
     O coveiro, porm, enterrou outra vez a p na terra e Fauchelevent continuou:
     - Pago eu.
     E acrescentou logo, travando-lhe do brao:
     - Oua-me, camarada. Eu sou o coveiro do convento e venho aqui para
ajud-lo.
     Isto  servio que se pode fazer de noite, e por isso vamos beber uma pinga.
     E, ao mesmo tempo que falava, que se agarrava a esta insistncia desesperada,
fazia consigo esta lgubre reflexo: Mas mesmo que ele venha, serei capaz de o
embebedar?.
     - Homem de Deus - disse o coveiro - aceito, j que  viva fora assim o quer.
     Beberemos, mas depois do servio feito; antes, isso  que nunca.
     E deu o impulso  p, porm, Fauchelevent, reteve-o.
     -  do fino Argenteuil.
     - Ai, que chaga! - disse o coveiro.. Voc parece um relgio de repetio! No
sabe dizer outra coisa!
     E atirou para a cova a segunda p de terra.
     Fauchelevent chegara ao momento em que j se no sabe o que Se h-de
dizer.
     - Ora ande, venha da beber, que quem paga sou eu! - gritou ele.
     - Depois de deitarmos a criana - disse o coveiro.
     E atirou terceira pasada, aps o que cravou a p na terra e acrescentou:
     - Voc no v que a noite vai-se pr fria e que a defunta ficava aqui a gritar,
depois que ns fssemos embora, se a no deixssemos bem coberta?
     Neste momento, Fauchelevent deitou maquinalmente os desvairados olhos
para o bolso da jaqueta do coveiro, que o movimento de estar curvado a encher a
p deixara entreabrir-se, e cravou-os logo nele com estranha fixidez.
     O Sol, que no estava ainda de todo escondido no horizonte, derramara
claridade suficiente para que no fundo daquele bolso aberto se pudesse distinguir
um objecto branco.
     Pelas pupilas de Fauchelevent perpassou ento todo o fulgor de que so
susceptveis os olhos de um aldeo picardo.  que acabava de ocorrer-lhe uma
ideia.
     Sem o coveiro, todo embebido em encher a p, dar f, meteu-lhe a mo no
bolso, pelo lado de trs e tirou para fora o objecto branco que ele continha.
     O coveiro atirou para dentro da cova quarta pasada de terra, e, na ocasio em
que ele se voltava para tomar a quinta, Fauchelevent, encarando-o com profunda
serenidade, disselhe: -  verdade, meu amigo, voc tem a sua nomeao?
     - Que nomeao? - atalhou o coveiro interrompendo-se na sua tarefa.
     - O Sol est a ir-se embora.
     - Deix-lo ir. Se no quiser ir, que fique.
     - E a grade do cemitrio fecha-se.
     - E da?
     - Voc tem a a nomeao?
     - Ah, a minha carta! - disse o coveiro, procurando no bolso.
     E procurou em todas as algibeiras, voltando sempre a procurar naquela em
que no achava coisa nenhuma.
     - No a tenho comigo. T-la-ei perdido?
      - So quinze francos de multa - disse Fauchelevent.
      O coveiro tornou-se verde. A cor verde  a palidez dos rostos lvidos.
      - Jesus, meu Deus! L vai tudo quanto Marta fiou! - exclamou ele. - Quinze
francos de multa!
      E deixou cair a p no cho.
      Tinha chegado a vez de Fauchelevent.
      - Ora adeus! - disse o jardineiro. - Nada de desesperar. No  agora coisa para
que se mate e aproveite a cova aberta. Quinze francos so quinze francos; e depois
ainda pode deixar de os pagar. Olhe que eu sou mais velho do que voc, tenho
visto mais; portanto dou-lhe um conselho de amigo. O que  claro,  que o Sol est
quase a desaparecer por detrs do zimbrio dos Invlidos, e o cemitrio a
fechar-se dentro de cinco minutos.
      -  verdade - disse o coveiro.
      - Em cinco minutos no tem voc tempo de encher a cova, que  funda como
o diabo, e chegar depois a tempo de sair antes de terem fechado a porta.
      -  exacto.
      - Em tal caso so certos os quinze francos de multa.
      - Quinze francos.
      - Mas voc ainda tem tempo... Onde mora?
      - A dois passos da barreira, a um quarto de hora daqui; na rua de Vaugirard
nmero 87, - Ento tem ainda tempo de sair.
      - Tenho decerto.
      - Depois de estar fora da grade corre at casa, pega na carta, volta do mesmo
modo, e o porteiro do cemitrio abre-lhe a porta. Tendo a carta no paga nada e
enterrar depois o morto. Entretanto c lhe tomo sentido nele para que se lhe no
safe.
      - Devo-lhe a vida, colega!
      - Fuja daqui, no se demore - disse Fauchelevent.
      O coveiro, desorientado de reconhecimento, apertou-lhe a mo e partiu
correndo.
      Apenas Fauchelevent perdeu de vista o coveiro e deixou de lhe ouvir o rudo
dos passos, inclinou-se para a cova e disse a meia-voz: - Tio Madelaine!
      No teve resposta.
      Fauchelevent estremeceu. Saltou precipitadamente para a cova e lanou-se
sobre o caixo do lado da cabea, gritando: - Tio Madelaine!
      Profundo silncio no caixo.
     Agitado por um tremor to convulso, que quase lhe tirava a respirao, pegou
ento no martelo e fez saltar a tbua que cobria o caixo.
     A luz baa do crepsculo ressaltou de sbito aos olhos de Fauchelevent o
rosto plido de Joo Valjean, com os olhos cerrados pela gelidez da morte.
      vista deste espectculo, eriaram-se os cabelos a Fauchelevent, que se ps
de p, encostando-se  parede da cova, quase a ponto de cair sem alento sobre o
caixo.
     Olhou para Joo Valjean que jazia plido e imvel e murmurou em voz baixa
como um sopro:
     - Est morto!
     E, endireitando-se novamente, cruzou os braos com tanta violncia, que
bateu com os dois punhos fechados nos ombros e exclamou: - Aqui est como eu
o salvei!
     Ento o pobre homem comeou a soluar, monologando; por que  um erro
acreditar-se que o monlogo no faz parte da natureza. As fortes agitaes falam
muitas vezes em voz alta.
     - A culpa  do tio Mestienne. Para que diabo havia de morrer aquele bruto,
quando ningum esperava semelhante coisa! A morte do senhor Madelaine foi
causada por ele. Pobre tio Madelaine, j est no caixo, e na cova. No h mais
nada a fazer. Mas pode a gente acomodar-se com uma coisa assim? Est morto,
meu Deus! E a pequena, o que hei-de eu fazer dela! Se pode ser que um homem
destes morra por semelhante modo! Quando penso em que se meteu debaixo da
minha carroa! Tio Madelaine! Bem dizia eu que lhe faltaria o ar; mas no me quis
dar ateno. Aqui est o resultado! Est morto este excelente homem, o melhor
que eu conheci entre os filhos de Deus! E a pequenina! Eu  que no saio daqui.
Fazer semelhante coisa! De que nos valia a ns sermos ambos velhos, se nenhum
de ns tinha juzo? Mas como diabo fez ele para entrar no convento? Era j o
comeo. No se devem fazer coisas assim. Tio Madelaine! Tio Madelaine! Senhor
Madelaine! Senhor maire! No me ouve. E hei-de eu sair daqui!
     Falando deste modo arrancava os cabelos com o maior desespero.
     De repente ouviu-se ao longe uma espcie de rangido agudo. Era a porta do
cemitrio que se fechava. Fauchelevent inclinou-se para Joo Valjean e deu no
mesmo instante um salto, recuando quanto  possvel faz-lo numa cova. Valjean
tinha os olhos abertos e olhava para ele.
     Presenciar uma morte  medonho, ver uma ressurreio, no o deve ser
menos.
     Fauchelevent tornou-se de pedra, plido, desvairado, transtornado pelo
excesso de tantos abalos, no sabendo se estava diante de um morto ou de um
vivo; e fitava Joo Valjean, que o encarava.
     - Ia adormecendo - disse Joo Valjean.
     E sentou-se no caixo.
     Fauchelevent ajoelhou.
     - Valha-me Nossa Senhora! Que medo que me meteu!
     E acto contnuo exclamou:
     - Obrigado, tio Madelaine!
     O contacto do ar livre tinha feito voltar a si Joo Valjean, que apenas estava
desmaiado. A alegria  o reflexo do terror. Fauchelevent tinha quase tanto custo
em tornar a si como Joo Valjean.
     - Ento no est morto! Isto  que  ter juzo! Tanto chamei que me ouviu.
     Quando lhe vi os olhos fechados pensei que lhe tinha faltado o ar. Eu.
endoidecia de certo; tinham de me levar para as palhas de Bicetre (Hospital de
doidos). O que queria que eu fizesse, se o senhor estivesse morto? E a pequenita! A
velhita da fruta  que no perceberia nada. Punham-lhe a criana nos braos e no
fim diziam-lhe que o av tinha morrido! Que histria, santos do paraso, que
histria! Ah! O senhor est vivo, por conseguinte chegmos ao desfecho - Tenho
frio - disse Joo Valjean.
     Estas palavras chamaram Fauchelevent completamente  realidade, que era
urgente. Estes dois homens, mesmo depois de terem entrado em si mesmos e sem
que o suspeitassem, tinham a alma perturbada e o que quer que era de estranho,
que no podia deixar de ser o desvairamento sinistro prprio do lugar em que se
encontravam.
     - Vamo-nos depressa daqui. - disse Fauchelevent.
     Em seguida meteu a mo no bolso e tirou uma cabaa com que se prevenira.
     - Mas primeiro vamos a uma pinga - disse ele.
     A cabaa completou o que o ar livre comeara. Joo Valjean bebeu um golo
de aguardente e entrou em inteira posse de si mesmo.
     Saiu do caixo e ajudou Fauchelevent a pregar-lhe novamente a tampa.
Passados trs minutos estavam fora da cova.
     Fauchelevent sentia-se tranquilo, no precisava apressar-se. O cemitrio
estava fechado e no havia que recear a volta do coveiro Gribier. Este recruta
estava em sua casa, ocupado a procurar a carta e muito longe de a encontrar ali,
por isso que estava no bolso de Fauchelevent; e sem a carta no podia tornar a
entrar no cemitrio.
     Fauchelevent pegou na p, Joo Valjean na enxada e concluram ambos o
enterro do caixo vazio. Depois da cova estar cheia, Fauchelevent disse a Joo
Valjean: - Vamos embora. Traga a enxada, que eu levo a p.
     Entretanto ia anoitecendo.
     Joo Valjean sentiu alguma dificuldade em se mover, e andar. A permanncia
dentro do caixo tornara-o hirto e um tanto cadver. Tinha-se apossado dele a
ancilose da morte, entre aquelas quatro tbuas. Foi-lhe necessrio, por assim
dizer, desen-regelar-se do sepulcro.
     - O senhor est trpego - disse Fauchelevent. - Se eu no fosse manco,
batamos a canela.
     - Bastam quatro passos, para que as pernas se lembrem do andar.
     Sem mais demora seguiram pelas -ruas onde tinha ido o carro. Chegando 
porta fechada e  casa do porteiro, Fauchelevent, que levava na mo a carta do
coveiro, deitou-a na caixa, puxou a corda, a porta abriu-se e eles saram.
     - Como tudo isto caminha bem! - disse Fauchelevent.
     - Que boa ideia teve o tio Madelaine!
     Entraram a barreira Vaugirard do modo mais simples que se pode imaginar.
Nas proximidades de um cemitrio, uma p e uma enxada so dois passaportes.
     A rua de Vaugirard estava deserta.
     - Tio Madelaine - disse Fauchelevent sem parar, e levantando os olhos para as
casas. - O senhor tem melhor vista do que eu; veja se d com o nmero 87.
     - Ele aqui est - disse Joo Valjean.
     - No vejo ningum - tornou Fauchelevent. - D-me a enxada e espere dois
minutos.
     Fauchelevent entrou na casa que Joo Valjean lhe indicara, subiu toda a
escada, guiado pelo instinto que conduz sempre o pobre  gua furtada e bateu a
uma porta escondida na sombra.
     - Pode entrar - respondeu de dentro uma voz.
     Era a voz de Gribier.
     Fauchelevent empurrou a porta. A habitao do coveiro como todas as tristes
habitaes da sua espcie, era um sto sem moblia e ao mesmo tempo
atravancado.
     Um caixote que servira talvez de esquife desempenhava ali o papel de
cmoda, um boio de manteiga servia de pote, a cama era uma enxerga, e as
cadeiras e bancos imaginam-se no sobrado. A um canto, sobre um farrapo, resto
de um tapete, formavam uma espcie de monto, uma mulher magra e muitas
crianas. A pobre casa dava indcios de ter sido revolvida. Parecia que houvera um
tremor de terra. Os farrapos achavam-se todos dispersos, o improvisado pote
estava partido, a me tinha chorado, as crianas provavelmente tinham levado
pancadas; viam-se em suma todos os indcios da mais colrica e minuciosa busca.
Era evidente que o coveiro procurara loucamente a sua carta e tornara responsvel
pela perda tudo quanto tinha em casa, desde a bilha at  mulher. O seu aspecto
era o do desespero.
     Mas Fauchelevent encaminhava-se com demasiada pressa ao desfecho da
aventura, para que notasse o lado triste do seu bom xito.
     Entrou e disse:
     - Venho trazer-lhe a sua p e a sua enxada.
     Gribier olhou para ele estupefacto.
     - Ah!  voc, homem?
     - Amanh achar a sua carta em casa do porteiro.
     E ps a um canto a enxada e a p.
     - O que quer isso dizer? - perguntou Gribier.
     - Quer dizer que a deixou cair do bolso e que eu a achei no cho depois de
voc ter sado; que acabei o seu trabalho, que o porteiro lhe entregar a carta e que
no pagar quinze francos. Percebeu?
     - Obrigado, amigo! - exclamou Gribier, como que deslumbrado. - Para a
outra vez sou eu quem paga o vinho.



    VIII
    Interrogatrio bem sucedido



     Uma hora depois, no meio da escurido da noite, apresentaram-se  porta da
casa do nmero 62 da rua do Petit-Picpus dois homens e uma criana.
     Eram Fauchelevent, Joo Valjean e Cosette.
     Os dois velhos tinham ido buscar Cosette a casa davendedeira de fruta,  rua
do Caminho Verde, onde Fauchelevent a levara na vspera. Cosette passara
aquelas vinte e quatro horas sem perceber coisa alguma e a tremer em silncio.
Sentia tanto medo, que nem tinha chorado, nem comido, nem dormido. A digna
fruteira fizera-lhe mil perguntas, sem que pudesse obter mais do que um olhar
triste, e sempre o mesmo.
     Cosette no dissera absolutamente nada de quanto vira e ouvira havia dois
dias.
     Adivinhara que estavam atravessando uma crise; sentia profundamente que
era preciso ter juzo. Quem h que no haja experimentado o soberano poder
das trs palavras: No digas nada!, pronunciadas em certo tom, ao ouvido de uma
criana assustada? O medo  mudo. E depois, ningum guarda um segredo como
uma criana.
     S ao cabo daquelas lgubres vinte e quatro horas, quando tornara a ver Joo
Valjean, soltara um tal grito, no qual, qualquer pessoa que o tivesse ouvido,
adivinharia a sada de um abismo.
     Diante de Fauchelevent que era do convento e conhecia a senha que ali dava
entrada, todas as portas se abriram.
     E assim se resolveu o duplo e terrvel problema: Sair e entrar.
     O porteiro, que tinha as suas instrues, abriu a portinha particular que
comunicava o ptio com o jardim e que h vinte anos se via ainda da rua, no muro
do fundo em frente do porto principal. O porteiro f-los entrar todos por aquela
porta e dali encaminharam-se para o locutrio interior reservado, onde
Fauchelevent recebera as ordens da prioresa.
     A prioresa esperava-os com o seu rosrio nas mos.
     Junto dela e de p, estava uma madre vocal. Uma discreta vela alumiava, ou
antes, podia dizer-se, fingia alumiar o locutrio.
     A prioresa mirou de alto a baixo Joo Valjean. No h para ver bem como
uns olhos baixos. Depois perguntou-lhe: - Voc  o irmo do tio Fauvent?
     - Sim, reverenda madre - respondeu Fauchelevent.
     - Como se chama?
     Fauchelevent respondeu:
     - Ultime Fauchelevent.
     Tivera, com efeito, um irmo que j no existia, chamado Ultime.
     - De que terra ?
     - De Picquigny que fica ao p de Amiens - respondeu Fauchelevent.
     - Que idade tem?
     - Cinquenta anos.
     - Que profisso exerce?
     -  jardineiro -  bom cristo?
     - Toda a nossa famlia o  - respondeu Fauchelevent.
     - Essa pequena  sua?
     - , reverenda madre - respondeu Fauchelevent.
     -  pai dela?
     - Av - respondeu Fauchelevent.
     A madre vocal, no fim, disse para a prioresa a meia-voz:
     - O homem responde bem.
     Joo Valjean no tinha pronunciado uma palavra.
     A prioresa olhou com ateno para Cosette e disse a meia-voz para a madre
vocal:
     - A pequena  que h-de vir a ser feia.
     As duas madres conversaram durante alguns minutos em voz baixa no
recanto do locutrio, e em seguida a prioresa voltou-se e disse: - Tio Fauvent, trate
de arranjar outra joelheira com guizo. Agora so precisas duas.
     Ao outro dia, efectivamente ouviam-se dois guizos no jardim, e as religiosas
no podiam ter-se que no erguessem uma ponta do vu. Por entre as rvores
viam-se no fim da cerca dois homens a par, cavando com ps: Fauvent e outro.
Sucesso enorme!
     Chegaram a quebrar o silncio para dizerem umas s outras:  um ajudante
do jardineiro.
     As madres vocais acrescentavam:  um irmo do tio Fauvent.
     Efectivamente, Joo Valjean estava legalmente instalado; trazia a joelheira de
couro e o guizo; tinha tomado posse. O seu nome era Ultime Fauchelevent.
     A causa mais forte que preponderara no nimo da prioresa para a admisso
de Cosette, fora a observao que a respeito dela fizera: A pequena h-de vir a ser
feia Pronunciado este prognstico, a prioresa tomou imediatamente amizade a
Cosette, dando-lhe lugar no recolhimento como educanda de caridade.
     Isto  tudo extremamente lgico.
     Debalde no convento  proibido o uso do espelho, porque as mulheres tm
uma conscincia para a fisionomia; ora as donzelas que sabem que so bonitas,
dificilmente se deixam fazer religiosas, e por isso sendo a vocao voluntria na
razo inversa da beleza, espera-se mais das feias do que das formosas, e da a
inclinao das feias pelas menos belas.
     Esta aventura engrandeceu o bondoso Fauchelevent, que teve um trplice
sucesso: com Joo Valjean a quem salvou e deu guarida; com o coveiro Gribier,
que dizia a ss consigo: Aquele homem foi causa de eu no pagar a multa; e com
o convento, que, ficando, graas a ele, de posse do corpo da madre Crucificao,
iludiu a Csar e satisfez a Deus. Ficou um caixo com cadver no Petit-Picpus e foi
um caixo sem cadver para o cemitrio de Vaugirard; a ordem pblica de certo
foi profundamente perturbada com isso, mas no deu por tal coisa. Quanto ao
convento, foi grande o reconhecimento de que se sentiu dominado para com
Fauchelevent. Fauchelevent tornou-se o melhor dos servidores e o mais precioso
dos jardineiros Na visita imediata do arcebispo, a prioresa contou o caso a sua
grandeza, parte confessando-se, parte tambm gabando-se, e na sada do convento
o arcebispo repetiu-o em voz baixa, aplaudindo-o, ao senhor de Latil, confessor do
prncipe que depois foi arcebispo de Reims e cardeal. Correu tanto a admirao
por Fauchelevent, que chegou at Roma.
     Temos  vista uma carta de Leo XII, ento Papa reinante, dirigida a um seu
parente, chefe da nunciatura em Paris, e como ele chamado Della Genga, na qual
se lem as seguintes linhas: Dizem-me que h a, num convento dessa cidade, um
excelente jardineiro chamado Fauvent, que parece ser um santo homem.
     Nem o mais leve murmrio, porm, de todo este triunfo chegou at  barraca
de Fauchelevent. O pobre velho continuou a fazer enxertos, a sachar e a tratar dos
meloais sem ter conhecimento da sua virtude nem da sua santidade Teve tanta
notcia da sua glria como qualquer boi de Durham ou de Surrey, de que a
Illustrater London News publica o retrato com esta inscrio: Boi premiado na
exposio dos animais corngeros.



    IX
    Clausura



     No convento, Cosette continuou no seu silncio a respeito dos
acontecimentos que precederam a sua entrada.
     A pobre criana julgava-se filha de Joo Valjean.
     Alm disso, como no sabia nada, nada podia dizer, e, ainda quando
soubesse, nada diria. Como acabamos de notar, no h coisa que mais discreta
torne uma criana do que o infortnio. Cosette havia sofrido tanto, que at de
falar e de respirar tinha medo.  que tantas vezes bastava uma s palavra para
fazer desabar sobre ela uma torrente de maus tratos! A filha de Fantine mal
principiava a tranquilizasse desde que pertencia a Joo Valjean. Depressa, porm,
se habituou ao convento. Apenas sentia a falta de Catarina, mas no ousava
diz-lo. Uma vez, porm, disse para Joo Valjean:  pai! Se eu soubesse,
trazia-a.
     Cosette, tornando-se recolhida do convento, teve de tomar o hbito das
educandas da casa, alcanando Joo Valjean que lhe restitussem os vestidos que
ela deixara. Era o vesturio preto que ele lhe fizera vestir quando deixou a taberna
dos Thenardier. Ainda no estava muito usado. Joo Valjean meteu toda esta
roupa, inclusive as meias de l e os sapatos, numa pequena mala que pde
arranjar, enchendo-a de cnfora e de todos os aromas que abundam nos
conventos. Ps a mala em cima de uma cadeira ao p da cama onde dormia e
guardou a chave, trazendo-a sempre consigo.
     -  pai! - perguntou-lhe um dia Cosette.  Que caixa  aquela que ali est que
cheira to bem?
     O tio Fauchelevent, alm da glria de que falmos e que ele ignorava, foi
recompensado pela sua boa aco; primeiro com o prazer que sentia, depois
porque o servio que lhe estava a cargo assim dividido, veio a tornar-se-lhe
menor. Finalmente, como gostava muito de tabaco, a presena de Madelaine
tornava-se-lhe ainda vantajosa, por isso que tomava muito mais do que dantes e
de um modo infinitamente mais voluptuoso, atendendo a que era ele quem lho
pagava.
     As religiosas no adoptaram o nome de Ultime para nomear Joo Valjean;
chamavam-lhe o outro Fauvent.
     Se aquelas santas mulheres possussem alguma coisa do olhar de Javert,
viriam por ltimo a notar que quando era necessrio alguma sada para objectos
relativos ao cultivo do jardim, era sempre o Fauchelevent snior, o velho, o
aleijado, o manco, o que saa e nunca o outro; porm, ou porque os olhos sempre
fixos em Deus no sabem espiar, ou porque de preferncia se entretivessem em
mutuamente se espreitarem, nunca fizeram reparo em semelhante coisa.
     Tambm foi o que valeu a Joo Valjean conservar-se quieto e sem se bulir
Javert durante mais de um ms no cessou de pesquisar pelo bairro.
     Aquele convento era para Joo Valjean como uma ilha cercada de abismos. O
mundo para ele agora eram aquelas quatro paredes. Dali via o cu, o suficiente
para se conservar sereno, e Cosette, o suficiente para viver satisfeito.
     Principiou ento de novo para ele uma vida cheia de doura.
     Habitava com o velho Fauchelevent na barraca situada ao fundo do jardim.
Era uma casinhola de paredes de tabique, que ainda em 1845 existia, a qual, como
se sabe, se compunha de trs quartos completamente desguarnecidos, tendo s as
paredes. O principal cedera-o Fauchelevent a Joo Valjean, obrigando-o a
aceit-lo  fora, pois debalde resistira. O ornato da parede deste quarto, alm dos
dois pregos destinados para dependurar, um a joelheira, outro o cesto, era uma
cdula de papel-moeda realista de 93, colado por cima da chamin, do qual damos
o exacto fac-simile:

    *** Segue-se uma reproduo Nota do digitalizador ***

      Este assinado vendeano tinha sido pregado na parede pelo passado jardineiro,
antigo chouan, que morrera no convento e a quem Fauchelevent sucedera.
      Joo Valjean trabalhava todos os dias no jardim, prestando nele teis servios.
      Noutro tempo fora podador e gostava de se ver jardineiro. Se bem se
recordam, Joo Valjean sabia toda a qualidade de receitas e segredos de cultura, e
deles se aproveitou As rvores do pomar que eram quase todas bravias,
enxertou-as de borbulha e fez-lhes dar excelentes frutos.
      Cosette tinha licena de vir todos os dias passar uma hora na companhia dele
Como as sorores eram tristes e ele cheio de bondade, a criana comparava e
adorava-o  hora marcada, corria para a barraca, e quando nela entrava,
inundava-a da luz do paraso. Joo Valjean julgava-se feliz e sentia aumentar a sua
felicidade com a felicidade que dava a Cosette. Longe de enfraquecer, como todos
os reflexos, tem a alegria que inspiramos o encanto de voltar para ns mais
resplandecente ainda. Nas horas do recreio, Joo Valjean via-a, de longe, a brincar
e a correr, distinguindo-lhe o riso do das suas companheiras.
      Pois Cosette agora ria e at no rosto tinha tal ou qual diferena, havendo-lhe
desaparecido a nvoa escura da angstia que lhe envolvia o corao. O riso  como
o sol: desfaz do rosto humano as nuvens negras que nele condensa a tristeza da
alma.
      Depois que acabava o recreio e que Cosette se recolhia, Joo Valjean punha-se
a contemplar as janelas da aula dela, e de noite levantava-se para se pr a
contemplar a janela do seu dormitrio.
      Deus emprega os meios que lhe apraz para chegar aos seus fins; o convento e
Cosette contribuam para conservar e completar em Joo Valjean a obra do bispo.
 certo que a virtude por um dos lados termina na soberba, para a qual se passa
por uma ponte construda pelo diabo Joo Valjean, sem o saber, estava muito
prximo desse lado e dessa ponte, quando a Providncia o impeliu para o
convento do Petit-Picpus; enquanto se no comparara seno com o bispo,
achara-se indigno e fora humilde; havia algum tempo, porm, que ele principiava
a comparar-se aos homens; e da a nascer-lhe a soberba Quem sabe? Talvez por
ltimo viesse a voltar lentamente ao dio.
     O convento f-lo parar no meio deste declive Era aquele o segundo lugar de
cativeiro que via Na sua mocidade, no que tinha sido para ele o princpio da vida,
e depois, bem perto ainda, tinha visto outro lugar horroroso, lugar terrvel, cujas
severidades lhe tinham parecido sempre a iniquidade da justia e o crime da lei
Hoje, aps as gals, via o claustro, e lembrando-se que tinha feito parte das gals e
que era agora, para assim dizer, espectador do claustro, confrontava-os no seu
pensamento com ansiedade.
     s vezes, fincando o brao no cabo da p espetada no cho, descia lentamente
pelas espirais sem fundo da cogitao.
     Lembrava-se dos seus antigos companheiros e punha-se a reflectir na sua
misria: aqueles infelizes levantavam-se ao romper do dia e trabalhavam at 
noite, concedendo-se-lhes apenas alguns instantes de sono; o seu leito eram camas
de lona, em que lhes no permitiam colches de mais de duas polegadas de
grossura, dispostos em salas que s nos meses mais rspidos do ano eram
aquecidas; o seu vesturio consistia em horrveis jaquetas encarnadas,
permitindo-se-lhes por muito favor, nos grandes calores, o uso de calas de linho,
e uma camisola de l nos grandes frios, vinho nunca o bebiam, carne nunca a
comiam, seno quando lhes sobrevinha a fadiga. Os nomes que tinham
perdiam-nos, designados apenas por nmeros e de algum modo feitos algarismos
Viviam, mas com os olhos baixos, a voz submissa, os cabelos cortados, de
contnuo ameaados pelo azorrague, sepultados no oprbrio.
     Depois o seu esprito passava para os entes que tinha diante da vista.
     Esses entes viviam tambm com os cabelos cortados, os olhos baixos, a voz
submissa, no no oprbrio, mas no meio das zombarias do mundo no com as
costas feridas pelo azorrague, mas com os ombros lacerados pela disciplina. Os
seus nomes haviam tambm desaparecido dentre os homens e sido substitudos
por austeros apelidos. Nunca comiam carne nem bebiam vinho; estavam muitas
vezes todo o dia sem comer; andavam vestidos, no com uma vstia vermelha,
mas com uma mortalha de l, pesada no Vero, leve de Inverno, sem poder tirar
nem acrescentar nada a todas estas coisas, sem ter sequer consoante a estao, o
recurso da roupa de linho ou do sobretudo de l, e trazendo seis meses camisas de
sarja, que os faziam arder em febre.
     Esses entes habitavam, no em salas aquecidas somente nos frios rigorosos,
mas em celas, onde nunca se acendia o lume; dormiam, no em colches de
grossura de duas polegadas, mas nas palhas. Finalmente, nem alguns momentos
de sono gozavam: todas as noites, depois de um dia de trabalho, na modorra do
primeiro sono, no momento em que iam a fechar os olhos e principiavam a
aquecer, tinham de acordar, de erguer-se, de ir orar numa capela escura e fria
como gelo, com os joelhos sobre a pedra.
     Em certos dias, cada um daqueles entes, por sua vez, tinha de estar doze horas
ajoelhado ou prostrado nas lajes, com o rosto pregado no cho e os braos em
cruz.
     Os outros eram homens; estes eram mulheres.
     Que haviam feito esses homens?
     Tinham roubado, violado, assaltado, matado, assassinado.
     Eram bandidos, falsrios, envenenadores, incendirios, assassinos, parricidas.
     E essas mulheres que tinham feito?
     Nada.
     Duma parte a rapina, a fraude, o dolo, a violncia, a lubricidade, o homicdio,
todas as espcies do sacrilgio, todas as variedades do atentado; da outra uma s
coisa a inocncia.
     A inocncia perfeita, quase enlevada numa assuno misteriosa,
comunicando ainda com a terra pela virtude e j com o cu pela santidade.
     Duma parte confidncias de crimes, mutuamente feitas em voz baixa Da
outra a confisso das faltas, feita em voz alta. E que crimes! E que faltas!
     De uma parte miasmas, da outra perfume inefvel.
     De uma parte uma peste moral, com sentinelas  vista, rodeada de artilharia e
devorando lentamente os empestados por ela; da outra um casto abrasamento de
todas as almas no mesmo fogo. Alm, as trevas; aqui, a sombra, mas sombra cheia
de clares e clares cheios de fulgor Dois lugares de escravido, mas no primeiro a
possibilidade da liberdade, um limite legal, sempre entrevisto, ou pelo menos a
evaso. No segundo a condenao por toda a vida, e por nica esperana na
extremidade longnqua do porvir, esse claro de liberdade, a que os homens do o
nome de morte.
     No primeiro, as cadeias que prendem os que vivem nele so simples grilhes;
no segundo, as cadeias so as da f.
     Que saa do primeiro? Uma maldio imensa, o ranger de dentes, o dio, a
malvadez desesperada, um grito de raiva contra a sociedade humana, um
sarcasmo contra o cu.
     E do segundo? Cnticos de louvor e amor.
     E em ambos esses lugares to semelhantes, e ao mesmo tempo to diversos,
essas duas espcies de entes to diferentes, tinham por alvo o mesmo fim a
expiao.
     Joo Valjean compreendia bem a expiao dos primeiros; a expiao pessoal,
a expiao das faltas prprias. O que ele no compreendia, porm, era a dos
outros, a dessas criaturas irrepreensveis e sem mcula, e perguntava a si cheio de
agitao: Expiao de qu? Que expiao?.
     A isto respondia-lhe uma voz na conscincia: A mais divina das
generosidades humanas, a expiao pelos outros Sobre este ponto abstemo-nos
de qualquer teoria pessoal; somos simples narrador; encaramos as coisas como
Joo Valjean as encarava, e traduzimos somente as suas impresses.
     Diante de si via o cmulo sublime da sua abnegao, o cimo mais alto a que
pode vingar a virtude; a inocncia que perdoa aos homens as suas faltas e se
oferece por eles em expiao delas; via como essas almas, que no haviam pecado,
sofriam a servido, aceitavam a tortura, reclamavam o suplcio, para libertar de
tudo isto aquelas que o tinham feito; o amor da humanidade consubstanciado
com o amor de Deus, mas ainda distinto, ainda suplicativo; entes frgeis cheios de
doura, vivendo na misria dos que so punidos e sorrindo como os que so
recompensados.
     E ele, ele ousara ainda queixar-se!
     Alta noite, s vezes, levantava-se para ir escutar os cnticos de graas daquelas
criaturas inocentes e vergadas ao peso de speras severidades, e sentia
arrefecer-lhe o sangue nas veias ao lembrar-se que aqueles que eram justamente
castigados, no elevavam a voz ao cu seno para blasfemar, e que at ele,
miservel, chegara a ameaar a Deus com o punho cerrado.
     Notvel coisa que o fazia cogitar profundamente como um aviso segredado
pela prpria Providncia; as diligncias que empregara para saltar um muro, para
penetrar num claustro; os perigos gravssimos a que se expusera, a difcil e dura
ascenso com que fizera perder o rasto aos seus perseguidores, todos esses
esforos que ele tinha feito para sair do outro lugar da expiao fizera-os para
entrar neste. Seria um smbolo do seu destino?
     Esta casa era tambm uma priso e tinha uma lgubre semelhana com a
outra donde ele fugira, e, contudo, nunca imaginara que no mundo houvesse coisa
parecida com ela.
     Que guardavam essas grades, esses ferrolhos e vares de ferro, que outra vez
viu? Anjos.
      As paredes elevadas que outrora vira encurralando tigres, via-as de novo, mas
fechando ovelhas. Alm a jaula, aqui um redil.
      Era de expiao e no de castigo este lugar, e, todavia, ainda era mais austero,
mais pesadamente melanclico e mais desapiedado do que o outro. Aquelas
virgens ainda andavam curvadas debaixo de trabalho mais duro do que os
forados. Um vento frio e rspido, o vento que gelara a sua mocidade, penetrava a
jaula solidamente gradeada dos abutres, mas por aquele viveiro de pombas
infiltrava-se uma rajada mais spera e penetrante ainda Porqu?
      Quando nisto pensava, sentia-se confundido na presena deste mistrio de
sublimidade.
      Assim se desfez a soberba que dele se ia apoderando. Meteu a mo na prpria
conscincia e quando conheceu a sua misria, chorou muitas vezes fervorosas
lgrimas. Todos os sucessos da sua vida, desde h seis meses, como que o
impeliam a pr em prtica as piedosas exortaes do santo bispo; Cosette com o
seu amor, o convento com a sua humildade.
      s vezes, quando  tarde a luz avermelhada do crepsculo corava ainda de
reflexos mal distintos o jardim deserto, ajoelhava no meio da rua paralela  capela
diante da janela por onde espreitara na noite em que chegara, e voltado para o
stio onde sabia que a soror, que fazia reparao, estava prostrada a orar. E ele
orava assim ajoelhado diante daquela mulher piedosa, como se fora ela a
mediadora das suas splicas a Deus, perante quem parecia no ousar ajoelhar-se
directamente.
      Tudo o que o rodeava, aquele pacfico jardim, aquelas flores odorferas,
aquelas crianas ruidosamente alegres, aquelas mulheres cheias de gravidade e
singeleza, aquele claustro silencioso, tudo manso e manso se lhe ia infiltrando no
corao e compondo a alma pouco a pouco do silncio daquele claustro, do
perfume daquelas flores, da tranquilidade daquele jardim, da simplicidade
daquelas mulheres e da alegria daquelas crianas.
      E depois lembrava-se de que foram duas manses de Deus que
sucessivamente o recolheram nas duas conjunturas crticas da sua vida; a
primeira, quando todas as portas se lhe fechavam e que a sociedade humana o
repelia; a segunda, na ocasio em que a sociedade se empenhava de novo a
persegui-lo e em que para ele se tornavam a abrir as gals; e ento reflectia que, se
no fosse a primeira reincidiria no crime, e que, se no fosse a segunda, voltaria ao
suplcio.
    E o seu corao transbordava de gratido e amava cada vez mais Muitos anos
passaram assim. Cosette crescia.
Fim do Segundo Volume
Terceiro Volume
Terceira Parte
Mrio
    LIVRO PRIMEIRO
    Paris estudado na sua mais tnue parcela



    I
    Parvulus



     Paris tem um filho como a floresta tem um pssaro. O pssaro chama-se
pardal; o filho de Paris chama-se gaiato.
     Aproximai estas duas ideias - Paris, infncia - das quais uma contm todo o
fogo, a outra toda a aurora; fazei que essas duas fascas se choquem e vereis
levantar desse choque um entezinho. Homuncio, como diria Plauto.
     Jamais o vereis triste, que no  essa a sua ndole. Esse entezinho nem todos
os dias come, mas, se lhe d para tal, vai ao espectculo todas as noites. Anda sem
camisa, sem sapatos, no tendo sequer um tecto que o cubra;  como as moscas do
ar que nenhuma dessas coisas tm. A sua idade regula sempre de sete a treze anos,
o seu viver  em bandos, vagueando pelas ruas, dormindo ao relento, trajando
umas calas velhas que j trouxe seu pai, e que de compridas lhe andam de rastos,
trazendo por cobertura um chapu de dono incerto enterrado at s orelhas, e as
calas seguras por um nico suspensrio de ourelo amarelo; corre, espreita,
pesquisa, mata o tempo, queima cachimbos, pragueja como um desalmado,
frequenta as tabernas, trava relaes com os ladres, trata por tu as meretrizes, fala
em gria, canta cantigas obscenas, e, apesar de tudo, no so maldosos os seus
sentimentos.  que tm na alma a prola da inocncia e as prolas no se desfazem
na lama Quer Deus que o homem seja inocente enquanto no transpe a idade
infantil.
     Se  cidade imensa perguntsseis: Que criana  essa que a tendes? Ela
responder-vos-ia:  meu filho



    II
    Alguns dos seus sinais particulares



    O gaiato de Paris  um ano gerado por uma gigante.
     No exageremos, contudo; este querubim da enxurrada tem algumas vezes
camisa, mas neste caso no tem mais de uma; possui algumas vezes sapatos, mas
sem solas; tem por vezes uma habitao que estima, porque nela encontra sua
me; mas prefere a rua, porque acha nela a liberdade. Tem seus brinquedos e
malcias, que lhe so prprios, mas cujo fundo  o dio aos burgueses; tem
metamorfoses que lhe so peculiares; estar morto chama-se comer taroxacos pela
raiz; h ocupaes que lhe so privativas, como ir buscar carruagens, baixar os
estribos das carruagens, estabelecer alpendres de um a outro lado da rua, nas
ocasies de grossas chuvas, ao que ele chama fazer pontes das artes, apregoar os
discursos pronunciados pela autoridade em favor do povo francs, e esgaravatar
entre as pedras das caladas; tem tambm a sua moeda particular, que se compe
de todos os bocadinhos de metal que acha na rua. Esta curiosa moeda, que toma o
nome de chabicas, tem curso invarivel e muito bem regulado na pequena bomia
das crianas.
     Tem, enfim, a fauna particular, que observa estudiosamente por todos os
cantos: as lagartas, os besoiros e o diabo, insecto preto que ameaa com a cauda,
guarnecida de dois ferres. Tem o seu monstro fabuloso com escamas no ventre e
que no  um lagarto, com pstulas no lombo e no  sapo, que habita nos fornos
de cal abandonados e nos poos secos, negro, felpudo, viscoso, arrastando-se ora
devagar, ora rapidamente, que no grita, mas que olha, e que  to terrvel que
nunca foi visto por ningum; a este monstro chama ele o surdo. Procurar
surdos entre as pedras  um prazer do gnero terrvel. Outro prazer ainda:
levantar de repente uma pedra e ver bichos de conta. Cada regio de Paris 
clebre pelos interessantes achados que nela se podem fazer. Nas estncias das
Ursulinas dominam as formigas, no Panteon as centopeias, nos fossos do campo
de Marte as rs.
     Quanto a frases, este pequeno tem-nas propriamente suas como Talleyrand;
no  menos cnico mas  mais honrado  dotado de imprevista jovialidade;
aturde inopinadamente o primeiro lojista por cujo estabelecimento passa, com
uma incrvel risada fingida. A sua gama desce atrevidamente da alta comdia at 
farsa.
     Passa um enterro. Entre os que o acompanham vai um mdico.
     - Ora esta! - grita um gaiato. - Desde quando  que os mdicos vo levar a
obra?
     Entre a multido est outro gaiato. De repente, um homem srio de culos e
muitos berloques no relgio, volta-se para ele, bramando indignado:
    - Maroto! Deitaste a mo  cintura de minha mulher!
    - Eu, senhor!? Apalpe-me, veja se a encontra!



    III
    Como  agradvel



      noite o homuncio, graas a alguns cobres que acha sempre maneira de
arranjar, entra num teatro, e, apenas transpe o limiar daquelas mgicas manses,
transfigura-se; de gaiato que era, torna-se titi. Os teatros so uma espcie de
navios voltados com o poro para o ar, e  exactamente no poro que o gaiato
toma lugar. O titi  para o gaiato o que a mariposa  para a larva: o mesmo ser,
com asas. Basta que ele ali se encontre na ebriedade do seu prazer, no cmulo do
seu entusiasmo e alegria, com o seu bater de mos, que mais parece um bater de
asas, para que esse poro estreito, ftido, escuro, srdido, insalubre, hediondo,
abominvel, se chame o Paraso.
     Dai a um ente o intil e tirai-lhe o necessrio, e tereis o gaiato.
     O gaiato no  destitudo de certa intuio literria. A sua tendncia, porm,
dizemo-lo suficientemente pesarosos, no se inclina para o gosto clssico. O
gaiato , por pendor natural, pouco acadmico. Para darmos um exemplo, basta
dizer que a popularidade de Mademoiselle Mars, entre este pblico de crianas
tavanezes, era temperada com uma ponta de ironia. O gaiato denominava-a
Mademoiselle Muche.
     Esta criatura berra, zombeteia, trava desordens, batalha, anda rota como uma
criana, esfarrapada como um filiado, pesca nas enxurradas, caa nas latrinas,
extrai a alegria da imundcie, anima os becos com o seu entusiasmo,  sarcstico e
maldizente, assobia e canta, aplaude e pateia, tempera a Aleluia com
Matanturlurette! Salmodia todos os ritmos desde o De profundis at  Chieenlit;
acha sem procurar, sabe o que ignora,  esparciata at s raias da ratonice,  louco
at tocar os limites da prudncia, lrico at  obscuridade, capaz de se pr de
ccoras no Olympo, chafurda na imundcie e sai dela coberto de estrelas O gaiato
parisiense  Rabelais em miniatura.
     Se as calas que traz no tm bolso de relgio, no anda satisfeito  pouco
espantadio, ainda menos timorato, faz cantigas s supersties, espreme os
exageros, escarnece dos mistrios, deita a lngua de fora s almas do outro mundo,
despoetiza o que os outros encarecem, introduz a caricatura nas intumescncias
picas. No porque ele seja prosaico; longe disso; mas porque substitui a viso
solene pela fantasmagoria bufona. Se Adamastor aparecesse ao gaiato, o gaiato
diria: Ai! O papo!



    IV
    Como pode ser til



     Paris principia pelo basbaque e acaba no gaiato; duas criaturas que nenhuma
outra cidade encerra: a aceitao passiva que se contenta em ver, e a iniciativa sem
fim; Prudhomme e Fouillon S Paris  que tem uma coisa semelhante na sua
histria natural. No basbaque reside toda a monarquia; no gaiato toda a anarquia.
     Este plido filho dos arrabaldes de Paris vive e cresce, principia e acaba no
infortnio, testemunha pensativa das realidades sociais e as coisas humanas.
Julga-se ele prprio indiferente, mas no . Olha, pronto a rir, mas pronto
tambm para outra coisa. Vs, quem quer que sois, que vos chamais Prejuzo,
Abuso, Ignomnia, Opresso, Iniquidade, Despotismo, Injustia, Fanatismo,
Tirania, acautelai-vos do gaiato, se o virdes boquiaberto.
     Esse pequeno crescer.
     De que argila  ele formado? Do primeiro barro que Deus deparou  mo.
Um punhado de lama, um sopro, e eis formado Ado. O essencial  o sopro de
Deus, e o sopro de Deus  sempre o que forma o gaiato. A fortuna coopera
tambm para esta criaturinha. Por fortuna aqui, entendemos o azar. Este pigmeu
amassado com terra comum, ignorante, falto de instruo, vulgar, plebeu entre os
plebeus, ser um jnio ou um becio! Esperai, currit rota, e o esprito de Paris, o
demnio que cria os rapazes do acaso e os homens do destino, ao avesso do oleiro
romano, far de cntaro uma nfora.



    V
    As suas fronteiras



    O gaiato gosta da cidade, mas no desgosta da solido, porque h nele o seu
qu de filsofo. Urbis amator, como Fusco; ruris amator, como Flacco.
     Empregar o tempo em vaguear meditando , sem dvida, um bom emprego
para o pensador, especialmente para essa espcie de campo algum tanto esprio e
bastante feio, mas singular e composto de duas naturezas, que se estende em roda
de algumas grandes cidades, especialmente de Paris. Observar os arrabaldes 
observar um anfbio.
     Findam as rvores e principiam os telhados, acaba a erva e comea a calada,
terminam os regos e principiam as lojas, desaparecem as rodeiras e principiam as
paixes, extingue-se o murmrio divino e ergue-se o rumor humano; 
extraordinrio o interesse que disto resulta.
      da que provm os passeios, aparentemente sem fim, dos homens
meditabundos por esses lugares pouco aprazveis e denominados para sempre, por
quem passa, com o epteto de tristes.
     Quem estas linhas escreve, passeou muitas vezes pelos arrabaldes de Paris; e 
isso para ele uma fonte de profundas recordaes.
     A erva rasa, os caminhos pedregosos, o barro, os marnes, as speras
monotonias dos baldios, as plantaes serdias avistadas de repente num ou
noutro ponto, a mistura do selvtico e do burgus, os vastos recantos desertos
onde se estabelecem estrondosamente as escolas dos tambores da guarnio,
balbuciando uma batalha, aquelas tebaidas de dia, e pontos para emboscadas de
noite, o moinho desconjuntado girando com o vento, as rodas de extraco das
pedreiras, as tascas juntas dos cemitrios, o encanto misterioso dos grandes e
sombrios muros, cortando em ngulos rectos imensos terrenos devolutos,
inundados de sol e povoados de borboletas, tudo o atraa.
     Quase ningum neste mundo conhece os stios singulares, da Glacire e da
Cunette, o hediondo muro de Grenelle, crivado de balas, o Mont-Parnasse, a
Fosse-
     aux-Loups, os Aubiers na ribanceira do Mame, Mont-Souris, a Tombe Issoire
e a Pierre-Plate de Chtillon, onde h uma velha pedreira explorada, que s serve
para fazer nascer cogumelos, e que  fechada  flor da terra por um alapo de
madeira j podre.
     A campina de Roma  uma ideia, o termo de Paris  outra; no ver no
horizonte que se nos oferece, seno campos, casas e rvores,  ficar  superfcie;
todos os aspectos das coisas so pensamentos de Deus. O lugar em que uma
plancie se liga com uma cidade  sempre impregnado de no sei que penetrante
melancolia. Ouvem-se ali ao mesmo tempo as vozes da natureza e as da
humanidade.  ali que as originalidades locais se patenteiam.
     Quem quer que tenha divagado, como ns, nas solides contguas aos nossos
arrabaldes, que poderiam chamar-se limbos de Paris, viu infalivelmente, num ou
noutro ponto, no stio mais abandonado, no momento mais inesperado, por trs
de magra sebe, ou do ngulo de lgubre muro, crianas agrupadas
tumultuosamente, ftidas, enlameadas, cobertas de terra, vestidas de andrajos, e
como eriadas, jogando a chopo, coroadas de flores. So tudo rapazinhos pobres
fugidos s famlias.
     O boulevard exterior  o seu meio respirvel; os arredores de Paris
pertencem-lhes; fazem deles uma eterna escola de gazeta, cantando ingenuamente
o seu repertrio de cantigas nojentas. Esto ali, ou antes, existem ali, longe de
todas as vistas,  suave luz de Maio ou de Junho, ajoelhados em volta dum buraco
feito na terra, jogando, disputando por causa de um soldo, irresponsveis, livres,
felizes; e apenas vos avistam, lembram-se de que tm uma indstria, com que
ganham a vida e oferecem-vos para comprardes, uma meia velha de l cheia de
besouros, ou um ramo de lilases. Estes encontros de estranhas crianas, so uma
das graas encantadoras e ao mesmo tempo pungentes dos arredores de Paris.
     Algumas vezes, naqueles montes de rapazes vem-se rapariguinhas sero
suas irms? quase mulheres, magras, febris, crestadas pelo sol, com os rostos
sardentos, com espigas de centeio e papoilas nos cabelos, alegres, descalas e
ariscas. Vem-se algumas entre o trigo comendo cerejas, e  tarde ouvem-se-lhes
os risos. Estes grupos ardentemente iluminados pelo Sol do meio-dia, ou
entrevistos no crepsculo, ocupam por muito tempo o pensador; estas vises
invadem-lhe a meditao.
     Paris, centro ~ os arredores, circunferncias; eis para tais crianas a terra
inteira.
     Jamais passam alm. Podem to-pouco sair da atmosfera parisiense como os
peixes podem sair da gua. Para elas, alm de duas lguas das barreiras, no existe
mais nada; Ivry, Gentilly, Arcueil, Belleville, Aubervilliers, Mnilmontant,
Choisy-le-Roi, Billancourt, Meudon, Issy, Vanvre, Svres, Puteaux, Neilly,
Gennevilliers, Colombes, Romainville, Chatou, Asnieres, Bougival, Nanterre,
Bnghien, Noisy-le-Sec, Nogent, Gournay, Drancy e Gonesse,  tudo quanto
compe o Universo.
    VI
    Fragmento de histria



     Na poca, alis quase contempornea em que decorre a aco deste livro, no
havia, como hoje, um agente de polcia  esquina de cada rua (benefcio que j no
 tempo de discutir); por isso abundavam em Paris as crianas vagabundas. As
estatsticas do uma mdia de duzentas e sessenta crianas sem asilo, apanhadas
anualmente pelas rondas da polcia, nos terrenos abertos, nas casas que se
andavam construindo e debaixo dos arcos das pontes. Um destes ninhos, que se
tornou famoso, produziu as andorinhas da ponte de Arcole. E este , no fim de
tudo, o mais desas-troso dos sintomas sociais. Todos os crimes do homem
comeam na vagabundagem da criana.
     Exceptuemos, contudo, Paris, Relativamente, e no obstante o que acabamos
de lembrar, a excepo  justa. Ao passo que em qualquer outra grande cidade, um
rapazinho vagabundo  um homem perdido, ao passo que, em quase toda a parte,
o rapaz abandonado a si mesmo,  de certo modo consagrado e votado a uma
espcie de imerso fatal nos vcios pblicos, que lhe devoram a honestidade e a
conscincia, o gaiato de Paris, insistimos neste ponto, to gasto e safado na
superfcie, conserva-se interiormente quase intacto.  uma coisa magnfica e
agradvel de registar, e que brilha na esplndida probidade das nossas revolues
populares: da ideia que satura o ar de Paris, resulta uma certa incorruptibilidade,
como da gua do oceano resulta o sal.
     Respirar Paris  conservar a alma.
     O que acabamos de dizer, no diminui coisa alguma o aperto de corao que
se sente todas as vezes que se encontra uma daquelas crianas, em torno da qual
parece ver-se flutuar os fios quebrados da famlia. Na civilizao actual, to
incompleta ainda, no so demasiadamente anormais estas fracturas de famlias,
vazando-se nas sombras, no sabendo mais o que  feito de seus filhos, e deixando
cair as entranhas pelas ruas e praas pblicas. Daqui os destinos obscuros.
Chama-se a isto, porque to triste coisa produziu locuo: ser lanado s pedras
(sur l pav) de Paris.
     Seja porm dito de passagem: este abandono de crianas no era de todo
desanimado pela antiga monarquia.
     Um tanto ou quanto de Egipto e de Bomia nas baixas regies, equilibrava as
altas esferas e era til aos desgnios dos poderosos. O antagonismo ao ensino dos
filhos do povo, era dogma. Para que servem as meias luzes? Tal era a senha. Ora,
a criana errante  corolrio da criana ignorante.
     Alm disto, quando a monarquia carecia de rapazes, fazia uma colheita pelas
ruas e ficava servida.
     No tempo de Lus XVI, para no remontarmos a mais longe, queria o rei, e
com razo, criar uma esquadra. A ideia era boa; mas vejamos os meios de a
realizar. No h esquadra possvel, se, ao lado do navio de vela, ludibrio do vento,
e para o rebocar sempre que seja necessrio, no h o navio que vai onde quer, ou
seja pelo remo ou pelo vapor; as gals eram naquele tempo para a marinha o que
so hoje os vapores.
     Necessitavam-se, pois, gals; mas a gal no se move sem o forado; por
consequncia era preciso que houvesse forados. Colbert fazia apurar pelos
intendentes de provncia e pelos parlamentos, o maior nmero possvel de
forados. A magistratura empregava neste empenho a maior complacncia. Se um
homem qualquer conservava o chapu na cabea ao passar uma procisso,
mostrava costumes de huguenote! Gals com ele.
     Encontrava-se na rua um rapaz, tinha quinze anos, e no sabia onde
pernoitar; mandavam-no para as gals.
     Grande reinado, grande sculo.
     No reinado de Lus XV desapareciam de Paris as crianas; a polcia
arrebatava-as, no se sabe para que misterioso emprego. Segredavam-se ento
com espanto, monstruosas conjecturas acerca dos banhos de prpura do rei.
Barbier fala ingenuamente destas coisas. Sucedia, s vezes, que os esbirros
caadores de crianas, se apoderavam de algumas que tinham pais. Estes,
desesperados, corriam sobre os esbirros. Em tais casos, intervinha o parlamento e
mandava prender... Quem? Os esbirros? No, os pais das crianas.



    VII
    O gaiato podia ocupar um lugar nas classificaes da ndia



    O ser gaiato em Paris ainda no  para todos, por isso que esta espcie de
entes ali quase constituem uma raa.
    A palavra gaiato foi impressa pela primeira vez, passando pela linguagem
popular para a linguagem literria, em 1834. A sua apario teve lugar num
opsculo intitulado Cludio ueux e produziu grande escndalo, mas a palavra
ficou adoptada.
     So variadssimos os elementos que constituem a considerao dos gaiatos
entre eles. Um conhecemos ns e com ele falmos muitas vezes, que era em
extremo respeitado e admirado por ter visto cair um homem das torres de
Notre-Dame; outro, por ter conseguido penetrar no ptio onde estavam
inteiramente guardadas as esttuas do zimbrio dos Invlidos e ter-lhes
surripiado um pouco de chumbo! Um terceiro, por ter visto tombar uma
diligncia; e ainda outro, por conhecer um soldado que esteve quase a tirar um
olho a um sujeito bem trajado.
      isto o que explica a seguinte exclamao de um gaiato parisiense, epifonema
profundo de que o vulgo ri sem o compreender: Deus do cu, no querem l ver!
Dizerem que ainda no vi cair ningum dum quinto andar!
     , realmente, sobremodo chistoso o seguinte dito de um aldeo: Tio fulano,
sua mulher morreu da doena que teve; porque no mandou chamar um
mdico? O senhor que quer? C ns, os pobres, no temos com que pr
embargos  morte! Se este dito, porm, exprime toda a passividade do aldeo, no
que em seguida se vai ler, revela-se toda a anarquia do livre pensar do gaiato
parisiense. Vendo um destes um condenado  morte a falar com o seu confessor,
exclamou: L est o maricas a dizer segredinhos ao sotaina! O gaiato torna-se
saliente por certa dose de audcia em assuntos religiosos.  que ser esprito forte
inculca importncia.
     A assistncia s execues constitui para ele um dever. Apontam uns aos
outros para a guilhotina e riem, designando-a por toda a espcie de nomes
figurados,      como       sobremesa,     corta-gorgomilos,      serradouro,
decepa-toutios, diligncia do outro mundo, etc., etc. Tal  o empenho com
que procuram ver todas as peripcias do terrvel drama, que trepam acima das
paredes, sobem s rvores, agarram-se s grades, andam de gatas pelos telhados. O
gaiato j nasce trolha e marinheiro. Tanto o intimida um telhado como um
mastro. No h festa para ele como a execuo de um condenado. Os nomes mais
populares so os de Sanso e o do abade Monts. Apupam o paciente para o
animar, e s vezes mostram por frases cheias de fogo a admirao que lhe
tributam. Lacenaire, quando gaiato, vendo morrer intrepidamente o terrvel
Danton, proferiu esta frase que encerra um futuro: Tenho-lhe inveja. Voltaire 
desconhecido entre os garotos, mas todos conhecem Papavoine. Na mesma lenda
misturam os polticos e os assassinos, e de todos conservam a tradio do
ltimo trajo que usaram. Sabem, pois, que Tolleron trazia uma carapua de moo
de forneiro, Avril um barrete de pele de lontra, Louvei um chapu de copa baixa,
que o velho Delaporte era calvo e andava sem nada na cabea, que Castaing era
corado e sobremodo bonito, que Bories tinha uma romntica cadelinha de gua,
que Joo Martin guardava os suspensrios, que Lecouff e sua me andavam
sempre a travar-se de razes. Disse o tacho  cert, pira-te l no me enfarrusques]
gritou-lhe uma vez um gaiato. Outro, para ver passar Debacker, que de pequeno
se perdia por entre o povo, lembra-se do lampeo do cais e trepa acima dele. Ao
ver isto, um guarda que ali estava de sentinela franze o sobrolho e o gaiato diz-lhe:
 camarada, deixe-me subir, e para melhor o comover acrescenta: Esteja
descansado que eu no caio. E a mim d-se-me bem que tu caias! responde o
guarda.
     Os gaiatos apreciam sempre sumamente algum desastre memorvel. Se
algum sucede dar um golpe profundo at ao osso, como eles dizem, torna-se
objecto da mais subida venerao.
     Ter pulso  tambm um elemento de respeito, e no dos mais medocres.
Uma das coisas que o gaiato diz com mais desvanecimento : Caramba! Eu,
assim mesmo, ainda tenho bastante fora Entre eles ser canhoto  circunstncia
digna de inveja e aprecivel o ser vesgo.



    VIII
    Onde se narra um dito galante do ltimo rei



     De Vero, o gaiato metamorfoseia-se em r. No fim da tarde v-lo-eis
defronte das pontes de lena e de Austerlitz atirar-se ao Sena, de cabea para baixo,
de cima das barcas de carvo e dos barcos das lavadeiras, com manifesta infraco
das leis do pudor e dos regulamentos policiais. Contudo, os agentes de polcia
vigiam, do que resulta uma situao sumamente dramtica, que j deu lugar a um
grito fraternal memorvel; este grito, que se tornou clebre em 1830,  um aviso
estratgico de um gaiato a outro;  susceptvel de se expandir como um verso de
Homero e tem uma entoao quase to inexprimvel como a melopeia elegaca das
Panatheneias. Parece o antigo Evoh.
     Ei-lo: Oh Titi, ohe! pica a amarra, desatraca, que anda mouro na costa,
desatraca, faz pirano.
     As vezes sabe ler este mosquito, como ele a si prprio se denomina, s vezes
sabe escrever; mas o que ele sabe sempre  pintar monos nas paredes. No hesita
em aprender, por no sabermos que misterioso ensino mtuo, todas as
habilidades que  repblica possam ser teis: desde 1815 at 1830, imitava o
gargarejar do peru; desde 1830 at 1848, rabiscava peras pelas paredes. Numa
tarde de estio, recolhendo-se Lus Filipe a p, viu um gaiato, que de pequeno que
era suava e punha-se em bicos de ps para desenhar a carvo uma gigantesca pra
num dos pilares da grade de Neuilly; o rei com o pachorrento humor que herdara
de Henrique IV, ajudou o gaiato, e acabada a pra deu-lhe um lus, dizendo: Isso
tambm tem uma pra!
     O gaiato gosta das rusgas, agrada-lhe certo estado violento. Os abades  que
ele no pode ver. Um dia, estando um destes girigotes pequenos na rua da
Universidade a pintar um nariz de vara e meia no porto da casa nmero 69, um
indivduo que ia a passar perguntou-lhe:
     - Para que ests a a fazer isso?
     -  porque mora aqui um abade - respondeu o gaiato.
     Era aquela, efectivamente, a casa em que morava o nncio do Papa.
     Entretanto, por mais intenso que seja o voltaireanismo do gaiato, se se lhe
oferece ensejo de ser menino do coro, abraa o mister e ajuda  missa com toda a
compostura e gravidade. Existem duas coisas que so para ele o suplcio de
Tntalo, porque as v em esprito sem nunca chegar a elas na realidade: derribar o
governo e compor as calas.
     O gaiato no seu estado perfeito conhece todos, os polcias de Paris, o seu
nmero certo e os seus nomes, de modo que se no v embaraado para, quando
encontra algum, o designar pelo que lhe pertence. Alm disto, estuda-lhes os
costumes e possui notas especiais a respeito de cada um deles. L-lhes na alma
como nas folhas de um livro aberto. Dir-vos- correntemente e sem balbuciar:
fulano  traioeiro; sicrano  mau como as cobras; beltrano  um grande homem ou
uma criatura ridcula, etc. (estes termos de traidor, mau, grande, ridculo, tm
todos na boca deles uma acepo particular). Este pensa que traz o rei na barriga;
cuida que a gente lhe come alguma coisa em andar a passear por cima das guardas
da Ponte Nova; aquele tem a mania de puxar as orelhas a uma pessoa, etc., etc..
    IX
    A velha alma da Glia



     Tudo o que at aqui temos dito do gaiato possuiu-o em mais ou menos
subido grau Poquelin, que nos seus primeiros anos vagueara pelas praas, e
possuiu-o Beaumarchais. A gaiatice parisiense  uma cor do esprito gauls.
Combinada com o bom-senso, aumenta-lhe a fora, como ao vinho faz o lcool.
Outras vezes, porm,  defeito. Homero repisa; de acordo; mas de Voltaire
pode-se dizer que parece gaiato.
     Camilo Desmoulins era natural dos arrabaldes. Champioflnet, que to
rispidamente flagelava os milagres, saiu das ruas de Paris; em pequeno inundou os
prticos de S.
     Joo de Beauvais e Santo Estvo do Monte; no era, pois, de admirar que ele,
que tantas vezes tratara por tu o relicrio de Santa Genoveva, desse ordens  urna
de S. Janurio.
     O gaiato de Paris  respeitoso, irnico e insolente. Os seus dentes so feios,
porque se nutre com maus alimentos e padece do estmago, mas em
compensao tem olhos belos, porque tem esprito. Na presena de Jeov, subir
num p os degraus da escada do Paraso. Como andarilheiro ningum o excede,
brinca nos cais e toma vulto com as rusgas; a metralha no lhe faz perder o
desassombro; de gatuno passa a heri, e, como o jovem tebano, sacode a pele do
leo; o tambor Barraque era um gaiato de Paris; grita: Avante!, como o cavalo da
Escritura diz: V! e num minuto passa de rapazinho a gigante.
     O filho da lama, porm,  tambm filho do ideal.
     Seno, medi o arco que vai de Molire a Barra.
     Em suma, para dizermos tudo numa s palavra, o gaiato  um ente que passa
a vida folgaz, por ser desgraado.



    X
    Ecce Paris, ecce homo



    Para tudo resumir ainda mais, o gaiato de Paris  hoje, como outrora, o
groeculus de Roma, o povo infantil, com as rugas de mundo senil na fronte.
     O gaiato  uma graa para a nao e conjuntamente um aleijo que se deve
curar; como? Por meio da luz.
     A luz d sade.
     A luz alumia.
     As generosas irradiaes sociais so todas produzidas pela cincia, pelas
letras, pelas artes, pelo ensino. Formai homens, formai homens; dai-lhes fogo para
eles vos darem calor. Tarde ou cedo, a fulgurante questo da instruo universal
h-de estabelecer-se com a irresistvel autoridade da verdade absoluta, e ento
aqueles que governarem sob a vigilncia da ideia francesa tero de fazer escolha
entre os filhos de Frana, ou os gaiatos de Paris; entre as chamas na luz, ou os
fogos ftuos nas trevas.
     O gaiato exprime Paris e Paris exprime o mundo.
     Paris  uma soma,  o tecto do gnero humano. Toda essa cidade de
maravilhas  um resumo dos costumes mortos e dos costumes vivos. Quem v
Paris parece-lhe ver a parte inferior da histria toda com o cu e constelaes nos
intervalos.
     Paris tem um Capitlio, a Casa da Cmara; um Partenon, Nossa Senhora de
Paris; um Monte Aventino, o arrabalde de Santo Antnio; um Asinario, a
Sorbonna; um Panteon, o Panteon; uma Via Sacra, o boulevard dos Italianos; uma
Torre dos Ventos, a opinio pblica; e, em lugar das Gemonias, o ridculo. O seu
majo chama-se faraud, o seu transteverino faubourien, o seu hammal o valente
das praas, o seu lazzarone pgre, o seu cockney gandin. Tudo o que h nas outras
partes h-o em Paris.
     A vendedeira de erva de Euripides pode replicar a peixeira de Dumarsais; no
danarino de corda Furioso revive o discbolo Vejano; o granadeiro
Vadeboncceur lutaria com Therapontigonus Miles, o adelo Damasippo
regozijar-se-ia com os negociantes de ferros velhos. Vincennes encarceraria
Scrates, como a Agora aferrolharia Diderot; Grimond de la Reynire descobriu o
roast-beef com sebo como Curtilio inventou o ourio assado; debaixo do balo do
arco da Estrela vemos reaparecer o trapzio de Flauto; o engole-espadas de
Pcecilio encontrado por Apulo, come facas na Ponte Nova; o sobrinho de
Rameau e o parasita Curculion fazem um par: Ergasilo pediria para ser
apresentado a Cambacrs por Aigrefeuille; os quatro peralvilhos de Roma,
Alcesimarcho, Phcedrommo, Diablo e Argirippo, descem da Courtille na
diligncia de Labatut; Aulo Gelio no estava mais tempo parado defronte de
Gongrio do que Carlos Nodier diante de Polichinelo; Marton no  uma hiena,
mas tambm Pardalisca no era um drago; o gracioso Pantolabo caoa o ocioso
Nomentano no caf Ingls; Hermogenes  tenor nos campos Elseos, e Trasio, o
mendigo, vestido de Bobeche, faz o peditrio pelos circunstantes; o importuno
que vos sai ao encontro nas Tulherias, segurando-vos pelo boto do casaco,
faz-vos repetir aps dois mil anos a apstrofe de Thesprion : Quis properantem
me prehendit pallio? O vinho de Suresne parodia o vinho de Alba: o vermelho
cangiro de Desaugiers faz equilbrio  grande taa de Balatron; o Pre Lachaise
exala com as chuvas nocturnas os mesmos clares que os esquilos, e a cova do
pobre comprada por cinco anos, vale a tumba de aluguer do escravo.
     Indagai alguma coisa que Paris no possua. A tina de Trofonio no contm
nada que no haja na tina de Mesmer; em Cagliostro ressuscita Ergafilas; o
brmane Vasafanta encarna-se no conde de S. Germano; o cemitrio de
Saint-Mdard faz to grandes milagres como a mesquita de Oumoumi, em
Damasco.
     Paris tem um Esopo, que  Mayeux, e uma Canidia, que  Mademoiselle
Lenormand. Agita-se como Delfos s fulgurantes realidades da viso, faz girar as
mesas como Dodona as tripodes. Coloca a costureira no trono, como Roma a
cortes; em suma, se Lus XV  pior do que Cludio, Madame Dubarry vale mais
que Messalina. Paris combina num tipo inaudito que viveu e que inmeras vezes
passou por ns a nudez grega, a lcera hebraica e a faccia do gasco. Mistura
Digenes, Job e Palhao, veste um espectro de nmeros antigos do Constitucional
e produz Chodruc Duelos.
     Posto Plutarco diga que o tirano nunca envelhece, Roma, tanto no tempo de
Sylla como no de Domiciano, resignava-se e misturava sem repugnncia gua no
seu vinho.
     O Tibre era um Lethes, se devemos dar crdito ao elogio algum tanto
doutrinrio que dele fazia Varo Vibisco: Contra Gracchos Tiberim habemus.
Ribete Tiberim, id est sedtionem oblivisci. Paris bebe um milho de litros de gua
por dia, mas no obstante isso, rufa o tambor  generala e toca os sinos a rebate,
quando chega a ocasio.
     Alm disto, Paris  um bom rapaz. Sofre tudo com magnanimidade e no 
difcil de contentar a respeito dos prazeres de que Vnus  deusa: a sua Callipigia 
Hotentote; contanto que ria, amnistia; f-lo rir a fealdade, diverte-o a
disformidade, distrai-o o vcio; velhaco que sejais, no sereis repelido; at a
hipocrisia o supremo cinismo, o no escandaliza:  to literrio que no tapa o
nariz diante de Baslio, nem se d por mais ofendido com a orao de Tartufo do
que Horcio com o soluo de Priapo. Ao perfil de Paris no falta um s trao da
fisionomia universal. O baile Mabile no  a dana polimniana do Janculo, mas
nele se v a adela com os olhos fixos na rameira, exactamente como a alcaiota
Staphyla espreitava a virgem Planesium.
     A barreira do Combate no  um Coliseu, mas sente-se a gente feroz nela
como se Csar ali estivesse. A estalajadeira sria tem mais graa que a tia Saguet,
mas se Virglio frequentava a taberna romana, David de Angers, Balzac e Charlet
muitas vezes se tm sentado s mesas da tasca parisiense. Paris reina. Fulguram
nele os gnios, prosperam as caudas vermelhas. Adonai passa pelo meio dele no
seu carro de doze rodas de troves e de relmpagos; Sileno faz ali a sua entrada,
montado no seu jumento. Por Sileno deve entender-se Ramponneau.
     Paris  sinnimo de Cosmos.  Atenas, Roma, Sybaris, Jerusalm, Pantin.
Esto nele resumidas, todas as civilizaes e todas as barbrias. Paris agastar-se-ia,
se no possusse uma guilhotina.
     No  mau um bocado de praa de Greve. Que seria toda essa eterna festa
sem este condimento? As nossas leis sabiamente atenderam a isto, e graas a elas,
goteja aquele cutelo sobre este contnuo carnaval.



    XI
    Escarnecer, reinar



     Paris no tem limites. Nunca nenhuma outra cidade possuiu este domnio,
que s vezes escarnece dos que subjuga. Para vos agradar,  Afenienses!
exclamava Alexandre.
     Paris d mais do que leis, d a moda. Paris d mais do que a moda, d a
rotina.
     Pode ser estpido, se lhe aprouver, e s vezes assim faz; ento o Universo
torna-se estpido como ele; depois acorda, esfrega os olhos e diz: Que estpido
eu sou! e desata a rir na cara do gnero humano.
     Que maravilhosa cidade! Como causa estranheza que este grandioso e este
burlesco se dem juntos, que toda esta majestade no seja destruda por esta
pardia, e que a mesma boca sopre hoje na trombeta do juzo final e amanh na
gaita de palha!
     Paris possui uma jovialidade soberana. A sua alegria  como o raio, a sua
fora empunha o ceptro. O furaco com que o abala irrompe s vezes duma
careta. As suas exploses, as suas batalhas, as suas obras-primas, as suas
maravilhas, as suas epopeias chegam ao cabo do universo, do mesmo modo que os
seus despropsitos. O seu riso  uma cratera que arroja lava por toda a terra. As
suas graolas so centelhas. Impe aos povos tanto as suas caricaturas como o seu
ideal; os monumentos mais altos da civilizao humana sofrem as suas ironias e
prestam a sua eternidade s bufonerias dele.  sublime aquela cidade; tem um
maravilhoso 14 de Julho, que liberta o globo; faz prestar o juramento da pela a
todas as naes; a sua noite de 4 de Agosto dissolve em trs horas mil anos de
feudalismo; faz da sua lgica o msculo da vontade unnime; multiplica-se sob
todas as formas do sublime; inunda com o seu claro Washington, Kosciusko,
Bolivar, Botzaris, Riego, Bem, Manin, Lopez, John Brown, Garibaldi; est em toda
a parte onde arde a labareda do futuro; em Boston em 1779, na ilha de Leo em
1820, em Pesth em 1848, em Palermo em 1860; segreda a poderosa senha
Liberdade ao ouvido dos abolicionistas americanos, reunidos na barca de
Harper's Ferry, e ao dos patriotas de Ancona, reunidos  noite em Archi, defronte
da estalagem de Gozzi,  beira-mar; cria Canris, Quiroga Pisacano; derrama pela
terra o sublime; impelido pelo seu sopro, morreu Byron em Missolonghi e Mazet
em Barcelona;  tribuno aos ps de Mirabeau e cratera aos ps de Robespierre; os
livros dele, o seu teatro, a sua arte, cincia, literatura e filosofia, so os manuais do
gnero humano; possui Pascal, Regnier, Corneille, Joo Jacques; Voltaire para
todos os minutos, Molire para todos os sculos; faz falar a sua lngua  boca
universal e essa lngua torna-se verbo; acende em todos os espritos a ideia do
progresso; os dogmas libertadores que se produzem no seu seio, tornam-se
constante defesa das geraes, e  com a alma dos seus pensadores e poetas que
desde 1789 se tm formado todos os heris de todos os povos; no obstante isso,
no deixa de garotar, e esse gnio extraordinrio chamado Paris, ao mesmo tempo
que transfigura o mundo com a sua luz, pinta com carvo o nariz de Bouginier na
parede do templo de Theseu e escreve nas pirmides - Credevitle Ladro.
     Paris tem sempre os dentes  mostra; quando no est agastado, ri.
     Eis o que  Paris. As nuvens de fumo que saem dos seus telhados so as ideias
do Universo. Monto de barro e pedra, se assim o querem, mas, apesar de tudo,
ente moral.  mais do que grande,  imenso. Porqu? Porque tem ousadia.
     Ousadia: sem ela no h progresso.
     Todas as conquistas sublimes so mais ou menos o prmio da ousadia. Para
que a revoluo se consumasse, no bastou que Montesquieu a pressentisse, que a
pregasse Diderot, que a anunciasse Beaumarchais, que a calculasse Condorcet, que
a preparasse Arouet, que a premeditasse Rousseau, foi necessrio que Danton
ousasse meter-lhe ombros.
     O grito - Audcia! -  um Fiat Lux.  preciso, para que o gnero humano
caminhe para diante, que lhe venham sempre de cima sublimes lies de valor. As
temeridades arrebatam a histria e so uma das grandes luzes do homem. A
aurora tem ousadia quando desponta. Tentar, arrostar, persistir, perseverar, ser
fiel a si prprio, arcar com o destino, maravilhar a catstrofe, mostrando-lhe o
pouco susto que nos causa, ora afrontar a injustia do poder, ora insultar a
ebriedade da vitria, eis o exemplo de que necessitam os povos e a luz que os
electriza. O mesmo claro formidvel sai do facho de Prometeu e do cachimbo de
Cambronne.



    XII
    O futuro latente no povo



     Quanto ao povo parisiense,  sempre gaiato, ainda quando homem feito; fazer
o retrato da criana  fazer o da cidade, e eis a a razo porque ns estudamos esta
gua nesse pardalzinho.
      sobretudo nos arrabaldes, repetimos, que aparece a raa parisiense, a raa
puro-sangue, a verdadeira fisionomia o povo que trabalha e sofre, pois so as duas
figuras do homem, o sofrimento e o trabalho. Existe neles um sem nmero de
entes desconhecidos, entre os quais abundam os mais estranhos tipos, desde o
carrejo da Rape at ao esfolador de Montfaucon. Fex urbis! exclama Ccero.
Mofe! acrescenta Burke indignado; turba, multido, gentalha. Estas palavras
depressa se dizem. Mas seja. Que importa? Que se me d a mim de que eles andem
descalos? No sabem ler; mau . Por isso haveis de abandon-los? Convertereis a
sua misria em maldio? No pode a luz penetrar essas massas? Repitamos este
grito de luz! e insistamos nele. Luz!
     Luz! Quem sabe se essas opacidades se no tornaro transparentes? Pois no
so transfiguraes as revolues? Ide, filsofos, ensinai, esclarecei, iluminai,
deixai voejar livre o pensamento, falai de modo que todos vos ouam, correi
alegres para onde o Sol mais atesta, fraternizai com as praas pblicas, anunciai as
boas-novas, derramai com profuso os alfabetos, proclamai os direitos, cantai as
Marselhesas, semeai os entusiasmos, arrancai ramos verdes dos carvalhos. Fazei
da ideia um turbilho. Essa multido pode vir a ser sublimada. Saibamos
servir-nos desse vasto incndio dos princpios e das virtudes, que crepita, estala e
tremula, em certas horas. Esses ps descalos, esses braos nus, esses andrajos,
essas ignorncias, essas abjeces, essas trevas, podem ser empregadas na
conquista do ideal.
     Olhai por entre o povo e avistareis a verdade. Essa areia vil que aos ps
calcais, lanai-a no cadinho, deixai-a fundir-se e ferver e tornar-se- cristal
esplndido, com o qual Galileu e Newton descobriram os astros.



    XIII
    Gavroche



     Oito ou nove anos, pouco mais ou menos, depois dos acontecimentos que
narramos na segunda parte desta histria, notava-se no boulevard do Templo e
nas vizinhanas do Chateau-d'Eau um rapazinho de onze a doze anos, que seria a
perfeita realizao do ideal do gaiato atrs esboado, se com o riso da sua idade
nos lbios no possusse um corao completamente escuro e vazio. Vestia,
efectivamente, o rapazinho de que falamos, umas calas de homem, mas que no
tinham sido do uso de seu pai, e uma camisola de mulher, mas que no pertencera
a sua me. Alguma alma caridosa lhe dera esses andrajos para com eles se cobrir.
Todavia, o rapazinho tinha ainda pai e me. Mas o pai no queria saber dele e a
me no lhe tinha amizade. Era uma dessas crianas dignas de lstima entre todas
as que tm pai e me e so rfs.
     Em parte nenhuma o rapazinho se sentia to bem como na rua. Eram-lhe
menos duras as pedras da calada do que o corao de sua me.
     Os pais arremessaram-no  vida com um pontap.
     E ele no fez mais do que desferir o seu voo.
     Era uma criana ruidosa, plida, lesta, viva, cheia de malcia, de aspecto
doentio e modos expeditos. Girava, cantava, jogava a bilharda, esgaravatava nos
monturos, roubava o seu bocado, porm, alegremente como os gatos e os
passarinhos, ria-se quando lhe chamavam galopim, agastava-se quando lhe davam
o nome de tunante.
     No tinha um asilo onde se abrigasse, um bocado de po que comesse, uma
fogueira a que se aquecesse, uma s pessoa que lhe tivesse afeio, mas era livre e
por isso vivia alegre.
     Quando estas pobres criaturas chegam  virilidade, quase sempre a m da
ordem social as encontra e as esmaga, mas enquanto so crianas, a sua pequenez
as faz escapar. Qualquer pequeno buraco as salva.
     No obstante, por maior que fosse o abandono desta criana, sucedia s vezes,
de trs em trs meses ou de dois em dois, ele dizer: Valeu! Vou visitar minha
mezinha! Deixava ento o boulevard, o Circo, a porta de S. Martinho,
encaminhava-se para os cais, atravessava as pontes, tomava o caminho dos
arrabaldes, chegava  Salptrire e aonde parava? Exactamente  porta da casa
com os nmeros 50 e 52, no casebre de Gorbeau.
     Naquela poca, este casebre, de ordinrio deserto e perpetuamente decorado
com o letreiro: Quartos para alugar, achava-se, coisa rara, habitado por muitos
indivduos, que todavia, como em Paris sempre sucede, no tinham relaes
nenhumas uns com os outros, nem se achavam ligados por laos de qualidade
nenhuma.
     Pertenciam todos  classe indigente, que principia no pobre envergonhado e
se prolonga de misria em misria pelas classes nfimas da sociedade at aos dois
entes em quem terminam todas as coisas materiais da civilizao o varredor do
lixo e o trapeiro.
     A principal locatria do tempo de Joo Valjean tinha morrido, deixando
por sucessora outra, em tudo semelhante a ela. No sei qual foi o filsofo que disse
que no h falta de mulheres velhas.
     A nova velha, pois, chamava-se Burgon, e na sua vida no havia nada de
notvel, a no ser uma dinastia de trs papagaios, que sucessivamente tinham
reinado na alma dela.
     Os mais miserveis entre os que habitavam o casebre eram uma famlia de
quatro pessoas, composta de pai, me e duas filhas, j bastante crescidas, os quais
moravam juntos na mesma mansarda, que era uma das celas de que j falmos.
     Ao primeiro relance, esta famlia nada oferecia de singular mais do que a sua
extrema misria; quando o pai alugara o quarto, dissera chamar-se Jondrette.
Logo depois da sua mudana para o casebre, a qual, para nos servirmos da
memorvel expresso da principal locatria, se parecera muitssimo com a
entrada de coisa nenhuma, Jondrette dissera  velha, que como a sua antecessora
varria a escada e acumulava as funes de porteira: Tia fulana, se por a vier
algum procurar algum polaco ou italiano, ou mesmo espanhol, sou eu.
     Era esta a famlia do jovial gaiato que chegava, encontrava a misria, e, o que
ainda  mais triste, nem sequer um sorriso: o frio no lar e o frio nos coraes.
Quando ele chegava, perguntavam-lhe: De onde vens? E ele respondia: Da
rua. Quando ele partia, perguntavam-lhe: Para onde vais? E ele respondia:
Para a rua. Dizia-lhe a me: Que vens tu c fazer? Assim vivia esta criana
nesta ausncia de afeies, como as ervas enfezadas que nascem pelas covas. Isto,
porm, no era para ele motivo de sofrimento, nem to-pouco por isso queria mal
a ningum. Verdadeiramente, nem ele sabia como era um pai e uma me.
     A me, porm, amava as irms.
     Esquecemo-nos de dizer que no boulevard do Templo lhe chamavam o
Gavroche. Porque razo lhe chamavam Gavroche? Provavelmente, porque o pai
dele se chamava Jondrette.
     Parece ser o instinto de certas famlias que vivem na misria quebrar os laos
que as prendem.
     O quarto em que a famlia de Jondrette morava no casebre era o ltimo ao
fim do corredor. A cela imediatamente pegada era ocupada por um mancebo
pobrssimo, a quem tratavam por senhor Mrio.
     Digamos quem era este senhor Mrio.
    LIVRO SEGUNDO
    O velho burgus



    I
    Noventa anos e trinta e dois dentes



     Ainda existem alguns antigos moradores das ruas de Boucherat, Normandia e
Saintonge que se lembram de um bom velho chamado Gillenormand, de quem
falam com estima.
     Este homem era j velho quando eles ainda eram novos. Para os que
melancolicamente contemplam esse vago cruzar de sombras denominado o
passado, ainda no desapareceu inteiramente o vulto desse velho do labirinto das
ruas prximas ao boulevard do Templo, a que no reinado de Lus XIV se puseram
os nomes de todas as provncias de Frana exactamente como no nosso tempo se
deram s ruas do novo bairro de Tivoli os de todas as capitais da Europa;
progresso, digamo-lo de passagem, em que  visvel o progresso.
     Gillenormand, que ainda em 1831 tinha uma sade de ferro, era um desses
homens que se tornam curiosos unicamente em razo da sua longevidade e que
so singulares, porque se pareceram noutro tempo com toda a gente e porque no
se parecem agora com ningum. Era um velho singular, um verdadeiro homem de
outras eras, um perfeito e altivo burgus do sculo XVIII, to desvanecido da sua
posio de burgus como os marqueses do seu marquesado. Tinha mais de
noventa anos, mas andava direito, falava em voz alta, tinha a vista bem
conservada, bebia como os que bem bebem, comia, dormia e roncava. Tinha ainda
os seus trinta e dois dentes e no punha culos seno para ler. Facilmente contraa
amizades, mas dizia ele que havia uns dez anos, que renunciara de vez s
mulheres. J pouco posso agradar, dizia, mas no acrescentava: porque sou
muito velho, mas sim: porque sou muito pobre. Se eu no estivesse nas tristes
circunstncias em que estou, ento o caso... continuava ele.
     Efectivamente restava-lhe apenas um rendimento de quinze mil francos,
pouco mais ou menos. O seu sonho dourado era ter alguma herana para elevar a
sua renda a cem mil francos, com que pudesse ter apaixonadas. Como se v, pois,
Gillenormand no pertencia  variedade caquctica de octogenrios, que, como
Voltaire, viveram sempre moribundos; no era a sua uma longevidade de vaso
esbotenado; o bom velho tivera sempre uma bela sade. Era superficial, rpido e
facilmente irascvel. Qualquer ninharia o fazia enraivecer, de ordinrio por lhe
contradizerem coisas absurdas.
      Quando assim acontecia, levantava a bengala e dava para baixo, como dantes
se usava.
      Tinha uma criada solteira de mais de cinquenta anos, em quem batia a bom
bater, quando se encolerizava, e a quem de boamente desancaria a chicotadas.
Para ele era como se fosse uma criana de oito anos. Dava bofeto bravio nos
criados, exclamando irado: S brejeiro! Uma das suas pragas favoritas era: com
mil demnios de demos! Tinha, porm, pachorrices singulares; consentia que
todos os dias lhe fizesse a barba um barbeiro que estivera doido, e que o no podia
ver, porque tinha cimes de Gillenormand, por causa da mulher, interessante
criatura, capaz de encher o olho a qualquer. Gillenormand admirava o seu prprio
discernimento em tudo e gabava-se da sua grande sagacidade. Eu sempre tenho
alguma penetrao, dizia ele frequentes vezes; sou capaz de dizer de que mulher
passou para mim uma pulga que me morda.
      Homem sensvel e natureza eram as palavras que ele pronunciava mais
vezes.
      No dava, porm,  segunda a extensa acepo que se lhe d no tempo
presente, mas metia-a a seu modo nos seus ditos picantes: A natureza, para a
civilizao ter de tudo, at lhe d espcimes de barbaria divertida. A Europa
possua amostras da sia e da frica, em formato pequeno. O gato  um tigre de
sala, o lagarto um crocodilo de algibeira. As danarinas da pera so selvagens
rosadinhas. No comem os homens, chupam-nos. Ou ento, feiticeiras!
Transformam-nos em ostras para os comerem! Os canibais deixam-lhes os ossos,
elas deixam-lhes a casca. Aqui est como so os nossos costumes. No devoramos,
mas roemos; no exterminamos, mas dilaceramos.



     II
     Tal dono, tal casa



     Gillenormand morava no Marais, na rua das Mulheres do Calvrio, nmero
6.
     Era mesmo dele a casa, a qual depois foi demolida e edificada de novo, sendo
por isso alterado o seu primitivo nmero nas revolues de numerao que as
ruas -de Paris a cada passo esto sofrendo.
     Ocupava um antigo e amplo aposento no primeiro andar entre a rua e alguns
jardins, forrado at ao tecto de tapearia das fbricas dos Gobelinos e de Beauvais,
representando cenas pastoris, estampadas igualmente em ponto pequeno no
estofo das poltronas. Em volta da cama abria-se em nove dobras um biombo de
laca de Coromandel e das janelas pendiam compridas, cortinas, formando
graciosas pregas. O jardim, que ficava logo por baixo das janelas, comunicava com
a casa por meio de uma escaleira de dez ou quinze degraus, situada junto  janela
do cabo, pela qual o bom velho subia e descia com todo o desembarao. Alm de
uma biblioteca pegada ao seu quarto, tinha um camarim, de que ele muito
gostava, manso aprazvel forrada de uma lindssima tapearia de palha com
flores de liz, mandada fazer pelo senhor de Vivonne aos forados das gals no
tempo de Lus XIV para a dar  amante. Herdara-a Gillenormand de uma
estupenda tia-av materna, que morrera com cem anos.
     Gillenormand tinha sido casado duas vezes. As suas maneiras eram o meio
termo entre o corteso que nunca fora e o magistrado que podia ter sido. Era
alegre e afvel quando queria. Na sua mocidade, fora desses homens que se
deixam enganar sempre pela mulher, mas nunca pela amante, por serem ao
mesmo tempo os mais insulsos maridos e os amantes mais aprazveis que pode
haver. Era entendedor em pintura. Tinha no quarto um maravilhoso retrato, no
sabemos de quem, pintado por Jordaens, feito a grandes pinceladas, com milhes
de minuciosidades de colorido carregado e espalhadas como que ao acaso.
     O trajo de Gillenormand no era o vesturio de Lus XV nem mesmo o de
Lus XVI; era o dos incrveis do Directrio. Julgara-se jovem at quela poca e
por isso seguira at ento a moda. Trajava, pois, uma casaca de pano leve de
rebuo largo, com rabo de pega e botes de ao. Alm disto, o calo curto e os
sapatos de fivelas. Trazia sempre as mos nos bolsos do colete.
     Costumava dizer em tom de autoridade: Isto de revoluo francesa no
passa de uma corja de vagabundos.
    III
    Lucas Esprito



     Uma noite, na pera, quando contava dezasseis anos, o senhor Gillenormand
tivera a honra de ser ao mesmo tempo olhado por duas belezas, ento maduras,
clebres por terem sido cantadas por Voltaire: a Camargo e a Sall. Apanhado
entre dois fogos, efectuara uma retirada herica em direco a uma pequena
danarina sem dvida chamada Nahenry, que tinha como ele, dezasseis anos e que
era obscura como um gato, da qual se sentia enamorado. Neste captulo eram
abundantes as suas recordaes; s vezes, exclamava: Como estava bonita aquela
Guimard, Guimardini, Guimardinette, a ltima vez que a vi em Longchamps,
frisada em sentimentos sustentados, como os seus vinde aqui ver de turquesas, o
seu vestido cor de recm-chegada e o seu regalo de agitao! Na sua adolescncia
usara uma veste de Nain-Londrain, de que falava muitas vezes com saudade,
Parecia um turco do Levante Levantino, dizia ele. A senhora de Bouflers,
tendo-o visto, por acaso, quando ele tinha vinte anos, qualificara-o de louco
encantador.
     Sentia-se incomodado com todos os nomes que via figurar na poltica e no
poder, porque os achava baixos e burgueses. Lia os peridicos; os papis novos, as
gazetas, como ele dizia, contendo o riso. Que gente  esta? exclamava ele.
Borbire!
     Humann! Casimiro Perrier! E so isto ministros! No seria m farada! So
to est-
     pidos, que no seria isto impossvel! Denominava alegremente todas as
coisas pelos seus nomes limpos, ou sujos, no se contendo nem mesmo na
presena de senhoras.
     Dizia grosserias, obscenidades e porcarias, com um no sei qu de tranquilo e
pouco admirado, que tinha certa elegncia. Era a sem-cerimnia do seu sculo. 
muito para notar que a poca das perfrases em verso fosse o tempo das
incivilidades em prosa. Seu padrinho predissera que havia nele um homem de
esprito e de gnio; e dotara-o com os dois pronomes significativos: Lucas
Esprito.
    IV
    Aspirante centenrio



     Na sua infncia, Gillenormand fora premiado no colgio de Moulins, terra do
seu nascimento, e coroado pela mo do duque de Nivernais, a quem ele chamava
o duque de Nevers. Nem a Conveno, nem a morte de Lus XVI, nem Napoleo,
nem a volta dos Bourbons, nada tinha podido apagar-lhe da memria a lembrana
dessa coroao.
     A grande figura do sculo para ele era o duque de Nevers. Que galante
fidalgo! dizia. E que linda figura ele fazia com o seu cordo azul! Aos olhos de
Gillenormand, Catarina II havia resgatado o crime da diviso da Polnia,
comprando por trs mil rublos o segredo do elixir de ouro a Bestuchef. Quando
falava disto, animava-se. O elixir de ouro! exclamava ele, a tintura amarela de
Bestuchef, as gotas do general Lamotte, de que cada frasco de meia ona custava
um lus, eram o grande remdio para as catstrofes do amor, a panaceia contra
Vnus no sculo XVIII. Lus. XV mandava duzentos frascos dele ao Papa. Se
algum lhe dissesse que o elixir de ouro era apenas o perclorureto de ferro, t-lo-ia
feito exasperar e dar por paus e por pedras.
     Gillenormand adorava os Bourbons e professava extremo horror a 1789;
contava a cada passo o modo como se salvara na poca do Terror e como tivera de
mostrar-se sumamente folgazo e obrar com toda a finura para no ficar com a
cabea despegada dos ombros. Se por acaso algum mancebo caa em tecer na sua
presena elogios  repblica, ele tornava-se fulo Ide raiva e irritava-se a ponto de
cair no cho desmaiado.
     s vezes fazia aluso aos seus noventa anos e dizia: Felizmente, estou livre de
ver duas vezes noventa e trs. Outras vezes, porm, inculcava que ainda esperava
viver cem anos.



    V
    Biscainho e Nicolette



    Gillenormand tinha as suas teorias. Eis uma delas:
    Quando um homem  apaixonado por mulheres e tem em casa uma, de
quem nada se lhe d, feia, rabugenta, legtima, amiga de andar sempre a falar nos
seus direitos, lida no cdigo, e ciosa at, se isso vem a talho, s lhe resta um meio
de se livrar de tal praga e viver em paz:  largar-lhe os cordes da bolsa. Torna-o
livre essa abdicao. A mulher tem ento em que se ocupar, toma gosto pelo
manusear do dinheiro que lhe enche os dedos de verdete, empreende a educao
dos caseiros e a criao dos rendeiros, consulta os advogados, preside aos
escrives, arenga aos tabelies, visita os juzes, acompanha os processos, redige os
arrendamentos, dita os contratos, v-se soberana, vende, compra, faz e desfaz
ajustes, promete e compromete, liga e desliga, cede, concede e retrocede, arranja e
desarranja, entesoura e esbanja, economiza e gasta  larga, faz asneiras, prazer
supremo, e isso consola-a. Enquanto que o marido a deixa, tem ela a satisfao de
lhe dar cabo do que ele possui.
     Esta teoria era a que ele a si mesmo aplicara, tornando-a toda a histria da sua
vida. A segunda mulher administrara-lhe a casa de modo que, quando ele por
graa de Deus se achou vivo, restava-lhe unicamente o necessrio para poder
passar, convertendo em renda vitalcia quase tudo, que vinham a ser uns quinze
mil francos, trs quartas partes dos quais se extinguiriam por sua morte. Dera este
passo resolutamente, pouco preocupado com o cuidado de deixar uma herana.
Alm disso, tinha visto que os patrimnios corriam seus riscos, tornando-se s
vezes bem nacionais. Gillenormand tinha presenciado os avatares do trs por
cento consolidados e acreditava pouco no livro da razo.
      tudo rua Quincampoix! dizia.
     Como j dissemos, a casa em que ele morava, na rua das Mulheres do
Calvrio, era propriamente dele. Tinha dois criados, um macho, outro fmea.
Costumava crism-los quando entrava algum para o seu servio. Aos homens
punha-lhes o nome da provncia de que eram naturais: Nimense, Comtoassense,
Poitevinense, Picardo. O ltimo criado que o servia era um bochechudo e
avermelhado velhote de cinquenta e cinco anos, que no era capaz de dar uma
corrida de vinte passos, ao qual, como tinha nascido em Bayona, pusera o nome
de Biscainho. Pelo que diz respeito s criadas, em casa dele chamavam-se todas
Nicolettes (at a prpria Magnon, de quem mais adiante se falar). Um dia
apresentou-se-lhe uma cozinheira, mulher de crditos na sua arte, altiva
descendente de uma nobre raa de porteiros.
     - Quanto quer de soldada por ms? - perguntou-lhe Gillenormand.
     - Trinta francos.
     - Como se chama?
    - Olmpia.
    - Dar-lhe-ei cinquenta e chamar-se- Nicolette.



    VI
    Onde se entrev a Magnon e os seus dois pequenos



     Em casa de Gillenormand manifestava-se a dor por meio de clera; o velho
burgus enfurecia-se por se sentir desamparado. Tinha toda a espcie de
preconceitos e permitia-se toda a qualidade de licenas. Uma das coisas que
compunha o seu relevo exterior e satisfao ntima, era como acabmos de
indicar, ter-se conservado galanteador e passar energicamente por tal; chamava a
isto fama real. Esta fama real dava-lhe s vezes singulares proventos. Um dia
levaram-lhe a casa num cesto oval, como um presente de ostras, um robusto rapaz
recm-nascido, gritando como um desesperado, e devidamente embrulhado nos
cueiros, o qual lhe era atribudo por uma criada despedida seis meses antes.
Gillenormand tinha ento os seus oitenta anos feitos. Houve indignao e
clamores entre os que o rodeavam.
     - A quem esperava aquela descarada fazer acreditar semelhante coisa? Que
audcia! Que abominvel calnia!
     O senhor Gillenormand, pela sua parte, no mostrou o menor enfado. Olhou
para o pequerrucho com o amvel sorriso de um bom homem lisonjeado pela
calnia e disse aos que gritavam:
     - Mas ento que ? Que h nisto de extraordinrio? Esto mostrando um
espanto s prprio de pessoas ignorantes. O senhor duque de ngoulme,
bastardo de Sua Majestade Carlos IX, casou-se aos oitenta e cinco anos com uma
sirigaita de quinze; o senhor Firginal, marqus de Alluye e irmo do cardeal de
Sourdis, arcebispo de Bordus, de oitenta e trs anos, teve de uma aia da senhora
presidente Jacquin, um filho, um verdadeiro filho de amor, que foi cavalheiro de
Malta e conselheiro de estado de espada; um dos grandes homens deste sculo, o
abade Tabaraud,  filho de um homem de oitenta e sete anos. Estas coisas so
vulgarssimas. E a Bblia! Para dizer: declaro que no me pertence este pequeno, 
necessrio muito cuidado.
     A culpa no  dele. O procedimento era benigno.
     A tal criatura que se chamava Magnon, fez-lhe no ano seguinte idntico
presente.
     Era outro rapaz. Desta vez, o senhor Gillenormand capitulou. Remeteu  me
os dois pequenos, obrigando-se a pagar para a sua criao oitenta francos por ms,
com a condio de que a dita me no continuasse a obsequi-lo. E acrescentou:
     - Espero que a me os trate bem. De tempos a tempos irei v-los.
     E no faltou ao que prometeu. Gillenormand tivera um irmo padre, que fora
durante trinta e trs anos, reitor da academia de Poitiers, e que morrera com
setenta e nove anos. Perdi-o muito moo, dizia ele. Este irmo, de que ficou muito
pouca memria, era um pacfico avarento, que, julgando-se obrigado, por ser
padre, a dar esmola aos pobres que encontrava, mas no lhes dando nunca seno
dinheiro em cobre j sem curso, verdadeiras chapas, descobrindo assim meio de ir
para o inferno pelo caminho do paraso. Quanto a Gillenormand, esse no
regateava nunca a esmola, e dava-a espontnea e nobremente. Era benvolo,
arrebatado, caritativo e, se fosse rico, as suas tendncias seriam sempre para a
magnificncia.
     Queria que tudo o que lhe dizia respeito fosse feito com grandeza, at mesmo
os roubos de que era vtima.
     Um dia, tratando-se de uma herana, e tendo sido espoliado por um
procurador, de modo grosseiro e visvel, soltou esta solene exclamao:
     - Fora com ele, que foi porco! Tenho realmente vergonha de tais ladroeiras.
Neste sculo tudo tem degenerado, at os tratantes. Com a fortuna! No  assim
que se deve roubar um homem como eu. Fui roubado como numa estrada, mas
mal roubado. Silvae sint consulte dignae! Tivera como dissemos, duas mulheres; a
primeira dera-lhe uma filha que se conservara solteira, e a segunda uma outra que
falecera aos trinta anos e que desposara, por amor ou por acaso, um soldado de
fortuna, que servira nos exrcitos da repblica e do imprio, que tinha a cruz de
Austerlitz e que fora promovido a coronel em Waterloo.  a vergonha da minha
famlia, dizia o velho burgus.
     Tomava muito rap e tinha uma graa particular no modo porque sacudia os
bofes de renda, com as costas da mo. A sua crena em Deus era pouco ardente.
    VII
    Regra: No receber ningum seno  noite



     Eis o retrato do senhor Lucas Esprito Gillenormand, a quem no havia cado
o cabelo, que tinha mais de grisalho do que de branco, e que ele trazia sempre
penteado em forma de orelhas de co. Mas, em suma, e apesar de tudo, venervel.
     Gillenormand possua do sculo dezoito a frivolidade, mas tambm a
grandeza.
     Em 1814, e nos primeiros anos da restaurao, Gillenormand, ento ainda
moo, pois tinha apenas setenta e quatro anos, morava no arrabalde de S.
Germano, na rua Servandoni, ao p da igreja de S. Sulpcio. Para o Marais
retirara-se depois que deixara o mundo, isto , muito depois dos oitenta anos
completos. Abandonado o mundo, emparedara-se nos seus hbitos e ningum o
tirava deles. O principal, aquele em que era invarivel, consistia em ter a porta
hermeticamente fechada de dia e no falar a ningum, fosse quem fosse, e para
qualquer negcio que fosse, seno de tarde. Jantava s cinco horas e dessa hora
por diante a sua porta estava aberta. Era a moda do seu sculo e no queria
alter-la. O dia, dizia ele,  um biltre, que no merece seno com a porta na cara.
As pessoas de bem costumam acender o esprito, quando a noite acende as
estrelas. E o velho entrincheirava-se para toda a gente, para o prprio rei em
pessoa, se l fosse.
     Era a antiga elegncia do seu tempo.



    VIII
    Nem sempre dois fazem um par



    Quanto s duas filhas de Gillenormand, de quem h pouco falmos, tinham
nascido com dez anos de intervalo. Na sua juventude haviam-se parecido muito
pouco uma com a outra, e, tanto no carcter como no rosto, no pareciam de
nenhum modo irms. A mais nova era um esprito gracioso, com aspiraes a
tudo o que era luz, dada a flores, a versos e a msica, esvoaando em amplides
fulgurantes, entusiasta, etrea, idealmente desposada desde a sua infncia com
uma vaga figura herica. A mais velha tinha tambm a sua quimera; via, por entre
nuvens de ouro, um fornecedor, algum gordo e rico assentista, um marido
esplendidamente estpido, um milho feito homem ou algum prefeito.
     As recepes da prefeitura, o porteiro agaloado, os bailes oficiais, os discursos
do maire, a senhora prefeita, todas estas coisas davam-lhe volta  cabea.
     Assim desvairavam as duas irms, cada qual arrebatada pelos seus sonhos,
enquanto foram donzelas. Ambas tinham asas; uma, porm, tinha-as de anjo,
outra de ganso.
     Nenhuma ambio se realiza completamente, ao menos neste mundo.
Nenhum paraso, no tempo presente, se torna terrestre. A mais nova casara com o
homem dos seus sonhos, mas morrera. A mais velha ficara solteira.
     Na ocasio em que dela nos ocupamos nesta nossa histria, era uma
invencioneira recatada, uma vestal, um dos narizes mais afilados e um dos
espritos mais rombos que podia haver. Circunstncia caracterstica: fora do
estreito crculo da famlia, ningum lhe sabia o nome do baptismo. Todos a
tratavam pela filha mais velha do senhor Gillenormand.
     Em pontos de recato virginal, a filha mais velha do senhor Gillenormand dera
invejas a uma Miss. Era o pudor personificado. Tinha na sua vida um sucesso
espantoso que lhe deixara uma recordao de horror: uma ocasio, um homem
viu-lhe a liga da perna.
     Em vez de o fazer diminuir, a idade fez crescer o desmesurado pudor da
donzela. Nunca lhe parecia aconchegado de mais, nem de mais tapado, o leno de
cassa do pescoo. Era de ver como ela embrechava de colchetes e pregava alfinetes
nos stios para onde ningum se lembraria de olhar.  qualidade inerente 
mulher invencioneira tomar tantas mais precaues, quanto menos ameaada
anda a sua virtude.
     Todavia, explique quem puder estes usuais mistrios da inocncia, a filha de
Gillenormand nem por sombras se esquivava aos abraos de um oficial de
lanceiros, seu segundo sobrinho, chamado Theodulo.
     Apesar dos favores que ela dispensava ao predilecto lanceiro, era-lhe
apropriada a classificao de invencioneira que atrs lhe demos. A filha de
Gillenormand era uma como alma crepuscular. A invencionice  meia virtude e
meio vcio.
     Ao recato da invencioneira unia ela a beatice, duas coisas que andam quase
sempre juntas. Era irm da confraria de Nossa Senhora, andava de vu branco em
certos dias festivos e, rezava em voz baixa oraes especiais, reverenciava o
purssimo sangue, venerava o sagrado corao, punha-se em contemplao,
durante horas seguidas, diante de um altar recoco-jesuta, vedado ao resto dos
fiis, e a deixava voejar livre a alma por entre nuvenzinhas de mrmore e grandes
raios de madeira dourada.
      Tinha a donzela uma irm em Jesus Cristo, virgem velha como ela, chamada
Mademoiselle Vaubois, inteiramente estpida, e comparada com a qual a filha de
Gillenormand podia desvanecer-se de ser uma guia. Fora dos Agnus Dei e das
Ave-Marias, Mademoiselle Vaubois no tinha outros conhecimentos mais do que
sobre diferentes processos de fazer doce. Perfeita no seu gnero, Mademoiselle
Vaubois era o arminho da estupidez sem uma s pinta de inteligncia.
      Digamos a verdade, Mademoiselle Gillenormand ganhara mais do que
perdera em envelhecer.  o que acontece a todas as naturezas passivas.
      Nunca praticava maldades, o que  uma bondade relativa, e, alm disso, os
anos, que desfazem as asperides, trouxeram-lhe a mansido prpria deles.
Ensombrava-se-lhe o rosto de uma nuvem de tristeza obscura, cujo segredo nem
ela prpria conhecia.
      Em toda ela havia o pasmo de uma vida que est no seu termo, sem nunca ter
tido princpio.
      Habitava na mesma casa em que morava o pai e era quem superintendia no
governo domstico. Gillenormand vivia com a filha na sua companhia, do mesmo
modo que Monsenhor Bemvindo conservava na sua uma irm, como vimos. No
so raros estes casais de um velho e de uma velha e na verdade tm sempre o
tocante aspecto de dois entes fracos que mutuamente se amparam.
      Alm deles, havia em casa, entre este velho e essa velha, um rapazinho, que na
presena de Gillenormand estava constantemente a tremer e sem ousar dizer uma
palavra. Quando o velho lha dirigia era sempre em tom severo e s vezes de
bengala no ar.
      - Venha c, seu tratante!
      - Patife! Chegue-se aqui j ao p de mim!
      - Diga, seu pedao de mafoto!
      - Se o torno a ver! Seu brejeiro!, etc., etc.
      Idolatrava-o. Era seu neto.
      Mais adiante tornaremos a encontrar esta criana.
    LIVRO TERCEIRO
    O av e o neto



    I
    Um antigo salo



     Quando Gillenormand morava na rua Servandoni, frequentava muitos sales
da mais alta nobreza, nos quais era admitido apesar da sua qualidade de burgus.
     Como era um homem duplamente talentoso, porque no s possua o talento
que Deus lhe dera, mas o que os homens lhe atribuam, era a sua presena
desejada e at festejada. No ia a parte nenhuma seno para l dominar. H gente
que quer ter influncia a todo o transe e que o resto das pessoas se ocupem deles,
e, quando no podem ser orculos, encarregam-se do papel de bufes.
Gillenormand no era dessa natureza; o seu domnio nos sales realistas que
frequentava, em nada desluzia o respeito da prpria pessoa. Em toda a parte era
orculo. Chegava s vezes a fazer frente ao senhor de Bonald e ao prprio
Bengy-Puy-Valle.
     Por 1817, Gillenormand ia invariavelmente passar duas tardes cada semana, a
uma casa da vizinhana, situada na rua Frou, pertencente  baronesa de T...,
senhora digna e respeitvel, cujo marido, no reinado de Lus XVI, tinha sido
embaixador de Frana em Berlim. O baro de T..., que, enquanto vivo, tivera a
mono mania dos xtases e vises magnticas, morrera emigrado e sem um real de
seu, deixando por nica herana dez volumes manuscritos, encadernados em
marroquim vermelho e folhas douradas, de curiosssimas memrias sobre
Mesmer e a sua maravilhosa tina.
     Por dignidade, a baronesa, deixara inditas as memrias eruditas de seu
falecido marido, e, para se sustentar, valiam-lhe alguns pequenos rendimentos,
que no sabemos porque arte escaparam aos perniciosos efeitos do mesmerismo.
Esta senhora vivia retirada da corte, que j no era a que fora, dizia ela, em pobre
mas altivo e nobre isolamento. No meio da sua viuvez, porm, reuniam-se alguns
amigos em torno do seu fogo duas vezes por semana, o que constitua um salo
realista puro, onde se tomava ch e se soltavam, consoante soprava o vento da
alegria ou do ditirambo, lamentos ou gritos de horror contra o sculo, contra a
Carta, contra os bonapartistas, contra a prostituio das condecoraes
concedidas a qualquer plebeu, contra o jacobinismo de Lus XVIII, e onde muito
em recato falavam das esperanas que dava o irmo do rei, depois Carlos X.
     Ali eram recolhidas com transporte de alegria algumas cantigas, em que as
regateiras chamavam Nicolau a Napoleo. Duquesas havia, delicadas e formosas
como poucas, que se extasiavam com coplas como esta, dirigida aos federados.
     Mergulhai dentro das calas Patriotas, a camisa.
     Cuja fralda est de fora Que no digam que se arvora A bandeira branca e lisa.
     Passavam o tempo a fazer calemburgos, que se julgavam terrveis; em arranjar
inocentes jogos de palavras, que supunham venenosos; em compor quartetos e at
dsticos, como o seguinte, a respeito do ministrio Dessolles, gabinete moderado
de que faziam parte os senhores Decases e Deserre:
     Pour raffermir l trone, ebranl sur s base, Il faut changer de sol, et de serre et
de case.
     Outras vezes ocupavam-se em formar a lista da cmara dos pares. Cmara
abominvelmente jacobina, combinando os nomes de modo a formar frases
inteiras, como, por exemplo, a seguinte: Damas. Sabran. Goavion-Saint-Cyr.
     Tudo prazenteiramente.
     Ali se parodiavam as revolues, havendo no sei que veleidade em afiar at
as cleras em sentido inverso.
     Cantava-se ali tambm o seu: eia avante!
     Eia avante! Eia avante! Eia avante!
     Enforquemos os bonapartistas!
     As cantigas so como a guilhotina; cortam indiferentemente hoje uma cabea,
amanh outra.  apenas uma variante.
     Por ocasio do processo Fualds, que teve lugar naquela poca, 1816,
tomaram os frequentadores do salo da baronesa de T... o partido de Bastilde e
Jausion, por Fualds ser o bonapartista. Aos liberais denominavam-nos irmos
e amigos. Era o ltimo grau da injria.
     Do mesmo modo que alguns campanrios, tinha dois galos o salo da
baronesa de T... Um era Gillenormand, o outro era o conde de Lamothe-Valois,
de quem se dizia pela boca pequena com uma espcie de venerao: Conhece? 
o Lamotte da histria do colar. Os partidos tm destas singulares amnistias.
     Acrescentemos, porm, uma coisa. Entre os burgueses, as posies
respeitadas perdem de valor pela demasiada facilidade com que se travam
relaes;  necessrio tomar cuidado na escolha das pessoas com quem se h-de
conviver; assim como os que se colocam ao p de uma pessoa que tem frio sofrem
uma perda de calrico, assim experimentam diminuio de considerao os que se
juntam com pessoas desprezveis.
     A antiga aristocracia, porm, desprezava esta lei, como todas as outras.
Marigny, irmo da cortes Pompadour, tinha entrada nos sales do prncipe de
Soubise. Apesar do que era? No: pelo que era. Du Barry, padrinho da Vaubernier,
era graciosamente recebido e atenciosamente tratado pelo marechal de Richelieu,
cuja casa era o Olympo, em que nem mesmo faltava um Mercrio, que era o
prncipe de Guemene. Era admitido at um salteador, uma vez que fosse um
deus.
     O conde de Lamothe, que em 1815 era um velho de setenta e cinco anos, no
possua coisa que o tornasse notvel, a no ser o seu ar silencioso e sentencioso, o
seu anguloso e frio rosto, as suas maneiras perfeitamente polidas, a sua casaca
abotoada at ao pescoo e as suas pernas enfiadas numas calas cor de gengibre
amarelo e constantemente cruzadas. O rosto era da mesma cor das calas.
     Este senhor conde de Lamothe era dos contados naquele salo, em virtude
da sua <- celebridade, e, coisa singular, mas em todo o caso verdica, em virtude
de seu apelido de Valois.
     Quanto a Gillenormand, a venerao que lhe tributavam era do melhor
cunho. O que ele dizia era um dogma. Apesar da sua leviandade, e sem que isso
em nada lhe atenuasse a natural jovialidade, tinha uns modos respeitveis, dignos,
honestos e burguesmente altivos, a que se unia o aspecto da sua avanada idade.
Um sculo de alguma coisa serve a quem viveu. Os anos chegam por derradeiro a
circundar a fronte de qualquer de um resplendor que infunde respeito.
     Alm disso, Gillenormand tinha ditos coruscantes, s prprios dos caracteres
enrgicos. Quando o rei da Prssia, por exemplo, depois de ter restaurado Lus
XVIII, veio visitar este monarca com o pseudnimo de conde de Ruppin e foi
recebido pelo neto de Lus XIV quase como um marqus de Brandeburgo, quer
dizer, com a mais delicada impolidez, Gillenormand aprovou, dizendo: Todos os
mais reis, tirando o de Frana, no passam de reis de provncia. Um dia, na
presena dele, fizeram esta pergunta e deram esta resposta: Ento a que foi
condenado o redactor do Correio Francs! A ser suspenso. Mas no pelo
pescoo, observou Gillenormand. Palavras assim fazem a reputao de quem as
profere.
     Por ocasio de um Te-Deum comemorativo da restaurao dos Bourbons,
vendo ele passar o senhor Talleyrand, disse para os circunstantes: Ali vai S. Ex. o
Mal.
     Gillenormand, de ordinrio, ia acompanhado de sua filha, e esguia donzela
que havia ento completado quarenta anos, mas que parecia ter cinquenta, e de
um galante rapazinho de sete anos, branco, rosado, fresco, olhos transluzindo de
prazer e confiana, que nunca aparecia naquele salo que no ouvisse em roda
dele este zumbido de todas as vozes dos que se achavam presentes: To bonito!
Que pena! Pobre menino!
     Este menino era o de quem acima falmos. Chamavam-lhe pobre menino
porque seu pai era um bandido do Loire.
     O bandido do Loire era o genro de Gillenormand, de quem j fizemos
meno e aquele a quem ele apelidava a vergonha da sua famlia.



    II
    Um dos espectros vermelhos daquele tempo



     Quem naquela poca passasse pela pequena cidade de Vernon e dirigisse o
seu passeio para a sua bela e monumental ponte, a que dentro em pouco
esperamos ver suceder alguma desgraciosa ponte-pnsil, teria ocasio de notar, se
alongasse os olhos de cima do parapeito, um homem dos seus cinquenta anos,
com um barrete de couro na cabea, umas calas e uma jaqueta de grosseiro pano
escuro, a que estava cosido um objecto amarelo que se conhecia ter sido uma fita
vermelha, tamancos nos ps, crestado do sol, o rosto quase negro e os cabelos
quase brancos, com uma larga cicatriz na testa, que se continuava at uma das
faces, curvado, alquebrado, velho antes do tempo, certo ali quase todos os dias
com uma enxada e uma foice na mo dentro de um dos recintos murados que
ficam ao p da ponte, orlando como uma cadeia de terraos a margem esquerda
do Sena, vergis graciosos cheios de flores, aos quais se poderia dar o nome de
jardins, se fossem maiores, ou chamar ramalhetes, se fossem mais pequenos.
Todos estes quintalinhos confinam por um lado com o rio e pelo outro com uma
casa. Em 1817, o homem de quem acabamos de falar, habitava o menos amplo
desses quintalinhos e a casa de mais humilde aparncia de entre todas elas, onde
vivia s e solitrio, sem rudo e pobremente, na companhia de uma mulher, nem
nova nem velha, nem bonita nem feia, nem camponesa nem da cidade, que era
quem o servia. Era clebre na cidade o quadrado de terra a que ele chamava o seu
jardim, pela beleza das flores que nele cultivava, cultura que constitua a sua nica
ocupao.
     A poder de trabalho, de perseverana, de cuidados e regas, aquele homem
conseguira criar depois do criador e inventar certas tlipas e dlias que pareciam
ter esquecido  natureza, O seu engenho precedera o de Soulange Bodin, na
formao de alegretes de terra brava para a cultura dos raros e preciosos arbustos
da Amrica e da China. De Vero, ao romper do dia, j estava no seu cuidado
vergel, sachando, mondando, cortando, regando, passeando pelo meio das suas
flores com ar de bondade, de tristeza e doura, s vezes pensativo e imvel
durante horas seguidas, escutando o canto de algum passarinho empoleirado nas
rvores ou o ruidoso travessear de alguma criana nas casas da vizinhana, outras
vezes com os olhos fixos numa gota de orvalho suspensa de alguma haste de erva,
semelhando um carbnculo pela reflexo dos raios do Sol.
     A sua mesa era frugal. O apaixonado cultor de tlipas bebia mais. leite do que
vinho. Ralhava-lhe a criada, uma criana bastava para o fazer ceder. A sua timidez
chegava a ponto de o tornar insocivel, saindo  rua raras vezes e falando apenas
com os pobres que lhe batiam  porta e com o seu abade, o padre Mabeuf, que era
um santo velho. Todavia, se alguns habitantes da cidade ou pessoas de fora lhe
batiam  porta movidos da curiosidade de ver as suas tlipas e as suas rosas, ele
abria-lha risonho, mostrando-lhes tudo com atenciosas maneiras.
     Era este o bandido do Loire.
     Quem ao mesmo tempo lesse as memrias militares, as biografias, o
Moniteur e os boletins do exrcito, ficaria impressionado com um nome
frequentes vezes repetido em tudo isto, o nome de Jorge Pontmercy. Quando
jovem, este Jorge Pontmercy fora soldado no regimento de Saintonge. Rebentou a
revoluo. O regimento de Saintonge fez parte do exrcito do Reno, conservando
o nome da sua provncia, porquanto os antigos regimentos da monarquia nem
mesmo depois da queda dela os perderam, vindo a ser organizados em brigadas
somente em 1794. Pontmercy combateu em Spire, Worms, Neustadt, Turkheim,
Alzey e em Mayena, onde fazia parte dos duzentos que formavam a retaguarda
de Houchard. Ali fez frente s com doze companheiros ao corpo do prncipe de
Hessc, por trs da antiga trincheira de Andernach, retirando-se para juntar-se ao
corpo do exrcito, somente quando o canho do inimigo abriu brecha na
trincheira desde o rebordo do parapeito at  escarpa do fosso. Em Marchiennes e
na aco de Mont-Palissel, combateu s ordens de Kleber, ficando nesta ltima
com um brao quebrado por uma bala de biscainho. Em seguida passou 
fronteira de Itlia, onde fez parte dos trinta granadeiros que defen-deram o
desfiladeiro de Tende com Joubert. Joubert, em virtude disso, foi nomeado
ajudante-general e Pontmercy alferes. Na batalha de Lodi que fez dizer a
Bonaparte: Berthier serviu de artilheiro, de granadeiro e de soldado de cavalaria,
Pontmercy combateu ao lado de Berthier debaixo de uma chuva de balas. Em
Novi viu cair o seu antigo general Joubert no momento em que de espada em
punho, gritava: Avanar! Tendo uma ocasio embarcado com a sua companhia
por assim o exigirem as necessidades da campanha, numa embarcao ligeira que
se dirigia de Gnova para no sabemos que portozito da costa, entestou com sete
ou oito navios ingleses pela proa. Queria o capito genovs atirar as peas ao mar,
esconder os soldados no poro e escapulir-se como navio mercante, mas
Pontmercy mandou iar a bandeira tricolor no mastro de r e passou altivamente
em frente dos canhes das fragatas britnicas. Da a vinte lguas, animado pelo
prspero sucesso da sua audcia, atacou e apresou um transporte ingls que
conduzia tropas para a Siclia, o qual ia atulhado de homens e cavalos at s
escotilhas. Em 1805, fizera parte da diviso Malher que tirou Gunzburgo do poder
do arquiduque Fernando. Em Wettingen amparou em seus braos, debaixo de
uma saraivada de balas, o coronel Maupetit, mortalmente ferido  frente do 9.
regimento de drages. Em Austerlitz, distinguira-se na admirvel subida feita
debaixo do fogo do inimigo.
     Quando a cavalaria da guarda municipal russa derrotou um batalho do 4 de
infantaria de linha, Pontmercy foi um dos que se desforraram desbaratando
aquela guarda, o que lhe mereceu ser condecorado pelo imperador. Pontmercy viu
sucessivamente ficarem prisioneiros Wurmser em Mantua, Melas em Alexandria,
Make em Ulm.
     Fez parte do oitavo corpo do grande exrcito que Mortier comandava e que
tomou Hamburgo. Depois passou para o 55 de linha, que era o antigo regimento
de Flandres.
     Em Eylau, achou-se no cemitrio onde o herico capito Lus Hugo, tio do
autor deste livro, susteve durante duas horas, s com a sua companhia que
constava de oitenta e trs homens, todo o mpeto do exrcito inimigo. Pontmercy
foi um dos trs que saram vivos daquele cemitrio. Esteve em Friedland, depois
do que viu Moscovo, Beresina, Lutzen, Bautzen, Dresde, Wachau, Leipzick e os
desfiladeiros de Gelenhau-sen; depois Montmirail, Chateau-Thierry, Craon, as
margens do Marne, as do Aisne e a temvel posio de Laon. Em Arnay-le-Duc,
sendo ento capito, carregou  espada dez cossacos e salvou no o seu general,
mas o seu cabo. Nessa ocasio ficou grave-mente ferido e s do brao esquerdo
tiraram-lhe vinte e sete esquirolas. Oito dias antes da capitulao de Paris, havia
pouco que ele tinha trocado com um camarada e passado para a cavalaria.
Pontmercy possua o que no antigo regime se chamava a mo dupla, isto , igual
aptido para manejar como soldado a espada ou a espingarda, e para fazer
manobrar como oficial um esquadro ou um batalho.
     Foi desta aptido, aperfeioada pela educao militar, que nasceram certas
armas especiais; os drages, por exemplo, que so ao mesmo tempo cavaleiros e
infantes.
     Pontmercy acompanhou Napoleo  ilha de Elba. Em Waterloo era chefe de
esquadro de couraceiros na brigada Dubois, Foi ele quem tomou a bandeira do
batalho de Luneburgo e em seguida a foi lanar coberto de sangue, aos ps do
imperador. No momento de se apoderar da bandeira recebera uma cutilada no
rosto. O imperador, cheio de contentamento, gritou-lhe: s coronel, baro e
oficial da Legio de Honra! Pontmercy respondeu: Sire, agradeo-vos pela
minha viva. Passada uma hora, caa na vala de Ohain.
     Agora, quem era Jorge Pontmercy? Era aquele mesmo salteador do Loire.
     J se viu, pois, alguma coisa da sua histria. Depois de Waterloo, Pontmercy
tirado, como se no deve ter esquecido, do caminho enterrado de Ohain,
conseguira reunir-se ao exrcito, e arrastara-se de ambulncia em ambulncia, at
aos acantonamentos do Loire.
     A restaurao pusera-o a meio soldo e depois reformara-o, isto , afastara-o,
sob a vigilncia superior para Vernon. O rei Lus XVIII, no confirmando nada do
que fora feito durante os Cem Dias, no lhe reconhecera a sua qualidade de oficial
da Legio de Honra, nem o posto de coronel, nem o ttulo de baro. Ele pela sua
parte no desprezava a mnima ocasio de se assinar: Coronel baro Pontmercy,
no tinha seno uma casaca azul bastante velha, e no saa nunca sem que lhe
pusesse na botoeira a roseta de oficial da Legio de Honra. O procurador-rgio
mandou-o prevenir de que o ministrio pblico o perseguiria por usar
indevidamente aquela condecorao.
     Quando lhe foi comunicado este aviso por um intermedirio oficioso,
Pontmercy respondeu com amargo sorriso: No sei se sou eu que j no entendo
francs, ou se  o senhor que j o no fala; o facto  que no entendo. Em seguida
saiu oito dias sucessivos com a roseta. No ousaram mais inquiet-lo. Por duas ou
trs vezes, o ministro da guerra e o general da provncia, lhe escreveram com este
sobrescrito: Ao senhor comandante Pontmercy. O coronel reenviou as cartas sem
as abrir. Por esta ocasio, tratava Napoleo do mesmo modo em Santa Helena, as
missivas de Sir Hudson Lowe, dirigidas ao general Bonaparte. Pontmercy chegara
afinal, desculpem-nos a frase, a ter na boca a mesma saliva que o seu imperador.
     Do mesmo modo havia em Roma soldados cartagineses, prisioneiros, que se
recusavam a saudar Fiamnio, e que participava da alma de Anbal.
     Uma manh, encontrou numa rua de Vernon o procurador-rgio, e foi
direito a ele: Senhor procurador-rgio, disselhe ele, ser-me- permitido usar o
meu gilvs? Pontmercy no tinha mais coisa alguma alm do exguo meio soldo
de chefe de esquadro. Arrendara em Vernon a casa mais pequena que pudera
encontrar e nela vivia s, como h pouco se viu.
     No tempo do imprio, entre duas guerras, achara meio de ter tempo para
desposar a menina Gillenormand. O idoso burgus, indignado do ntimo do
corao, dera o seu consentimento, suspirando: At as mais nobres famlias se
vm obrigadas a isto.
     Em 1815, a esposa de Pontmercy, senhora realmente admirvel, esprito
elevado e raro, e digna de seu marido, falecera, deixando um filho. Este filho teria
sido a alegria do coronel na sua solido; mas o av reclamara imperiosamente seu
neto, declarando que se lho no entregassem, o deserdaria. O pai cedera no
interesse do filho e passara a amar as flores.
     Pontmercy, que renunciara a tudo sem resistncia nem murmrio, dividia o
seu pensamento entre as coisas inocentes que fazia e as grandes coisas que fizera.
Passava todo o seu tempo a esperar o reflorir dos seus cravos ou embebido nas
recordaes de Austerlitz.
     Gillenormand no mantinha relaes de espcie nenhuma com seu genro.
Para ele, o coronel era um bandido, e ele para o coronel um pedao de asno.
O bom velho nunca falava dele a no ser para fazer zombeteiras aluses ao seu
baronato.
     Tinham expressamente ajustado que Pontmercy nunca tentaria ver seu filho
nem falar-lhe, sob pena daquele lho tornar a entregar, expulso para sempre e
deserdado.
     Segundo esse contrato, Pontmercy, que para Gillenormand e sua famlia era
um empestado, deixaria o sistema da educao de seu filho inteiramente  escolha
dele.
     Talvez o coronel no andasse bem em aceitar tais condies, mas julgava ele
que fazia bem e que s a si se sacrificava, e por isso aceitou.
     A herana que por morte de Gillenormand viria a tocar ao filho de
Pontmercy, era pequena, mas no assim a de sua filha mais velha, que era
considervel, por ela ser riqussima pela parte materna, e o filho de sua irm o seu
herdeiro natural. A criana, que se chamava Mrio, sabia que tinha pai e nada
mais. Ningum lhe dizia uma s palavra a tal respeito. No obstante, com o andar
do tempo, os segredinhos, as meias palavras, o piscar de olhos das pessoas que
constituam as sociedades a que seu av o levava, tinham-lhe aclarado o esprito e
feito perceber por ltimo alguma coisa, e como naturalmente e por uma espcie
de infiltrao e lenta penetrao ele recebia as ideias e opinies, que, para assim
dizer, constituam o seu meio respirvel, viera por ltimo a no lembrar-se de seu
pai seno com vergonha e dolorosa impresso.
     Enquanto ele assim crescia, o coronel de trs em trs meses saa furtivamente
de casa e vinha a Paris, como um preso fugido que evita as garras da justia, onde,
apenas chegava, ia postar-se na igreja de S. Sulpcio,  hora em que a filha de
Gillenormand levava seu sobrinho  missa, e da contemplava seu filho, tremendo
com receio de que a tia de Mrio se voltasse, escondido por trs de um pilar,
imvel, com a respirao comprimida. Tinha medo daquela velha este homem,
que assistira a tantos combates.
     Daqui foi que se originaram as suas relaes com o padre Mabeuf, abade de
Vernon.
     Este digno eclesistico era irmo do sacristo de S. Sulpcio, que muitas vezes
tinha feito reparo naquele homem contemplando seu filho, e na cicatriz que ele
tinha no rosto e nas lgrimas furtivas que lhe marejavam dos olhos.
Impressionara-o a vista daquele homem valente que chorava como uma mulher, a
ponto de nunca se lhe varrerem da memria as suas feies. Um dia, estando em
Vernon, aonde fora visitar seu irmo, encontrou-se na ponte com o coronel
Pontmercy e reconheceu o homem de S. Sulpcio. Contou ento a histria ao
abade e ambos foram visitar o coronel sob o pretexto que primeiro lhes lembrou,
visita a que se seguiram outras. O coronel, que a princpio se mostrara sobremodo
reservado, veio por ltimo a desabafar, e tanto o abade como o sacristo de S.
Sulpcio chegaram a saber toda a histria e o modo como Pontmercy sacrificava a
sua ventura ao futuro de seu filho. Isto deu lugar a que o abade da por diante
principiasse a trat-lo com o maior respeito e afeio, e que pela sua parte o
coronel tambm se afeioasse ao abade. Quanto mais no h quem mais
facilmente se penetre e amalgame do que um padre velho e um velho soldado,
quando ambos so sinceros e dotados de bons sentimentos. No fundo, so um e o
mesmo homem. Um dedicou-se pela ptria terrena, outro pela celeste; a diferena
 s esta.
    Mrio escrevia a seu pai duas vezes por ano, no primeiro de Janeiro e dia de S.
    Jorge. Eram cartas de cumprimentos ditadas por sua tia, mas que pareciam
copiadas de algum formulrio; era quanto tolerava Gillenormand; o pai respondia
com outras afectuosssimas, que o av metia no bolso sem sequer as ler.



    III
    Requiescat



     O salo de Madame de T.., era tudo quanto Mrio de Pontmercy conhecia no
mundo, a nica abertura pela qual podia ver a vida, mas abertura sombria por
onde recebia mais frio do que calor, mais escurido do que claridade.
     Esta criana, que, quando principiou a frequentar aquela estranha sociedade,
era toda alegria e luz, dentro em pouco tornou-se triste, e, o que ainda  mais
imprprio desta idade, grave.
     Ao ver-se rodeado de todas aquelas pessoas respeitveis e singulares,
circunvagava a vista em torno de si com ar espantado e ao mesmo tempo srio.
Tudo contribua para lhe aumentar esse seu pasmo. Frequentavam o salo de
Madame de T... algumas senhoras idosas, respeitveis, pertencentes  nobreza,
chamadas Mathan, No, Levis, que se pronunciava Levi, Cambis, que se
pronunciava Cambyse. Aqueles rostos antigos e estes nomes bblicos
misturavam-se no esprito dele com o que aprendia de cor no seu compndio do
Antigo Testamento, e quando todas elas se achavam sentadas em volta do fogo
quase apagado,  mortia claridade de um candeeiro, velado por um pra-luz de
cor verde, que apenas deixava entrever as suas figuras severas, os seus cabelos
russos ou brancos, os seus compridos vestidos de outro tempo, de que mal se
distinguiam as lgubres cores, pronunciando de espao a espao palavras
majestosas ou severas, o pequeno Mrio contemplava-as com olhar desvairado,
julgando ver, no mulheres, mas patriarcas e magos, no seres reais, mas
fantasmas.
     A estes fantasmas juntavam-se ainda muitos padres frequentadores daquele
salo, e grande nmero de fidalgos como o marqus de Sassenay, secretrio de
Madame de Berry; o visconde de Valory, que sob o pseudnimo de Carlos
Antnio publicava odes monorimas; o prncipe de Beauffremont, que conquanto
ainda muito novo, tinha os cabelos russos, e uma mulher bonita e espirituosa, que
com os seus vestidos de veludo escarlate e alamares de ouro, sumamente
decotados, deixava atnitas aquelas trevas; o marqus de Coriolis de Espinouse, o
homem de Frana que melhor sabia as propores da civilidade; o conde de
Amendre, pobre homem, com cara de paz de alma; e o cavaleiro de Port de Guy,
pilar da biblioteca do Louvre, chamada o gabinete do rei. O senhor de Port Guy,
calvo e com mais indcios de ter envelhecido do que de ser velho, contava que em
1793, tendo ele ento dezasseis anos, havia sido condenado s gals como
refractrio, onde o seu companheiro de grilheta era o bispo de Mirepoix, tambm
refractrio, mas este como padre, ao passo que ele era-o como soldado. Consistia a
sua tarefa nas gals em ir de noite buscar ao cadafalso as cabeas e os corpos dos
que de dia eram guilhotinados. Carregavam com aqueles corpos ensanguentados e
as suas vstias vermelhas de forados tinham nas costas uma crusta de sangue,
pela manh seca, mas  noite hmida.
     Eram frequentes no salo de Madame de T... estas histrias trgicas e  fora
de maldizerem Marat aplaudiam Trestaillon. Ali iam jogar a sua partida de whist
alguns deputados sem par, como Thibord du Chalard, Lemarchant Gomicourt e o
clebre deputado epigramtico da direita Cornet-Dincourt. Via-se s vezes
naquele salo o balio de Ferrette, com os seus cales curtos e perninhas delgadas,
de caminho para casa do senhor de Talleyrand. O balio tinha sido o companheiro
de prazer do conde de Artois, e, ao inverso de Aristteles, posto de ccoras sobre
Campaspe, fizera andar a Guimard sobre as mos e os ps, mostrando assim aos
sculos a desforra de um filsofo feita por um balio.
     Quanto aos padres, era o abade Halma o mesmo a quem Larose, seu
colaborador no Raio, costumava dizer: Ora adeus! Quem no tem cinquenta
amos? S alguns desses pintalegretes que por a andam. O abade Letourneur,
pregador rgio, o abade Frayssinous, que ainda no era conde, nem bispo, nem
ministro, nem par, e que andava com uma batina velha e sem botes, e o padre
Keravenant, abade de S.
     Germain-des-Prs; alm destes, o nncio do Papa, que ento era Monsenhor
Macchi, arcebispo de Nisibis, depois cardeal, e notvel pelo seu comprido nariz de
homem meditabundo, e outro Monsenhor intitulado abbate Palmieri, prelado
domstico, um dos sete protonotrios participantes da Santa S, cnego da insigne
baslica de S.
     Librio, advogado dos santos, postulatore di santi, o que se refere aos negcios
da canonizao e pouco mais ou menos quer dizer referendrio da seco do
paraso.
     Finalmente, dois cardeais, os senhores de la Luzerne e de
Clermont-Tonnerre. O senhor de la Luzerne era escritor, e mais tarde devia ter a
honra de assinar no Conservador a par de Chateaubriand; o senhor de
Clermont-Tonnerre era arcebispo de Tolosa e vinha frequentes vezes a Paris
passar algum tempo de folga em casa de seu sobrinho, o marqus de Tonnerre,
que foi ministro da marinha e da guerra.
     O cardeal de Clermont-Tonnerre era um velho prazenteiro que gostava de
arregaar a batina para deixar ver as suas meias encarnadas; o seu forte consistia
em odiar a Enciclopdia e jogar o bilhar, de que era apaixonadssimo; de modo
que as pessoas que naquele tempo passavam nas noites de Vero pela rua de
Madame, onde era ento o pao de Clermont-Tonnerre, paravam para ouvir o
choque das bolas e a voz aguda do cardeal, que gritava ao seu conclavista,
Monsenhor Cottret, bispo in paribus de Caryste: Marque l esta carambola,
abade.
     O cardeal de Clermont-Tonnerre tinha sido apresentado no salo de Madame
T... pelo seu amigo mais ntimo, senhor de Roquelaure, antigo bispo de Senlis e
um dos quarenta da academia. O senhor de Roquelaure era respeitvel pela sua
elevada estatura e pela sua assiduidade na academia; atravs da porta envidraada
da sala, onde a academia celebrava ento as suas sesses, podiam os curiosos
contemplar todas as quintas-feiras o antigo bispo de Senlis, de ordinrio de p,
com os cabelos empolvilhados, de meias roxas, e com as costas voltadas para a
porta, talvez, segundo parecia, para melhor mostrar o bordado da volta.
     Todos estes eclesisticos, posto que, pela maior parte, tinham tanto de
cortesos como de padres, aumentavam a gravidade do salo de Madame de T...,
cujo aspecto senhorial acentuavam cinco pares de Frana, o marqus de Vibraye,
o marqus de Talaru, o marqus de Herbouville, o visconde de Dambray e o
duque de Valentinois.
     Este duque de Valentinois, posto que prncipe de Mnaco, isto , prncipe
soberano estrangeiro, fazia to elevada ideia da Frana e do pariato, que via tudo
atravs dele. Era ele que dizia: Os cardeais so os pares de Frana de Roma, os
lords so os pares de Frana de Inglaterra. No obstante tudo isto, aquele salo
feudal, visto que neste sculo em tudo mete mo a revoluo, era dominado, como
j dissemos, por um burgus, por Gillenormand, que era quem nele reinava.
     Era aquela a essncia e quinta essncia da sociedade branca de Paris, que s
aps a permanncia em quarentena dava entrada s grandes reputaes, mesmo
realistas que fossem. Nas reputaes h sempre anarquia. A entrada de
Chateaubriand ali produziria o mesmo efeito que a do padre Duchne. Todavia,
eram por tolerncia admitidos naquela ortodoxa sociedade alguns trnsfugas
conversos, um dos quais era o conde Beugnot, como que recebido em castigo.
     Os sales nobres do tempo de agora no tm semelhana nenhuma com
aqueles. O bairro de S. Germano de hoje cheira a patarata. Os realistas de agora,
digamo-lo para honra sua, so demagogos.
     Como a sociedade que frequentava o salo de Madame de T... era superior,
tambm o gosto era fora do comum e desdenhoso, sob capa de polido. Os seus
costumes eram acompanhados de toda a espcie de requintes involuntrios que
constituam o antigo regime, enterrado, mas vivo ainda. Alguns desses costumes,
sobretudo na linguagem, pareciam extravagantes, a ponto que os conhecedores
superficiais toma-riam por provincianismo o que no era mais que vetustez.
     Chamava-se a uma dama senhora generala. Senhora coronela tambm no
era inteiramente desusado. A encantadora Madame de Leon, decerto em memria
das duquesas de Longueville e de Chevreuse, preferia essa denominao ao seu
ttulo de princesa. A marquesa de Crequy tambm tinha adoptado o nome de
senhora coronela.
     Foi esta pequenina sociedade alta a que inventou nas Tulherias o requinte de
dizer, falando com o rei em particular, el-rei na terceira pessoa, e nunca vossa
majestade, visto ter sido manchado pelo usurpador este segundo tratamento.
     Ali eram julgados os factos e os homens e se escarnecia do sculo, o que
dispensava de compreend-lo. No pasmo auxiliavam-se mutuamente e uns aos
outros comunicavam as luzes que cada um possua. Era Matusalm explicando o
que sabia a Epimenides, o surdo pondo o cego ao facto do que se passava. O
tempo decorrido desde Coblentz no se contava. Do mesmo modo que Lus XVIII
por graa de Deus, se achava no vigsimo quinto ano do seu reinado, os
emigrados tambm de direito estavam no vigsimo quinto ano da sua
adolescncia.
     Era um todo harmnico; ningum vivia de mais; a palavra era apenas um
sopro; o jornal, de acordo com o salo, parecia um papiro. Havia mancebos ali,
mas estavam meios mortos. As librs da antecmara mostravam claramente os
estragos do tempo.
     Aqueles personagens, imagens do passado, eram servidos por criados da
mesma espcie. Tinham todos o aspecto de quem viveu h muito e que se obstina
contra o sepulcro. Conservar, Conservao, Conservador, eis no que, com
pequena diferena, consistia o seu dicionrio; estar bem ou mal conceituado, o que
exprimiam por estar em bom ou mau cheiro, era toda a questo. Efectivamente,
havia aromas nas opinies daqueles venerveis grupos e as suas ideias cheiravam a
vergamote. Era uma sociedade de mmias. Os amos estavam embalsamados, os
criados empalhados.
     Uma marquesa velha, emigrada e sem nada de seu, apesar de no ter seno
uma criada, continuava a dizer: Os meus criados.
     Que faziam estes personagens no salo de Madame de T...?
     Eram ultras.
     Ser ultra; esta frase, apesar de no ter ainda desaparecido aquilo que ela
representa, no  hoje, todavia, bem compreendida. Desamos a explicaes.
     Ser ultra quer dizer ir alm.  atacar o ceptro em nome do trono e a mitra em
nome do altar;  levar aos trambolhes o carro que se puxa, faz-lo ir aos
solavancos, em vez de o fazer rodar;  invectivar a fogueira por causa da queima
dos herejes;  censurar ao dolo a sua pouca idolatria;  insultar por excesso de
respeito;  achar no papa pouco papismo, no rei pouco realismo e luz de mais nas
trevas;  no gostar do alabastro, nem da neve, nem do cisne, nem do lrio, e dizer
que s gosta da brancura;  ser sectrio de uma causa a ponto de se tornar inimigo
dela;  ser to forte a favor que se vem a ser contra.
     O esprito ultra  o principal caracterstico da primeira fase da restaurao.
     No existe na histria nada semelhante a esse quarto de hora que principiou
em 1814 e terminou em 1820, com a subida ao poder do senhor de Villelle, o
homem prtico da direita.
     Estes seis anos foram um momento extraordinrio, ao mesmo tempo ruidoso
e sereno, risonho e sombrio, como que iluminado pelo claro da aurora e
simultaneamente coberto das trevas das grandes catstrofes, de que ainda se viam
as sombras carregadas, escondendo-se lentamente nos horizontes do passado. No
meio daquela luz e daquela sombra houve um mundozinho novo e velho, folgazo
e triste, juvenil e senil, esfregando os olhos, porque no h nada mais parecido
com o acordar do que o voltar; grupo que olhava para a Frana com gesto
carrancudo e ao qual a Frana encarava com ironia; as ruas atulhadas de pobres
mochos velhos feitos marqueses, dos que tinham chegado e dos que vinham
vindo, dos estupefactos doutrora, de nobres e honrados fidalgos, que sorriam de
se ver em Frana e ao mesmo tempo choravam; transportados de prazer por
verem de novo a terra da ptria e desesperados por no tornarem a encontrar a
sua monarquia; a nobreza das cruzadas olhando com desprezo a do imprio, quer
dizer a nobreza da espada; as raas histricas deixando de entender a histria; os
filhos dos companheiros de Carlos Magno desdenhando dos companheiros de
Napoleo. As espadas, como acabamos de dizer, insultavam-se mutuamente; a
espada de Fontenoy tornou-se risvel e apenas uma ferrugenta; a espada de
Marengo tornou-se odiosa e apenas um sabre. Outrora esquecia-se de ontem. No
existia j o sentimento do que era grande, nem o sentimento do que era ridculo.
     Houve quem a Bonaparte chamasse Scapin. Esse inundo, porm, j no
existe.
     Nada resta hoje dele, repetimos. Quando acaso evocamos dele alguma das
suas figuras e tentamos faz-la reviver pelo pensamento, parece-nos estranho
como um mundo anti-diluviano.  que efectivamente o mundo de que falamos
ficou abismado por um dilvio. Desapareceu debaixo de duas revolues. Que
torrente a das ideias! Como ela cobre rapidamente o que tem por misso destruir
e sepultar, e como cava depressa abismos terrveis!
     Tal era a fisionomia dos sales desses cndidos tempos que j l vo, nos
quais Martainville tinha mais esprito do que Voltaire.
     Estes sales tinham uma literatura e uma poltica propriamente sua. Os seus
frequentadores acreditavam em Fieve e recebiam as leis de Agier. Faziam
comentrios a Colnet, o publicista alfarrabista do cais Malaquais. Napoleo era
unani-memente o Papa-gente da Crsega. Mais adiante a introduo na histria
do marqus de Bonaparte, tenente-general dos exrcitos reais, foi uma concesso
ao esprito do sculo.
     Estes sales, porm, no permaneceram muito tempo no seu estado de
pureza.
     Em 1818 comearam a despontar neles alguns doutrinrios, sintoma
assustador. O caracterstico desses era serem realistas e desculparem-se de o
serem. Daquilo que os ultras se ostentavam orgulhosos, mostravam-se os
doutrinrios alguma coisa envergonhados. Os doutrinrios tinham talento e eram
calados quando convinha; o seu dogma poltico era temperado com suficiente
dose de arrogncia; tinham de ser bem sucedidos. Abusavam, mas ultimamente,
dos excessos da gravata branca e da casaca abotoada. Todo o mal ou toda a
desgraa do partido doutrinrio foi criar a juventude senil. Alm do que temos
dito, tomavam atitudes de sbios e todas as suas aspiraes eram enxertar um
poder temperado no princpio absoluto e excessivo. Opunham e algumas vezes
com rara inteligncia, ao liberalismo demolidor um liberalismo conservador.
Frequentes vezes se lhes ouvia dizer: Graas ao realismo que bastantes servios
nos prestou, conservando a tradio, o culto, a religio, o respeito! O realismo 
fiel, honrado, cavalheiresco, dedicado, afectuoso, e ainda que foradamente, vem
unir s grandezas novas da nao as grandezas seculares da monarquia. Faz mal
em no compreender a revoluo, o imprio, a glria, a liberdade, as ideias novas,
as novas geraes, enfim, o sculo. Mas o mal de que ns o acusamos, no poderia
o realismo acusar-nos dele tambm? A revoluo de que somos herdeiros, deve
entender tudo.
      Atacar o realismo  o contra-senso do liberalismo. Que erro e que cegueira! A
Frana revolucionria faltando ao respeito  Frana histrica, quer dizer, a sua
me, a si mesma! Depois do 5 de Setembro trata-se a nobreza da monarquia como
depois do 8 de Julho se tratava a nobreza do imprio. Eles foram injustos para
com a gua, ns somos injustos para com a flor de lis. Querem, visto isso, ter
sempre alguma proscrio a fazer? Que utilidade h em desdourar a coroa de Lus
XIV, em riscar o braso de Henrique IV? Ns rimo-nos do senhor de Vaublanc,
que riscava os NN da ponte de lena? E ele que fazia? O que ns fazemos. Tanto
nos pertence Bouvines como Marengo.
      To nossas so as flores de liz como os NN.  o nosso patrimnio. Para que
havemos de cerce-lo? To grande dever nos assiste de no renegarmos a ptria
no passado, como de a no renegarmos no presente. Porque no havemos de
querer toda a histria?
      Porque no havemos de amar toda a Frana? Era assim que os doutrinrios
criticavam e protegiam o realismo, que no gostava de se ver criticado e se
enfurecia de se ver protegido.
      Os ultras assinalaram a primeira poca do realismo; a congregao
caracterizou a segunda.  impetuosidade sucedeu a astcia. Demos por concludo
aqui este esboo.
      No decurso da narrao, o autor deste livro achou no seu caminho este
momento curioso da histria contempornea; no pde deixar de lhe lanar um
olhar de passagem e reproduzir alguns dos lineamentos singulares desta sociedade
hoje desconhecida. F-lo, porm, rapidamente e sem nenhuma ideia de azedume
ou irriso.
      So apenas recordaes afectuosas e cheias de respeito, porque lhe fazem
lembrar sua me e o prendem a esse passado. Alm disso, diga-se em abono da
verdade, aquele mundo pequenino tinha tal ou qual grandeza. Podem rir-se dele,
mas no podem odi-lo nem desprez-lo. Era a Frana de outrora.
      Mrio Pontmercy estudou o que estudam todas as crianas. Quando saiu das
mos de sua tia, a filha mais velha de Gillenormand, este confiou-o a um digno
professor da mais pura inocncia clssica. Aquela alma tenra, pois que mal ia a
desabrochar, passou das mos de uma invencioneira para as de um pedante.
Mrio frequentou as aulas preparatrias no colgio e em seguida entrou para a
Faculdade de Direito. Mrio era realista, fantico e austero. Tinha pouca amizade
ao av, cuja jovialidade e cinismo o constrangiam, e tornava-se sombrio quando
lhe falavam no pai.
     No fim de tudo era um rapaz ardente e frio, nobre, generoso, altivo, religioso,
exaltado, digno at de tocar as raias da dureza, puro at quase parecer selvagem.



    IV
    Fim do salteador



     Na mesma ocasio em que Gillenormand se retirava da sociedade, terminava
Mrio os seus estudos clssicos. O velho disse adeus ao bairro de S. Germano e ao
salo de Madame T... e foi estabelecer-se para o Marais, na sua casa da rua das
Mulheres do Calvrio. Os seus criados, a, alm do porteiro, eram Nicolette, a
criada de sala que tinha ficado no lugar de Magnon, e o esbaforido e atarefado
biscainho, de quem j falmos.
     Em 1827, na poca em que Mrio tinha completado os seus dezassete anos
havia pouco, ao recolher-se uma tarde para casa, viu seu av com uma carta na
mo.
     - Mrio - disselhe Gillenormand - apronta-te que hs-de partir amanh para
Vernon.
     - Para qu? - perguntou Mrio.
     - Para ires ver teu pai.
     Mrio estremeceu. De tudo se tinha lembrado no decurso da sua vida, menos
que poderia vir um dia em que tivesse de ver seu pai. Era esta para ele a coisa mais
inesperada, surpreendente, e, digamos tambm, mais desagradvel. Era ver-se
obrigado a aproximar-se de quem forcejava por afastar-se. O mancebo no sentia
saudades do pai, sentia a mortificao da jornada.
     Alm dos seus motivos de antipatia poltica, Mrio estava convencido que seu
pai, o traga-mouros, como lhe chamava Gillenormand nos seus dias joviais, no o
amava; isso estava bem de ver, visto que ele o abandonara daquela forma e o
deixara entregue a cuidados alheios. E, como o mancebo via que no era amado,
no amava tambm. Nada mais simples, pensava ele.
     Ficou, pois, to estupefacto, que no dirigiu amnima pergunta a
Gillenormand.
     O av continuou:
     - Est doente, ao que parece, e por isso quer ver-te.
     E, aps uma pausa, acrescentou:
     -  necessrio que partas amanh de manh. Julgo que do largo das Fontes
parte todos os dias uma diligncia que sai s seis horas e chega l quase  noite.
Arranja lugar nela, porque teu pai diz que te quer l quanto antes.
     Depois amarrotou a carta e meteu-a no bolso.
     Mrio podia ter partido no fim dessa mesma tarde e achar-se junto de seu pai
ao outro dia pela manh, por isso que da rua de Bouloy partia para Rouen uma
diligncia que passava em Vernon, fazendo a viagem de noite. Porm, nem
Gillenormand, nem Mrio, se lembraram de colher informaes a esse respeito.
     Ao outro dia, ao escurecer, Mrio chegava a Vernon  hora em que
principiavam a acender-se as luzes. Ao primeiro viandante que encontrou,
perguntou onde era a casa do senhor Pontmercy, pois, segundo o seu modo de
pensar, era da opinio da restaurao, no reconhecendo tambm seu pai nem
como baro nem como coronel.
     Indicaram-lhe a morada, o mancebo bateu e uma mulher com um candeeiro
pequeno na mo, veio abrir-lhe a porta.
     - Aqui  que mora o senhor Pontmercy?  disse Mrio.
     A mulher conservou-se imvel.
     -  aqui? - perguntou Mrio.
     A mulher fez um sinal afirmativo com a cabea.
     - Posso falar-lhe?
     A mulher fez um sinal negativo.
     - No posso? Mas eu sou o filho por quem ele espera.
     - J o no espera! - disse a mulher, que o mancebo reparou que estava a
chorar.
     Apontou-lhe ento para a porta de uma sala inferior e o mancebo entrou.
     Nessa sala, alumiada por uma vela de cebo colocada em cima da pedra do
fogo, viam-se trs homens, um de p, outro de joelhos e outro em camisa,
estirado no cho.
     O que jazia no cho era o coronel. Os outros dois eram um mdico e um
padre, que estava a orar.
     Havia trs dias que o coronel sofrera um ataque cerebral. Como tivesse um
mau pressentimento, logo no princpio da molstia escrevera a Gillenormand,
pedindo que lhe deixasse ir o filho, a quem queria ver. A molstia, porm,
agravou-se. Na tarde do mesmo dia em que Mrio chegou, Pontmercy tivera um
acesso de delrio, e, apesar dos esforos da criada para o conter, sara pela cama
fora, gritando:
     - Meu filho no chega, vou eu esper-lo ao caminho!
     E em seguida deitara pelo quarto fora e cara no sobrado da sala de espera.
     Acabava de expirar.
     Tinham chamado o mdico e o abade. O mdico, porm, chegara tarde, e o
mesmo aconteceu com o abade e com o filho.
     Ao claro crepuscular daquela vela divisavam-se na face do coronel, estirado
no cho, duas grandes lgrimas, que lhe coaram dos olhos j selados pelo dedo da
morte.
     Os olhos j no tinham vida, mas as duas lgrimas brilhavam-lhe ainda nas
plpebras.
     Eram a demora de seu filho.
     Mrio ps-se a contemplar aquele homem que via pela primeira e ltima vez,
aquele varonil e venerando rosto, aqueles olhos abertos que j no viam, aqueles
cabelos brancos, aqueles robustos membros, nos quais aqui e alm se divisavam
linhas escuras, que eram golpes de espada, e uma espcie de estrelas vermelhas,
que eram buracos de balas. O mancebo contemplou o enorme gilvaz que
imprimia o herosmo naquela fronte em que Deus imprimira a bondade.
Lembrou-se que aquele homem era seu pai, que seu pai estava morto, e ficou na
mesma frieza.
     A tristeza que o mancebo sentiu, foi a tristeza que sentiria em presena de
qualquer outro homem que Visse estirado no cho, morto.
     O aspecto, porm, daquele quarto era sobremodo fnebre. A criada chorava a
um canto, o abade orava, soluando ao mesmo tempo, o mdico limpava os olhos,
at o prprio cadver chorava.
     O mdico, o padre e a mulher olhavam para Mrio entre a sua aflio sem
dizer uma palavra; o mancebo  que era o estranho. Mrio, envergonhado da sua
pouca comoo e embaraado da sua atitude, deixou cair o chapu que tinha na
mo para fazer supor que a dor lhe tirava a fora de o segurar.
     Ao mesmo tempo, o mancebo sentia um como remorso do seu
procedimento, achando-se mesmo a seus olhos desprezvel. Mas ele tinha alguma
culpa nisso? Se no amava seu pai, que havia de fazer?
     A herana do coronel era nula. Mal chegou para as despesas do enterro o
produto da venda da moblia.
     Num bocado de papel achado pela criada e por ela entregue a Mrio, liam-se
as seguintes linhas escritas do prprio punho do coronel.
     - Para meu filho. O imperador fez-me baro no campo de batalha de
Waterloo.
     Visto que a restaurao me contesta este ttulo, que eu ganhei  custa do meu
prprio sangue, peo a meu filho que o tome e use como seu. Escuso de dizer que
h-de ser digno dele.
     No lado de trs tinha o coronel acrescentado:
     Nessa mesma batalha de Waterloo salvou-me a vida um sargento chamado
Thenardier. Nestes ltimos tempos, creio que este homem estava estabelecido
com uma estalagem numa aldeia dos arrabaldes de Paris, em Chelles ou
Montfermeil. Se meu filho algum dia der com ele, recomendo-lhe que lhe faa
todo o bem que puder.
     Movido, no pelo sagrado afecto filial, mas pelo vago respeito da morte,
sempre to imperioso no corao do homem, Mrio pegou no papel e guardou-o.
     O esplio do coronel desapareceu todo, Gillenormand mandou vender a um
adelo a espada e o uniforme que fora dele; os vizinhos entraram pelo jardim,
apossando-se das flores raras que ele com tanto desvelo cultivava, e as outras
plantas morreram afogadas pelas moitas de silvas e abrolhos que lhe cresceram em
torno.
     Mrio demorara-se apenas quarenta e oito horas em Vernon, voltando depois
do enterro para Paris, onde prosseguiu de novo a interrompida frequncia das
suas aulas de direito, sem mais lhe vir  lembrana a memria de seu pai, que era
para ele como se nunca tivera existido. Dentro de dois dias estava o coronel
enterrado, e no fim de trs j ningum se lembrava dele.
     Mrio trazia um fumo no chapu. Era ao que se reduzia tudo.



    V
    Utilidade de ouvir missa para vir a ser-se revolucionrio



    Mrio conservara os costumes religiosos que adquirira na infncia. Num
domingo que fora ouvir missa a S. Sulpcio, quela mesma capela da Virgem onde
sua tia o levava quando era pequeno, estando mais distrado e pensativo do que de
ordinrio, sentara-se numa cadeira de veludo de Utrecht, atrs de uma coluna,
sem reparar que no recosto da cadeira estava escrito o nome: Mabeuf, sacristo. A
missa tinha apenas comeado, quando um velho se chegou a ele, dizendo-lhe:
     - Queira desculpar, mas este  o meu lugar.
     Mrio ergueu-se apressadamente, e o velho entrou na posse da sua cadeira.
     Terminada a missa, Mrio ficou ainda pensativo a alguns passos de distncia:
o velho aproximou-se novamente e disselhe:
     - Peo-lhe que me desculpe t-lo incomodado no comeo da missa e de agora
mesmo o tornar a incomodar. O senhor deve ter-me achado importuno, portanto
 necessrio que lhe d uma explicao.
     -  intil, senhor!
     - No  tornou o velho no quero que v fazendo m ideia de mim. Tenho
muita predileco por este lugar. Parece-me que a missa aqui  melhor. No sabe
porqu? Eu lho digo. Foi neste lugar que eu vi, durante dez anos, de dois em dois
ou de trs em trs meses, regularmente, um pobre e honrado pai, que no tinha
outra ocasio nem maneira de ver seu filho, por isso que lho impediam certos
assuntos de famlia. Aparecia sempre  hora em que sabia trazerem seu filho 
missa. O pequenino nem suspeitava que seu pai aqui estivesse; nem mesmo sabia
que tinha pai, o pobre inocente. O pai, pela sua parte, conservava-se atrs do pilar,
para que o no vissem.
     Contemplava o filho e chorava; o pobre homem adorava a criancinha. Vi isto
muitas vezes. Este lugar ficou como santificado por mim, e acostumei-me a ouvir
sempre nele a missa. Prefiro-o  bancada em que devia estar, como sacristo. Tive
at algum conhecimento com o infeliz homem. Tinha um sogro, uma tia rica, e
no sei que mais parentes que o ameaavam de deserdar a criana, se ele, que era
seu pai, lhe falasse.
     Sacrificara-se para que o filho pudesse um dia ser rico e feliz. Parece que no
consentiam que ele o visse por motivo de opinies polticas. Eu aprovo que se
tenham opinies polticas; mas h gente que no sabe ter mo nelas. Valha-me
Deus! Um homem no  um monstro s porque esteve em Waterloo; no se
separa um pai de seu filho por semelhante coisa. Era um coronel de Bonaparte; e
julgo que morreu. Residia em Vernon, onde est meu irmo, que  prior, e
chamava-se... Tinha assim um nome como Pontmarie ou Montparcy... O que ele
tinha tambm era uma cicatriz no rosto.
     - Pontmercy - disse Mrio, empalidecendo.
     -  isso mesmo! Pontmercy. Conhecia-o?
     - Era meu pai!
     O velho sacristo juntou as mos e exclamou:
     - Logo o senhor  o menino de ento!  isso, ; devia ser agora um homem.
Pobre criana! Pode dizer que teve um pai bem seu amigo!
     Mrio ofereceu o brao ao velho e conduziu-o at sua casa. No dia seguinte
disse ao senhor Gillenormand:
     - Fui convidado por alguns amigos para uma caada; d-me licena que me
ausente por trs dias?
     - Por quatro! - respondeu-lhe o av. - Vai divertir-te.
     E, piscando o olho, disse em voz baixa a sua filha:
     - Alguns amoricos!



    VI
    Quanto vale ter encontrado um sacristo



     Mrio esteve trs dias ausente, depois voltou a Paris, foi direito  biblioteca da
escola de direito e pediu a coleco do Moniteur.
     Leu o Moniteur, leu todas as histrias da repblica e do imprio, o Memorial
de Santa Helena, todos os peridicos, boletins e proclamaes; devorou tudo.
     Quando pela primeira vez se lhe deparou o nome de seu pai nos boletins do
grande exrcito, teve um acesso de febre que lhe durou uma semana. Foi procurar
os generais sob cujas ordens servira Jorge Pontmercy, e entre outros o conde H...
O sacristo Mabeuf, que procurou de novo descrevera-lhe a vida retirada que seu
pai passara em Vernon, o seu isolamento e as suas flores. Mrio chegou a
conhecer o homem raro, sublime e meigo, a espcie de leo-cordeiro, que fora seu
pai.
     Entretanto, ocupado com este estudo, que lhe absorvia todos os instantes,
bem como todos os pensamentos, no via quase nunca os Gillenormand. Aparecia
s horas de refeio; depois, quando o procuravam, j o no achavam. A tia
murmurava, o av sorria-se, dizendo:
     - Ora!  o tempo das raparigas! - Algumas vezes acrescentava: - Diabo!
Julgava ser uma brincadeira e parece-me que  uma paixo!
     Era, com efeito, uma paixo. Na alma do mancebo principiava a nascer um
sentimento de quase adorao por seu pai.
     Ao mesmo tempo operava-se-lhe uma mudana extraordinria nas ideias. As
fases de tal mudana foram numerosas e sucessivas. Como esta  a histria de
muitos espritos do nosso tempo, julgamos til seguir-lhe as fases passo a passo,
indicando-as todas.
     A histria a que acabava de lanar os olhos, assustava-o.
     O primeiro efeito foi deslumbramento.
     A repblica e o imprio, no tinham sido para ele, at ento, seno palavras
monstruosas. A repblica, uma guilhotina na luz do crepsculo; o imprio, um
sabre no meio da noite. Acabava de fit-los; e onde esperara no achar mais do
que um caos tenebroso, vira, com uma espcie de surpresa inaudita, envolta em
receio e alegria, cintilar astros: Mirabeau, Vergniaud, Saint-Just, Robespierre,
Camille Desmoulins, Danton; e erguer-se um sol Napoleo. No sabia onde
estava. Recuava cego por tanta luz. A pouco e pouco, passado o espanto,
acostumou-se queles esplendores, fitou as aces a sangue-frio, examinou os
personagens sem terror; a revoluo e o imprio colocaram-se-lhe luminosamente
em perspectiva diante dos olhos visionrios; viu cada um destes dois grupos de
acontecimentos e de homens, resumir-se em dois factos enormes; a repblica na
soberania do direito cvico restitudo s turbas; o imprio na soberania da ideia
francesa prescrita  Europa; viu sair da revoluo o grande vulto do povo, e do
imprio o grande vulto da Frana. Depois declarou em sua conscincia que tudo
aquilo fora bom.
     Do que o seu deslumbramento fazia pouco caso, nesta primeira apreciao
demasiadamente sinttica, julgamos necessrio indic-lo aqui. O que registamos 
o estado de um esprito que caminha. Os progressos no se operam todos de um
s impulso. Dito isto, uma vez por todas, tanto para o que precede, como para o
que vai seguir-se, continuamos.
     Conheceu ento que at quele momento no soubera mais da sua ptria, do
que soubera de seu pai. No tinha conhecido nem uma nem outro; tivera diante
dos olhos uma espcie de voluntria escurido. Agora via; e de um lado admirava,
do outro adorava.
     Sentia-se cheio de saudades e de remorsos; e pensava com desespero que s a
um tmulo podia dizer o que tinha na alma. Oh! Se seu pai ainda existisse, se
ainda o tivesse, se Deus, pela sua compaixo e bondade, tivesse permitido que
aquele pai fosse ainda vivo, como teria corrido, como se precipitaria para ele e lhe
diria: Aqui estou, meu pai! O meu corao  igual ao seu, sou seu filho! Como lhe
teria beijado a fronte encanecida, inundado os cabelos de lgrimas, contemplando
a cicatriz gloriosa; como lhe teria apertado as mos, adorado o fato, beijado os ps!
Porque tinha aquele pai morrido to cedo, antes da idade, antes da justia, antes
da afeio de seu filho! Mrio tinha um contnuo soluo no corao, que a todo o
momento dizia: Ai de mim! Ao mesmo tempo tornava-se mais verdadeiramente
grave, mais seguro da sua f e do seu pensamento.
     A cada instante completavam-lhe a razo novos clares da verdade.
Operava-se nele um como engrandecimento interior. Sentia uma espcie de
elevao natural produzida por aquelas duas coisas, novas para ele.
     Como quando se tem uma chave, tudo se abria; achava a explicao do que
havia odiado e penetrava no que aborrecera; via agora claramente o sentido
providencial, divino e humano, das grandes coisas que lhe tinham ensinado a
maldizer. Quando pensava nas suas precedentes opinies, que eram apenas, da
vspera, e que no obstante lhe pareciam j velhas, indignava-se e sorria-se. Da
reabilitao de seu pai passara  de Napoleo.
     Tudo isto, digamo-lo, no se realizara sem custo. Desde a sua infncia que o
tinham embebido no modo de pensar do partido de 1814, acerca de Bonaparte.
Ora, todos os preconceitos da restaurao, todos os seus interesses e instintos
tendiam a desfigurar Napoleo, a quem ela ainda execrava mais do que a
Robespierre, aproveitando com finura o cansao da nao e o dio das mes.
Bonaparte tornara-se uma espcie de monstro quase fabuloso, e para o pintar 
imaginao das crianas, o partido de 1814 fazia aparecer sucessivamente todas as
mscaras assustadoras, desde o que  terrvel ficando grandioso, at o que 
terrvel ficando grotesco, desde Tibrio at ao Papo.
     De modo que, falando-se de Bonaparte, cada qual tinha a liberdade de soluar
ou de rir s gargalhadas, contanto que o dio fizesse acompanhamento obrigado.
Mrio nunca tivera a respeito desse homem como lhe chamavam, outras ideias no
esprito.
     Tinham-se combinado com a tenacidade prpria da sua natureza. Havia
dentro de si um como homem pequeno que continuava a odiar Napoleo
tenazmente.
     Ao ler, porm, a histria, ao estud-la especialmente nos documentos e nos
materiais, o vu que cobria Napoleo aos olhos de Mrio, principiou a rasgar-se
pouco a pouco, entrevendo um no sei qu de imenso, e desconfiando que at
ento se tinha enganado, tanto a respeito de Bonaparte como do mais. Cada dia
via melhor, e ento comeou a subir lentamente, ao princpio quase foradamente,
em seguida com transporte e como que atrado por uma fascinao irresistvel,
primeiro os degraus escuros, depois os degraus vagamente alumiados, finalmente
os degraus esplendidamente luminosos do entusiasmo.
     Uma noite, estava o mancebo s no seu quarto, situado nas guas-furtadas.
Tinha a vela acesa e lia debruado sobre a sua mesa, ao p da janela aberta, por
onde entravam todas as variadas vises do espao e se misturavam com o fio das
suas ideias. Que grandioso espectculo oferece a noite! Ouvem-se uns rumores
surdos, sem se saber de onde vm, v-se rutilar como uma brasa Jpiter, que  mil
e duzentas vezes maior do que a terra, o azul  negro, as estrelas brilham, 
terrivelmente majestoso!
     O mancebo lia os boletins do grande exrcito, essas estrofes homricas
escritas no campo da batalha; de quando em quando via o nome de seu pai e a
cada passo o nome do imperador; o grande imprio aparecia-lhe todo; sentia
dentro em si como que uma mar que engrossava e subia; afigurava-se-lhe s
vezes que seu pai passava por ele como um sopro e lhe falava ao ouvido; pouco a
pouco tornava-se estranho, julgava ouvir os tambores, os canhes, o galope surdo
e longnquo da cavalaria; de espao a espao fitava os olhos no cu e via luzir nas
profundas amplides as constelaes colossais, depois voltava-os outra vez para o
livro que estava a ler e via agitarem-se-lhe diante dele outras coisas colossais.
Parecia-lhe o corao pequeno mbito para as emoes que experimentava. Mrio
sentia-se extasiado, trmulo, arquejante; de repente, sem ele mesmo saber que
fora o impelia ou a que poder obedecia, levantou-se, estendeu os braos para fora
da janela, fitou os olhos na escurido, no silncio, no infinito tenebroso, na eterna
imensidade, e gritou:
     - Viva o imperador!
     Desde ento terminou tudo: o Papo da Crsega o usurpador o tirano o
monstro que era amante de suas irms o histrio a quem Talma dava lies o
envenenador de Jafa o tigre Bonaparte tudo isto se desvaneceu e deu lugar no seu
esprito a um vago e brilhante claro, em que a uma altura inacessvel resplandecia
o plido fantasma marmreo de Csar.
     O imperador, que para seu pai fora apenas o bemquisto capito que inspirava
admirao e ardor no seu servio, para Mrio foi mais do que isso. Foi o
construtor predestinado do grupo francs que sucedia ao grupo romano no
domnio do Universo.
     Foi o maravilhoso arquitecto de um desabamento, o continuador de Carlos
Magno, de Lus XI, de Henrique IV, de Richelieu, de Lus XIV e da comisso de
salvao pblica, de certo com suas mculas, com suas faltas e mesmo com seus
crimes, quer dizer, sendo homem, porm augusto nas faltas, brilhante nas
mculas, poderoso nos seus crimes. Foi o homem predestinado que obrigava a
dizer a todas as naes: A grande nao. Foi mais ainda; foi a encarnao da
prpria Frana, conquistando a Europa pela espada que ele empunhava, e o
mundo pelo claro que de si derramava. Mrio viu em Bonaparte o espectro
deslumbrante que se erguer sempre na fronteira, guardando o futuro. Dspota,
mas ditador; dspota resultante de uma repblica e resumindo em si uma
revoluo. Tornou-se Napoleo para ele o homem-povo, como Jesus Cristo  para
todos os cristos, o homem-Deus.
     Como se v,  maneira de todos os recm-conversos de uma religio, a sua
converso embriagava-o, precipitando-se na adeso e indo mais longe do que
devera.
     Era essa a sua natureza; chegado a um declive, era-lhe quase impossvel parar.
     Apossava-se dele o fanatismo pela espada, embaraando no seu esprito o
entusiasmo pela ideia. No reparava que com o gnio confundia a admirao da
fora, isto , que estabelecia nos dois compartimentos da sua idolatria de um lado
o que  divino, do outro o que  brutal. A muitos respeitos no fez mais do que
principiar a enganar-se por outro modo. Admitia tudo. Encontra-se s vezes o
erro na indagao da verdade.
     Mrio possua uma espcie de boa f violenta que tomava tudo em globo. No
novo caminho em que ele entrara, tanto julgando as faltas do regime como
medindo a glria de Napoleo, o mancebo esquecia as circunstncias atenuantes.
     Fosse como fosse, estava dado um passo prodigioso. No que ele outrora vira a
queda da monarquia, via agora o triunfo da Frana. Estava mudada a sua
orientao.
     O que tinha sido poente, era nascente. Mudara de posio, ficando com o
rosto para onde estava com as costas.
     Todas estas revolues, porm, se efectuavam nele sem que sua famlia o
suspeitasse.
     Quando nesta misteriosa operao chegou a perder de todo a sua antiga pele
de bourbonista e de ultra, e a despojar-se da sua qualidade de aristocrata, de
jacobita e realista, ficando completamente revolucionrio, profundamente
democrata e quase republicano, dirigiu-se a casa de um gravador do cais dos
Ourives a encomendar cem bilhetes de visita com este nome: Mrio, baro de
Pontmercy.
     O que apenas era uma consequncia toda lgica da mudana que nele se
operara, mudana na qual tudo gravitava  roda de seu pai. Como, porm, no
conhecia ningum, meteu os seus bilhetes de visita no bolso,  mngua de no ter a
quem os entregar.
     Por outra consequncia tambm natural,  medida que se iam estreitando os
laos entre ele e seu pai,  medida que se lhe ia aumentando a venerao pela
memria do coronel e pelas coisas a favor das quais ele combatera durante vinte e
cinco anos, iam afrouxando os laos que o prendiam a seu av. Como j dissemos,
desde muito que o gnio de Gillenormand lhe desagradava. Havia j entre eles
todas as dissonncias costumadas entre um mancebo srio e um velho frvolo. A
alegria de Geronte molesta e exaspera a melancolia de Werther. Enquanto entre
eles se deu comunho de opinies polticas e de ideias, Mrio estivera ligado a
Gillenormand como por uma ponte. Apenas, porm, caiu essa ponte, abriu-se o
abismo. E, sobretudo, Mrio no podia de modo nenhum tolerar que
Gillenormand por motivos desarrazoados, o tivesse sem piedade arrancado aos
braos do coronel, privando deste modo o pai do filho e o filho do pai.
      fora de se compadecer de seu pai, chegara Mrio quase a odiar seu av.
     Nada disto, porm, como j dissemos, se revelava nas maneiras exteriores do
mancebo. Apenas se ia tornando cada vez mais frio, mais lacnico  mesa e mais
raro em casa. Se sua tia lhe ralhava, o mancebo curvava-se submisso, pretextando
os seus estudos, as suas aulas, os exames, as conferncias, etc. O av, esse no saa
do seu infalvel diagnstico: Namoricos! Namoricos! Eu bem sei o que isso .
     Mrio de tempos a tempos fazia algumas sadas.
     - Ora no me diro para onde  que vai sempre este estrina? - exclamava a
tia.
     Numa dessas excurses, que eram sempre pouco demoradas, fora o mancebo
a Montfermeil para cumprir a recomendao de seu pai, procurando o antigo
sargento de Waterloo, o estalajadeiro Thenardier. Thenardier tinha quebrado, a
estalagem estava fechada e ningum sabia que caminho ele tinha levado. Estas
averiguaes detiveram Mrio quatro dias por fora de casa.
     Nada disse o av isto agora sempre vai passando das marcas.
     Tanto a Gillenormand como a sua filha, afigurava-se-lhes que o mancebo
trazia ao peito, por baixo da camisa, um objecto suspenso do pescoo por uma fita
preta.
    VII
    Histria de saias



     O lanceiro de quem mais atrs falmos era um terceiro sobrinho de
Gillenormand por parte do pai, que vivia a vida de soldado longe da famlia e do
lar domstico.
     O tenente Theodulo Gillenormand possua todos os requisitos necessrios
para ser tido em conta de um belo oficial. Tinha uma cinta de mulher, um
modo donairoso de arrastar a espada, um bigode cuidadosamente penteado. Raras
eram as vezes que vinha a Paris, to raras, que Mrio nunca o vira. Conheciam-se,
pois, os dois primos apenas de nome. Theodulo, como julgamos ter j dito, era o
favorito da tia Gillenormand, que o preferia, porque o no tratava de perto. No
sermos tratados de perto d azo a suporem-nos todas as perfeies possveis.
     Uma manh, a filha mais velha de Gillenormand recolheu-se ao seu quarto
em to grande estado de excitao quanto lho permitia a sua placidez ordinria.
Mrio acabava de pedir mais uma vez licena a seu av para fazer uma pequena
excurso, tendo acrescentado que desejava partir na tarde desse mesmo dia.
     - Pode ir! - respondera Gillenormand, e acrescentara  parte, encrespando
desmesuradamente as sobrancelhas: - J  muito dormir fora de casa!
     Quanto  filha de Gillenormand, essa recolhera-se ao quarto sobremodo
impressionada, lanando das escadas este ponto de admirao:
     -  de mais! - E este outro de interrogao: - Mas onde  que ele ir?
     Ela entrevia alguma aventura amorosa mais ou menos ilcita, uma mulher na
penumbra, uma entrevista, um mistrio, que no desgostaria de ver por entre os
vidros dos seus culos. Saborear um mistrio  um como prazer de escndalo que
s boas almas no desagrada, porque no beatrio existe certo recndito
sentimento de curiosidade por tudo quanto cheira a escndalo.
      tia de Mrio, pois, dominava-a o vago apetite de saber uma histria.
     Para distrair-se desta curiosidade, que a agitava de um modo menos
conforme com os seus hbitos, buscara refgio no exerccio das prendas que sabia,
pondo-se a trabalhar num desses bordados do tempo do imprio e da restaurao,
abundantes de certos lavores parecidos com rodas de sege. Servio impertinente
que se coadunava com o gnio spero de quem dele lanava mo.
     Havia j algumas horas que ela estava sentada na sua cadeira, quando a porta
se abriu. Levantou o nariz, e ao ver diante de si o tenente Theodulo, fazendo-lhe a
continncia militar, no pde conter um grito de prazer. Ser velha, ser
invencioneira, ser beata, ser tia, no obsta a que qualquer mulher goste sempre de
ver entrar um lanceiro no seu quarto.
      - Tu por aqui, Theodulo? - exclamou ela.
      - De passagem, minha tia.
      - D c um abrao!
      - Pois no! - disse Theodulo.
      E o mancebo abraou-a. A tia dirigiu-se  sua secretria e abriu-a.
      - Mas demoras-te ao menos at ao fim da semana?
      - No, minha tia, vou hoje mesmo embora.
      - No  possvel!
      -  como lhe digo.
      - Fica, meu Theodulinho; peo-te que fiques.
      - O corao diz que fique, mas as ordens mandam que parta. O caso 
simples.
      Ns estamos de guarnio em Melun, porm recebemos ordem de marchar
para Gaillon, onde tambm ficaremos de guarnio. Ora, como um dos pontos do
nosso itinerrio  Paris, disse c comigo: J que aqui estou, vou visitar minha
tia.
      - Toma l ento pelo teu trabalho disselhe ela, metendo-lhe na mo dez
luzes. - Pelo prazer de a ver,  que deve dizer, minha tia - respondeu Theodulo,
abraando-a segunda vez, o que lhe proporcionou o prazer de sentir roarem-lhe
no pescoo os alamares da farda do mancebo.
      - Tu acompanhas o teu regimento a cavalo? - perguntou-lhe ela.
      - No, minha tia. Como desejava vir v-la, pedi uma licena especial para
fazer a viagem em diligncia e um camarada leva-me o cavalo.  verdade,
deixe-me perguntar-lhe uma coisa.
      - Que coisa?
      - Meu primo, Mrio Pontmercy, pelo que vejo, tambm viaja?
      - Como sabes tu isso? - exclamou a tia, subitamente ferida na parte mais
sensvel da sua curiosidade.
      - Quando cheguei, dirigi-me logo ao escritrio da diligncia para tomar um
lugar no coup.
      - E da?
      - Antes de mim, tinha vindo tomar um lugar na imperial outro viajante, cujo
nome vi escrito na lista.
    - E que nome era?
    - Mrio Pontmercy.
    - Que estrina! - exclamou a tia. - Se ele fosse um rapaz bem comportado
como tu, no passava assim uma noite numa diligncia!
    - Tambm eu vou pass-la.
    - Pois sim, mas tu  por dever, enquanto que ele  por estroinice.
    - Safa! - disse Theodulo.
    Neste ponto, a tia de Mrio teve uma ideia que, se ela fosse homem, f-la-ia
bater na testa.
    - Sabes que teu primo no te conhece?  disse ela para Theodulo.
    - Sei. Quanto a mim j o vi, mas quanto a ele, nem sequer se dignou fazer
reparo na minha pessoa.
    - Visto o que tu contas, fareis a viagem juntos?
    - Ele na imperial e eu no coup.
    - Para onde vai a diligncia?
    - Para Andelys.
    - Ento Mrio vai para l?
    - A no se dar o caso que fique em algum ponto intermedirio do caminho,
como eu. Eu tenho de apear-me em Vernon para tomar a mala-posta de GailIon.
L do itinerrio de Mrio no sei nada.
    - Mrio! Que nome to feio! Quem seria o da lembrana de lhe pr o nome
de Mrio? Ao menos tu chamas-te Theodulo.
    - Antes queria chamar-me Alfredo - disse o oficial.
    - Ouve c, Theodulo.
    - Diga, minha tia.
    - Repara.
    - Bem vejo.
    - Toma bem sentido.
    - Diga.
    - Pois bem. Mrio ausenta-se de vez em quando.
    - Ah!
    - Vai viajar.
    - Eh! Eh!
    - Dorme l por fora.
    - Oh!
    - Ns ainda desejvamos saber o que ele anda por l a fazer.
     Theodulo respondeu com a serenidade de um homem de bronze:
     - Alguma histria de saias.
     E acrescentou com esse sorriso intimamente certo do que afirma:
     - Algum namorico.
     - Isto com toda a certeza - exclamou a tia, que se persuadiu de que tinha
ouvido Gillenormand e que sentiu sair-lhe irresistivelmente a convico daquela
palavra namorico, acentuada do mesmo modo pelo tio e pelo sobrinho.
Continuou, pois:
     - Faze-nos um favor. V se consegues pescar alguma coisa a respeito de
Mrio.
     Como ele no te conhece, no podes ter nisso grande dificuldade. Uma vez
que temos namorico, olha se avistas a menina. E depois escreve-nos a contar o
caso, para fazer rir o av.
     Theodulo nem por isso gostava muito do ofcio de espio, mas como estava
sobremodo comovido com os dez luzes, aos quais se lhe afigurava ver a
possibilidade de uma continuao, aceitou a comisso, dizendo:
     - Farei o que deseja, minha tia.
     E acrescentou, falando para consigo:
     - Ora a estou eu feito aia!
     - Tu  que no eras capaz de fazer semelhantes estroinices! - disse a tia,
abraando-o. - Obedeces  disciplina, s escravo das ordens militares, s um
homem escrupuloso no cumprimento dos teus deveres, nem serias capaz de
deixar a tua famlia para ir ver uma dessas criaturas.
     O lanceiro fez a careta de satisfao de um Cartuxo louvado pela sua
probidade.
     Mrio, na tarde que se seguiu a este dilogo, entrou na diligncia sem
suspeitar que tinha quem lhe vigiasse os passos. Quanto ao encarregado de lhos
vigiar, a primeira coisa que fez foi dormir. Foi um sonho completo e
consciencioso. Argus dormiu toda a noite.
     De madrugada, o condutor da diligncia gritou:
     - Vernon! Estao de Vernon! Os passageiros que ficam em Vernon!
     O tenente Theodulo acordou.
     - Bem - tartamudeou ele, meio acordado meio a dormir - eu fico aqui.
     Depois, foi-se-lhe pouco a pouco aclarando a memria, varrendo dela as
nuvens do sono, e lembrou-se ento de sua tia, dos dez luzes, do encargo que
tomara de dar conta dos actos e gestos de Mrio, e tudo isto o fez rir.
     - Decerto j no vem na diligncia - disse ele consigo, ao mesmo tempo que
apertava a farda dos dias ordinrios. - Talvez ficasse em Poissy, ou talvez em Triel;
se no se apeou em Meulan, talvez se apeasse em Mantes, a no ser que ficasse em
Rolleboise, ou em Pacy, carregando sobre a esquerda para Evreux, ou tomando 
     direita para Laroche-Guyon. Corre atrs dele agora, minha tia. Que diabo
hei-de eu escrever  pobre velha?
     Neste momento roavam pela vidraa do coup as calas pretas de um
indivduo que descia.
     - Ser Mrio? - disse consigo o tenente.
     Era ele com efeito.
     Junto da carruagem, de envolta com cavalos e postilhes, estava uma rapariga
de campo, oferecendo flores aos passageiros:
     - Comprem flores, para as senhoras! - gritava ela.
     Mrio aproximou-se da rapariga e comprou-lhe as mais belas flores do seu
aafate.
     - Agora tambm eu tenho vontade de saber o que isto . A quem diabo vai ele
levar aquelas flores?  necessrio ser linda mulher para merecer um tal ramalhete.
     Quero v-la.
     E, no para satisfazer a incumbncia da sua tia, mas por curiosidade pessoal,
como os ces que caam por sua conta, comeou a seguir Mrio.
     Este no prestava a mnima ateno a Theodulo. Da carruagem apearam-se
algumas mulheres elegantes: mas ele nem as via. Parecia no reparar em coisa
alguma.
     - Est apaixonado! - pensou Theodulo.
     Mrio dirigiu-se para a igreja.
     - No tem que ver! - disse consigo Theodulo.  As entrevistas amorosas
temperadas com um tanto ou quanto de missa so as melhores. No h nada mais
mimoso do que uma olhadela que passa por cima de Deus.
     Chegando  igreja, Mrio no entrou e, contornando-a, desapareceu pela
parte de trs.
     - O ponto de reunio  fora da igreja - pensou Theodulo. - Vejamos a
pequena.
     E avanou nos bicos dos ps para o ngulo por onde Mrio tinha voltado.
     Apenas, porm, a dobrou, parou estupefacto.
     Mrio, com a fronte oculta entre ambas as mos, estava ajoelhado na erva,
sobre uma sepultura, onde tinha desfolhado o seu ramalhete. Na extremidade da
sepultura, numa elevao que determinava o lugar da cabea, havia uma cruz de
madeira preta com este nome em letras brancas: CORONEL BARO DE
PONTMERCY. Mrio soluava.
    A sua amante era uma sepultura.



    VIII
    Mrmore contra granito



     Fora junto daquele tmulo que Mrio viera da primeira vez que se ausentara
de Paris. Era ali que ele ia todas as vezes que Gillenormand dizia:
     - Fica fora de casa.
     O tenente Theodulo ficou absolutamente confundido com aquela apario
inesperada de um sepulcro; experimentou uma sensao desagradvel e singular,
que era incapaz de analisar e que se compunha do respeito a um tmulo de
envolta com respeito a um coronel. Recuou, deixando Mrio s no cemitrio; mas
neste movimento entrou a disciplina. A morte apresentou-se-lhe com dragonas
superiores, de sorte que quase lhe fez o cumprimento militar.
     No sabendo o que escreveria a sua tia, adoptou a resoluo de lhe no
escrever; e no teria provavelmente resultado coisa alguma da descoberta feita por
Theodulo sobre os amores de Mrio, se, por uma das misteriosas e frequentes
combinaes do acaso, a cena de Vernon no tivesse quase imediatamente em
Paris uma espcie de repercusso.
     Mrio voltou de Vernon no terceiro dia, dirigiu-se para casa de seu av e,
fatigado por duas noites passadas na diligncia, sentindo a necessidade de reparar
a insnia com uma hora de escola de natao, subiu rapidamente ao seu quarto,
no se demorou seno o tempo de despir o casaco de jornada e de tirar o cordo
preto que trazia ao pescoo, saindo logo para o banho.
     Gillenormand, erguido desde muito cedo como todos os velhos que gozam de
sade, sentira-o entrar e apressara-se em subir, o mais velozmente que lhe
permitiam as suas velhas pernas, a escada do ltimo andar, onde era o quarto de
Mrio, a fim de o abraar, de lhe fazer algumas perguntas enquanto o abraava, e
de ver se descobria, pouco mais ou menos, de onde ele vinha.
     Porm, o mancebo gastara menos tempo em descer do que o octogenrio em
subir; de maneira que quando Gillenormand entrou no seu quarto, j ele ali no
estava.
     A cama estava intacta e sobre ela, sem a mnima precauo, o casaco de
jornada e o cordo preto.
     - Antes assim - disse Gillenormand.
     E um momento depois entrava na sala onde estava sentada sua filha mais
velha, trabalhando no seu bordado do tempo da restaurao.
     A entrada foi triunfal.
     Gillenormand que levava numa das mos o casaco de Mrio e na outra o
cordo, gritava:
     - Vitria! Vamos penetrar o mistrio! Vamos saber o fim do fim; vamos
tomar conhecimento das libertinagens do nosso sonso. Estamos senhor da novela.
Tenho em meu poder o retrato.
     Com efeito, do cordo estava suspensa uma espcie de boceta escura, muito
semelhante a uma medalha.
     O velho pegou na boceta e contemplou-a por algum tempo antes de a abrir,
com o ar de voluptuosidade, de contentamento e de clera de um pobre
esfaimado, vendo passar prximo do nariz um excelente jantar que no fosse para
ele.
     -  evidentemente um retrato. Disto entendo eu. So coisas que se trazem
ternamente sobre o corao. Estpidos!  alguma abominvel labrega, capaz de
meter medo! Os rapazes de hoje tm o gosto depravado!
     - Vejamos, meu pai - disse a filha.
     A boceta abria-se por meio de uma mola. Abriram-na e s encontraram um
papelinho cuidadosamente dobrado.
     - Da mesma ao mesmo - disse Gillenormand, rindo. - J sei o que isto . Uma
carta de namoro.
     - Ah! Vamos a ouvir! - disse a tia de Mrio.
     E ps os culos. Desdobraram o papel e leram ambos:
     Para meu filho. O imperador fez-me baro no campo de batalha de
Waterloo.
     Visto que a restaurao me contesta este ttulo, que eu paguei com o meu
sangue, recomendo a meu filho que o tome e use como seu. Escuso de dizer que
ser digno dele.
     O que pai e filha experimentaram no se pode exprimir. Sentiram-se gelados
como pelo hlito de uma caveira, sem ousar trocar uma palavra. Apenas
Gillenormand disse em voz baixa e como falando consigo mesmo:
     - A letra  do traga-mouros!
     A filha examinou o papel, virou-o em todos os sentidos e depois tornou a
p-lo na caixinha.
     Neste instante caiu de um bolso do casaco um massozinho quadrilongo,
embrulhado em papel azul, que a filha de Gillenormand apanhou e
desembrulhou. Eram os cem bilhetes de visita que Mrio encomendara ao
gravador. Passou um a Gillenormand, que leu: Mrio, baro de Pontmercy.
     O velho chamou por Nicolette e disselhe, atirando a caixinha, o casaco e a fita
para o meio do cho:
     - Leve daqui estes trapos!
     Passou-se uma boa hora no mais profundo silncio, durante o qual estiveram
ambos sentados com as costas um para o outro, mas pensando provavelmente nas
mesmas coisas. Decorrida uma hora, a filha de Gillenormand disse:
     - Bonito!
     Da a alguns instantes, Mrio entrou. Antes mesmo de ter transposto o limiar
da porta da sala, avistou o av com um dos seus bilhetes de visita numa das mos,
o qual, ao v-lo, exclamou com o seu ar de superioridade burguesa e
escarnecedora, que parecia esmagar:
     - Ora esta! Ora esta! Com que ento agora s baro?! Muitos parabns! Que
quer isto dizer?
     Mrio corou levemente e disse:
     - Quer dizer que sou o filho de meu pai.
     Gillenormand interrompeu o seu riso e disse com dureza:
     - Teu pai sou eu!
     - Meu pai replicou Mrio com os olhos pregados no cho e ar de severidade
era um homem humilde mas herico, que serviu com glria a repblica e a
Frana, que foi grande entre os maiores de que fala a histria, que viveu um
quarto de sculo nos acampamentos, de dia com o peito exposto  metralha e s
balas, de noite debaixo de neve, de lama, de chuva, que tomou duas bandeiras, que
foi ferido vinte vezes, que morreu no olvido e no abandono, e que s teve um
defeito, amar de mais dois ingratos a ptria e a mim!
     Era mais do que Gillenormand podia ouvir. Aquela palavra repblica
levantara-se, ou, para melhor dizer, dera um pulo. Cada uma das palavras que
Mrio acabava de pronunciar tinha produzido no rosto do velho realista o efeito
do sopro de um fole sobre um tio ardente. De pardo tornara-se vermelho, de
vermelho purpurino e de purpurino cor de fogo.
     - Mrio! - exclamou ele. - Rapaz odiento! Eu no sei o que era teu pai, nem o
quero saber, disso no, sei; mas o que sei  que todos esses de que tu falas no
passaram de meia dzia de miserveis! Era tudo uma scia de tratantes, de
assassinos, de republicanos, de ladres! E digo tudo, tudo, sem exceptuar um s,
um nico, ouves, Mrio? Tu s tanto baro como este meu chinelo! Tudo uma
corja de bandidos que obedeceram a Robespierre e estiveram ao servio de
Bonaparte! Tudo traidores, que traram, traram e tornaram a trair o seu rei
legtimo! Tudo uma scia de cobardes, que fugiram aos prussianos e aos ingleses
em Waterloo! A est o que eu sei! Se teu pai era desses, ignoro-o, mas tenho pena
e sou um seu criado!
     Por sua vez, era Mrio o tio e Gillenormand o fole. Mrio sentia
percorrer-lhe em todos os membros um tremor involuntrio; no sabia o que
havia de fazer, ardia-lhe a cabea. Parecia o sacerdote a quem atiram ao vento
todas as suas hstias, o faquir que v o seu dolo cuspido por um homem que
passa. Era impossvel que diante dele se dissessem impunemente semelhantes
coisas. Mas que fazer? Seu pai acabava de ser calcado aos ps e pisado na sua
presena, por quem?, por seu av. Como vingar um, sem ultrajar o outro?
     Era impossvel que ele insultasse seu av e igualmente impossvel que ele no
desafrontasse seu pai. De uma parte um tmulo sagrado, da outra um homem de
cabelos brancos. O mancebo ficou alguns instantes brio e vacilante, com todo
este turbilho na cabea, depois ergueu-a e exclamou com voz atroadora, olhando
fixamente para seu av:
     - Abaixo os Bourbons e esse infame porco de Lus XVIII!
     Lus XVIII tinha morrido h quatro anos, mas o mancebo no se importava
com isso.
     O velho, de escarlate que estava, tornou-se subitamente mais. branco que os
seus cabelos. Voltou-se para um busto do duque de Berry, que estava sobre a
pedra do fogo, e saudou-o profundamente com uma espcie de majestade
singular. Depois foi duas vezes, lentamente e em silncio, do fogo para a janela e
da janela para o fogo, atravessando a sala e fazendo estalar o soalho, como uma
figura de pedra a andar. Da segunda vez curvou-se para sua filha, que assistia a
este choque com o pasmo estpido de uma ovelha, e disselhe com um sorriso
quase sereno:
     - Um baro como aquele senhor e um burgus como eu no podem habitar
debaixo das mesmas telhas!
     E, endireitando-se de repente, lvido, trmulo, terrvel, com a fronte
iluminada do assustador claro da clera, estendeu os braos para Mrio e
gritou-lhe:
     - Saia!
     Mrio, efectivamente, saiu da casa de seu av.
     No dia seguinte, Gillenormand disse a sua filha:
     - Mande sessenta pistolas de seis em seis meses a esse bebedor de sangue e
no me torne mais a falar dele!
     E como tinha um imenso resto de furor a desafogar e no sabia que fazer dele,
continuou a tratar sua filha por senhora durante mais de trs meses.
     Mrio, pela sua parte, tinha sado indignado, tendo-se dado uma
circunstncia que agravava a sua exasperao. H sempre dessas pequenas
fatalidades que complicam os dramas domsticos. Os ressentimentos aumentam,
posto que na essncia no cresam as ofensas. Nicolette, ao levar
precipitadamente por ordem do av os trapos de Mrio para o quarto dele,
deixara cair, sem dar f, provavelmente nas escadas das guas-furtadas, que eram
escuras, o medalho de pele de lixa preta que guardava o papel escrito pelo
coronel. Mrio, que no pde tornar a dar nem com o medalho nem com o
papel, ficou convencido que o senhor Gillenormand, como ele desde ento o
comeou a tratar, queimara o testamento de seu pai.
     O mancebo sabia de cor as poucas linhas escritas pelo coronel, e, por
consequncia, ainda se no perdera tudo. Mas o papel, a escrita, essa relquia
sagrada, tudo isso era o seu prprio corao. Que lhe haviam feito dele?
     Mrio havia sado sem dizer para onde ia, porque nem ele mesmo o sabia,
com trinta francos, o seu relgio e algum fato velho num saco de viagem.
Metera-se num cabriole que alugara  hora e dirigira-se  aventura para o bairro
latino.
     O que seria de Mrio?!
    LIVRO QUARTO
    Os amigos do ABC



    I
    Um grupo que esteve quase a tornar-se histrico



      Por esta poca, aparentemente indiferente, sentia-se vagamente certo
estremecimento revolucionrio, e pelo ar agitava-se certa aragem, vinda das
profundezas de 89 e de 92. Estava a juventude, permitam-nos a expresso, quase a
chegar  muda. Todos se iam transformando, quase sem dar por isso, em virtude
do prprio movimento do tempo. O ponteiro, que avana no mostrador do
relgio, avana tambm nas almas.
      Cada qual dava para a frente o passo que lhe competia dar. Tornavam-se os
realistas liberais e os liberais democratas.
      Era como uma preamar complicada com mil refluxos, e  prprio dos
refluxos produzirem misturas.
      Da combinaes de ideias sobremodo singulares; adorava-se igualmente
Napoleo e a liberdade. As nossas asseres acham-se comprovadas na histria
daquele tempo. Eram as miragens de ento. As opinies atravessam suas frases. O
realismo wolfareano, variedade extravagante, achou um rival no menos estranho
- o liberalismo bonapartista.
      Outros grupos de espritos, porm, havia que eram mais srios, que
sondavam o princpio, sem se desprender do direito. Apaixonavam-se pelo
absoluto, entreviam as realizaes infinitas; o absoluto, pela sua mesma rigidez,
arrebata os espritos pelo espao e f-los flutuar no ilimitado. No h nada como o
dogma para criar sonhos e nada como o sonho para gerar o futuro. Hoje utopia,
amanh carne e osso.
      As opinies adiantadas tinham dois fundos. Ameaava a ordem
estabelecida, um princpio de mistrio, que era suspeito e dissimulado. Sintoma
imensamente revolucionrio. O pensamento reservado do poder encontra-se na
sapa com o pensamento reservado do povo. A incubao das insurreies replica 
premeditao dos golpes de Estado.
      No havia ainda ento em Frana dessas vastas organizaes subjacentes,
como o fugendbund alemo e o carbonarismo italiano, mas aqui e alm
escavaes obscuras, que se iam ramificando.
     A Cougourde esboava-se em Aix, e em Paris, entre outras filiaes deste
gnero, havia a sociedade dos amigos do ABC.
     Que sociedade era esta dos amigos do ABC? Era uma sociedade que tinha por
fim aparente a educao das crianas e por fim real livrar os homens do jugo da
escravido.
     Denominavam-se amigos do ABC. O ABC era o povo, e por isso queriam
levant-lo. Calemburgo de que mal feito seria rir. Em poltica os calemburgos so
s vezes graves, sirva de exemplo o Castratus ad castra, que fez de Narss um
general de exrcito: sirva de exemplo: Barbari et Barberini; sirva de exemplo:
Fueros y Fuegos; sirva de exemplo: Tu es Petrus et super hanc Petram, etc., etc.
     Os amigos do ABC eram pouco numerosos. Era uma sociedade secreta em
estado de embrio; quase, diramos, um bando, se fosse da natureza dos bandos
produzir heris. Reuniam-se em Paris em dois locais: ao p da Praa do Mercado,
numa casa de pasto denominada Corintho, de que mais adiante nos ocuparemos, e
nas proximidades do Pantheon, num botequim chamado Caf Musain, hoje
demolido; ficava o primeiro destes lugares de reunio contguo aos operrios, o
segundo aos estudantes.
     Os concilibulos habituais dos amigos do ABC tinham lugar numa sala
interior do Caf Musain. Esta sala, bastante retirada do caf, com o qual
comunicava por um longo corredor, tinha duas janelas e uma sada com uma
escada falsa para o beco dos Grs. Ali se fumava, bebia, jogava, ria e conversava de
tudo em voz alta e de outra coisa em voz baixa. Na parede via-se pregado, indcio
suficiente para despertar o faro de um agente de polcia, um mapa antigo da
Frana no tempo da Repblica.
     A maior parte dos amigos do ABC eram estudantes em cordial inteligncia
com alguns operrios. Eis os nomes dos principais, que at certo ponto pertencem
 histria: Enjolras, Combeferre, Joo Prouvaire, Feuilly, Courfeyrac, Bahorel,
Lesgle ou Laigle, Joly, Grantaire.
     Estes mancebos formavam entre si uma espcie de famlia, de tanto que se
queriam. Todos, excepto Laigle, eram meridionais.
     Este grupo, que desapareceu nas voragens invisveis do passado, era notvel.
No ponto deste drama a que somos chegado, no ser sem utilidade dirigir um
raio de luz sobre essas frontes de jovens, antes do leitor as ver abismarem-se na
sombra de uma aventura trgica.
     Enjolras, que em primeiro lugar nomeamos (mais adiante saber o leitor
porqu), era filho nico e rico.
     Enjolras era um rapaz agradvel, capaz de ser terrvel. Belo como os anjos, um
Antinoo feroz. Dir-se-ia, ao ver-lhe nos olhos um reflexo de contnua melancolia
pensativa, que j tinha atravessado em alguma precedente existncia o apocalipse
revolucionrio. Conservava a tradio dele como testemunha. Sabia todos os
pormenores da grande empresa. Natureza pontifical e guerreira, estranha num
adolescente.
     Era oficiante e militante, no ponto de vista imediato, soldado da democracia;
em rela- o ao movimento contemporneo, sacerdote do ideal. Tinha as pupilas
penetrantes, as plpebras um pouco vermelhas, o lbio inferior grosso e
facilmente desdenhoso, a fronte espaosa. Grande fronte num rosto  como
grande espao de cu num horizonte.
     Do mesmo modo que certos mancebos do princpio deste sculo e do fim do
sculo passado, que principiaram a ser ilustres muito cedo, Enjolras tinha uma
juventude excessiva, fresca como a das donzelas, ainda que com suas horas de
palidez. Era homem feito e parecia criana Os seus vinte e dois anos tinham a
aparncia de dezassete, era grave, parecia no saber que existia na terra um ente
chamado a mulher. A sua nica paixo era o direito, o seu nico pensamento
deitar por terra o obstculo. No monte Aventino teria sido um Graccho, na
Conveno um Saint-Just.
     Nem se detinha a contemplar as rosas, nem sabia o que era a Primavera, nem
se demorava a escutar o canto das aves; no o impressionaria o peito nu de
Evadn mais do que Aristogiton; para ele, do mesmo modo que para Harmodio,
as flores s serviriam para esconder uma espada. Era um mancebo severo nas suas
alegrias. Diante de tudo o que no fosse a Repblica, baixava castamente os olhos.
Era o marmreo amante da liberdade. A sua palavra era asperamente inspirada e
produzia o estremecimento do hino. Tinha s vezes uns transportes com que
ningum contava.
     Desgraado do namorico com que ele deparasse no seu caminho! Se alguma
grisette da praa de Cambray ou da rua de S. Joo de Beauvais, ao ver aquela figura
de colegial fugido, aquela aparncia de pajem, aquelas longas pestanas louras,
aqueles olhos azuis, aqueles cabelos ao sabor do vento, aquelas faces rosadas,
aqueles lbios frescos, aqueles dentes lindos, cobiasse toda aquela aurora e se
resolvesse a ensaiar as armas da sua beleza sobre Enjolras, um olhar de temvel
surpresa lhe mostraria de improviso o abismo e a ensinaria a no confundir com o
querubim gal de Beauma-rehais o querubim terrvel de Ezequiel.
     A par de Enjolras, que representava a lgica da revoluo, representava
Combeferre a sua filosofia. Entre a lgica da revoluo e a sua filosofia h esta
diferena que a lgica pode ter por fim a guerra, enquanto que a filosofia no pode
ter por alvo seno a paz. Combeferre era o complemento e a rectificao de
Enjolras. Era menos alto e mais largo do que ele. Queria que se derramasse nos
espritos liberdade de princpios e generalidade de ideias. Revoluo, mas
Civilizao, dizia ele; e em roda da montanha alcantilada abria a vastido de um
horizonte azul. Da, em todas as vistas de Combeferre, alguma coisa de acessvel e
praticvel. Com Combeferre era a revoluo mais respirvel do que com Enjolras.
Este exprimia o direito divino da revoluo, Combeferre o seu direito natural. O
primeiro seguia Robespierre, o segundo confinava com Condorcet. Combeferre
vivia mais da vida vulgar do que Enjolras. Se queles dois rapazes fora lcito
chegar a ser personagens da histria, um seria denominado o justo, o outro
apelidado o sbio. Enjolras era mais viril, Combeferre mais humano. Homo e Vir,
era esta realmente a diferena que os distinguia. Combeferre tinha de afvel o que
Enjolras tinha de severo, por candidez natural. Gostava da palavra cidado, mas
preferia a palavra homem. De bom grado diria Hombre como os espanhis.
Combeferre lia tudo, ia aos teatros, frequentava os cursos pblicos, aprendia de
Arago a polarizao da luz, gostava sobretudo da preleco de Geoffroy
Saint-Hilaire em que ele explicava a dupla funo da artria cartida externa e
interna, uma das quais faz o rosto, a outra o crebro; andava em dia com tudo,
seguia a cincia passo a passo, confrontava Saint-Simon com Fourier, decifrava os
hierglifos, quebrava as pedras que encontrava, e discorria sobre geologia,
desenhava de memria uma borboleta bombyx, apontava os erros do Dicionrio
da Academia, estudava Puysgur e Deleuze, no afirmava nada, nem mesmo os
milagres; no negava coisa nenhuma, nem mesmo as almas do outro mundo;
manuseava a coleco do Moniteur, e meditava. Declarava que do mestre-escola
depende o futuro, e ocupava-se de questes relativas  educao.
     Queria que a sociedade trabalhasse sem descanso na elevao do nvel
intelectual e moral, na modernizao da cincia, em fazer circular as ideias e
fomentar a instruo da juventude, e manifestava receios de que a actual pobreza
dos mtodos, a misria do ponto de vista literrio, limitando-se a dois ou trs
sculos chamados clssicos, o dogmatismo tirnico dos pedantes oficiais, os
preconceitos escolsticos e as rotinas viessem por ltimo a converter os nossos
colgios em ostreiras rtificiais. Combeferre era erudito, purista, exacto,
politcnico, investigador e ao mesmo tempo pensativo at  quimera, diziam os
seus amigos. O mancebo cria em todos os sonhos, nos caminhos de ferro, na
supresso da dor, nas operaes cirrgicas, na fixao da imagem da cmara
escura, no telgrafo elctrico, na direco dos bales. Alm disto, assustava-se
pouco com as cidadelas construdas de todos os lados contra o gnero humano
pelas supersties, despotismos e preconceitos.
     O mancebo pertencia ao nmero dos que pensam que a cincia h-de chegar
a mudar a posio. Enjolras era um chefe, Combeferre um guia. Qualquer
desejaria combater com um e caminhar com outro. No que Combeferre no
fosse capaz de combater, ele no se recusava a arcar com os obstculos e atac-los
a peito descoberto e por exploso, mas pr pouco a pouco, pelo ensino dos
axiomas e pela promulgao das leis positivas, o gnero humano de acordo com
os seus destinos, agradava-lhe mais, e entre duas claridades sentia-se mais
inclinado para a iluminao do que para o incndio. Um incndio pode decerto
fazer uma aurora, mas porque se no h-de esperar antes que realmente
amanhea? Um vulco alumia, mas a luz do sol nascente ainda alumia mais.
Combeferre preferia talvez a alvura do belo ao claro do sublime.
     Uma claridade a espaos velada por nuvens de fumo, um progresso
comprado pela violncia no satisfaziam plenamente aquele srio e terno esprito.
A precipitao empinada de um povo na verdade, um segundo 93, assustava-o;
contudo ainda lhe repugnava mais a estagnao, porque sentia nela a putrefaco
e a morte; para tudo dizer, gostava mais da escuma do que do miasma, e preferia 
cloaca a torrente e a cascata do Niagara ao lago de Montfaucon. Em suma,
Combeferre no queria nem paragem nem precipitao. Ao passo que os seus
tumultuosos amigos, cavalheiresca-mente namorados do absoluto, adoravam e
fomentavam as esplndidas aventuras revolucionrias, Combeferre deixava obrar
o progresso, o bom progresso; frio, talvez, mas puro; metdico, mas
irrepreensvel; fleumtico, mas imperturbvel. Combeferre ajoelharia e ergueria as
mos para que o futuro chegasse com toda a sua candura e para que nada
perturbasse a imensa evoluo virtuosa dos povos. O bem deve ser inocente,
repetia ele a cada instante. E, efectivamente, se a grandeza da revoluo consiste
em encarar fixamente o deslumbrante ideal e voar para ele por entre os raios com
sangue e fogo nas garras, a beleza do progresso consiste em ser imaculado; de
modo que a diferena que existe entre Washington, que representa o segundo, e
Danton, em quem se encarna o primeiro,  a que separa o anjo de asas de cisne do
anjo de asas de guia.
     Joo Prouvaire era uma transio ainda mais moderada do que Combeferre.
     Apelidava-se Jehan, por esse momentneo caprichozinho que assinalava o
poderoso e profundo movimento que produziu o to necessrio estudo da
Idade-Mdia. Joo Prouvaire gostava das mulheres, cultivava um vaso de flores,
tocava flauta, fazia versos, amava o povo, lamentava a mulher, chorava o destino
da criana, confundia na mesma confiana o futuro e Deus e censurava a
revoluo por ter feito cair uma cabea rgia - a de Andr Chnier. Tinha a voz de
ordinrio delicada, mas s vezes tornava-se viril. Era instrudo at tocar as raias da
erudio e quase orientalista. Era bondoso a todos os respeitos, e, coisa muito
simples para quem sabe quanto  prxima a bondade da grandeza, em matria de
poesia preferia o imenso. Sabia italiano, latim, grego e hebraico, o que lhe servia
de no ler seno quatro poetas - Dante, Juvenal, Esquilo e Isaas. Em francs
preferia Corneille a Racine e Agrippa de Aubign a Corneille.
     Gostava de passear pelos campos de aveia e de boninas e ocupava-se quase
tanto das nuvens como dos acontecimentos. O seu esprito tinha duas atitudes -
uma da parte do homem, outra da parte de Deus: estudava ou contemplava. De
dia aprofun-dava as questes sociais; o salrio, o capital, o crdito, o casamento, a
religio, a liberdade de pensar, a liberdade de amar, a educao, a penalidade, a
misria, a associao, a propriedade, a produo e a distribuio, o enigma do
mundo que cobre de sombra o formigueiro humano; e de noite fitava os astros,
esses entes de desmesurada grandeza. Como Enjolras, Joo Prouvaire era rico e
filho nico. Falava devagar, inclinava a cabea, baixava os olhos, sorria com
embarao, trajava com pouco gosto, tinha uma figura desairosa, corava por
qualquer coisa, tmido em extremo, mas alis cheio de intrepidez.
     Feuilly era um lequeiro, rfo de pai e me, que mal ganhava trs francos por
dia e que s tinha um pensamento libertar o mundo. Tinha ainda outra
preocupao: instruir-se, ao que ele tambm chamava libertar-se a si mesmo.
Aprendera sem mestre a ler e a escrever, e tudo o que sabia aprendera-o por si e
sem auxlio estranho. Feuilly era um generoso corao. A todos amava. Era rfo,
mas adoptara os povos. Faltava-lhe sua me; lembrou-se da ptria. No queria que
na terra houvesse um homem que no tivesse ptria. Feuilly chocava dentro de si,
com o profundo instinto de adivinhar, particular ao homem do povo, o que ns
hoje denominamos a ideia das nacionali-
     dades. De propsito aprendera a histria para se indignar com
conhecimento de causa. Naquele juvenil cenculo de utopistas, especialmente
ocupados da Frana, Feuilly representava o exterior. A sua especialidade era a
Grcia, a Polnia, a Hungria, a Romnia e a Itlia. Pronunciava a todo o instante
estes nomes, a propsito ou no, com a tenacidade do direito. Exasperavam-no as
violaes da Turquia sobre a Grcia e sobre a Tesslia, da Rssia sobre Varsvia,
da ustria sobre Veneza. Entre todos o que mais o exaltava era o grande atentado
de 1772. Quando a indignao  verdadeira, no h mais soberana eloquncia, e
era essa, efectivamente, a que ele possua, O mancebo nunca se fartava de
estigmatizar essa data de infmia, 1772, de lamentar esse nobre e valoroso povo
suprimido por traio, de invectivar esse crime de trs, essa cilada monstruosa,
prottipo e modelo de todas essas horrorosas supresses de estado, que depois
feriram muitas nobres naes, e que, para assim dizer, lhes riscaram o auto do
nascimento. Todos os atentados sociais contemporneos derivam da diviso da
Polnia. A diviso da Polnia  um teorema de que so corolrios todos os actuais
malefcios polticos. Desde h um sculo para c, no h um s dspota, um
traidor, que no tenha visado, homologado, subscrevido e rubricado, ne varietur, a
diviso da Polnia. Se algum compulsa o registro das traies modernas,  esta a
que primeiro se oferece aos olhos. Antes de consumar o seu crime, consultou este
o congresso de Viena.
     1772 d o sinal da caa, 1815  a ceva. Tal era o texto habitual de Feuilly. Este
pobre operrio fizera-se o tutor da justia e ela recompensava-o fazendo-o grande.
 que, efectivamente, o direito tem o que quer que seja de eterno. Varsvia no
pode ser trtara, bem como Veneza no pode ser tedesca. Os reis perdem nisso o
trabalho e a honra. Tarde ou cedo a ptria submergida flutua na superfcie e
reaparece. A Grcia torna-se Grcia, a Itlia torna-se Itlia. O protesto do direito
contra o facto persiste sempre. O roubo de um povo no tem prescrio, nem
futuro estas ladroeiras em ponto grande. No se tira a marca a uma nao, como a
um leno.
     Quanto a Courfeyrac, seu pai chamava-se senhor de Courfeyrac. Uma das
falsas ideias da burguesia, a respeito de aristocracia e de nobreza, era acreditar na
partcula, que, como todos sabem, no tem significao nenhuma. Mas os
burgueses do tempo da Minerva tinham em to subida conta este pobre de, que se
tornava necessrio abdic-lo. O senhor de Chauvelin, assinava-se simplesmente
senhor Chauvelin; o senhor de Caumartin, senhor Caumartin; o senhor de
Constant de Rebecque, Benjamin Constant; o senhor de Lafayette, senhor
Lafayette. Courfeyrac, pois, que no quisera ficar atrs, assinava-se tambm
simplesmente Courfeyrac.
     Quase que, pelo que diz respeito a Courfeyrac, poderamos ficar aqui,
limitando-nos a dizer quanto ao resto: Courfeyrac, vede Tholomys.
     Efectivamente, Courfeyrac possua esse entusiasmo juvenil, que quase se pode
chamar a beleza diablica do esprito. Com os anos, esse entusiasmo extingue-se,
como a gentileza do gatinho novo, e toda essa graa vem a transformar-se em
bpede, no burgus, em quadrpede, no gato.
     Este gnero de esprito transmitem-no mutuamente as geraes que
frequentam as escolas, as sucessivas levas da juventude, passando de mo em mo,
quase cursores, sempre no mesmo estado, com pequena diferena, de modo que,
como acabamos de indicar, quem em 1828 escutasse Courfeyrac, imaginaria estar
ouvindo Tholomys em 1817. Com a diferena, porm, de que Courfeyrac era um
honrado moo. Debaixo das aparentes semelhanas de esprito exterior, era
grande a diferena entre ele e Tholomys. O homem latente, que em ambos
existia, no primeiro era muito diverso do que existia no segundo. Em Tholomys
existia um procurador, em Courfeyrac um paladino.
     Enjolras era o chefe, Combeferre o guia, Courfeyrac o centro. Os outros
davam mais luz, ele dava mais calrico; o certo  que ele possua todas as
qualidades de um centro, pois que era circular e luminoso.
     Bahorel figurara no sanguinolento tumulto de Junho de 1822, por ocasio do
enterro do jovem Lallemand.
     Bahorel era uma criatura de boa ndole e de mau trato, honrado, cesto roto,
prdigo com acerto, falador eloquente, ousado com ventura; o melhor estrina
que Deus ao mundo deitara; trajando coletes temerrios e proclamando opinies
escarlates; tranca-ruas em ponto grande, quer dizer, no gostando de nada tanto
como de uma bulha, porm mais de um tumulto, e mais ainda de uma revoluo
do que de um tumulto; sempre pronto a quebrar uma vidraa, em seguida a
descalar uma rua, depois a demolir um governo, a ver o efeito que fazia;
estudante do undcimo ano.
     Bahorel farejava o direito, mas no o fazia. Tinha tomado por divisa estas
palavras: Advogado nunca e por armas uma mesa de estudo, sobre a qual se
entrevia um capelo.
     Quando passava pela escola de direito, o que raras vezes lhe acontecia,
abotoava o casaco (ento ainda se no tinha inventado o palet) e tomava outras
precaues higinicas. Costumava dizer na entrada da escola: Que venerando
velho! e do decano, senhor Delvincourt: Que monumento! Nas aulas que
frequentava, via assunto para cantigas e nos seus professores ocasies de
caricatura. Recebia, sem fazer quase nada, uma avultada penso, o que quer que
fosse parecido com trs mil francos.
     Seus pais eram uns camponeses, a quem soubera inculcar respeito para com o
filho.
     Costumava dizer deles: Por serem aldeos e no burgueses,  que eles tm
inteligncia.
     Bahorel, homem caprichoso, frequentava grande nmero de cafs; os outros
tinham seus hbitos, Bahorel no. Passeava. Errar  do homem. Passear  do
parisiense. No fundo, esprito penetrante e mais pensador do que parecia.
     Servia Bahorel de lao entre os amigos do ABC e outros grupos ainda
informes, mas que mais tarde deviam vir a desenhar-se distintamente.
     No meio, porm, deste conclave de cabeas jovens, havia uma cabea calva, O
marqus de Avaray, a quem Lus XVIII fez duque por t-lo ajudado a subir para
um cabriole no dia em que emigrou, contava que em 1814, quando regressou a
Frana e o rei desembarcava em Calais, lhe fora apresentado um requerimento por
um homem.
     - O que  que pede? - disse o rei.
     - Senhor, desejava ser director do correio em qualquer terra.
     - Como se chama?
     - L'Aigle.
     O rei carregou o sobrolho, olhou para a assinatura do requerimento e viu o
nome assim escrito: Lesgle. Impressionou-o esta ortografia pouco bonapartista, e
principiou a sorrir.
     - Senhor - continuou o homem do requerimento - um dos meus
antepassados, que era criado de matilhas, tinha o apelido de Lesgueules, e eu desse
apelido formei o meu nome. Chamo-me, pois, Lesgueules, por contraco Lesgle e
por corrupo L'Aigle.
     Isto fez com que o rei terminasse o seu sorriso, e da por algum tempo, ou de
propsito ou por acaso, deu ao homem o lugar de director do correio em Meaux.
     O membro calvo do grupo era filho desse Lesgle ou Lgle e assinava-se Lgle
(de Meaux). Os seus camaradas chamavam-lhe Bossuet, por abreviatura.
     Bossuet era um rapaz de gnio folgazo, mas infeliz. O seu forte consistia em
no fazer coisa com coisa. Em compensao, ria de tudo. Tinha apenas vinte e
cinco anos e j era calvo. O pai viera por ltimo a possuir uma casa e um campo,
mas o filho no descansou enquanto no perdeu tudo numa arriscada especulao
que empreendeu, vindo a ficar sem nada. Tinha cincia e esprito, mas abortava.
Tudo lhe falhava, com tudo se enganava; tudo quanto construa lhe desabava em
cima. Se rachava lenha, cortava algum dedo; se arranjava uma amante, vinha logo
a descobrir que tambm tinha um rival. A cada instante lhe sucedia algum
contratempo; disso provinha a sua jovialidade. Eu c saio da lama, meto-me: no
atoleiro, costumava ele dizer. Pouco espantadio, porque para ele os desastres
eram coisas que j previa, encarava as desfortunas com serenidade e sorria das
travessuras do destino como quem sabe o que so gracejos.
     Era pobre, mas nunca  algibeira do seu gnio folgazo viu algum o fundo.
Depressa se lhe escoava das mos o ltimo soldo, nunca dos lbios a derradeira
gargalhada.
     Quando a adversidade lhe entrava pela porta dentro, saudava cordialmente
este antigo conhecimento: na ocasio das catstrofes batia na barriga, e tanta
familiaridade tinha com a fatalidade, que a tratava pelo seu nome prprio: Bons
dias, Azar, dizia ele.
     Estas perseguies da sorte tinham-lhe dado a faculdade inventiva. Nunca lhe
faltavam expedientes. Rarssimas vezes tinha dinheiro, mas apesar disso, achava
meio, quando queria, de fazer despesas loucas. Uma noite chegou a despender
cem francos com uma serigaita, o que lhe inspirou, no meio da orgia, este
memorvel dito:
     Fille de cinq louis; (Calemburgo intraduzvel, como quase todos. Cinq louis
pronuncia-se do mesmo modo que Saint Louis eis o equvoco), tira-me as botas.
     Bossuet estudava jurisprudncia. Como Bahorel, porm, caminhava
lentamente na realizao do seu intento de ser um dia advogado. O seu domiclio
era incerto e s vezes nenhum. Ora ficava em casa deste, ora em casa daquele, a
maior parte das vezes em casa de Joly, que estudava medicina e era mais novo do
que ele dois anos.
     Joly era o doente imaginrio de Molire, quando novo. O lucro que tinha
tirado da medicina era ser antes doente do que mdico. Contava apenas vinte e
trs anos e julgava-se valetudinrio, passando a vida a observar a lngua num
espelho. Afirmava que o homem  susceptvel de se magnetizar com uma agulha, e
por isso colocava a cama com a cabeceira para o sul e os ps para o norte, para que
de noite a grande corrente magntica do globo no lhe contrariasse a circulao
do sangue. Em ocasies de tempestade, costumava tomar o pulso a si mesmo. De
resto, o mais alegre de todos.
     Todas estas incoerncias, juventude, mono mania, doena, alegria, davam-se
perfeitamente entre si, do que resultava uma criatura excntrica e agradvel, que
os seus camaradas, prdigos de consoantes aladas, denominavam Joily.
     - Tu podes voar em quatro asas - (Asas em francs (ailles) tem o mesmo som
que a letra L), dizia-lhe Joo Prouvaire.
     Joly tinha por costume coar o nariz com o casto da bengala, o que  indcio
de um esprito sagaz.
     Todos estes mancebos to diversos, e de quem, afinal, cumpre falar com
seriedade, tinham uma mesma religio o Progresso.
     Todos eram filhos directos da revoluo francesa. Os mais levianos
tornavam-se solenes ao pronunciar a data de 1789. Seus pais, segundo a carne,
eram ou tinham sido bernardos, realistas, doutrinrios; pouco importava isso; esse
mistifrio anterior a eles, que eram moos, no lhes dizia respeito; nas veias
corria-lhes o puro sangue dos princpios. Tinham-se ligado intimamente com o
direito incorruptvel e com o dever absoluto.
     Filiados e adeptos, esboavam o ideal a ocultas.
     Entre todos estes coraes apaixonados e todos estes espritos convictos havia
um cptico. Como achara ele modo de se introduzir no meio daqueles crentes do
progresso? Por justaposio. Esse cptico chamava-se Grantaire e assinava-se
habitualmente desta enigmtica maneira: R (Grantaire tem a mesma pronuncia
que Grander, ou Regrand; origem e explicao da assinatura.). Grantaire era
um homem que punha todo o cuidado em no acreditar em coisa alguma.
Todavia, era um dos estudantes que mais tinham aprendido durante o tempo que
frequentara as aulas em Paris; sabia que o melhor botequim era o caf Lemblin e o
melhor bilhar o do caf Voltaire; que na Ermida do boulevard do Maine havia
excelentes bolos folhados e boas raparigas; que em casa da tia Saguet se guisavam
frangos como em parte nenhuma; que na barreira de Cunette se faziam belas
caldeiradas de peixe e que na barreira do Combate havia um vinhinho branco, que
regalava o paladar. De tudo sabia onde era o melhor; alm disto, sabia diversos
jogos e danas e era forte no jogo do pau. Porm no que a todos levava a palma era
em beber. Grantaire era desmesuradamente feio. Irma Boissy, a mais graciosa
debruadeira de botinhas daquele tempo, indignada da sua fealdade, proferira uma
vez esta sentena: Grantaire  impossvel; a fatuidade de Grantaire, porm, no
ligava importncia a essas coisas. Olhava terna e fixamente para todas as
mulheres, com ar de quem dizia: Se eu quisesse! e tentava fazer acreditar aos
companheiros que era geralmente requestado.
     Todas estas palavras: direitos do povo, direitos do homem, contrato social,
revoluo francesa, repblica, democracia, humanidade, civilizao, religio,
progresso, estavam todas - para Grantaire muito vizinhas de no significarem
coisa alguma. Ria-se delas. O cepticismo, carie da inteligncia, no lhe deixava
uma ideia inteira no esprito. Vivia com ironia, O seu axioma era este: No h
seno uma coisa certa, que  o meu copo cheio. Zombava de todas as dedicaes em
todos os partidos, tanto do irmo como do pai, tanto de Robespierre moo, como
de Loizerolles. Adiantam muito em estar mortos, dizia ele. Do crucifixo dizia:
Aquilo  uma forca que conseguiu o seu fim.
     Vagabundo, jogador, libertino, quase sempre embriagado, e causando aos
moos pensadores o dissabor de o ouvirem continuamente cantarolar: com a
msica do Viva Henrique IV.
     No h melhor bocadinho Que uma mulher boa e um copo de bom vinho.
     No obstante tudo isto, esse cptico tinha um fanatismo. Este fanatismo no
era uma ideia, nem um dogma, nem uma arte, nem uma cincia; era um homem:
Enjolras.
     Grantaire, admirava e venerava Enjolras. A quem se ligava naquela falange de
espritos absolutos, aquele esprito cheio de dvidas anrquicas? Ao mais
absoluto. De que modo o subjugava Enjolras? Pelas ideias? No. Pelo carcter;
fenmeno muitas vezes observado. A aderncia de um cptico a um crente,  uma
coisa simples como a lei das cores complementares. O que nos falta atrai-nos.
Ningum  afeioado  luz como o cego. O ano adora o tambor-mor. O sapo,
tem sempre os olhos voltados para o cu; para qu? Para ver voar o pssaro.
Grantaire, em quem se arrastava a dvida, gostava de ver Enjolras pairar na f.
Necessitava de Enjolras, sem que o percebesse claramente e sem que pensasse em
achar-lhe a explicao; aquela natureza casta, s, firme, recta, forte, cndida,
encantava-o. Admirava, por instinto, o carcter oposto ao seu. As suas ideias
frouxas, vacilantes, deslocadas, doentes, disformes, ligavam-se a Enjolras como a
uma espinha dorsal. A sua raquitis moral apoiava-se naquela firmeza. Grantaire
junto de Enjolras tornava-se algum. Ele prprio era composto de dois elementos,
aparentemente incompatveis. Era irnico e cordial. A sua indiferena amava. O
seu esprito passava sem crena, mas o seu corao no podia passar sem amizade.
     Contradio profunda; porque uma afeio  uma convico. A sua
organizao era assim. H homens que parece terem nascido para ser o verso, o
inverso e o reverso. So Pollux, Patroclo, Nisus, Eudamidas, Ephestion e
Pechmja. No vivem seno com a condio de se encostarem a outrem; o seu
nome  seguimento de outro nome, e no se escreve sem ser precedido da
conjuno e; a sua existncia no lhes  prpria; so o lado oposto de um destino
que lhes no pertence. Grantaire era um desses homens; era o inverso de Enjolras.
     Quase poderamos dizer que as afinidades principiaram pelas letras do
alfabeto.
     Na srie delas O e P so inseparveis. Podeis, se vos aprouver, pronunciar O e
P, ou Orestes e Pylades.
     Grantaire, verdadeiro satlite de Enjolras, frequentava tambm aquele centro
de mancebos; entre eles vivia, s com eles se sentia bem, seguia-os para toda a
parte. O seu maior prazer era ver os variados movimentos daquelas figuras,
atravs dos vapores do vinho. O seu gnio folgazo fazia com que o tolerassem
entre eles.
     Enjolras, crente, fazia pouco caso deste cptico, e, sbrio, desprezava este
bbado.
     Sentia apenas por ele alguma compaixo altiva. Grantaire era um Pylades mal
aceito.
     Sempre maltratado por Enjolras, repelido com dureza, expulso, mas voltando
sempre, dizia de Enjolras: Que belo mrmore!



    II
    Orao fnebre de Blondeau, por Bossuet



     Numa tarde, que de tal ou qual modo coincidia com os factos que h pouco
contmos, estava Laigle de Meaux sensualmente encostado  ombreira da porta
do caf Musain, com ar de cariatide em descanso, pois a nica coisa que
sustentava eram as suas cogitaes. Os seus olhares divagavam pela praa de S.
Miguel. Estar encostado  um modo de estar deitado de p que no desgostam os
pensadores. Laigle de Meaux pensava, sem melancolia, num pequeno
contratempo que lhe tinha sucedido na antevspera na aula de direito e que
modificava os seus planos pessoais de futuro, planos alis bastante indefinidos.
     Estar algum meditando no obsta a que passe um cabriole, nem a que d f
da sua passagem quem medita. Laigle de Meaux, pois, cujos olhos divagavam
incertos por todos os objectos que o cercavam, avistou por entre o seu
sonambulismo um veculo de duas rodas, movendo-se pela praa vagarosamente e
como que indeciso.
     Que cabriole era aquele? Porque ia assim devagar? Laigle passou-o em revista,
e viu dentro, ao lado do cocheiro, um mancebo, e diante do mancebo um saco de
viagem bastante volumoso. Num papel cosido na fazenda do saco podia quem
passava ler estas palavras escritas em grandes letras pretas: - MRIO
PONTMERCY.
     Este nome fez Laigle mudar de atitude. Endireitou-se e exclamou para o
mancebo do cabriole:
     - Senhor Mrio Pontmercy!
     O cabriole parou e o mancebo interpelado, que parecia ir tambm abismado
em profunda cogitao, voltou a cabea.
     - Heim? - disse ele.
     -  o senhor Mrio Pontmercy?
     - Sim, senhor.
     - Pois eu andava  sua procura - tornou Laigle de Meaux.
     - Como assim? - perguntou Mrio, pois era ele, efectivamente, que saa de
casa do av, achando-se em presena de uma figura que via pela primeira vez. - Eu
no o conheo.
     - Nem eu to-pouco - respondeu Laigle.
     Mrio julgou-se em presena de algum farsante e sups-se em princpio alvo
de uma mistificao no meio da rua. O mancebo, que naquela ocasio no estava
do melhor humor, franziu o sobrolho, porm, Laigle de Meaux prosseguiu
imperturbvel:
     - O senhor no estava antes de ontem na aula?
     -  possvel.
     -  certo.
     - O senhor  estudante? - perguntou Mrio.
     - Sim, senhor. Tambm sou. Antes de ontem entrei na sala por acaso. O
senhor bem sabe que s vezes a gente tem destas manias. Estava o lente a
principiar a apontar.
     Sabe como eles presentemente esto ridculos neste ponto;  terceira
chamada, no se estando presente, riscadela no caso e l vo sessenta francos pela
gua abaixo!
     Mrio principiava a escutar. Laigle continuou:
     - Quem fazia a chamada era Blondeau. Conhece Blondeau. Tem um
malicioso nariz de verruma que gosta imenso de farejar os ausentes. Principiou
disfaradamente pela letra P, do que eu no fiz caso, porque no estava
compreendido nesta letra. A chamada no ia mal. Estava tudo presente, por
consequncia riscado nem um s, o que enchia de tristeza aquela cndida alma de
Blondeau. Eu dizia com os meus botes:
     Blondeau, meu amor, hoje no fazes a mais pequena execuo. De repente,
Blondeau chama: Mrio Pontmercy! No responde ningum. Blondeau, cheio de
esperana, repete com mais fora: Mrio Pontmercy!  pega na pena. Eu, que
tenho bom corao, ao ver aquilo, disse comigo: A vai ser riscado um belo moo.
Ateno.  algum pndego de lei, com que estes senhores embirram, porque no
est para os aturar. No  nenhum estudante que estuda, nenhum p de banco,
nenhum pedante, massudo em letras, em teologia e sapincia, nenhum desses
parvos que querem passar por Petrus in cunctis.  algum respeitvel preguioso,
que anda  tuna, que embirra com o direito, que cultiva a grisette, que faz a corte
s damas, que a esta hora talvez se acha em casa da minha amante. Salvemo-lo!
Morra Blondeau! Neste momento molhava Blondeau a pena na tinta com que faz
os seus admirveis rabiscos, passeava os ferozes olhos pelo auditrio e repetia pela
terceira vez: Mrio Pontmercy! Presente! respondi eu ento; e o senhor no foi
riscado.
     - Oh! Senhor... - disse Mrio.
     - Mas fui-o eu! - acrescentou Laigle de Meaux.
     - No percebo - replicou Mrio.
     - Pois  bom de perceber. Eu tinha-me posto ao p da cadeira para responder
e ao p da porta para me pirar. O lente tinha os olhos cravados em mim. De
sbito, Blondeau, que deve ter o maligno nariz de que fala Boileau, salta  letra L,
que  a minha letra. Eu sou de Meaux e chamo-me Lesgle.
     - L'Aigle! - interrompeu Mrio. - Que belo nome!
     - O caso  que Blondeau chega a este belo nome e grita: Laigle! Presente!
respondo eu. Blondeau ento fita-me um olhar de meiguice como o do tigre e
diz-me, sorrindo: Se o senhor  Pontmercy, no  Laigle. Frase que ao senhor no
lhe pode soar muito bem, mas que s para mim era lgubre. Dito isto, riscou-me.
     - Oh! Senhor, eu sinto imenso!... - exclamou Mrio.
     - Antes de mais nada - atalhou-o Laigle  peo que me deixe embalsamar
Blondeau em algumas frases de sentido elogio. Eu suponho-o morto, porque a sua
magreza, a sua palidez, a sua frieza e cheiro, aquela sua postura hirta, j no eram
muito de homem vivo. Por isso digo: Erudimini qui judicatis terram. Aqui jaz
Blondeau, Blondeau Nariz, Blondeau Nasica, o boi da disciplina, bos disciplinam,
o molosso da pauta, o anjo da chamada, que foi recto, justiceiro, pontual, rgido,
honesto e medonho.
     Riscou-o Deus, como ele me riscou a mim!
     Mrio continuou:
      - Sinto-me contristado... - Mancebo, sirva-lhe de lio. Para o futuro seja
pontual.
      - Peo-lhe mil desculpas... -No queira expor os outros a que sejam riscados.
      -Aflige-me em extremo... Laigle desatou a rir.
      - E eu gostei imenso! Estava quase a receber a sentena de advogado e a tal
riscadela salvou-me! Renuncio aos triunfos do foro. Nem defenderei a viva, nem
atacarei o rfo! Adeus, toga; adeus, maadas jurdicas! Estou salvo e devo-lho a
si, senhor Pontmercy! Hei-de ir fazer-lhe uma visita em forma para lhe agradecer.
Onde mora?
      - Neste cabriol - disse Mrio.
      - Sinal de opulncia - respondeu Laigle com serenidade. - Dou-lhe os meus
parabns.  uma habitao que lhe fica por nove mil francos cada ano.
      Nesta ocasio vinha Courfeyrac a sair do caf.
      Mrio sorriu tristemente e continuou:
      - H duas horas que me vejo aqui metido e que estou morto por sair; mas,
acredite-me, no sei para onde hei-de ir.
      - Para minha casa, se quiser - disse Courfeyrac.
      - Eu devia ter o primeiro lugar - observou Laigle - mas, infelizmente, no
posso dizer a ningum: Venha para minha casa, porque a no tenho, - Cala-te,
Bossuet! - tornou Courfeyrac, - Bossuet?- disse Mrio. - Eu cuidei que o senhor se
chamava Laigle.
      - De Meaux - respondeu Laigle - Bossuet  uma metfora.
      Courfeyrac entrou para o cabriole e disse ao cocheiro:
      - Para a Porta de S. Jacques.
      E, nessa mesma noite, achava-se Mrio na Porta de S. Jacques, hospedado na
mesma casa em que morava Courfeyrac.



    III
    Surpresas de Mrio



     Em poucos dias, Mrio tinha travado relaes de estreita amizade com o
mancebo. A mocidade  a quadra das prontas ligaes e das cicatrizaes rpidas.
Na companhia de Courfeyrac, Mrio respirava livremente, o que para ele era uma
coisa bastante nova. Quanto ao mancebo que o agasalhava, no lhe dirigiu uma s
pergunta nem disso se lembrou. Naquela idade, os rostos dizem logo tudo, e,
portanto, a palavra torna-se intil. H mancebos que dizem mais com o rosto do
que com a boca. Naquelas idades basta olharem-se para ficarem logo conhecidos.
     Todavia, uma manh, Courfeyrac dirigiu-lhe de improviso esta pergunta:
     -  verdade, o senhor tem alguma opinio poltica?
     - Ora,  boa a pergunta! - respondeu Mrio, quase ofendido.
     - Ento que opinio ?
     - Eu sou democrata bonapartista.
     - Cambiante pardo de rato sossegado - disse Courfeyrac.
     No dia seguinte, Courfeyrac introduziu Mrio no Caf Musain.
     Depois murmurou-lhe ao ouvido com um sorriso:
     -  preciso que lhe d entrada na revoluo.
     E conduziu-o para a sala dos amigos do ABC, onde o apresentou aos outros
camaradas, dizendo a meia voz estas simples palavras, cuja significao Mrio no
compreendeu:
     -Um discpulo.
     Mrio cara num vespeiro de espritos. Todavia, posto que silencioso e grave,
no era ele nem o menos alado nem o menos armado.
     Mrio, at ento solitrio e propenso ao monlogo e ao aparte, por costume e
gosto, ficou um pouco assustado ao ver-se rodeado daquele bando de rapazes.
     Atraam-no e arrastavam-no todas aquelas diversas iniciativas, ao mesmo
tempo. O vaivm tumultuoso daqueles espritos livres funcionando, fazia-lhe
redemoinhar as ideias. As vezes, estas, no meio da perturbao, voejavam-lhe por
to longe, que lhe custava a dar com elas.
     O mancebo ouvia falar de filosofia, de literatura, de arte, de histria, de
religio, de uma maneira inteiramente nova para ele. Entrevia aspectos estranhos,
e, como os no punha em perspectiva, no tinha a certeza se o que Via era o caos
ou no. Quando abandonara as opinies de seu av pelas de seu pai, julgara que
no tornaria a mudar; agora, porm, receava, sem tal coisa ousar confessar, que
no lhe aconteceria o que supusera. O ngulo sob o qual ele via as coisas
principiava de novo a deslocar-se.
     Uma certa oscilao abalava todos os horizontes do seu crebro. Estranho
desarranjo interior que quase o incomodava.
     Parecia que para aqueles mancebos no havia coisas consagradas. Mrio
ouvia a respeito de tudo uma linguagem singular, que lhe molestava o esprito,
ainda timorato.
     Aparecia pelas esquinas um cartaz ornado com o ttulo de alguma tragdia do
antigo reportrio, chamado clssico.
     - Abaixo a tragdia querida dos burgueses! - gritava Bahorel.
     E Mrio ouvia replicar a Combeferre:
     - Isso no  assim, Bahorel. Uma vez que os burgueses gostam da tragdia,
deix-los l com o seu gosto. A tragdia de cabeleira tem sua razo de ser e eu no
sou dos que em nome de Esquilo lhe contestam o direito de existir. H esboos na
natureza, h pardias completas na criao: um bico que no  bico, asas que no
so asas, barbatanas que no so barbatanas, ps que no so ps, um grito
doloroso que causa riso, a tens o pato. Ora, se as aves domsticas existem a par
das que o no so, no vejo porque a tragdia clssica no deva existir ao lado da
tragdia antiga.
     Ou ento, sucedendo passar Mrio pela rua de Joo Jacques Rousseau, entre
Enjolras e Courfeyrac, este travava-lhe do brao e dizia-lhe:
     - Repare para o que eu digo. Esta  a rua Pltrire, chamada hoje de Joo
Jacques Rousseau, por causa de um singular casal que aqui morava h uns bons
sessenta anos.
     Era Joo Jacques e Teresa. De tempos a tempos, Teresa deitava ao mundo
uma criana, Joo Jacques deitava-a  roda.
     E Enjolras dizia com azedume para Courfeyrac:
     - Silncio diante de Joo Jacques! Admiro esse homem.  verdade que
enjeitou os filhos, mas adoptou o povo.
     Nenhum destes mancebos articulava esta palavra: o imperador. S Joo
Prouvaire dizia s vezes Napoleo; os outros diziam todos Bonaparte. Enjolras
pronunciava Buonaparte.
     Mrio sentia uma vaga admirao. Initium sapientias.



    IV
    A sala interior do caf Musain



    Uma das conferncias destes rapazes s quais Mrio assistia, e nas quais s
vezes tomava parte, foi um verdadeiro abalo para o seu esprito.
    Passava-se isto na sala interior do Caf Musain, onde nessa noite se achavam
reunidos quase todos os amigos do A B C. O candeeiro estava solenemente aceso.
     Falava-se sobre diversos assuntos, sem exaltao, mas com rudo.
     Excepto Enjolras e Mrio, que se conservavam silenciosos, cada qual discorria
sobre o que lhe vinha  cabea.
     As conversas entre amigos tm s vezes destes tumultos pacficos. Tanto
podia ser uma brincadeira e uma mistura informe como uma conversao.
Propunham questes, conversavam em grupos formados aos cantos da sala, na
qual no era admitida mulher nenhuma, excepto Luisinha, criada do botequim,
que a atravessava de vez em quando para ir da cozinha para a sala do caf ou desta
para a cozinha.
     Grantaire, completamente embriagado, atordoava os ouvidos dos que o
rodeavam, num dos cantos, discorrendo em voz atroadora e gritando:
     - Tenho sede. Mortais, eis o meu desejo: que o tonel de Heidelberg tenha um
ataque apoplctico e que eu seja uma das doze sanguessugas que lhe mandarem
aplicar. Eu queria beber, porque desejo esquecer a vida. A vida  uma hedionda
inveno de no sei quem. Uma coisa que no dura nada e nada vale; e
matamo-nos para viver. A vida  uma armao quase a vir abaixo. A felicidade,
um painel pintado s de um lado. O Eclesiastes diz que tudo  vaidade, e eu penso
como este pobre homem, que de certo nunca existiu. Zero vestiu-se de vaidade,
porque no queria andar nu.  vaidade, que tudo encobres com os teus palavres!
Uma cozinha  um laboratrio, um danarino  um professor, um saltimbanco 
um ginasta, um jogador de soco  um pugilista, um boticrio  um qumico, um
cabeleireiro  um artista, um pedreiro  um arquitecto, um jockey  um
desportista, um bicho de conta  um pterygiramo. A vaidade tem avesso e direito;
o direito  estpido,  o preto coberto de avelrios; o avesso  tolo.  o filsofo
coberto de farrapos. Lamento um e rio-me do outro. As chamadas honras e
dignidades, e mesmo a honra e a dignidade, so geralmente coisas que nada
valem. Os reis fazem um joguete do orgulho humano.
     Calgula fazia cnsul o seu cavalo; Carlos II armava cavaleiro um lombo de
vaca. Ora imaginai-vos entre o cnsul Esporeado e o baro Bife. Quanto ao valor
intrnseco dos indivduos, no vejo que seja mais digno de respeito. Escutai o
panegrico que o vizinho faz do vizinho. Branco sobre branco  feroz; se a aucena
falasse, o que ela no diria da pomba! Uma beata murmurando de outra  mais
venenosa que o spide ou a serpente azul.  pena que eu seja um ignorante, seno
citava-lhes uma imensidade de coisas; mas  que eu no sei nada. Ora a est; eu
fui sempre um rapaz de talento; quando frequentava a aula de Gros, em vez de
garatujar figurinhas, passava o tempo a bifar mas. Rapim (Aprendiz de pintor) 
o macho de rapina. Isto pelo que me diz respeito; quanto a vocs, no me ficam a
dever nada. A respeito das vossas perfeies, excelncias e qualidades, estou eu de
pedra e cal.
     Todas as virtudes ficam paredes meias com um vcio, o econmico parte com
o avarento, o generoso confina com o prdigo, o valente com o valento; quem
diz: muito piedoso, diz: algum tanto carola; h tantos vcios na virtude, como de
buracos na capa de Digenes. Qual admirais vs: o assassinado ou o assassino?
Csar ou Bruto? A opinio geral pronuncia-se pelo assassino. Viva Bruto, que foi
um assassino. Isto  que  virtude. Virtude? Seja, mas loucura tambm. Nesses
grandes homens h sempre destas manchas estranhas. O Bruto que matou Csar
estava enamorado de uma esttua de menino. Era feita pelo estaturio grego
Strongylion, o qual tambm tinha cinzelado essa figura de amazona chamada
Linda-Perna. Eucnemos, que Nero trazia consigo nas suas viagens. Este
Strongylion apenas deixou duas esttuas, que puseram de acordo entre si, Bruto e
Nero; Bruto apaixonou-se de uma, Nero de outra. A histria no passa de uma
longa repetio. Cada sculo no faz mais do que copiar o outro que o precedeu. A
batalha de Marengo  a cpia da batalha de Pydna; o Tolbiac de Clvis e o
Austerlitz de Napoleo parecem-se como duas gotas de sangue. Eu pouco caso
fao da vitria, porque no h coisa mais estpida do que vencer; a verdadeira
glria  convencer. Mas tentai l vs provar alguma coisa! Contentai-vos com o
triunfo, que mediocridade! Com a conquista, forte misria! Ai, em tudo vaidade e
cobardia! No h nada que no obedea ao triunfo, at a gramtica. Si volet usos,
diz Horcio. Portanto, desprezo o gnero humano. Agora quereis que desa de
todo s parcelas? Quereis que me ponha a admirar os povos? Que povo, fazem
favor de me dizer? A Grcia? Os atenienses, esses parisienses de outro tempo,
matavam Phocionr que vale o mesmo que dizer Coligny, e adulavam os tiranos a
ponto de Anacephoro dizer de Pisistrato: A urina dele atrai as abelhas. O
homem mais considerado da Grcia, durante cinquenta anos, foi o gramtico
Philetas, o qual era to baixo e to magro, que se via na necessidade de andar de
sapatos chumbados para no ser arrebatado pelo vento. Na praa principal de
Corinto havia uma esttua cinzelada por Silanion e catalogada por Plnio, a qual
representava Episthato. Que fez Episthato? Inventou o gambito. Isto resume a
Grcia e a glria. Passemos a outra. Admirarei a Inglaterra? Admirarei a Frana?
A Frana, porqu? Por causa de Paris? Acabo de lhes dizer a minha opinio a
respeito de Atenas. A Inglaterra, porqu? Por causa de Londres? Tenho dio a
Cartago.
     Quanto mais, Londres, metrpole do luxo,  a capital da misria. S na
parquia de Charing-Cross morrem anualmente de fome cem pessoas. A est
Albion. Para cmulo de tudo acrescentarei que j vi danar uma inglesa com uma
grinalda de rosas na cabea e com culos azuis. Portanto, a respeito de Inglaterra
temos falado. Se no admiro John Buli, admirarei Jonathan? Gosto pouco deste
irmo com escravos. Tirai  Inglaterra times is money, que lhe fica? Tirai 
Amrica cotton is king, que lhe fica? A Alemanha  a linfa, a Itlia a blis. Quereis
que nos extasiemos diante da Rssia?
     Voltaire admirava-a, mas tambm admirava a China. Concordo em que a
Rssia tem suas belezas, entre outras um grande despotismo, mas eu lamento os
dspotas. Tm uma sade muito melindrosa. Um Aleixo decapitado, um Pedro
apunhalado, um Paulo estrangulado, outro Paulo calcado aos ps, diversos Ivs
degolados, muitos Nicolaus e Baslios envenenados, tudo isto indica que o palcio
dos imperadores da Rssia est em flagrantes condies de insalubridade. Todos
os povos civilizados oferecem  admirao do filsofo esta circunstncia: a guerra.
Ora a guerra, a guerra civilizada, resume em si todas as formas da depredao,
desde os assaltos dos trabuqueiros nos desfiladeiros do monte Jaxa at aos
latrocnios dos ndios Comanches no Cabo Duvidoso. Ora, dir-me-o vocs, a
Europa sempre vale mais do que a sia!
     Concordo em que a sia  farsista, mas no vejo razo para que escarneais
do Gro Lama, vs, povos do ocidente que entremeastes as vossas modas e
elegncias de todas as imundcies disfaradas em majestades, desde a camisa suja
da rainha Isabel at  cadeira furada do delfim. Senhora humanidade, sabem o que
lhes digo? Em Bruxelas  onde se consome mais cerveja, em Estocolmo mais
aguardente, em Madrid mais chocolate, em Amesterdo mais genebra, em
Londres mais vinho, em Constantinopla mais caf, em Paris mais absinto; aqui
esto todas as naes teis. Paris, em suma, vence tudo. Em Paris, at os trapeiros
so sibaritas; Digenes gostaria tanto de ser adelo na praa Maubert como filsofo
no Pireu. Fiquem sabendo mais isto: as tabernas dos adelos chamam-se bibines; as
mais clebres so a Casswola, e o Matadouro.
     Portanto,  tascas, graolas, bodegas, tabernas, baiucas, casas de pasto, bibines
dos trapeiros, caravansares dos califas, tomo-vos por testemunhas de que sou um
voluptuoso, que como no Richard a quarenta soldos por cabea e que quero
tapetes, da Prsia para neles rolar Clepatra nua! Onde est Clepatra? Ah, s tu,
Luisinha! Bom dia.
     Assim tagarelava Grantaire, meio embriagado, a um dos cantos da sala
interior do Caf Musain, agarrando a criada e impedindo-lhe a passagem.
     Bossuet tentava faz-lo calar, acenando-lhe com a mo, porm ele continuava
cada vez com mais fora:
     - Aigle de Meaux, baixa as patas. Fao tanto caso desse teu gesto de
Hipcrates recusando o revendo de Artaxerxes como de coisa nenhuma.
Dispenso-te de me tranquilizares. E demais, eu estou triste. Que quereis que vos
diga? O homem  mau, o homem  disforme; a borboleta satisfaz ao seu fim, o
homem no. Enganou-se Deus com este animal. Uma multido  uma coleco de
fealdade. O primeiro homem que se vos depara  um miservel. Femme (Femme
mulher.) rima com infame.  como vos digo; estou com spleen, complicao de
melancolia, com a nostalgia e mais a hipocondria, e estou zangado, enfurecido,
aborrecido, no fao seno abrir a boca, sinto-me morto, sinto-me estpido. Os
diabos levem Deus!
     - Cala-te, R. maisculo! - tornou Bossuet, que discutia um ponto de direito
com alguns dos companheiros, meio enterrado num discurso em gria judiciria,
que conclua desta forma: - ...E quanto a mim, posto que eu seja apenas um
legista, ou quando muito um procurador curioso, sustento o seguinte: que nos
termos do uso geralmente adoptado na Normandia, que todos os anos pelo S.
Miguel devem todos e cada um dos proprietrios, ou herdeiros, salvo outro
direito, pagar ao senhor um Equivalente, e isto por todas as enfiteuses,
arrendamentos, bens alodiais, contratos dominirios e dominais, hipotecrios e
hipotecais... - Ecos, ninfas queixosas - cantarolava Grantaire.
     Uma folha de papel, um tinteiro e uma pena entre dois copos, objectos
colocados ao p de Grantaire sobre uma mesa quase silenciosa, anunciavam que se
estava ali esboando um vaudeville, Este importante negcio tratava-se em voz
baixa, quase tocando-se as duas cabeas dos compositores.
     Comecemos pelos nomes dos personagens. Achados os nomes, achado temos
o enredo.
     -  verdade, dita l que eu escrevo, - Dorimon?
     - Rendeiro?
     -Est bem de ver.
     - Celestina, sua filha.
     - ...ilha. Que mais?
     - O coronel Sainval.
     - Sainval  sedio. Antes Valsin.
     Ao lado dos aspirantes vaudevilistas, um outro grupo, que tambm se
aproveitava da confuso geral para falar baixo, discutia sobre um duelo. Um
veterano de trinta anos, aconselhava um novato de dezoito, explicando-lhe com
que adversrio se metia.
     - Diabo,  preciso cuidado! Olhe que ele  uma boa espada. O seu jogo 
descoberto. Ataca o adversrio sem dissimulao, com firmeza, mo certeira,
rapidez e fora, e os seus rebates so calculados com preciso atemtica. Safa! E
ainda por cima  canhoto!
     No canto oposto a Grantaire, Joly e Bahorel jogavam o domin e falavam de
amor.
     - s feliz - dizia Joly. - Tens uma amante que est sempre a rir.
     - Pois  um defeito - respondia Bahorel.  Uma amante no deve rir, porque
anima a gente a engan-la. Vendo-a alegre, no sentimos remorso; pelo contrrio,
vendo-a triste, volta a conscincia.
     - Ingrato! No ds apreo a uma mulher que sabe rir! E vocs no ralham
nunca um com o outro?
     - No, porque assim o estipulmos no nosso contrato. Quando celebrmos a
nossa santa-alianazinha, assinmos mutuamente certas fronteiras, que nunca
ultrapassmos. O que fica situado para l do norte pertence a Vaud, do lado do sul
pertence a Gex. Dali a paz que reina entre ns.
     - A paz  a felicidade digestiva.
     - E tu, Joly, no que deram os teus arrufos com a...? bem sabes de quem eu
quero falar.
     - Estamos na mesma. No h foras humanas que demovam a cruel.
     - Para enternecer um corao bastava a tua magreza.
     - Ai!
     - No teu lugar no me importava mais com ela.
     - Isso  fcil de dizer.
     - E de fazer. Ela no se chama Musichetta?
     - Chama. Ah, meu pobre Bahorel,  uma rapariga de mo cheia, literata, com
uns ps pequenssimos, umas mos pequeninas, que veste com gosto, branca,
gordinha e uns olhos de mulher que deita cartas! Ando doido por ela!
     - Meu caro, nesse caso, deves procurar agradar-lhe, tornares-te elegante e
mostrar-lhe que s um rapaz tirado das canelas. Compra-me ao Staub umas boas
calas de couro de l, que podem servir.
     - Por quanto? - gritou Grantaire.
     No terceiro canto agitava-se uma discusso potica. Andava aos murros com
a mitologia crist a mitologia pag. Tratava-se do Olympo, cujo partido Joo
Prouvaire tomava at por romantismo. Joo Prouvaire era tmido quando no
puxavam por ele.
     Excitado, porm, prorrompia; uma espcie de ligeireza irnica acentuava o
seu entusiasmo; e era ao mesmo tempo prazenteiro e lrico.
     - No insultemos os deuses - dizia ele - que de certo ainda no acabaram. No
me parece que Jpiter tenha morrido. Os deuses so sonhos, dizes tu. Pois olha,
at na natureza, tal qual ela hoje , depois que se esvaeceram esses sonhos, se
encontram todos os antigos e grandes mitos pagos. Certas montanhas com perfil
de cidadelas, como, por exemplo, a Vignemale, para mim so ainda o toucado de
Cybele, nem ningum ainda me provou que Pan no vem de noite soprar no
tronco oco dos salgueiros, tapando alternadamente os buracos com os dedos, e
sempre acreditei ter uma relao qualquer com a cascata de Pissevache.
     No outro canto, o ltimo, discutia-se poltica, impugnando-se a outorga da
Carta.
     Combeferre defendia-a com pouco calor e Courfeirac batia-a de frente com
toda a energia. Em cima da mesa achava-se um desastrado exemplar da clebre
Carta-Touquet. Courfeyrac pegara nela e agitava-a misturando aos seus
argumentos o rugido daquela folha de papel.
     - Em primeiro lugar, no quero reis, e no os quero, ainda que no seja seno
atendendo  economia; um rei  um parasita. No ficam de graa a ningum. Ora
ouve por quanto eles ficam: preo dos reis! Quando morreu Francisco I era de
trinta mil francos de renda a dvida pblica em Frana: quando morreu Lus XIV,
era esta de dois mil e seiscentos milhes e valia o marco vinte e oito francos,
equivalendo, portanto, esta soma em 1760, segundo diz Desmarets, a quatro mil e
quinhentos milhes e hoje a doze mil. Depois, em que pese a Combeferre, a
outorga de uma Carta  um mau expediente de civilizao. Salvar a transio,
moderar a passagem, enfraquecer o abalo, fazer passar a nao insensivelmente da
monarquia para a democracia pela prtica das fices constitucionais, tudo isto
so razes pssimas quanto podem s-lo, No! No!
     No deslumbremos o povo com o brilho de uma falsa luz. Estiolam-se e
empali-decem os princpios no vosso subterrneo constitucional. Nada de
degeneraes, nem de compromissos, nem de outorgas feitas ao povo pelo rei. Em
todas essas outorgas h um artigo 14. A par da mo que d vem a garra que tira.
Recuso sem rebuo a tal Carta.
     Uma Carta  uma mscara; por baixo est sempre a mentira. O povo que
aceita uma Carta abdica. O direito no sofre divises; dividido, deixa de ser
direito. Nada de Carta.
     Era no Inverno. Courfeyrac no resistiu  convidativa chama de duas achas
que ardiam no fogo. Amarrotou nas mos a pobre Carta-Touquet e atirou-a ao
lume, onde prontamente se queimou. Combeferre viu arder filosoficamente a
obra-prima de Lus XVIII e contentou-se em dizer:
     - A Carta metamorfoseada em chama.
     E por cima de todas aquelas cabeas faziam uma espcie de jovial
bombardea-mento os sarcasmos, as chufas, os ditos agudos, os equvocos, isso a
que os franceses chamam entraim e os ingleses humour, o bom e o mau gosto, as
boas e as ms razes, todas as delirantes fascas do dilogo, subindo ao mesmo
tempo e cruzando-se em todas as direces da sala.



    V
    Amplia-se o horizonte



     O choque entre os espritos juvenis  admirvel por nunca se poder prever a
fasca nem adivinhar o relmpago. Que rebentar daqui? Ningum sabe. Do meio
do enternecimento sai a gargalhada. No momento burlesco, eis que entra em cena
a seriedade. Os impulsos dependem de qualquer palavra indiferente. Domina
soberanamente o estro de cada um. Basta uma graa para abrir o campo ao
inesperado. So conversas que desandam de sbito e em que a perspectiva
repentinamente muda. O maquinista delas  o acaso.
     Um pensamento severo, extravagncia sada do meio de toda aquela
algazarra, atravessou de repente a confusa celeuma levantada por Grantaire,
Bahorel, Prouvaire, Bossuet, Combeferre e Courfeyrac.
     Como sobrevm uma frase no dilogo? Como  que ela de repente se sublinha
por si mesma na ateno dos que a ouvem? Acabamos de diz-lo; ningum sabe.
No meio da algazarra, Bossuet terminou no sabemos que apstrofe a Combeferre
pela seguinte data:
     - 18 de Junho de 1815: Waterloo.
     A este nome de Waterloo, Mrio, que estava encostado a uma mesa, sobre a
qual se achava um copo de gua, tirou o punho de baixo da barba em que se
apoiava e comeou a olhar fixamente o auditrio.
     - A f que me impressiona e me causa estranheza este nmero 18.  o nmero
fatal de Bonaparte. Ponham Lus adiante e brumrio atrs, e tero completo o
destino desse homem, com a expressiva circunstncia de ser o princpio
imediatamente seguido do fim.
     Enjolras, at ento silencioso, quebrou a sua mudez e dirigiu-se a Courfeyrac,
dizendo:
     - Queres dizer o crime seguido da expiao.
     A palavra crime ultrapassava os limites do que Mrio, j bastante
impressionado pela sbita evocao de Waterloo, podia suportar.
     Levantou-se, pois, caminhando lentamente para o mapa de Frana, pendente
da parede, e no fundo do qual se via uma ilha numa diviso separada, ps o dedo
nessa diviso e disse:
     - Aqui est a Crsega, uma ilha pequena que tornou grande a Frana.
     Estas palavras foram uma como rajada de rspido vento. Interromperam-se
todos, suspeitosos de que alguma coisa ia principiar.
     Bahorel, replicando a Bossuet, preparava-se para assumir uma atitude que lhe
era habitual, mas renunciou a ela para escutar.
     Enjolras, que no tinha os seus olhos azuis fixos em ningum, parecendo que
contemplava o espao, respondeu sem olhar para Mrio:
     - A Frana, para ser grande, no precisa de Crsega nenhuma. A Frana, 
grande por ser Frana. Quia nominor leo.
     Mrio, todavia, no se resolveu de modo nenhum a recuar; voltou-se para
Enjolras e a sua voz retumbou com uma vibrao causada por um estremecimento
ntimo.
     - Longe de mim o pensamento de deprimir a Frana! Porm no  deprimi-la
amalgamar-lhe Napoleo. Ora vamos, digamos as coisas sem rodeios. Sou novo
no meio de vs, mas confesso que me causais admirao. Onde estamos? Quem
somos?
     Quem sois vs? Quem sou eu? Expliquemo-nos a respeito do imperador. Eu
ouo-vos pronunciar Buonaparte, acentuando o u, como fazem os realistas. Ento
dir-lhes-ei que meu av ainda faz mais, porque diz Buonaparte. Eu julgava-os
mancebos. Seno digam-me: para quando guardam o seu entusiasmo? Que fazem
dele? Que admiram, se no admiram o imperador? Que mais querem? Se no lhes
agrada este grande homem, que grandes homens lhes agradam? Bonaparte
possua tudo. Era completo.
     Tinha no crebro o cunho das faculdades humanas. Fazia cdigos como
Justiniano, ditava como Csar, a sua conversao reunia a lucidez de Pascal ao
arrojo de Tcito, fazia a histria e escrevia-a, os seus boletins so Iladas, ele
combinava a cifra de Newton com a metfora de Maom, deixava atrs de si no
Oriente palavras como as pirmides, em Tilsit ensinava a majestade aos
imperadores, na Academia das Cincias respondia a Laplace, no conselho de
Estado impugnava Merlin, dava uma alma  geometria de uns e  chicana de
outros, era legista com os procuradores e sideral com os astrnomos; apagando
como Cromwell uma de duas velas, ia ao Templo comprar uma borla de
cortinado; ele via tudo, tudo sabia; o que no obstava a que ele se risse com
bondosa simplicidade para o bero de seu tenro filho; e de repente a Europa
punha assustada o ouvido alerta, marchavam os exrcitos, rodavam os parques de
artilharia, atravessavam os rios pontes feitas de barcos, galopavam nuvens de
cavaleiros como que impelidos pelo furaco, gritos, trombetas, abalo geral dos
tronos, oscilavam no mapa as fronteiras dos reinos, ouvia-se o rudo que fazia
uma espada sobre-humana desembainhando-se, e ele despontava no horizonte
com - as mos brilhantes de luz e os olhos resplendentes, abrindo aos troves as
suas duas asas, o grande exrcito e a guarda de veteranos, e era o arcanjo da
guerra!
     Permaneciam todos calados e Enjolras baixava a cabea. O silncio parece-se
sempre com a aquiescncia ou com uma espcie de derrota. Mrio continuou,
pois, sem tomar flego e com crescente entusiasmo.
     - Sejamos justos, meus amigos! Que esplndido destino para um povo,
quando esse povo  a Frana, ser o imprio de tal imperador, reunindo o seu gnio
ao gnio desse homem! Aparecer e reinar, marchar e triunfar, ter por degraus
todas as capitais, pegar nos granadeiros e faz-los reis, decretar a queda das
dinastias, transfigurar a Europa a marche-marche, sentir, quando se ameaa, que
se leva a mo ao punho da espada de Deus, seguir num s homem, Anbal, Csar e
Carlos Magno, ser o povo de um homem que faz contar em cada amanhecer o
fausto anncio de uma vitria, ter por despertador o canho dos Invlidos, lanar
em abismos de luz palavras prodigiosas que resplandecem perpetuamente,
Marengo, Arcole, Austerlitz, lena, Wagram! Fazer despontar a todo o instante no
znite dos sculos constelaes de vitrias, fazer do imprio francs o
complemento simtrico do imprio romano, ser a grande nao e dar  luz o
grande exrcito, fazer voar por toda a terra as suas legies como uma montanha
envia para todas as direces as suas guias, vencer, dominar, fulminar, ser na
Europa uma espcie de povo dourado a poder de glria, fazer ouvir atravs da
histria uma msica de tits, conquistar o mundo duas vezes pelo triunfo das
armas e pelo deslumbramento do esprito,  sublime; que pode haver de maior?
     - Ser livre! - disse Combeferre.
     Mrio baixou a cabea por sua vez; esta frase simples e fria atravessara a sua
efuso pica, como uma folha de ao que sentia penetrar-lhe o esprito.
     Quando o mancebo levantou a cabea, j Combeferre tinha desaparecido.
     Satisfeito decerto com a sua resposta  apoteose de Mrio, tinha partido, e
todos, excepto Enjolras, o tinham seguido, A sala evacuara-se.
     Enjolras que ficara s com Mrio, olhava para ele com ar grave. Entretanto, o
mancebo, tendo reatado o fio das suas ideias, no se julgava vencido; sentia um
resto de efervescncia, que ia decerto traduzir-se em silogismos desenvolvidos
contra Enjolras, quando de sbito se ouviu uma voz de algum que descia a
escada. Era Combeferre, que cantava estes versos:
     Se o grande Csar me desse A glria de vencedor, Contanto que eu perdesse De
minha me o amor, Eu diria ao grande Csar:
     Guarda l a tua glria, Que o amor de minha me No o troco pela histria.
     O tom terno e ao mesmo tempo vibrante em que Combeferre cantava estes
versos dava-lhes uma como grandeza estranha, que fez com que Mrio quase
maquinalmente repetisse, fitando os olhos no tecto, com ar pensativo:
     - Minha me!
     Na ocasio, porm, em que proferia esta frase, Enjolras pousou-lhe a mo no
ombro e disselhe:
     - Cidado, minha me  a repblica.



    VI
    Rs Augusta



     O que o mancebo passara nessa noite abalou-o profundamente,
ensombrando-lhe a alma de uma nuvem negra de tristeza. Mrio experimentou o
mesmo que a terra decerto experimenta, quando pelo arado  aberta para receber
o gro de trigo que se h-de desenvolver no seu seio; ento apenas sente a dor que
lhe causa o ferro; o estremecimento do germe e o prazer do fruto s mais tarde 
que chegam.
     Mrio ficou sombrio. Pois havia de to rapidamente abjurar as crenas que
ainda h to pouco se lhe tinham infiltrado no corao? A si prprio respondeu
que no, fazendo esforos para repelir a dvida, mas principiando, mau grado seu,
a duvidar.
     Esta posio do homem que se v entre duas religiesa que ainda no
abandonou e a que ainda no abraou  insuportvel; s s almas-morcegos
agradam os crepsculos e as meias-luzes. Mrio, portanto, cujos olhos se no
cegavam com a claridade, queria a verdadeira luz, e por isso desprazia-lhe o
mortio claro da dvida.
     Por maiores que fossem os desejos que tinha de ficar onde estava e no se
desviar desse ponto, sentia-se irresistivelmente constrangido a continuar, a
avanar, a examinar, a pensar e a caminhar para diante. Aonde o levaria esse
estranho impulso?
     No o sabia. Receava que, depois de ter andado tanto no caminho que o
aproximara a seu pai, agora retrogradasse, afastando-se dele. A cada reflexo em
que se lhe embrenhava o esprito aumentava-lhe o embarao da sua posio. Para
onde quer que olhasse, s se via rodeado de precipcios. Nem estava de acordo
com seu av nem com os seus amigos; para aquele era temerrio, para estes
andava atrasado; sentia-se assim duas vezes abandonado, pelos velhos e pelos
novos. Deixou de ir ao Caf Musain.
     No meio da perturbao que lhe agitava a conscincia, o mancebo j se no
lembrava de certos aspectos srios da existncia. Mas as realidades da vida, que se
fazem sempre lembradas, vieram repentinamente despert-lo das suas
abstraces.
     Uma manh, o dono da estalagem entrou no quarto do rapaz e disselhe:
     - O senhor Courfeyrac abonou-o.
     - Abonou.
     - Mas o pior  que eu necessitava de dinheiro.
     - Mande dizer ao senhor Courfeyrac se faz favor de vir falar-me.
     Apenas este chegou, o dono da estalagem retirou-se, e Mrio contou-lhe o
que no se lembrara ainda de lhe ter dito, que era quase s no mundo e que no
tinha parentes.
     - Visto isso, que h-de ser de si? - perguntou Courfeyrac.
     - No sei - respondeu Mrio.
     - Mas que tenciona fazer?
     - No sei.
     - Tem algum dinheiro?
     - Quinze francos.
     - Quer que lhe empreste mais algum?
     - De modo nenhum.
     - Tem roupa?
     - Esta que v.
     - E alguns objectos de valor?
     - Um relgio.
     - De prata?
     - No, de ouro.
     - Eu conheo um adelo a quem pode vender um dos casacos e um par de
calas.
     - Est bem.
     - Ficar-lhe-o outras calas, um colete, um chapu e um casaco.
     - E as botas.
     - Boa! Ento faz teno de andar descalo? Que opulncia!
     -  quanto basta.
     - Conheo um relojoeiro que de certo lhe compra o relgio.
     - Bem.
     - No est bem, no. Que tenciona fazer depois?
     - Sujeitar-me-ei a tudo, bem entendido, que no for proibido pela honra.
     - Sabe ingls?
     - No.
     - E alemo?
     - Tambm no.
     - Isso  mau.
     - Porqu?
     - Porque um livreiro meu amigo vai publicar uma espcie de enciclopdia,
para a qual o senhor podia traduzir alguns artigos do alemo ou do ingls. Pouco
se ganha, mas vive-se.
     - Nesse caso vou-me pr a aprender ingls e alemo.
     - E entretanto?
     - Entretanto irei passando com o produto do casaco e do relgio.
     O mancebo mandou chamar o adelo, que lhe deu vinte francos pelo casaco, e
depois foram a casa do relojoeiro, que lhe comprou o relgio por quarenta e cinco
francos.
     - O negcio corre bem - disse Mrio a Courfeyrac ao recolherem para a
estalagem -, com os quinze francos que tenho perfaz oitenta francos.
     - E a despesa da estalagem?
     - Ai,  verdade, no me lembrava! - disse Mrio.
     O estalajadeiro apresentou-lhe a conta que montava a setenta francos e que o
rapaz teve de pagar logo.
     - Fico com dez - disse Mrio.
     - Diabo! - disse Courfeyrac. - So, portanto, cinco francos para gastar
enquanto no aprende o ingls e outros cinco enquanto no aprender o alemo.
Ser engolir uma lngua com muita precipitao ou uma moeda de cem soldos
muito devagar.
     Depois de muitos esforos, porm, a filha mais velha de Gillenormand, que
era dotada de bom corao, viera, por ltimo, a dar com a casa da habitao de
Mrio, e um dia pela manh, o mancebo, ao recolher-se da aula, encontrou uma
carta de sua tia e sessenta pistolas, isto , seiscentos francos em ouro, num
embrulho lacrado.
     Mrio tornou a mandar os trinta luzes a sua tia, fazendo-os acompanhar de
uma respeitosa carta, em que lhe dizia achar-se com suficientes meios de
subsistncia e poder agora satisfazer todas as suas necessidades. Nessa ocasio
restavam-lhe trs francos.
     A tia no participou ao av a recusa do neto em aceitar o dinheiro, temendo
acabar de o exasperar. E depois no tinha ele dito: No me tornem mais a falar
desse sanguinrio?
     Mrio, por consequncia, teve de sair da estalagem da porta de S. Jacques,
porque no queria contrair dvidas.
    LIVRO QUINTO
    Excelncia do infortnio



    I
    Mrio indigente



     Desde ento a vida tornou-se severa para Mrio. Privar-se do relgio e da
roupa para comer, nada era, comparado com essa coisa inexprimvel a que
chamam - o po que o diabo amassou. Coisa horrvel, que abrange os dias sem
po, as noites sem luz e sem sono, o fogo sem fogueira, as semanas sem trabalho,
o futuro sem esperana, o casaco roto nos cotovelos, o chapu velho que causa
riso s raparigas, a porta que se encontra fechada, porque no h dinheiro para
pagar ao senhorio, a insolncia do porteiro e do dono da casa de pasto, da
dignidade prpria, a aceitao do servio de qualquer espcie, os desgostos, a
amargura, o desalento.
     Mrio aprendeu a devorar todas estas coisas, que so muitas vezes as nicas
que o desgraado tem para devorar. Na quadra da existncia em que o homem
necessita de orgulho, porque necessita de amor, viu-se ele escarnecido, porque
andava mal trajado, e ridculo porque era pobre. Na idade em que a mocidade nos
insufla no corao uma altivez imperial, ele mais de uma vez baixou os olhos para
os buracos das botas e conheceu as vergonhas injustas e as pungentes humilhaes
da misria. Admirvel e terrvel provao, de que os fracos saem infames e os
fortes sublimes. Cadinho em que o destino lana um homem todas as vezes que
quer obter um miservel ou um semideus.
     Pois nas pequenas lutas muitas vezes se praticam grandes aces. H porfias
de valor ignoradas, que se defendem palmo a palmo, no meio das trevas, contra a
fatal invaso das necessidades e das torpezas. Nobres e misteriosos triunfos, que
ningum presencia, que nenhuma fama recompensa, que nenhumas aclamaes
sadam. A vida, a desgraa, o isolamento, o abandono, a pobreza, so campos de
batalha que tm seus heris, heris obscuros, s vezes maiores do que os heris
ilustres.
     Assim se criam naturezas firmes e raras; a misria, quase sempre madrasta, 
tambm me algumas vezes; a indigncia gera a grandeza de alma e de esprito; a
pobreza alimenta a altivez; o infortnio  um bom leite para os magnnimos.
     Mrio teve uma poca na sua vida em que era ele prprio quem varria a
escada, que ia comprar um soldo de queijo de Brie  barraca da fruteira e esperava
que anoitecesse para ir  padaria comprar um po, que furtivamente levava para a
sua gua-furtada, como se o tivera roubado.
     s vezes via-se entrar no aougue da esquina, acotovelado pelas palradeiras
criadas de servir, um mancebo com dois livros debaixo do brao, de aspecto
tmido e furioso, que, depois de entrar e tirar o chapu da cabea, que lhe escorria
em suor, fazendo uma profunda saudao  espantada dona do aougue e ao
moo que cortava, pedia uma costeleta de carneiro, que lhe custava seis ou sete
soldos, embrulhava-a num bocado de papel, metia-a entre os livros que trazia
debaixo do brao e ia-se embora. O mancebo era Mrio, que com essa costeleta,
que ele prprio guisava, passava trs dias.
     No primeiro dia comia-lhe a carne, no segundo a gordura, no terceiro
roa-lhe os ossos.
     Por muitas vezes tentou a filha de Gillenormand faz-lo aceitar as sessenta
pistolas. Mrio, porm, recambiou-as de todas as vezes, mandando-lhe dizer que
no tinha preciso de nada.
     Quando na vida do mancebo se operou a revoluo que acabamos de referir,
andava ainda de luto pela morte de seu pai, e desde ento no tornara a deixar a
roupa preta. A roupa, porm,  que principiava a deix-lo a ele, at que um dia se
viu sem casaco. As calas, essas ainda remediavam. Neste aperto valeu-lhe
Courfeyrac, a quem ele tinha prestado alguns bons servios, dando-lhe um casaco
velho. Por trinta soldos, Mrio mandou-o virar a um porteiro e o casaco ficou
como novo. Porm, como era verde, o mancebo s saa ao anoitecer, o que o fazia
parecer preto. Deste modo, Mrio, que queria continuar a andar de luto, vestia-se
com as sombras da noite para realizar o seu intento.
     Aps todas estas vicissitudes, conseguiu, afinal, ser inscrito advogado, com
suposta aposentadoria em casa de Courfeyrac, que era decente, e onde um certo
nmero de alfarrbios de direito, misturados com volumes de romances
truncados, podiam simular a livraria exigida pelo regulamento. s pessoas com
quem se correspondia recomendava que lhe dirigissem as cartas para casa de
Courfeyrac.
     Quando Mrio alcanou o seu lugar na advocacia, escreveu a seu av uma
carta fria, mas cheia de submisso e respeito, participando-lho. Gillenormand
pegou na carta, abriu-a trmulo, leu-a e atirou com ela para debaixo da mesa,
rasgada em quatro bocados. Dois ou trs dias depois, Mademoiselle Gillenormand
ouviu seu pai, que estava s no quarto, a falar em voz alta, o que lhe acontecia
todas as vezes que a sua agitao era muito grande. Aplicou pois o ouvido e
percebeu que o velho dizia: Se no foras um pedao de asno, havias de saber que
advogado e baro so duas coisas que no se coadunam.



    II
    Mrio pobre



    Sucede com a misria como sucede com tudo. Chega esta a tornar-se possvel;
vem a tomar forma e a arredondar-se, e por fim, vegetamos, quer dizer, vivemos
como que entorpecidos, mas no privados inteiramente de sentimento.
    Eis de que modo Mrio conseguira regular a sua existncia.
    O desfiladeiro em que ele cara ia gradualmente alargando. A poder de
trabalho, de coragem, de perseverana e vontade, chegara a realizar setecentos
francos por ano.
    Aprendera o alemo e o ingls e auxiliado por Courfeyrac, que o relacionara
com o livreiro seu amigo, Mrio representava na literatura-livraria o modesto
papel de utilidade. Fazia prospectos, traduzia jornais, anotava edies, compilava
biografias, etc., produto lquido, uns anos por outros, setecentos francos, com os
quais passava menos mal, como vamos dizer.
    Mrio ocupava no casebre Gorbeau um cubculo sem fogo, arvorado em
gabinete, pelo qual pagava trinta francos de renda, e em que, quanto a mveis, s
havia os indispensveis, que eram propriamente dele. Dava trs francos por ms 
velha principal locatria para lhe varrer o quarto e levar-lhe todos os dias pela
manh uma pouca de gua quente, um ovo e um po de um soldo, em que
consistia o seu almoo, cujo preo variava de trs a quatro soldos, conforme os
ovos estavam, caros ou baratos.
    As seis horas da tarde saa e ia jantar ao Rousseau, na rua de S. Jacques,
defronte de Basset, com loja de estampas  esquina da rua dos Mathurins. No
comia sopa. Pedia uma rao de carne de seis soldos, meia rao de legumes, que
custava trs, e por igual quantia tinha a sobremesa. Po, por trs soldos tinha
quanto pudesse comer. Quanto a vinho, em vez dele, bebia gua. Depois dirigia-se
ao mostrador, ao qual se achava majestosamente sentada Madame Rousseau,
nesse tempo ainda gorda e fresca; pagava, dava um soldo ao criado, recebia um
sorriso de Madame Rousseau e saa. Por dezasseis soldos tinha pois o mancebo
um sorriso e um jantar.
     O restaurante Rousseau, onde se esvaziavam to poucas garrafas de vinho e
tantas de gua, era mais um calmante do que um restaurante. J no existe. O
dono tinha a engraada alcunha de Rousseau o aqutico.
     Deste modo, jantando por dezasseis soldos e almoando por quatro,
ficava-lhe o dia por vinte soldos, que perfaziam a quantia de trezentos e sessenta e
cinco francos por ano. Acrescente-se a isto os trinta francos da renda da casa e os
trinta e seis  velha, e mais algumas despesas midas, e ver-se- que Mrio por
quatrocentos e cinquenta francos tinha casa, criada e comida. Em roupa e calado
gastava cento e cinquenta francos, a lavadeira ficava-lhe por cinquenta, o que dava
tudo um total de seiscentos e cinquenta francos, ficando-lhe ainda um resto de
cinquenta francos. Era rico, portanto, achando-se em circunstncias de poder
emprestar dez francos a um amigo se este lhos pedisse. Uma vez chegara a
emprestar sessenta francos a Courfeyrac. Quanto  despesa com o fogo, como
no o tinha, eliminara essa verba.
     Mrio tinha sempre dois vesturios completos: um mais velho para o uso
ordinrio, outro novo para as ocasies extraordinrias. Eram ambos pretos.
Camisas tinha trs: a que trazia no corpo, uma que tinha guardada e outra na
lavadeira.
     Conforme as ia rompendo, assim as ia renovando. Como, porm, nenhuma
delas deixava de estar mais ou menos rota, abotoava o casaco at ao pescoo para
se no ver.
     Para Mrio chegar a esta florescente situao levou anos. Anos rudes, cheios
de dificuldades e provaes. O mancebo, porm, nem um s dia desanimara,
sofrendo toda a qualidade de privaes, resignando-se a tudo, menos a contrair
dvidas. Quando volvia os olhos para o seu passado, sentia prazer em poder
asseverar que nunca devera um soldo a ningum. Na sua opinio, uma dvida era
um princpio de escravido, e ainda ia mais longe: dizia ele que um credor  pior
que um senhor, porque um senhor possui apenas a pessoa do escravo, enquanto
que o credor possui a dignidade do devedor e pode esbofete-la. Antes de se
resolver a pedir emprestada qualquer soma, primeiro esgotaria o mancebo todos
os recursos, sujeitando-se mesmo a passar sem comer. Dias sem comer passara ele
muitos. Conhecendo que todos os extremos se tocam e que, se no h a devida
cautela, a falta de meios pode levar a falta de honra, tinha todo o cuidado em
conservar intacta a sua. s vezes uma frmula, um passo que em qualquer outra
situao lhe teria parecido uma deferncia, afigurava-se-lhe uma baixeza, e o
mancebo no se resolvia a p-la em prtica. Para se no ver forado a recuar, no
se aventurava coisa nenhuma. No rosto de visava-se-lhe um rubor severo.
     A sua timidez tocava as raias da intratabilidade.
     Em todas as suas provaes sentia-se alentado e s vezes impelido por uma
oculta fora que lhe vinha de dentro. A alma ajuda o corpo e chega mesmo
algumas vezes a ampar-la.  a nica ave que sustenta a gaiola em que est
encerrada.
     Ao lado do nome de seu pai, Mrio tinha gravado no corao outro nome o
nome de Thenardier. O mancebo, dotado de uma natureza entusistica e arrojada,
cercava de uma espcie de aurola o homem a quem, no seu conceito, devia a vida
de seu pai, o intrpido sargento que salvara o coronel no meio das granadas de
Waterloo.
     No separava nunca a recordao desse homem da de seu pai, associando-se
ambas na sua venerao. Era uma espcie de culto em dois altares, o mais alto
para o coronel, o mais baixo para Thenardier. O que ainda mais aumentava a
intensidade dos seus sentimentos de gratido para com aquele homem era a
lembrana do infortnio de que ele sabia que Thenardier era vtima. Mrio
soubera em Montfermeil, quando ali foi indagar da existncia do estalajadeiro, da
sua quebra e desaparecimento. Depois fizera todos os esforos possveis para dar
com ele no tenebroso abismo da misria, em que ele cara. Mrio percorreu toda a
localidade; foi a Chelles, a Bondy, a Gournay, a Nogent, a Lagny. Durante trs
anos no afrouxou do seu propsito, gastando nessas pesquisas o pouco dinheiro,
fruto das suas economias. Nem uma s pessoa, porm, encontrou que lhe desse
novas de Thenardier, todos eram de opinio que o estalajadeiro se tinha retirado
para algum pas estrangeiro. Os credores tambm o tinham procurado com
menos amor do que Mrio, porm com a mesma insistncia, e no tinham
conseguido dar com ele. Mrio acusava-se e lanava em rosto a si prprio no ter
tirado resultado nenhum das suas investigaes. Era a nica dvida que o coronel
lhe deixara para pagar, e por isso o mancebo julgava que era da sua honra solv-la.
     - Pois qu! - dizia ele consigo. - Quando meu pai jazia moribundo no campo
de batalha, Thenardier soube dar com ele por entre o fumo e o granizo das balas, e
lev-lo s costas para lugar seguro, sem nada lhe dever; e eu, que devo tanto a
Thenardier, no hei-de dar com ele por entre a escurido em que agoniza, para
tambm o arrancar  morte e restitu-lo  vida? Oh, hei-de dar com ele!
     Mrio, efectivamente, de bom grado teria dado um brao para o encontrar e
todo o seu sangue para o arrancar da misria. Encontrar Thenardier, prestar-lhe
um servio de qualquer qualidade, dizer-lhe: Voc no me conhece, mas
conheo-o eu. Aqui estou, disponha de mim! Era o mais doce e magnfico sonho
de Mrio.



    III
    Mrio engrandecido



     Nessa poca, Mrio contava vinte anos e havia trs que abandonara a casa de
seu av. De ambas as partes conservava-se tudo no mesmo estado sem que tivesse
havido a mnima tentativa de reconciliao, sem que ao menos diligenciassem
avistar-se. No fim de contas, para que se haviam de avistar? Para haver novamente
algum conflito?
     Qual deles cederia? Mrio era o vaso de bronze, mas Gillenormand, seu av,
era a panela de ferro.
     Digamo-lo em abono da verdade, Mrio enganara-se na apreciao dos
sentimentos de seu av. Imaginara que Gillenormand nunca lhe tivera amizade,
que aquele velho seco, rspido e risonho, que praguejava, gritava, ameaava e
erguia a bengala apenas tinha por ele, quando muito, a afeio simultaneamente
frvola e severa dos Gerontes de comdia. Nisto se enganava ele. H pais que no
tm amor aos filhos; no h, porm, um s av que no adore os netos. Assim
acontecia com Gillenormand.
     O bom velho, no fundo do corao, idolatrava Mrio. Idolatrava-o a seu
modo, ralhando-lhe s vezes e at batendo-lhe; mas, em todo o caso, a sua
ausncia causara-lhe um vcuo negro no corao, e, no obstante exigir que no
lhe falassem mais dele, interiormente sentia ser obedecido tanto  risca. Nos
primeiros dias. Gillenormand sups que o bonapartista, o jacobino, o terrorista, o
setembrista, voltaria, mas decorreram semanas, passaram-se meses, volveram
anos, e, com grande pesar seu, o revolucionrio no aparecia! Mas eu,
porventura, podia deixar de fazer o que fiz? dizia a ss consigo o av de Mrio, e
perguntava depois: Acaso, se hoje se tornassem a dar as mesmas circunstncias,
eu tornaria a fazer o mesmo? O seu orgulho respondia logo que sim, mas a sua
cabea de ancio, com a qual fazia um gesto silencioso, respondia tristemente que
no. Mrio fazia-lhe falta nas suas horas de abatimento. Os velhos precisam tanto
de afeies como de sol. As afeies aquecem. Por mais rspido que ele fosse de
gnio, a ausncia de Mrio operara-lhe grande mudana. No haveria foras
humanas que o fizessem dar um passo por aquele velhaquete, porm, a sua falta
doa-lhe, e, apesar de nunca perguntar por ele, tinha-o constantemente no
pensamento.
     Gillenormand, que continuava a viver no Marais, cada vez mais afastado do
contacto do mundo, era ainda folgazo e arrebatado como dantes, porm a sua
jovialidade tinha certa dureza convulsiva, como que motivada por um sentimento
de dor e de clera, e os seus arrebatamentos terminavam sempre por um
abatimento em que predominava a brandura e a tristeza. s vezes dizia:
     - Oh, se ele voltasse, sempre havia de levar uma sova de mos de mestre!
     Pelo que respeita  tia, como pensava pouco para poder amar muito, apenas
se lembrava de Mrio confusamente, vindo por ltimo a ocupar-se mais do gato
ou do papagaio, que  provvel tivesse, do que do mancebo.
     O que ainda mais aumentava a secreta mgoa de Gillenormand era que a
reprimia dentro do corao, sem desabafar com ningum nem dar mostras do que
interiormente sentia. As suas penas eram como os foges modernamente
inventados, os quais queimam o prprio fumo que dentro deles se desenvolve.
Sucedia s vezes alguns indiscretos oficiosos falarem-lhe de Mrio e
perguntarem-lhe: O que  feito do seu neto? O velho burgus respondia
suspirando, se estava demasiadamente triste, ou sacudindo com um piparote o
punho bordado, se queria parecer alegre: O senhor baro de Pontmercy ocupa-se
por a algures em qualquer coisa! Ao mesmo tempo que o velho passava a sua
existncia ralado de saudades, aplaudia-se Mrio pelo seu procedimento. Como
sucede a todos os coraes bem formados, a desgraa destrura-lhe o
ressentimento. No pensava em Gillenormand seno com doura, mas resolvera
no receber mais coisa alguma do homem que to mau fora para com seu pai.
Era j a traduo mitigada das suas primeiras indignaes.
     Alm disto sentia-se satisfeito por ter sofrido e por sofrer ainda. Sofria por
seu pai. A sua vida difcil agradava-lhe. Dizia para consigo mesmo que tudo aquilo
era o menos; que era uma expiao; que, no sendo assim, seria punido de outro
modo e mais tarde, pela sua mpia indiferena para com seu pai, e um tal pai; que
no seria justo que tivesse cabido a seu pai todo o sofrimento e a ele nenhum; e de
mais, o que eram os seus trabalhos e privaes comparados com a vida herica do
coronel? Que, enfim, a nica maneira de se aproximar de seu pai e de se lhe
assemelhar era ser valente contra a indigncia como ele fora bravo contra o
inimigo; e era isto sem dvida o que o coronel quisera dizer nestas palavras:
Escuso dizer que ser digno de mim palavras que Mrio continuava a trazer, no
sobre o corao, porque tinha perdido o papel que as continha, mas gravadas nele.
     E depois, quando seu av o expulsara, era ele apenas uma criana, e agora era
j um homem. Conhecia que o era. A misria fora-lhe proveitosa. A pobreza na
mocidade, quando  bem sucedida, tem de magnfico o voltar integralmente a
vontade para o esforo constante e a alma para a aspirao. A pobreza mostra
repentinamente a vida material no seu perfeito estado de nudez e torna-a
hedionda; daqui os inexplicveis voos para a vida ideal. O mancebo rico tem mil
distraces brilhantes e grosseiras: as corridas de cavalos, a caa, os ces, o tabaco,
o jogo, os banquetes, e o resto; ocupaes dos lados baixos da alma,  custa dos
mais altos e delicados. O mancebo pobre tem de trabalhar para obter o po; come,
e depois de comer s tem meditao. Frequenta os espectculos grtis que Deus
d; contempla o espao, os astros, as flores, as crianas, a humanidade com a qual
sofre, a natureza em que resplandece. Olha tanto para a humanidade que v a
alma, olha tanto para a criao que v Deus. Sonha e sente-se enternecer. Do
egosmo do homem que sofre, passa  compaixo do homem que medita. O
sentimento que nele se manifesta  admirvel: esquecimento de si e compaixo
pelos outros. Pensando nos gozos sem nmero oferecidos pela natureza, d e
prodigaliza s almas abertas, recusa s que se conservam cerradas, e chega a
lastimar, ele, o milionrio de inteligncia, os milionrios de dinheiro. Toda a
espcie de raiva lhe desaparece do corao  medida que a luz lhe penetra no
esprito. E no fim de tudo,  desgraado? No. A misria dum mancebo no 
nunca miservel. Qualquer rapaz, seja qual for, por mais pobre que viva, com a
sua sade e vigor, o seu andar lesto e olhos brilhantes, com o sangue fervendo-lhe
nas veias, cabelos pretos e faces frescas, lbios rosados, dentes brancos e hlito
puro, causar sempre inveja a um imperador velho. E depois, recomea em cada
nova manh a ganhar o seu po; e enquanto as mos no trabalham para o
ganhar, ganha a sua espinha dorsal mais arrogncia e mais ideias o seu crebro.
Terminada a tarefa volta aos xtases inefveis, s contemplaes, s alegrias; vive
com os ps nas aflies, nos obstculos, na calada, nos espinhos, muitas vezes na
lama, mas com a cabea envolta em luz. E firme, sereno, meigo, pacfico, atento,
srio, benvolo, sempre contente com pouco, e d graas a Deus por lhe ter
concedido as duas riquezas que faltam a muitos ricos; o trabalho que lhe d a
liberdade e o pensar que o torna digno.
     Fora isto o que se passara em Mrio. Chegara mesmo, para dizermos tudo, a
pender demasiadamente para o lado da contemplao. No dia em que ganhara a
vida, pouco mais ou menos com segurana, no se adiantara mais, mas achando
que era bom ser pobre e tirando ao trabalho para dar ao pensamento. Isto quer
dizer que passara algumas vezes dias inteiros a meditar, mergulhado como um
visionrio, em mudas voluptuosidades de xtase e brilho interior. O problema da
sua vida estabelecera-o assim; trabalhar o menos possvel em trabalho material,
para trabalhar o mais que pudesse em trabalho impalpvel; noutros termos: dar
algumas horas  vida real, e lanar o resto no infinito. No notava, julgando no
lhe faltar coisa alguma, que a contemplao assim compreendida acaba por ser
uma das formas da preguia; que se contentava com vencer as primeiras
dificuldades da vida, e que repousava demasiadamente cedo.
     Era evidente que para uma organizao to enrgica e generosa, no podia
um tal estado deixar de ser transitrio, e que, ao primeiro embate com as
inevitveis complicaes do destino, Mrio despertaria.
     Entretanto, apesar de ser advogado, e apesar do que pensava o av
Gillenormand, no pleiteava, nem mesmo chicanava. A meditao afastara-o da
advocacia.
     Conviver com os procuradores de causa, ter de ir ao tribunal, angariar causas,
que enfado! E para qu? No via o mnimo motivo para mudar de ganha-po. A
obscura livraria acabara por lhe dar trabalho certo, de pouca fadiga, o que lhe era
suficiente.
     Um dos editores para quem trabalhava, Magimel, segundo me parece,
tinha-lhe oferecido aloj-lo em sua casa, dar-lhe trabalho regular e mil e
quinhentos francos por ano. Ter boa casa e mil e quinhentos francos! Era decerto
excelente. Mas a perda da liberdade! Ser assalariado! Ser uma espcie de
literato-caixeiro! No pensar de Mrio, aceitando esta vantajosa proposta,
melhorava e piorava ao mesmo tempo a sua posio; ganhava comodidades e
perdia dignidade; era a troca de uma infelicidade completa e bela, por uma priso
feia e ridcula; uma coisa como um cego que se tornasse torto. Rejeitou portanto a
proposta.
     Mrio vivia solitrio. Pelo seu decidido gosto em se conservar fora de tudo, e
mesmo por se ter demasiadamente desgostado da primeira vez, no tornara a
entrar no grupo presidido por Enjolras. Tinham ficado em boa harmonia,
prontos, a ajudar-se mutuamente, sempre que se oferecesse ocasio, mas nada
mais. Mrio tinha dois amigos, um moo que era Courfeyrac, o outro velho, que
era Mabeuf. A sua maior inclinao era para o velho. Em primeiro lugar devia-lhe
a revoluo que se operara no seu modo de pensar; devia-lhe o ter conhecido e
amado seu pai. Fez-me a operao da catarata, dizia ele.
    Com efeito, a operao do sacristo de S. Sulpcio fora decisiva.
    E, contudo, o senhor Mabeuf naquela ocasio no fora mais do que o agente
tranquilo e pacfico da Providncia. Iluminara Mrio por acaso, e sem o saber,
como faz uma luz conduzida por algum; fora a luz e no quem a conduzia.
    Quanto  interior revoluo poltica de Mrio, Mabeuf era completamente
incapaz de a compreender, de a promover e de a dirigir.
    Como mais para diante teremos de encontrar o senhor Mabeuf, no sero
inteis algumas palavras a seu respeito.



    IV
    O senhor Mabeuf



      Na ocasio em que o senhor Mabeuf dissera a Mrio: - Certamente, aprovo as
opinies polticas -, exprimia o verdadeiro estado do seu esprito. Todas as
opinies polticas lhe eram indiferentes e aprovava-as todas sem distino, para
que elas o deixassem tranquilo, pelo mesmo modo que os gregos chamavam s
Frias belas, bondosas e encantadoras Eumnides.
      O senhor Mabeuf tinha por opinio poltica a apaixonada afeio s plantas, e
sobretudo aos livros. Possua como toda a gente a sua determinao em ista, sem a
qual ningum teria podido viver naquele tempo; mas no era nem realista, nem
bonapartista, nem cartista, nem orleanista, nem anarquista; era alfarrabista.
      No compreendia que os homens se ocupassem a odiar-se por causa de
ninharias como a Carta, a democracia, a legitimidade, a monarquia, a repblica,
etc., quando havia no mundo toda a espcie de musgos, de ervas e de arbustos que
eles podiam contemplar, e montes de in-flios e at de livros em formato de 32,
que podiam folhear. O senhor Mabeuf tinha o maior cuidado em no ser intil;
ter livros no o impedia de ler, ser botnico, no o privava de ser jardineiro.
Quando conhecera Pontmercy, o que determinara a simpatia entre eles fora que o
coronel faria pelas flores o que ele fazia pelos frutos.
      O senhor Mabeuf tinha chegado a produzir peras de semente, to saborosas
como as de S. Germano;  de uma destas combinaes que nasceu, segundo
parece, a ameixa amarela de Outono, to clebre hoje, e no menos perfumada do
que a de Vero. Ouvia missa mais por doura de carcter do que por devoo e
porque, gostando da presena dos homens, mas odiando o seu rudo, s na igreja
os achava reunidos e silenciosos.
     Conhecendo que era preciso ser alguma coisa, adoptara a vida de sacristo.
     Enquanto ao mais, nunca conseguira amar tanto uma mulher como uma
cebola de tlipa, ou estimar mais um homem do que os caracteres elzeverianos.
Tinha j passado havia muito tempo os sessenta anos quando um dia lhe
perguntaram:
     - Nunca se casou?
     - No me lembra - , disse ele.
     Quando lhe sucedia algumas vezes - a quem no sucede isto? - dizer: Se eu
fosse rico No era nunca mirando uma bonita rapariga, como Gillenormand
fazia, mas quando contemplava um alfarrbio. Vivia s com uma velha
governanta. Era um tanto gotoso nas mos, e quando dormia, os seus velhos
dedos, pela fora do reumatismo, curvavam-se todos nas dobras dos lenis.
Coligira e publicara uma Flora dos arrabaldes de Cauferefz com gravuras
coloridas, obra asss estimada, de que ele possua as chapas, e que por si mesmo
vendia. Todos os dias batiam duas ou trs vezes  sua porta, na rua Mezires, por
este motivo. Obtinha assim os seus dois mil francos por ano; o que resumia toda a
sua fortuna. Ainda que pobre, tivera o talento de juntar,  fora de pacincia, de
privaes e de tempo, uma coleco preciosa de exemplares raros em todos os
gneros. Nunca saa de casa sem levar um livro debaixo do brao, mas voltava
sempre trazendo dois. A nica decorao das quatro salas do rs-do-cho que,
com um jardinzinho, compunham a sua habitao, consistia em herbrios
emoldurados e gravuras de velhos mestres. A presena de um sabre ou de uma
espingarda gelava-o.
     Nunca na sua vida se aproximara de uma pea de artilharia, nem mesmo nos
Invlidos. Tinha um estmago sofrvel, um irmo cura, os cabelos todos brancos,
completa falta de dentes tanto na boca como no esprito, tremura em todo o
corpo, pronunciado acento picardo, riso infantil, a maior facilidade em se
assustar, e o todo de um velho cordeiro. Para juntar a tudo isto, no tinha outra
amizade ou relaes entre os vivos, seno um velho livreiro da porta S. Jacques,
chamado Royol. O seu grande sonho era naturalizar o anil em Frana.
     A sua governanta era tambm uma das variedades da inocncia. A pobre e
excelente velha conservara-se solteira. O seu gato, chamado Sulto, que teria
podido miar o miserere de Allegri na capela Sixtina, preenchera-lhe o corao e
absorvera-lhe toda a quantidade de paixo de que era susceptvel. Nenhum dos
seus sonhos chegara at ao homem. No pudera nunca ultrapassar o seu gato; e
tinha barbas como ele.
     Passava o tempo, ao domingo, depois da missa, a contar a roupa que possua
na sua caixa, e a estender sobre a cama diferentes cortes de vestido, que comprava
e nunca fazia. Sabia ler. O senhor Mabeuf pusera-lhe o apelido de tia Plufarco.
     Mabeuf simpatizava com Mrio, porque, sendo moo e de uma ndole meiga,
lhe aquecia a velhice sem assustar a timidez. A mocidade com doura produz nos
velhos o efeito do sol sem vento.
     Quando Mrio estava saturado de glria militar, de plvora, de marchas e
contra-marchas, e de todas as prodigiosas batalhas em que seu pai dera e recebera
to grandes cutiladas, e ia visitar Mabeuf, este falava-lhe do heri debaixo do
ponto de vista das flores.
     Em 1830 morrera-lhe o irmo, abade, e quase imediatamente, como quando
vem chegando a noite, se lhe toldara o horizonte de cerrada escurido. Com a
falncia de certo banqueiro perdeu uns dez mil francos, que era a quanto subiam
todos os seus haveres e os que herdara de seu irmo. A revoluo de Julho
produziu uma crise no comrcio de livros. Em tempos crticos a primeira coisa
que deixa de se vender  uma Flora. Por conseguinte, o consumo da Flora dos
arredores de Cauferetz cessou de sbito. Passavam-se semanas sem se vender um
s exemplar. s vezes, Mabeuf estremecia a um toque de campainha, cuidando
que seria algum comprador. A tia Plutarco, porm, chegava-se a ele e dizia-lhe
tristemente:  o aguadeiro. Em suma, um dia, Mabeuf deixou a rua de Mezires,
abdicou das funes de sacristo, renunciou a S.
     Sulpcio, vendeu uma parte, no dos seus livros, mas das estampas que era o
que menos apreciava e foi estabelecer-se numa casinha do boulevard
Montparnasse, onde, todavia, morou apenas trs meses, por duas razes: a
primeira porque o andar trreo e o jardim custavam trezentos francos, e ele no
ousava gastar mais do que duzentos para renda de casa; a segunda, porque ficava
prximo  escola de tiro de Fatou, e por consequncia a cada instante estava a
ouvir tiros de pistola, o que se lhe tornava insuportvel.
     Pegou, pois, na sua Flora, nas chapas, nos seus ervrios, carteiras e livros, e foi
estabelecer-se ao p da Salptrire, numa espcie de choupana da aldeia de
Austerlitz, onde, por cinquenta escudos anuais, tinha trs salas e um jardim,
murado por uma sebe e com poo. Aproveitou-se desta mudana para vender
quase todos os seus mveis. No dia em que deu entrada na sua nova morada,
andou sempre muito alegre e foi ele prprio que pregou os pregos para as
gravuras e ervrios, gastando o resto do dia em tirar as ervas ao jardim. A noite,
vendo a tia Plutarco com ar triste e modo pensativo, bateu-lhe no ombro e
disselhe, sorrindo: O anil temos ns! S duas pessoas, o livreiro da porta de S.
Jacques e Mrio, tinham permisso de visit-lo na sua choupana de Austerlitz,
nome bombstico que, a falar a verdade, lhe era sumamente desagradvel.
     Como acabamos de indicar, os crebros absorvidos numa cincia ou numa
mania, ou, o que frequentes vezes se d, em ambas as coisas juntamente, apenas
lentamente se tornam permeveis s coisas da vida. At do prprio destino andam
remotos. Resulta, portanto, destas concentraes numa possibilidade, que, se fosse
razovel, pareceria filosofia. Declina o indivduo, desce, exaure-se, abate-se, quase
sem dar por tal. Acaba isto sempre,  verdade, por um despertar, porm tardio. No
entanto, parece que se conserva neutro na luta que se trava entre a sua boa e m
sorte.  ele o objecto da luta e olha para ela com indiferena.
     Foi assim que por entre a escurido que se operava em torno de Mabeuf, e
desvanecendo-se todas as suas esperanas uma aps outra, ele ficara sereno, algum
tanto pueril, porm profundamente. Os hbitos do seu esprito tinham o
movimento oscilatrio de uma pndula.
     Uma vez que uma iluso lhe desse corda, trabalhava por muito tempo,
mesmo depois de ter acabado a iluso. Um relgio no pra repentinamente na
ocasio em que perdemos a chave dele.
     Mabeuf tinha prazeres inocentes. Eram prazeres pouco custosos e
inesperados; o menor acaso lhos ocasionava.
     Um dia, a tia Plutarco lia um romance em voz alta a um canto do quarto,
parecendo-lhe que assim compreendia melhor o que lia. Ler em voz alta  afirmar
cada um a si mesmo o que l. H pessoas que lem em voz to alta que parecem
estar a asseverar a si mesmas debaixo de palavra de honra aquilo que lem.
     A tia Plutarco lia pois com essa energia o romance que tinha na mo e
Mabeuf ouvia sem a escutar.
     No decurso da sua leitura, tratando-se nela de um oficial de drages e de uma
bela, chegou  seguinte frase:
     ...A bela bouda e o drago... Neste ponto interrompeu-se para limpar os
culos.
     - Boudha e o Drago - repetiu Mabeuf a meia voz. -  isso, no h dvida;
houve um drago que do fundo do seu antro lanava chamas pela boca, as quais
incendiavam o cu. J muitas estrelas haviam sido queimadas por este monstro,
que de mais a mais tinha garras de tigre. Ento Boudha foi ao antro dele e
conseguiu converter o drago.  um bom livro esse que est a ler, tia Phutarco.
No h lenda mais bonita.
    Em seguida embrenhou-se em profunda meditao.



    V
    Pobreza, boa vizinha da misria



     Mrio sentia grande predileco por esse velho cndido, que se via
lentamente surpreendido pela indigncia, o que lhe causava pouco a pouco um
certo espanto sem contudo se entristecer.
     Mrio encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro;
sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no ms.
     Mrio gostava de dar longos passeios solitrios pelos boulevards exteriores,
ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As
vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de
cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora.
Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um
aspecto suspeito e at sinistro. E ele no era mais do que um mancebo pobre,
meditando ao acaso.
     Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o
tentasse o isolamento do lugar e o baixo preo da casa, alugou-a, sendo conhecido
nela s pelo nome de senhor Mrio.
     Alguns dos antigos generais ou dos antigos camaradas de seu pai, depois que
souberam quem ele era, convidaram-no a ir visit-los e Mrio no recusava,
porque eram ocasies de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos
visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos
Invlidos. Tocava-se, cantava-se, e Mrio nessas noites vestia o fato dos dias
solenes. Porm nunca ia a tais reunies nem a tais bailes seno quando tudo estava
coberto de geada, porque no podia pagar o aluguer de uma carruagem e queria
chegar com as botas como espelhos.
     Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes:
     - Os homens so de tal modo organizados, que numa sala poder-se- estar
enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ningum nos exige, para
sermos recebidos, seno uma coisa irrepreensvel. No  a conscincia, so as
botas.
     Todas as paixes, a no ser as do corao, se dissipam com o hbito da
meditao. Foi assim que as febres polticas de Mrio se desvaneceram A
revoluo de 1830 concorrera tambm para isso, satisfazendo-o e pacificando-o.
Ficava o mesmo, menos, porm, quanto s suas iras, porque tinha ainda as
mesmas opinies, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo no
tinha opinies, tinha simpatias. De que partido era ele? Do partido da
humanidade. De entre a humanidade, porm, escolhia a Frana; de entre a nao,
o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixo tendia
principalmente. Actualmente preferia uma ideia a um facto, um poeta a um heri
e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como
Marengo. Alm disto, quando aps um dia de meditao, voltava  noite pelos
boulevards, e por entre os ramos das rvores divisava o espao sem fundo, os
clares sem nome, o abismo, a escurido, o mistrio, tudo o que simplesmente 
humano lhe parecia bem pequeno.
     Ele supunha ter, e talvez tivesse efectivamente, atingido a realidade da vida e
da filosofia humana, chegando por fim a no contemplar seno o cu, nica coisa
que a verdade pode ver do fundo do seu poo.
     Todavia, isto no obstava a que ele multiplicasse os seus planos, combinaes,
castelos no ar e projectos de futuro. No estado de abstraco em que andava,
quem lhe tivesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da
pureza daquela alma.
     Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na conscincia
dos outros, julgaramos com mais segurana um homem pelo que ele devaneia do
que pelo que ele pensa. O pensamento  dominado pela vontade, o devaneio no.
O devaneio, que  absolutamente espontneo, toma e conserva, mesmo no
gigantesco e no ideal, a figura do nosso esprito. No h coisa que mais directa e
profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspiraes
irreflectidas e desmesuradas para esplendores do destino. Nestas aspiraes  que
se pode descobrir o verdadeiro carcter de cada homem, melhor do que nas ideias
compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras so o que melhor nos
parece. Cada qual devaneia o incgnito e o impossvel, conforme a sua natureza.
     Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mrio que iam ser
postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondrette. Mrio, que quase era
hspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos.
    - Porque os pem na rua? - perguntou ele.
    - Por no pagarem a renda, de que j devem dois meses.
    - E a quanto montam os alugueres vencidos?
    - A vinte francos - respondeu a velha.
    - Pegue l - disselhe o mancebo. - A tem vinte e cinco francos. Pague o
aluguer dessa pobre gente, d-lhe os cinco francos e no diga que sou eu.



    VI
    O substituto



     Quis o acaso que o regimento de que Theodulo era tenente, viesse destacado
para Paris, o que deu ocasio a uma segunda ideia da tia Gillenormand.
     Da primeira vez lembrara-lhe mandar espiar Mrio por Theodulo; da
segunda resolveu fazer suceder Theodulo a Mrio.
     No caso em que o av viesse a sentir uma vaga necessidade de um rosto
jovem em casa, pois s runas so s vezes agradveis estes raios de aurora, era
necessrio tratar de arranjar outro Mrio. Seja, disse ela consigo,  uma simples
errata, como as que se vem nos livros. Em vez de Mrio, l-se Theodulo.
     Um sobrinho  quase um neto; na falta de um advogado, serve mesmo um
lanceiro.
     Um dia de manh, indo Gillenormand a principiar a ler a Quotidiana, ou
coisa semelhante, entrou sua filha e disselhe com o tom de voz mais meigo que
pde, pois tratava-se do seu favorito:
     - Meu pai, Theodulo vem hoje apresentar-lhe os seus respeitos.
     - Quem  Theodulo?
     -  o seu sobrinho.
     - Ah! - exclamou o av.
     E continuou a ler, sem se tornar a lembrar de tal sobrinho, que era para a um
Theodulo qualquer, e no tardou a agastar-se seriamente, o que lhe sucedia todas
as vezes que lia.  que a folha que ele tinha na mo, realista j se v anunciava
para o outro dia sem reserva nenhuma um dos acontecimentos quotidianos do
Paris de ento:
     Que os estudantes da Faculdade de Direito e de Medicina deviam reunir-se
na praa do Panteon ao meio-dia para deliberarem. Tratava-se de uma das
questes da ocasio: da artilharia da guarda nacional, e de um conflito entre a
guarda nacional e a milcia cvica, por causa de umas peas assestadas no ptio
do Louvre. Os estudantes, pois, deviam deliberar a esse respeito. No era preciso
tanto para exaltar o senhor Gillenormand.
     Lembrou-se de Mrio, que era estudante, e que provavelmente iria como os
outros deliberar ao meio-dia na praa do Panteon.
     Quando ele estava nesta cogitao dolorosa, entrou Theodulo, vestido 
paisana, discretamente introduzido pela filha de Gillenormand.
     O lanceiro fizera o seguinte clculo: O druida no tem tudo em rendas
vitalcias.
     Por isso vale a pena disfarar-me em paisano de tempos a tempos.
     - Aqui tem seu sobrinho Theodulo - disse a filha de Gillenormand a seu pai
em voz alta.
     E acrescentava em voz baixa para o tenente:
     - Aprova tudo.
     E retirou-se.
     O tenente, pouco acostumado a entrevistas to venerveis, balbuciou com
alguma timidez:
     - Bons dias, meu tio - e fez uma cortesia mista, composta do esboo
involuntrio e maquinal da continncia militar, terminada por uma saudao
burguesa.
     - Ah, s tu! Est bem, senta-te - disse o av.
     Dito isto, esqueceu-se completamente do lanceiro.
     Theodulo sentou-se e Gillenormand levantou-se e ps-se a passear de um
lado para o outro, com as mos nos bolsos, falando em voz alta e apertando nos
dedos hirtos os dois relgios de algibeira que costumava trazer consigo.
     - Corja de fedelhos! Convocarem-se para a praa do Panteon! S com uma
tranca!
     Crianalhos que ainda tm os cueiros atrs da porta! Se lhes apertassem o
nariz ainda deitavam leite! E vo deliberar amanh ao meio-dia! A que tempos
chegmos! A que tempos chegmos! Est bem de ver que caminhamos para o
abismo! Foi para onde nos conduziram os descamisados! Artilharia cvica!
Deliberar sobre a artilharia cvica! Irem fazer de meninos bonitos por causa das
surriadas da guarda nacional! E com quem eles vo misturar-se! Vejam at onde
pode levar o jacobinismo! Aposto tudo quanto quiserem, um milho contra um
real, que no ho-de encontrar l outra gente seno homens que j estiveram
presos ou nas gals. Republicanos e forados  tudo gente da mesma estofa, e por
isso se do perfeitamente. Carnot dizia: Para onde queres que eu v, traidor? E
Fouch respondia: Para onde quiseres, pedao de asno! A est o que so os
republicanos.
     -  exacto - disse Theodulo.
     Gillenormand voltou a cabea um quase nada, viu Theodulo e continuou:
     - Quando me lembro que aquele tratante teve a pouca vergonha de se fazer
carbonrio! Para que saste de minha casa? Para te ires fazer republicano. Puh!
     Primeiro, o povo no quer l saber da tua repblica, no quer nada com ela,
porque tem juzo, porque sabe que sempre tem havido reis, porque sabe que o
povo, afinal de contas,  sempre o povo, e por isso est-se nas tintas para a tua
repblica; ouves, pacvio! H maior descaramento? Namoriscar-se do Pre
Duchne, fazer fosquinhas  guilhotina, cantar romanzas e tocar guitarra debaixo
das janelas de 93, d mesmo vontade de cuspir na cara a estes rapazelhos, por
serem to pedaos de asnos! E ento so-no todos. No escapa um s. Basta
respirar o ar que passa na rua para se tornarem insensatos. O sculo dezanove 
um veneno. Qualquer velhaco que deixe crescer a barba de bode julga-se um
tratante de marca e manda tratar das bombas os parentes velhos.  republicano, 
romntico. Que vem a ser isto de romntico? Fazem favor de me dizer o que isto
? Todas as tolices possveis. H um ano andava tudo  Hemani.
     Sabem-me dizer o que vem c a ser Hernni! Antteses! Coisas abominveis
que nem em francs se acham escritas. E ainda por cima ralham de mandarem pr
peas no ptio do Louvre!  para ver como so os salteadores do tempo de agora.
     - Tem razo, meu tio - disse Theodulo.
     Gillenormand continuou:
     - Peas no ptio do Museu! Para qu? Que me queres tu, canho? Querem
metralhar o Apoio de Belveder? Que tm que ver os cartuxos com a Vnus de
Medeis?
     Oh! Estes rapazes de agora so tudo uma corja de patifes! E esse borra-botas
desse Benjamin Constant, que eles trazem nas palminhas? E os que no so
celerados so uns patetas. Fazem tudo o que podem para se tornarem feios;
andam mal trajados, tm medo das mulheres, quando se juntam com elas tm uns
modos de pelintras que fazem estourar de riso as raparigas; palavra de honra que
se lhes podia chamar os pobres envergonhados do amor! So disformes e
estpidos. Repetem os equvocos de Tiercelin e de Potier, trazem casacas-sacos,
coletes de lacaio, camisas de pano grosseiro, calas de pano grosso, botas grossas, e
a ramagem parece-se com a plumagem.
     Usam de uma algaraviada to baixa como quem a emprega. E todos estes
crianalhos tm opinies polticas! Para bem, havia de ser severamente punido ter
opinies polticas. Fabricam sistemas, refazem a sociedade, destroem a
monarquia, derrubam todas as leis, pem o celeiro no lugar da adega e o meu
porteiro no lugar do rei, remexem a Europa toda, reedificam o mundo e tm por
grande fortuna ver as pernas s lavadeiras ao subirem para os carros! Ah, Mrio,
grande maroto! Ir vociferar para o meio de uma praa pblica! Discutir, debater,
tomar medidas! Eles chamam a isto tomar medidas! Santo nome de Deus! A
desordem cada vez se agourenta mais e se torna mais tola! J vi o caos, agora vejo
mas  um esterquilnio. Estudantes a deliberarem sobre a guarda nacional! Isto
nem entre os Ogibbewas ou os Cadodachos!
     Os selvagens que andam completamente nus, com a cabea enfeitada como
um volante de vaqueta e de clava na mo, so menos brutos do que estes
bacharis. Uma scia de pobretes sem eira nem beira... de onde saem os sbios!
E deliberam e raciocinam! Est o mundo a acabar! Somos chegados com toda a
certeza ao fim deste miservel globo terrqueo. Faltava um soluo final; d-o a
Frana. Deliberai, meus tratantes! Isto h-de dar-se enquanto eles forem ler os
jornais para debaixo das arcadas do Odeon. Custa-
     lhes tal leitura um soldo, e nela sacrificam o seu bom-senso, a sua inteligncia
e o seu esprito. Todos os jornais trazem a peste consigo, todos, sem mesmo
exceptuar a Bandeira Branca! No fundo, Martainville era um jacobino. Ah, justo
cu! Podes-te gabar de que fizeste afligir bem teu av!
     - Isso  evidente - atalhou Theodulo.
     E, aproveitando a ocasio em que Gillenormand tomava a respirao, o
lanceiro acrescentou magistralmente:
     - Para bem, no havia de haver mais jornal nenhum seno o Monitor, e um
nico livro, o Anurio Militar.
     Gillenormand prosseguiu:
     -  como com o tal seu Sieya, um regicida que vem a acabar senador! Pois 
onde eles vo bater. Andam para a a atordoar-se com o tu, cidado isto, cidado
aquilo, para afinal virem a fazer-se tratar por senhor conde. Senhor conde do que
eu agora no digo! O filsofo Sieys! Bem fiz eu ao menos, que nunca dei mais
importncia s filosofias de todos estes filsofos do que aos culos do palhao de
Tivoli! Um dia vi passar os senadores pelo cais Malaquias, de mantos de veludo
roxo, semeados de abelhas, e com chapu  Henrique IV. Metiam medo. Pareciam
os macacos da corte do tigre. Cidados, declaro-vos que o vosso progresso  uma
loucura, a vossa humanidade um devaneio, a vossa revoluo um crime, a vossa
repblica um monstro, que a vossa nova Frana donzela sai do lupanar e
assevero-vos a todos, quem quer que sejais, publicistas ou economistas, legistas ou
mais conhecedores de liberdade, igualdade e fraternidade do que o gume da
guilhotina.  o que lhes digo, meus ricos!
     - L isso  assim! - exclamou o tenente.  No h nada mais verdadeiro.
     Gillenormand interrompeu um gesto que ia a fazer, voltou-se, fitou os olhos
nos do lanceiro e disse a Theodulo:
     - s um parvo.
    LIVRO SEXTO
    Conjuno de duas estrelas



    I
    A alcunha: modos de formar nomes de famlia



     Mrio era nesta poca um interessante rapaz, de estatura mediana, espessos
cabelos negros, fronte alta e inteligente, narinas abertas e apaixonadas, ar sincero e
sereno, e em todo o rosto certa indefinvel expresso de altivez, melancolia e
inocncia.
     O seu perfil, cujos lineamentos eram suaves sem que deixassem de ser firmes,
possua a doura germnica de que a fisionomia francesa participa pela Alscia e
pela Lorena, e a completa carncia de ngulos que tornava to conhecidos os
sicambros entre os romanos e que distingue a raa leonina da raa aquilina. Mrio
achava-se na quadra da vida em que o esprito dos homens pensativos  composto
quase em propores iguais de gravidade e singeleza. Posta uma situao grave,
Mrio possua tudo o que era necessrio para ficar inerte, ou para se tornar
sublime, se dessem  chave mais uma volta. As suas maneiras eram reservadas,
frias, polidas e pouco expansivas. Dotado de uma linda boca, de lbios
purpurinos, de dentes alvos como poucos, corrigia-lhe o sorriso a expresso
severa da fisionomia. Em certas ocasies tornava-se um singular contraste aquela
fronte casta e aquele sorriso voluptuoso. Mrio tinha olhos pequenos, mas o olhar
grande.
     No tempo em que em piores circunstncias se achara, o mancebo notava que
as raparigas se voltavam para trs quando ele passava, e deitava a fugir ou se
escondia, profundamente contristado. Julgava que elas o fitavam para se rirem do
seu usado trajo, mas a verdade era que elas s se voltavam, porque o achavam
gracioso e que continuavam o seu caminho com ele no pensamento.
     Este mundo equvoco entre ele e as lindas transeuntes viera por ltimo a
torn-lo insocivel. De entre tantas, o mancebo no escolheu uma s, pela
concludente razo de que de todas fugia. Assim viveu por muito tempo
estupidamente, como dizia Courfeyrac.
     Courfeyrac dizia-lhe tambm:
     - No aspires a tornar-te venervel (os dois amigos tratavam-se por tu, ao que
entre mancebos facilmente se chega). Um conselho, meu caro. No leias tanto nos
livros e olha alguma coisa para as codornizes. As brejeiras tm bocadinhos de
ouro, Mrio! A fora de lhes fugir e de corar, hs-de vir a embrutecer-te.
     Outras vezes Courfeyrac encontrava-se com ele e dizia-lhe:
     - Ol, padre!
     Quando Courfeyrac lhe jogava algum gracejo desta natureza, Mrio durante
oito dias ainda mais fugia de se encontrar com mulheres e muito principalmente
com Courfeyrac.
     Duas mulheres, porm, encerrava a imensa criao, de quem Mrio no fugia
nem nas quais fazia reparo. Realmente, se algum lhe dissesse que as duas
criaturas de que falamos eram mulheres, o mancebo ficaria admiradssimo. Uma
era a velha barbada que lhe arrumava o quarto e de quem Courfeyrac dizia:
     - Mrio, como v que a criada usa barbas, corta as dele.
     A outra era uma rapariga, se o era, que ele via muitas vezes, mas para quem
nunca olhava.
     Havia mais de um ano que Mrio numa lea deserta do Luxemburgo, a que
corre paralela ao parapeito da Pepinire, notava um homem e uma jovem quase
sempre sentados juntos no mesmo banco, na extremidade mais solitria da lea do
lado da rua de Oeste. Todas as vezes que o acaso, que dirige os passeios das
pessoas pensativas, conduzia Mrio quela lea, o que acontecia quase todos os
dias, encontrava ele ali sempre aquele par. O homem, que indicava ter sessenta
anos, parecia triste e srio; a sua figura oferecia o robusto, mas cansado aspecto de
um militar reformado. Se ele trouxesse ao peito alguma condecorao, Mrio
diria:  algum antigo oficial. Tinha um ar de bondade, mas pouco animador, e o
seu olhar nunca se fixava em ningum. O seu trajo consistia numas calas azuis,
um casaco da mesma cor, um chapu de abas largas, que ainda pareciam novos,
uma gravata preta e uma camisa de quaker, quer dizer de deslumbrante brancura,
mas de pano grosso. Um dia, uma costureirinha ao passar por ele, disse:
     - Ora aqui est o que se chama um vivo asseado!
     Este personagem tinha os cabelos, alvssimos.
     Quando a jovem que o acompanhava veio pela primeira vez sentar-se com ele
no banco, que parecia terem ambos adoptado, inculcava ter treze ou catorze anos,
e era to magra, que quase se tornava feia, desajeitada, insignificante, mas
possuidora de uns olhos que prometiam vir a ser extremamente belos. Fitava-os,
porm, com uma ousadia que causava m impresso. Usava o trajo ao mesmo
tempo senil e infantil das recolhidas de um convento, que consistia num desairoso
vestido de grosseiro merino preto. Pareciam ser pai e filha.
     Mrio examinou durante dois ou trs dias este homem idoso, que ainda se
no podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se no podia chamar mulher, e
depois no tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem
sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e
indiferena. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de
quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefvel
paternidade.
     Mrio, que contrara maquinalmente o hbito de ir passear para esta lea,
encontrava-os ali sempre.
     Eis como o caso se passava:
     O mancebo chegava pela extremidade da lea oposta ao banco em que eles se
achavam, caminhava pela lea adiante, passava por eles, depois voltava at 
extremidade por onde tinha vindo e recomeava como da primeira vez. Repetia
este movimento de vaivm cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os
dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma
saudao.
     Conquanto, porm, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por
isso mesmo que pareciam evitar os olhares, tinham, como era natural, excitado
mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos
iam passear para a Pepinire, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois
da sua partida de bilhar. Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os
algum tempo; porm, como a jovem lhe parecesse feia, retirou-se apressadamente
e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemnio, dardejando-lhes
uma alcunha. Impressionado somente do vestido da jovem e dos cabelos do velho,
pusera  filha o nome de Mademoiselle Lanore, ao pai o de Monsieur Leblanc, e
em tal hora foi, que, como ningum lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha
pegou e os estudantes diziam:
     - L est Monsieur Leblanc sentado no seu banco!
     E Mrio do mesmo modo que os outros, achava cmodo tratar tambm por
senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.
     Faremos pois como eles e adoptaremos a alcunha para maior facilidade da
nossa narrativa.
     Assim os viu Mrio quase todos os dias e  mesma hora durante um ano. O
velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraada.
    II
    Lux facta est



     Precisamente no segundo ano, no ponto desta histria a que o leitor chegou,
sucedeu que Mrio sem que mesmo soubesse porqu, interrompeu aquele hbito
de ir ao Luxemburgo, estando perto de seis meses sem pr os ps na sua lea
favorita. Um dia, enfim, voltou ali; era uma serena manh de Vero e Mrio
sentia-se alegre, como sucede quando o tempo est agradvel. Parecia-lhe que
tinha no corao o canto de todas as aves que ouvia e todas as pores de
folhagem do arvoredo.
     Foi direito  sua lea, e quando chegou ao fim, avistou ainda no mesmo
banco, o par j conhecido. Quando se aproximou viu que o homem era o mesmo
que dantes; a pequena  que lhe pareceu mudada. A jovem que agora via, era uma
alta e bela cria-
     tura, tendo todas as formas mais encantadoras da mulher no momento
preciso em que elas se combinam ainda com as mais ingnuas graas da criana;
momento fugitivo e puro, que s se pode traduzir pelas duas palavras: quinze
anos. Tinha admirveis cabelos castanhos escuros com certos cambiantes
doirados, uma fronte que parecia de mrmore, faces que se diriam compostas de
folhas de rosas, mas um tanto plidas, uma alvura transparente, uma boca
primorosa, donde o sorriso saa como uma claridade e a palavra como uma
msica, uma cabea que Rafael teria dado a Maria, sobre um pescoo que Joo
Goujon teria dado a Vnus. Enfim, para que nada faltasse quela encantadora
fisionomia, o nariz no era belo, era bonito; nem recto nem curvo, nem italiano
nem grego; era o nariz parisiense, com o no sei qu de espirituoso, de fino, de
irregular e de puro, que desespera os pintores e encanta os poetas.
     Quando Mrio passou por diante dela no pde ver-lhe os olhos, que
conservava constantemente baixos. Apenas lhe viu as compridas pestanas
castanhas, carregadas de sombra e de pudor.
     Isto no impedia que a linda criana se sorrisse ouvindo o que lhe dizia o
homem dos cabelos brancos; e no havia nada to arrebatador como aquele fresco
sorriso com os olhos baixos.
     No primeiro momento, Mrio julgou que era outra filha do mesmo homem,
uma irm, sem dvida, da primeira. Mas quando o invarivel itinerrio do passeio
o fez passar segunda vez junto do banco e a examinou com mais ateno,
reconheceu ser a mesma. Em seis meses tornara-se a menina quase uma senhora;
eis toda a diferena.
     No h fenmeno mais frequente do que este. H um momento em que as
meninas desabrocham num abrir e fechar de olhos, e em que de repente se tornam
rosas.
     Ontem deixaram-se crianas, hoje acham-se inquietadoras.
     Aquela no s tinha crescido, mas tinha-se idealizado. Como trs dias de
Abril so suficientes a certas rvores para se cobrirem de flores, assim seis meses
lhe bastaram para ela se cobrir de beleza. Tambm tinha chegado o seu Abril.
     Vem-se s vezes pessoas que, pobres e mesquinhas, parecem despertar
passando subitamente da indigncia ao fausto, principiando a fazer despesas de
toda a qualidade, tornando-se de repente salientes, prdigas e magnificentes.  o
efeito de alguma grande penso, cujo primeiro prazo se venceu ontem. Do mesmo
modo a donzela chegara tambm ao termo do seu semestre.
     J no era a recolhida de outrora com o seu chapu de pelica, o seu vestido de
merino, os seus sapatos de rapaz de escola e as suas mos vermelhas; com a beleza
viera-lhe o gosto; era uma jovem bem trajada com uma espcie de simples, rica e
despretensiosa elegncia. Trazia um vestido de damasco preto, um mantelete da
mesma fazenda e um chapelinho de crepe branco. Adivinhava-se-lhe atravs das
alvas luvas a delicadeza daquela mo que brincava com o cabo de uma sombrinha
de marfim chins, e desenhava-lhe o borzeguim de seda a pequenez do p. Quem
por ela passava sentia um penetrante olor de juventude exalando-se-lhe da roupa.
     Quanto ao velho que a acompanhava, em nada tinha mudado.
     Da segunda vez que Mrio passou por diante da jovem, esta levantou as
plpebras e deixou ver uns profundos olhos azuis celestes, mas a expresso do seu
olhar era ainda simplesmente a do olhar de uma criana. Olhou para Mrio com a
mesma indiferena com que olharia para o gaiatozinho, que andava a brincar
debaixo dos sicmoros, ou para o vaso de mrmore que assombrava o banco em
que ela se achava; e Mrio continuou tambm o seu passeio com o pensamento
noutra coisa.
     Passou depois mais quatro ou cinco vezes prximo dela, mas sem ao menos
lhe deitar os olhos.
     Nos dias que se seguiram voltou, como de costume, ao Luxemburgo; como de
costume, l encontrou o pai e a filha, porm no mais fez reparo neles. Tanto
pensava na jovem agora que ela era bela, como quando ela era feia. Continuava a
passar prximo do banco em que ela ia sentar-se, porque era esse o seu costume.
    III
    Efeitos da Primavera



     Certo dia, estando o ar tpido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o
cu puro como se os anjos o tivessem lavado pela manh cedo, os passarinhos
soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mrio tinha
aberto toda a sua alma  natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia,
passando prximo do clebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele. e os dois
olhares encontraram-se.
     Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mrio o poderia dizer. No
havia nada e havia tudo. Foi um estranho relmpago aquele.
     Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.
     O que o mancebo acabava de ver no era o simples e ingnuo olhar de uma
criana, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente
fechado.
     H um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraado ento
daquele sobre quem esse olhar se fita!
     Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se no conhece a si mesma 
como a aurora no cu.  o despontar de um mistrio esplendoroso. No h
palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado claro que se
derrama, improvisando luz em trevas adorveis e que se compem de toda a
inocncia do presente e de toda a paixo do futuro.  uma espcie de ternura
indecisa que se revela ao acaso e que espera.  um lao que arma sem o saber a
inocncia e em que sem querer e sem o esperar apanha os coraes.  uma virgem
com olhar de mulher.
     Raro acontece que no corao daquele sobre quem esse olhar se fita no se
desenvolva o grmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente
celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquette possui o mgico
poder de fazer subitamente desabrochar no recndito de uma alma essa misteriosa
flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e
canduras.
      noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mrio deitou os olhos 
roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que tinha a indecncia, a
inconvenincia, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu
trajo ordinrio, quer dizer, com um chapu amassado, umas botas que pareciam
as de um carrejo, umas calas pretas, porm, j todas coadas nos joelhos, e um
casaco preto, tambm j todo russo nos cotovelos.



    IV
    Princpio de uma grave doena



     No dia seguinte,  hora do costume, o mancebo tirou do armrio o seu casaco
novo, calas novas, chapu e botas novas, e depois de vestir esta armadura
completa e calar umas luvas, o que nele era um artigo de luxo raras vezes visto,
partiu para o Luxemburgo.
     No caminho encontrou Courfeyrac, e como fez que o no vira, Courfeyrac,
quando se recolheu a casa, disse aos seus amigos:
     - Encontrei agora o chapu e o casaco novo de Mrio, levando-o a ele dentro.
Sem dvida ia fazer algum exame porque levava mesmo cara de parvo!
     Chegando ao Luxemburgo, Mrio deu uma volta em redor do lago, ps-se a
observar os cisnes e depois ficou em demorada contemplao diante de uma
esttua que tinha a cabea coberta de musgo e um quadril decepado. Ao p do
lago estava um barrigudo burgus de quarenta anos, dizendo para um rapazinho
de cinco anos, que trazia pela mo:
     - Foge dos excessos, meu filho; conserva-te a igual distncia do despotismo e
da anarquia.
     Mrio aplicou o ouvido ao que o burgus dizia, em seguida deu outra volta
em redor do lago e por fim dirigiu-se para a sua lea, porm, lentamente e como
que a custo. Dir-se-ia que uma fora oculta o impelia e ao mesmo tempo o
retinha. Ele, porm, de nada disto tinha conscincia e julgava fazer o que fazia
todos os dias.
     Desembocando na lea, avistou no extremo oposto e no seu banco, o
senhor Leblanc e a jovem, abotoou a casaca, puxou-a por todos os lados para que
no fizesse rugas, examinou com certa complacncia os lustrosos reflexos das
calas e dirigiu-se para o banco. O seu andar era como o do soldado que se dispe
para o ataque, pelo menos caminhava com certo ar de conquista. Eu digo que ele
se dirigiu para o banco como se dissesse que Anbal marchou sobre Roma.
     No fim de contas, os seus movimentos eram todos maquinais: no
interrompera de modo algum as habituais preocupaes do seu esprito e dos seus
trabalhos.
     Naquele momento pensava em que o Manual do Bacharelado era um livro
estpido, e que forosamente fora redigido por verdadeiros e raros cretinos, para
que ali se analisassem como obras-primas trs tragdias de Racine e apenas uma
comdia de Molire. Sentia nos ouvidos uma espcie de agudo assobio.
Aproximando-se do banco, desfazia com a mo as rugas do fato e no afastava os
olhos da jovem. Parecia-lhe v-la preencher toda a extremidade da lea com vago
claro azulado.
      medida que se aproximava, demorava cada vez mais o passo. Chegando a
certa distncia do banco, muito antes do fim da lea, parou, e no pde saber
como foi que voltou para trs. Nem sequer chegou a dizer a si mesmo que no ia
at ao fim. A jovem mal o teria podido avistar de longe e ver a bela presena que
lhe dava o seu fato novo. Entretanto, ele conservava-se muito direito, para
apresentar bom aspecto, na suposio de que fosse notado por algum que se lhe
achasse pela parte de trs.
     Chegou afinal ao extremo oposto, depois voltou, mas ento aproximou-se um
pouco mais do banco. Chegou mesmo at  distncia de trs intervalos de rvores;
mas ali sentiu no sei que impossibilidade de continuar a adiantar-se e hesitou.
Julgara ter visto o rosto da jovem voltar-se para ele. Todavia fez um esforo viril e
violento para suplantar a hesitao e continuou a avanar. Ao cabo de poucos
segundos passava pela frente do banco, direito e firme, vermelho at s orelhas,
sem olhar para a direita nem para a esquerda, e com a mo metida na abotoadura
do casaco, como qualquer estadista. No momento em que passava sob a artilharia
da praa sentiu palpitar o corao de um modo medonho. Como na vspera, a
jovem tinha o seu vestido de damasco e o seu chapu de tule. Mrio ouviu uma
voz inefvel, que devia ser a sua voz. Conversava tranquilamente. Era muito
linda. Mrio conhecia-a, apesar de no intentar v-la. Ela, contudo, pensava o
mancebo, no poderia deixar de ter estima e considerao por mim, se soubesse
ser eu o verdadeiro autor da dissertao sobre Marcos Obregon de la Ronda, que
Francisco de Neufchteau ps, como sendo sua, na frente da sua edio de Gil
Braz.
     Mrio ultrapassou o banco, foi at  extremidadeda lea, que ficava muito
prxima, e voltou de novo, para passar ainda pela frente da jovem. Desta vez
estava em extremo plido. Mas afinal no experimentava seno uma sensao
muito desagradvel. Afastou-se do banco e da jovem; e mesmo voltando as costas,
imaginava que ela o observava, e isto fazia-o tropear.
     No intentou mais aproximar-se do banco; parou no meio da lea e ali, coisa
que nunca fizera, sentou-se, olhando de revs, e pensando, nas profundidades
menos distintas do seu esprito, que no fim de tudo era difcil que as jovens de
quem ele admirava o chapu branco e o vestido preto, fossem absolutamente
insensveis s suas calas lustrosas e ao seu casaco novo.
     Passado um quarto de hora levantou-se, como se fosse recomear o passeio
para o lado do banco, que parecia rodeado por uma aurola. Contudo ficou de p
e imvel.
     Pela primeira vez, ao cabo de quinze meses, disse consigo que o sujeito que ali
ia sentar-se todos os dias com a jovem, tinha j, decerto, reparado nele e
provavelmente achado estranha a sua assiduidade.
     Pela primeira vez tambm achou que era de pouca reverncia designar o
desconhecido, mesmo no segredo do seu pensamento, pela alcunha de senhor
Leblanc.
     Conservou-se assim por alguns instantes cabisbaixo, e fazendo desenhos na
areia com uma varinha que tinha na mo.
     Depois voltou de repente pelo lado oposto ao banco, onde estavam o senhor
Leblanc e a filha e regressou a casa.
     Naquele dia esqueceu-se de jantar. S s oito horas da noite deu pelo
esquecimento; e como era demasiadamente tarde para ir  rua de S. Jacques, disse
para consigo: Ora adeus! E comeu um pedao de po.
     No se deitou porm seno depois de ter escovado e dobrado o casaco com
todo o cuidado.



    V
    Caem vrios raios sobre Mame Bougon



    No dia seguinte, mame Bougon, como Courfeyrac, que no respeitava coisa
nenhuma, chamava  velha porteira principal locatria e criada do casaro
Gorbeau, cujo verdadeiro nome, como j dissemos, era Madame Bougon mame
Bougon, estupefacta, reparou que Mrio tornava a sair de casaco novo.
    Efectivamente, o mancebo voltou ao Luxemburgo, porm no passou alm do
seu banco do meio da lea,no qual, como no dia antecedente, se sentou,
contemplando de longe e vendo distintamente o chapelinho branco, o vestido
preto e especialmente o claro azul. No se mexeu do lugar em que estava,
recolhendo a casa somente quando se fecharam as portas do Luxemburgo. Como
no tivesse visto o senhor Leblanc e sua filha retirar-se, concluiu que tinham sado
pela grade que fica do lado da rua de Oeste.
     Passado tempo, quando tudo o que passara ento lhe veio ao pensamento,
no pde, por mais que fizesse, lembrar-se onde fora jantar nesse dia.
     Ao outro dia, que era o terceiro, foi mame Bougon fulminada com terceiro
raio.
     Mrio tornou a sair com o casaco novo.
     - Trs dias a fio! - exclamou ela.
     Bem tentou segui-lo para o espreitar, porm, Mrio andava depressa e tinha o
passo largussimo; era como um hipoptamo no encalo de uma cabra monts.
Perdeu-o de vista, portanto, dentro de dois minutos, e recolheu-se a casa
esbaforida, quase sufocada pela asma, furiosa.
     - Trazer a roupa melhor a uso e dar estafas destas  gente! - rosnou ela. - Isto
s de quem no tem juzo nenhum!
     Mrio caminhara em direco ao Luxemburgo.
     A jovem e o senhor Leblanc l estavam. Mrio aproximou-se-lhes o mais que
lhe foi possvel, fingindo ler num livro, mas ficou ainda muito longe, e foi depois
sentar-se num banco, onde se demorou quatro horas, a ver saltar de um para
outro lado os pardais, que pareciam zombar dele.
     Decorreram assim quinze dias. Mrio ia ao Luxemburgo, no j para passear,
mas para ir sentar-se no mesmo lugar, e sem saber porqu. Depois de ali chegar
no se mexia. Vestia em cada dia o fato novo, apesar de no se mostrar, e
recomeava no dia seguinte. Ela era decididamente dotada de maravilhosa beleza.
     A nica observao que se poderia fazer semelhante a uma crtica, era a
contradio entre o olhar, que era triste, e o sorriso, que era alegre, lhe dava ao
rosto um tanto ou quanto de desvairamento, o que era origem de que em certos
momentos aquele meigo rosto se tornasse extraordinrio, sem deixar de ser
encantador.
    VI
    Mrio prisioneiro



     Estava Mrio, num dos ltimos dias da semana, como costumava, sentado no
seu banco, com um livro aberto na mo, do qual havia duas horas no voltava
uma nica folha. De repente estremeceu. Passava-se o que quer que era no
extremo em que estava o outro banco. O senhor Leblanc e sua filha acabavam de
se levantar, a jovem dera o brao a seu pai e dirigiam-se ambos para o meio da
lea onde estava Mrio; este fechou o livro, tornou depois a abri-lo, e fez diligncia
para ler. Mrio tremia. A aurola tomava a sua direco. Meu Deus! pensava ele.
Nem terei tempo de tomar uma atitude. Entretanto, o homem de cabelos
brancos e a jovem continuavam a avanar.
     Mrio julgava que isto durava havia um sculo, quando no era mais do que
um segundo. O que vm eles fazer para este lado? perguntou a si mesmo. O
qu! Pois ela vem passar por aqui Os seus ps vo pisar a areia desta lea a dois
passos de mim! Sentia-se transtornado, desejava ser belo, quisera ter ao peito
uma condecorao. Ouvia aproximar-se o rudo suave e cadente de seus passos e
imaginava que o senhor Leblanc lhe lanava olhos irritados. Dar-se- o caso que
me venha falar? pensava. Em seguida baixou a cabea; quando a ergueu vi-os
quase ao p de si. A jovem passou e olhou para ele e fitou-o com uma doura
pensativa, que o fez estremecer desde os ps at a cabea.
     Pareceu-lhe que o repreendia de ter estado tanto tempo sem se lhe aproximar
e que lhe dizia: Sou eu que me aproximo. Mrio sentiu-se deslumbrado na
presena daquelas pupilas cheias de raios e de abismos, que lhe acendiam como
que uma fogueira no crebro. Vir ela ter com ele, que jbilo! E olh-lo como ela o
olhou! Mais bela do que nunca se lhe afigurou naquela hora! Bela de uma beleza a
um tempo feminina e anglica, de uma beleza completa que faria cantar Petrarca e
curvar o joelho a Dante.
     Parecia-lhe que se sentia librado na amplido do espao, quando realmente o
torturava a aflio de se ver com as botas cobertas de p.
     E Mrio acreditava piamente que ela lhe tinha olhado tambm para as botas.
     Seguiu-a com os olhos at a perder de vista e depois principiou a passear pelo
Luxemburgo como um louco.  provvel que por vezes se risse consigo s e falasse
em voz alta.  certo que fitava com tal ternura as amas de meninos que por ali
andavam tambm a passear, que cada qual o julgava enamorado de si.
     Passado algum tempo saiu do Luxemburgo, na esperana de se tornar a
encontrar com a donzela na rua.
     Ao chegar s arcadas do Odeon, encontrou Courfeyrac e disselhe:
     - Anda da jantar comigo!
     E l foram ambos para o Rousseau, onde gastaram seis francos. Mrio comeu
como um lobo. Deu seis soldos ao criado que os serviu e  sobremesa disse para
Courfeyrac:
     - J leste o jornal onde vem o belo discurso de Audry de Puyraveau?
     O mancebo estava loucamente enamorado.
     Depois de jantar disse para Courfeyrac:
     - Anda da ao teatro, que eu pago!
     E foram a caminho da Porta de S. Martinho ver o actor Frederico na
Estalagem dos Adrefs. Mrio divertiu-se a no poder mais.
     Nem assim, porm, o abandonou o predomnio da sua natural
intratabilidade.
     Na ocasio em que saiu do teatro voltou a cara para no ver as pernas a uma
modista que ia a saltar uma enxurrada, e ao ouvir dizer a Courfeyrac: Quem ma
dera c para a minha coleco!, estremeceu quase horrorizado.
     Courfeyrac convidou-o para irem no dia seguinte almoar ao caf Voltaire.
Mrio foi e comeu ainda mais do que no dia antecedente. Estava pensativo, mas
muito alegre.
     Dir-se-ia que aproveitava todas as ocasies de rir s gargalhadas.
Apresentaram-lhe um provinciano que nunca na sua vida conhecera e ele
abraou-o com toda a cordialidade. Havendo-se formado em volta da mesa um
crculo de estudantes, que se entretinham a falar das tolices vomitadas do alto das
cadeiras da Sorbonna, tolices que ficavam ao Estado por bom dinheiro, a conversa
recaiu sobre as faltas e lacunas dos dicionrios, e prosdias de Quicherat, e
quando a discusso estava mais animada, Mrio interrompeu-a para exclamar.
     - Mas ho-de confessar que  uma agradvel coisa o ser condecorado!
     - Ora isto  que  uma ratice! - disse Courfeyrac em voz baixa a Joo
Prouvaire.
     - E eu digo que  uma coisa muito sria  respondeu Joo Prouvaire.
     E era-o, efectivamente. Mrio estava nessa primeira hora violenta e cheia de
encantos que preludia as grandes paixes.
     Tudo isto operara-o um olhar.
     Quando se acha carregada a mina, quando esto aparelhados os materiais do
incndio, no h coisa mais simples. Um olhar  uma fasca.
     Acabara tudo. Mrio amava uma mulher. O seu destino principiava a
envolver-se nas dobras do mistrio.
     O olhar das mulheres assemelhava-se a certas mquinas de numerosas rodas,
na aparncia tranquilas, na realidade medonhas. Todos os dias passamos por elas
sossegados, alheados do pensamento de um perigo, impunes da nossa descuidosa
serenidade. Uma ocasio chega em que at da sua existncia nos mostramos
olvidados.
     Giramos em torno a elas, falamos, rimos e de repente sentimo-nos
apanhados, e tudo acaba! Travou de ns a mquina, apanhou-nos o olhar.
Apanhou-nos, pouco importa porque parte ou como, por qualquer parte do vosso
pensamento que andava alheada, por alguma distraco que tiveste. Estais
perdido. Sereis arrebatado em peso por esse olhar. Apoderar-se- de vs um
encadeamento de foras misteriosas. Em vo vos debateis, que todo o socorro dos
homens se vos torna impossvel. Ides cair de roda em roda, de angstia em
angstia, de tortura em tortura, vs, o vosso esprito, a vossa fortuna, o vosso
porvir, a vossa alma; e dessa horrorosa mquina saireis, ou desfigurado pela
vergonha ou transfigurado pela paixo, conforme tiverdes cado, ou em poder de
uma criatura m ou em poder de um nobre corao.



    VII
    Aventuras da letra U entregue a conjecturas



     O isolamento, o desapego de tudo, o orgulho, a independncia, o amor da
natureza, a falta de actividade quotidiana e material, o viver ntimo, as secretas
lutas da castidade, o xtase benvolo em presena de todos os objectos da criao,
haviam preparado Mrio para essa posse chamada paixo. O culto que ele
tributava a seu pai pouco a pouco convertera-se em religio, e, como toda a
espcie de religio, retirara-se-
     lhe para o fundo da alma. Era, pois, necessrio alguma coisa no primeiro
plano. Veio o amor.
     Decorreu um ms, durante o qual Mrio nem um s dia faltou no
Luxemburgo.
     Chegada a hora, no havia foras que o retivessem.
     - Est de servio -, dizia Courfeyrac.
     Mrio vivia em sucessivos arrebatamentos, porque  caso averiguado que a
donzela lhe fitava os olhos todas as vezes que podia.
     Mrio, por ltimo, viera a fazer-se ousado, aproximando-se o mais que podia
do banco, sem, todavia, tornar a passar por diante dele, no que juntamente
obedecia ao instinto da timidez e ao instinto da prudncia dos namorados.
Julgando til, pois, no atrair a ateno do pai, combinava as suas paragens por
trs das rvores e dos pedestais das esttuas, com profundo maquiavelismo, de
modo a tornar-se visvel o mais que podia para a jovem e o menos possvel ao
velho que passava por seu pai. s vezes permanecia imvel por mais de meia hora
 sombra de um Lenidas ou de um Espartaco, conforme os topava a jeito,
segurando na mo um livro, por cima do qual iam os seus olhos meigamente
fitar-se na donzela: ela voltava-se para o lado do mancebo com um sorriso vago
que lhe expandia em graas o donairoso rosto, e ao mesmo tempo que natural e
sossegadamente recreava os ouvidos do ancio com a meiguice das suas palavras,
fazia estremecer o mancebo com a sensao que nele ia produzir o seu virginal e
apaixonado olhar. Antigo manejo, de data imemorial, que Eva aprendeu no
primeiro dia da existncia do mundo e que todas as mulheres sabem desde o
primeiro dia da sua vida! Com a boca respondia a um, com os olhos correspondia
s mudas falas do corao do outro.
     Devemos porm acreditar que o senhor Leblanc viera, por ltimo, a suspeitar
de alguma coisa, porquanto s vezes, logo que Mrio chegava, ele erguia-se e
principiava a passear. Afinal, abandonara o costumado pouso dos seus passeios
quotidianos e fora tomar posse do banco que ficava ao p da esttua do Gladiador,
na outra extremidade da rua, como para ver se Mrio os seguiria. Mrio, que no
percebeu o ardil, cometeu, efectivamente, a falta de os seguir e, desde ento, o
pai principiou a ser menos exacto nas regularidades dos seus passeios e a no
trazer a filha quotidianamente como dantes, vindo algumas vezes s. Nesse
caso, Mrio no ficava. Outra falta.
     O mancebo, porm, no dava importncia a estes sintomas. Da fase da
timidez passara, por uma progresso natural, mas nem por isso menos fatal,  fase
da cegueira.
     S conhecia que o seu amor aumentava de dia a dia e que de noite no era
outro o objecto constante dos seus sonhos. Para maior desgraa, sucedera-lhe uma
aventura inesperada, que foi como um deitar plvora no lume, um espessar-se-lhe
mais a venda que j lhe tapava os olhos. Uma tarde,  luz crepuscular que lhe
povoava o espao de vises etreas, encontrou no banco em que o senhor
Leblanc e sua filha costumavam estar sentados, um leno sem bordados nem
lavores, mas branco, fino, que lhe pareceu rescender inefveis aromas.
Apoderou-se dele com transporte e viu que estava marcado com as iniciais U. F.;
Mrio nada sabia daquela graciosa jovem, nem a respeito da sua famlia, nem do
seu nome, nem da sua morada; eram aquelas duas letras a primeira coisa que a
respeito dela colhia, duas iniciais adorveis, sobre as quais imediatamente
comeou a construir castelos movedios a qualquer empuxo da realidade. U, com
certeza, era o nome de baptismo.
     - rsula! - disse ele a ss consigo. - Que delicioso nome!.
     E, aps haver beijado, aspirado, sorvido em sfregos haulos os olores
perfumados daquele to simples, to desornado leno, colocou-o junto ao
corao, junto  carne, de dia, e  noite sobre os lbios, para que mesmo
dormindo lhe coassem bem dentro os eflvios rescendentes daquela amorosa
relquia.
     - Sinto a alma dela neste leno! - exclamava ele.
     Aquele leno to apaixonadamente arrecadado pelo enamorado mancebo era
do velho, que por inadvertncia o deixara cair do bolso.
     Nos dias que se seguiram ao precioso achado, o mancebo aparecia sempre no
Luxemburgo beijando o leno e apertando-o contra o corao. A graciosa jovem
no o percebia naquela linguagem muda da sua paixo e disso o advertia por meio
de sinais imperceptveis.
     - Quanto pode o pudor! - dizia Mrio.



    VIII
    At os prprios invlidos podem ser felizes



     J que pronuncimos a palavra pudor, e tambm porque no ocultamos nada,
diremos que apesar de tudo houve uma ocasio, no meio dos seus xtases, em que
a sua rsula lhe deu srio motivo de queixa.
     Foi num dos dias em que ela convencera o senhor Leblanc a deixar o banco e
a passear na lea. A brisa soprava fresca agitando os cimos dos pltanos. O pai e a
filha, de brao dado, foram passar por diante do banco de Mrio. Este, apenas eles
passaram, levantou-se e seguiu-os com a vista, como  prprio de tais situaes,
nas quais a alma est desvairada.
     De repente, uma rajada de vento mais forte, provavelmente encarregada de
produzir os efeitos da Primavera, precipitou-se do viveiro sobre a lea, envolveu a
jovem num arrebatador estremecimento, digno das ninfas de Virglio e dos faunos
do Theocrito, e levantou-lhe o vestido, aquele vestido mais sagrado do que a
tnica de sis, at quase  altura da liga, deixando ver uma perna de forma
irrepreensvel.
     Mrio viu-a. Ficou exasperado e furioso.
     A jovem baixara rapidamente o vestido com um movimento divinamente
assustado, mas nem por isso Mrio ficara menos indignado. Era verdade que
estava s na lea, mas podia ali ter estado algum. E se estivesse! Pois pode
compreender-se semelhante coisa? Fora horrvel o seu procedimento! A pobre
criana no fizera coisa alguma, no houvera seno um culpado: o vento. Mas
Mrio, em quem estremecia confusamente o Brtolo contido em Querubim,
decidira-se a ficar descontente e sentia-se cioso da sua sombra.  assim, com
efeito, que se desperta no corao humano e que se impe mesmo sem direito, o
amargo e extravagante cime da carne. No fim de tudo, mesmo apesar do cime,
no tivera para ele nada agradvel a vista daquela enca-tadora perna; a meia
branca da primeira mulher que aparecesse, ter-lhe-ia causado maior prazer.
     Quando a sua rsula, depois de ter chegado  extremidade da lea, voltou
para trs com o senhor Leblanc, e passou por diante do banco em que Mrio
tornara a sentar-se, lanou-lhe este um olhar ferozmente zangado. A jovem fez
um movimento acompanhado de ligeiro erguer de plpebras, que significa: Ora
esta! O que tem ele? Foi este o primeiro arrufo.
     Acabava de ter lugar entre a jovem e Mrio esta muda cena, em que um ao
outro s com os olhos falaram, quando pela lea passou um sujeito. Era um
invlido, alquebrado, de fronte encanecida e arregoada pelo arar do tempo, seno
pelo queimar do sol dos combates, com uniforme do tempo de Lus XV, com a
cruz de S. Lus do soldado ao peito, a qual consiste num retalho de pano vermelho
de forma oval com duas espadas cruzadas, e afora isto ornado com uma manga de
casaco sem brao, de uma perna de pau e de um queixo de prata. Apesar de tudo
afigurou-se ao mancebo ver no rosto daquela estranha criatura um ar de
satisfao, que estaria longe de apresentar outro a quem to graves mutilaes
tivesse feito a espada inflexvel da guerra. Pareceu-lhe at que, quando o cnico
velho passou por ele bamboleando donairosamente a sua perna de provenincia
estranha, lhe piscara o olho com o mais fraternal e prazenteiro gesto, como se
acaso ambos estivessem em inteligncia e pudessem saborear em comum as
delcias de alguma boa patuscada. Que razes de contentamento teria aquele
despontado raio de Marte? Que se tinha passado entre esta perna de pau e a outra
de carne, que a voluptuosidade da brisa estival no poupara aos seus lascivos
sculos? Mrio chegou a sentir-se confrangido nos paroxismos do cime, De
certo ele estava por aqui e viu! E, ao mesmo tempo que dizia isto em monlogo
interior, vinha-lhe de mpeto ao corao o desejo indomvel de dar cabo do
decepado invlido.
     Porm, o tempo tudo desgasta e tudo com ele se adoa. Embora em extremo
justa e legtima, a clera de Mrio contra rsula passou, como passam todas as
coisas desta vida, e ele veio enfim a perdoar, no, contudo, sem grande esforo.
Antes de atingido este resultado, andaram os namorados trs dias mudamente
desavindos.
     No entanto, apesar de tudo isto e por causa de tudo isto, recrudescia o fogo da
paixo e j quase atingia o extremo da loucura.



    IX
    Eclipsa



     Viu-se j como Mrio descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava
rsula. O amor  insacivel. Saber que ela se chamava rsula, que muito fora, j
agora lhe parecia pouco: dentro de trs ou quatro semanas devorara esta ventura,
e, portanto, queria outra. Queria saber onde ela morava.
     No contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se
cair na armadilha do banco do Gladiador; no satisfeito com a segunda, que to
desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc
chegava s; cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu rsula.
     A sua rsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova
de trs andares, de modesta aparncia.
     A partir desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mrio o de
segui-la sempre at casa.
     A sua fome, porm, como a sede dos hidrpicos, que mais se ateia, se mais a
tentam apagar, aumentava.
     J sabia como ela se chamava, isto , sabia-lhe o nome de baptismo pelo
menos; j sabia onde ela morava; quis tambm saber quem ela era. Para isto,
depois de os ter seguido uma tarde at  entrada de casa e v-los subir a escada
que do portal comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalo e
desassombradamente perguntou ao porteiro:
     - Este senhor que agora entrou, no  o que mora no primeiro andar?
     - No, senhor. O que entrou mora no terceiro.
     Ousado com o prspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguaes.
     - Para o lado da frente? - continuou ele.
     - Ora, a pergunta no est m! - exclamou o porteiro. - A casa no tem
traseiras.
     - E que ocupao  a deste sujeito, sabe? - replicou Mrio.
      um rendeiro e homem de bons sentimentos.
     Conquanto no tenha l grandes riquezas, favorece os infelizes como outros
que tm muito e no o fazem.
     - Sabe-me dizer como se chama? tornou Mrio.
     O porteiro, porm, em vez de responder  pergunta, fitou-lhe os olhos e
disselhe:
     - O senhor  espio?
     Mrio saiu dali corrido e vexado, porm satisfeito com o feliz sucesso das suas
pesquisas e informaes que ia colhendo.
     - Bem -, disse ele consigo. - J sei que se chama rsula, que  filha de um
rendeiro e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.
     No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porm
demo-raram-se muito menos do que o costume, retirando-se ainda dia claro,
seguidos de Mrio, que foi atrs deles at  entrada de casa, como costumava. Ao
chegarem  porta, Leblanc deixou passar a filha adiante, parou antes de transpor o
limiar da porta e depois voltou atrs e ps-se a olhar fixamente para Mrio.
     No outro dia, Mrio esperou por eles, mas debalde. Os dois assduos
frequentadores do Luxemburgo no apareceram.
     Ao escurecer, Mrio dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do
terceiro andar visse luz, ps-se a passear na rua at que a luz se apagou.
     No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mrio esperou todo o dia, e
como no visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda nocturna debaixo das,
janelas da casa da rua do Oeste, que durou at s dez horas. O seu jantar constava
do que o acaso lhe deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
     Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a
aparecer nem Leblanc nem sua filha. Mrio fazia tristes conjecturas, porm,
receoso, no se atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que
andava ligado o seu destino. Contentava-se em ir de noite contemplar o
avermelhado claro que se coava pelas vidraas, a espaos entenebrecido pelo
perpassar de umas sombras, que lhe faziam pulsar o corao aligeirado nos estros
da comoo.
     Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, no viu luz.
     - Ora esta! Ainda no acenderam o candeeiro, no obstante ser j noite
fechada!
     Tero eles sado?
     Dito isto, esperou at s dez horas, at  meia-noite, at  uma hora. Ao ver,
porm, que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz,
nem para aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o corao atribulado.
     No dia seguinte pois o mancebo vivia s das esperanas do outro dia, desde
que para ele, permitam-nos a expresso, j no havia hojes no dia seguinte, no
encontrando ningum no Luxemburgo, como j esperava, dirigiu-se para a casa
da rua do Oeste. Nem sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do
terceiro andar e tudo completamente s escuras. Mrio bateu  porta, entrou e
disse para o porteiro:
     - O inquilino do terceiro andar est em casa?
     - Mudou-se - respondeu o porteiro.
     Mrio cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida:
     - H quanto tempo?
     - Ontem.
     - E onde mora agora, faz favor de me dizer?
     - Isso no sei.
     - Ento ele no disse onde era a sua nova morada?
     - No, senhor.
     E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou:
     - Ah,  o senhor! O senhor decididamente  espio, no tem que ver!
    LIVRO STIMO
    Patron-Minette



    I
    As minas e os mineiros



     Em todas as sociedades humanas h aquilo a que nos teatros se d o nome de
entresolo. O solo social  todo minado, ora para o bem, ora para o mal, e essas
minas so sobrepostas. H as superiores e inferiores. Tem altos e baixos esse
escuro subterrneo, cavado sob a civilizao, por cima do qual ns passeamos com
descuidada indiferena.
     No sculo passado, a Enciclopdia era uma mina quase sem abbada As
trevas que chocaram o cristianismo primitivo esperavam apenas ensejo oportuno
para rebentarem debaixo dos Csares e inundarem de luz o gnero humano.
Porquanto, nas trevas sagradas h luz latente. Os vulces esto cheios de trevas
susceptveis de disparar em clares. Toda a lava principia por escurido. As
catacumbas onde se disse a primeira missa no eram s os covais de Roma, eram
tambm o subterrneo do mundo.
     Por baixo do edifcio social existem as variadas escavaes que constituem a
complicada maravilha de um edifcio em runas. Existe a mina religiosa, a mina
filosfica, a mina poltica, a mina econmica, a mina revolucionria. Uma cavada
com ideia, outra com o algarismo, outra com a clera. Ouvem-se as vozes dos que
chamam de uma catacumba para a outra, e os chamados e as que chamam
mutuamente se respondem. As utopias caminham por canais subterrneos,
ramificam-se em todas as direces, e s vezes encontram-se e fraternizam. Ento
Joo Jacques empresta o seu pico a Digenes e este empresta-lhe a sua lanterna.
Outras vezes combatem-se, e ento Calvino trava de Socino pelos cabelos. Mas
nada faz parar ou interromper a tenso de todas estas energias para o seu fim, nem
a vasta actividade simultnea que vai e vem, sob e desce, e torna a subir no meio
daquelas obscuridades, voltando lentamente o de cima para baixo e o de fora para
dentro: espcie de formigueiro ignorado, mas imenso. A sociedade mal suspeita
estas escavaes que lhe deixam a superfcie e lhe mudam as entranhas. Quantos
so os andares subterrneos, outros tantos trabalhos diferentes, outras tantas
extraces diversas. Que sai de todas estas subterrneas escavaes? O futuro.
     Quanto mais vai afundando o edifcio, mais misteriosos so os operrios. At
certo degrau que o filsofo social sabe conhecer  bom o trabalho; desse degrau
para baixo torna-se duvidoso e misto; quanto mais fundo mais terrvel. A certa
profundidade j as escavaes no so penetrveis ao esprito de civilizao, acaba
o limite respirvel ao homem; principiam a ser possveis os monstros.
      singular a escala descendente, mas cada um desses degraus corresponde a
um andar, em que a filosofia pode firmar-se e onde sempre se encontra algum
desses obreiros, umas vezes divinos, outras disformes. Por baixo de Joo Huss est
Lutero; por baixo de Lutero est Descartes; por baixo de Descartes, Voltaire; por
baixo de Voltaire, Condorcet; por baixo de Condorcet, Robespierre; por baixo de
Robespierre, Marat; por baixo de Marat, Babeuf. E assim por diante. Mas no
fundo, confusamente, no limite que separa o indistinto do invisvel, divisam-se
outros homens sombrios que talvez ainda no existam. Os de ontem so espectros;
os de amanh so larvas Obscuramente os distinguem os olhos do esprito. O
trabalho embrionrio do futuro  uma das vises do filsofo.
     Que singular aspecto o de um mundo nos limbos em estado de feto!
     Nesse mundo existem tambm em minas laterais Saint-Simon, Owen,
Fourier.
     Com efeito, posto que uma divina cadeia invisvel una uns aos outros, sem
que eles o saibam, esses viandantes subterrneos, que quase sempre se julgam
isolados e no o esto, os seus trabalhos so muito diversos e a luz de uns
contrasta com o resplendor dos outros. Uns so paradisacos, os outros trgicos.
Contudo, por maior que seja o contraste, todos estes obreiros, de cima at baixo,
desde o mais ajuizado at ao mais tolo, tm entre si a semelhana do desinteresse.
Marat olvida o que , como Jesus Pem-se a si de lado, omitem-se, no se
lembram de si, vem outra coisa sem ser as suas prprias pessoas. Olham, mas o
seu olhar procura o absoluto. O primeiro tem o cu todo nos olhos; o ltimo, por
mais enigmtico que seja, ainda assim tem por baixo do sobrolho o plido claro
do infinito. Faa ele o que fizer, venerai sempre o que tiver este sinal a pupila
estrela.
     A pupila sombra  o outro sinal.
     Nela tem seu princpio o mal. Fronte sem olhar, tremei e fugi dela. A ordem
social tambm tem mineiros negros.
     H um ponto, porm, em que o afundar  cavar uma sepultura em que a luz
se apaga.
     Por baixo de todas estas minas de que acabamos de fazer meno, de todas
estas galerias, de todo este imenso sistema venoso, subterrneo do progresso e da
utopia, bem pela terra dentro, abaixo de Marat, abaixo de Babeuf, mais abaixo,
muito mais, e sem nenhuma relao com os andares superiores, existe a ltima
cova Lugar formidvel, que  ao que ns demos o nome de entresolo.  o fosso das
trevas, a cova dos cegos. Inferi.
     Isto comunica com os abismos.



    II
    O Bas-fond



      A desaparece o desinteresse e divisa-se o vago esboo do demnio; iada qual
para si. O eu sem olhos uiva, procura, apalpa e ri. Existe nesse pego o Ugolino
social.
      As figuras ferozes que giram nessa cova, quase animais, quase fantasmas, no
se ocupam do progresso universal, cuja ideia ignoram; s cuidara de saciar-se cada
uma a si mesma Quase lhes falta a conscincia, e parece haver uma espcie de
amputao terrvel dentro delas. So duas as suas mes, ambas madrastas: a
ignorncia e a misria. O seu guia  a necessidade; e para todas as formas da
satisfao, o apetite. So brutalmente vorazes, quer dizer, ferozes; no  maneira
de tirano, mais a maneira do tigre. Do sofrimento passam estas larvas ao crime;
filiao fatal, gerao aterradora, lgica das trevas. O que roja pelo entresolo social
no  a reclamao sufocada do absoluto;  o protesto da matria. Torna-se a
drago o homem. Ter fome e sede,  o ponto de partida; ser Satans,  o ponto de
chegada. Esta cova produz Lacenaine Viu-se h pouco no livro quarto, um dos
compartimentos da mina superior, da grande cova poltica, revolucionria e
filosfica, onde, como acabou de ver,  tudo nobre, puro, digno, honesto; onde,
sem dvida,  possvel um engano, e efectivamente se do; mas onde o erro se
torna digno de respeito, to grande  o herosmo a que anda anexo. O complexo
do trabalho que a se opera chama-se Progresso.
      Chegou porm o momento de se entrever outras profundidades, as
profundidades hediondas.
      Por baixo da saciedade, insistamos neste ponto, existir sempre a grande
caverna do mal, enquanto no chegar o dia da dissipao da ignorncia.
      Esta cova fica por baixo de todas e  a inimiga de todas.  o dio sem
excepo.
     Esta no conhece filsofos; o seu punhal nunca aparou penas. A sua negrura
no tem nenhuma relao com a sublime negrura da escrita. Nunca os negros
dedos que se crispam debaixo desse tecto asfixiante folhearam um livro ou
abriram um jornal. Para Cartucho, Babeuf  um especulador para
Schinderhannes, Marat  um aristocrata. O alvo desta cova  abismar tudo, Tudo.
Inclusive as covas superiores que esta aborrece de morte. No seu medonho
formigar, no mina somente a ordem social: mina a filosofia, mina a cincia, mina
o direito, mina o pensamento humano, mina a civilizao, a revoluo, o
progresso. Tem simplesmente o nome de roubo, prostituio, homicdio e
assassnio.  trevas, quer o caos. A sua abbada  formada da ignorncia.
     Todas as outras, as de cima, tm por nico alvo suprimi-la, alvo para o qual
tendem a filosofia e o progresso, por todos os seus rgos, juntamente, tanto pelo
melhoramento do real, como pela contemplao do absoluto. Destru a cova
Ignorncia, e tereis destrudo a toupeira do Crime.
     Condensemos em poucas palavras uma parte do que acabamos de escrever. O
nico perigo social  a Treva.
     Humanidade, quer dizer identidade. Os homens so todos do mesmo barro.
Na predestinao no h diferena nenhuma, ao menos neste mundo. A mesma
sombra antes, a mesma carne agora, a mesma cinza depois. Mas a ignorncia
misturada com a massa humana enegrece-a. Essa negrura comunica-se ao interior
do homem e converte-se no Mal.



    III
    Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse



     Quatro bandidos, Claquesous, Gueulemer, Babet e Montparnasse,
governavam o entressolo de Paris, pelos anos de 1830 a 1835. Gueulemer era um
Hrcules em disponibilidade. O seu antro era o esgoto do Arche-Mariom. Tinha
seis ps de altura, peito de mrmore, msculos de bronze, uma respirao de
caverna, cintura e ombros de colosso, crnio de pssaro. Dir-se-ia o Hrcules
Farnsio vestido com calas de cotim e jaqueta de veludinho. Construdo desse
modo escultural, Gueulemer seria capaz de domar monstros; achara, porm, mais
simples ser ele mesmo um. Testa curta, fontes amplas, quarenta anos incompletos,
e ps de pato, cabelo spero e curto, faces salientes, barba como plos de
porco-espinho; eis o esboo deste homem. Os seus msculos solicitavam o
trabalho, a sua estupidez rejeitava-o. Era uma grande fora preguiosa, um
assassino por indolncia. Dizia-se que este Gueulemer era crioulo.
     Como em 1815 fora carrejo em Avinho, talvez tivesse convivido com o
marechal Brune. Acabado este tempo de prtica, passara a ser bandido.
     A transparncia de Babet contrastava com a corpulncia de Gueulemer. Babet
era magro e instrudo e, apesar de transparente, impenetrvel. Via-se-lhe a luz
atravs dos ossos, mas atravs das pupilas, nada. Declarava-se qumico. Havia sido
licorista no estabelecimento de Bobeche, palhao com Bobino, e alm disto actor
de farsas em Saint-Mihiel. Era um homem de propsito, bem falante, que
sublinhava os seus sorrisos e punha comas nos seus gestos. Consistia o seu modo
de vida em andar a vender pelas ruas bustos de gesso e retratos do chefe do
Estado. Alm disto tambm tirava dentes. Em tempos andara mostrando
fenmenos pelas feiras, nas quais levantava barraca, chamando os espectadores
com trombetas e este cartaz: Babet, artista dentista, membro das academias, faz
experincias fsicas sobre metais e metalides, extirpa dentes, tira as arnelas
abandonadas pelos seus colegas. Preos: um dente, um franco e cinquenta
cntimos: dois, dois francos; trs, dois francos e cinquenta cntimos. Aproveitar
da ocasio. Este aproveitar da ocasio queria dizer: quanto maior nmero de
dentes tirardes, melhor. Babet tinha casado e tido filhas, porm no sabia o que
era feito nem da mulher nem dos filhos. Perdera-os como quem perde o leno.
Por uma excepo, rarssima no obscuro mundo a que ele pertencia, Babet lia
jornais. Uma ocasio, no tempo em que ele ainda trazia consigo a famlia na sua
barraca ambulante, lera no Mensageiro que uma mulher tinha dado  luz uma
vivedoura criana com focinho de touro, e exclamara: Isto  que  ser feliz! No 
minha mulher capaz de me arranjar assim um pequeno! Depois abandonara tudo
para tentar Paris, para nos servirmos da sua expresso.
     Quem vinha a ser Claquesous? Era a escurido. Para se mostrar esperava que
o cu se enfarruscasse de negro.  noite saa de um buraco, em que tornava a
entrar antes de ser dia. Onde ficava essa cova? Ningum o sabia No meio da mais
completa escurido, aos seus cmplices s falava de costas voltadas. Chamava-se
Claquesous?
     No. O meu nome, dizia ele,  Nada. Se aparecia alguma vela, punha logo
uma mscara. Era ventrloquo. Claquesous  um nocturno a duas vozes, dizia
Babet Claquesous eravago, errante, terrvel. No se sabia se ele tinha nome, visto
que Claquesous era uma alcunha; no se sabia se tinha voz, visto que falava mais
com o ventre do que com a boca; nem se tinha rosto, visto que nunca ningum lhe
Vira mais do que a mscara.
     Este homem desaparecia como uma viso e aparecia como quem irrompe das
entranhas da terra.
     Criatura lgubre, Montparnasse. Montparnasse era uma criana de vinte
anos incompletos, bonito rosto, lbios rubros, lindos cabelos pretos, olhos
resplandecentes do brilho da Primavera; Montparnasse tinha todos os vcios e
aspirava a todos os crimes. Era o gaiato convertido em voyou e o voyou convertido
em escarpa. Era gentil, efeminado, gracioso, robusto, lnguido feroz. Trazia a aba
do chapu revirada para dar lugar ao tufo dos cabelos, como era moda em 1829.
Montparnasse vivia de roubar com violncia. O casaco que trazia era bem feito,
mas j usado Montparnasse era uma gravura de modas, cheia de misria e
cometendo homicdios. A causa de todos os atentados deste adolescente era o
desejo de andar bem trajado. A primeira costureira que lhe disse:
     - s belo! - impusera-lhe uma misso de trevas ao corao e fizera deste Abel
um Caim.
     Achou-se bonito, quis ser elegante; ora a principal elegncia  a ociosidade e a
ociosidade do pobre  o crime. Poucos vadios havia mais temidos do que
Montparnasse. Aos dezoito anos j tinha por trs de si um rasto de muitos
cadveres. Mais de um viandante jazia de braos estendidos na sombra deste
miservel, com o rosto num lago de sangue. Frisado, embanhado, cintura delgada,
espduas de mulher, busto de oficial prussiano, admirado das prostitutas do
boulevard, casse-tte no bolso, flor ao peito; eis o retrato deste peralta do sepulcro.



    IV
    Composio da quadrilha



     Estes quatro bandidos juntos formavam uma espcie de Proteu, serpenteando
por entre a polcia e forcejando por escapar s indiscretas vistas de Vidocq sob
diversa figura, rvore, chama, fonte, emprestando-se mutuamente os nomes e a
lbia, escondendo-se na prpria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos
outros, desfazendo as suas personalidades como quem tira um nariz postio num
baile de mscaras, s vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num s,
outras multiplicando-se a ponto do prprio Ooco-Lacouor os tomar por uma
multido.
     Estes quatro homens no eram quatro homens, eram uma espcie de
misterioso ladro com quatro cabeas operando sobre Paris em ponto grande;
eram o monstruoso plipo do mal habitando a cripta da sociedade.
     Em consequncia das suas ramificaes e da rede subjacente das suas
relaes, Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse tinham a empresa geral
das ciladas do departamento do Sena. Praticavam no transeunte o golpe de Estado
inferior. Os descobridores de ideias neste gnero, os homens de imaginao
nocturna, dirigiam-se a eles para a execuo. Fornecia-se aos quatro gatunos a
lona e eles encarregavam-se de pr o espectculo em cena. Estavam sempre em
circunstncias de poder prestar um pessoal proporcional e conveniente a todos os
atentados em que se tornasse necessrio um empuxo de ombros e que fossem
bastante lucrativos. A qualquer crime que andasse  busca de braos, eles
alugavam-lhe cmplices. Tinham uma companhia de actores de trevas 
disposio de todas as tragdias de cavernas De ordinrio, reuniam-se ao
anoitecer, hora do seu despontar nas steppes prximas  Salptrire, e a
conferenciavam sobre o emprego que dariam s doze horas de trevas que tinham
diante de si.
     Patron-Minette, eis o nome que na Circulao subterrnea davam 
associao destes quatro homens. Na antiga e extravagante linguagem popular,
que vai gradualmente decaindo, Patron-Minette significa a manh, assim como
entre co e lobo significa a noite. A denominao de Patron-Minette derivava,
provavelmente, da hora a que terminava a sua misso, sendo a madrugada o
momento da desapario dos fantasmas e da separao dos bandidos. Estes quatro
homens eram conhecidos sob esta rubrica.
     Quando o presidente do tribunal criminal foi  priso interrogar Lacenaire
sobre certo crime que ele negava, perguntou-lhe: Quem fez isto? Ao que
Lacenaire deu a seguinte resposta enigmtica para o magistrado, mas clara para a
polcia:
     - Talvez fosse Patron-Minette.
     s vezes adivinha-se uma pea pelo enunciado dos personagens; do mesmo
modo pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as
denominaes dos principais filiados da associao Patron-Minette,
denominaes que sobrevivem nas memrias especiais:
     Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille.
     Brujon (havia uma dinastia de Brujon, de que no nos damos por
desobrigados de dizer alguma coisa).
     Boulatruelle, o cantoneiro, de quem j nesta histria fizemos meno.
     Laveuve.
     Finistre Homero-Hogu, negro.
     Mardisoir.
     Dpche.
     Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira.
     Glorieux, forado solto.
     Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont.
     Lesplanade-du-Sud.
     Poussagrive.
     Carmagnolet.
     Kruideniers, conhecido por Bizarro.
     Mangedentelle.
     Les-ipieds-en-rair.
     Demi-liard, ou DeuxnMilliarids.
     Etc. , etc.
     Omitimos outros, que no so dos piores. Estes nomes tm figuras. No
exprimem somente criaturas, mas espcies. Cada um destes nomes corresponde a
uma variedade destes disformes tortulhos do subterrneo da civilizao.
     Estas criaturas, pouco prdigas dos seus rostos, no eram das que se vem
pelas ruas. De dia, fatigados das noites ferozes que passavam, dormiam umas
vezes nos fornos de cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou
Montrouge, e s vezes at nos canos. Metiam-se debaixo da terra.
     Que  feito de tais homens? Ainda existem e existiram sempre. Fala deles
Horcio: Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a
sociedade for o que , eles sero o que so. Sob o escuro tecto das suas covas,
renascem sempre da transudao social. Voltam, espectros sempre idnticos,
apenas com a diferena de no usarem os mesmos nomes nem existirem dentro
das mesmas peles.
     Extirpam-se os indivduos, mas subsiste a tribo.
     As suas faculdades so sempre as mesmas. Desde o truo ao vadio,
conserva-se pura a raa. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam
os relgios nos bolsos. O ouro e a prata para eles tm cheiro. H burgueses
simples de quem quase se pode dizer que tm cara de se deixarem roubar, estes
homens seguem-nos paciente-mente. Ao passar algum estrangeiro ou
provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
     Mete medo encontrar estes homens ou somente avist-los  meia-noite em
algum boulevard deserto. No parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro
vivo; dir-se-ia >que fazem monto com as trevas, que no so distintos delas, que
no tm outra alma seno a escurido, e que s momentaneamente e com o fim de
viver alguns minutos de uma vida monstruosa  que eles se desagregam das trevas.
     Que  preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um s
morcego resiste ao claro da aurora: Iluminai, portanto, o subterrneo da
sociedade.
    LIVRO OITAVO
    O mau pobre



    I
    Mrio procura uma mulher de chapu e encontra um homem de bon



     Passou o Vero, o Outono e chegou o Inverno. Em todo este tempo nem
Leblarac nem a jovem tornaram a aparecer no Luxemburgo. O constante
pensamento de Mrio era ver outra vez aquele meigo rosto to querido.
Procurava, pois, sempre e por toda a parte, mas nada encontrava. Mrio j no era
o sonhador entusiasta, o homem resoluto, ardente e firme, o ousado provocador
do destino, o crebro que planeava futuros sobre futuros, o esprito cheio de
planos, projectos, orgulhos, ideias e vontades; era um co perdido. Desalentado
pelo infrutuoso resultado das suas buscas, caiu numa negra tristeza, expresso do
seu grande sofrimento. Estava tudo acabado. Aborrecia-lhe o trabalho, a solido, o
passeio; a vasta natureza, outrora to farta de formas, de fulgores, de vozes, de
conselhos, de perspectivas, de horizontes, de lies, nada disto tinha agora para
ele; parecia-lhe que tudo havia desaparecido.
     Pensava ainda, pois que no podia esquivar-se a isso, porem j no achava
gosto nos seus pensamentos. A tudo o que eles de contnuo lhe propunham em
voz baixa respondia ele misteriosamente: Para qu? A par disto, a si mesmo
dirigia um sem-nmero de recriminaes. Para que a segui eu, se s o v-la era j
para mim tamanha felicidade! Ela fitava-me os olhos. No era imenso? Dava
mostras "de amar-me. No era tudo? Que mais queria eu? Daqui em diante no se
pode passar, porque no h mais nada. Fui absurdo. O culpado sou eu!
Courfeyrac, a quem Mrio, como era seu costume, nada confiava, mas que
adivinhava parte das coisas, como tambm costumava, ao princpio, no sem
admirao, dera a Mrio os parabns por estar enamorado; ultimamente, porm,
vendo o rapaz a braos com a sua negra melancolia, dissera-lhe: - Vejo que no
passavas de um pateta. Deixa l isso, vamos at  Chaumire.
     Uma ocasio, Mrio, confiado num belo sol de Setembro, acedera aos rogos
de Courfeyrac, Bossuet e Grantaire, acompanhando-os ao baile de Sceaux -
esperanado que sonho!, em que talvez l a encontrasse. Escusado  dizer que as
Suas esperanas ficaram frustradas. Por mais que fizesse, no viu quem ele
procurava.
     - Ora esta. Mas aqui  que se encontram as mulheres perdidas -, murmurava
Grantaire num aparte.
     Mrio deixou os seus amigos no baile e voltou para casa a p, s, cansado, a
arder em febre, com os olhos turvos e tristes no meio da escurido, aturdido com
o barulho e com o p levantado pelos carros cheios de joviais criaturas que
voltavam da funo e passavam por ele, cantando, ao passo que o jovem vinha
desalentado, aspirando o cheiro acre das nogueiras da estrada para refrescar a
cabea.
     Principiou ento a viver cada vez mais solitrio, desvairado e triste, sempre a
braos com a sua angstia ntima, girando em torno da sua dor como o lobo em
roda do fosso, procurando por toda a parte a ausente, embrutecido pelo amor.
     Noutra ocasio teve um encontro que lhe causou uma singular sensao. Ao
passar por uma das estreitas ruas prximas ao boulevard dos Invlidos,
encontrou-se com um homem trajado a modo de operrio, com um bon de pala
comprida na cabea, por baixo do qual lhe saam umas farripas de alvssimo
cabelo. Impressionado com a beleza daqueles cabelos brancos, ps-se a
contemplar aquele homem que caminhava a passos lentos e como que absorvido
em dolorosa meditao. Estranha coisa! Ao v-lo, afigurou-se a Mrio reconhecer
naquele velho o senhor Leblanc. Eram os mesmos cabelos, o mesmo aspecto,
embora algum tanto modificado pelo trajo, o mesmo modo de andar, apenas com
uma diferena para mais triste. Mas que queria dizer aquele trajo de operrio?
Que significava semelhante disfarce? Mrio ficou maravilhado. Apenas voltou a si
do seu pasmo, o seu primeiro pensamento foi seguir aquele homem, que talvez lhe
fizesse achar os vestgios de quem ele baldadamente tinha procurado. Em todo o
caso, era necessrio ver o homem de perto e aclarar o enigma. Quando, porm,
tomou esta resoluo, era tarde, porque o homem j tinha desaparecido, tomando
decerto por alguma viela, de modo que Mrio no foi capaz de tornar a
encontr-lo.
     O jovem andou alguns dias preocupado com este encontro, ao cabo dos quais
se lhe varreu da memria.
     Afinal de contas, disse ele consigo, talvez no passasse de uma
semelhana.
    II
    Achado



     Mrio continuava a morar no casaro Gorbeau, sem se importar nem fazer
reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa poca, os nicos moradores docasaro eram ele e os tais
Jondratte, a quem o jovem uma ocasio pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter
falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros
inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por no pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso
deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga
festa de Candelria, cujo sol traioeiro, precursor de um frio de seis semanas,
inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justia se tornaram
clssicos: Qu'il luise ou u luiserne, Lours renre en s caverne.
     Mrio acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar,
pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar.
Oh, fraquezas das paixes ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento
andava a varrer, proferindo este memorvel monlogo: -Hoje em dia que coisa
deixa de estar cara? Nada. Est tudo pela hora da morte.
     A nica coisa barata so os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os
trabalhos deste mundo? Para nada!
     Mrio caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira,
a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no cho, quando
de sbito por entre a nvoa sentiu um encontro; voltou-se e viu duas jovens
esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente,
esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o no
viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepsculo, Mrio distinguiu-lhes
os lvidos rostos, as cabeas descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e
os ps descalos. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia  sua
companheira, em voz que se ouvia: - O caso  que os partazanas por um triz me
no deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.
     E a outra respondia.
     - Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!
     Atravs desta sinistra gria, Mrio entendeu que os gendarmes ou os cabos
estiveram quase a apanhar aquelas duas crianas e que elas lhes tinham fugido. As
duas raparigas embrenharam-se por baixo das rvores do boulevard, de onde o
jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escurido uma
espcie de vaga brancura que se desfez; e Mrio, que parara um momento,
disps-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porm, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o cho, avistou
um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espcie de sobrescrito que
parecia conter papis - Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! -
disse ele.
     Voltou atrs, chamou, porm no as tornou a ver; julgando, pois, que j iriam
longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa lea da rua de Mouffetard um caixo de um anjinho
coberto com um pano preto, colocado em cima de trs cadeiras e alumiado por
uma vela. Voltaram-lhe ento  lembrana as duas raparigas do anoitecer.
     - Pobres mes! - disse ele consigo. - Ainda h para vs coisa mais triste do que
verdes morrer vossos filhos;  v-los viver mal!
     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saram-lhe do pensamento
e ele voltou s suas habituais preocupaes. Principiou a pensar nos seus seis
meses de amor e ventura, ao ar livre e  luz do meio-dia, debaixo das belas rvores
do Luxemburgo.
     - Como se tornou sombria a minha vida! - dizia ele a ss consigo. - Ainda me
aparecem as jovens, porm dantes eram anjos, agora so gavies depenados!



    III
    Quadrifrons



     A noite, ao despedir-se para se deitar, Mrio meteu casualmente a mo ao
bolso do casaco e encontrou o embrulho que achara no boulevard e de que j se
tinha esquecido. Lembrou-se que seria conveniente abri-lo porque talvez dentro
viesse a indicao da morada das raparigas, se, na realidade, este lhes pertencia, e,
em todo o caso, os esclarecimentos necessrios para o restituir  pessoa que o
perdera.
     Desfez o -embrulho e encontrou nele quatro cartas abertas, mas todas com
direco e exalando forte cheiro a tabaco.
     A primeira era dirigida A senhora Marquesa de Grucheray, defronte do
palcio das cortes n. ... Mrio julgou que talvez nesta carta encontrasse as
indicaes que procurava, e parecendo-lhe verosmil que, visto ela no estar
fechada, podia ser lida sem inconveniente, resolveu l-la.
     A carta era concebida nos seguintes termos:
     Senhora Marquesa:
     A virtude da clemncia e piedade  a que mais estreitamente une a sociedade.
     Digne-se V. Ex.a dar largas aos seus sentimentos cristos, lanando um olhar
de compaixo sobre este infeliz espanhol, vtima da sua lealdade e afecto  sagrada
causa da legitimidade, pela qual verteu o seu sangue e arruinou toda a sua fortuna,
vendo-se hoje na maior misria. Bem certo est ele de que V. Ex.a lhe no negar
algum socorro para conservar os tristes dias da vida a um militar bem educado,
honrado e coberto de feridas, que de antemo conta com os sentimentos da
humanidade que animam V. Ex.a e com o interesse que sempre tem mostrado por
uma nao to desditosa. As suas splicas, pois, no sero vs, pelo que desde j me
confesso eternamente grato.
     Digne-se V. Ex.a aceitar os protestos de respeito e venerao com que tenho a
honra de ser.
     De V. Ex.a Dom Alvarez, capito espanhol de cavalaria, realista refugiado em
Frana, que se dispe a regressar para a sua ptria, mas que lhe faltam os recursos
para continuar a viagem.
     Nem uma s palavra depois da assinatura continha a carta por onde o jovem
conhecesse a residncia do capito espanhol.
     Esperando encontr-la na segunda carta, resolveu l-la tambm. Era dirigida
 senhora Condessa de Montvernet, rua Cassette n. 9, e o seu contedo era o
seguinte: Senhora Condessa: Sou uma desgraada me de famlia com seis filhos,
tendo o ltimo s oito meses. Desde o meu ltimo parto que estou doente e
abandonada h cinco meses por meu marido, sem recurso nenhum no mundo e na
mais completa indigncia.
     Esperanada em V. Ex.a, tenho a honra de ser com o mais profundo respeito
     De V. Ex.a A infeliz Balizard
     Passou  terceira carta, que era uma splica, como as precedentes, e eis o que
leu:
     Senhor Pabourgeot, eleitor, negociante de bons por atacado, Rua de S.
     Dinis,  esquina da Rua dos Ferros.
     Tomo a liberdade de me dirigir ao senhor para lhe rogar que me conceda o
precioso favor das suas simpatias e tome debaixo da sua proteco um homem de
letras, autor de um drama que deseja pr em cena, no Teatro Francs. O assunto
deste drama  histrico, e a aco passa-se no Auvergne no tempo do imprio; o seu
estilo, no meu entender,  natural, lacnico, e tem talvez algum merecimento. Tem
couplets para se cantarem, em quatro passagens. Ao chiste, gravidade e arrojo dos
lances, junta este drama a variedade nos caracteres e uns laivos romnticos ao de
leve espalhados por todo o entrecho, que se desenvolve misteriosamente, indo afinal,
aps peripcias de grande efeito, terminar no meio de muitos lances admirveis.
      O meu fito principal  satisfazer o desejo que progressivamente anima o
homem do nosso sculo, quero dizer, a moda, caprichosa e singular grimpa, que
quase muda a cada novo vento.
      Apesar destas qualidades receio que a inveja, o egosmo dos autores
privilegiados, consiga a minha excluso do teatro, pois bem sei os dissabores que
tm a tragar os autores que pela primeira vez se apresentam.
      Senhor, a sua justa reputao de protector esclarecido dos homens de letras,
infunde-me ousadia para lhe mandar minha filha que lhe expor a nossa indigente
situao, faltos de po e de lume, nesta invernosa quadra. Dizer-lhe que lhe peo
que aceite a homenagem que desejo fazer-lhe do meu drama e de todos os que vier a
compor,  dar-lhe uma prova de quanto ambiciono a honra de me abrigar debaixo
da sua gide e adornar os meus escritos com o seu nome. Se se dignar honrar-me
aceitando to modesta oferenda, brevemente encetarei uma pea em verso, para
deste modo lhe pagar o meu tributo de reconhecimento. Esta pea que diligenciarei
tornar o mais perfeita que me seja possvel, ser-lhe- enviada antes de ser inserida
no princpio do drama, e recitada em cena.
      Ao senhor e senhora Pabourgeot, as minhas mais respeitosas homenagens
      Genflot Homens de letras.
      P. S. Ainda que no sejam seno quarenta soldos.
      Desculpe-me por mandar minha filha e no me apresentar eu mesmo; porm,
infelizmente, no mo permitem tristes motivos de vesturio...
      Mrio abriu por fim a quarta carta, cujo sobrescritoera endereado ao senhor
benfeitor da igreja de S. Jacques du Haut-Pas, e continha estas poucas linhas:
Homem caridoso:
       Se se dignar acompanhar minha filha ver uma calamidade miservel e eu
lhe mostrarei os meus atestados.
      Ao aspecto destes escritos a sua generosa alma experimentar um sentimento
de sensvel benevolncia, pois os verdadeiros filsofos experimentam sempre vivas
emoes.
     Decerto concorda comigo, homem compassivo, que necessariamente tem de
sofrer grandes necessidades e ser-lhes bem doloroso, que os que gemem na penria o
faam atestar pela autoridade, como se nem ao menos fosse isto sofrer e morrer de
inanio, enquanto os no aliviam na sua misria. O destino que to prdigo ou to
protector se mostra para alguns, para outros no pode ser mais fatal.
     Espero a vossa presena ou a esmola que se dignar mandar-me, e peo-lhe
aceite os protestos de respeito com que tenho a honra de ser, homem
verdadeiramente magnnimo, humilde servo e criado obrigadssimo,
     P. Fabantou artista dramtico
     Mrio, depois de ter lido estas quatro cartas no se achou mais adiantado do
que dantes.
     Em primeiro lugar nenhuma das assinaturas estava acompanhada da morada;
depois, pareciam provir de quatro indivduos diferentes: D. Alvarez, uma mulher
apelidada Belizard, o poeta Genflot, e o artista dramtico Faibantou; mas o seu
lado extraordinrio, era serem todas escritas com a mesma letra.
     O que havia de concluir seno que provinham da mesma pessoa?
     Alm de tudo, o que tornava a conjectura ainda mais verosmil, o papel grosso
e amarelado era igual nas quatro cartas, todas cheiravam a tabaco, e, conquanto
tivessem evidentemente diligenciado variar o estilo, produziam-se em todas os
mesmos erros de ortografia com a mais profunda tranquilidade, no sendo mais
isento deles o homem de letras Genflot, do que o capito espanhol.
     Esforar-se em adivinhar este mistrio, era trabalho intil. Se no tivesse sido
um achado, parecia um logro. Mrio estava demasiadamente triste para aceitar de
bom grado um gracejo do acaso e prestar-se aos brinquedos que pareciam
oferecer-lhe as pedras da rua. Pareceu-lhe estar jogando a cabra-cega com as quatro
cartas que se riam dele.
     No fim de tudo, coisa nenhuma indicava que as cartas pertencessem s
raparigas que Mrio encontrara no boulevard. Tornou portanto a embrulh-las e
atirou o embrulho para um canto e deitou-se.
     As sete horas da manh tinha-se levantado e almoado, e dispunha-se para
comear a trabalhar, quando ouviu bater de mansinho  porta.
     Como no possua coisa nenhuma, no tirava a chave da porta, seno s vezes,
e essas muito raras, quando estava fazendo algum trabalho com muita pressa. Fora
destas ocasies deixava sempre a chave na fechadura.
     - Algum dia roubam-lhe as suas coisas - dizia-lhe mame Bougon.
     - O qu? - respondia Mrio.
     O facto  que um dia roubaram-lhe um par de botas velhas, o que foi grande
triunfo para mame Bougon.
     Bateram segunda pancada, devagarinho, como da primeira vez.
     - Entre - disse Mrio.
     A porta abriu-se.
     - Que me quer, senhora Bougon? - tornou Mrio, sem afastar os olhos dos livros
e manuscritos que tinha em cima da mesa.
     A isto respondeu-lhe uma voz, que no era a da senhora Bougon.
     - Queira desculpar... Era uma voz surda, falhada, rouca. Voz de um velho
saturado de aguardente.
     Mrio voltou-se de repente e viu que era uma rapariga.



    IV
    Uma rosa na misria



     Nem mais nem menos, uma rapariga se encontrava de p junto  porta
entreaberta. Como o postigo que dava luz para o quarto ficava justamente em
frente da porta, a figura da rapariga destacava-se no meio de um claro bao.
     Era uma criatura plida, magra, de aspecto doentio, vestida apenas com uma
camisa e uma saia, transida de frio, com um barbante na cinta e outro a atar-lhe os
cabelos, os ombros a romperem-lhe a camisa, uma palidez esbranquiada e
linftica, as clavculas cor de terra, as mos roxas, a boca meia aberta e com falta de
alguns dentes, a vista embaciada, mas cheia de ousadia e dissimulao, formas de
rapariga abortada e olhar de velha de maus costumes, cinquenta anos de envolta
com quinze; uma dessas criaturas que so a um tempo frgeis e horrveis e que
fazem estremecer os que no fazem chorar.
     Mrio erguera-se e contemplava com certo pasmo aquela criatura semelhante a
uma sombra das que atravessam os sonhos.
     O mais pungente, sobretudo, era que aquela rapariga no viera ao mundo para
ser feia. Na sua infncia devia ter sido linda. As graas da idade lutavam ainda
contra a hedionda velhice antecipada pela libertinagem e pela pobreza. Naquele
rosto de dezasseis anos, fenecia um resto de beleza, como o descorado sol que
desaparecera sob medonhas nuvens no despontar de um dia de Inverno.
     quele rosto no era de todo desconhecido de Mrio. Parecia-lhe t-lo j visto
em alguma parte.
     - O que me quer, menina? - perguntou-lhe ele.
     A rapariga respondeu-lhe com a sua voz de forado embriagado:
     - Trago uma carta para si, senhor Mrio.
     Tratava-o pelo seu nome; no podia duvidar de que era a ele quem procurava;
mas que rapariga era aquela? Como era que lhe sabia o nome?
     A rapariga sem esperar que a mandassem entrar, entrou; e entrou
resolutamente, olhando com certa ousadia que apertava o corao, para todos os
cantos e para a cama ainda por fazer. Estava descala. Pelos grandes buracos que
tinha na saia, viam-se-lhe as compridas e magras pernas Tremia de frio.
     Tinha com efeito na mo uma carta que apresentou a Mrio.
     Mrio abrindo-a reparou que a letra, muito grande, estava ainda molhada. A
missiva no podia vir de muito longe. Eis o que leu nela: Meu estimvel vizinho:
     Tive conhecimento da sua extrema bondade para comigo; soube que foi o
senhor quem pagou por mim, h seis meses, um trimestre de renda da casa. Deus
lho pague, jovem. Minha filha mais velha lhe dir que estamos sem um bocado de
po h dois dias, quatro pessoas, e minha mulher doente. Se o meu pensamento me
no ilude, julgo dever esperar que o seu corao generoso se humanizar com a
exposio deste triste estado e lhe suscitar o desejo de me ser propcio,
prodigalizando-me um pequeno benefcio.
     Com toda a considerao que se deve aos benfeitores da humanidade, tenho a
honra de me assinar Jondrelle
     PS. Minha filha espera pelas suas ordens, meu caro senhor Mrio Esta carta, no
meio da aventura que desde a noite antecedente preocupava Mrio, foi como uma
luz num subterrneo. Tudo se lhe tornou de repente claro.
     Era uma carta que sara de onde tinham sado as outras quatro. Era a mesma
letra, o mesmo estilo, a mesma ortografia, o mesmo papel, o mesmo cheiro de
tabaco.
     Havia ali cinco missivas, cinco histrias, cinco nomes, cinco assinaturas e um
s signatrio. O capito espanhol D. Alvarez, a infeliz Belizard, o poeta dramtico
Genflot, o velho actor Fabantou, chamavam-se todos quatro Jondrette, se com efeito
o prprio Jondrette se chamava assim.
     Havia j muito tempo que Mrio morava no casebre e, como dissemos, em
raras ocasies tinha podido ver, ou mesmo entrever, a sua muito prxima
vizinhana. Tinha o esprito noutra parte; e onde est o esprito est a vista. Devia
ter mais de uma vez encontrado os Jondrette no corredor ou na escada, mas para ele
no tinham passado de sombras; havia reparado to pouco neles, que na vspera 
noite levara no boulevard um encontro das filhas de Jondrette, porque haviam sido
evidentemente elas, e s com muito custo a que acabava de lhe entrar no quarto lhe
despertara, atravs do desgosto e d que lhe inspirara, uma vaga recordao de a ter
visto nalguma parte.
     Agora via tudo claramente. Compreendia que o seu vizinho Jondrette tinha por
indstria, na sua misria, explorar a caridade das pessoas benfazejas; que obtinha
diferentes moradas e que escrevia sob nomes supostos a pessoas que julgava ricas e
caridosas, cartas que sua filha levava por sua conta e risco, porque aquele pai
chegara a arriscar as filhas; jogava-as numa partida com o destino. Mrio
compreendia, que provavelmente, a julgar pela sua fuga da vspera, pelo seu terror e
aspecto espavorido e pelas palavras de gria que lhes ouvira, aquelas desventuradas
se empregavam ainda em quaisquer misteres sombrios, e que de tudo isto resultava
a existncia, no meio da sociedade humana tal como est organizada, de dois
miserveis entes, que nem eram crianas, nem raparigas, nem mulheres; espcies de
monstros impuros e inocentes produzidos pela misria.
     Tristes criaturas sem nome, sem idade, sem sexo, s quais j no  possvel o
bem nem o mal, e que ao sarem da infncia j no tm nada neste mundo, nem
liberdade, nem virtude, nem responsabilidade. Almas desabrochadas ontem,
emurchecidas hoje, semelhante s flores cadas na rua, manchadas por toda a sorte
de lama, enquanto no as esmaga uma roda.
     Entretanto, enquanto Mrio fitava na rapariga um olhar admirado e doloroso,
girava ela pelo quarto com uma audcia de espectro, maneando-se sem se
preocupar com a nudez em que estava. De vez em quando a camisa descosida e
rota, caa-lhe quase at  cintura. Desarrumava as cadeiras, pegava em todos os
objectos de toucador que estavam sobre a cmoda, apalpava o fato de Mrio e
esquadrinhava o que havia em todos os cantos.
     - Olha! - disse ela. - O senhor tem um espelho!
     E cantarolava, como se estivesse sozinha, coplas de algum vaudeville e
estribilhos facetos, que a sua voz gutural e rouca tornava lgubres. Sob todo este
atrevimento, transparecia o que quer que era de constrangido, de inquieto e
humilhado. O descaramento  uma vergonha. No havia nada mais triste do que
v-la folgar e, para assim dizer, esvoaar pelo quarto com os movimentos de um
pssaro que a luz do dia assusta, ou que tem uma asa quebrada. Conhecia-se que
com outras condies de educao e de sorte, o todo jovial e desembaraado daquela
rapariga teria podido ser suave e encantador. Nunca entre os animais a criatura
nascida para ser pomba, se transforma em frango. No se v isto seno entre os
homens.
     Mrio pensava e deixava-a fazer quanto queria.
     A rapariga aproximou-se da mesa.
     - Ai, livros! - disse ela, iluminando-se-lhe o olhar vtreo.
     Em seguida, exprimindo a felicidade de poder vangloriar-se de alguma coisa,
ao que nenhuma criatura  insensvel, continuou: - Eu sei ler.
     E, pegando no livro que estava aberto sobre a mesa, leu muito correntemente:
     - O general Bauduin recebeu ordem para tomar, com os cinco batalhes da sua
brigada, o castelo de Hougomont, situado no meio da plancie de Waterloo...
Chegando aqui interrompeu-se:
     - Waterloo! Bem sei o que . Foi uma batalha que houve h muito tempo. Meu
pai esteve l. Meu pai serviu nos exrcitos. Olhe que em nossa casa so todos
bonapartistas. Foi contra os ingleses, Waterloo.
     Depois disto largou o livro, pegou numa pena e exclamou:
     - Tambm sei escrever!
     Molhou a pena no tinteiro e voltou-se para Mrio:
     - Quer ver? Vou escrever duas palavras para lhe mostrar E, antes que ele tivesse
podido responder, escreveu numa folha de papel em branco, que estava na mesa:
Chegaram os guitas.
     Feito isto ps de parte a pena.
     - Pode ver; olhe que no tem erros de ortografia. Eu e minha irm tivemos
educao. Nem sempre fomos como somos. No tnhamos nascido para... Calou-se,
fitou o olhar extinto em Mrio e soltou em seguida uma gargalhada, dizendo com
uma entonao que continha todas as angstias sufocadas por todos os cinismos: -
Ora adeus!
     E passou a cantarolar estas palavras, numa msica alegre:
     Meu paizinho, eu tenho fome, D-me po para a matar.
     Minha me, eu tenho frio, D-me meias para calar.
     Ai, tens frio?
     Vai ao rio, Cobre a capa De teu tio.
     Apenas terminou esta copla, exclamou:
     - Vai algumas vezes ao teatro, senhor Mrio? Eu vou. Tenho um irmo
pequeno que  amigo dos artistas e que me d s vezes bilhetes. Dos bancos das
galerias  que eu no gosto. Est-se ali muito mal Muitas vezes est tudo cheio de
gente, e gente que deita mau cheiro.
     Depois contemplou Mrio, assumiu um ar estranho e disselhe:
     - O senhor Mrio  um bonito rapaz!
     E, ocorrendo a ambos o mesmo pensamento, ela riu-se e ele corou.
     A rapariga aproximou-se dele, pousou-lhe uma das mos no ombro e
continuou:
     - O senhor nunca repara em mim, mas eu conheo-o muito bem, senhor Mrio
Tenho-o encontrado na escada, e tenho-o visto entrar s vezes, quando ando por
aquelas bandas, para casa de um homem chamado tio Mabeuf, que mora do lado
de Austerlitz. Fica-lhe muito bem o cabelo assim despenteado.
     A sua voz diligenciava tornar-se suave, e s conseguia ser muito baixa. Uma
parte das palavras perdia-se no trajecto da laringe aos lbios, como num teclado
onde h falta de teclas.
     Mrio recuara vagarosamente.
     - Menina - disse ele, com a sua fria gravidade -, tenho ali um embrulho que
julgo pertencer-lhe.
     E apresentou-lhe o papel que continha as quatro cartas.
     A rapariga bateu as palmas e exclamou:
     - Fartmo-nos de as procurar por toda a parte!
     Depois pegou avidamente no embrulho e abriu-o, dizendo:
     - Santo Deus! O que ns procurmos, minha irm e eu! E foi o senhor que as
encontrou! No boulevard, no  verdade? Foi por fora no boulevard. Caiu-nos
quando deitmos a correr. Foi minha irm quem fez a asneira. Quando chegmos a
casa  que demos pela falta. Como no queramos levar a nossa conta, porque era
coisa intil, inteiramente intil, absolutamente intil, dissemos que tnhamos
entregado as cartas e que nos tinham respondido: Nicles! E no fim, esto aqui as
pobres cartas! Mas como soube o senhor que eram minhas? Ah, sim, por causa da
letra! Ento foi com o senhor que ns esbarrmos ontem  noite No se via mesmo
nada. Eu disse  minha irm: Era um senhor, no era? E a minha irm
respondeu-me: Parece-me que sim, que era um senhor E, falando deste modo,
desdobrara a splica dirigida ao benfeitor da igreja de S.
     Jacques do Haut-Pas.
     - Olha! - exclamou ela. - Esta  para o velho que vai  missa. Agora so horas;
vou-lha levar. Talvez nos d para o almoo.
     E, depois de soltar uma risada, acrescentou:
     - Quer saber o que vale, se hoje almoarmos? O almoo de hoje vale-nos pelo
almoo de antes de ontem, pelo jantar de antes de ontem, pelo almoo de ontem,
pelo jantar de ontem, tudo isto de uma vez, esta manh. Apre! Seus ces! Se no
esto contentes, que os leve a breca!
     Isto fez lembrar a Mrio o fim para que a infeliz o tinha vindo procurar. Meteu
a mo ao bolso, mas no achou nada.
     Entretanto, a jovem continuava a falar, porm como se j no tivesse
conscincia de que Mrio a ouvisse.
     - s vezes saio de tarde e no volto seno no outro dia. No Inverno passado,
antes de para aqui virmos, a nossa casa era debaixo dos arcos das pontes. Minha
irm dava-lhe para chorar. Realmente, a gua  uma coisa que mete tristeza! s
vezes, quando me chegava vontade de me deitar a afogar, dizia eu: Ui! Sempre est
to fria! Eu c saio quando quero; s vezes at durmo nos fossos. De noite, quando
ando pelo boulevard, olho para as rvores e parecem-me forcas, olho para as casas e
parecem-me negras e grandes como as torres de Nossa Senhora, afigura-se-me que
as paredes so o rio, e digo comigo: Mau! Temos gua! As estrelas parecem-me
lampies de iluminao, parece mesmo que deitam fumo e que se apagam com o
vento, sinto-me ator-doada, como se tivesse uma parelha de cavalos a soprarem-me
aos ouvidos; apesar de ser de noite, ouo realejos e um barulho de mquinas a
trabalhar, mil coisas, eu sei l!
     Afigura-se-me que me atiram pedras, e eu deito a fugir sem querer saber de
mais nada, e anda-me tudo  roda. Quando ando sem comer, tenho sempre destas
esquisitices.
     E ps-se a olhar para o rapaz com ar desvairado.
     Mrio tanto procurou nos bolsos, que por fim chegou a juntar cinco francos e
dezasseis soldos, que eram todo o seu dinheiro naquela ocasio. Para o jantar de
hoje, disse ele consigo. Sempre guardarei os dezasseis soldos; para o de amanh
veremos.
     E meteu outra vez ao bolso os dezasseis soldos, dando os cinco francos  jovem,
que lanou mo deles.
     - Bom! J temos Sol!
     E como se o Sol tivesse a propriedade de lhe derreter no crebro uma avalancha
de gria, prosseguiu:
     - Cinco francos! Um monarca luzente nas batas! Ai que lria! O senhor  um
soce das pontas. Dois dias de soquideira pros gelfos! Agora  rustir como cobra!
Cinco francos em prata nas minhas mos! Custa-me a acreditar! O senhor  muito
boa pessoa. So dois dias de alimento para a famlia! Agora podemos encher a
barriga!
     E, puxando a camisa para os ombros, fez uma grande cortesia ao rapaz, depois
um gesto familiar com a mo e encaminhou-se para a porta, dizendo: - Passe muito
bem.  o mesmo. Sempre vou a casa do tal velhote.
     Ao passar, divisando sobre a cmoda uma cdea de po seca j negra do p,
atirou-se a ela com sofreguido, comendo-a e resmungando ao mesmo tempo: - 
boa! Mas to dura, que me quebra os dentes!
     E saiu.



    V
    O Judas da providncia



     Havia cinco anos que Mrio vivia na pobreza, rodeado de privaes e mesmo
de penria, mas s ento descobriu que nunca conhecera a verdadeira misria.
Acabava de a ver. Era aquela larva que lhe passara por diante dos olhos.  que, com
efeito, quem nunca viu seno a misria do homem no viu nada, precisa ver a
misria da mulher; quem nunca viu seno a misria da mulher, no viu nada,
precisa ver a misria da criana.
     Quando o homem chega s ltimas extremidades, chega ao mesmo tempo aos
ltimos recursos. Desgraados dos entes sem defesa que o cercam! O trabalho, o
salrio, o po, o lume, o nimo, a boa vontade, tudo lhe falta ao mesmo tempo. A
luz moral apaga-se no interior; no meio destas sombras encontra o homem a
fraqueza da mulher e a da criana, e amolda-as violentamente s ignomnias.
     Ento todos os horrores se tornam possveis. O desespero  rodeado por frgeis
tabiques, que do todos para o vcio ou para o crime.
     A sade, a mocidade, a honra, as santas e severas delicadezas da carne ainda
nova, o corao, a virgindade, o pudor, essa epiderme da alma, so sinistramente
manejados pela apalpadela que busca recursos, que encontra o oprbrio e que
acomoda com ele. Pais, mes, filhos, irmos, irms, homens, mulheres, raparigas,
aderem e agregam-se quase como uma formao mineral, nesta nebulosa
promiscuidade de sexos, de parentescos, de idades, de infmias e de inocncias.
Agacham-se, encostados uns aos outros, numa espcie de destino-pocilga. 
lentamente o modo porque se olham reciprocamente Desventurados! Como esto
plidos! Como tremem de frio!
     Parece que habitam em planeta muito mais distante do Sol do que ns.
     Aquela rapariga foi para Mrio uma espcie de enviado das trevas. Revelou-lhe
completamente o lado hediondo da noite.
     Mrio quase se repreendeu das preocupaes de sonho e paixo que o tinham
impedido at aquele dia de lanar os olhos para os seus vizinhos. Ter-lhes pago a
renda da casa, fora uma coisa maquinal, que qualquer pessoa teria feito, mas ele,
Mrio, devia ter feito mais. O qu! Por estar apenas separado por uma parede
daqueles entes abandonados, que viviam s apalpadelas no meio da escurido, e
separado do resto dos viventes, roava por eles, era de certo modo o ltimo elo do
gnero humano, que eles tocavam, sentia-os viver, ou antes, agonizar, junto de si, e
no lhes dava a mnima ateno! Todos os dias, a todos os instantes, ouvia-lhes os
passos, sentia-os andar de um lado para o outro, ouvia-os falar atravs da parede e
no aplicava o ouvido! As palavras que proferiam continham gemidos, e ele nem
mesmo os escutava! O seu pensamento estava noutra parte, sonhava com brilhos
impossveis, com amores areos, com loucuras, e entretanto, havia criaturas
humanas, seus irmos em Jesus Cristo, seus irmos pelo povo, que agonizavam a
seu lado! Agonizavam inutilmente! Ele chegava a fazer parte da sua desgraa,
agravava-a mesmo! Por que se tivessem outro vizinho menos quimero e mais
atento, um homem vulgar e caritativo, teria sido evidentemente notada a sua
indigncia, os seus sinais de misria teriam sido percebidos e haveria talvez j muito
tempo que teriam sido recolhidos e salvos! Pareciam decerto, muito depravados,
muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas so muito raros os que
caram sem se enlamear; e depois h um ponto em que os desventurados e os
infames se amalgamam e confundem numa s palavra, na palavra fatal miserveis;
de quem  a culpa? E depois, no deve ser tanto maior a caridade quanto mais
profunda  a perdio?
     Enquanto Mrio moralizava por este modo, porque havia ocasies em que,
como todos os coraes verdadeiramente honestos, se tornava pedagogo de si
mesmo, e ralhava consigo mais do que merecia, olhava para a parede que o
separava dos Jondrette, como se pudesse atravess-la com o seu olhar piedoso, para
reanimar aqueles desgraados.
     A parede era um simples tabique delgadssimo, que, como se viu, deixava
perfeitamente distinguir o rudo dos passos e as vozes. Era preciso andar sempre
abstracto, como Mrio, para o no ter ainda notado. A parede no era forrada com
o mais insignificante papel, nem do lado dos Jondrette, nem do de Mrio; estava em
osso. Mrio, sem quase ter a conscincia do que fazia, examinava o tabique; s
vezes a distraco examina, observa e escuta como faria a ateno.
     De repente levantou-se: acabava de descobrir no alto da parede, junto do tecto,
um buraco. A cal e a areia que devia ter preenchido aquele vcuo, cara, decerto; e
subindo-se  cmoda, podia-se ver por aquela abertura a pocilga dos Jondrette.
Aquele buraco era como que um Judas.  permitido observar traioeiramente o
infortnio com o fim de o socorrer. Tambm sempre hei-de ver que casta de gente 
esta, disse para consigo, e at que ponto chega a sua misria E, ao mesmo tempo
que dizia isto, subiu para cima da cmoda, aproximou um dos olhos junto ao
buraco e ps-se a espreitar.



    VI
    O homem bravio no seu covil



     As cidades, do mesmo modo que as florestas, tm os seus antros, nos quais se
oculta tudo o que tm de pior e mais temvel A diferena  que nas cidades, o que
assim se esconde  feroz, imundo e pequeno, isto , feio; nas florestas, o que se oculta
 feroz, selvagem e grande, quer dizer, belo. Tocas por tocas, as dos animais so
preferveis s dos homens. As cavernas tm muito mais valor do que as pocilgas.
     O que Mrio via era uma pocilga.
     Mrio era pobre, e o seu quarto indigente; mas pelo mesmo modo que a sua
pobreza era nobre, o seu cubculo era asseado. A esterqueira em que naquele
momento mergulhava a vista era abjecta, porca, ftida, infecta, tenebrosa, srdida.
Por nicos mveis uma cadeira de palhinha, uma mesa desconjuntada, alguns
cacos, e em dois cantos duas camas indescritveis; claridade s tinha a que recebia
por uma janelinha de quatro vidros, toda guarnecida de teias de aranha Por esta
fresta entrava exactamente a luz precisa para que o rosto de um homem parecesse o
de um fantasma. As paredes apresentavam um aspecto leproso e estavam cobertas
de costuras e de cicatrizes, como um rosto desfigurado por alguma horrvel doena e
ressumando certa humidade ramelosa. Distinguiam-se nelas alguns desenhos
obscenos, feitos grosseiramente com carvo O quarto que Mrio ocupava tinha o
pavimento de ladrilho e em muito mau estado; aquele nem era ladrilho nem
assoalhado; o solo era formado pelo antigo entulho do pardieiro, enegrecido pelos
ps que o pisavam Sobre este solo desigual onde a poeira estava como que
encrostada, e que no tinha seno uma virgindade, a da vassoura, agrupavam-se
caprichosamente constelaes de loia quebrada, de chinelos e de farrapos; e afinal
aquele quarto tinha chamin, o que lhe elevava a renda a quarenta francos anuais
Nesta chamin havia de tudo: um fogareiro, uma panela, trapos pendurados em
pregos, uma gaiola de pssaro, cinza, e mesmo algum lume. Estavam ali dois ties,
fumegando tristemente.
     Uma coisa que aumentava ainda o horror da pocilga, era o ser grande. Tinha
salincias, ngulos, buracos escuros, baas e promontrios. Resultava de tudo isto a
existncia de cantos insondveis onde parecia que deviam abrigar-se aranhas
volumosas como punhos, bichos de conta do tamanho de um p, e quem sabe
mesmo se monstruosos entes humanos.
     Uma das camas estava ao p da porta, a outra ao p da janela. Tocavam
ambas por uma extremidade na chamin, e ficavam fronteiras a Mrio. Num
ngulo prximo  abertura por onde Mrio estava espreitando, via-se pendurada
na parede, numa moldura negra, uma gravura colorida, por baixo da qual se lia em
grandes letras: O SONHO. Esta gravura representava uma mulher e uma criana
adormecidas, uma guia no meio de uma nuvem, com uma coroa no bico, e a
mulher mesmo a dormir, afastando a coroa da cabea da criana; no fundo via-se
Napoleo, encostado a uma coluna azul com capitel amarelo, ornada com esta
inscrio: MARINGO AUSTERLITZ

    VIENA

     WAGRAMME
     ELOT

     Por baixo deste quadro, via-se, encostado  parede uma espcie de caixilho
mais comprido, de algum tosco painel, de uma almofada arrancada a alguma
parede e ali esquecida  espera que a tornassem a pregar.
     Junto a mesa, sobre a qual Mrio via uma pena, papel e tinta, estava sentado
um homem de sessenta anos, pouco mais ou menos, baixo, magro, lvido, de olhar
espantado e ar de finura, mas indicativo tambm de crueldade e receio; um velhaco
hediondo.
     Se Lavater houvesse observado aquele rosto, nele encontraria o abutre
misturado com o procurador; a ave de rapina e o homem de chicana afeando-se e
completando-se um pelo outro; o homem de chicana tornando a ave de rapina
ignbil; a ave de rapina tornando o homem de chicana horrvel.
     Este homem tinha umas compridas barbas grisalhas e vestia uma camisa de
mulher, que lhe deixava a descoberto o peito cabeludo e os braos eriados de plos
grisalhos. Por baixo da camisa, viam-se-lhe umas calas cheias de lama, que
terminavam numas botas, pelas quais lhe saam os dedos dos ps.
     Estava a fumar num cachimbo que lhe pendia da boca. No havia po naquela
mansarda, mas ainda havia tabaco.
     Ocupava-se em escrever, provavelmente alguma carta como as que Mrio lera
A um canto da mesa via-se um livro velho de cor avermelhada, cujo formato
revelava um volume truncado de algum romance Lia-se-lhe na capa este pomposo
ttulo. Deus, o Rei, a Honra e as Damas, por Ducray-Dummu 1814.
     O homem, ao mesmo tempo que escrevia, falava em voz alta e Mrio
percebia-lhe estas palavras:
     - Ora esta! Nem sequer, depois da morte, haver igualdade! Seno olhem para
o que vai no Pre-Lachaise. Os grandes, os ricos, esto em cima na rua, que  orlada
de accias e bem asseada. Podem ir at l de carruagem. Os pequenos, os pobres, os
infelizes, essa gente para a, esses atiram com eles para um canto, onde a lama d
pelo joelho, para covas cheias de gua! Atiram-nos para ali para eles se desfazerem
mais depressa Ningum l pode ir v-los sem se enterrar naquele lamaal!
     Chegado a este ponto, calou-se, bateu com o punhofechado na mesa e
exclamou, rangendo os dentes:
     - Oh, d-me vontade de comer o mundo!
     Junto do fogo estava acocorada uma mulher gorda, que aparentava ter
quarenta ou cem anos.
      No tinha tambm por vesturio seno numa camisa e uma saia de malha,
remendada com bocados de pano velho.
      Um avental muito grosseiro tapava metade da saia. Conquanto esta mulher
estivesse dobrada e como amontoada sobre si mesma, via-se que era de elevada
estatura. Era uma espcie de gigante ao p de seu marido. Tinha os cabelos de um
ruivo repugnante, j grisalhos, e que ela de vez em quando afastava da cara, com as
suas enormes mos de unhas chatas.
      Tinha junto de si, pousado no cho, um volume aberto, do mesmo formato que
o outro, e talvez do mesmo romance.
      Sentada sobre uma das camas, entrevia Mrio uma espcie de rapariga esguia
e lvida, quase nua e com os ps pendentes, no tendo ar nem de quem escuta nem
de quem v nem de quem vive.
      Era de certo a irm mais nova da que tinha ido ao quarto dele entregar-lhe a
carta.
      Parecia  primeira vista ter onze ou doze anos. Ao examin-la, porm, com
ateno, conhecia-se que tinha catorze ou mais. Era a que na tarde do dia
antecedente, ao escurecer, ia a dizer para a irm, quando o rapaz as encontrou:
Por aqui me sirvo! Pertencia  enfezada espcie que est muito tempo paralisada
e depois cresce rpida e repentinamente.  a indigncia a origem destas tristes
plantas humanas. So criaturas que nem tm infncia nem adolescncia. Aos
quinze anos parecem ter doze, aos dezasseis parece que tm vinte. Hoje raparigas,
amanh mulheres. Dir-se-ia que atravessam a vida de um salto, para mais depressa
acabar.
      Naquela ocasio, aquele ente tinha ar de criana.
      Em toda a mansarda, nem sinais se viam que acusassem a presena de algum
trabalho nem um utenslio nem um s objecto de ferramenta. Apenas, a um canto,
alguns ferros velhos de duvidoso aspecto. Respirava tudo essa tristonha presena que
se segue ao desespero e precede a agonia.
      Mrio deteve-se a contemplar por algum tempo aquela manso fnebre, mais
medonha que a manso do tmulo, porque naquela se sentia a agitao da alma
humana e o palpitar da vida.
      O sto, a gua-furtada, a espelunca, esses lugares por onde se rojam certos
indigentes no mais fundo do edifcio social, no so precisamente o sepulcro, so a
sua antecmara;  semelhana, porm, dos opulentos que ostentam as maiores
magnificncias  entrada dos seus palcios, parece que a morte, que est mesmo ao
p, coloca as suas maiores misrias neste vestbulo.
     O homem calara-se, a mulher no falava, a jovem parecia que nem respirava.
No meio deste profundo silncio, apenas se ouvia o ranger da pena sobre o papel.
     Passado algum tempo, porm, o homem resmungou, sem parar de escrever:
     - Corja, corja  tudo uma corja!
     Esta variante do epifonema de Salomo arrancou um suspiro  mulher.
     - Sossega, amiguinho - disse ela. - No te agonies, filho. Em escrever a toda essa
gente mostras tu a tua bondade!
     Na misria apertam-se os corpos uns contra os outros, como se os tomara o frio,
mas afastam-se os coraes. Segundo todas as aparncias, aquela mulher amara
decerto aquele homem com todo o amor de que era susceptvel, mas esse amor
extinguira-se, talvez por causa das quotidianas e recprocas recriminaes,
motivadas pela horrvel penria de que toda aquela famlia era vtima. J no
existiam, nela mais do que cinzas de afeio.
     Contudo, sobreviveram  perda do amor os tratamentos carinhosos, como
tantas vezes acontece. Ela dizia: Filho, meu rico homem, amiguinho, mais s com
a boca e sem que o corao nisto tomasse parte.
     O homem que um instante se interrompera continuava de novo a tarefa em
que estava ocupado.



    VII
    Estratgia e tctica



     Ia Mrio a descer do seu improvisado observatrio, com o corao confrangido
pelo que vira, quando um rudo o atraiu e o fez permanecer no seu lugar.
     Acabava de abrir-se de chofre a porta da mansarda e de assomar no seu limiar
a filha mais velha. Trazia calados uns grandes sapatos de homem, cheios de lama,
que lhe salpicava os tornozelos, e pendente dos ombros uma manta esfarrapada, que
Mrio no lhe vira uma hora antes, porque decerto a tinha deixado  entrada da
porta para inspirar mais compaixo, tornando-a a cobrir depois que saiu. Entrou,
fechou a porta, parou para tomar a respirao, porque vinha esbaforida, e em
seguida exclamou, com expresso de triunfo e alegria: - Ele a vem!
      O pai voltou os olhos, a mulher voltou a cabea, a irm mais nova no se
mexeu.
      - Quem? perguntou o pai.
      - O tal senhor.
      - O filantropo?
      - Sim, senhor.
      - Da igreja de S. Jacques?
      - Sim, senhor.
      - O velho?
      - Sim, senhor.
      - E vem a?
      - No tarda - Sabes isso com certeza?
      - Com toda a certeza.
      - Realmente ele vem a?
      - Vem, sim, senhor; vem de carruagem.
      - De carruagem!  Rothschild!
      O homem levantou-se.
      - Como sabes tu isso com certeza? Como  que, se ele vem de carruagem, tu
chegas primeiro do que ele? Disseste-lhe ao menos tu bem onde ns moramos?
      Disseste-lhe bem que era na ltima porta, ao fim do corredor, do lado direito?
Se ele se engana! Ento encontraste-o na igreja? Ele leu a minha carta? E que disse?
      - Devagar, devagar - exclamou a jovem.  Como vais a galope, paizinho! A vai
como foi: Entrei na igreja e pesquei-o logo no lugar do costume; fiz-lhe uma cortesia,
entreguei-lhe a carta, ele leu-a e perguntou-me: Onde moras, minha filha? Eu
disselhe: Eu vou com o senhor para lhe ensinar o caminho. E vai ele disseme:
Nada, diz-me antes onde moras, porque, como minha filha tem de sair a fazer
algumas compras, eu vou alugar uma carruagem e chegarei a tua casa ao mesmo
tempo que tu. Disselhe ento onde morvamos, mas quando lho disse, parece que
ele ficou assim admirado, sem saber o que havia de responder, at que por fim disse:
 o mesmo, irei. No fim da missa vi-o sair da igreja com a filha e meteram-se
ambos num carro. Mas eu disselhe bem que a nossa porta era a ltima ao fim do
corredor, do lado direito.
      - Mas como sabes tu que ele vem?
      - Porque avistei agora mesmo o carro, que vinha ao princpio da rua do
Petit-Banquier.
     - Como sabes tu que o carro era o mesmo?
     - Ora! Porque tomei sentido no nmero.
     - E que nmero ?
     - 440.
     - Bem, s uma rapariga esperta!
     A filha olhou ousadamente para o pai e acrescentou, mostrando-lhe os sapatos
que trazia nos ps:
     - Pois serei uma rapariga esperta, mas o que eu digo  que no torno a calar
estes sapatos e que os no quero: primeiro por causa da sade, segundo por causa da
limpeza. C para mim no h coisa que mais me agrade do que umas chinelas
justinhas ao p, que faam gji, gji, gji quando a gente vai a andar. De outro modo
antes quero andar descala.
     - Tens razo - respondeu o pai num tom de brandura que contrastava com a
indocilidade da jovem - mas  que assim no te deixavam entrar nas igrejas. Os
pobres no tm remdio seno andar descalos. Na casa de Deus no se entra
descalo! disse ele com azedume. E em seguida acrescentou, voltando ao objecto que
naquela ocasio o preocupava: - Mas tu sabes com certeza que ele vem a?
     - E no tarda c muitos minutos.
     O homem levantou-se. O seu rosto como que se tinha iluminado.
     - Mulher! - exclamou ele. - Bem ouviste que vem a o filantropo, por isso apaga
o lume.
     A mulher, de estupefacta que ficara, no se moveu. Jondrette, com a agilidade
de um saltimbanco, pegou num cntaro esbotenado que estava em cima do fogo e
despejou a gua nos ties.
     E, dirigindo-se em seguida para a sua filha mais velha, disse:
     - Tu arromba a cadeira, anda!
     A filha, porm, no percebeu. Ele pegou ento na cadeira e arrombou-a,
assentando-lhe o p em cheio no meio da palhinha, de modo que ficou com a perna
metida no rombo.
     - Est frio, rapariga? - perguntou ele, tirando a perna do buraco da cadeira -
Muito! Est a nevar com toda a fora!
     O pai voltou-se ento para a filha mais nova, que estava sentada na cama ao
p da janela, e gritou-lhe com voz de trovo:
     - J abaixo da cama, sua perdida! Nunca h-de prestar seno para comer!
Quebre j um vidro!
     A criana saltou abaixo da cama a tremer.
     - Quebre j um vidro - tornou ele.
     A criana, porm, ainda ficou vacilante.
     - Tu no ouves? - repetiu o pai. - Eu dissete que quebrasses um vidro!
     A filha, levada da obedincia do medo, ps-se em bicos de ps e deu um murro
num vidro, que quebrou, caindo com grande estrondo, - Est bem! - disse o pai.
     Jondrette estava com aspecto severo e agastado. O seu olhar percorria todos os
cantos da mansarda.
     Dir-se-ia um general fazendo os ltimos preparativos no instante em que vai
principiar a batalha.
     A mulher, que ainda no tinha proferido uma s palavra, levantou o corpo e
perguntou com voz lenta e surda, como se as palavras lhe sassem geladas dos lbios:
- Filho, tu que queres fazer?
     - Mete-te na cama! respondeu o homem.
     A entoao com que ele disse isto no admitia rplica. A mulher obedeceu,
portanto, atirando-se com todo o peso do corpo para cima de uma das camas.
     Ao mesmo tempo gritou, ouvindo soluar a um canto:
     - Que vem a ser isso?
     A filha mais nova, sem sair do canto onde Se tinha acocorado, mostrou a mo
ensanguentada. Ao quebrar o vidro, cortara-se e fora sentar-se ao p da cama de
sua me, chorando em silncio.
     A mulher levantou-se ento e exclamou:
     - Vs o que fazem as tuas tolices? Fizeste com que a pequena se cortasse, ao
quebrar o vidro!
     - Melhor! disse o homem. - Isso j eu esperava.
     - O qu, melhor? - tornou a mulher.
     - Pouca bulha! - replicou ele. - Suprimo a liberdade de imprensa!
     Em seguida rasgou a camisa de mulher que trazia vestida, tirou-lhe uma tira,
com que  pressa envolveu o dedo em que a filha se cortara, e, feito isto, disse,
olhando com satisfao para a camisa rasgada: - E at a camisa! Tudo se ajusta!
     Pelo vidro quebrado, atravs do qual se via cair a neve l fora, penetrava uma
corrente de ar frigidssimo e o nevoeiro exterior, que se dilatava pelo quarto como
uma nuvem de algodo espalhada por dedos invisveis. O frio prometido no dia
antecedente pelo sol da Candelria efectivamente viera.
     O homem circunvagou a vista em volta de si, como para se certificar que no
esquecia coisa alguma. Pegou numa p velha e deitou uma pouca de cinza sobre os
ties molhados de modo que ficassem completamente escondidos.
     Depois levantou-se e disse, encostando-se ao fogo:
     - Agora pode vir o filantropo quando quiser, que ns estamos prontos para o
receber.



    VIII
    Um raio de luz nas trevas



     A filha mais velha acercou-se do pai e disselhe, pondo as mos sobre as dele:
     - Ora apalpe como eu tenho frio.
     - Ora! - respondeu o homem. - Mais frio tenho eu!
     Ao menos tu tens tudo mais e melhor que os outros, at o mal! gritou
impetuosamente a mulher de Jondrette., - Caluda! - disse o homem.
     A mulher, ao ver o olhar que ele lhe deitou, calou-se.
     Houve ento um momento de silncio na mansarda. A pequena mais velha
sacudia a lama das extremidades da manta que trazia, com ar indolente; a mais
nova continuava a soluar; a me tinha-lhe tomado a cabea entre as mos e
enchia-a de beijos, dizendo-lhe em voz baixa: - No chores, meu amor, que isso no
h-de ser nada; olha que fazes com que teu pai se arrenegue.
     - Qual histria! - exclamou o pai. - Pelo contrrio! Berra para a com fora, que
te h-de fazer bem!
     Depois acrescentou, dirigindo-se para a mais velha:
     - Ora esta! Diabo do homem no tem pressa de chegar!  o que me falta, se eu
apaguei o lume, arrombei a cadeira, rasguei a camisa e quebrei o vidro para ficar a
ver navios!
     - E fizeste com que a pequena se cortasse! - Murmurou a me.
     - Sabes que mais? - tornou Jondrette. -  que est um frio dos diabos nesta
maldita espelunca! Se o homem agora no vinha,  que era uma!... A est o que
so os ricaos! A estas horas est ele a dizer l com os seus botes: Se quiserem, que
esperem por mim, que o proveito  seu! Oh, se eles soubessem o dio que lhes tenho
e como eu era capaz de os estrangular, com jbilo, alegria, entusiasmo e satisfao!
E haviam de ser todos! No havia de ficar nem um s, desses ricaos, desses fingidos
homens de caridade, que se confessam, ouvem missa e andam metidos com os
padrecas, com essa scia de sotainas, e que, por se julgarem mais do que ns, vm
humilharmos, trazendo-nos alguma roupa, como eles chamam a uns poucos de
trapos, que nem quatro soldos valem, e dando-nos um bocado de po! O que eu
quero no  isso, corja de tratantes! O que eu quero  dinheiro! Dinheiro nunca,
porque dizem que somos uns bbedos, uns calaceiros, que iramos logo empregar em
vinho o dinheiro que pilhssemos  unha! E eles que so, quero eu que me digam?
Eles que so e que foram no seu tempo?
     Ladres! Que, a no ser por esse modo, no enriqueciam! O que se havia de
fazer era pegar na sociedade pelas pontas da toalha e atirar com ela por esses ares!
Ficava tudo quebrado,  verdade, mas ao menos lucrava-se o ficarem todos sem
nada!... Mas que diabo teria aquele mofino do benfeitor, que no h meio de vir? O
bruto decerto esqueceu o nome da rua ou o nmero da porta! Apostemos ns que o
alarve do velho.
     Neste instante, porm, bateram  porta ao de leve e Jondrette correu
precipitadamente a abri-la, exclamando no meio de mil profundas cortesias e
sorrisos de adorao.
     - Faa favor de entrar, meu respeitvel benfeitor, bem como essa encantadora
menina.
     Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, assomavam ao limiar da porta
um homem idoso e uma jovem.
     O que Mrio, que ainda no tinha sado do seu lugar de observao,
experimentou naquele momento, no o podem exprimir palavras humanas.
     - Era ela.
     S quem j amou  que sabe todos os sentidos esplendorosos que encerram as
quatro letras desta palavra: Ela
     Era ela, com efeito. Mrio mal a distinguia por entre o vapor luminoso que
subitamente Se lhe formara diante dos olhos. Era essa mesma doce criatura que ele
h tanto tempo no tornara a ver, o astro que por espao de seis meses vira luzir,
aqueles olhos, aquela fronte, aquela boca, aquele rosto, que lhe fugira, deixando
aps si as trevas. Eclipsara-se a viso e reaparecia agora. Reaparecia no meio
daquelas trevas, daquela mansarda, daquele hediondo albergue, no meio daquele
horror!
     Mrio sentia todo o corpo agitado de um tremor convulso! As palpitaes do
corao perturbavam-lhe a vista. Sentia-se quase a ponto de desatar a chorar. Oh,
v-la depois de a ter procurado tanto tempo baldadamente! Era como se tivesse
perdido a alma e a tornasse a achar naquele momento!
     A jovem estava no mesmo estado, apenas um tanto mais plida;
encaixilhava-lhe o delicado rosto um chapelinho de veludo cor de violeta,
ocultava-lhe a cintura um mantelete de cetim preto. Por baixo do comprido vestido,
mal se lhe divisava o pequenino p, apertado numa botinha de seda.
     O seu companheiro era ainda o senhor Leblanc.
     Apenas entrou, a jovem deu alguns passos e foi pousar em cima da mesa uma
trouxa que trazia na mo.
     A filha mais velha de Jondrette escondera-se atrs da porta, e da contemplava
com sombrio olhar aquele chapelinho de veludo, aquela manta de seda e aquele
formoso rosto cheio de graa e meiguice.



    IX
    Jondrette quase que chora



     A mansarda era to escura, que as pessoas que entravam (ficavam como se
tivessem entrado num subterrneo. Os dois recm-chegados adiantaram-se,
portanto, com certa hesitao, distinguindo apenas em torno de si umas formas
vagas, ao passo que eles eram perfeitamente vistos e examinados pelos olhos dos
moradores da mansarda, afeitos quele crepsculo.
     O senhor Leblanc aproximou-se de Jondrette com o seu olhar cheio de tristeza e
bondade e disselhe:
     - Nesta trouxa encontrar alguma roupa nova e cobertores de l.
     - O nosso anglico benfeitor confunde-nos com a sua bondade! disse Jondrette,
inclinando-se at ao cho.
     E acrescentou em seguida, em voz baixa e rapidamente, inclinando-se ao
ouvido da filha, enquanto os dois visitantes examinavam o triste albergue: - Que
dizia eu? Farrapos! Dinheiro, nada! So todos o mesmo!  verdade, que assinatura
levava a carta que entregaste a este casmurro?
     - Fabantou - respondeu a filha.
     - Artista dramtico, bom.
     Foi o que valeu a Jondrette, porquanto neste momento o senhor Leblanc
voltava-se para ele e dizia-lhe com modo de quem queria saber-lhe o nome: - Vejo
que  digno de toda a compaixo, senhor... - Fabantou -, respondeu imediatamente
Jondrette.
     - Senhor Fabantou,  verdade;  isso mesmo. Agora me recordo.
     - Artista dramtico, que o pblico bastantes vezes aplaudiu.
     Neste ponto, julgou Jondrette que era, sem dvida, chegada a ocasio de se
insinuar no corao do filantropo, e por isso exclamou num tom de voz ao mesmo
tempo impregnada da jactanciosa arrogncia do pelotiqueiro nas feiras e da splice
humildade do mendigo nas estradas reais: - Discpulo de Talma, senhor! Eu sou
discpulo de Talma! Sorriu-me a fortuna noutro tempo, mas agora vejo-me a braos
com a desgraa. Ora veja, meu benfeitor, nem lume, nem po! Aquelas pobres
crianas a tiritar de frio! A nica cadeira que tinha, naquele estado que v, toda
arrombada! Os vidros da janela quebrados, com semelhante tempo! Minha mulher
deitada ali naquela cama , a arder em febre. Coitada!
     disse o senhor Leblanc.
     - Esta minha filha com um dedo esmagado!  acrescentou Jondrette A pequena,
distrada com a chegada de duas pessoas desconhecidas para ela, pusera-se a
contemplar a menina e cessara de chorar.
     - Tu choras ou no choras? Berra para a com fora! - disselhe Jondrette em voz
baixa.
     Ao mesmo tempo deu-lhe um belisco na mo em que a pequena se cortara,
fazendo todos estes movimentos com uma habilidade de escamoteador.
     A pequena principiou a chorar em altos gritos.
     A adorvel jovem, que Mrio no seu corao chamava a sua rsula
aproximou-se dela e disse:
     - Coitadinha da criana!
     - Ora veja como ela tem a mo cheia de sangue, minha querida menina!
prosseguiu Jondrette. - Aconteceu-lhe esse desastre na roda de uma mquina, em
que trabalhava para ganhar seis tristes soldos por dia! Talvez tenha de lhe cortar o
brao!
     - Na verdade! - disse o velho, assustado.
     A pequena, que tomou a coisa a srio, desatou a chorar ainda com mais fora.
     -  verdade, meu benfeitor. Ainda mais essa desgraa, como se as que j
sofremos fossem poucas!
     Havia alguns instantes que Jondrette contemplava o filantropo de um modo
estranho. Ao mesmo tempo que falava, parecia perscrut-lo com ateno, como se
tentasse reunir as suas reminiscncias. De sbito, aproveitando a ocasio em que os
recm-chegados dirigiam algumas perguntas  pequena a respeito do ferimento da
mo, aproximou-se da mulher, que jazia na cama com ar de pasmo e consternao,
e disselhe rapidamente, em voz que s ela ouvisse: - Ora olha bem para este homem!
     E em seguida acrescentou, dirigindo-se para o senhor Leblanc e prosseguindo
nas suas lamentaes:
     - Veja isto, senhor; a minha roupa cifra-se nesta camisa de minha mulher, toda
rota, no rigor do Inverno! Nem saio, por no ter que vestir! Se eu tivesse um casaco,
ainda que fosse fraco, j tinha ido procurar Mademoiselle Mars, que me conhece e 
muito minha amiga. Ela no mora ainda na Rua da Torre das Damas? J
representmos ambos na provncia e eu participei dos louros que ela colheu.
Celimena no me deixava sem proteco! Elmina no negaria esmola a Belisrio!
Mas nada, nem um triste soldo nesta casa! Minha mulher doente e nem um soldo!
Minha filha perigosamente ferida e nem um soldo! Minha mulher padece muito de
sufocao. A idade, e, alm da idade, o sistema nervoso, so a causa dos seus
padecimentos. Precisava de socorros, bem como minha filha. Mas onde arranjar
dinheiro para o mdico e para o boticrio? Nem um soldo tenho de meu! Aqui tem
ao que as artes chegaram! E quer saber, minha encantadora menina, e o senhor,
meu generoso protector, querem saber os senhores, que respiram a virtude e a
bondade e perfumam a igreja onde minha filha todos os dias os v, quando vai fazer
as suas oraes? Pois eu c educo minhas filhas na religio, senhor, e no quis que
elas abraassem a carreira teatral. De quantas sei eu que no deram boa conta de si
em semelhante vida? Por isso  que eu no quis. As vezes ponho-me a pregar-lhe
sermes sobre a honra, sobre a moral e a virtude. Podem perguntar-lho. Eu gosto de
ver caminhar as coisas como deve ser. Para isso tm pai, e eu no costumo ser de
meias medidas no tocante  educao de minhas filhas. Elas no so dessas infelizes
que principiam por no ter famlia e acabam por desposar o pblico. Essas tais hoje
so meninas. Ningum e da a poucos dias j esto senhoras.
     Toda a gente! Anjo bento! No quero c disso na famlia! C o meu fito 
educ-las virtuosamente para que sejam honestas, creiam em Deus e tenham a
verdadeira formosura, que  a da alma! Mas quer que lhe diga o que amanh me
acontecer?
     Amanh  o dia 4 de Fevereiro, o dia fatal, o ltimo prazo que me concedeu o
senhorio, e, por conseguinte, se eu esta tarde no lhe apronto o dinheiro, amanh,
eu, minha mulher doente como est, minha filha mais velha, a mais nova, apesar
do seu grave ferimento, seremos todos expulsos desta casa para fora, postos no meio
da rua, sem abrigo, para a  chuva, ao frio e  neve! Aqui tem o meu benfeitor a
desgraa que me espera. Devo quatro trimestres, um ano, ou sessenta francos, que
tudo vem a dar na mesma!
     Jondrette mentia. Os quatro trimestres importavam em quarenta francos; alm
de que, ele no podia dever quatro, pois havia seis meses que Mrio pagara dois por
ele.
     O senhor Leblanc tirou do bolso cinco francos e deitou-os em cima da mesa.
     Jondrette aproveitou o ensejo para murmurar ao ouvido da filha mais velha:
     - Sovina! Que quer ele que eu faa com os seus cinco francos! Cinco francos no
me do para a cadeira nem para o vidro! V l um homem dispender para colher
um resultado assim!
     Neste meio tempo, o senhor Leblanc tirou um amplo casaco pardo que trazia
por cima do seu casaco azul e deitou-o sobre as costas da cadeira.
     - Senhor Fabantou - disse ele - no trago comigo seno estes cinco francos, mas
eu vou levar minha filha a casa e volto  noitinha. No  hoje que tem de apresentar
o dinheiro?
     O rosto de Jondrette iluminou-se de um estranho claro e respondeu
rapidamente:
     - Sim, senhor, meu respeitvel protector! s oito horas hei-de estar com o
dinheiro em casa do senhorio. Pois s seis horas eu aqui estarei com os sessenta
francos.
     - Oh, meu benfeitor! - exclamou Jondrette com toda a efuso.
     E acrescentou em voz baixa para a mulher:
     - Repara bem nele.
     Leblanc oferecera o brao  sua linda filha e voltara-se para a porta.
     - At  noite, meus amigos - disse ele.
     - As seis horas? - disse Jondrette.
     - As seis em ponto.
     Neste momento a filha mais velha de Jondrette deu com os olhos no sobretudo
que ficara sobre a cadeira e exclamou:
     - Senhor! Esquece-se de levar o casaco!
     Jondrette lanou-lhe um olhar fulminante, acompanhado de um medonho
erguer de ombros.
    O senhor Leblanc voltou-se e respondeu, sorrindo:
    - No o esqueo, deixo-o ficar.
    -  meu protector disse Jondrette - meu augusto benfeitor, as lgrimas
querem-me saltar dos olhos! Permita-me que o acompanhe at  porta da rua! Se
quer sair, ento vista esse sobretudo, porque, na verdade, est frio.
    Jondrette no esperou que ele lhe repetisse a recomendao. Enfiou
rapidamente o sobretudo pardo e saram todos trs, indo Jondrette na frente.



    X
    Tarifa dos cabrioles de aluguer: dois francos por hora



     Mrio no tinha perdido um s pormenor desta cena, e, contudo, na realidade
nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim
dizer, abarcara toda com o corao, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo
o tempo que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do xtase que suspende as
percepes materiais, fazendo concentrar a alma toda num s ponto. Ele
contemplava, no a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de cetim e um
chapelinho de veludo. O jovem no ficaria mais deslumbrado do que ficou se
naquela sala tivesse entrado a estrela Sirio.
     Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a
roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade  doente e com
enternecimento  pequena que se cortara, Mrio observava-lhe todos os
movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os
olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, s no lhe conhecia o som da voz.
Julgara uma ocasio no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas no
tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar,
para poder levar na alma um bocado desta msica. Tudo, porm, que a jovem dizia
era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos seus guinchos, com o
que o transportado jovem muito se encolerizava. Mrio fitava-lhe os olhos com a
maior ternura. No podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura
divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda
monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
     Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, no a perder de vista,
acompanh-la at saber onde ela morava, ou ao menos no a tornar a perder,
depois de a haver encontrado to miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cmoda
e pegou no chapu, mas, ao deitar a mo ao fecho da porta para sair, suspendeu-o
uma reflexo. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por
isso o senhor Leblanc ainda de certo no se tinha metido na carruagem, e se ele no
corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avist-lo-ia naquela casa, e
decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e l ia outra vez tudo.
Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a
carruagem ir-se embora. Mrio estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do
quarto.
     Como no corredor j no encontrasse ningum,, dirigiu-se para a escada, onde
tambm no encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao
boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e
encaminhar-se para Paris.
     Mrio precipitou-se naquela direco, e, chegado ao ngulo do boulevard,
tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; j ia muito
distante, tornando-se-lhe impossvel apanh-lo; mesmo que ele tentasse isso,
deitando a correr com toda a fora atrs dele, decerto o avistariam de dentro e o
velho o conheceria.
     Neste momento, porm, singular e maravilhoso acaso, Mrio avistou um
cabriole de aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ningum dentro. O nico
expediente, pois, que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era
uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
     Mrio fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe:
     - Por hora!
     Mrio estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual
faltavam alguns botes, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
     O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mo para Mrio, esfregando
brandamente o ndex com o polegar - Que ? - perguntou Mrio.
     - Pague adiantado - respondeu o cacheiro.
     O rapaz lembrou-se ento de que no trazia consigo seno dezasseis soldos.
     - Quanto? - indagou.
     - Quarenta soldos.
     - Eu pago na volta.
     O cocheiro, por nica resposta, ps-se a assobiar a cantiga de La Palisse e
fustigou os cavalos.
     Mrio viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que
lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas
trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se ento amargamente, e,
devemos diz-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manh dera 
miservel rapariga, filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco
francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do
isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino quele
belo fio de ouro que h um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se
ainda outra vez!
     Mrio entrou em casa no cmulo do desespero.
     Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrana, de que o senhor Leblanc prometera
voltar de tarde e que ento tomaria melhor as suas precaues para o seguir; o
jovem, porm, alheado na sua contemplao, mal ouvira a promessa do velho.
     Na ocasio em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard,
junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gdbelinos, Jondrette, vestido com o
sobretudo do filantropo, a falar com um desses homens de aspecto pouco
tranquilizador, a quem por conveno chamamos vagabundos das barreiras;
homens de rostos equvocos e monlogos suspeitos, que tm ar de ms intenes e
que de ordinrio dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
     Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caa em espessos
flocos, formavam um grupo, que um agente de polcia com certeza se poria a
observar, mas em que Mrio mal fez reparo.
     No obstante, porm, a grande preocupao que o agitava, no pde deixar de
notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se
parecia com um certo Panchaud, conhecido tambm pelo nome de Printanier ou
Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um
perigoso passeante nocturno. O leitor j no livro precedente viu o nome deste
homem. O tal Panchaud, conhecido tambm pelo nome de Printanier ou
Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou
clebre entre os gatunos. Neste tempo no passava de um famoso gatuno. Hoje
apenas resta dele uma vaga tradio entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola
pelos fins do ltimo reinado. Ao cair da noite,  hora em que se formam os grupos
falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Lees.
Podia-se at, na priso, justamente no stio em que por baixo do caminho de
circunvalao passava o cano das latrinas, por onde em 1843 conseguiram
evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome -
PANCHAUD - audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalao, numa
das suas tentativas de evaso.
     Em 1832 j a polcia o vigiava, porm ainda ele no tinha feito a sua estreia de
um modo srio.



    XI
    A misria oferece-se para obsequiar a dor



     Mrio subiu a escada vagarosamente; e no momento em que ia a entrar no seu
quarto, notou atrs de si, no corredor, a Jondrette mais velha, que o seguia. A
rapariga tornou-se-lhe odiosa  vista. Fora ela quem lhe levara os cinco francos; era
j muito tarde para lhos pedir, o cabriole j se tinha afastado, e o carro ia, decerto,
muito longe.
     E depois no lhos restituiria. Enquanto a fazer-lhe perguntas sobre a morada
das pessoas que havia pouco ali tinham ido seria intil; era evidente que o no
sabia, por isso que a carta assinada com o nome de Fabantou fora dirigida ao
benfeitor da igreja de S. Jacques do Haut-Pas.
     Mrio entrou para o seu quarto e cerrou a porta, mas no a podendo fechar de
todo, voltou-se, e viu a mo de algum que a conservava entreaberta.
     - Quem ? - perguntou ele. - Quem est a?
     Era a filha de Jondrette.
     -  voc! - tornou Mrio quase com dureza. - Que me quer?
     A rapariga parecia pensativa e no olhava para ele; no apresentava o mesmo
desembarao que ostentara de manh; no entrava e conservava-se na sombra do
corredor, onde Mrio a via apenas pela greta da porta.
     - Ento no responde? - disse Mrio. - Que me quer?
     A rapariga dirigiu-lhe um olhar triste, onde parecia mostrar-se um vago claro
e disselhe:
     - Senhor Mrio, o senhor tem um ar to triste!... Diga-me, o que tem?
     - Eu?! - disse Mrio.
     - Sim, o senhor - No tenho nada.
     - Tem, decerto.
     - J disse que no.
     - E eu digo que sim!
     - Deixe-me Mrio empurrou novamente a porta e a rapariga continuou a
sust-la.
     - Olhe, senhor Mrio, o senhor faz mal. O senhor no  rico, e assim mesmo
mostrou-se bom para comigo ainda esta manh. Seja-o tambm agora. De manh
deu-me com que matar a fome; diga-me agora o que  que tem. O senhor tem coisa
que lhe d cuidado; isso v-se. Eu no queria que estivesse triste. O que  preciso
fazer para isto? Se posso servir para alguma coisa, disponha de mim. Eu no lhe
digo que me conte os seus segredos; mas enfim, talvez que lhe possa fazer algum
servio. Uma vez que ajudo meu pai, posso ajud-lo ao senhor. Quando  preciso
levar cartas, ir a alguma casa, perguntar por algum de porta em porta at
achar-lhe a morada, seguir alguma pessoa, ento posso ser til; para isso sirvo eu. O
senhor pode dizer o que tem, porque eu irei falar a alguma pessoa que o senhor
queira; s vezes basta que algum fale com as pessoas para que as coisas se saibam e
tudo se arranje. Disponha de mim.
     Uma ideia perpassou pelo esprito de Mrio. Quem se sente cair no escolhe
ramo para se apegar.
     Aproximou-se pois da filha de Jondrette e disselhe:
     - Escuta... A rapariga interrompeu-o com a expresso da alegria nos olhos.
     - Assim, sim... trate-me por tu, gosto mais disso.
     - Pois sim - tornou ele - tu  que trouxeste aqui aquele sujeito velho e sua filha?
     - Fui.
     - Sabes a sua morada?
     - No.
     - V se a podes saber.
     Os olhos da rapariga, de tristes tornaram-se alegres, de alegres tornaram-se
sombrios.
     -  isso o que o senhor quer? - perguntou ela.
     - .
     - O senhor conhece-os?
     - No.
     - J sei - disse ela com vivacidade - no a conhece, mas quer conhec-la.
     Esta mudana de os em a, tinha no sei qu de significativo e amargo.
     - Mas enfim, podes saber onde moram?
     - H-de saber a morada daquela linda menina, deixe estar... As palavras
linda menina foram ainda ditas de modo que importunou Mrio, o qual
acrescentou:
     - A morada do pai ou da filha... a morada deles enfim.
     A rapariga fitou os olhos nele.
     - E o que me dar?
     - Tudo o que tu quiseres.
     - Tudo o que eu quiser?
     - Sim.
     - Pois ento h-de saber onde moram.
     A filha de Jondrette baixou a cabea, e depois, com um movimento inopinado
puxou a porta, que logo tornou a fechar-se.
     Mrio tornou a achar-se s.
     Deixou-se cair ento numa cadeira, com a cabea e ambos os cotovelos
encostados  cama, abismado em pensamentos que no podia fixar e presa de uma
espcie de vertigem. Tudo o que ocorrera desde manh, a apario do anjo, o seu
desaparecimento, o que a rapariga acabara de lhe dizer, um vislumbre de esperana
num imenso desespero, era o que lhe preenchia confusamente o crebro.
     De sbito sentiu-se violentamente arrancado  sua meditao.
     Ouvira a voz alta e spera de Jondrette pronunciar as seguintes palavras, que
encerravam para ele o mesmo extraordinrio interesse: - Digo-te que tenho toda a
certeza de que o reconheci!
     De quem falava Jondrette? Quem tinha ele reconhecido? O senhor Leblanc? O
pai da sua rsula? O qu! Pois Jondrette conhecia-o! Iria acaso por modo to
abrupto e inesperado obter todas as informaes sem as quais a sua vida era para si
mesmo obscura? Iria, enfim, saber a quem amava, quem era aquela jovem, quem
era seu pai?
     Estaria a ponto de se dissipar a sombra espessa que os envolvia? Acaso se
rasgaria o vu? Oh, Deus!
     No subiu, pulou para cima da cmoda, foi novamente aplicar um olho no
buraco do tabique, e tornou a ver o interior da pocilga dos Jondrette.
    XII
    Em que foi empregada a moeda de cinco francos do senhor Leblanc



     No houvera a mnima mudana no aspecto da famlia, salvo a de terem a
me e as filhas vestido e calado as camisolas e meias de l, que acharam na trouxa.
Em cada uma das camas via-se um cobertor novo.
     Jondrette acabava evidentemente de entrar para casa; estava ainda afadigado.
     Suas filhas estavam ao p da chamin sentadas no cho, a mais velha a tratar
da mo da mais nova. A mulher achava-se como prostrada sobre a cama prximo
da chamin, mostrando na fisionomia uma expresso de pasmo. Jondrette percorria
o quarto a passos largos de um a outro extremo, com extraordinria expresso nos
olhos.
     A mulher que parecia tmida e cheia de espanto na presena do marido,
arriscou-se a dizer-lhe:
     - O qu! Pois ests realmente certo disso?
     - Certssimo! J l vo oito anos, mas reconheci-o logo! No me engano, no!
     Reconheci-o assim que entrou. Pois isto no te salta aos olhos?
     - A mim, no.
     - Eu bem te disse: repara nele!  a mesma figura, a mesma cara, a mesma voz;
o que tem  estar mais velho. No sei o que certa gente faz para no envelhecer. A
maior diferena  andar mais bem vestido. At que te apanhei, misterioso velho do
diabo!
     Nisto parou e disse s filhas:
     - Vo-se daqui, vocs. Parece impossvel que te no saltasse aos olhos!
     As raparigas levantaram-se para obedecer.
     A me balbuciou:
     - Com a mo ferida?
     - O ar h-de fazer-lhe bem -disse Jondrette. - Saiam daqui!
     Era visvel ser este homem daqueles a quem se no replica. As duas raparigas
saram.
     No momento em que iam a transpor a porta, o pai deteve a mais velha pelo
brao e disselhe em tom particular:
     - Ho-de estar aqui s cinco horas em ponto, ambas. Devo precisar muito de
vocs.
     Mrio cada vez prestava maior ateno.
     Depois que as duas crianas saram, deixando Jondrette a ss com a mulher,
tornou aquele a passear no quarto. Ao cabo de duas ou trs voltas, parou e ps-se a
meter por dentro das calas a fralda da camisa de mulher que trazia vestida, no que
gastou alguns minutos.
     De repente, voltou-se para a mulher, cruzando os braos, e exclamou:
     - E queres que eu te diga uma coisa? A pequena... - Que tem a pequena? - disse
a mulher, vendo que ele se calara no meio do que ia a dizer.
     No podiam restar dvidas a Mrio; era dela com certeza que Jondrette falava.
O jovem escutava, pois, com ardente ansiedade a menor palavra daquele homem.
Como que nos ouvidos se lhe concentrara a vida toda. Infelizmente, Jondrette
curvara-se para falar em voz baixa a Sua mulher, aps o que se endireitou,
terminando em tom que Mrio ouviu perfeitamente.
     -  ela!
     - Ser? - disse a mulher.
     - ! - respondeu o marido.
     No h frases que traduzam fielmente toda a expresso daquele - ser? - dito
pela mulher de Jondrette.
     Era a surpresa, a raiva, o dio, a clera, juntas e combinadas numa entoao
monstruosa. Bastaram algumas palavras, um nome talvez, que o marido lhe tinha
dito ao ouvido, para que aquela mulher colossal despertasse do seu entorpecimento
e de repelente que j era se tornasse horrorosa.
     -  impossvel! - exclamou ela. - Pois lembrar-me eu que minhas filhas andam
por essas ruas descalas e no tm um farrapo de um vestido, e ela de mantelete de
cetim, de chapelinho de veludo, botinhas e tudo mais! Para Cima de duzentos
francos em roupa! De tal modo que parece mesmo uma senhora! Nada, menino,
olha que ests enganado; bem vs que a outra era feia como um bode e esta, vamos
andando, ainda no  muito de fazer fugir! Nada, no pode ser ela!
     - Digo-te que  ela! Seno tu vers.
     A esta afirmativa to absoluta, a mulher de Jondrette levantou a enorme
cabea, povoada de cabelos ruivos, e fitou os olhos no tecto da mansarda com
hedionda expresso. Naquela ocasio ainda o seu aspecto pareceu ao rapaz mais
temvel do que o do marido. Era uma porca com olhar de pantera!
     - Pois esse estafermo dessa linda rapariga que a esteve, fitando-me as filhas
com olhar de compaixo, seria aquela desavergonhada?! Oh, a minha vontade era
desfaz-la a pontaps!
     E, ao dizer isto, saltou abaixo da cama e ficou um instante de p no meio da
casa, com os cabelos desgrenhados, as ventas dilatadas, a boca meia aberta, os
punhos cerrados, atitude ameaadora e convulsos pelo tremor da raiva, que se lhe
azedava no peito. Depois atirou-se de novo para cima da cama. O marido, esse
continuava a passear, sem prestar ateno aos movimentos furibundos da mulher.
     Aps alguns instantes de silncio, Jondrette aproximou-se de sua mulher,
estacou diante dela com os braos cruzados, como h um instante, e exclamou: -
Mas queres que te diga uma coisa?
     - Que ? - perguntou ela.
     -  que est feita a minha fortuna! - respondeu ele rapidamente e em voz baixa.
     A mulher encarou-o com um olhar que queria dizer: Tu endoidecerias?.
     - Apre! Com um raio de diabos! No h j to pouco tempo que eu fao cruzes
na boca e jejuo mesmo nos dias em que o Papa no manda guardar jejum! Basta de
misria!  ainda, de mais a mais, com a carga que eu tenho s costas! J basta de
graas, que o caso no  para rir; basta de calemburgos, Deus do cu! Basta de
cartas, Padre Eterno! Quero matar esta fome, saciar esta sede, dormir, passear,
andar com as mos debaixo dos braos! Tambm quero ter a minha vez! Que diabo!
Antes de estalar, preciso ser por algum tempo milionrio!
     E depois de dar uma volta pela mansarda, acrescentou:
     - Como os outros!
     - Mas que queres tu dizer? - perguntou-lhe a mulher.
     Jondrette abanou a cabea, piscou um olho e levantou a voz como um
ilusionista de feira, que se prepara para fazer uma demonstrao, - O que quero eu
dizer? Escuta!
     - Schiu! - resmungou a mulher. - Fala mais baixo!  preciso que ningum oia
falar de negcios como este!
     - Ora! Quem  que pode ouvir? O vizinho? Vi-o sair ainda agora. Como se
aquele papalvo ouvisse alguma coisa! E depois, j te disse que o vi sair.
     Entretanto, por uma espcie de instinto, baixou a voz, mas no tanto que as
suas palavras no fossem ouvidas por Mrio. Uma circunstncia favorvel e que
permitia a Mrio no perder uma slaba daquela conversao, fora a espessura de
neve que estava caindo e que atenuava o rudo das carruagens que passavam pelo
boulevard.
     Eis o que Mrio ouviu:
      - Escuta bem. Est filado o Creso!  como se j estivesse tudo feito. Tenho tudo
arranjado; j falei com algum. s seis horas vem ele. Vem trazer os sessenta
francos, canalha! Viste como deixei sair pela boca fora toda aquela cantiga? Os
sessenta francos, o senhorio, o 4 de Fevereiro? E do que se trata agora mais  da
renda da casa! Que estupidez! Vem s seis horas;  a hora a que o vizinho vai
jantar. A tia Bourgon vai a uma casa, longe daqui, lavar a loia. O vizinho nunca
volta para casa antes das onze horas. As pequenas pr-se-o de vigia Tu
ajudar-nos-s e ele no ter remdio seno tratar de espigar.
      - E se no espigar? - perguntou a mulher.
      - Espigamo-lo ns!
      E soltou uma gargalhada.
      Era a primeira vez que Mrio o via rir; um riso frio e suave, que fazia
estremecer.
      Jondrette abriu um armrio junto da chamin e tirou um bon velho, que ps
na cabea depois de o ter escovado com a manga do casaco.
      - Agora - disse ele - vou sair. Tenho ainda de falar com mais algum. Vers
como a coisa caminha. Hei-de demorar-me o menos possvel:  muito boa partida,
tu ficas guardando a casa.
      E, depois de se conservar algum tempo pensativo, com as mos nos bolsos das
calas, exclamou:
      - Foi uma boa fortuna ele no me reconhecer tambm! Se me tivesse
reconhecido no voltaria, passava-nos o p! Foi a barba quem me salvou! A barba
romntica, a minha barbinha romntica!
      E de novo desatou a rir.
      Em seguida encaminhou-se para a janela. A neve continuava a cair, fazendo
um singular contraste com a escurido do cu.
      - Que tempo terrvel este! - exclamou.
      Em seguida acrescentou, cruzando o casaco:
      - A pele  larga como o diabo. No tem dvida; o caso  que o tratante do velho
fez bem em ma deixar! Se no fosse isto no teria podido sair e tudo ficaria perdido!
Do que dependem s vezes as coisas!
     E puxando o bon para os olhos, saiu.
     Teria apenas tempo de dar meia dzia de passos, quando a porta se abriu, e de
novo apareceu o seu perfil inteligente e bravio.
     - Esquecia-me dizer-te...  preciso que tenhas um fogareiro aceso E atirou para
o avental da mulher a moeda de cinco francos que lhe dera o filantropo.
     - O fogareiro? - perguntou a mulher.
     - Sim - Necessito comprar carvo.
     - A tens dinheiro.
     - Quantas medidas?
     - Bastam duas - So trinta soldos. Com o resto comprarei alguma coisa para o
jantar.
     -  diabo! Isso no!
     - Porqu?
     - No gastes o dinheiro todo.
     - Porqu?
     - Porque hei-de tambm precisar de comprar uma coisa.
     - O que ?
     -  c uma coisa - E quanto te  preciso?
     - Onde h por a uma loja de ferragens?
     - Na rua Mouffetard.
     -  verdade,  esquina... Estou mesmo vendo a loja.
     - Mas quanto precisas para o que tens de comprar?
     - Trs francos e cinquenta soldos.
     - Fica grande coisa para jantar, no haja dvida!
     - Hoje no se trata de comer. H mais em que pensar.
     - Basta, minha jia.
     A estas palavras da mulher, Jondrette tornou a fechar a porta, e ento Mrio
ouviu-lhe os passos afastando-se pelo corredor do pardieiro, descendo rapidamente
a escada.
     Ao mesmo tempo dava uma hora em Saint-Mdard.



    XIII
    Solus cum solo, in loco remoto, non cogitabuntur orare pater noster



     Apesar de melanclico e distrado, era Mrio, como dissemos, dotado de uma
organizao firme e enrgica. O hbito do recolhimento solitrio, desenvolvendo
nele a simpatia e a compaixo, diminura-lhe talvez a faculdade de se irritar, mas
deixara-lhe intacta a de se indignar; era benvolo como um brmane e severo como
um juiz; tinha d dum sapo, mas esmagava sem compaixo uma vbora. Ora, a sua
vista acabava de penetrar num covil de vboras; era um ninho de monstros o que
tinha diante dos olhos.
     - Estes miserveis devem ser esmagados com o p -, disse ele para si prprio.
     Nenhum dos enigmas que esperava ver decifrar se aclarara; pelo contrrio,
todos se haviam tornado ainda talvez mais intrincados; no ficara sabendo nada
mais acerca da formosa jovem do Luxemburgo, nem do homem que ele denominava
senhor Leblanc, seno que Jondrette os conhecia. Atravs das tenebrosas palavras
que ouvira, s percebera claramente uma coisa: que se preparava uma cilada, uma
cilada obscura, mas terrvel; que corriam ambos grande perigo, ela provavelmente,
seu pai com toda a certeza; que era preciso salv-los, que era indispensvel destruir
as combinaes hediondas de Jondrette e romper a teia daquelas aranhas.
     Por um momento contemplou a mulher de Jondrette, que fora a um canto
buscar um usado fogareiro de ferro e que procurava o que quer que era entre os
ferros velhos.
     Em seguida desceu da cmoda o mais cuidadosamente possvel, para no fazer
a mnima bulha.
     No meio do terror que lhe causava a maquinao que se preparava e do horror
que lhe inspirava a famlia Jondrette, sentia uma espcie de alegria, lembrando-se
de que lhe seria talvez dado prestar um tal servio quela que amava.
     Mas como havia de fazer? Avisar as pessoas ameaadas? Onde as encontraria
se no sabia onde moravam? Tinham-lhe por um momento aparecido diante dos
olhos, e logo depois mergulhado de novo nas imensas profundidades de Paris.
Esperar o senhor Leblanc  porta, s seis horas, na ocasio em que ele entrasse, e
preveni-lo do lao que lhe tinham armado? Mas Jondrette e a sua gente v-lo-iam de
sentinela, o lugar era deserto, teriam mais fora do que ele, teriam modo de o
anular ou de o afastar, e aquele a quem Mrio queria salvar ficaria perdido.
Acabava de soar uma hora. A cilada devia efectuar-se s seis. Mrio podia dispor de
cinco horas. Em tal conjuntura no tinha seno uma coisa a fazer.
     Vestiu, portanto, o casaco melhor que tinha, ps um leno no pescoo, pegou no
chapu e saiu, sem fazer mais bulha do que se andasse descalo sobre relva.
     Alm disso, a mulher de Jondrette continuava a traquinar com os ferros velhos.
     Apenas Mrio transps o limiar da porta, dirigiu-se para a rua do
Petit-Banquier.
     Ia j no meio desta rua, junto de um muro muito baixo, fcil de saltar nalguns
pontos, e que dava para um terreno inculto; caminhava vagarosamente,
preocupado como era natural; e a neve que cobria a calada abafava-lhe o rudo dos
passos; de repente, ouviu umas vozes que falavam muito perto dele. Voltou a
cabea, a rua estava deserta, no via ningum, era dia claro, e contudo ouvia falar
distintamente.
     Ocorreu-lhe de repente a lembrana de olhar por cima do muro por junto do
qual caminhava. Estavam com efeito ali dois homens, sentados sobre a neve,
encostados  parede e falando em voz baixa.
     Eram-lhe ambos desconhecidos. Um trazia grandes barbas e vestia uma blusa,
o outro com grande cabeleira e coberto de andrajos. O primeiro tinha um gorro
grego, o outro no tinha nada na cabea e os cabelos estavam cobertos de neve.
     Mrio debruando-se quase no muro por cima do stio em que eles estavam,
podia ouvir o que diziam.
     O da cabeleira acotovelava o outro, dizendo-lhe:
     - Com Patron-Minette no pode falhar.
     - Julgas isso? - respondeu o das barbas.
     O outro prosseguiu:
     - Cada uma deve ter pelo menos uma estilha de quinhentas balas (uma parte
de quinhentos francos), e o pior que pode custar so para a uns cinco, seis ou dez
anos, quando muito, de priso.
     O primeiro respondeu com alguma hesitao e batendo o queixo com o frio:
     - Esta parece-me que  a valer, mas no se pode ir ao encontro das coisas assim.
     - Afiano-te que no pode falhar - tornou o da cabeleira.
     - A capoeira do tio Coisa, h-de estar  espera.
     Depois passaram a falar dum melodrama que na vspera tinham visto no
teatro da Gait.
     Mrio continuou o seu caminho.
     Pareceu-lhe que as palavras obscuras daqueles homens, to estranhamente
escondidos por detrs daquele muro e acocorados sobre a neve, no deixavam de ter
relao com os abominveis projectos de Jondrette. Aqueles dois homens tratavam
decerto do tal negcio.
     Dirigiu-se em seguida para o arrabalde de S. Marcai e na primeira loja que
encontrou perguntou onde havia um comissrio de polcia.
     Indicaram-lhe a rua Pontoise nmero 14 e Mrio tomou essa direco.
    Passando por um padeiro, comprou um pozinho de dois soldos e comeu-o,
prevendo que no jantaria.
    Durante o caminho fez justia  Providncia. Pensou em que se no tivesse
dado de manh os seus cinco francos  filha de Jondrette, seguiria o carro do senhor
Leblanc, e por consequncia no teria conhecimento de coisa alguma; que no
haveria nada que obstasse  cilada dos Jondrette, que o senhor Leblanc estaria
perdido, e com ele, decerto, sua filha.



    XIV
    Onde um agente da polcia d duas pistolas de algibeira a um advogado



     Chegando ao nmero 14 da rua de Pontoise, Mrio subiu ao primeiro andar e
perguntou pelo comissrio de polcia.
     - O senhor comissrio no est c - disse um escrevente mas est um inspector
que faz as suas vezes. -  para caso urgente? Quer falar-lhe?
     - Imediatamente - respondeu Mrio.
     O escrevente introduziu-o no gabinete do comissrio.
     Ali encontrou um homem de elevada estatura, de p por detrs de uma grade,
encostado a um fogo e levantando com ambas as mos as abas de um vasto
sobretudo de trs cabees. Tinha um rosto quadrado, uma boca pequena e firme,
espessas suas grisalhas e um olhar capaz de despejar bolsos. Era um olhar do qual
se poderia dizer que no penetrava, mas que apalpava.
     O aspecto daquele homem no era menos feroz nem menos terrvel de que o de
Jondrette; muitas vezes no  menos inquietador o encontro de um co de fila do
que o de um lobo.
     - O que quer? - perguntou ele abruptamente a Mrio, sem anteceder a pergunta
de qualquer frmula de tratamento.
     - O senhor comissrio de polcia?
     - Est ausente, mas eu represento-o.
     - Trata-se de um assunto muito secreto.
     - Pode falar.
     -  da maior urgncia.
     - Ento diga depressa.
     Aquele homem sereno e arrebatado, era ao mesmo tempo medonho e
tranquilizador. Inspirava receio e confiana.
     Mrio contou-lhe o caso. Disselhe que um sujeito, que ele no conhecia seno
de vista, devia ser naquela mesma noite vtima duma cilada; que morando ele,
Mrio Pontmercy, advogado, num quarto vizinho do covil, surpreendera. Toda a
trama atravs de um tabique; que o celerado que imaginara a cilada era um tal
Jondrette, que parecia ter cmplices, provavelmente ratoneiros das barreiras; entre
outros um certo Panchaud, conhecido por Piintanier e por Bigrenaille; que as filhas
de Jondrette estariam de sentinela; que no tinha meio algum de prevenir o
indivduo ameaado, por isso que nem mesmo sabia como se chamava; e que enfim
tudo isto se devia executar s seis horas da tarde, no ponto mais deserto do
boulevard do Hospital, na casa nmero 50-52.
    O inspector ouvindo este inmero ergueu a cabea e disse friamente:
    - Ento  no quarto do fim do corredor.
    - Precisamente - disse Mrio, acrescentando: - Conhece a casa?
    O inspector conservou-se por um momento silencioso e respondeu depois,
aquecendo a sola da bota na boca do fogo:
    - Aparentemente.
    E continuou por entre dentes, falando menos com Mrio do que com a sua
gravata:
    - Nisto deve andar o que quer que seja de Patron-Minette!
    Estas palavras impressionaram Mrio.
    - Patron-Minette - repetiu ele. - Ouvi com efeito pronunciar esse nome.
    E contou ao inspector o dilogo do homem de cabeleira com outro barbudo,
que estavam sentados na neve por detrs do muro da rua do Petit-Banquier.
    O inspector resmungou:
    - O da cabeleira deve ser Brujon, e o das barbas o Demi-Liard, conhecido por
Deux Miliards.
    Depois baixou novamente os olhos e ps-se a meditar.
    - Quanto ao tio Coisa, parece-me que tambm sei quem . L queimei o casaco.
    Fazem sempre lume demasiado nestes malditos foges! Nmero 50-52. Antiga
propriedade Gorbeau.
    Em seguida olhou para Mrio e perguntou-lhe:
    - No viu seno o tal barbudo e o da cabeleira?
    - Vi tambm Panchaud.
     - No viu girar por l uma espcie de peraltazinha do diabo?
     - No vi - Nem um brutalho enorme semelhante ao elefante do Jardim das
Plantas?
     - No, senhor - Nem um velhaquete assim com ares de pinto caludo?
     - Tambm no.
     - Quanto ao quarto, esse ningum o v, nem mesmo os seus ajudantes, caixeiros
e empregados. Admira-me pouco que o no tenha visto.
     - No vi, decerto. Mas que espcie de gente  essa? - perguntou Mrio.
     O inspector respondeu:
     - Alm disso no  ainda a hora dele.
     E depois de tornar a conservar-se por um momento silencioso, continuou:
     - Nmero 50-52. Conheo a espelunca.  impossvel escondermo-nos no
interior sem que os artistas dem por isso; se tal sucedesse, limitar-se-iam a
transferir o espectculo. So muito modestos, incomoda-os o pblico. Nada, nada!
Quero ouvi-los cantar para os fazer danar.
     Terminado este monlogo voltou-se para Mrio e perguntou-lhe, fitando-o:
     - Ter medo?
     - De qu? - disse Mrio.
     - Dos tais homens.
     - Tanto como de si! - replicou rudemente Mrio, comeando a notar que o
beleguim o no tratara por senhor.
     O inspector encarou Mrio ainda com maior fixidez e continuou com uma
espcie de solenidade sentenciosa:
     - Fala como homem destemido e honesto. A coragem no receia o crime, nem a
honradez a autoridade.
     Mrio interrompeu-o:
     - Mas que tenciona fazer?
     O inspector limitou-se a responder:
     - Os inquilinos dessa casa tm todos chave de trinco para de noite abrirem a
porta da rua. Deve ter a sua.
     - Tenho.
     - Tr-la consigo?
     - Trago.
     - D-ma.
     Mrio tirou da algibeira a chave e entregou-a ao inspector, acrescentando:
     - A minha opinio  de que dever levar reforo.
     O inspector olhou para Mrio como Voltaire olharia para um acadmico da
provncia, que lhe propusesse uma rima. Acto contnuo meteu com um s
movimento ambas as mos, que eram enormes, nos bolsos do sobretudo, e tirou
deles duas pequeninas pistolas de ao, das chamadas pistolas de algibeira e
apresentou-as a Mrio, dizendo-lhe ao mesmo tempo com vivacidade e num tom
breve: - Pegue nisto. Volte para casa e feche-se no seu quarto, de modo que o
julguem ausente. Olhe que esto carregadas, cada uma com duas balas. Segundo me
disse, h um buraco na parede; espreite e deixe entrar os scios; deixe-os mesmo
encetar a obra.
     Quando julgar a coisa em ponto, e que for tempo de lhe pr cobro, dispare uma
das pistolas. No o faa cedo de mais; o resto  comigo. Um tiro para o ar, para o
tecto, seja l para onde for. O que  necessrio  que no seja demasiado cedo.
Espere que haja comeo de execuo; como  advogado, deve saber o que isto .
     Mrio pegou nas pistolas e meteu-as no bolso.
     - Assim no, que fazem muito volume e conhece-se - disse o inspector. -
Meta-as antes nos bolsos das calas.
     Mrio aceitou a observao.
     - Agora - prosseguiu o inspector - no h um minuto a perder. Que horas so?
     Duas e meia.  para as sete, no  verdade?
     - Para as seis - disse Mrio.
     - Tenho tempo - redarguiu o inspector - mas apenas o necessrio. No se
esquea do que lhe recomendei. Um tiro de pistola.
     - Fique descansado - respondeu Mrio.
     E quando este punha a mo no fecho da porta para sair, o inspector gritou-lhe:
     -  verdade, se precisar de mim at l, venha ou mande aqui. Procure o
inspector Javert.



    XV
    Jondrette efectua a compra de que falava



    Instantes depois, seriam trs horas, Courfeyrac e Bossuet passavam
casualmente pela rua Mouffetard. A neve caa cada vez com mais fora, enchendo
completamente o espao.
     - Dir-se-ia, ao ver cair esta imensidade de flocos de neve - disse Bossuet a
Courfeyrac - haver no cu uma praga de borboletas brancas!
     De sbito, deu com os olhos em Mrio, que ia mais adiante, a caminho da
barreira, com um ar particular e exclamou:
     - Olha, vai ali o Mrio!
     - J o vi - disse Courfeyrac. - No lhe falemos.
     - Porqu?
     - Porque vai ocupado.
     - Em qu?
     - Ento no vs o aspecto dele?
     - Que aspecto?
     - No vs que ele vai com ar de quem segue algum?
     -  verdade! - disse Bossuet.
     - Olha que olhos aqueles! - tornou Courfeyrac.
     - Mas atrs de quem diabo ir ele?
     - Por a atrs de alguma mocetona bem feita e bem parecida que lhe deu no
goto!
     - Mas  que eu no vejo em toda a rua mocetona nenhuma bem parecida nem
por bem parecer! No se avista uma nica mulher!
     - Vai atrs de um homem! - exclamou Courfeyrac, depois de se afirmar.
     Um homem efectivamente, com um barrete na cabea, caminhava vinte passos
adiante de Mrio. Conquanto os dois mancebos apenas o vissem pelas costas,
distinguiam-lhe, contudo, a barba, que era grisalha.
     Vestia um casaco novo, mas grande de mais para ele e umas calas
esfarrapadas, todas sujas de lama.
     - Que demnio de figura  aquela?  exclamou Bossuet, soltando uma
gargalhada.
     - Aquilo  um poeta! - respondeu Courfeyrac. - Os poetas gostam de andar com
calas de negociantes de peles de coelho e casacos de pares de reino!
     - Vamos atrs de Mrio a ver para onde ele vai - disse Bossuet - vamos atrs do
homem, heim?
     - Bossuet! - exclamou Courfeyrac. - guia de Meaux, s um bruto como uma
casa! Seguir um homem que vai atrs de outro!
     E, apenas proferiu estas palavras, voltaram ambos para trs.
      Efectivamente, Mrio vira passar Jondrette pela rua Mouffetard e ia-lhe no
encalo.
      Jondrette caminhava adiante, longe de suspeitar que lhe iam a vigiar os passos.
      O vizinho de Mrio deixou a rua Mouffetard e entrou para uma das mais sujas
baiucas da rua Graciosa, onde se demorou um quarto de hora, tornando depois pela
rua Mouffetard. Chegado a esta, entrou numa loja de ferragens, que nesse tempo
havia  esquina da rua de Pedro Lombardo, e, poucos minutos depois, Mrio viu-o
sair de dentro, trazendo na mo um grande formo com um cabo de pau branco,
que escondeu debaixo do casaco.
      Ao chegar ao princpio da rua do Petit-Gentilly, tomou  esquerda,
caminhando apressadamente na direco da rua do Petit-Banquier.
      O dia declinava; a neve, que durante um momento passara, principiava de
novo a cair. Mrio emboscou-se  esquina da rua do Petit-Banquier, que estava
deserta como sempre, e deixou de seguir Jondrette. E fez muito bem, porquanto
Jondrette, apenas chegou junto do muro baixo, por trs do qual Mrio ouvira estar
a falar o homem das barbas e o da cabeleira, voltou-se para se certificar de que
ningum o seguia nem o via e saltou rapidamente o muro, desaparecendo por trs
dele.
      O terreno abandonado que o muro fechava comunicava com o ptio traseiro de
uma antiga cocheira de trens de aluguer, cujo dono, que gozava de muito m fama,
falira, e onde havia ainda alguns trens velhos debaixo de telheiros.
      Mrio lembrou-se de que era prudente aproveitar-se da ausncia de Jondrette
para se recolher a casa; depois as horas iam correndo; todas as tardes a tia Burgon,
quando saa para ir  tal casa onde lavava a loia, costumava fechar a porta da rua;
Mrio dera a sua chave do trinco ao inspector de polcia; era pois importante que se
no demorasse.
      Entretanto, tinha anoitecido quase completamente, j no havia no horizonte
ou na imensidade seno um ponto iluminado pelo Sol; era a Lua, que se erguia
avermelhada por trs da Cpula inferior da Salptrire.
      Mrio encaminhou-se a passos largos para o nmero 50-52, achando ainda a
porta aberta. Subiu a escada nos bicos dos ps, e como que resvalou ao longo da
parede do corredor at ao seu quarto. Este corredor, tinha de ambos os lados
diferentes quartos, que, naquela ocasio, estavam todos devolutos e  espera de
moradores. A tia Burgon, deixava-lhes ordinariamente as portas abertas.
      Quando Mrio se dirigia para o seu quarto, passou por uma daquelas portas e
julgou divisar, da banda de dentro, no quarto desabitado, quatro cabeas de
homens, imveis, e denunciadas por um resto de claridade que penetrava ainda por
uma fresta.
     Mrio no diligenciou ver, porque tambm no queria ser visto, e chegou a
entrar para o quarto, sem fazer o mnimo rudo e sem que ningum o visse. Era
tempo.
     Passado um momento ouviu os passos da tia Burgon que saa e fechava a
porta.



    XVI
    Onde se tornar a ouvir uma cano Inglesa, que era moda em 1832



     Apenas Mrio se viu no seu quarto, sentou-se na cama. Seriam ento cinco
horas e meia. S meia hora o separava do que teria de suceder. Sentia o bater das
artrias como um relgio que tivesse no bolso. Pensava na dupla marcha que
naquele momento se efectuava nas sombras; o crime avanando por um lado, a
justia pelo outro. No tinha medo, mas no podia pensar sem certo
estremecimento nas coisas que iriam ocorrer. Como sucede a todos os que acabam
de se ver envolvidos subitamente numa aventura surpreendente, parecia-lhe um
sonho tudo o que sucedera durante aquele dia; e para no se julgar vtima de um
pesadelo, precisava apalpar nos bolsos os canos das duas pistolas de ao.
     A neve cessara de cair, a Lua destacava-se cada vez mais clara das espessas
nvoas que a ensombravam, e o seu claro, aliado ao reflexo esbranquiado da neve
que havia cado, dava-lhe ao quarto um aspecto crepuscular.
     No antro dos Jondrette havia luz. Mrio via brilhar o buraco do tabique com
uma claridade que parecia ensanguentada.
     Era fora de dvida que uma tal luz no podia ser produzida por uma vela.
     Quanto ao mais no sentia o mnimo movimento em casa dos Jondrette;
ningum ali se movia nem falava, no se ouvia o mnimo sopro, o silncio era
glacial e profundo; e, se no fora aquela luz, julgar-se-ia ser aquilo um sepulcro.
     Mrio descalou as botas cautelosamente e meteu-as debaixo da cama.
     Decorreram ainda alguns minutos. Mrio ouviu a porta da rua girar nos
gonzos, uns passos pesados e rpidos subirem a escada e percorrerem o corredor, e
logo depois levantar-se o fecho da porta da pocilga. Ouviram-se desde logo
diferentes vozes.
     Achava-se reunida toda a famlia do casaro; s se conservara calada durante
a ausncia do chefe, qual ninhada de lobos na ausncia do pai.
     - Sou eu - disse ele.
     - Boas noites, paizinho - regougaram as filhas.
     - E ento? - inquiriu a me.
     - Est tudo a correr bem - respondeu Jondrette. - Mas tenho nos ps um frio de
co. Bom! Assim mesmo: j te vestiste.  necessrio que possas inspirar confiana.
     - Pronta para sair.
     - No te esquecers de nada do que te recomendei? Fars tudo bem feito?
     - Podes estar descansado.
     -  que... - disse Jondrette, sem concluir a frase.
     Mrio sentiu-o pr sobre a mesa um objecto pesado, provavelmente o formo
que comprara.
     -  verdade, vocs comeram?
     - Ns comemos trs batatas cozidas passadas por sal. Como tnhamos lume,
lembrei-me que o no devia perder.
     - Bem - replicou Jondrette. - Deixai estar que amanh hei-de tirar-vos a barriga
de misrias! H-de comer-se um pato e os respectivos complementos. Haveis de
jantar como Carlos X; o negcio vai menos mau.
     E acrescentou em seguida, moderando a voz:
     - A ratoeira est armada e os gatos prontos a saltar!
     E ajuntou, baixando ainda mais a voz:
     - Mete isto no lume.
     Mrio ouviu um tinido semelhante ao produzido por umas tenazes ou por
qualquer objecto de ferramenta mexendo carvo e em seguida a voz de Jondrette,
que prosseguia, dizendo: - Untaste as dobradias da porta para no rangerem?
     - Untei - respondeu a mulher.
     - Que horas so?
     - No tardam a dar seis, porque j deu meia h um bocado em Saint-Mdard.
     - Diabo! - resmungou Jondrette. -  preciso mandar pr de sentinela as
raparigas.
     Venham c! Ouam o que eu digo.
     Jondrette disse o que quer que fosse ao ouvido das filhas e em seguida
perguntou, elevando de inovo a voz:
     - A Burgon j saiu?
     - J - disse a mulher.
     - Tens a certeza de que no est ningum em casa do vizinho?
     - No tornou a entrar em casa todo o dia; e agora bem sabes que  a hora dele
jantar.
     - Ests bem certa?
     - Certssima.
     - Pois sim - replicou Jondrette - mas no faz mal nenhum em se ir ver se ele est
em casa. - E voltando-se para a filha mais velha, acrescentou: - Pega na vela e vai
ver.
     Mrio deixou-se cair sobre as mos e sucessivamente sobre os joelhos e
arrastou-se em silncio para debaixo da cama.
     Apenas assim se ocultou, viu brilhar uma luz atravs das fendas da porta.
     - Pai! - gritou uma voz. - No est c.
     Mrio reconheceu a voz da rapariga mais velha.
     - Entraste? - perguntou o pai.
     - No, senhor - respondeu a filha - mas como a chave est na porta,  sinal de
que saiu.
     -  o mesmo, mas entra! - tornou a gritar o pai.
     A porta abriu-se ento e Mrio viu entrar a filha mais velha de Jondrette, cuja
voz logo a princpio reconhecera, com um castial na mo.
     Vinha como pela manh, se no  que o claro da luz que trazia lhe dava
ainda um aspecto mais sinistro.
     Ao v-la encaminhar-se para o leito, Mrio teve um momento de inexprimvel
ansiedade, que passou apenas conheceu que ela se dirigia para um espelho que
estava pendurado na parede, ao p da cama, alando-se em bicos de ps para se ver
a ele.
     Ao mesmo tempo, ouvia-se no quarto vizinho um tinido de ferros, em que
algum andava mexendo.
     A filha de Jondrette, alisando os cabelos com a palma da mo e fazendo caretas
ao espelho, cantarolava com a sua voz roufenha e sepulcral: Oito dias enlaados Em
ternos laos de amor Vivemos, qual vivem anjos.
     Sem leve sombra de dor, Mas ai, que rpidos fogem Doces horas de prazer!
     O tempo dado ao amor Nunca fim devia ter, Nunca fim devia ter!
     Entretanto, Mrio tremia. Parecia-lhe impossvel que ela lhe no ouvisse a
respirao.
     A rapariga dirigiu-se em seguida para a janela e olhou para fora falando em
voz alta, com aquele ar meio desorientado que lhe era natural: - Como Paris  feio,
quando veste camisa lavada. - disse ela.
     Depois voltou a mirar-se novamente no espelho.
     - Ento! - gritou o pai. - Que ests fazendo?
     - Estou vendo por baixo da cama e dos mveis - respondeu ela continuando a
alisar os cabelos  no est ningum.
     - Estpida! - uivou o pai. - Volta j para aqui! Nada de perder o tempo.
     - L vou! L vou! Tambm na sua loja no tem a gente tempo para nada!
     E continuou a cantarolar:
     Corre  glria que te espera, Que meu pobre corao Nesta ausncia desespera
De encontrar consolao!
     Depois olhou mais uma vez para o espelho e saiu, tornando a fechar a porta.
     Passado um momento, Mrio ouviu os passos das duas raparigas que
passavam descalas pelo corredor, e a voz de Jondrette que lhes gritava: - Tomem
bem sentido! Uma do lado da barreira, a outra  esquina da rua do Petit-Banquier.
No percam um instante de vista a porta da casa, e  mais pequena coisa que
vejam,  correr logo para aqui a galope! J tm uma chave para poder entrar.
     A filha resmungou:
     - Estar de sentinela com os ps descalos em cima da neve!
     - Deixa estar que amanh hs-de ter sapatos de seda cor de escaravelho!
disselhe o pai.
     As raparigas desceram a escada e, ao cabo de alguns segundos a porta da rua
fechando-se, anunciou que j tinham sado.
     J no estavam em todo o casebre seno Mrio e os Jondrette; e
provavelmente os entes misteriosos que Mrio lobrigara no crepsculo, atrs da
porta do cubculo desabitado.



    XVII
    Emprego da moeda de cinco francos de Mrio



    Mrio julgou ter chegado o momento de voltar para o seu observatrio. Num
abrir e fechar de olhos e com a ligeireza prpria da sua idade, achou-se aplicando
um olho no buraco do tabique.
     O interior da habitao dos Jondrette oferecia um aspecto singular; Mrio
achou logo a explicao da estranha claridade que havia notado. Via-se ali uma
vela acesa, metida num castial coberto de verdete, mas no era a vela que
realmente iluminava o casaro. O antro estava todo como que iluminado pela
reverberao dum grande fogareiro de ferro colocado na chamin, com um
vivssimo lume de carvo. Era o fogareiro que a Jondrette preparava pela manh.
O carvo ardia e o fogareiro estava quase rubro; destacava-se nele uma chama
azulada e vacilante, que ajudava a distinguir o feitio do formo comprado por
Jondrette na rua de Pedro Lombardo, cujo ferro estava todo metido no braseiro.
Viam-se a um canto, junto da porta, e como que dispostos para uso previsto, dois
volumes, um dos quais parecia um monto de ferros, o outro um molho de
cordas. Tudo isto fazia flutuar entre uma ideia demasiadamente sinistra, ou em
extremo simples o esprito de quem no tivesse a mnima ideia sobre o que ali se
preparava. A pocilga assim iluminada mais se assemelhava a uma forja do que a
uma boca do inferno; mas Jondrette, quela claridade parecia muito mais um
demnio do que um ferreiro.
     O calor do braseiro era tal que derretia a vela, do lado voltado para ele. Sobre
a chamin estava uma lanterna de furta fogo, de cobre muito velha, digna de
Digenes transformado em Cartouche.
     O fogareiro colocado ao p das fornalhas, respirava pela chamin, e no
espalhara em torno de si o mais leve cheiro.
     O luar, entrando pelos quatro vidros da janela, projectava a sua claridade
esbranquiada no casaro avermelhado e flamejante; e para o potico esprito de
Mrio sonhador no prprio momento de aco, era como que um pensamento do
cu aliado s disformes concepes da terra.
     O ar que penetrava pelo vidro quebrado contribua para dissipar o cheiro do
carvo e para dissimular a presena do fogareiro.
     O covil de Jondrette, se no esqueceram o que dissemos a respeito do
pardieiro Gorbeau, era admiravelmente escolhido para servir de teatro a um facto
violento e de um invlucro a um crime. Era o quarto mais retirado, da casa mais
isolada, do boulevard mais deserto de Paris. Se as ciladas no existissem
inventar-se-iam ali.
     O casaro era separado do boulevard por toda a espessura do prdio e por
grande nmero de quartos desabitados, e a nica janela que nele havia dava para
terrenos incultos, fechadas com muros nuns pontos e noutros com tapumes.
     Jondrette acendera o cachimbo e sentara-se, fumando, na cadeira sem
assento.
     Sua mulher dizia-lhe o que quer que era em voz muito baixa.
     Se Mrio fosse Courfeyrac, isto , um desses homens que riem em todas as
ocasies da vida, teria soltado uma gargalhada quando reparou na mulher de
Jondrette.
     Tinha na cabea um chapu preto de plumas semelhante aos dos arautos que
haviam figurado na sagrao de Carlos X, nos ombros um grande xaile desusado,
caindo sobre uma saia de malha, e nos ps os sapatos de homem desprezados pela
filha. Fora uma tal toilette o que arrancara a Jondrette esta exclamao: Bom!
Fizeste bem em te vestir.  preciso que inspires confiana!
     Quanto a Jondrette no tinha despido o sobretudo novo, se bem que
demasiado largo, que o senhor Leblanc lhe havia dado, continuando o seu
vesturio a oferecer frisante contraste entre o sobretudo e as calas, contraste que
aos olhos de Courfeyrac constitua o ideal do poeta.
     De repente, Jondrette ergueu a voz:
     -  verdade, agora me lembro. Com este tempo vem decerto de carruagem.
     Acende a lanterna, desce com ela l para baixo e pe-te atrs da porta da rua
Quando sentires a carruagem parar, abri-la-s imediatamente, subirs adiante
alumiando a escada e o corredor, e enquanto ela aqui entrar tornars a descer
depressa, pagars ao cocheiro e mandars embora a carruagem.
     - E dinheiro? - perguntou a mulher.
     Jondrette meteu a mo no bolso e deu-lhe cinco francos.
     - Mas o que  isto? - exclamou ela.
     Jondrette respondeu com dignidade:
     -  o monarca que o vizinho deu esta manh.
     E acrescentou:
     - No sabes? Precisamos de duas cadeiras.
     - Para qu?
     - Para haver assentos.
     Mrio sentiu-se estremecer ouvindo Jondrette dar pacificamente esta
resposta.
     - L por isso... Eu te vou buscar a cadeira do vizinho.
     E com um movimento rpido abriu a porta do casaro e saiu para o corredor.
     Mrio no tinha materialmente tempo de descer da cmoda e de correr a
esconder-se debaixo da cama.
     - Leva a luz! - gritou Jondrette.
     - No - disse ela -  muita coisa junta, tenho de trazer tambm as cadeiras. E
demais faz luar que parece dia.
     Mrio sentiu a pesada mo de Jondrette procurando s apalpadelas a chave da
sua porta, no meio da escurido. A porta abriu-se, Mrio ficou como pregado no
lugar em que estava, pela fora da surpresa e pasmo.
     A mulher entrou.
     A janela ou postigo do quarto de Mrio deixava passar uma rstia de luar
entre dois grandes laos de sombra, um dos quais cobria to completamente a
parede a que ele estava encostado, que era impossvel distingui-lo.
     A mulher de Jondrette circunvagou a vista sem descobrir Mrio, pegou nas
duas nicas cadeiras que havia no quarto e saiu, deixando fechar a porta com
estrondo.
     - Aqui esto as duas cadeiras - disse ela para o marido, apenas entrou na
mansarda.
     - E a est tambm a lanterna - disse o marido. - Vai para baixo quanto antes.
     A mulher obedeceu imediatamente e Jondrette ficou s.
     No mesmo instante colocou as cadeiras aos dois lados da mesa, voltou o
formo dentro do braseiro, ps na frente da chamin um velho biombo que
ocultava o fogareiro, dirigiu-se depois para o canto onde estava o molho de cordas
e baixou--se como para examinar qualquer coisa.
     Mrio reconheceu ento que o que julgava ser um molho de cordas era uma
escada muito bem feita, com degraus de madeira e dois grandes ganchos numa
das extremidades para a segurar.
     Aquela escada e algumas pesadas ferramentas, to descomunalmente grandes,
que mais pareciam massas de ferro que se achavam amontoados atrs da porta,
no estavam pela manh no covil de Jondrette; era portanto evidente que tinham
sido para ali levados de tarde, durante a ausncia de Mrio.
     So ferramentas de ferreiro, pensou Mrio.
     Se Mrio fosse um pouco entendido naquela matria, teria reconhecido, no
que tomava por ferramentas de ferreiro, certos instrumentos prprios para forar
uma fechadura ou uma porta, e outros para cortar ou talhar; duas sinistras
famlias de utenslios a que os ladres chamavam brocas e segadeiras.
     A chamin e a mesa com as duas cadeiras estavam exactamente na frente de
Mrio. Ocultado como estava o fogareiro, no era o casaro alumiado seno pela
luz da vela, e o menor volume sobre a mesa ou sobre a chamin, projectava uma
grande sombra. Metade duma parede ficava quase oculta por um pote de gua
sem boca.
     Havia naquele recinto uma espcie de sossego medonho e ameaador.
Sentia-se ali a expectativa de alguma coisa espantosa.
     Jondrette deixara apagar o cachimbo grave sinal de preocupao e sentara-se.
A claridade da vela tornava-lhe salientes os ngulos ferozes e acentuados do rosto.
De vez em quando enrugava as sobrancelhas e estendia a mo direita, como se
respondesse aos ltimos conselhos do sombrio monlogo interior. Nestas
sombrias rplicas que dava a si mesmo, puxou vivamente para si a gaveta da mesa
e tirou dela uma comprida faca de cozinha, que ali estava oculta e cujo gume
experimentou numa unha Feito isto, tornou a guardar a faca e fechou novamente
a gaveta.
     Mrio, pela sua parte, levou a mo  pistola que tinha no bolso direito, puxou
por ela e armou-a.
     O engatilhar da pistola produziu um estalinho seco e claro.
     Jondrette estremeceu e quase se levantou de todo da cadeira - Quem est a? -
gritou ele Mrio suspendeu a respirao e Jondrette aplicou o ouvido por um
instante, depois disse, rindo:
     - Que estpido!  o tabique a estalar.
     Mrio conservou-se com a pistola engatilhada na mo.



    XVIII
    As duas cadeiras de Mrio em frente uma da outra



     De sbito abalou as vidraas a longnqua e melanclica vibrao de um sino.
     Soavam seis horas no relgio de Saint-Mdard.
     A cada badalada fazia Jondrette um movimento com a cabea,
acompanhando-a Apenas se perdeu no espao o eco da sexta, espevitou a vela
com os dedos e principiou a passear pelo quarto, parando a intervalos para escutar
se do corredor vinha algum rumor.
     - O que falta agora  se ele no vem - resmungou, tornando a sentar-se.
     Mal, porm, acabara de sentar-se, abriu-se a porta.
     Abrira-a a mulher de Jondrette, que se conservava no corredor, fazendo uma
carantonha horrivelmente prazenteira, que um dos buracos da lanterna de
furta-fogo de baixo alumiava - Faa favor de entrar - disse ela.
      - Faa favor de entrar, meu benfeitor!  repetiu Jondrette, levantando-se
precipitadamente.
      O senhor Leblanc apareceu ento com um ar de serenidade que o tornava
singularmente venerando e, dirigindo-se para a mesa, deps nela quatro luzes,
dizendo:
      - Senhor Fabantou, aqui tem para o aluguer e para as primeiras necessidades.
L para diante, veremos.
      - O senhor o encha de mil bens, meu generoso protector! - disse Jondrette, e
acrescentou em voz baixa a sua mulher, aproximando-se dela rapidamente: -
Manda o carro embora!
      A mulher saiu sorrateiramente, enquanto seu marido fazia cortesias sobre
cortesias ao senhor Leblanc e lhe oferecia uma cadeira; um instante depois, ela
voltou e disse baixo ao ouvido de Jondrette: - Pronto.
      To espessa era nas ruas a camada de neve, a qual desde pela manh no
cessara de cair, que nem se ouvira chegar o carro nem partir.
      Quando a mulher de Jondrette entrou, o senhor Leblanc tinha-se sentado e
Jondrette tomara posse da cadeira fronteira.
      Agora, para se fazer ideia das cenas que se vo seguir, imagine-se uma noite
fria, as solides de Salptrire cobertas de neve, destacando-se como mortalhas
imensas ao plido claro da Lua e ao bao e trmulo bruxulear dos lampies, que
reflectiam uma luz avermelhada sobre aqueles lugares sinistros, eriados de
compridas alas de olmos escuros, sem se ver um nico transeunte talvez num
quarto de lgua em redor; imagine-se o casaro Gorbeau na hora de mais
profundo silncio, de maior horror e escurido, e no meio daquelas solides, no
meio daquelas trevas, a vasta mansarda de Jondrette alumiada por uma vela, e
naquela pocilga dois homens sentados em frente um do outro, o senhor Leblanc
sereno, Jondrette risonho e horrvel, a loba me a um canto, e oculto por trs do
tabique, Mrio, invisvel, de p, sem perder uma s palavra, sem perder um s
movimento, com o olho  espreita e a pistola na mo.
      Mrio experimentava,  verdade, uma emoo de horror, porm nenhuma de
receio. Apertava a coronha da pistola e sentia-se tranquilizado.
      Est na minha ano fazer sustar aquele miservel quando eu quiser! dizia
ele consigo.
      Se bem que no a visse, como que sentia a presena da polcia de emboscada
algures, esperando o sinal convencionado e pronta a estender o brao.
    Esperava, porm, que daquele violento encontro do senhor Leblanc com
Jondrette alguma luz se reflectiria sobre aquilo que ele tinha interesse em
conhecer.



    XIX
    Preocupaes por causa de certos mistrios



     Apenas o senhor Leblanc se sentou, deitou os olhos para as duas camas vazias
e perguntou:
     - Como est a pobre criancinha que se feriu na mo?
     - Mal - respondeu Jondrette, com um sorriso triste e cheio de gratido -
muito mal, meu digno senhor! A irm foi com ela ao hospital. Mas se as quiser
ver, elas no tardam.
     - A senhora Fabantou parece-me agora melhor - tornou Leblanc, lanando a
vista ao singular vesturio da mulher de Jondrette, que, postada entre ele e a porta
como se lhe estivesse guardando a sada, o contemplava em atitude ameaadora e
com ar de desafio.
     - Oh, senhor! Aquilo anda mesmo a cair! Mas que quer? Tem um nimo
como eu ainda no vi, aquilo no  mulher,  um boi!
     A mulher, comovida com o cumprimento, exclamou com denguice de
monstro lisonjeado:
     - s sempre bondoso para comigo, Jondrette!
     - Jondrette!? - exclamou o senhor Leblanc.  No me disse que se chamava
Fabantou?
     - Fabantou ou Jondrette  tudo a mesma coisa - replicou o marido
rapidamente.
     - Alcunha de artista!
     E lanando a sua mulher um olhar furibundo, que o senhor Leblanc no viu,
prosseguiu com uma inflexo de voz simptica e carinhosa: - Ah, graas ao
Senhor, temos sempre vivido na maior paz e unio! Eu e ela podemo-nos dizer o
modelo dos bem casados! Tambm, se no fosse isto, que nos restava ento? S
Deus sabe at onde chega a nossa desgraa, meu respeitvel senhor!
     Quer a gente trabalhar e no tem em que ganhar a triste vida! No sei l como
o governo arranja estas coisas, mas o que sei e digo isto como quem se confessa,
porque eu nem sou jacobino, nem revolucionrio, nem quero mal a ningum o
que eu sei  que, se fosse ministro, o negcio havia de correr de outro modo, essa
lhe juro eu! Ora veja o senhor por exemplo, o que me aconteceu com as pequenas,
a quem eu queria mandar ensinar o ofcio de fazer caixas de papelo. O senhor
talvez diga: um ofcio!
     Sim, senhor, um ofcio, um modo de vida! Ao que ns chegmos, meu
benfeitor! Que degradao a nossa, depois de havermos sido o que fomos!
Infelizmente, nada nos resta do nosso tempo de prosperidade! Apenas uma nica
coisa, um quadro que eu estimava imenso, mas de que, enfim, no tenho remdio
seno desfazer-me, porque  preciso viver! Sim,  preciso viver!
     Enquanto Jondrette assim falava com uma espcie de aparente desordem, em
que nada lhe desfalcava a sagaz e reflectida expresso da fisionomia, Mrio olhou
e avistou no fundo do quarto algum que ele ainda no tinha visto. Era um
homem que acabava de entrar, porm to sorrateiramente, que nem se ouviu
ranger a porta. Trazia um colete de malha, roxo, velho, roto, cheio de ndoas e de
buracos em cada dobra que fazia, umas largas calas de veludilho, uns tamancos
nos ps, sem camisa, o pescoo nu, os braos nus e pintados, e a cara enfarruscada.
     Sentou-se silenciosamente em cima de uma das camas, cruzando os braos,
de modo que mal se via, oculto por trs da mulher de Jondrette.
     O senhor Leblanc, por essa espcie de instinto magntico que avisa o olhar,
voltou-se quase ao mesmo tempo que Mrio e no pde esquivar-se a um
movimento de surpresa, que no escapou a Jondrette.
     - Ah! O senhor est a olhar para o sobretudo que fez a esmola de me dar? -
disse ele, abotoando-se com ar de complacncia. - Parece que foi feito para mim!
     - Quem  aquele homem? - perguntou o senhor Leblanc.
     - Quem? - exclamou Jondrette. - Ah!  um vizinho! No faa caso.
     O vizinho tinha um singular aspecto. No arrabalde de S. Marcai, porm,
abundam as fbricas de produtos qumicos, e por isso bem podia haver muitos
operrios com a cara enfarruscada. Alm disto, o rosto do senhor Leblanc
respirava uma confiana cndida, mas intrpida.
     Tornou, portanto:
     - Perdo, o que  que me ia dizendo, senhor Fabantou?
     - Dizia-lhe, meu caro protector - prosseguiu Jondrette, encostando os
cotovelos  mesa e contemplando o senhor Leblanc com uns olhos fitos e ternos,
muito semelhantes aos de uma jibia - dizia-lhe que tenho um quadro para
vender.
     Nisto sentiu-se um ligeiro rudo do lado da porta. Acabava de entrar outro
homem, que se sentara na cama, por trs de Jondrette. Como o primeiro, tinha os
braos nus e no rosto uma mascarra de tinta ou de fuligem da chamin.
     Conquanto este tivesse, para assim dizer, escorregado para dentro do casaro,
no o fizera de modo que no fosse notado pelo senhor Leblanc.
     - No faa caso - disselhe Jondrette. - So tudo moradores do prdio. Ia-lhe,
pois, dizendo, que me resta um quadro precioso... Olhe o senhor, veja... E,
levantando-se, foi direito  parede em cuja base estava encostada a espcie de
porta de que falmos e voltou-a, deixando-a contudo apoiada na parede.
     Era, com efeito, uma coisa que se assemelhava a um quadro e que a luz da
vela quase iluminava de todo. Mrio no podia ver bem, por isso que Jondrette
estava colocado entre ele e o quadro; apenas entrevia umas borradelas grosseiras e
uma espcie de personagem principal, colorido com a ruidosa crueza dos panos
de feira e das pinturas de um balco.
     - O que  isso? - perguntou o senhor Leblanc.
     Jondrette exclamou:
     -  uma pintura de mestre, meu benfeitor, um quadro de grande preo.
Quero-lhe tanto como a minhas filhas, porque me aviva as recordaes! Mas j o
disse e no me desdigo; sou to desgraado que no terei remdio seno
desfazer-me dele...
     Ou por acaso, ou porque houvesse algum comeo de inquietao, os olhos do
senhor Leblanc, mesmo examinando o quadro, voltaram-se como que
involuntariamente para a porta do casaro. Estavam ali quatro homens, trs
sentados, sobre a cama e um de p, encostado  ombreira da porta, todos quatro
de braos nus, imveis e com os rostos mascarados Um dos que estavam sentados
na cama tinha a cabea encostada  parede e os olhos fechados, dir-se-ia que
dormitava. Este era j velho; os cabelos brancos sobre o rosto negro eram
horrveis Os outros dois pareciam moos; um tinha grandes barbas, o outro
grande cabeleira. Nenhum deles possua sapatos; os que no tinham chinelos
estavam descalos Jondrette notou que o senhor Leblanc no perdia os homens de
vista.
     - So todos vizinhos e amigos - disse ele.  Esto assim mascarrados, porque
trabalham com carvo. So fogueiros. No se incomode por causa deles, meu
benfeitor, mas compre-me o meu quadro. Condoa-se da minha misria. No o
venderei caro. Em quanto o avalia?
     - Isso - disse o senhor Leblanc, olhando para Jondrette de frente e como
quem se pe em guarda -  uma tabuleta de alguma taberna, que vale bem trs
francos.
     Jondrette respondeu com a maior doura:
     - Tem consigo a sua carteira? Contentar-me-ei com mil escudos.
     O senhor Leblanc levantou-se, encostou-se  parede, e lanou rpido volver
de olhos por todo o recinto. Tinha Jondrette  sua esquerda, do lado da janela, e a
mulher e os quatro homens  direita, do lado da porta. Os quatro homens no se
moviam, nem mesmo davam mostras de o ver. Jondrette voltara a falar num tom
to queixoso, com olhar to vago e com uma entonao to lamentosa, que o
senhor Leblanc poderia julgar ter simplesmente diante de si um homem que
endoidecera  fora da misria.
     - Se o senhor me no compra o meu quadro, meu benfeitor, fico sem o
mnimo recurso, e s me resta lanar-me ao rio. J quis mandar as minhas filhas
aprender a fazer cartonagens, as caixas para amndoas. Mas para isso  preciso
uma mesa com uma tbua num dos extremos, para que os vidros no caiam no
cho,  preciso um fornilho prprio, um vaso com trs compartimentos, para os
diferentes graus de fora que deve ter o grude conforme se emprega na madeira,
no papel, ou em tecidos; um trinchete para cortar carto, um molde para lhe dar
forma, um martelo para pregar os cantos de ao, e pincis e o diabo! Eu sei c! E
tudo isto para ganhar quatro soldos por dia, com catorze horas de trabalho! E
cada caixa passa treze vezes pelas mos das operrias! Molhar o papel, no deixar
a mais pequena mancha, conservar o grude quente; enfim, como j lhe disse, o
diabo! E quatro soldos por dia! Como quer o senhor que se viva assim?
     Jondrette enquanto falava no olhava para o senhor Leblanc, que no deixava
de o observar. Os olhos do senhor Leblanc estavam fitos em Jondrette, e os deste
na porta.
     A ateno palpitante de Mrio, caminhava sem cessar de um para o outro. O
senhor Leblanc parecia perguntar a si mesmo: Ser um idiota?
     Jondrette repetiu duas ou trs vezes, com toda a espcie de variadas inflexes,
no gnero arrastado e suplicante: - S me resta lanar-me ao rio! J um destes dias
desci trs degraus para o fazer, l para o lado da ponte de Austerlitz!
     De repente, as suas pupilas iluminaram-se com hediondo relampaguear, o
homem de pequena estatura endireitou-se e tornou-se medonho, deu um passo
para o senhor Leblanc e disselhe com voz estrondosa.
     - Mas no  de nada disto que se trata! No me conhece?
    XX
    A cilada



     A porta da mansarda acabava de se abrir violentamente, deixando ver trs
homens de blusas de zuarte e com os rostos ocultos por mscaras de papel preto.
     O primeiro era magro e tinha na mo um comprido cacete emponteirado; o
segundo, espcie de colosso, segurava pelo meio um cabo de uma grande choupa
de abater os bois. O terceiro, homem de largos ombros, menos magro que o
primeiro, menos macio que o segundo, empunhava uma enorme chave, roubada
decerto da porta de alguma priso.
     Parecia que era a chegada destes homens o que Jondrette esperava. No
mesmo instante travou-se entre este e o homem magro do cacete, rpido dilogo:
- Est tudo pronto? - perguntou Jondrette.
     - Tudo - respondeu o homem magro.
     - Onde est Montparnasse?
     - Ficou a falar com tua filha.
     - Qual delas?
     - A mais velha.
     - Est l em baixo algum carro?
     - Est.
     - Capoeira aparelhada?
     - Sim.
     - Com bons cavalos?
     - Excelentes.
     - Espera onde eu disse que esperasse?
     - Sim - Bem - tornou Jondrette.
     O senhor Leblanc estava demasiadamente plido. Olhava para todo o covil,
em torno de si, como quem compreende onde se acha; e a sua cabea,
sucessivamente voltada para todas as cabeas que o rodeavam, movia-se-lhe sobre
o pescoo com um vagar atento e admirado, mas sem que se lhe notasse em todo o
aspecto coisa alguma que se assemelhasse a medo. Fizera da mesa uma trincheira
improvisada; e aquele homem, que momentos antes no parecia mais do que um
bom velho, tornara-se de sbito uma espcie de atleta, apoiando a robusta mo
nas costas da cadeira, com um gesto temvel e surpreendente.
     Aquele velho, to firme e com tanta bravura diante de to grande perigo,
parecia ter uma natureza das que so corajosas pelo mesmo modo que so
bondosas, natural e simplesmente. O pai de uma mulher a quem se ama, no pode
ser nunca por ns um estranho. Mrio sentiu-se altivo pelo aspecto do
desconhecido Trs dos homens que Jondrette dissera serem fogueiros, tinham
tirado do grande monto de ferros uma grande tesoura de cortar metal, outro,
uma tenaz e o terceiro um martelo, e haviam-se colocado  entrada da porta, sem
pronunciarem uma s palavra.
      O velho deixara-se ficar sobre a cama e limitara-se unicamente a abrir bem os
olhos. A mulher de Jondrette sentara-se ao lado dele.
      Mrio julgou que dentro de alguns segundos chegaria o momento de intervir,
e levantou a mo direita para o tecto na direco do corredor, pronto a disparar o
tiro.
      Jondrette, terminado o seu colquio com o homem do cacete, voltou-se
novamente para o senhor Leblanc e repetiu a pergunta, acompanhando-a com um
riso baixo, comprimido e terrvel: - Ento no me conhece?
      O senhor Leblanc respondeu, encarando-o:
      - No.
      Jondrette dirigiu-se ento para a mesa. Curvou-se por sobre a luz, cruzando
os braos, aproximando o queixo anguloso e feroz do rosto sereno do senhor
Leblanc, avanando o mais que podia, sem que este recuasse, e nesta posio de
animal bravio pronto a morder, exclamou.
      - No me chamo Fabantou nem Jondrette, o meu nome  Thenardier. Sou o
estalajadeiro de Montfermeil! Percebeu bem? Chamo-me Thenardier!
Conhece-me agora?
      Imperceptvel rubor passou em seguida pela fronte do senhor Leblanc, o qual
respondeu, sem que a voz lhe tremesse, sem que a elevasse e com a sua ordinria
placidez: - Tanto como h bocado.
      Mrio no ouvira esta resposta. Quem o pudesse observar naquele momento
no meio da escurido, v-lo-ia desorientado, estpido e fulminado. Quando
Jondrette dissera: Chamo-me Thenardier, sentira Mrio violento estremecimento
e encostara-se  parede, como se sentisse o frio da folha de uma espada
atravessando-lhe o corao.
      Depois, o brao direito, prximo a desfechar o tiro de sinal, baixara-se
vagarosamente, e no momento em que Jondrette repetira: Percebe bem?
Chamo-me Thenardier!, estiveram os dedos desfalecidos a ponto de largar a
pistola. Jondrette declarando quem era, no abalara o senhor Leblanc, mas
transformara Mrio.
     Aquele nome de Thenardier que o senhor Leblanc mostrava no conhecer,
era muito conhecido de Mrio. Lembremo-nos o que um tal nome era para ele:
Aquele nome, trouxera-o sobre o corao escrito no testamento de seu pai!
Trazia-o no mago do pensamento, no mago da memria, nesta recomendao
sagrada: Foi um tal Thenardier quem me salvou a vida. Se meu filho o encontrar,
far-lhe- todo o bem que puder. Este nome, devem lembrar-se, era uma das
religies da sua alma; no seu culto aliava-se sempre o nome de seu pai. O qu!
Pois estava ali aquele Thenardier, aquele estalajadeiro de Montfermeil, que ele
tinha por tanto tempo e to inutilmente procurado! Achava-o enfim; mas como!
O salvador de seu pai era um bandido! O homem a quem Mrio morria por se
dedicar, era um monstro! O libertador do coronel Pontmercy preparava-se para
cometer um atentado de que Mrio no via ainda distintamente a forma, mas que
se assemelhava a um assassnio! E contra quem, grande Deus! Que fatalidade! Que
amargo sarcasmo da sorte! Seu pai ordenara-lhe do fundo do tmulo que fizesse
todo o bem possvel a Thenardier; havia quatro anos que no tinha outra ideia que
no fosse salvar a dvida paterna e no momento em que devia avisar a justia para
se apoderar dum celerado em aco de cometer um crime, gritava-lhe o destino: 
Thenardier! A vida de seu pai salva de um granizo de metralha no campo herico
de Waterloo, ia enfim pag-la quele homem e pagar-lha com o patbulo!
Prometera a si mesmo, se alguma vez se lhe deparasse aquele Thenardier, de no
se aproximar seno lanando-se-lhe aos ps; achara-o, com efeito, mas para o
entregar ao carrasco! Socorre Thenardier!, bradava-lhe o pai; e ele respondia a
esta voz adorada, esmagando; dando por espectculo a seu pai no tmulo, o
homem que arrancara a morte com risco da prpria vida, executado na praa de S.
Jacques, por interveno de seu filho, do mesmo Mrio a quem ele o legara! E que
irriso no era, trazer por tanto tempo sobre o corao as ltimas vontades de seu
pai, escritas pela sua mo, para fazer to indignamente o contrrio! Mas por outro
lado, assistir a uma tal cilada e no o impedir! O qu! Condenar a vtima e poupar
o assassino! Podia acaso haver lembrana de reconhecimento para com
semelhante miservel? As ideias que preocupavam Mrio, havia quatro anos,
achavam-se todas como que atravessadas de lado a lado por aquele inesperado
golpe. Sentia-se estremecer. Era de si que tudo dependia. Sem que eles o
suspeitassem, tinha na sua mo todos os entes que se lhe agitavam diante dos
olhos. Se disparasse a pistola estava o senhor Leblanc salvo e Thenardier perdido;
se no disparasse seria o senhor Leblanc sacrificado, e, quem sabe?, Thenardier
salvo! Precipitar um ou deixar despenhar-se o outro: remorsos de ambos os lados!
O que deveria fazer? Qual dos lados escolheria? Faltar s mais imperiosas
recordaes, a tantas promessas feitas a si mesmo, ao dever mais sagrado, ao mais
venerando dos textos! Faltar s prescries testamentrias de seu pai, ou deixar
consumar um crime! Parecia-lhe ouvir de um lado, a sua rsula suplicar-lhe
por seu pai; do outro o coronel recomendando-lhe Thenardier. Parecia-lhe que
perdia a razo.
     Os joelhos dobravam-se-lhe; nem mesmo tinha tempo para se decidir, tal era
a fria com que se precipitava a cena que estava presenciando. Era como um
turbilho de que se julgara senhor e que o arrebatava.
     Esteve a ponto de desfalecer.
     Entretanto, Thenardier, por cujo nome o denominaremos daqui em diante,
girava de um para o outro lado, na frente da mesa, numa espcie de
desvairamento e de frentico triunfo. Pegou no castial e p-lo sobre a chamin
com tal fora, que a vela quase se apagou, salpicando a parede de sebo derretido.
     Depois voltou-se com gesto iracundo para o senhor Leblanc e soltou esta
imprecao:
     - Hs-de ser feito em postas, retalhado e espatifado, velho miservel!
     E continuou a andar de um para outro lado, em estado de plena exploso.
     - At que enfim o encontrei, senhor filantropo! - exclamou ele. - Senhor
milionrio com fato de mendigo, que faz presentes de bonecas. Ah, no me
conhece, velho tonto! No esteve em Montfermeil, na minha estalagem, h oito
anos, na noite de Natal de 1823? No foi o senhor que me levou de casa a filha de
Fantine, a Cotovia?
     No era o senhor que tinha um casaco amarelo e uma trouxa de farrapos na
mo, como esta manh quando entrou aqui? Dize se  assim ou no, mulher!
Parece que tem a mania de levar a todas as casas trouxas de meias de l, o velho
caridoso! Ser fanqueiro, senhor milionrio?! D ento aos pobres os gneros do
seu comrcio, o santo homem! Com que ento no me conhece? Pois eu
conheo-o muito bem! Reconheci-o logo que aqui meteu o nariz. Agora  que se
vai ver que nem tudo so rosas! No  mais do que entrar nas casas da gente, sob
pretexto de que so estalagens, com fato de meter d, com tal ar de mendigo que
qualquer lhe daria esmola, enganar as pessoas, fazer de generoso, tirar-lhes o seu
ganha-po, fazer ameaas nas matas e querer ficar quite, por nos trazer depois,
quando a gente est na penria, um casaco muito largo e dois reles cobertores do
hospital! Velho tratante! Ladro de crianas!
     Thenardier calou-se e pareceu por um momento falar consigo mesmo.
Dir-se-ia que o seu furor cara, como o Rdano, em alguma caverna; depois, como
se terminasse em voz alta o que acabara de dizer s para si, deu um murro na
mesa e exclamou: - Com este ar de bonacheiro!
     E continuou apostrofando o senhor Leblanc:
     - Na verdade! Da outra vez riu-se  minha custa!
     O senhor  a causa de todas as minhas desgraas! Por mil e quinhentos
francos ficou com uma rapariga que eu tinha em meu poder e que pertencia, 
certo, a gente rica; rapariga que me tinha produzido muito dinheiro e que me
havia de produzir com que viver toda a vida! Uma rapariga que me havia de
indemnizar de tudo o que perdi naquela abominvel baiuca, onde se faziam
motins esterlinos, e onde eu comi como um imbecil tudo quanto tinha! A minha
vontade era que todo o vinho que se bebeu em minha casa se transformasse em
veneno para aqueles que o beberam! Enfim, o que l vai, l vai! Mas diga-me c: o
senhor havia de achar-me muito ridculo, quando se safou com a Cotovia! Tinha
deixado o cajado escondido na mata. Era portanto o mais forte no jogo. Agora
quero a desforra. Hoje tenho eu os trunfos! Desta vez est fisgado!
     Sou eu que ri, e rio-me deveras! Como ele caiu na rede! Tinha-lhe dito que
era actor, que me chamava Fabantou, que representara com Mademoiselle Mars,
com Mademoiselle Muche, que o meu senhorio queria ser pago amanh, 4 de
Fevereiro, e nem se lembrou que  a 8 de Janeiro que acabam os arrendamentos e
no a 4 de Fevereiro! Absurdo cretino! E traz-me ento estes quatro Filipes de m
monte! Canalha! Nem teve alma de chegar aos cem francos! E como ele engolia as
minhas patranhas! Era uma coisa que me divertia! Mas ento dizia eupara comigo:
Filei-te, meu seresma! De manh lambi-te as patas!  noite hei-de roer-te o
corao!
     Thenardier calou-se. Estava esbaforido. Sentia-se-lhe roncar o acanhado peito
como um fole de ferreiro. Nos olhos lia-se-lhe o ignbil prazer duma criatura
fraca, cruel e cobarde, que consegue enfim aniquilar quem temeu e insultar quem
lisonjeou; a alegria dum ano que pusesse o p sobre a cabea de Golias; a alegria
do chacal que comea a devorar um touro enfermo, assaz morto para no poder j
defender-se, assaz vivo para sofrer ainda.
     O senhor Leblanc no o tinha interrompido, mas disselhe apenas ele se calou:
     - No percebo o que quer dizer. O senhor est decerto enganado. Eu no sou
milionrio, sou um homem pobre e no o conheo, ao senhor que infalivelmente
me toma por outro.
     - Que boa tbua de salvao! - disse Thenardier com uma voz que parecia
entrecortada pelo estertor. - No quer deixar o gracejo! Est mesmo patinhado!
No v quem eu sou!
     - Perdo - respondeu o senhor Leblanc, num tom de civilidade, que em
semelhante momento tinha o que quer que era de estranho e poderoso - o que
vejo  que o senhor  um ladro!
     Quem h que o no tenha notado? Os entes odiosos so susceptveis, os
monstros so melindrosos.
     A este nome de ladro, a mulher de Thenardier saltou abaixo da cama e o
marido pegou na cadeira, como se a quisesse esmigalhar entre as mos.
     - No te mexas da! - gritou ele para a mulher; e em seguida voltou-se para o
senhor Leblanc: Ladro! Sim, bem sei que  como nos chamam vocs, os ricos!
Vejam l!  verdade que fali e agora escondo-me, no tenho po nem dinheiro,
sou um ladro!
     Sou ladro e no como h trs dias! Os senhores tm os ps quentes, porque
possuem chinelos de Sakaski, casacos enchumaados, como os arcebispos, moram
nos primeiros andares de casas com porteiros, comem trufas e espargos a
quarenta francos o molho, no ms de Janeiro, e magnficas ervilhas; gabam-se de
tudo isto, e quando querem saber se faz frio, vem no peridico at onde desceu o
termmetro do engenheiro Chevalier. Ns! Ns  que somos os termmetros! Ns
no precisamos ir ao cais para ver na esquina da torre do Relgio quantos so os
graus de frio, sentimos o sangue coalhar-se-nos nas veias, gelar-se-nos o corao,
e dizemos ento que no h Deus! E no fim vm s nossas cavernas para nos
chamarem ladres! Mas calem-se, que os havemos de comer! Devor-los-emos,
pobres pequenos! Repare no que lhe vou dizer, senhor milionrio: eu j fui um
homem estabelecido, tive carta patente e fui eleitor; sou um burgus e o senhor
talvez o no seja!
     Chegando a este ponto, Thenardier deu um passo para os homens que
estavam ao p da porta e acrescentou com um estremecimento: - Quando me
lembro que teve a lembrana de me vir falar, como se eu fosse um remendo!
     Depois dirigiu-se novamente ao senhor Leblanc, com recrudescncia de
frenesi:
     - E saiba ainda mais senhor filantropo! Olhe que no sou nenhum vesgo, eu!
No sou homem de quem se no saiba o nome e que ande roubando crianas
pelas casas alheias! Sou um ex-soldado francs, que deveria ter sido condecorado!
Estive em Waterloo, salvei na batalha um general chamado conde de Pontmercy!
Sabe o que representa esse quadro que a est vendo e que foi pintado por David
em Bruqueselles?
     Representa este seu criado. Foi um feito de armas que David quis imortalizar.
     Representa-me com o general Pontmercy s costas, levando-o atravs da
metralha.
     Aqui tem a histria! E olhe que o tal general nunca fez coisa alguma em meu
favor; valia tanto como os outros, mas nem por isso deixei de lhe salvar a vida
arriscando a minha, do que tenho um bolso cheio de atestados! Sou um soldado
de Waterloo, com trezentos milhes de diabos! E agora que j tive a bondade de
lhe dizer tudo isto, acabemos aqui; preciso de dinheiro, muito dinheiro, e ou o
senhor mo pe para aqui, ou lhe dou cabo da pele, com trezentos mil raios!
     Mrio tinha dominado um pouco a sua agitao e escutava. A ltima
possibilidade de dvida acabava de se desvanecer. Era com efeito o Thenardier de
que falava o testamento! Mrio estremeceu ouvindo acusar seu pai de ingratido,
acusao que ele estava a ponto de justificar to fatalmente. A sua perplexidade
redobrou.
     No fim de tudo, havia em todas as palavras de Thenardier, no tom, no gesto,
no olhar, que fazia brotar fascas de cada uma das palavras daquela exploso de
uma m natureza, mostrando-se completamente naquela mistura de fanfarronada
e abjeco, naquele caos de agravos reais e de sentimentos falsos, naquela falta de
pudor de um homem mau saboreando a voluptuosidade da violncia, naquela
descarada nudez de uma alma feia, naquela conflagrao de todos os sentimentos
combinados com todos os dios, o que quer que era do hediondo como o mal e de
pungente como a verdade.
     O quadro de mestre, a pintura de David cuja compra propusera ao senhor
Leblanc, no era, como o leitor logo adivinhou, seno a tabuleta da baiuca,
pintada, como se deve lembrar, pelo prprio Thenardier, nico fragmento que
ainda conservava do naufrgio de Montfermeil.
     Como Thenardier cessara de interceptar o raio visual de Mrio, podia j este
contemplar o objecto de que se tratava, divisando com efeito um monto de
borres, uma batalha, um fundo de fumo e um homem com outro s costas. Era o
grupo de Thenardier e de Pontmercy; o sargento salvador e o coronel salvo. Mrio
estava como que embriagado. Aquele quadro restitua, de certo modo, a vida a seu
pai; no era a tabuleta da taberna de Montfermeil, era uma ressurreio, um
tmulo entreaberto, um fantasma que se erguia. Mrio sentia o corao tinir-lhe
nas fontes, tinha nos ouvidos o estampido da artilharia de Waterloo; a imagem de
seu pai ensanguentado e vagamente esboado no sinistro quadro, assustava-o, e
parecia-lhe que aquela sombra informe no afastava dele os olhos.
     Depois de tomar flego, Thenardier fitou os olhos sanguinrios no senhor
Leblanc e disselhe em voz baixa e breve: - O que tem a dizer antes que o faam
tisnar?
     O senhor Leblanc no respondeu. No meio deste silncio ouviu-se uma voz
roufenha lanar do corredor este lgubre sarcasmo: - Se  preciso rachar lenha, c
estou presente Era o homem da corda, divertindo-se.
     Ao mesmo tempo apareceu  porta um enorme rosto eriado e terroso,
deixando ouvir um medonho riso, que mostrava no dentes, mas arpus.
     Era o rosto do homem da corda.
     - Para que diabo tiraste a mscara? - gritou-lhe Thenardier enfurecido.
     - Para rir - respondeu o homem.
     Desde alguns instantes que o senhor Leblanc parecia espiar todos os
movimentos de Thenardier, o qual, cego e deslumbrado pela sua prpria raiva
girava no covil de um para outro lado, com a confiana que lhe inspirava o modo
porque tinha guardada a porta, o ter em sua mo um homem desarmado, estando
ele armado, e o serem nove contra um, supondo a mulher contada por um s
homem. Thenardier como dizamos, na ocasio em que dirigira a sua apstrofe ao
homem da corda, voltara as costas ao senhor Leblanc.
     Este, aproveitando a ocasio, deu um pontap na cadeira, empurrou a mesa e,
dando um salto com to pasmosa agilidade que Thenardier nem sequer teve
tempo de se voltar, achou-se ao p da janela. Abri-la e passar uma perna para fora
do parapeito, foi obra de um segundo; mas estava j quase todo fora, quando foi
agarrado por seis pulsos robustos que o puxaram energicamente para o covil.
Eram os trs fogueiros, que se haviam lanado a ele. Ao mesmo tempo,
Thenardier deitara-lhe as mos aos cabelos.
     Ao rudo produzido por esta cena, acudiram os malfeitores que se achavam
no corredor. O velho que estava sobre a cama e que parecia embriagado, desceu
para o cho e aproximou-se tambm, cambaleando, com um martelo em punho
Um dos fogueiros, do qual a vela alumiava o rosto mascarado e em quem
Mrio, apesar das mscaras, reconheceu Panchaud, conhecido por Printanier e
por Bigrenaille, conservava erguida sobre a cabea do senhor Leblanc uma espcie
de maa composta de uma barra de ferro com duas bolas na extremidade.
     Mrio no pde resistir a este espectculo.
     Perdoa-me, meu pai! disse ele para si, e procurou com o dedo o gatilho da
pistola.
     Ia j a disparar, quando Thenardier gritou:
     - No lhe faam mal!
     Esta tentativa desesperada da vtima, longe de exasperar Thenardier, havia-o
tranquilizado. Thenardier continha dois homens distintos: um feroz, outro sagaz.
At quele momento, no arrebatamento do triunfo, na presena da presa abatida e
imvel, dominara o homem feroz; quando a vtima se debateu e deu mostras de
querer lutar, reapareceu o homem sagaz e predominou.
     - No lhe faam mal! - repetiu ele; e o primeiro resultado deste seu grito, sem
que ele sequer o suspeitasse, foi fazer sustar o tiro, prestes a partir, e paralisar o
movimento de Mrio que, ao ver a nova fase que as coisas tomavam, no viu
inconveniente em continuar a esperar. No podia surgir de repente alguma
probabilidade que o livrasse da terrvel alternativa de deixar morrer o pai de
rsula, ou de deitar a perder o salvador do coronel?
     Travara-se uma luta herclea. O senhor Leblanc atirara com o velho ao cho,
dando-lhe um tremendo murro no peito, depois derrubara dois dos outros
assaltantes, e conservava um debaixo de cada joelho; os miserveis sufocavam sob
aquela presso como sob uma rocha de granito, mas os quatro restantes haviam
segurado o terrvel velho pelos braos e pela nuca e mantinham-no acocorado
sobre os dois fogueiros prostrados. Assim, o senhor Leblanc, senhor de uns e
dominado pelos outros, esmagando os que tinha debaixo de si e quase esmagado
pelos que o seguravam, sacudindo inutilmente todos os esforos que se
amontoavam sobre ele, mal se via sob o grupo horrvel dos malfeitores, qual javali
sob uivante matilha de ces de fila e de sabujos.
     Conseguiram, por fim, deit-lo na cama mais prxima da janela e ali o
conservaram em respeito. A Thenardier no lhe largara os cabelos.
     - Tu - disselhe o marido - no te metas onde no s chamada. Safa-te daqui!
     A Thenardier obedeceu, como a loba obedece ao lobo, rosnando, - Vocs
apalpem-no! - continuou Thenardier.
     O senhor Leblanc parecia ter renunciado  resistncia.
     Apalparam-no. No tinha consigo seno uma bolsa de coiro contendo seis
francos e o leno de assoar.
     Thenardier meteu o leno na sua algibeira.
     - O qu! Pois no tem carteira? perguntou ele.
     - Nem relgio - respondeu um dos fogueiros.
     -  o mesmo - murmurou com voz de ventrloquo o homem mascarado, que
tinha na mo a enorme chave -  um velho intratvel!
     Thenardier foi ao canto da porta e pegou num molho de cordas que lhe
atirou.
     Amarrem-no aos ps da cama disse ele, e deparando com o velho que ficara
estendido e atravessado no meio da casa, com o soco que lhe dera o senhor
Leblanc e que se no movia, perguntou: - O Boulatruelle est morto?
     - No - respondeu Bigrenaille - est bbado.
     - Atirem com ele a para um canto - disse Thenardier.
     Dois dos fogueiros empurraram o bbado com os ps para junto do
monto de ferros.
     - Babet, para que trouxeste tanta gente?  inquiriu Thenardier em voz baixa
ao homem do cacete.  Era escusado.
     - Que querias que eu fizesse? - replicou o homem.
     - Eles quiseram por fora vir todos. O tempo vai pssimo! Faz-se pouco
negcio!
     A cama, para cima da qual os bandidos tinham conseguido atirar o senhor
Leblanc, era uma espcie de leito de hospital, sustentado por quatro grossos ps de
pautoscamente trabalhado. O senhor Leblanc no ofereceu resistncia. Os
bandidos prenderam-no solidamente em p junto da cama mais desviada da
janela e mais prxima do fogo.
     Apertando o ltimo n, Thenardier pegou numa cadeira !e foi sentar-se quase
defronte do senhor Leblanc.
     Thenardier j no parecia o mesmo; dentro de poucos instantes a sua
fisionomia passara da violncia desenfreada  brandura pachorrenta e astuciosa.
Mrio observava aquele homem e custava-lhe a reconhecer naquele seu sorriso,
polido como o de um pretendente, a boca quase bestial que um momento antes
escumava; contemplava com pasmo estpido aquela fantstica e assustadora
metamorfose e experimentava o que experimentaria um homem que visse
transformar-se um tigre em procurador de causas.
     - Senhor... - articulou Thenardier.
     E com um aceno de mos mandou desviar os bandidos que ainda no tinham
largado o senhor Leblanc:
     - Desviem-se um bocado para me deixar conversar com esse senhor.
     Retiraram-se todos para o p da porta e ele continuou:
     - Senhor, no andou bem em querer saltar pela janela, porque podia quebrar
uma perna. Agora, se  do seu agrado, vamos conversar calmamente, e devo
principiar por comunicar-lhe um reparo que eu fiz, e vem a ser que o senhor
ainda no soltou sequer um grito.
     Thenardier tinha razo. Era verdadeira a circunstncia que ele apontava,
embora Mrio no meio da perturbao que o agitava no a tivesse ainda notado.
O senhor Leblanc apenas pronunciara algumas palavras, sem levantar a voz e,
mesmo na ocasio da luta travada com os seis bandidos junto  janela, guardara o
mais profundo e singular silncio.
     Thenardier prosseguiu:
     - Valha-me Deus! O senhor poderia ter gritado que estava a ser atacado por
ladres, coisa que eu no teria podido achar inconveniente, podia pedir socorro.
Que diabo! So coisas que s se dizem nas ocasies prprias; quanto a mim, no
me pareceria mal.  natural que um homem faa alguma bulha quando se v entre
pessoas que lhe no inspiram demasiada confiana. Podia t-lo feito, pois
ningum se lhe oporia. No lhe poriam mordaa, e eu lhe digo porqu.  que esta
casa  completamente surda; tem s esta boa qualidade, mas em suma,sempre 
uma qualidade boa.  um verdadeiro subterrneo. O estampido de uma bomba
que aqui rebentasse, produziria no posto de polcia mais prximo o efeito do
ressonar de um bbado. Uma pea de artilharia aqui no faria mais do que bum! e
uma trovoada faria apenas puf?  uma habitao muito cmoda. Mas, enfim, o
senhor no gritou e foi melhor assim; felicito-o por isso. Agora vou dizer-lhe qual
 a minha concluso, meu caro senhor.
     Quando se grita quem  que aparece? A polcia. E depois da polcia? A justia.
Ora muito bem! O senhor no gritou porque tinha tanto desejo como ns de que
viesse a polcia e a justia.  que h j muito tempo que tenho esta desconfiana o
senhor tem um interesse qualquer em ocultar alguma coisa. Pela nossa parte h o
mesmo interesse.
     Posto isto podemos entender-nos.
     Thenardier, falando deste modo, com os olhos fitos no senhor Leblanc,
parecia querer cravar at ao fundo da conscincia do seu prisioneiro as agudas
pontas que lhe saam das pupilas. Quanto  sua linguagem, impregnada de uma
espcie de insolncia moderada e sonsa, era reservada e quase escolhida; e naquele
miservel, que ainda havia pouco no era mais do que um salteador, pressentia-se
agora o homem que estudara para padre.
     O silncio que o prisioneiro guardara, aquela precauo que ia at ao
esquecimento da vida, aquela resistncia aposta ao primeiro movimento da
natureza, que  soltar um grito, tudo isto,  preciso diz-lo, desde que desafiara a
ateno de Mrio, tornava-se-lhe importuno e causava-lhe penosa admirao.
     A observao to profunda de Thenardier escurecia ainda para Mrio as
espessuras misteriosas sob que se ocultava aquela figura sria e grave, a que
Courfeyrac pusera a alcunha de senhor Leblanc. Mas o homem, quem quer que
era, amarrado com cordas, rodeado de algozes, meio mergulhando, para assim
dizer, numa sepultura, cujo cho lhe ia gradualmente faltando debaixo dos ps,
conservava-se impassvel tanto diante do furor como da brandura de Thenardier,
e Mrio no podia deixar de admirar, num tal momento, aquele rosto to
soberanamente melanclico.
     Era sem dvida uma alma inacessvel ao temor e ignorando o que fosse estar
desorientada. Era um homem dos que dominam o espanto das situaes
desesperadas.
     Por mais extrema que fosse a crise, por mais inevitvel que fosse a catstrofe,
no havia nele o mnimo indcio da agonia do afogado, abrindo debaixo de gua
olhos horrveis.
     Thenardier levantou-se sem afectao, dirigiu-se  chamin, tirou o biombo e
deitou-o em cima da cama que tinha mais prxima. Ficou ento a descoberto o
fogareiro, cheio de brasas ardentes, entre as quais o preso podia ver perfeitamente
o cinzel branco do fogo e semeado em partes de estrelinhas vermelhas.
     Terminada a operao, Thenardier voltou a sentar-se ao p do senhor
Leblanc e prosseguiu:
     - Continuemos ento. Ns podemos entender-nos e arranjar as coisas
amigavelmente. Conheo que fiz mal em me deixar arrebatar, como deixei, h
bocado. Excedime, dizendo coisas que no devia dizer, mas enfim, a gente s vezes
perde a trans-montana e no sabe por onde traz a cabea A est: por o senhor ser
milionrio, disselhe eu, h bocado, que queria dinheiro, muito dinheiro,
muitssimo dinheiro! Isto no eram termos. Jesus! L por ser rico, no deixa de ter
as suas despesas, os arranjos da sua vida; e quem  que os no tem neste mundo?
Eu no o quero desgraar; eu, apesar de tudo, no sou nenhuma sanguessuga. No
sou como certa classe de gente que l por se ver em posio mais vantajosa se
aproveita disso para se fazer fina. Enfim, meu caro senhor, farei um sacrifcio da
minha parte e no pedirei exorbitncias. Bastam-me duzentos mil francos.
     O senhor Leblanc no proferiu uma nica palavra e Thenardier prosseguiu:
     - Bem v que isto no  ser desarrazoado. Eu no sei o estado da sua fortuna,
mas sei que no olha a dinheiro, e que, portanto, um homem to animado de
sentimentos de caridade como o senhor no pode fazer reparo em dar duzentos
mil francos a um pai de famlia que a sua m ventura colocou em Circunstncias
crticas. De certo tambm no vai fora disto, nem to-pouco imagina que eu andei
com todos estes preparativos e que me cansei a organizar e a pr em ordem o meu
plano, que, segundo a declarao destes senhores,  uma coisa realmente
engenhosa e bem concebida para, afinal, lhe pedir um tudo-nada que me chegasse
apenas para ir fazer uma patuscada de carrasco e vitela a casa de Desnoyer! Que
so duzentos mil francos! Ora adeus! To depressa me conte na palma da mo
essa bagatela, eu lhe afiano que fica tudo concludo e que escusa de ter o menor
receio de que ningum lhe tocar nem num cabelo. Porm, dir: Eu no trago
aqui comigo duzentos mil francos. Oh, senhor, acredite que eu no sou to
desarrazoado! Eu tambm no exijo isso. O que eu lhe peo  s que tenha a
bondade de escrever o que eu lhe vou ditar.
     Chegado a este ponto, Thenardier calou-se e depois acrescentou, acentuando
cada uma das palavras e deitando um olhar acompanhado de um sorriso para
onde estava o fogareiro: - Previno-o de que no admito que o senhor no saiba
escrever.
     Faria inveja a um inquisidor o sorriso de Thenardier naquela ocasio.
     Aps aquela observao, Thenardier puxou a mesa para ao p do senhor
Leblanc, abriu a gaveta, da qual tirou um tinteiro, uma pena e uma folha de papel.
A gaveta ficou meia aberta, deixando ver a comprida lmina da faca que dentro
dela luzia, e colocando a folha de papel diante do senhor Leblanc, disse: - Escreva.
     - Como quer que eu escreva, se tenho os braos atados? - respondeu o preso,
falando, enfim, aps o seu aturado silncio.
     -  verdade! Perdo! - acudiu Thenardier.  Tem toda a razo.
     E acrescentou, voltando-se para Bigrenaille:
     - Desprende o brao direito deste senhor.
     Executada a ordem por Panchaud, tambm conhecido pelos nomes de
Printanier e Bigrenaille, Thenardier, ao ver desembaraada a mo direita do preso,
molhou a pena em tinta e apresentou-lha.
     - Meu caro senhor, repare primeiro que est em nosso poder e  nossa inteira
descrio, que nenhumas foras humanas o podem vir arrancar daqui, e que
senti-remos imenso, realmente, vermo-nos obrigados a chegar a desagradveis
extremos. Eu no sei como se chama nem onde mora, mas desde j o previno que
h-de estar preso a at voltar a pessoa que tiver de ir entregar a carta que vai
escrever. Estamos inteirados. Tenha agora a bondade de escrever.
     - O qu? - perguntou o prisioneiro.
     - O que lhe vou ditar.
     O senhor Leblanc pegou na pena e Thenardier principiou a ditar:
     - Minha filha... O preso estremeceu e ergueu os olhos para Thenardier.
     - Ponha minha querida filha - disse ele.
     O senhor Leblanc obedeceu e ele continuou:
     - Apenas receberes... Porm, chegado aqui, interrompeu-se de novo e disse
para o senhor Leblanc:
     - O senhor trata-a por tu, no?
     - Por tu, a quem? - perguntou o interrogado.
     - Ora, a quem! retorquiu Thenardier.  pequena!
     O senhor Leblanc respondeu sem a menor aparncia de emoo:
     - No sei o que quer dizer.
     -  o mesmo, prossiga - tornou Thenardier, e continuou ditando:
     - Apenas receberes este bilhete, parte imediatamente com a pessoa que o
entregar, que sabe onde eu estou esperando por ti. Mando-te chamar por assim
me ser absolutamente necessrio Podes vir sem receio.
     J o senhor Leblanc tinha acabado de escrever, quando Thenardier lhe disse:
     - No, no; risque o podes vir sem receio, seno ela pode suspeitar que anda a
coisa de que deva desconfiar.
     O senhor Leblanc riscou as trs palavras e Thenardier prosseguiu:
     - Agora queira assinar. Como  que se chama?
     O preso, em vez de responder, pousou a pena e perguntou:
     - Para quem  esta carta?
     - O senhor bem sabe para quem ela   respondeu Thenardier -  para a
pequena.
     Ainda agora lho disse.
     Era evidente que Thenardier evitava nomear a jovem de quem se falava. Dizia
a Cotovia, a pequena, mas no pronunciava o nome dela. Precauo de
homem manhoso que sabe guardar o seu segredo na presena dos seus cmplices.
Declarar o nome seria descobrir o negcio todo e dar-lhes a saber mais do que
era necessrio.
     Thenardier continuou, pois:
     - Queira assinar. Como  o seu nome?
     - Urbane Fabre - disse o prisioneiro.
     Thenardier, com um movimento de gato, meteu a mo no bolso e tirou dele o
leno encontrado no do senhor Leblanc - U. F.  isto mesmo. Urbano Fabre. Bem,
assine U. F.
     O prisioneiro assinou.
     - Como so precisas duas mos para fechar a carta, d-ma que eu a fecho.
     Feito isto, Thenardier continuou:
     - Sobrescrite-a agora  menina Fabre, e o nome da rua. Eu sei que o senhor
mora no muito longe daqui, nos arredores de S. Jacques du Haut-Pas, porque 
onde vai todos os dias ouvir missa; mas no sei qual  a rua. Vejo que compreende
a sua situao. No mentiu com o nome, no mentir com a morada. Escreva-a o
senhor mesmo!
     O prisioneiro conservou-se por um momento pensativo, em seguida pegou
na pena e escreveu:
     - Menina Fabre, em casa do senhor Urbano Fabre, na rua de S. Domingos do
Inferno, nmero 17.
     Thenardier pegou na carta com uma espcie de convulso febril.
     -  mulher! - gritou ele.
     A Thenardier acudiu logo.
     - Aqui est a carta. J sabes o que tens a fazer. L em baixo est um carro. Vai
e volta rapidamente.
     Depois, dirigindo-se ao homem da corda, ordenou:
     - Tu, uma vez que tiraste a mscara, acompanha a burguesa. Irs na traseira
do carro. Sabes onde deixaste a capoeira?
     - Sei - disse o homem.
     E, pondo a enorme corda a um canto, seguiu a mulher de Thenardier.
     Depois deles terem sado, Thenardier deitou a cabea pela abertura da porta
entreaberta, e gritou para o corredor: - Cuidado, no percas a carta! Lembra-te
que levas duzentos mil francos contigo!
     Em seguida, ouviu-se a voz rouca da Thenardier responder:
     - Sossega, porque a pus em stio seguro.
     No se tinha passado ainda um minuto, quando se ouviu o estalar de um
chicote, que a pouco e pouco se foi afastando, at que deixou de se ouvir.
     - Bom! - resmungou Thenardier. - Vo bem. Naquele galope est a burguesa
de volta daqui a trs quartos de hora.
     Aproximou depois uma cadeira da chamin, sentou-se e, cruzando os braos,
ps-se a limpar as botas cheias de lama, ao calor do fogareiro.
     - Tenho frio nos ps - disse ele.
     Na mansarda apenas tinham ficado com o preso e Thenardier cinco
bandidos.
     Atravs das mscaras, ou do visco negro que lhes cobria os rostos,
convertendo-os, segundo a intuio do medo, em carvoeiros, negros ou demnios,
conhecia-se que aqueles homens, entorpecidos e pesadamente indiferentes,
praticavam um crime como qualquer servio, tranquilamente, sem clera nem
compaixo, com certo ar de aborrecimento. Conservavam-se a um canto, como
brutos amontoados e silenciosos, enquanto Thenardier aquecia os ps, e o preso,
que voltara  sua primitiva taciturnidade, parecia concentrado em profundas
cogitaes Ao sussurro feroz, que poucos momentos antes ressoava na mansarda,
sucedera um silncio sombrio como o que acompanha quase sempre o fim de uma
cena violenta. Apenas alumiadas pelo escasso claro da luz bruxuleante e das
brasas meio apagadas, que pouco antes deixavam ver um reflexo afogueado, as
cabeas monstruosas dos bandidos juntos em monto desenhavam no tecto e nas
paredes sombras disformes. O nico rudo que quebrava a glida nudez daquela
manso, onde, longe das suspeitas dos homens, se perpetrava um crime, era o
sussurro da serena respirao do velho embriagado, que jazia a um canto
dormindo.
     No meio deste silncio, Mrio esperava, em luta com uma ansiedade
crescente.  medida que os actores daquele drama temvel iam avanando para o
desenlace, a sua ansiedade subia de ponto, e o enigma, desde ento muito
inexplicvel para ele, tornava-se cada vez mais impenetrvel.
     Que pequena era aquela que Thenardier designara tambm pelo nome de
Cotovia? Seria a sua rsula? Mas como, se o preso, a quem tal nome parecia
no ter impressionado, muito naturalmente respondera: No sei o que me quer
dizer?
     Por outra parte, estavam explicadas as duas letras, que queriam dizer Urbano
Fabre e rsula no se chamava rsula. De tudo o que se passava em roda dele era
isto o que o jovem mais claramente via. Retinha-o como colocado no stio, de
onde observava e dominava todas estas cenas, uma espcie de fascinao terrvel a
que no podia ser superior. Ali permanecia, quase incapaz de reflexo e de
movimento, como que aniquilado pela vista do hediondo espectculo que se
desenrolara a seus olhos, esperando um qualquer incidente, sem poder coordenar
as ideias, que lhe acudiam em turbilho, nem saber o expediente que devia
tomar.
     Em todo o caso, dizia de si para si, logo verei se a Cotovia . ela, visto que a
Thenardier a foi buscar para a conduzir aqui. Se for, hei-de libert-la das garras
daqueles bandidos, ainda que seja a preo do meu sangue e da minha vida! No
olho a obstculos de qualidade nenhuma!.
     Assim decorreu perto de meia hora.
     Thenardier parecia absorvido em tenebrosa meditao e o preso continuava
calado e imvel. Afigurava-se, todavia, a Mrio, havia alguns instantes, que ouvia
um imperceptvel rudo surdo do lado do preso, rudo que a espaos parava para
recomear outra vez.
     De repente, Thenardier voltou-se, apostrofando o prisioneiro:
     - Senhor Fabre, atenda o que lhe vou dizer.
     Como estas palavras pareciam ser o princpio de algum esclarecimento,
Mrio aplicou o ouvido e Thenardier continuou: - No se impaciente; minha
mulher no tarda. Creio que a Cotovia  verdadeiramente sua filha, e por isso
acho muito simples que o senhor a queira ter consigo.
     Contudo, por meio da sua carta foi minha mulher busc-la. Eu disse a minha
mulher que se vestisse, como viu, de modo que a sua menina a acompanhasse sem
dificuldade.
     Subiro ambas para o fiacre com o meu camarada na traseira. Fora da
barreira, est um carro com dois bons cavalos.  a que ho-de conduzir a sua
menina, que ento se apear do fiacre. O meu companheiro subir com ela para a
capoeira, e minha mulher voltar aqui para nos dizer que est tudo pronto.
Quanto  sua menina, ningum lhe far mal; a capoeira lev-la- a um stio onde
se achar tranquila; e apenas o senhor me tiver dado a ninharia dos duzentos mil
francos, ser-lhe- entregue. No caso, porm, que me mande prender, ento o
negcio mudar de figura. O meu camarada ajustar as contas com a Cotovia e o
senhor no a tornar a ver!
     O prisioneiro no articulou uma s palavra. Thenardier, aps uma pausa,
prosseguiu:
     - Como v,  uma coisa simples. No suceder mal nenhum, se o senhor no
quiser que o haja, Eu lhe conto a coisa, para que lhe fique presente.
     Calou-se novamente, e vendo que o prisioneiro no quebrava a sua mudez,
tornou:
     - Apenas minha mulher volte e me diga: A Cotovia est a caminho, daremos
ao senhor Fabre a liberdade de ir dormir a sua casa. Bem v que no temos ms
intenes.
     Pelo pensamento de Mrio passaram imagens espantosas.
     O qu! Pois no reconduziriam aquela jovem que iam arrebatar? Seria levada
por um daqueles monstros? Para onde? E se fosse ela! No havia dvida que o era!
Mrio sentia paralisar-se-lhe o corao. Que faria? Desfechar a pistola? Entregar
nas mos da justia todos aqueles miserveis? Mas nem por isso o medonho
homem da corda deixaria de ficar com aquela jovem fora de todo o alcance; e
Mrio pensava nas palavras de Thenardier, cujo significado sanguinrio antevia:
Se me fizer prender, o meu companheiro ajustar contas com a Cotovia.
     Ento j no era s pelo testamento do coronel, era pelo seu prprio amor,
pelo perigo daquela que amava, que se conteria.
     Esta medonha situao, que j durava havia mais de uma hora, mudava de
aspecto a todos os instantes. Mrio teve a fora de passar sucessivamente em
revista todas as pungentes conjecturas, em busca de uma esperana que no
achava.
     O tumulto dos seus pensamentos contrastava com o fnebre silncio daquele
covil de monstros.
     No meio, porm, desse silncio, sentiu-se o estrondo de uma porta abrindo-se
e tornando a fechar-se logo em seguida. A este estrondo, o preso fez um
movimento, apesar das cordas com que estava amarrado, e Thenardier exclamou:
- A vem a patroa!
     Efectivamente, mal ele terminara a frase, irrompeu violentamente pela porta
da sala dentro a Thenardier, rubra de clera, esbaforida, arquejante, deitando
chispas de fogo pelos olhos e gritando em voz rouca, batendo com as mos
descomunais nas coxas: - Mentira! Ele no mora l!
     No mesmo instante, assomava por trs dela o bandido que a acompanhara e
que foi pegar outra vez na corda que tinha arrumado para cumprir a ordem de
Thenardier.
     - No mora l?! - repetiu Thenardier.
     - Nem vivalma! Na rua de S. Domingos, nmero 17, no h notcia de tal
Urbano Fabre! Ningum sabe dar relao de quem seja!
     E, aps uma pausa, a que a obrigou o cansao da carreira, continuou:
     - Meu caro Thenardier, o velho logrou-te redondamente! A culpa  tua, por
dares ouvidos ao teu bom corao! Se fosse comigo, outro galo lhe havia de
cantar! Cortava-lhe a faladeira, pelo sim, pelo no, e, se ele se fizesse fino, tinha
alma de o fritar vivo.
     Veramos ento se ele dizia ou no dizia onde est a filha e onde tem o
dinheiro! Se fosse comigo, fazia-lhe assim! Bem diz o outro que as mulheres ainda
so mais finas do que os homens! No nmero 17 no existe Fabre nem meio
Fabre!  um porto! E ir daqui  rua de S. Domingos, a galope, gorjeta ao cocheiro
e tudo, para uma destas!
     Estive com o porteiro e com a porteira, que  um pedao de uma mulher
como uma torre, e disseram-me que no conheciam semelhante pessoa.
     Mrio respirou. A Cotovia, ou rsula, aquela a quem no sabia que nome
dar, estava salva.
     Enquanto a mulher vociferava exasperada, Thenardier sentou-se em cima da
mesa e assim esteve alguns instantes sem pronunciar palavra, balouando a perna
direita e a olhar para o fogareiro com um ar de selvtica meditao. Por fim,
exclamou com inflexo de voz lenta e singularmente feroz, dirigindo-se para o
prisioneiro: - Lograste-me! Hs-de dizer-me que fim tinhas em vista!
     - Ganhar tempo! - gritou o preso com voz estrondosa.
     E, no mesmo instante, desenvencilhou-se da corda que estava cortada.
Apenas estava preso ainda por uma perna.
     Antes dos sete homens terem tempo de voltar a si e carem sobre ele, o senhor
Leblanc agachou-se, estendeu a mo para o fogareiro e levantou-se, brandindo no
ar com gesto terrvel o cinzel em brasa, a cujo claro sinistro os bandidos,
Thenardier e a mulher recuaram para o fundo, amedrontados, e se puseram a
contempl-lo com estpido pasmo naquela atitude ameaadora.
     Verificou-se depois, por ocasio da busca judiciria a que os sucessos
ocorridos naquela casa deram lugar, que, quando a polcia acudiu, aparecera uma
grande moeda de um soldo, cortada e trabalhada de um modo particular. Esta
moeda de soldo era uma dessas maravilhas de indstria produzidas pela pacincia
dos presos das gals no meio das trevas e para as trevas, maravilhas que no
passam de instrumentos de evaso. Esses hediondos e delicados produtos de uma
arte prodigiosa so na joalharia o que so na poesia as metforas da gria. H
Benvenutos Cellinis nas gals, do mesmo modo que na lngua h Villons. Algumas
vezes o infeliz que aspira  liberdade, sem mais utenslios que uma navalha ou
uma faca velha, consegue partir um soldo em duas lminas delgadas, vaz-las sem
tocar os cunhos e de praticar em volta uma rosca na orla da moeda de modo que
faz aderir novamente as duas lminas. Depois atarracham-se e desatarracham-se 
vontade;  uma boceta. Nesta boceta esconde-se uma mola de relgio, e esta mola
de relgio, bem manejada, corta manilhas enormes e vares de ferro. Cr-se que o
infeliz forado no possui mais do que uma mesquinha moeda de cobre, mas no,
possui a liberdade.
     Foi uma moeda de cobre deste gnero, que nas posteriores investigaes da
polcia foi encontrada aberta em dois bocados, debaixo da cama, que no covil
ficava mais prximo da janela. Achou-se igualmente uma pequenina serra de ao
azulado, que podia ocultar-se dentro da moeda de cobre.  de presumir, que na
ocasio em que os ladres revistaram o prisioneiro, tivesse ele consigo aquela
moeda de cobre, que naturalmente conseguira ocultar fechada na mo, e que
depois tendo solta a mo direita, a abrisse e se servisse da serra para cortar as
cordas que o ligavam, o que decerto explicava o ligeiro rudo e os movimentos
imperceptveis notados por Mrio.
     No tendo podido baixar-se para se no trair, no cortara a corda que lhe
prendia a perna esquerda.
     Os malfeitores tinham j voltado a si do seu primeiro momento de surpresa.
     - Sossega - disse Bigrenaille a Thenardier.  Ainda est filado por uma perna.
No tenhas medo que se safe. Aquela pata foi amarrada por mim.
     Nisto o prisioneiro elevou a voz:
     - Vocs so uns desgraados, mas a minha vida no vale to grande defesa.
     Quanto a imaginarem que me obrigariam a falar, que me fariam escrever o
que eu no quero escrever, que me fariam dizer o que eu no quero dizer... E
arregaando a manga do brao esquerdo, acrescentou:
     - Olhem!
     Ao mesmo tempo estendeu o brao e pousou sobre a carne nua o formo
candente, que segurava com a mo direita pelo cabo.
     Ouviu-se o frmito da carne queimada, e pelo antro espalhou-se o cheiro
prprio das casas de tortura. Mrio cambaleou aterrado, os prprios malfeitores
estremeceram, o rosto do extraordinrio velho contraiu-se apenas; e enquanto o
ferro candente aprofundava a fumegante chaga, impassvel e quase augusto, fitava
em Thenardier o seu olhar lmpido, sem dio, e onde o sofrimento se
transformara em serena majestade.
     Nas grandes e elevadas naturezas as revoltas da carne e dos sentidos, presa da
dor fsica, fazem com que a alma saia e se apresente na fronte, pelo mesmo modo
que as rebelies da soldadesca obrigam o capito a comparecer.
     - Miserveis! - exclamou ele. - No tenham mais medo de mim do que eu
tenho de vocs!
     E, retirando o formo da ferida, lanou-o pela janela que ficara aberta, e o
horrvel instrumento abrasado desapareceu volteando no meio da escurido at
cair ao longe e ser resfriado pela neve.
     - Agora faam de mim o que quiserem - tornou o prisioneiro.
     - Agarrem-no! - exclamou Thenardier, ao v-lo desarmado.
     Dois dos bandidos deitaram-lhe ento as mos aos ombros, e o homem da
mscara, com voz de ventrloquo, colocou-se na frente, pronto a abrir-lhe a cabea
com a chave ao mais pequeno movimento.
     Ao mesmo tempo, Mrio ouviu por baixo de si, junto do tabique, mas to
perto que no podia distinguir os que falavam, estas palavras trocadas em voz
baixa: - J no h seno uma coisa a fazer - Rasg-lo de alto a baixo.
     -  isso mesmo.
     Eram o marido e a mulher em conselho.
     Thenardier encaminhou-se vagarosamente para a mesa, abriu a gaveta e tirou
uma faca.
     Mrio apertava cada vez mais a coronha da pistola. Inaudita perplexidade
Havia uma hora que ouvia duas vozes na conscincia; uma dizia-lhe que
respeitasse o testamento de seu pai, a outra bradava-lhe que socorresse o
prisioneiro. Estas duas vozes continuavam sem interrupo a sua luta, que o
tornava quase agonizante.
     Esperara vagamente at aquele instante achar um meio de o conseguir.
Entretanto o perigo crescia, estava j passado o ltimo limite da expectativa; a
alguns passos do prisioneiro, Thenardier meditava com a faca em punho.
     Mrio, desorientado, volveu os olhos  roda de si; ltimo recurso maquinal
do desespero.
     De repente estremeceu.
     A seus ps, sobre a mesa, deparou-se-lhe uma folha de papel em que dava um
raio de luz, parecendo mostrar-lho.
     - Na folha de papel leu esta linha escrita em grandes letras, naquela manh,
pela filha mais velha dos Thenardier: Chegaram os guitas.
     Uma ideia, como se fora um relmpago, passou ento pelo esprito de Mrio.
     Era o meio que buscava, a soluo do medonho problema que o atormentava:
poupar o assassino e salvar a vtima. Ajoelhou sobre a cmoda, estendeu o brao,
pegou na folha de papel, arrancou muito devagarinho do tabique um bocado de
calia, embrulhou-a no papel e atirou-o pelo buraco, para o centro do covil.
     Era tempo. Thenardier, tendo vencido os seus ltimos receios, ou os seus
ltimos escrpulos, dirigia-se para o prisioneiro - Caiu aqui uma coisa!- gritou a
Thenardier.
     - O que ? - perguntou o marido.
     A mulher precipitara-se sobre o embrulho, apanhara-o e entregara-o ao
marido.
     - Por onde diabo veio isto? - inquiriu Thenardier.
     - Ora essa! - disse a mulher. - Por onde querias que entrasse? Foi pela janela.
     Thenardier desembrulhou o papel e aproximou-o da vela.
     -  a letra de Eponina. Oh, diabo!
     Fez depois sinal  mulher, que se lhe aproximou rapidamente, e mostrou-lhe
as palavras escritas no papel, acrescentando em seguida com voz surda: -
Depressa, a escada! Deixemos a isca na ratoeira e safemo-nos!
     - Sem cortar a lngua ao homem? - perguntou a Thenardier.
     - No temos tempo para isso.
     - Por onde? - disse Bigrenaille.
     - Pela janela - respondeu Thenardier. - Uma vez que a Ponina atirou a pedra
pela janela,  porque a casa no est cercada por este lado.
     O mascarado com voz de ventrloquo ps no cho a enorme chave que trazia,
levantou os braos e, por trs vezes, abriu e fechou rapidamente as mos. Foi
como o toca a postos  guarnio de um navio. Os malfeitores que seguravam o
prisioneiro largaram-no; num abrir e fechar de olhos foi a escada de corda
desenrolada fora da janela e presa fortemente ao parapeito pelos dois ganchos de
ferro.
     O prisioneiro no dava ateno ao que Se passava em torno dele. Parecia estar
ou sonhando ou orando.
     Apenas segura a escada, Thenardier gritou para suamulher:
     - Vem da, tu!
     E correu para a janela.
     Mas quando j ia a passar a perna por cima do parapeito, Bigrenaille
segurou-o fortemente pela gola do casaco - Isso  que no, meu velho! Depois de
ns.
     - Depois de ns - uivaram os outros malfeitores.
     - Vocs so crianas! - disse Thenardier. - Estamos a perder tempo. Olhem
que temos os guitas no cachao.
     - Pois ento deitemos sortes para se ver quem h-de descer primeiro.
     Thenardier exclamou:
     - Vocs ou esto doidos ou bbados! Que scia de parvos! Querem por fora
perder tempo, no  verdade? Querem tirar sortes, no  assim? Escrever nomes,
deit-los num bon!... - Se querem, aqui est o meu chapu! - gritou uma voz que
partia da porta.
    Todos se voltaram. Era Javert.
    Javert tinha o chapu na mo e oferecia-o, sorrindo-se.



    XXI
    De como deveria comear-se sempre por prender as vtimas



     Ao anoitecer, Javert postara alguns homens nos lugares convenientes e foi-se
emboscar por trs das rvores da rua da Barreira dos Gobelinos, que faz frente ao
casaro Gorbeau do outro lado do boulevard. A primeira coisa a que procedeu foi
abrir o bolso para recolher as duas raparigas encarregadas de vigiar em roda da
mansarda, porm no pudera deitar mo seno a Azelma. Quanto a Eponina,
abandonara o seu posto e desaparecera, pelo que a no pde agarrar.
     Em seguida, Javert ps-se de vigia, aplicando o ouvido ao sinal
convencionado.
     As idas e vindas do carro tinham-no sobremodo agitado. Afinal, depois de ver
entrar muitos dos bandidos, impacientado pela demora e certo de pilhar os ratos
na ratoeira, certo da boa colheita que ia fazer, resolveu subir sem esperar pelo
convencionado tiro de pistola, o que lhe no foi difcil, porque trazia consigo a
gazua de Mrio.
     A sua chegada no podia ter sido mais apropriada.
     Os bandidos, assustados, lanaram precipitadamente mo das armas que
haviam abandonado pelos cantos na ocasio em que iam a evadir-se. Em menos
de um segundo, aqueles sete homens, cujo aspecto amedrontava, juntaram-se
num magote, numa atitude de defesa, um com a corda, outro com a chave, outro
com a maa, outros com tesouras, tenazes e martelos, Thenardier de faca em
punho. A mulher pegou numa grande pedra que estava no recanto da janela e que
servia de tamborete s filhas.
     Javert ps o chapu na cabea, deu dois passos para dentro do quarto, com os
braos cruzados, a bengala debaixo do brao.
     - Alto l! - disse ele. - No consinto que saiam pela janela. Ho-de sair mas
h-de ser pela porta. No  to arriscado! Vocs so sete e ns somos quinze.
Portanto, deixem-se de armar em valentes e sejam bons moos!
     Bigrenaille pegou numa pistola que trazia debaixo da blusa e meteu-a na mo
de Thenardier, dizendo-lhe ao ouvido: -  Javert. Eu no me atrevo a disparar.
Atreves-te tu?
     - Ainda perguntas! - respondeu Thenardier.
     - Ento atira.
     Thenardier pegou na pistola e apontou-a a Javert. Este, que estava a trs
passos, olhou para ele fixamente e apenas disse: - No atires, pateta, olha que erras
o alvo!
     Thenardier puxou o gatilho, mas errou o tiro.
     - Eu no te dizia? - tornou Javert.
     Bigrenaille atirou o cacete que trazia aos ps de Javert e exclamou.
     - s um imperador dos diabos, portanto, rendo-me!
     - E vocs? - perguntou Javert aos outros bandidos.
     - Ns tambm! - responderam eles.
     Javert replicou serenamente:
     - Bonito, assim  que eu vos quero ver! Eu logo disse que no havia de haver
dvidas!
     - Eu s peo uma coisa - tornou Bigrenaille. -  que me no neguem tabaco
enquanto estiver no segredo.
     - Concedido! - disse Javert.
     E, voltando-se, disse, chamando para fora:
     - Podem entrar agora.
     A voz de Javert entrou de roldo pelo quarto dentro uma esquadra de cabos
de polcia, de espada em punho, e de agentes armados de cacetes Toda esta
multido de homens, apenas alumiada pelo escasso claro de uma vela, enchiam o
covil de sombra.
     Apenas entraram, trataram de amarrar os bandidos, que no ofereceram
resistncia, - Algemas para todos! - gritou Javert - Ora cheguem-se para c - gritou
uma voz que no era de homem, mas que ningum poderia afirmar que era de
mulher.
     Era a voz, ou, melhor, era um rugido da Thenardier, que se entrincheirara no
recanto da janela e da soltara aquela ameaa Os agentes e os cabos recuaram ao
aspecto da megera que atirara o xaile para o lado, ficando s com o chapu. Por
trs dela estava acocorado o marido, que mal se via oculto com o xaile que jazia no
cho, e encoberto por ela.
     Depois de estar alguns instantes com a pedra suspensa nos braos, levantados
ao ar, baloiando-se como um gigante que se apresta a atirar um rochedo,
exclamou: - Deixem passar!
     Recuaram todos para o corredor, deixando um largo espao vazio no meio da
mansarda, e ela murmurou com acento gutural e rouco, depois de deitar um olhar
aos bandidos que se tinham deixado amarrar: - Cobardes!
     Javert sorriu e dirigiu-se para o espao vazio em que a Thenardier tinha os
olhos fitos.
     - No se chegue para c, j lhe disse, ou esmago-o! - gritou ela, - Que
granadeiro! - disse Javert. - Minha rica, tu tens barba como um homem, mas eu
tenho unhas como uma mulher!
     E continuou a caminhar para diante.
     A Thenardier, desgrenhada, terrvel, firmou-se nas pernas, deu um balano
ao corpo para trs e atirou desvairadamente a pedra  cabea de Javert Este,
porm agachou-se, a pedra passou-lhe por cima, foi de encontro  parede do
fundo, fazendo cair um pedao de cal, e voltou de ricochete ao meio do quarto,
felizmente quase vazio, at parar aos ps de Javert No mesmo instante, Javert
chegava junto dos Thenardier e exclamava, batendo com uma das largas mos no
ombro da mulher e com outra na cabea do homem: - Os anjinhos!
     Os homens da polcia tornaram a entrar no quarto e dentro de poucos
segundos a ordem de Javert foi executada.
     A Thenardier, ao ver-se a si e a seu marido de mos atadas, caiu desfalecida
no cho e exclamou entre soluos: - Minhas filhas!
     - J esto  sombra! - disse Javert.
     Entretanto, os beleguins tinham dado com o bbado adormecido atrs da
porta e trataram de o acordar.
     Depois de muito sacudido, acordou, balbuciando:
     - J se acabou, Jondrette?
     - Acabou! - respondeu Javert.
     Os seis bandidos amarrados achavam-se de p, ainda, porm, com o mesmo
aspecto de espectros; trs enfarruscados de negro, trs mascarados.
     - No tirem as mscaras - disse Javert.
     E, depois de os passar em revista com um olhar de Frederico II na parada de
Potsdam, disse aos trs rebocadores: - Bons dias, Bigrenaile. Bons dias, Brujon.
Bons dias, Deux-Milliards.
     E depois voltou-se para os trs mascarados e disse ao homem da corda:
     - Bons dias, Gueulemer.
     E ao homem do cacete:
     - Bons dias, Babet.
     E ao ventrloquo:
     - Salve, Claquesous!
     Neste momento, Javert deu com os olhos no prisioneiro dos bandidos, o qual,
desde que os agentes entraram, no tinha proferido uma palavra, conservando-se
com a cabea inclinada.
     - Desamarrem aquele senhor! - disse ele, e acrescentou:
     - Ningum saia daqui!
     Aps estas palavras, sentou-se soberanamente diante da mesa, sobre a qual
estava a vela e o papel do aviso, tirou do bolso uma folha de papel selado e deu
princpio ao auto de corpo de delito.
     Depois de ter escrito as primeiras linhas, que no eram mais do que as
frmulas do estilo, ergueu os olhos e disse:
     - Esse senhor que os malandrins tinham preso que se chegue aqui.
     Os agentes circunvagaram a vista em derredor da mansarda e Javert
perguntou:
     - Ento ele onde est?
     O prisioneiro dos bandidos, o senhor Leblanc, o senhor Urbano Fabre, o pai
de rsula ou da Cotovia, tinha desaparecido.
     A porta estava guardada, mas no o estava a janela.
     Apenas, pois, ele se viu solto e viu Javert ocupado na confeco do auto,
aproveitou a perturbao, o tumulto, a desordem, a escurido e o momento em
que ningum reparava nele para saltar pela janela.
     Um dos agentes correu prontamente  janela e olhou, mas no viu ningum.
     A escada de corda balouava ainda.
     - Diabo! - resmungou Javert por entre dentes - foi pena, que havia de ser o
melhor!



    XXII
    O pequeno que gritava na segunda parte



     No dia seguinte quele em que na casa do boulevard do Hospital tiveram
lugar os acontecimentos que acabamos de narrar, caminhava pela lea do lado
direito, em direco  barreira de Fontainebleau, um rapazinho, que vinha, ao que
parecia, do lado da ponte de Austerlitz.
     Era noite fechada.
     O rapazinho era plido, magro, trajava umas calas rotas de linho no ms de
Fevereiro e outros andrajos, e ia a cantar de modo a atordoar os tmpanos menos
sensveis.  esquina da rua do Petit-Banquier, o rapaz foi de encontro a uma velha
que estava agachada a mexer num monte de lixo, ao reflexo do lampio e recuou,
exclamando: - Ora esta! Eu a cuidar que era um canzarro e Sai-me uma velha!
     Pronunciou a palavra canzarro engrossando a voz de um modo chocarreiro
e particular, que se exprimiria bem por maisculas: Um co, um
CANZARRO.
     A velha ergueu-se furiosa.
     - Trinca espinhas do diabo! regougou ela. Se no estivesse agachada, eu te
faria ver as estrelas ao meio-dia com um pontap!
     O rapaz ia j a distncia, mas replicou, fingindo que aulava um co:
     - Kse! Kse! Bem digo eu! Nunca me tinha enganado!
     A velha, sufocada de indignao, ergueu-se de todo, e o reflexo avermelhado
do lampio bateu-lhe de chapa no rosto lvido, marcado de sulcos profundos em
inextricvel labirinto. No meio da escurido que a envolvia, apenas se lhe divisava
a cabea. A configurao do resto do corpo perdia-se nas trevas. Dir-se-ia a
mscara da Decrepitude recortada por um claro no meio das sombras da noite.
     O rapaz ps-se a olhar para ela e afinal disse:
     - A senhora no possui o gnero de beleza que me conviria!
     E continuou o seu caminho, cantando alegremente:
     Houve um rei antigamente Chamado o Perna de Pau, Por trazer andas to
altas Que passava o Sena a vau.
     Ao fim destes versos, calou-se.
     Tinha chegado -em frente da casa nmero 50-52, e como encontrasse a porta
fechada, comeou aos pontaps a ela, pontaps estrondosos e hericos, que mais
davam a conhecer os sapatos de homem que trazia calados do que os ps de
criana que ele tinha.
     A este tempo, porm, a velha que ele encontrara  esquina da rua do
Petit-Banquier corria atrs dele, gritando e gesticulando desabridamente: - O que
 isto? O que  isto? Valha-me Deus! Arrombam a porta! Deitam a casa abaixo.
     Os pontaps, porm, continuavam, por mais que a velha se esfalfasse.
     - Ser tambm agora moda andar a dar pontaps pelas portas?
     De repente, porm, parou, ao reconhecer o gaiato.
     - Ai, que  este mafarrico!
     - Oh, com os diabos,  a velha! disse o rapaz. - Adeus, tia Burgon! Eu vinha
ver os meus antepassados.
     - No est c ningum, birbante! - volveu a velha com certo esgar, admirvel
improvisao da raiva ajudada pela caducidade e pela fealdade, esgar que,
infelizmente, se perdeu na escurido.
     - Ora adeus! - tornou o rapaz. - Ento onde est meu pai?
     - Na Force.
     - Irra! E minha me?
     - Em S. Lzaro.
     - Safa! E minhas irms?
     - Nas Madelonnetes.
     O rapaz ps-se a coar atrs da orelha e exclamou, olhando para a tia Burgon:
     - Ah!
     Depois deu uma volta sobre os calcanhares, e da por um instante ouvia a
velha, que ficara de p no limiar da porta, uma voz clara e forte, que se ia
gradualmente perdendo por baixo dos escuros olmos do boulevard, que
sussurravam trmulos aos empuxes do vento de Inverno.
     Era a voz do rapaz, que ia cantando com acento vibrante os seus versos
favoritos:
     Houve um rei antigamente.
     Chamado o Perna de Pau, Por trazer andas to altas Que passava o Sena a
vau.
     Ora o bonito era v-lo Por essas ruas a andar, E ouvido gritar a todos:
     - Pague c, se quer passar.
Fim do Terceiro Volume
Quarto Volume
Quarta Parte
Idlio na Rua Plumet e Epopeia na Rua de S. Diniz
    LIVRO PRIMEIRO
    Algumas pginas de Histria



    I
    Bem talhado



     Os dois anos que se ligam imediatamente  revoluo de Julho, 1831 e 1832,
representam um dos momentos mais particulares e surpreendentes da histria.
Estes dois anos, no meio dos precedentes e dos subsequentes so como duas
montanhas.
     Tm a grandeza revolucionria. Distinguem-se neles precipcios. As massas
sociais, os prprios jurados da civilizao, o grupo slido dos interesses
sobrepostos e aderentes, os perfis seculares da antiga formao francesa, ali
aparecem e desaparecem a cada instante atravs das tempestuosas nuvens dos
sistemas, das paixes e das teorias. A estas aparies e desaparies chamou-se
resistncia e movimento. Por intervalos v-se luzir ali a verdade, que  a luz da
alma humana.
     Esta notvel pea  assaz circunscrita, e comea a afastar-se muito de ns para
que se lhe possam apanhar de momento as linhas principais.
     Vamos intent-lo.
     A restaurao fora uma fase intermediria, das difceis de definir, daquelas
em que h fadiga, zumbido, murmrios, sono, tumulto, e que no so outra coisa
seno a chegada de uma grande nao ao fim da marcha. Estas pocas so
singulares e iludem os polticos que querem explor-las. Em comeo no pede a
nao seno repouso; no tem seno sede de paz e ambio de ser pequena; o que
 a traduo de permanecer tranquila. Grandes acontecimentos, grandes acasos,
grandes aventuras, grandes homens, graas a Deus, tm-se visto de mais; est-se
farto deles at aos olhos. Trocar-se-ia Csar por Prssias e Napoleo pelo rei
d'Yvetot. Que bom reizinho era aquele! Marchou-se desde o romper da aurora,
est-se no fim de um dia longo e rude; teve-se o primeiro descanso com Mirabeau,
o segundo com Robespierre, e o terceiro com Bonaparte; est-se estafado. O que
cada um pede  uma cama. As dedicaes cansadas, os herosmos envelhecidos, as
ambies saciadas, reclamam, imploram, solicitam; o qu, uma pousada?
Obtm-na. Apoderam-se da paz, da tranquilidade, do descanso; ei-los contentes.
Entretanto e ao mesmo tempo surgem certos factos, fazem-se reconhecer, e batem
tambm  porta. Estes factos saram das revolues e das guerras, existem, vivem,
tm o direito de se estabelecer na sociedade e estabelecerem-se; e a maior parte do
tempo so os factos os quartis-mestres e os furriis, que no fazem mais do que
preparar o aquartelamento para os princpios.
     Eis o que aparece aos olhos dos filsofos.
     Ao mesmo tempo que os homens fatigados pedem descanso, os factos
consumados exigem garantias. As garantias para os factos so a mesma coisa que
o descanso para os homens.
     Era o que a Inglaterra pedia aos Stuarts depois do Protector: era o que a
Frana pedia aos Bourbons depois do Imprio.
     Estas garantias so uma necessidade dos tempos.
      indispensvel conced-las Os prncipes outorgam-nas; mas na realidade 
a fora das coisas quem as d Verdade profunda e til, que deve saber-se, que os
Stuarts nunca suspeitaram em 1662, e que os Bourbons nunca entreviram nem
mesmo em 1814.
     A famlia predestinada que voltou  Frana quando Napoleo desabou, teve a
simplicidade fatal de acreditar que era ela quem dava e que podia tirar o que tinha
dado; que a casa de Bourbon possua o direito divino, e que a Frana no possua
nada; que o direito poltico concedido na carta de Lus XVIII no era mais do que
um ramo do direito divino, arrancado pela casa de Bourbon e graciosamente dado
ao povo, que o conservaria at ao dia em que aprouvesse ao rei apoderar-se
novamente dele Todavia, a casa de Bourbon pelo desprazer que uma tal ddiva lhe
causava, deveria ter conhecido que no partira dela.
     Foi rabugenta no sculo XIX. Fez m cara a cada nova expanso da nao.
Para nos servirmos da frase trivial, isto , popular e verdadeira, resmungou O
povo viu-o.
     Acreditou que tinha fora, porque o imprio lhe fora tirado da frente como
um bastidor de teatro No conheceu que fora trazida pelo mesmo modo No viu
que estava na mesma mo que tirara dali Napoleo.
     Acreditou que tinha razes, porque era o passado. Enganava-se; fazia parte do
passado, mas o passado todo era em si mesmo a Frana As razes da sociedade
francesa no estavam nos Bourbons, estavam na Frana. Essas obscuras e vivazes
razes no constituam o direito duma famlia, mas sim a histria dum povo
Estavam em toda a parte, menos sobre o trono.
     A casa de Bourbon era para a Frana o n ilustre e sangrento da sua histria;
mas j no era o elemento principal dos seus destinos, e a base necessria da sua
poltica.
     Podia passar-se sem os Bourbons; tinham-se passado vinte e dois anos sem
eles; houvera soluo de continuidade e eles nem o suspeitavam. E como
poderiam t-lo suspeitado, eles, que imaginavam ter reinado Lus XVII no 9
Thermidor, e Lus XVIII no dia de Merengo? Jamais desde a origem da histria,
tinham os prncipes sido to cegos na presena dos factos e da poro de
autoridade divina que os contm e promulgam.
     Jamais a pretenso deste mundo, denominada direito dos reis, negara a tal
ponto o direito supremo.
     Erro capital que levou aquela famlia a tocar nas garantias outorgadas em
1814, nas concesses, como ela as qualificava. Triste coisa! O que ela denominava
suas concesses, eram as nossas conquistas; o que ela chamava nossas usurpaes,
eram os nossos direitos.
     A restaurao, logo que lhe pareceu chegada a hora, supondo-se vitoriosa de
Bonaparte e enraizada no pas, isto , julgando-se forte, acreditando-se profunda,
tomou repentinamente a sua resoluo e arriscou a sua cantada. Uma manh
ergueu-se em face da Frana, e, elevando a voz, contestou o ttulo colectivo e o
ttulo individual;  nao a soberania, ao cidado a liberdade. Noutros termos:
negou  nao o que a fazia nao, e ao cidado o que o fazia cidado.
      este o mago dos famosos actos denominados ordenanas de Julho.
     A restaurao caiu. Todavia, digamo-lo, no fora absolutamente hostil a todas
as formas do progresso.
     Ao lado dela tinham-se feito grandes coisas.
     Sob a acusao habituara-se a nao  discusso pacfica, que faltara 
repblica, e  grandeza na paz, que o imprio no tivera. A Frana livre e forte,
fora um espectculo animador para os outros povos da Europa. A revoluo tivera
a palavra sob Robespierre; a artilharia tivera a palavra sob Bonaparte: foi do tempo
de Lus XVII e de Carlos X, que chegou a vez  palavra da inteligncia. Cessou o
vento, tornou a acender-se o facho. Viu-se estremecer sobre os cimos serenos a
pura luz dos espritos.
     Espectculo magnfico, til e encantador. Viram-se trabalhar durante quinze
anos, em plena paz, em plena praa pblica, os grandes princpios, to velhos para
o pensador, to novos para o homem de Estado: a igualdade perante a lei, a
liberdade da conscincia, a liberdade da palavra, a liberdade de imprensa, o acesso
de todas as aptides a todas as funes. Assim caminharam as coisas at 1830. Os
Bourbons foram um instrumento de civilizao, que se quebrou nas mos da
Providncia.
     A queda dos Bourbons foi cheia de grandeza no da sua parte, mas da parte
da nao. Deixaram o trono com gravidade, mas sem autoridade; a sua descida
para o escuro no foi uma das desaparies solenes, que deixam na histria
sombria comoo; no foi nem o sossego de espectro de Carlos I, nem o grito de
guia de Napoleo.
     Foram-se e nada mais. Depuseram a coroa e no conservaram a mnima
aurola.
     Foram dignos mas no foram augustos. Faltaram, numa certa medida, 
majestade da sua desgraa. Carlos X, durante a viagem de Cherbourg, mandando
cortar uma mesa redonda para ficar quadrada, mostrou-se mais inquieto pela
etiqueta em perigo, do que pela monarquia que se desmoronava. Esta diminuio
contristou os homens dedicados, que eram afeioados s suas pessoas e os homens
srios que honravam a sua raa. O povo, esse, foi admirvel.
     A nao atacada uma manh  mo armada, por uma espcie de insurreio
rgia, sentia-se com tanta fora que no teve clera. Defendeu-se, conteve-se,
tornou a colocar as coisas nos seus lugares: o governo na lei, os Bourbons no
desterro, e parou.
     Pegou no velho rei Carlos X, de sob o mesmo dossel que abrigara Lus XIV, e
p-lo brandamente no cho. Nas pessoas reais no tocou seno com tristeza e
precauo.
     No foi um homem, no foram alguns homens, foi a Frana, a Frana inteira,
a Frana vitoriosa e embriagada com a sua vitria, que pareceu recordar-se e que
ps em prtica aos olhos do mundo as graves palavras de Guilherme Du Vair,
depois do combate das barricadas:  fcil queles que esto acostumados a libar
os favores dos grandes e saltar, qual passarinho, de ramo em ramo, de uma
fortuna decadente a outra florescente, mostrarem-se atrevidos contra o prncipe,
na sua adversidade, mas para mim a fortuna dos meus reis ser-me- sempre
venervel, e principalmente dos que estiverem atribulados. Os Bourbons levaram
consigo o respeito, mas no a saudade. Como acabamos de dizer, a sua desgraa
foi maior do que eles. Os Bourbons desapareceram no horizonte.
     A revoluo de Julho teve imediatamente amigos e inimigos em todo o
mundo.
     Uns precipitaram-se para ela com entusiasmo e alegria, outros afastaram-se,
segundo a sua natureza. Os prncipes da Europa, no primeiro momento, mochos
daquela alvorada, fecharam os olhos, escandalizados e estupefactos, e s os
tornaram a abrir para ameaar. Susto que se compreende, clera que se desculpa.
Aquela estranha revoluo fora apenas um repelo, nem mesmo dera  realeza
vencida a honra de a tratar como inimiga e de lhe derramar o sangue. A revoluo
de Julho, aos olhos dos governos despticos, sempre interessados em que a
liberdade se calunie por si mesma, cometera o erro de ser formidvel e de
permanecer suave. No fim de tudo, coisa alguma foi tentada ou maquinada contra
ela. Os mais descontentes, os mais irritados, os mais receosos saudaram-na;
quaisquer que sejam os nossos egosmos e rancores, sempre, nos acontecimentos
em que se sente a colaborao de algum que trabalha mais alto do que o homem,
sobressai misterioso respeito.
     A revoluo de Julho  o triunfo do direito derrubando o facto. Coisa cheia de
esplendor.
     O direito derrubando o facto. Daqui o brilho da revoluo de 1830, daqui
tambm a sua mansido. O direito que triunfa no tem a mnima necessidade de
ser violento.
     O direito  o justo e o verdadeiro.
     O caracterstico do direito  ser ele eternamente belo e puro. O facto, mesmo
o mais necessrio, na aparncia, mesmo o mais bem aceite pelos contemporneos,
s existe como facto, se contm pouco direito, ou absolutamente nenhum, 
destinado infalivelmente a tomar-se, com o correr dos tempos, disforme, imundo,
talvez mesmo monstruoso. Querendo-se comprovar por uma vez a que ponto de
fealdade pode chegar o facto, visto  distncia dos sculos, olhe-se para Maquiavel.
Maquiavel no  um mau gnio, nem um demnio, nem um escritor cobarde e
miservel; no  mais do que o facto. E no  s o facto italiano,  o facto europeu,
o facto do sculo XVI.
     Parece hediondo, e -o, com efeito, na presena da ideia moral do sculo XIX.
     Esta luta do direito e do facto existe desde a origem das sociedades Terminar
o duelo, amalgamar a ideia com a realidade humana, fazer penetrar pacificamente
o direito no facto e o facto no direito tal  o trabalho dos sbios.
    II
    Mal cozido



     Mas um  o trabalho dos sbios, outro  o trabalho dos hbeis. A revoluo de
1830 tinha parado muito depressa.
     Apenas uma revoluo d  costa lanam-se os hbeis aos despojos do
naufrgio.
     Os hbeis, no nosso sculo, agraciaram-se a si mesmos com a qualificao de
homens de estado; de tal modo, que as palavras homem de estado, acabaram por
se tornar um tanto frases de gria No esquea isto; onde no h seno habilidade,
h necessariamente pequenez Dizer: os hbeis, corresponde a dizer; os medocres.
     Do mesmo modo que dizer: os homens de estado equivale, algumas vezes, a
dizer: os traidores.
     A acreditarem-se, pois, os hbeis, as revolues como a de Julho, so artrias
cortadas; necessitam ser prontamente laqueadas. O direito muito altamente
proclamado, abala. E tambm, uma vez consolidado o direito,  necessrio
consolidar o estado. Assegurada a liberdade,  preciso pensar no poder.
     Aqui ainda os sbios se no separaram dos hbeis, mas comeam a desconfiar
deles. O poder; pois seja. Mas em primeiro lugar, o que  o poder? Depois, donde
procede ele?
     Os hbeis mostram no perceber a objeco murmurada e continuam na sua
manobra.
     Segundo estes polticos, engenhosos em pr nas fices proveitosas uma
mscara de necessidade; a primeira necessidade de um povo, aps uma revoluo,
quando esse povo faz parte de um continente monrquico,  procurar uma
dinastia. Deste modo, dizem eles, pode ter a paz depois da revoluo, isto , o
tempo de curar as feridas e de reparar a sua casa. A dinastia oculta os preparativos
e cobre a ambulncia.
     Ora, nem sempre  coisa fcil achar uma dinastia.
     Em rigor o primeiro homem de gnio, ou mesmo o primeiro homem de
fortuna que aparea,  suficiente para se fazer um rei. No primeiro caso tendes
Bonaparte, no segundo Iturbida.
     Mas para formar a dinastia no serve a primeira famlia que se encontre. Uma
raa tem necessariamente certa poro de antiguidades; a ruga dos sculos no se
improvisa.
     Segundo o modo de ver dos homens de estado guardadas todas as reservas,
bem entendido, quais so aps uma revoluo as qualidades do rei que sai dela?
Pode ser, e  til que seja revolucionrio, isto , participante pessoalmente dessa
revoluo, que lhe tenha posto a mo, que nela se tenha arriscado ou ilustrado,
que nela tenha empunhado o machado ou manejado a espada.
     Quais so as qualidades duma dinastia? Deve ser nacional, isto ,
revolucionria a distncia, no por actos cometidos, mas por ideias aceites. Deve
compor-se de passado e ser histrica, compor-se do futuro e ser simptica.
     Tudo isto explica como as primeiras revolues se contentam com achar um
homem. Cromwel ou Napoleo; e como as segundas querem absolutamente achar
uma famlia, a casa de Brunswich ou a casa de Orles.
     As casas reais assemelham-se s figueiras da ndia, das quais cada ramo,
curvando-se at ao solo, a cria razes e se torna nova figueira. Cada ramo pode
tornar-se numa dinastia. A nica condio  curvar-se at ao povo.
     Tal  a teoria dos hbeis.
     Eis, pois, a grande arte; dar ao bom xito tal ou qual som de catstrofe, a fim
de que aqueles mesmos que dele tiram proveito, tremam tambm, adubar com
medo o passo que se deu, aumentar a curva da transio at ao afrouxamento do
progresso, tornar inspida a obra, denunciar e destruir as asperezas do entusiasmo,
cortar os ngulos e as unhas, enchumaar o triunfo, abafar com muita roupa o
direito, envolver o gigante povo em flanela e deit-lo bem cedo, impor dieta a tal
excesso de sade, sujeitar Hrcules ao tratamento de convalescena, dissolver o
acontecimento no expediente, oferecer aos espritos sequiosos de ideal este nctar
ampliado com tisana, tomar precaues contra o denominado sucesso e guarnecer
a revoluo com um abat-jour.
     1830 praticou esta teoria, j aplicada  Inglaterra por 1688.
     1830  uma revoluo detida a meia encosta. Metade de progresso; quase
direito.
     Ora, a lgica ignora isto, absolutamente como o Sol ignora a existncia da
candeia.
     Quem detm as revolues a meia encosta? A burguesia.
     Porqu?
     Porque a burguesia  o interesse satisfeito. Ontem era o apetite, hoje  a
abundncia, amanh ser a saciedade.
     O fenmeno de 1814, depois de Napoleo, reproduz-se em 1830, depois de
Carlos X.
     Quis-se, erradamente, fazer da burguesia uma classe.
     A burguesia  simplesmente a poro contentada do povo. O burgus  um
homem que j tem tempo para se sentar.
     Uma cadeira no  uma casta.
     Mas, por querer sentar-se demasiadamente cedo, pode at fazer parar a
marcha do gnero humano. Tem sido esta, muitas vezes, a culpa da burguesia.
     No se  uma classe por se ter cometido uma falta. O egosmo no  uma das
divises da ordem social.
     No fim de tudo  necessrio ser justo, mesmo para com o egosmo; o estado a
que aspirava, depois da comoo de 1830, a parte da nao a que chamam
burguesia, no era a inrcia, que contm indiferena e preguia e que envolve
certa vergonha, no era o sono que supe um esquecimento momentneo
acessvel aos sonhos; era a paragem no fim da marcha
     Esta expresso encerra dois sentidos singulares e quase contraditrios:
multido em marcha, quer dizer movimento; estao, quer dizer repouso.
     Esta paragem  a reparao das foras,  o repouso armado e acordado,  o
facto consumado que posta sentinelas, e que se conserva em armas. A paragem
supe o combate de ontem e o combate de amanh.
      o intermdio de 1830 e de 1848.
     Ao que aqui chamamos combate pode tambm chamar-se progresso.
     Era necessrio  burguesia como aos homens de estado, um homem que desse
a voz de paragem: uma individualidade composta, significando revoluo e
significando estabilidade: noutros termos, consolidando o presente pela
compatibilidade evidente do passado com o futuro.
     Este homem estava encontrado. Chamava-se Lus Filipe de Orles.
     Os 221 fizeram Lus Filipe rei. Lafayette encarregou-se da sagrao.
Denominou-a a melhor das repblicas. O palcio da municipalidade de Paris
substituiu a catedral de Reims.
     Esta substituio de um trono completo por um meio trono foi a obra de
1830.
     Quando os hbeis terminaram, apareceu o vcio imenso da sua soluo. Tudo
isto era feito fora do direito absoluto. O direito absoluto gritou: Protesto! E
depois, temvel coisa!, tornou a esconder-se na sombra.
    III
    Lus Filipe



     As revolues tm o brao terrvel e a mo certeira; ferem com firmeza e
escolhem bem. Mesmo incompletas, mesmo adulteradas e reduzidas ao estado de
revoluo mais nova como a de 1830, resta-lhes sempre bastante lucidez
providencial, para que no possam cair mal. O seu eclipse no  nunca uma
abdicao.
     Contudo, no nos vangloriemos demasiadamente; as revolues tambm se
iludem, e tm-se visto graves enganos.
     Voltemos a 1830, que foi feliz na sua aberrao. No estabelecimento do que se
chamou ordem depois da revoluo interrompida de repente, o rei valia mais do
que a realeza. Lus Filipe era um homem raro.
     Filho de um pai ao qual a histria concedera certamente as circunstncias
atenuantes, mas to digno de estima quanto seu pai fora merecedor de censura;
tendo todas as virtudes particulares e muitas das virtudes pblicas; cuidando da
sua sade, da sua fortuna, da sua pessoa e negcios; conhecendo o preo de um
minuto e nem sempre o de um ano; sbrio, sereno, pacfico, paciente; bom
homem e bom prncipe; dormindo com sua mulher, e tendo em seu palcio
criados encarregados de mostrar aos burgueses o seu leito conjugal, ostentao da
alcova regular, tornada til aps as antigas pompas ilegtimas do ramo mais velho;
sabendo todas as lnguas da Europa, e, o que  mais raro, falando as linguagens de
todos os interesses; admirvel representante da classe mdia, mas
ultrapassando-a e de todos os modos superior a ela; tendo o excelente tino,
mesmo apreciando-se o sangue donde provinha, de se contar sobretudo
intrnseco, e, sobre a questo muito particular da sua raa, declarando-se Orles e
no Bourbon; muito primeiro prncipe de sangue enquanto no fora mais do que
alteza serenssima, mas franco burgus no dia em que se tomou majestade; difuso
em pblico, conciso na intimidade; com fama no provada de avaro, e no ntimo
um desses econmicos facilmente prdigos para com a sua fantasia ou dever;
letrado e pouco sensvel s letras; gentil-homem, mas no cavalheiro; simples,
sossegado e forte; adorado por toda a sua famlia e criados; sedutor na
conversao, homem de estado sem preocupaes, interiormente frio, dominado
pelo interesse imediato, governando sempre ou pouco menos, to incapaz de
rancor como de reconhecimento, aplicando desapiedadamente as superioridades
sobre as mediocridades, hbil em derrotar pelas maiorias parlamentares as
unanimidades misteriosas que rugem surdamente sob os tronos; expansivo s
vezes, imprudente na sua expanso, mas de maravilhosa destreza nessa
imprudncia; frtil em expedientes, em fisionomias, em mscaras; metendo medo
 Frana com a Europa, e  Europa com a Frana; incontestavelmente afeioado
ao seu pas, mas preferindo-lhe a sua famlia; prezando mais a dominao do que
a autoridade, e esta mais do que a dignidade; disposio funesta, por isso que
atendendo s aos resultados, admite a astcia e no repudia de todo a baixeza;
mas valiosas, porque preserva a poltica de combates violentos, o Estado de
fracturas, e a sociedade de catstrofes; minucioso, correcto, atento, sagaz,
infatigvel; contradizendo-se e desmentindo-se algumas vezes; atrevido contra a
ustria em Ancona, teimoso contra a Inglaterra em Espanha, bombardeando
Anvers e pagando Pritchard; cantando com convico a Marselhesa; inacessvel ao
abatimento, a cansao, ao gosto do belo e do ideal, s generosidades temerrias, 
utopia,  quimera,  clera,  vaidade, ao receio; tendo todas as formas da
intrepidez pessoal; general em Valmy, soldado em Jemma-pes; oito vezes
apalpado pelo regicdio, e sempre risonho; bravo como um granadeiro, corajoso
como um pensador, inquieto unicamente na presena das probabilidades de um
abalo europeu, e imprprio para as grandes aventuras polticas; sempre pronto a
arriscar a sua vida e nunca a sua obra; disfarando a sua vontade em influncia, a
fim de ser mais depressa obedecido como inteligncia do que como rei; dotado de
observao e no de divinao; pouco atento aos espritos, mas muito conhecedor
dos homens, isto , tendo necessidade de ver para julgar; bom senso pronto e
penetrante, sabedoria prtica, palavra fcil, memria prodigiosa; recorrendo sem
cessar a essa memria, ser nico ponto de semelhana com Csar, Alexandre e
Napoleo; conhecendo os factos e os seus pormenores, sabendo as datas, os nomes
prprios, ignorando as tendncias, as paixes, as ndoles diversas da multido, as
aspiraes interiores, as agitaes ocultas e obscuras das almas, numa palavra,
tudo o que poderia chamar-se correntes invisveis das conscincias; aceito pela
superfcie, mas pouco de acordo com a Frana dos planos inferiores; saindo destes
embaraos pela finura; governando demasiadamente e reinando pouco; primeiro
ministro de si mesmo; primando em fazer da pequenez das realidades um
obstculo para a imensidade das ideias; aliando a uma verdadeira faculdade
criadora de civilizao, de ordem e de organizao, certo esprito de chicana;
fundador e procurador de uma dinastia; tendo alguma coisa de Carlos Magno e o
que quer que fosse de um advogado; em suma, vulto elevado e original, prncipe
que soube exercer o domnio apesar da inquietao da Frana, e o poder a
despeito do cime da Europa. Lus Filipe ser classificado entre os homens
eminentes do seu sculo, e seria colocado entre os governantes mais ilustres da
histria, se prezasse um pouco a glria e se tivesse o sentimento do que  grande
no mesmo grau em que tinha o sentimento do que  til.
     Lus Filipe fora belo, e, envelhecendo, conservara-se gracioso; nem sempre
aceito pela nao, era-o sempre pela multido; agradava. Tinha o dom do encanto.
A majestade no se dava bem com ele; no usava a coroa, ainda que rei, nem tinha
os cabelos brancos, conquanto fosse velho. As suas maneiras eram do antigo
regime, e os seus hbitos da actualidade; mistura do nobre e do burgus, que
convinha a 1830. Lus Filipe era a transio reinante; conservara a antiga
pronncia e a antiga ortografia, que ele punha ao servio das opinies modernas;
era afeioado  Polnia e  Hungria, mas escrevia polonois, e pronunciava
hongrais. Usava a farda da guarda nacional como Carlos X, e o cordo da Legio
de Honra como Napoleo.
     Ia pouco  capela, pouqussimo  caa e  pera, nunca. Era incorruptvel aos
sacristes, aos moos das matinhas e s danarinas; o que entrava em grande parte
na sua popularidade burguesa. No tinha corte. Saa com o seu chapu de chuva
debaixo do brao: o chapu de chuva fez por muito tempo parte da sua aurola.
Era um tanto pedreiro, um tanto jardineiro e um tanto mdico: sangrava um
postilho cado do cavalo; Lus Filipe no andava mais sem a sua lanceta do que
Henrique III sem o seu punhal. Os realistas zombavam deste rei ridculo, o
primeiro que derramou sangue para dar vida.
     Nas queixas da histria contra Lus Filipe, h a fazer um desconto; h as que
acusam a realeza, as que acusam o reinado e as que acusam o rei; trs colunas
dando cada uma delas um total diferente. O direito democrtico confiscado, o
progresso tornado interesse de segunda ordem os protestos da rua reprimidos
violentamente, a execuo militar das insurreies, a revolta passada pelas armas,
a rua Transnonain, os conselhos de guerra, a absoro do pas real pelo pas legal,
e o governo em relaes com trezentos mil privilegiados,  o que diz respeito 
realeza; a Blgica recusada, Argel conquistada com demasiada dureza, e como a
ndia pelos ingleses, com mais barbrie do que civilizao, a falta de palavra a
Abdel-Kader, Blaye, Deutz comprado e Pritchard pago, pelo que toca ao reinado;
a poltica mais familiar do que nacional,  o que diz respeito ao rei.
     Como se v, feito o desconto, diminui a carga feita ao rei.
     A sua grande falta, ei-la: Foi modesto em nome da Frana.
     Donde provm essa falta?
     Digamo-lo.
     Lus Filipe foi um rei demasiadamente paternal; esta incubao que se quer
transformar em dinastia tem medo de tudo e no quer ser incomodada; daqui a
sua timidez excessiva, importuna para o povo, que tem o 14 de Julho na sua
tradio civil e Austerlitz na sua tradio militar.
     No fim de tudo, abstraindo-se dos deveres pblicos, que exigem ser
preenchidos em primeiro lugar, a profunda ternura de Lus Filipe pela sua famlia,
era por ela merecida. Era um grupo domstico admirvel. Os talentos
encontravam-se ali a par das virtudes. Uma das filhas de Lus Filipe, Maria de
Orles introduzia o nome da sua raa entre os artistas, como Carlos de Orles o
introduzira entre os poetas. Maria de Orles fizera da sua alma um mrmore a que
pusera o nome de Joana d'Arc. Dois dos filhos de Lus Filipe tinham arrancado a
Metternich este elogio demaggico: So mancebos como se vem poucos, e
prncipes como se no vem nenhuns.
     Eis aqui, sem dissimular, mas sem agravar coisa alguma, a verdade sobre Lus
Filipe.
     Ser o prncipe Igualdade, ter em si a contradio da restaurao e da
revoluo, ter o lado inquietador do revolucionrio que se torna tranquilizador no
governo, foi a fortuna de Lus Filipe em 1830; nunca um homem se adaptou mais
completamente a um acontecimento; entrou um no outro e operou-se a
incarnao. Lus Filipe  1830 feito homem. Alm disso tinha a seu favor grande
designao para o trono: o desterro.
     Fora proscrito, errante, pobre. Vivera do seu trabalho. Na Sua, o
proprietrio dos mais ricos senhorios de Frana, tivera de vender um velho cavalo
para ter de comer.
     Em Reicheau dera lies de matemtica, enquanto sua irm Adelaide bordava
e cosia.
     Estas recordaes ligadas a um rei entusiasmavam a burguesia. Demolira
pelas suas prprias mos a ltima gaiola de ferro do Monte S. Miguel, construda
por Lus XI e utilizada por Lus XV. Era o companheiro de Dumouriez, era o
amigo de Lafayette; pertencera ao clube dos jacobinos; Mirabeau batera-lhe no
ombro; Danton chamara-lhe rapaz! Aos vinte e quatro anos, em 93, sendo senhor
de Chantres, do fundo de um recanto escuro da Conveno assistira ao
julgamento de Lus XVI, to acertadamente apelidado de pobre tirano. Vira a cega
perspiccia da revoluo, destruindo a realeza, sem quase contar o homem na
feroz esmagao da ideia, a vasta tempestade da assembleia-tribunal, a clera
pblica interrogando, Capeto no sabendo que responder, a assustada vacilao
estupefacta daquela cabea rgia sobre to sombrio sopro, a inocncia relativa de
todos naquela catstrofe, tanto dos que condenavam como do que era condenado;
tudo ele vira, contemplara aquelas vertigens, vira os sculos comparecerem  barra
da Conveno, vira por trs de Lus XVI, desventurado transeunte responsvel,
erguer-se nas trevas a formidvel acusada, a monarquia, e gravara-se-lhe na alma
o espanto respeitoso das imensas justias do povo, quase to impessoais como a
justia de Deus.
     O vestgio que a revoluo deixara nele era prodigioso. A sua memria era
como uma impresso viva daqueles grandes anos, minuto por minuto. Um dia,
diante de uma testemunha de que nos  impossvel duvidar, rectificou, de
memria, toda a letra A da lista alfabtica da Assembleia Constituinte.
     Lus Filipe foi um rei de dia claro. Durante o seu reinado foram livres a
imprensa, a tribuna, a conscincia e a palavra. As leis de Setembro so de
clarabia.
     Conquanto conhecesse o poder destruidor da luz sobre os privilgios, deixou
o trono exposto  luz. A histria h-de levar-lhe em conta esta lealdade.
     Lus Filipe, como todos os homens histricos sados da cena,  hoje chamado
a juzo pela conscincia humana.
     O seu processo est ainda apenas na primeira instncia.
     A hora em que a histria fala com o seu acento venervel e livre no soou
ainda para ele; no chegou o momento dela pronunciar sobre este rei o seu
veredicto definitivo; ainda no h muito que o austero e ilustre historiador Lus
Blanc modificou o seu primeiro juzo sobre ele; Lus Filipe foi escolhido das duas
aproximaes denominadas 221 e 1830, isto , de um meio parlamento e de uma
meia revoluo; de qualquer modo, no ponto superior em que a filosofia se deve
colocar, no o poderamos ns julgar aqui, como se pode entrever, seno com
certas reservas em nome do princpio democrtico absoluto; aos olhos do
absoluto, fora dos dois direitos: o direito do homem, em primeiro lugar, e depois
o direito do povo, tudo  usurpao; mas o que podemos desde j dizer, apontadas
estas reservas,  que no fim de tudo, e qualquer que seja o modo porque se olhe,
Lus Filipe, considerado em si mesmo, pelo lado da bondade humana, ficar
sendo, para nos servirmos da velha linguagem da antiga histria, um dos melhores
prncipes que ocuparam um trono.
     O que tem ele contra si? Esse trono. Tirai de Lus Filipe o rei. Fica o homem.
E o homem  bom. Por vezes  bom a ponto de ser admirvel. Muitas vezes, no
meio dos mais graves cuidados, depois de um dia de luta contra toda a diplomacia
de continente, recolhia-se  noite ao seu gabinete, e ali, exausto de fadiga,
combatido pelo sono, o que fazia? Pegava num volumoso caderno e passava a
noite a rever um processo criminal, julgando que era de certo uma grande coisa
resistir  Europa, mas que era maior assunto ainda arrancar um homem ao
carrasco. Obstinava-se contra o seu chanceler; disputava palmo a palmo o terreno
da guilhotina aos procuradores gerais, aos tagarelas da lei, como ele lhes chamava.
A sua mesa estava por vezes coberta de processos, que todos examinava; era para
ele uma aflio, abandonar aquelas miserveis cabeas condenadas. Uma vez, dizia
ele (a mesma testemunha que h pouco indicmos) esta noite ganhei sete. Durante
os primeiros anos do seu reinado, a pena de morte foi como que abolida e o
cadafalso no tornou a erguer-se seno por uma violncia feita ao rei. Como a
Greve desaparecera com o ramo mais velho, foi instituda uma Greve burguesa
sob o nome de Barreira de S. Tiago; porque os homens prticos sentiram a
necessidade de uma guilhotina quase legtima; foi esta uma das vitrias de
Casimiro Prier, que representava os instintos acanhados da burguesia, sob Lus
Filipe que representava os instintos liberais, Lus Filipe tinha notado Beccaria pela
sua mo Depois da mquina Fieschi, costumava ele exclamar: Que pena no ter eu
sido ferido, pois teria ocasio de perdoar! De outra vez, aludindo s resistncias dos
seus ministros, escrevia acerca de um condenado poltico, que  um dos mais
generosos vultos do nosso tempo: O seu perdo est concedido, s me resta obt-lo.
Lus Filipe era afvel como Lus IX, e bom como Henrique IV.
     Ora para ns, na histria, onde a bondade  a prola rara, quem foi bom
quase excede quem foi grande.
     Lus Filipe, tendo sido apreciado severamente por uns, duramente talvez por
outros,  coisa simples que um homem, tambm fantasma hoje, que conheceu
aquele rei, venha depor a seu favor perante a histria; este depoimento, qualquer
que seja,  evidentemente e antes de tudo, desinteressado; um epitfio escrito por
um morto  sincero; uma sombra pode consolar outra sombra, a partilha das
mesmas trevas d o direito de louvor; e  pouco para recear que jamais digam de
dois tmulos no deserto: Este adulou o outro.
    IV
    Fendas nos alicerces



     No momento em que o drama que narramos vai entrar na espessura de uma
das nuvens trgicas, que cobrem os princpios do reinado de Lus Filipe, era
preciso que no houvesse equvocos; era necessrio que este livro se explicasse
sobre aquele rei.
     Lus Filipe tinha entrado na autoridade real, sem violncia, sem aco directa
da sua parte, por efeito de uma transformao revolucionria, evidentemente
muito distinto do fim real da revoluo, mas no qual ele, duque de Orles, no
tivera a mnima iniciativa pessoal. Nascera prncipe e julgava-se eleito rei. Esse
mandato, porm, nem ele o tomou por sua feio nem o arrancou, servindo-se da
fora; ofereceram-lho e ele aceitou, convencido, falsa convico conforme os
nossos princpios, mas, enfim, convencido de que o oferecimento era conforme ao
direito e a sua recusa contrria ao dever. Da uma posse de boa f por parte do rei,
que conscientemente o dizemos junta  boa f do seu ataque por parte da
democracia, d em resultado que o entorpecimento causado pelas lutas sociais
nem pode ser lanado a cargo do rei nem exprobrado  democracia. Um choque
de princpios assemelha-se a um embate de elementos. O oceano defende a gua, a
tempestade defende o ar, o rei defende a realeza, a democracia defende o povo; o
relativo que  monarquia, resiste ao absoluto, que  repblica; a sociedade sangra
neste conflito, mas o que hoje lhe causa sofrimento, ser mais tarde a sua salvao.
E, em todo o caso, no h que censurar os que lutam, um dos dois partidos
engana-se evidentemente; o direito no est, qual colosso de Rodes, sobre as duas
margens ao mesmo tempo, com um p na repblica e outro na realeza; o direito 
indivisvel e est todo de um lado, mas os que se enganam, enganam-se
sinceramente; um cego  tanto um culpado como um vendiano  um salteador.
No imputemos, pois, seno  fatalidade das coisas estas terrveis colises.
Quaisquer que sejam tais tempestades, anda-lhes sempre aliada a
irresponsabilidade humana.
     Terminemos esta exposio.
     O governo de 1830 teve logo um comeo rude. Nascido ontem, teve de
combater hoje. Apenas estabelecido sentiu vagos movimentos de traco no
aparelho de Julho, ainda to recentemente assentado, e to pouco slido.
     A resistncia nasceu no dia seguinte; talvez mesmo estivesse nascida de
vspera.
     De ms em ms aumentava a hostilidade, e de surda tornou-se patente.
     A revoluo de Julho, mal aceita fora da Frana pelos reis, como dissemos,
fora em Frana diversamente interpretada.
     Deus patenteia aos homens as suas vontades visveis nos acontecimentos,
texto obscuro escrito numa lngua misteriosa. Os homens fazem-lhe
imediatamente tradu- es; tradues acanhadas, incorrectas, cheias de erros, de
lacunas e de contra-sensos.
     Poucos espritos compreendem a lngua divina. Os mais sagazes, os mais
tranquilos, os mais profundos, decifram vagarosamente, e quando chegam com o
seu texto, j o trabalho est feito h muito tempo; h j vinte tradues na praa
pblica. De cada traduo nasce um partido, de cada contra-senso uma faco;
cada partido julga possuir o verdadeiro texto, e cada faco acredita ter em si a luz.
     Muitas vezes o prprio poder  uma faco.
     Nas revolues os partidos da ideia velha so como os que tentam nadar
contra a mar.
     Para os partidos velhos que se ligam  hereditariedade pela graa de Deus,
saindo as revolues do direito de revolta, h o direito de revolta contra eles.  um
erro. Porque nas revolues, o revoltado no  o povo, mas sim o rei. Revoluo 
precisamente o contrrio da revolta. Sendo toda a revoluo uma comoo
normal, contm em si a sua legitimidade, que falsos revolucionrios desonram
algumas vezes, mas que persiste, mesmo manchada, que sobrevive mesmo
ensanguentada. As revolues saem, no de um acidente, mas da necessidade.
Uma revoluo  um regresso do fictcio ao real. A revoluo -o, porque 
necessrio que o seja.
     Os velhos partidos legitimistas nem por isso assaltavam menos a revoluo de
1830 com todas as violncias do falso raciocnio. Os erros so excelentes
projcteis.
     Feriam-na com mestria onde ela era vulnervel, na falha da couraa, na sua
falta de lgica; atacavam a revoluo na sua realeza. Gritavam-lhe: Revoluo,
porque tens esse rei? As faces so cegos, cujas pontarias so certeiras.
     Os republicanos soltavam igualmente esse grito. Mas, partindo deles era
lgico.
     O que era cegueira nos legitimistas era perspiccia nos democratas. 1830
fizera bancarrota ao povo. A democracia indignada exprobrava-lho.
     O estabelecimento de Julho debatia-se entre o ataque do passado e o ataque
do futuro. Representava um minuto, arcando de um lado com os sculos
monrquicos, do outro com o direito eterno.
     Alm disto, no exterior, no sendo j a revoluo e tornando-se monarquia,
estava 1830 obrigado a tomar o passo  Europa. Guardar a paz, aumento de
complicao. Uma harmonia exigida como que fora de propsito  muitas vezes
mais onerosa do que uma guerra. Deste surdo conflito, sempre aaimado mas
sempre rugindo, nasceu a paz armada, o ruinoso expediente da cavilizao
suspeitosa de si mesma. A realeza de Julho empinava-se, mesmo apesar de ter nas
parelhas que atiravam gabinetes europeus. Metternich ter-se-ia posto de boa
vontade o travo. Impelida em Frana pelo progresso, impelia na Europa as
monarquias, sempre ronceiras. Rebocada, rebocava.
     Entretanto, no interior, pauperismo, proletariado, salrio, educao,
penalidade, prostituio, sorte da mulher, riqueza, misria, produo, consumo,
repartio, permutao, moeda, crdito, direito do capital, direito do trabalho,
outras tantas questes que se multiplicavam acima da sociedade; pendor terrvel.
     Fora dos partidos polticos propriamente ditos, manifestava-se outro
movimento.
     A fermentao democrtica respondia  fermentao filosfica. A sociedade
escolhida sentia-se sobressaltada como a multido; de diverso modo, mas tanto
como ela.
     Os pensadores meditavam, enquanto o solo, isto , o povo atravessado pelas
correntes revolucionrias, tremia por baixo deles com indefinveis e vagas
convulses epilpticas. Entes pensadores, uns isolados, outros reunidos em famlia
e quase em comunhes, revolviam os problemas sociais, pacfica mas
profundamente: mineiros impassveis, que abriam tranquilamente as suas galerias
at s profundidades de um vulco, apenas incomodados pelas comoes surdas e
pelo fogo entrevisto.
     Esta tranquilidade no era o espectculo menos belo daquela poca agitada.
     Aqueles homens deixavam aos partidos polticos, a questo dos direitos e
ocupavam-se da felicidade.
     O bem-estar do homem era o que eles queriam extrair da sociedade.
     Elevavam as questes materiais, as questes da agricultura, de indstria e de
comrcio, quase  dignidade de uma religio Na civilizao, tal como ela se opera,
um pouco por Deus, muito pelo homem, combinam-se os interesses, agregam-se e
amalgamam-se, de modo que formam verdadeira rocha dura, segundo uma lei
dinmica pacientemente estudada pelos economistas, que so os gelogos da
poltica.
     Os homens que se agrupavam sob diferentes denominaes, mas que se
podem designar todos pelo ttulo genrico de socialistas, tratavam de defender a
rocha dura e de fazer brotar delas as guas vivas da felicidade humana.
     Os seus trabalhos abraavam tudo, desde a questo do cadafalso at  questo
da guerra. Ao direito do homem, proclamado pela revoluo francesa, juntavam
eles o direito da mulher e da criana.
     No causar decerto admirao, que por motivos diversos, no tratemos aqui
a fundo, pelo lado terico, as questes que o socialismo suscitou. Limitamo-nos a
indic-las.
     Todos os problemas estabelecidos pelos socialistas, as vises cosmognicas, a
meditao e o misticismo separados, podem ser reduzidos a dois problemas
principais.
     Primeiro problema:
     Produzir a riqueza.
     Segundo problema:
     Reparti-la.
     O primeiro problema contm a questo do trabalho.
     O segundo a do salrio.
     No primeiro problema trata-se do emprego das foras.
     No segundo a distribuio dos gozos.
     Do bom emprego das foras resulta o poder pblico.
     Da boa distribuio dos gozos resulta a felicidade individual.
     Por boa distribuio,  necessrio entender-se, no a distribuio igual, mas a
distribuio equitativa. A primeira igualdade  a equidade.
     Das duas coisas: poder pblico no exterior, felicidade individual no interior,
resulta a prosperidade social.
     Prosperidade social, quer dizer, homem feliz, o cidado livre, a nao grande.
     A Inglaterra resolve o primeiro destes dois problemas. Cria admiravelmente a
riqueza; mas reparte-a mal. Esta soluo completa s de um lado, condu-la aos
dois extremos: opulncia monstruosa, misria monstruosa. Todos os gozos para
uns, todas as privaes para outros, isto , para o povo; o privilgio, a excepo, o
monoplio, o feudalismo nascendo do prprio trabalho. Situao falsa e perigosa,
que assenta o poder pblico na misria particular, e que enraza a grandeza do
estado nos sofrimentos do indivduo. Grandeza mal composta, onde se combinam
todos os elementos materiais, e na qual no entra nenhum elemento moral.
      O comunismo e a lei agrria julgam resolver o segundo problema.
Enganam-se.
      A sua repartio mata a produo. A partilha igual abole a emulao e por
consequncia o trabalho.  uma repartio feita pelo magarefe, que mata e que
divide.  impossvel atender a estas pretendidas solues. Matar a riqueza no 
dividi-la.
      Os dois problemas necessitam ser resolvidos juntos para serem bem
resolvidos.
      As duas solues querem ser combinadas e no fazerem mais do que uma.
      Resolvei apenas o primeiro destes problemas e sereis Veneza, sereis
Inglaterra.
      Tereis, como Veneza, um poder artificial, ou como a Inglaterra um poder
material; sereis o mau rico. Perecereis por uma via de facto, como pereceu Veneza,
ou por uma bancarrota, como perecer a Inglaterra. E o mundo deixar-vos-
morrer e cair, porque o mundo deixa morrer e cair tudo o que no  seno
egosmo, tudo o que no representa para o gnero humano uma virtude ou uma
ideia.
      Deve entender-se aqui pelas palavras Veneza e Inglaterra, a designao, no
de povos, mas de construes sociais; as oligarquias sobrepostas s naes e no as
naes em si mesmas.
      As naes tm sempre o nosso respeito e a nossa simpatia. Veneza, povo,
renascer; a Inglaterra, aristocracia, cair; mas a Inglaterra, nao,  imortal. Dito
isto, prossigamos.
      Resolvei os dois problemas, animai o rico e protegei o pobre, suprimi a
misria, ponde um termo  explorao injusta do fraco pelo forte, ponde um freio
 inveja inqua do que ainda vai no caminho contra o que j chegou, ajustai
matematicamente e fraternalmente o salrio ao trabalho e o ensino gratuito e
obrigatrio ao crescimento da infncia e fazei da cincia a base da virilidade,
desenvolvei as inteligncias, ocupando ao mesmo tempo os braos, sede
simultaneamente um povo poderoso e uma famlia de homens felizes,
democratizai a propriedade, no abolindo-a mas univer-salizando-a, de modo que
todo o cidado, sem excepo, seja proprietrio, coisa mais fcil do que se julga;
em duas palavras, sabei produzir a riqueza e reparti-la, e tereis ao mesmo tempo a
grandeza material e a grandeza moral, e sereis dignos de vos chamardes Frana.
      Eis o que dizia o socialismo, discordante e superior a algumas seitas que se
transviavam do recto caminho, eis o que ele procurava nos factos e o que esboava
nos espritos.
     Esforos admirveis! Sagradas tentativas!
     Estas doutrinas, estas teorias, estas resistncias, a necessidade inesperada para
o homem de Estado de contar com os filsofos, confusas evidncias, uma poltica
nova a criar, de acordo com o velho mundo, sem demasiado desacordo com o
ideal revolucionrio, uma situao na qual era necessrio cansar Lafayette a
defender Polignac, a intuio do progresso transparente sob a revolta, as cmaras
e a rua, as competncias a equilibrar em torno de si a sua f na revoluo, talvez
no sei que resignao eventual nascida da vaga aceitao de um direito definitivo
superior, a vontade de permanecer, prpria da sua raa, o seu esprito de famlia, o
seu sincero respeito pelo povo, a sua prpria honradez, preocupavam Lus Filipe
quase dolorosamente, e em certos momentos, apesar de forte e corajoso,
acabrunhavam-no sob a dificuldade de ser rei.
     Sentia sob os ps uma desagregao temvel, que no era contudo uma
reduo a p, por isso que a Frana era mais Frana do que nunca.
     O horizonte toldava-se de tenebrosas aglomeraes, havia uma sombra
estranha que avanava continuamente, e se estendia a pouco e pouco sobre os
homens, sobre as coisas, sobre as ideias; sombra que provinha das cleras e dos
sistemas. Tudo que fora prematuramente sufocado, se revolvia e fermentava. Por
vezes a conscincia do homem honrado recolhia a respirao, tal era a morbidez
daquele ar em que os sofismas se aliavam s verdades. Os espritos tremiam com a
ansiedade social, como a folhagem  aproximao da tempestade.
     A tenso elctrica era tal, que em certos momentos o primeiro que aparecia,
um desconhecido, iluminava. Depois tornava a dominar a obscuridade
crepuscular. De vez em quando surdos e profundos rugidos podiam fazer avaliar a
quantidade de raios contidos na nuvem. Tinham decorrido apenas vinte meses
aps a revoluo de Julho; o ano de 1832 abrira-se com um aspecto de iminncia e
de ameaa. A penria do povo, os trabalhadores sem po, o ltimo prncipe de
Conde desaparecido nas trevas, Bruxelas expulsando os Nassau como a Frana os
Bourbons, a Blgica oferecendo-se a um prncipe francs e dada a um prncipe
ingls, o dio russo de Nicolau, por trs de ns dois demnios do Meio-Dia:
Fernando em Espanha, Miguel em Portugal, a terra tremendo na Itlia,
Metternich estendendo a mo sobre Bolonha, a Frana ofendendo a ustria em
Ancona, ao norte no sei que sinistro rudo de marteladas tornando a fechar a
Polnia no seu caixo morturio, em toda a Europa vistas irritadas espreitando a
Frana, a Inglaterra, aliada suspeita, pronta a impelir o que tombasse e a lanar-se
sobre o que casse, o pariato abrigando-se por trs de Beccaria para recusar  lei
quatro cabeas, as flores de liz raspadas da carruagem do rei, a cruz arrancada da
igreja de Nossa Senhora, Lafayette decado, Laffite arruinado, Benjamim Constant
morto na indigncia, Casimiro Prier morto no desalento do poder; a doena
poltica e a doena social declarando-se ao mesmo tempo nas duas capitais do
reino, uma a cidade do pensamento, outra a cidade do trabalho; em Paris a guerra
civil, em Lyo a guerra servil; em ambas as cidades o mesmo claro de fornalha;
uma prpura de cratera na fronte do povo; o Meio-Dia fanatizado, o Oeste
perturbado, a duquesa de Berry na Vendeia, os tramas, as conspiraes, os
levantamentos, a clera, juntavam ao sombrio rumor das ideias o sombrio rumor
dos acontecimentos.



    V
    Factos que do origem  histria e que a histria ignora



     Por fins de Abril estava tudo ainda mais agravado. Tornara-se fervura o que
era fermentao. Desde 1830 que, ora num ponto, ora noutro, se tinham dado
pequenos motins parciais rapidamente sufocados, mas sempre renascentes, o que
era sinal de uma vasta conflagrao subjacente. Alguma coisa terrvel se chocava.
Entreviam-se os lineamentos confusos e ainda mal distintos de uma possvel
revoluo. A Frana fitava os olhos em Paris; Paris deitava a vista para o bairro de
Santo Antnio  que o bairro de Santo Antnio, surdamente aquecido,
principiava de entrar em ebulio.
     As casas de pasto da rua da Charonne, posto a juno dos dois eptetos parea
singular aplicada a casas de pasto, tornavam-se graves e tempestuosas.
     A se questionava sobre o governo, mas pura e simplesmente questionava. A
se discutia publicamente o negcio, para se assentar no que se devia fazer, se
entrar em luta, se ficar em sossego. Havia salas por trs das lojas onde se fazia
jurar aos operrios que ao primeiro grito de alarme se poriam em campo,
batendo-se sem contar o nmero dos inimigos. To depressa era prestado o
juramento, exclamava algum homem sentado a um canto da casa de pasto em voz
que todos ouvissem:
     Assim o entendeste! Assim o juraste! Algumas vezes esses homens
fechavam-se numa sala de alguma casa para isso escolhida, onde se passavam
cenas quase manicas, fazendo-se prestar juramento aos iniciados, para bem seu
e dos pais de famlia. Era a frmula.
     Nas salas inferiores liam-se revistas subversivas e punha-se de rastos o
governo, segundo a expresso de um relatrio secreto desse tempo.
     No era raro ouvirem-se palavras como estas: Eu no sei os nomes dos
chefes.
     Ns c apenas saberemos o dia duas horas antes. Ouvia-se a um operrio:
Somos trezentos; com dez soldos que d cada um fazem cento e cinquenta
francos, que j do para plvora e balas. Outro dizia: No lhe dou seis meses,
no que nem dois Antes de quinze dias pode o governo contar connosco pela proa
Vinte e cinco mil homens j no so arestas. Ouvia-se a outro: Nem sequer me
deito. Toda a noite levo a fazer cartuchos. De tempos a tempos vinham uns
sujeitos bem trajados, diziam com modos de autoridade que no houvesse
novidade at se dar ordem e iam-se embora depois de apertar a mo aos mais
importantes. Nunca se demoravam mais de dez minutos Em voz baixa
trocavam-se frases significativas, como: A rusga vai-se arranjando, a coisa est a
estalar. Era o zumbido que se ouvia por toda a parte nessas reunies, para nos
servirmos da prpria expresso de um dos assistentes. Era tal a exaltao, que
certo dia um operrio exclamou, numa casa de pasto, diante de quem quis ouvir:
Ns no temos armas! Ao que um seu camarada respondeu: Tm-nas os
soldados!, parodiando deste modo, sem tal imaginar, a proclamao de
Bonaparte ao exrcito de Itlia. Quando eles, porm, acrescenta um relatrio,
tinham alguma coisa de maior segredo, no o comunicavam nesses
ajuntamentos. Custa a compreender que poderiam eles ocultar, dizendo
abertamente o que diziam.
     s vezes eram peridicas estas reunies, em algumas das quais nunca se viam
mais que oito ou dez, e sempre as mesmas. Noutras entrava quem quisesse, e por
tal modo se enchia s vezes a sala, que se viam na necessidade de se conservar de
p. Uns concorriam a elas por entusiasmo e paixo; outros porque lhes ficavam
em caminho, quando iam para o trabalho. Do mesmo modo que na Ocasio da
revoluo, havia nessas casas de pasto mulheres patriotas que abraavam os
recm-vindos.
     Mais factos expressivos, porm, se iam manifestando.
     Entrava um homem numa casa de pasto, bebia e dizia ao sair: Tome conta,
patro; no pago eu, mas a revoluo pagar. Numa casa de pasto defronte da rua
da Charonne nomeavam-se agentes revolucionrios, fazendo-se o escrutnio em
barretes.
     Em casa de um mestre de esgrima na rua de Cotte, onde se reuniam alguns
operrios com o fim de se exercitarem, havia um trofu de armas, formado de
espadins de pau, de canas, bengalas e floretes. Um dia desembotaram os floretes.
Dizia nessa ocasio um operrio: Somos vinte e cinco, mas a mim no me
contam, porque me consideram uma mquina. Esta mquina foi depois
Qunisset.
     Fosse o que fosse o que se premeditava ia tomando gradualmente estranha
notoriedade. Um dia dizia uma mulher para outra, andando a varrer o portal da
sua casa: H muito tempo que esses homens no se ocupam seno em fazer
cartuchos.
     No meio da rua liam-se proclamaes dirigidas aos guardas nacionais dos
departamentos. Uma dessas proclamaes era assinada por Burtot, proprietrio
de um armazm de vinho.
     Um dia,  porta de um licorista do mercado Lenoir, um homem com barba
desusada e pronncia italiana, trepava a um marco e lia em voz alta um escrito
singular, que parecia emanar de um poder oculto. Ferviam os aplausos entre os
grupos que se tinham reunido em volta dele. Eis as passagens que mais comoviam
o auditrio, as quais foram recolhidas e notadas: ...Criam-nos obstculos s
doutrinas que professamos, rasgam-nos as proclamaes, exercem a mais
escrupulosa vigilncia sobre quem anda a fix-las para lhes deitar a mo e
encarcer-los. A falta de algodo que se tem feito sentir ultimamente converteu
em nosso favor muitos neutrais.
     ...Andasse o futuro dos povos elaborando na nossa obscura classe. ... Eis
os termos da questo bem definidos: aco ou reaco, revoluo ou
contra-revoluo, pois na nossa poca ningum cr na inrcia, nem na
imobilidade. Em prol ou contra o povo, nisto se cifra a questo, alm da qual no
h outra. ...No dia em que vos no fizermos conta, inutilizai-nos, atirai fora
connosco, mas at ento ajudai-nos a caminhar. Tudo isto publicamente e em
pleno dia.
     Factos se davam ainda mais audaciosos, que por causa da sua mesma audcia
se tornavam suspeitos ao povo. No dia 4 de Abril de 1832, um transeunte subia ao
marco colocado  esquina da rua de Santa Margarida e gritava: Eu sou um
babouvista! Mas o povo, dotado de fino olfacto, por baixo de Babeuf farejava
Gisquet.
     Entre outras coisas, este viandante dizia:
      - Abaixo a propriedade! A oposio da esquerda  cobarde e traioeira. Prega
a revoluo quando pretende alguma coisa.  democrata para que no lhe faam
mal e realista para no combater. Desconfiai dos republicanos, cidados
operrios! So animais ferozes vestidos de hienas!
      - Cala a boca, cidado espio! - gritou um operrio.
      E aquele grito ps termo ao discurso.
      Eram abundantes os incidentes misteriosos.
      Ao cair da noite encontrava um operrio nas imediaes do canal um sujeito
bem trajado que lhe dizia:
      - Para onde vai, cidado?
      - Senhor, no tenho a honra de o conhecer - respondia o operrio.
      - Conheo-te eu.
      E acrescentava:
      - No tenhas receio, que eu sou o agente da junta. H suspeitas de que tu no
s firme e trazem-te o olho em cima; por isso acautela-te de revelar o que quer que
seja.
      Depois apertava a mo ao operrio e partia, dizendo ainda:
      - Brevemente nos tornaremos a encontrar.
      A polcia recolhia diariamente por meio das suas escutas dilogos singulares,
que se repetiam no s nas casas de pasto, mas no meio das ruas.
      - Olha se tratas de te alistar quanto antes dizia um tecelo a um marceneiro.
      - Para qu?
      - Porque no tarda a qualquer dia a haver tiroteio.
      Entre dois viandantes cobertos de andrajos trocavam-se estas notveis
respostas, cheias de aparente jacquerie:
      - Quem nos governa?
      -  o senhor Filipe.
      - No. Quem nos governa  a burguesia.
      Engano seria da parte dos nossos leitores suporem que tomamos a palavra
jacquerie em mau sentido. Os jacques eram os pobres. Ora quem tem fome tem
direito.
      Noutra ocasio viam-se passar dois homens, dizendo um para o outro:
      - Temos um belo plano de ataque.
      De uma conversao ntima entre quatro homens sentados num desvo perto
da barreira do Trono apenas se percebia o seguinte:
      - H-de fazer-se toda a diligncia para que ele no torne a pr os ps em
Paris.
     Ele quem? Temeroso enigma.
     Os principais chefes, porm, como se dizia no bairro, no se mostravam
publicamente. Supunha-se que para as suas deliberaes se reuniam numa casa de
pasto das imediaes do alto de Santo Eustquio, passando por servir de
intermedirio central entre os chefes e o bairro de Santo Antnio um tal Aug,
chefe da Sociedade de Socorros para os alfaiates, na rua de Mondtour. Contudo,
nunca se soube, com certeza, o que havia de verdade a respeito desses chefes, nem
facto algum incontestvel pde invalidar a singular altivez da seguinte resposta
dada algum tempo depois por um acusado perante o tribunal dos Pares:
     - Quem era o seu chefe?
     - Nem conhecia nenhum nem os reconheceria.
     Tudo o que temos dito no passava ainda de palavras, transparentes, sim, mas
vagas; s vezes de frases apanhadas no ar, contos de diz-se ou ouvi dizer.
Outros indcios, porm, se iam revelando.
     Um dia, um carpinteiro, que andava circundando com um tapamento de
madeira um terreno onde se elevava uma casa em construo, achou no cho um
bocado de uma carta rasgada, de que ainda eram legveis as seguintes linhas:
     ... preciso que a junta tome providncias para obstar ao recrutamento que
diferentes sociedades andam fazendo pelas seces.
     E num post-scriptum:
     Comunicam-nos que em casa de um armeiro da rue do Faubourg-Poissonire,
nmero 5 (bis), existem cinco ou seis mil armas, coisa que esta seco no possui.
     O que impressionou, porm, o carpinteiro e deu lugar a que ele desse rebate
do acontecimento aos vizinhos foi que, a pequena distncia do lugar onde achara
o primeiro papel, deu com outro, tambm rasgado e ainda mais significativo, cuja
configurao aqui reproduzimos pelo interesse histrico que em si encerram esses
estranhos documentos:

    QCDE

    Decorem esta lista e depois rasguem-na.
    Os que forem admitidos devero fazer o mesmo logo que para isso lhes dem
ordem.
    Sade e fraternidade.
    u og a1 fe L.
     S passado algum tempo depois destes factos  que as pessoas a quem foi
comunicado o segredo deste achado conheceram a significao das quatro letras
maisculas, as quais exprimiam: quinturies, centuries, decuries, esclarecedores,
e o sentido das letras: u og a1 f, que eram uma data, e queriam dizer 15 de Abril
de 1832.
     Por baixo de cada uma das maisculas viam-se inscritos alguns nomes,
seguidos de indicaes sumamente caractersticos. Deste modo: Q. Bannarel. 8
espingardas. 83 cartuchos. Homem seguro. C. Boubire. 1 pistola. 40 cartuchos. D.
Rollei. 1 florete, 1 pistola, 1 arrtel de plvora. E. Teissier. 1 sabre, 1 patrona.
Exacto. Terreur. 8 espingardas.
     Valente, etc.
     Finalmente, o mesmo carpinteiro encontrou ainda no citado local outro
papel, em que se via escrita a lpis, mas de modo inteiramente legvel, a seguinte
enigmtica lista:
     Unidade. Blanchard: rvore seca, 7.
     Barra. Soize. Sala do Conde.
     Kosciusko. Aubry o magarefe.
     J. J. R.
     Caio Graccho.
     Direito de reviso. Dufond. Four.
     Queda dos Girondinos. Derbac. Maubue.
     Washington. Pinson. 1 pist. 86 cart.
     Marselhesa.
     Saber, do povo. Miguel. Quincampoix. Sabre.
     Hoche.
     Marcai. Plato. rvore seca.
     Varsvia, Tilly, vendilho do Popular.
     Veio, afinal, o honrado burgus em cujas mos dera este papel a saber a
significao da tal lista, que era, ao que parece, a nomenclatura completa das
seces do quarto distrito da Sociedade dos Direitos do Homem, com os nomes e
moradas dos chefes das seces. Hoje, que todos estes factos, ento ocultos, s
pertencem ao domnio da histria, no h inconveniente em faz-los pblicos.
Devemos porm acrescentar que a fundao da Sociedade dos Direitos do
Homem parece ter sido posterior  data em que aquele papel foi encontrado.
Talvez fosse apenas um esboo.
     Em seguida, porm, s palavras, aos ditos e aos indcios escritos, alguns factos
materiais principiaram a transparecer.
    Em casa de um vendilho de ferros velhos da rua Popincourt procedia-se a
uma busca e encontravam-se-lhe na gaveta de uma cmoda sete folhas de papel
pardo, dobradas todas ao comprido e em quarto, encobrindo por baixo vinte e seis
quadrados de papel igual, dobrados em forma de cartuchos, e um outro papel, em
que se lia o seguinte:
    Salitre
    12 onas Enxofre 2 

    Carvo 2 1/2  gua
    2

         O auto da apreenso dizia que a gaveta exalava activssimo cheiro de
plvora.
     Um pedreiro que voltava para casa, no fim do trabalho, esquecia-lhe um
embrulhinho sobre um banco da ponte de Austerlitz. O embrulho era levado para
o corpo da guarda. Abriam-no e achavam dois dilogos impressos, com a
assinatura Lahautire, uma cantiga intitulada: Associai-vos, operrios, e uma caixa
de folha de Flandres, cheia de cartuchos.
     Certo operrio, bebendo com um companheiro, dizia-lhe que o apalpasse
para ver como estava quente; o outro apalpava-o e achava-lhe a coronha duma
pistola por baixo da blusa.
     Num fosso do boulevard, entre o Pre Lachaise e a barreira do Trono, no stio
mais deserto, umas crianas brincando, descobriram debaixo de um monto de
lixo e cavacos uma forma de balas, um molde de pau para fazer cartuchos, uma
escudela contendo alguns gros de plvora, e uma panela de ferro fundido, em
cujo fundo se viam evidentes sinais de chumbo derretido.
     Os agentes de polcia penetraram de improviso s cinco horas da manh, em
casa de um tal Pardon, mais tarde seccionrio da seco Barricada-Merry, que se
fez matar na insurreio de Abril de 1834, e acharam-no de p junto da cama
tendo na mo os cartuchos que estava fazendo.
      hora em que os operrios costumavam descansar houve quem presenciasse
a seguinte cena passada entre dois homens que se encontraram entre a barreira de
Picpus e a de Charenton, num caminho limitado por duas paredes, ao p de uma
casa de pasto que tem  porta um bilhar chins. Um deles tirou debaixo da blusa
uma pistola e entregou-a ao outro. Na ocasio em que a entregava, reparou que a
transpirao do peito havia comunicado certa humidade  plvora. Escorvou
novamente a pistola, e os dois homens em seguida separaram-se.
     Um tal Gallais, morto depois na rua Beaubourg, no conflito de Abril,
gabava-se de ter em casa setecentos cartuchos e vinte e quatro pederneiras de
espingarda. O governo recebeu um dia o aviso de que tinham sido distribudas
armas no arrabalde, e duzentos mil cartuchos. Na semana seguinte foram
distribudos trinta mil. O que 
     notvel  que a polcia no apreendeu nem um s. Uma carta interceptada
dizia o seguinte:
     No vem longe o dia em que, no espao de quatro horas, estaro em armas
oitenta mil patriotas.
     Esta fermentao era pblica e podia-se dizer que quase tranquila. A esta crise
ainda subterrnea, mas j perceptvel, no faltava a mnima singularidade. Os
burgueses falavam pacificamente com os operrios acerca do que se preparava.
Diziam-lhe: Como vai a revolta?, no tom em que diriam: Como est sua mulher?
     Um homem com armazm de mveis na rua Moreau, perguntava:
     - Ento quando atacam vocs?
     Outro lojista dizia:
     - No tarda que ataquem. Sei-o com toda a certeza. H um ms eram vocs s
quinze mil, agora so vinte e cinco mil.
     Oferecia depois a sua espingarda, e um vizinho oferecia uma pistola, que
queria vender por sete francos.
     Entretanto a febre revolucionria crescia. No havia ponto nenhum de Paris
ou da Frana que estivesse isento dela. A artria batia em toda a parte. Ao modo
de certas membranas que nascem de determinadas inflamaes e se formam no
corpo humano, assim comeava a estender-se pelo pas a rede das sociedades
secretas. Da associao dos Amigos do Povo, pblica e secreta ao mesmo tempo,
nascia a Sociedade dos Direitos do Homem, a qual datava assim uma das suas
ordens dos dia: Pluvioso, do ano 40 da era republicana, que devia sobreviver
mesmo s sentenas do tribunal que pronunciava a sua dissoluo, e que no
hesitava em dar s suas seces nomes significativos como estes:
     Lanas.
     Rebate.
     Pea de alarme.
     Barrete frgio.
     21 de Janeiro.
     Mendigos.
     Vadios.
     Para a frente.
     Robespierre.
     Nvel.
     Avante.
     Da Sociedade dos Direitos do Homem originava-se a Sociedade de Aco.
Estes eram os impacientes, que no esperavam pelos outros, para irem adiante.
Outras sociedades se recrutavam entre as grandes sociedades mes. Os
seccionrios queixavam-se do muito que os dividiam. No nmero das que em
ltimo lugar indicamos contava-se a Sociedade Gaulesa e a junta organizadora das
municipalidades; as associaes a favor da liberdade de imprensa, a favor da
liberdade individual, a favor da instruo do povo, contra os impostos indirectos.
Afora estas, a Sociedade dos Operrios Igualitrios, que se dividia em trs
fraces: Igualitrios, Comunistas e Reformistas.
     Em seguida, o Exrcito das Bastilhas, espcie de corte militarmente
organizada, na qual cada cabo comandava quatro homens, cada sargento dez, cada
alferes vinte, cada tenente quarenta; nunca havia acima de cinco homens que se
conhecessem Criao em que a precauo se combinava com a audcia e em que
como que transparece o gnio de Veneza. A junta central, que era a cabea, tinha
dois braos, a Sociedade de Aco e o Exrcito das Bastilhas. Entre estas
sociedades republicanas intrometia-se uma associao legitimista, denominada
dos Cavaleiros da Fidelidade, que, conhecida entre elas, era repudiada.
     As sociedades estabelecidas em Paris ramificavam-se pelas principais cidades.
     Lyon, Nantes, Lille e Marselha tinham a sua Sociedade dos Direitos do
Homem, a Carbonria e a dos Homens Livres. Em Aix havia uma sociedade
revolucionria chamada a Cougourde, cujo nome j tivemos ocasio de
pronunciar.
     Em Paris no se apresentava menos tumultuoso do que o bairro de Santo
Antnio o de S. Marcai, nem se notava menos movimento nas escolas que nos
bairros.
     Serviam de pontos de reunio para os estudantes o caf da rua de S. Jacinto e
o botequim dos Sete Bilhares, situado na rua dos Maturinos de S. Tiago No caf
Musam, como se viu, reunia-se ali a Sociedade dos Amigos do ABC, filiada com
os mutualistas de Angers e a Cougourde de Aix Os mesmos rapazes, como
tambm j dissemos, se reuniam num restaurante das imediaes da rua de
Mondtour, chamado de Corinto.
     Essas reunies eram secretas As outras, porm, eram o mais pblicas possvel,
ousadia de que o leitor pode formar ideia pelo seguinte fragmento de um
interrogatrio, feito por ocasio de ulteriores processos:
     - Onde teve lugar a reunio?
     - Na rua da Paz.
     - Em que casa?
     - No meio da rua.
     - Quais eram as seces que se achavam presentes?
     - Uma s.
     - Qual?
     - A seco Manuel.
     - Quem era o chefe?
     - Eu.
     -  demasiado jovem para por si s ter tomado a grave resoluo de atacar o
governo. Donde recebia as instrues?
     - Da junta central.
     O exrcito era igualmente minado, do mesmo modo que a populao, como
depois o provaram os movimentos de Beaufort, de Lunville e pinal Contava-se
com o regimento 52, com o 5, com o 8, com o 37 e o 30 de infantaria ligeira Na
Borgonha e nas cidades do Meio-Dia plantava-se a rvore da liberdade, que
consistia num mastro com um barrete vermelho em cima.
     Eis aqui qual era a situao que o bairro de Santo Antnio, mais que nenhum
outro grupo de populao, tornava sensvel e acentuava, como em princpio
dissemos.
     Era aquele o foco.
     Este antigo bairro, populoso como um (formigueiro, laborioso, animoso e
bravo como um enxame de abelhas, rumorejava com as delongas e ardia em
desejos de uma comoo Era tudo agitao, sem que, todavia, por isso o trabalho
sofresse interrupo.
     No h palavras que possam dar ideia da vivaz e sombria fisionomia daquelas
massas laboriosas. Existem naquele bairro indigncias pungentes, abrigadas pelos
tectos das mansardas, mas tambm nele h inteligncias dotadas de raro ardor. 
especialmente entre indigncia e inteligncia que mais perigoso se torna que se
toquem os extremos.
     Outros motivos se davam ainda para a agitao do bairro de Santo Antnio.
     Sobre ele iam influir as crises comerciais, as falncias, as execues e a falta de
trabalho, inerentes aos grandes abalos polticos. Em tempos de revoluo, a
misria  simultaneamente causa e efeito. O golpe que descarrega, sobre ela vem
repercutir. Parecia que aquela populao, cheia de altiva virtude, no mximo grau
susceptvel de calrico latente, sempre pronta a lanar mo das armas, rpida nas
exploses, irritada, sombria, minada, s parecia esperar a queda de uma fasca. 
impossvel, todas as vezes que pelo horizonte flutuam certas centelhas, impelidas
pelo tufo dos acontecimentos impedir o pensamento de cogitar no bairro de
Santo Antnio e no temeroso acaso que colocou s portas de Paris aquele paiol de
ideias e sofrimentos.
     Gozam de histrica notoriedade as casas de pasto do bairro de Santo
Antnio, casas onde em tempos revoltos, os que as frequentam mais se
embriagam de palavras que de vinho. Circula naquele ambiente como que um
esprito proftico, um eflvio do futuro, que dilata os coraes e engrandece as
almas. As tabernas do arrabalde de Santo Antnio assemelham-se quelas do
monte Aventino, construdas sobre o antro de sibila e que se comunicam com os
profundos sopros sagrados; tabernas cujas mesas eram quase tripodes e onde se
bebia o que Ennio chama vinho sibilino.
     O arrabalde de Santo Antnio  um reservatrio de povo. O abalo
revolucionrio produz ali fendas por onde corre a soberania popular. Esta
soberania pode fazer mal, engana-se como qualquer outra, mas, mesmo
desencaminhada, conserva-se sempre grande. Pde dizer-se dela como do ciclope
cego, Ingens.
     Em 93, segundo a ideia que flutuava era boa ou m, segundo era o dia do
fanatismo ou do entusiasmo, assim saam do arrabalde de Santo Antnio legies
selvticas ou bandos hericos Selvagens. Expliquemo-nos sobre esta palavra.
Aqueles homens eriados, que nos dias genesacos do caos revolucionrio,
esfarrapados, rugidores, ferozes, de cassette erguido, de chuo ao alto, se
arremessavam sobre Paris transtornado, o que queriam? Queriam o fim das
opresses, o fim das tiranias, o fim, do direito da fora, o trabalho para o homem,
a instruo para a criana, a doura social para a mulher, a liberdade, a igualdade,
a fraternidade, o po para todos, a ideia para todos, tornar o mundo em den,
queriam o progresso; e essa coisa santa, boa e suave, o progresso, reclamavam-na
impacientes, fora de si mesmos, terrveis, semi-nus, com a maa em punho e o
rugido na boca. Eram selvagens, sim mas selvagens da civilizao.
     Proclamavam como furiosos o direito; queriam, ainda mesmo por meio do
terror e do susto, forar o gnero humano a entrar no paraso. Pareciam brbaros
e eram salvadores. Reclamavam luz com a mscara da noite.
     Em face destes homens, ferozes, convimos, e medonhos pelo bem, h ali
outros homens, risonhos, cobertos de bordados, de oiro, de fitas, de meias de seda,
de plumas brancas, de luvas amarelas e de sapatos de polimento, que encostados a
uma mesa coberta de veludo e junto de um fogo de mrmore, insistem
vagarosamente pela manuteno e conservao do passado, da Idade Mdia, do
direito divino, da pena de morte, da guerra, glorificando a meia voz e mui
civilmente o sabre, a fogueira e o cadafalso. Quanto a ns, se fssemos obrigados 
opo, entre os brbaros da civilizao e os civilizados da barbrie,
pronunciar-nos-amos pelos brbaros.
     Mas, graas ao cu,  possvel optar ainda por outra coisa. No h necessidade
de nenhuma queda a prumo, nem para diante nem para trs. Nem despotismo
nem terrorismo. Queremos o progresso em declive suave. Deus prov a isto.
Suavizar os declives,  ao que se reduz toda a poltica de Deus.



    VI
    Enjolras e os seus ajudantes



     Enjolras, pouco mais ou menos por esta poca, em vista do acontecimento
possvel, fez uma espcie de recenseamento misterioso.
     Estavam todos em concilibulos no caf Musain.
     Misturando com as suas palavras algumas metforas meio enigmticas, mas
significativas, Enjolras disse:
     - Convm saber em que altura se est e com quem se pode contar. Se acaso se
querem combatentes,  preciso faz-los. Ter com que ferir. Isto no pode ser
prejudicial. Os que passam tm mais probabilidades de levar marradas quando
encontram bois no caminho, do que quando ali os no h. Assim, tratemos de
conter o rebanho.
     Quantos somos ns? Nada de deixar esse trabalho para amanh. Os
revolucionrios devem ser sempre apressados; o progresso no tem tempo a
perder. Desconfiemos do inesperado. No nos deixemos surpreender
desprevenidos. Trata-se de assentar todas as costuras que temos feito e de ver Se
esto seguras. Isto  assunto que deve ser decidido hoje. Courfeyrac, tu irs ter
com os politcnicos, que  o seu dia de sada.
    Hoje  quarta-feira. Fenilly vai falar com os da Glacire, no  verdade?
Combeferre prometeu-me que iria a Picpus: h l um completo e excelente
formigueiro. Bahorel visitar a Estrapade. Provaire, os maos esfriam: dar-nos-s
notcias da loja da rua de Santo Honorato de Grenelle. Joly ir  clnica de
Dupuytren e tomar o pulso  escola de medicina. Bossuet dar um passeio pelo
Palcio da Justia e. conversar com os praticantes. Eu encarrego-me de
Cougourde.
    - Est tudo determinado? - inquiriu Courfeyrac.
    - Ainda no.
    - O que falta?
    - Uma coisa importantssima.
    - O que ? - perguntou Combefarre.
    - A barreira do Maine - respondeu Enjolras.
    Enjolras conservou-se um momento como absorvido pelas suas reflexes e
depois continuou:
    - Na barreira do Maine h canteiros e pintores praticantes das oficinas de
escultura.  uma famlia entusiasta, mas sujeita a resfriamentos. No sei o que tm
h certo tempo. Creio que pensam noutra coisa. Vo esmorecendo de todo.
Passam o tempo de que podem dispor a jogar o domin. Era urgente ir dizer-lhe
alguma coisa, mas com finura.  em casa de Richefeu que eles se renem.
Encontram-se ali entre o meio-dia e a uma hora. Ser necessrio soprar aquelas
cinzas. Tinha contado para isso com aquele abstracto Mrio, que apesar de tudo 
excelente, mas j no aparece.
    Precisava de algum que fosse  barreira do Maine, mas no tenho ningum -
Aqui estou eu - disse Grantaire.
    - Tu?
    - Eu, sim!
    - Tu, doutrinares republicanos! Tu, aqueceres, em nome dos princpios,
coraes frios!
    - Porque no?
    - Pois tu podes servir para alguma coisa?
    - Tenho essa vaga ambio - disse Grantaire.
    - Tu no crs em nada - Creio em ti.
    - Queres prestar-me um servio, Grantaire?
    - Todos. At engraxar-te as botas.
     - No te envolvas com os nossos trabalhos. Coze o teu absinto - s um
ingrato, Enjolras.
     - Tu serias homem capaz de ir  barreira do Maine? Serias capaz disso?
     - Sou capaz de descer a rua dos Grs, de atravessar a praa S. Miguel, de
obliquar pela rua do Senhor Prncipe, de tomar pela rua de Assas, de chegar  rua
de Cherche-Midi, de deixar atrs de mim o conselho de guerra, seguir depois pelas
Tulherias Velhas, de percorrer o boulevard, de seguir pela calada do Maine, de
passar a Barreira e de entrar em casa de Richefeu. Sou capaz disto. Os meus
sapatos so capazes de tudo.
     - Tens algum conhecimento com aqueles companheiros da casa Richeifeu?
     - Pouco. Apenas nos tratamos por tu.
     - Ento que lhes dirs?
     - Ora essa? Falar-lhes-ei de Robespierre, de Danton! Falar-lhes-ei dos
princpios.
     - Tu!
     - Eu, sim! Mas vocs no me fazem justia. Quando me meto nisso sou
terrvel!
     Tenho lido Prudhomme, conheo o Contrato Social e sei de cor a
constituio do ano segundo. A liberdade do cidado termina onde a liberdade
de outro cidado comea. Julgas que sou algum bruto? Olha que tenho um velho
assinado na minha gaveta. Os direitos do homem, a soberania do povo, com mil
demnios! Sou at um tanto hebertista. Durante seis horas de relgio na mo,
posso repisar coisas soberbas.
     - S srio disse Enjolras.
     - Sou feroz - respondeu Grantaire.
     Enjolras, aps alguns segundos, fez o gesto de um homem que adopta uma
resoluo.
     - Grantaire - disse ele gravemente - consinto em experimentar-te. Irs 
barreira do Maine.
     Grantaire morava numa estalagem prxima do caf Musain. Saiu e voltou
cinco minutos depois; tinha ido a casa vestir um colete  Robespierre.
     - Vermelho - anunciou ele, entrando e fitando Enjolras.
     Depois, com um gesto enrgico, apoiou sobre o corao as duas bandas
escarlates do colete. E, aproximando-se de Enjolras, disselhe ao ouvido:
     - Fica descansado.
     Ps em seguida o chapu resolutamente na cabea e saiu.
     Um quarto de hora depois estava deserta a sala interior do caf Musain.
Todos os Amigos do A B C tinham sado, indo cada um cumprir a sua misso.
Enjolras, que reservara para si a Cougourde, foi o ltimo que saiu.
     Os da Cougourde de Aix, que estavam em Paris, reuniam-se ento na plancie
de Issy, numa das pedreiras abandonadas, to numerosas naquele ponto de Paris.
     Enjolras durante o caminho que seguia para aquele ponto de reunio, ia
consigo mesmo passando em revista a situao. A gravidade dos acontecimentos
era visvel.
     Quando os factos, prdromos de uma espcie de doena social latente,
movem surdamente, basta a menor complicao para os fazer deter e parar.
Fenmeno, de onde saem os desabamentos e as renascenas. Enjolras entrevia um
bulcio luminoso sob os vus tenebrosos do futuro. Quem sabe? O momento
aproxima-se talvez. O povo reconquistando o direito. Que belo espectculo! A
revoluo retomando majestosamente a Frana e dizendo ao mundo: Amanh se
continuar! Enjolras estava contente. A fornalha aquecia. Naquele mesmo
instante havia um rastilho de amigos espalhado por Paris. Compunha no
pensamento com a eloquncia filosfica e penetrante de Combeferre, o
entusiasmo cosmopolita de Feully , a loquacidade de Courfeyrac, o riso de
Bahorel, a melancolia de Joo Prourvaire, a cincia de Joly e os sarcasmos de
Bossuet, uma espcie de cintilao elctrica, produzindo fogo ao mesmo tempo
em toda a parte. Tudo ia bem. Isto f-lo pensar em Grantaire.  verdade, disse
ele para consigo, a barreira do Maine fica prxima do meu caminho. Se eu desse
um pulo  casa de Richefeu? Vejamos sempre o que faz Graintaire e em que
alturas est.
     Dava uma hora no relgio de Vaugirard quando Enjolras chegava  loja de
bebidas de Richefeu. Empurrou a porta, entrou, cruzou os braos, deixando fechar
por si a porta, que lhe bateu nas costas, e percorreu com a vista a sala, cheia de
mesas, de homens e de fumo.
     No meio de todo aquele nevoeiro ressoava uma voz vivamente cortada por
outra.
     Era Grantaire dialogando com um adversrio. Grantaire estava sentado em
frente de outro indivduo, a uma mesa de mrmore Sant'Ana, coberta de
domins, e dava socos na mesa; eis o que Enjolras ouviu:
     - Senas.
     - Quatro.
     - Porco! J no tenho.
    - Ests morto. Dois.
    - Seis, - Trs.
    - s.
    - Agora jogo eu.
    - Quatro pontos.
    - Custosamente.
    - Agora, tu.
    - Cometi um grande erro.
    - Vais bem.
    - Quinze.
    - Sete de mais.
    - Isso faz-me vinte e dois. (Com ar pensativo): Vinte e dois!
    - No esperavas as senas. Se as houvesse posto no princpio tinha mudado
todo o jogo.
    - Duques.
    - s.
    - O s! Bem; e cinco.
    - No tenho.
    - Parece-me que foste tu que puseste?
    - Foi.
    - Branco.
    - Que fortuna! Ah, tens ainda sorte! (Prolongada meditao.) Dois.
    - s.
    - Nem cinco nem s. Isto  estpido para ti.
    - Domin.
    - Os demnios te levem!
    LIVRO SEGUNDO
    Eponina



    I
    O campo da Cotovia



     Mrio assistira ao inesperado desenlace da cilada de que tinha dado parte a
Javert para os efeitos necessrios, mas apenas este deixou o casaro, conduzindo
consigo os presos em trs carros, tambm ele saiu cautelosamente de casa, e como
apenas fossem nove horas da noite, dirigiu-se  de Courfeyrac. Courfeyrac j no
era o imperturbvel habitante do pas latino; tinha mudado para a rua dos
Vidraceiros por motivos polticos. A rua dos Vidraceiros era um dos pontos
onde a insurreio nesse tempo achava favorvel acolhimento. Mrio disse a
Courfeyrac: Venho c ficar contigo esta noite. Courfeyrac tirou um cobertor de
cima da cama dele, que tinha dois, estendeu-o no meio do cho e disse: Aqui
tens.
     No dia seguinte pela manh, apenas deram sete horas, voltou Mrio ao
casaro, pagou o resto do aluguer e o que devia a mame Bougon, mandou
transportar num carro os livros, a cama , a mesa, a cmoda e as duas cadeiras, e
saiu sem deixar dito para onde se mudava; de modo que, quando Javert nessa
mesma manh ali voltou para interrogar Mrio sobre as ocorrncias do dia
antecedente, deparou apenas com mame Bougon, que lhe respondeu: J c no
mora! Ao ver o procedimento do rapaz, a boa velha Bougon ficou convencida de
que Mrio no era inteiramente estranho aos planos dos ladres capturados na
noite antecedente.
     - Quem tal havia de dizer?! - exclamava ela para as vizinhas. - Um rapaz que
me parecia mesmo uma menina.
     Duas razes operaram em Mrio e o resolveram  sua repentina mudana.
     Primeira, porque ficara com horror quela casa, em que de to perto e em
todas as suas fases tinha visto, no seu desenvolvimento mais repelente e feroz,
uma fealdade social ainda mais medonha talvez do que o mau rico: o mau pobre.
Segunda, porque no queria figurar no processo, que provavelmente se ia seguir
nem ser levado a depor contra Thenardier.
     Javert, que sups que o rapaz, cujo nome lhe esquecera, tivera medo e fugira,
ou talvez no recolhesse a casa na ocasio da cilada, fez ainda alguns esforos para
dar com ele, porm no conseguiu encontr-lo.
     Passou-se um ms e ainda outro. Mrio conservava-se em casa de Courfeyrac
Soubera por um advogado praticante, frequentador habitual da sala dos Passos
Perdidos, que Thenardier estava no segredo. Todas as segundas-feiras, Mrio
mandava entregar na secretaria da Force cinco francos para Thenardier.
     Mrio no tendo j dinheiro, pedia os cinco francos a Courfeyrac. Era a
primeira vez que pedia dinheiro emprestado. Aqueles cinco francos peridicos
eram um duplo enigma para Courfeyrac, que os dava e para Thenardier que os
recebia Para quem ir isto? pensava Courfeyrac. Donde me poder vir este
dinheiro? perguntava Thenardier a si mesmo.
     No fim de tudo, Mrio sentiu-se profundamente magoado.
     Tudo desaparecera novamente. No via nada diante de si; a sua vida
achava-se outra vez mergulhada no mistrio em que caminhava s apalpadelas.
Num momento tornara a ver muito perto de si, naquela escurido, a jovem que
amava, o velho que parecia seu pai, os entes desconhecidos que eram o seu nico
interesse e a sua nica esperana no mundo; e quando julgara t-las seguras,
ambas aquelas sombras lhe haviam sido arrebatadas por um sopro. Nem mesmo
uma fagulha de certeza e de verdade sara do mais medonho choque Nenhuma
conjectura possvel. Nem sequer sabia o nome que julgava saber. Com toda a
certeza, este nome no era rsula. Cotovia era uma alcunha. E que deveria pensar
do velho? Ocultava-se, com efeito, da polcia?
     Ento, Mrio recordou-se do operrio de cabelos brancos, que encontrara nas
proximidades dos Invlidos. Tornava-se ento provvel que o senhor Leblanc e
aquele operrio fossem o mesmo homem. Logo, disfarava-se? Aquele homem
tinha lados hericos e lados equvocos. Porque no chamara ele por socorro?
Porque tinha fugido?
     Era ou no o pai da jovem? Enfim, seria realmente o homem que Thenardier
julgara reconhecer? Ter-se-ia Thenardier enganado? E estas interrogaes eram
outros tantos problemas insolveis.  verdade que tudo isto no diminua o
encanto anglico da jovem do Luxemburgo. Pungente angstia: Mrio tinha uma
paixo no corao, e nos olhos a escurido. Era impelido, era atrado e no podia
mover-se. Tudo se desvanecera, excepto o amor. Do prprio amor perdera ele os
instintos e as iluminaes sbitas. Ordinariamente esta chama que nos queima,
alumia-nos tambm um pouco e projecta exteriormente algum claro til. Mrio
nem mesmo j ouvia os prprios conselhos da paixo. J no dizia: se eu fosse, se
eu tentasse? Aquela a quem j no podia chamar rsula estava evidentemente em
alguma parte; mas coisa nenhuma indicava a Mrio o lado por onde deveria
procurar. Toda a sua vida se resumia agora em duas palavras: uma incerteza
absoluta num nevoeiro impenetrvel. Aspirava sempre tornar a v-la, a ela, mas
no o esperava.
     Para cmulo de infelicidade via-se outra vez prximo da misria. Sentia-lhe j
muito perto, por trs de si, o hlito gelado. Em todos estes tormentos e j desde h
muito tempo, interrompera o trabalho;  um hbito que se perde. Hbito fcil de
deixar, difcil de readquirir.
     Uma certa quantidade de meditao  boa, como um narctico em dose
discreta.
     A meditao, as febres, algumas vezes acerbas, da inteligncia em aco,
fazem nascer no esprito um vapor brando e fresco que corrige os contornos
demasiadamente speros no pensar puro, preenchem num e outro lado lacunas e
intervalos, ligam os conjuntos e esfumam os ngulos das ideias. Mas a meditao
demasiada submerge e afoga. Desgraado do trabalhador pelo esprito, que se
deixa cair todo inteiro do pensar na abstraco! Julga que subir de novo
facilmente, e diz consigo que tanto vale uma coisa como outra. Que erro!
     O pensar  o trabalho da inteligncia, a distraco  a sua voluptuosidade.
     Substituir o pensamento pela distraco  confundir o veneno com o
alimento.
     Mrio, se bem se recordam, comeara por aqui. Viera-lhe a paixo e acabara
de o precipitar nas quimeras sem objecto e sem fundo. J no saa de casa seno
para sonhar. Produo perigosa. Voragem tumultuosa e estagnante. E,  medida
que o trabalho diminua, cresciam as necessidades. Isto  uma lei. O homem no
estado de abstraco  naturalmente prdigo e insensvel; o esprito distendido,
no pode conservar a vida cerrada. Neste modo de ver h uma mistura de bem e
de mal, porque, se a indolncia  funesta, a generosidade  s e boa. Mas o homem
pobre, generoso e nobre, que no trabalha, est perdido. Os recursos esgotam-se,
as necessidade surgem.
     Declive fatal onde os mais honestos e mais firmes so arrastados, tanto como
os mais fracos e viciosos, e que termina num de dois antros: o suicdio ou o crime.
     O homem nestas circunstncias,  fora de sair de casa para sonhar, chega um
dia em que sai para se lanar  gua Os excessos do sonho produz os Escousse e os
Lebras.
     Mrio descia esse declive vagarosamente, com os olhos fitos no que no via.
     Parece estranho o que acabamos de escrever, e contudo  verdadeiro. A
lembrana de um ente ausente acende-se nas trevas do corao; quanto mais
completamente desapareceu aquele ente, tanto mais brilhante  a lembrana; a
alma desesperada e obscura v no seu horizonte aquela luz, estrela da noite
interior. Ela! Eis a que se reduzia todo o pensar de Mrio. No pensava noutra
coisa; conhecia confusamente que a sua velha casaca se tornava casaca impossvel,
e que a nova se tornava velha, que iam estando muito usadas as camisas, o chapu
e as botas, isto , que tinha a vida gasta, e dizia consigo: Se ao menos pudesse
tornar a v-la antes de morrer! S lhe restava a doce ideia de que ela o amava,
que os seus olhos lho tinham dito, que ela no lhe conhecia o nome, mas que lhe
conhecia a alma, e que talvez, j onde estava, qualquer que fosse esse lugar
misterioso, ainda o amava. Quem sabe se pensava nele como ele pensava nela?
Algumas vezes, nas horas inexplicveis, como as tm todo o corao que ama, no
tendo seno razes para estar triste, e sentido contudo um obscuro
estremecimento de alegria, dizia consigo: So os seus pensamentos que vm ter
comigo Depois acrescentava: Talvez os meus cheguem at ela Esta iluso, a que
ele encolhia os ombros quase no mesmo momento, conseguia todavia lanar-lhe
na alma certos raios de luz, que se assemelhavam  esperana.
     De tempos a tempos, principalmente  hora da tarde que mais entristece os
sonhadores, deixava cair num caderno de papel, onde no havia outra coisa, as
mais puras, as mais impessoais, as mais ideais das quimeras, de que o amor lhe
enchia o crebro. Chamava a isto escrever-lhe.
     No se deve sopor que na sua razo houvesse desconcerto. Pelo contrrio.
     Perdera a faculdade de trabalhar e de se dirigir firmemente para um fim
determinado, mas tinha mais do que nunca discernimento e rectido, Mrio via a
uma luz tranquila e real, ainda que singular, tudo o que lhe passava pelos olhos,
ainda mesmo os factos ou os homens mais indiferentes; dava sobre tudo uma
opinio justa, com uma espcie de abatimento honesto desinteressadamente
cndido. O seu juzo quase desligado de esperana, mantinha-se alto e pairava.
     Nesta situao de esprito nada lhe escapava, nada o iludia, e a todos os
instantes descobria o fundo da vida, da humanidade e dos destinos. Felizes
daqueles, mesmo nas angstias, a que Deus deu uma alma digna do amor e da
desventura! Quem no tem visto as coisas deste mundo e o corao dos homens a
esta dupla luz, no tem visto coisa alguma, no tem visto nada verdadeiro.
     A alma que ama e sofre est no estado sublime.
     No fim de tudo, os dias sucediam-se e no traziam nada de novo. Parecia-lhe
unicamente, que cada vez se limitava mais o sombrio espao que lhe restava a
percorrer. Julgava entrever j indistintamente a beira do precipcio sem fundo.
     - Meu Deus! - repetia ele consigo. - Pois eu no a tornarei a ver antes disso?
     Quem, depois de subir pela rua de S. Tiago, deixa ao lado a barreira,
costeando algum tempo  esquerda o antigo boulevard interior, entra na rua da
Sade, chega  Glacire pouco para c do regato dos Gobelinos, encontra um
despraiado, que na extensa e montona cintura dos boulevards de Paris seria o
nico stio em que a Ruysdal apeteceria sentar-se.
      que naquele local h esse no sei qu que nos torna graciosas as coisas. Um
prado verdejante, atravessado por cordas sustentando alguns panos esburacados,
que os moradores do lugar ali vm estender para enxugar ao vento; uma antiga
granja de jardineiros, edificada no tempo de Lus XIII, com o seu grande telhado
extravagantemente furado de guas-furtadas; algumas sebes arruinadas, uma
pouca de gua entre choupos, algumas mulheres, um sussurro de vozes e de
risadas, no horizonte o Panteon, a rvore dos Surdos-Mudos, o Vale de Graa,
negro, colossal, extravagante, divertido, magnfico e, no fundo, o severo coruchu
quadrado das torres de Nossa Senhora.
     Como o lugar vale a pena de ser visto, ningum l vai; apenas algum carro ou
algum carreteiro de quarto em quarto de hora Sucedeu, porm, que uma ocasio
os solitrios passeios de Mrio o encaminharam para aquele despraiado. Nesse dia
via-se no boulevard uma raridade, um viandante, a quem Mrio, vagamente,
impressionado pelo atractivo quase selvagem do local, perguntou:
     - Como se chama este lugar?
     - Campo da Cotovia - respondeu o viandante.
     E acrescentou:
     - Foi aqui onde Ulback matou a pastora de Ivry.
     Mrio, porm, depois da palavra Cotovia, nada mais ouvira. Tem destas
sbitas congelaes o estado meditativo, congelaes que uma palavra  suficiente
para produzir. O pensamento condensa-se todo repentinamente em volta de uma
ideia, tornando-se para logo impenetrvel a qualquer outra percepo. Cotovia era
o nome que Mrio, nas fundas e melanclicas cogitaes em que se embrenhava,
substitura ao de rsula.
     - Ah,  o campo dela! - disse ele na espcie de pasmo desassisado peculiar a
estes misteriosos apartes.  Ento saberei aqui onde ela mora.
     Tal arrazoado era absurdo, mas irresistvel.
     E principiou a ir todos os dias ao tal Campo da Cotovia.
    II
    Formao embrionria dos crimes na incubao das prises



      O triunfo obtido por Javert no casebre Gorbeau parecera completo, mas no
o fora.
      Em primeiro lugar e era esta a principal inquietao de Javert, no prendera o
prisioneiro. O assassinado que se evade torna-se mais suspeito do que o assassino;
e era provvel que aquele personagem, to preciosa captura para os ladres, no
fosse decerto menos boa presa para a autoridade Depois, Montparnasse tinha
escapado a Javert. Era preciso esperar outra ocasio para deitar a mo quele
peralta do diabo.
      Montparnasse, com efeito, tendo encontrado Eponina, que estava de vigia
debaixo das rvores do boulevard, levara-a consigo, preferindo ser Nmorin com
a filha a ser Shinderhannes com o pai. Bem fizera. Estava livre. Quanto a Eponina,
Javert fizera-a fisgar, o que era medocre consolao, juntando-a em seguida a
Azelma, nas Madelonnetes.
      Enfim, no trajecto do casebre Gorbeau para Force, um dos principais presos,
Claquesous, tinha-se perdido. Ningum sabia como se havia operado
semelhante coisa; os beleguins no perceberam nada; transformara-se em vapor
e sara por entre as algemas, correra pelas fendas do veculo; o fiacre estava
rachado e ele fugira; o mais que puderam dizer ao chegar  priso, foi que era uma
vez Claquesous. Ali ou havia bruxaria, ou obra da polcia. Claquesous tinha-se
fundido nas trevas como um floco de neve na gua! Teria havido dissimulada
conivncia dos beleguins? Aquele pertenceria ao duplo enigma da desordem e da
ordem? Seria consentido na infraco e na represso? Teria aquela esfinge as patas
dianteiras no crime e as traseiras na autoridade? Javert no aceitava combinaes
destas e ter-se-ia eriado na presena de tais compromissos, mas a sua esquadra
tinha outros inspectores alm dele, talvez mais iniciados, ainda que seus
subordinados, nos segredos da prefeitura, e Claquesous era um celerado de tal
espcie que podia ser magnfico agente. Ter to ntimas relaes de empalmao
com a noite  uma coisa excelente para a ladroagem e admirvel para a polcia. H
nisto tratantes de dois gumes. Fosse como fosse, Claquesous perdido no se
tornou a achar. Javert mostrou-se mais irritado do que admirado.
      Quanto a Mrio, aquele imbecil advogado, que provavelmente tinha medo
e de quem Javert esquecera o nome, pouco cuidado lhe dava. Depois um
advogado  coisa que se encontra sempre. Mas seria ele s advogado?
     A devassa comeava.
     Como, porm, o juiz de instruo tivesse julgado conveniente no meter no
segredo algum dos scios da quadrilha Patron-Minette, esperando assim
aproveitar alguma indiscrio, foi escolhido Brujon, o homem da cabeleira da rua
do Petit-Banquier, para ser encerrado na priso de Carlos Magno, onde
constantemente era vigiado pelos respectivos guardas.
     O nome de Brujon  uma das recordaes da Force. H doze anos, na
hedionda priso chamada do Edifcio Novo, que a administrao denominava
priso de S.
     Bernardo e os ladres Cova dos Lees, via-se grosseiramente gravado com
um prego nas pedras do muro coberto de lepra e escamas, que do lado esquerdo se
elevava at  altura dos telhados, pouco distante de uma porta de ferro carcomida
de ferrugem, que dava para a antiga capela do palcio ducal da Force, convertida
depois em dormitrio de salteadores, via-se gravado, dizamos, uma espcie de
castelo, com a seguinte assinatura por baixo: Brujon, 1811.
     O Brujon de 1811 era o pai do Brujon de 1832.
     Este ltimo, a quem os leitores mal entreviram na cilada do casebre Gorbeau,
era um gal sobremodo dextro e astucioso, apesar do seu ar de basbaque e
choramingas.
     Foi por causa desse seu ar de basbaque que o juiz de instruo o no mandara
fazer companhia aos conscios, julgando-o mais til na priso de Carlos Magno
do que na clula do segredo.
     Os ladres no interrompem os seus trabalhos por estarem em poder da
justia.
     No se embaraam com semelhante bagatela. Estar preso por um crime no
obsta a que se d princpio a outro. So artistas que tm um quadro em exposio
num salo, sem deixar por isso de se ocupar em novo trabalho no seu atelier.
     Brujon parecia ter ficado estupefacto com a sua priso. Viam-no s vezes
horas seguidas na priso de Carlos Magno, de p junto ao postigo do taberneiro,
contemplando com ar idiota a suja lista dos preos da taberna, que principiava
por: alho 62 cntimos e acabava por: cigarros 5 cntimos. Outras vezes, porm,
passava ele o tempo a tremer, batendo com os dentes uns nos outros, clamando
que estava a arder em febre e perguntando se alguma das vinte e oito camas de
enfermaria dos doentes de febre estava devoluta.
     De sbito, por meados do ms de Fevereiro de 1832, soube-se que Brujon, o
indolente, dera a quem lhe tinha ido fazer trs recados diferentes, no de mando
dele, mas de mando de trs dos seus camaradas, cinquenta soldos, despesa
exorbitante que atraiu a ateno do carcereiro da priso.
     Procedeu-se a informaes, e consultando-se a tabela dos preos dos recados,
pregada no parlatrio dos presos, conseguiu-se saber que os cinquenta soldos se
decompunha do seguinte modo: - Trs recados: um ao Panteon, dez soldos; outro
ao Vale de Graa, quinze; e outro  barreira de Grenelle, vinte e cinco. Este era o
recado de maior preo na tabela. Ora, no Panteon, no Vale de Graa e na barreira
de Grenelle, ficavam justamente os domiclios de trs temerosssimos vagabundos
das barreiras, Kruideniers ou Bizarro, Glorieux, forado livre, e Barre-Carrosse,
sobre os quais este incidente atraiu as vistas da polcia.
     Supunha-se, segundo as aparncias, que estes homens estavam filiados na
quadrilha Patron-Minette, dois chefes da qual, Babet e Gueulemer, tinham sido
agarrados. Sups-se mais que os recados, mandados a pessoas que esperavam na
rua e no dirigidos a tal ou tal casa, tinham por fim avis-las para alguma
malvola maquinao, para alguma planeada malfeitoria Havia ainda outros
indcios, em virtude dos quais se procedeu  captura dos trs malfeitores acima
indicados, julgando-se haver assim destrudo a desconhecida maquinao de
Brujon.
     Uma semana, pouco mais ou menos, depois de tomadas estas precaues, um
dos guardas nocturnos que inspeccionava o dormitrio inferior do Edifcio Novo,
na ocasio em que ia a deitar o seu horrio na respectiva caixa era o meio
empregado para se saber se os guardas eram exactos no servio que tinham a
satisfazer; de hora em hora devia cair um horrio em todas as caixas pregadas nas
portas dos dormitrios um guarda, dizamos, viu, pelo ralo do dormitrio, Brujon
sentado na cama a escrever o que quer que fosse ao claro do candeeiro. O guarda
entrou, Brujon foi metido na enxovia, onde esteve um ms, mas o que ele
escrevera no foi possvel apanh-lo. A polcia nada mais soube a tal respeito.
     O que  certo  que, ao outro dia, da priso de Carlos Magno para a Cova dos
Lees foi atirado um postilho por cima do edifcio de cinco andares que
separava as duas prises.
     Chamam os presos postilho a uma bolazinha de po artisticamente
endurecida, que se envia para a Irlanda, quer dizer, por cima dos telhados de
uma priso, de um ponto para outro. Etimologia: por cima da Inglaterra, de uma
terra para outra; para a Irlanda. A bola de po cai na priso, o que a encontra
abre-a e encontra um bilhete dirigido a algum dos presos. Se algum preso a
encontra, faz chegar o bilhete ao seu destino; se  algum guarda ou algum desses
presos secretamente vendidos, chamados nas prises carneiros e nas gals
raposas, o bilhete  levado ao carcereiro que o entrega  polcia.
     Desta feita, porm, chegou o postilho ao seu destino, apesar de, nessa
ocasio, se achar incomunicvel aquele a quem ia dirigido. O destinatrio era nada
menos que Babet, um dos quatro cabeas de Patron-Minette.
     Encerrava o postilho um papel enrolado, que apenas continha estas duas
linhas:
     Babet. H um negcio a fazer na rua de Plumet. Uma grade que deita para
um jardim.
     Era a tal coisa que Brujon fora visto a escrever na noite antecedente.
     Apesar dos guardas e das guardas, que revistavam tudo, Babet conseguiu
fazer passar o bilhete da Force para a Salptrire, onde tinha uma boa amiga
encarcerada.
     Esta transmitiu tambm o bilhete a uma sua conhecida, chamada Magnon,
que a polcia trazia de olho constantemente, mas que ainda no tinha sido presa.
Esta Magnon, cujo nome j no  desconhecido para o leitor, tinha com os
Thenardier relaes que sero explicadas mais tarde, e podia, pretextando que ia
visitar Eponina, servir de ponte entre a Salptrire e as Madelonnetes.
     Justamente nesta ocasio, Eponina e Azelma eram postas em liberdade, por
falta de provas no processo intentado contra Thenardier. Quando Eponina saiu,
Magnon, que estava de vigia  porta das Madelonnetes, entregou-lhe o bilhete de
Brujon para Babet, encarregando-a de esclarecer o negcio.
     Eponina dirigiu-se, portanto,  rua de Plumet, reconheceu a grade e o jardim,
observou a casa, espionou, espreitou e, passados poucos dias, levou a Magnon, que
morava na rua de Cloche-Perce, um biscoito, que Magnon transmitiu  amsia de
Babet, encarcerada na Salptrire.
     No tenebroso simbolismo das prises, um biscoito quer dizer: nada feito.
     De modo que, poucos dias depois, encontrando-se Babet com Brujon no
caminho de ronda da Force, a caminho do tribunal, para onde um deles ia a
perguntas e o outro voltava, Brujon perguntou:
     - Ento a rua P.?
     - Biscoito! - respondeu Babet.
     Assim abortou este feito de crime gerado por Brujon na Force.
     Como se ver, porm, este aborto teve consequncias de todo o ponto
estranhas ao programa de Brujon.
    No raro acontece que quem cuida atar um fio ata outro.



    III
    Apario ao tio Mabeuf



     Mrio no frequentava casa nenhuma, encontrando-se apenas s vezes com o
tio Mabeuf.
     Ao mesmo tempo que Mrio lentamente ia descendo os lgubres degraus, a
que podemos dar o nome de escada das caves, escada que conduz a manses sem
luz, onde por cima se ouvem os passos dos felizes, descia tambm Mabeuf pela
mesma escada.
     Da Flora de Cauferefz nem um nico exemplar se vendia j. Do mesmo
modo, as experincias sobre o anil no jardinzinho de Austerlitz tinham falhado
pelas ms condies do terreno em que eram feitas. O senhor Mabeuf apenas
podia cultivar nele algumas plantas raras que querem sombra e humidade.
Contudo, longe de desanimar com o mau resultado das suas experincias, obteve
um bocado de terra, bem situada, no Jardim das Plantas, para nela fazer  sua
custa os seus ensaios sobre o anil.
     Para levar a cabo este projecto, empenhou as chapas da sua Flora no Monte
de Piedade e reduzira o seu almoo a dois ovos, deixando um para a velha que o
servia, a quem devia j quinze meses de soldadas E no poucas vezes o almoo era
a sua nica comida. Fora-se-lhe aquele riso infantil que dantes tinha, fizera-se
trpego e j no recebia visitas Bem fazia Mrio em no se lembrar de o ir visitar.
s vezes, quando Mabeuf se dirigia para o Jardim das Plantas, encontrava-se com
o rapaz no boulevard do Hospital, porm no se falavam. Apenas acenavam
tristemente um ao outro com a cabea. Dolorosa verdade. Que sobrevenha um dia
em que a misria at os laos das contradas afeies dissolva. Ontem dois amigos,
hoje dois indiferentes!
     Depois do livreiro Royol, que tinha morrido, o senhor Mabeuf s conhecia os
seus livros, o seu jardim e o seu anil, trs formas distintas que para ele haviam
tomado a felicidade, o prazer e a esperana. Era-lhe o bastante  vida, vida que
com pouco se satisfazia, como se v .Logo que o anil d o resultado que espero,
dizia ele s vezes nos seus solilquios, fico rico, e ento hei-de desempenhar as
chapas que tenho no Monte de Piedade, fazer-me charlato, publicando anncios
nos jornais e pregando cartazes pelas esquinas, para a minha Flora tornar a ter
voga e comprar, eu bem sei onde, um exemplar da Arte de Navegar, com
estampas, de Pedro de Melina, da edio de 1559.
     Enquanto, porm, no chegava a realizao dos seus sonhos dourados, todo o
dia labutava no seu canteiro semeado de anil, recolhendo-se a casa s quase 
noite para regar o jardim ou ler algum livro predilecto. Nessa poca, o senhor
Mabeuf no andava muito longe dos oitenta anos.
     Uma tarde o bom velho teve uma apario singular.
     Tinha voltado para casa ainda muito de dia. A tia Plutarco, cuja sade
comeava a alterar-se, estava doente e encontrava-se deitada O senhor Mabeuf
jantara um resto de carne que havia ainda num osso e um pedao de po que
achara sobre a mesa da cozinha e sentara-se depois num marco de pedra
quebrado, que no quintal lhe servia de banco.
     Prximo do improvisado banco elevava-se, como nos pomares ajardinados de
outro tempo, uma casinhola de madeira, j meia arruinada em partes, que servia
de coelheira em baixo e de fruteiro em cima. A primeira estava desabitada
daqueles para cuja morada era destinada, porm o segundo continha ainda
algumas mas, restos da proviso de Inverno.
     O senhor Mabeuf sentara-se, pois, de culos no nariz, folheando e lendo
atentamente dois livros, objecto de sumo interesse, e, o que  mais na sua idade,
de graves preocupaes para ele. A natural timidez do seu carcter o fazia at certo
ponto supersticioso. Esses dois livros eram um o clebre tratado do presidente
Delancre Sobre a inconstncia dos demnios, o outro o pesado alfarrbio de Mutor
de la Rubaudire Sobre os diabos de Vaubert e os duendes de Biebre, livro a que ele
ainda maior interesse ligava, por isso que o seu jardim fora noutro tempo um dos
lugares frequentados por duendes.
     Naquela ocasio o crepsculo principiava a clarear as partes mais elevadas
dos edifcios, deixando imersos em sombras os objectos inferiormente situados.
De vez em quando, o venervel ancio interrompia a sua leitura e deitava os olhos
por cima do livro que sustinha na mo, a contemplar as suas plantas, e entre elas
um magnfico rododendro, a que consagrava mais especial predileco. Quatro
dias de calma, de vento e sol se tinham sucedido, sem o refrigrio de uma gota de
chuva para os pobres arbustos. Os caules curvavam-se para o cho sem fora, os
botes pendiam para o lado sem vio, as folhas vinham a terra, murchas e
descoradas, e entre todos os arbustos o mais triste parecia o predilecto
rododendro. Mabeuf pertencia ao nmero daqueles para quem as plantas tambm
tm alma. Por isso, apesar de extenuado de cansao pelo muito que labutara no
seu canteiro do Jardim das Plantas, levantou-se, pousou os livros em cima do
banco e dirigiu-se para o poo, alquebrado e cambaleando.
     Chegado a, deitou a mo  corrente de ferro que segurava o balde, tentando
pux-lo para cima. Ao ver, porm, que nem sequer conseguia abal-lo, voltou-se,
fitando um olhar de angstia no cu, que se cobria de estrelas.
     A noite respirava essa serenidade tpida que abafa no corao do homem
que sofre as dores sob uma lgubre e eterna alegria, e augurava-se to rida como
o dia o tinha sido.
     - Tudo cheio de estrelas! Nem a mais pequena nuvem! Nem uma gota de
orvalho! - pensava o ancio, deixando pender para o peito a cabea, que um
instante tivera levantada.
     Aps alguns momentos de aflitiva concentrao, murmurou, fitando outra
vez os olhos no cu:
     - Oh, uma gota de orvalho, ao menos, por piedade!.
     E tornou a voltar-se para o poo.
     No momento, porm, em que baldadamente tentava levantar a corrente do
balde, ouviu uma voz por trs dele, dizendo-lhe:
     - Quer que eu lhe regue o jardim, tio Mabeuf?
     Apenas a voz soltara esta exclamao, ouviu-se entre a sebe um como
ramalhar de veado fugitivo, aps o qual o assustado ancio viu sair de entre as
moitas floridas uma rapariga excessivamente magra e esguia, que se lhe atravessou
adiante, fitando-o atrevidamente. Mais parecia um fantasma gerado  baa luz do
crepsculo do que um ser humano.
     Mulher ou fantasma, sem esperar que o apavorado velho lhe respondesse
uma s palavra, deitou a mo  corrente do poo, mergulhou o balde, puxou-o a si
e encheu o borrifador com uma ligeireza de movimentos que a escurido tornava
ainda mais fantsticos. Mabeuf, que ainda com menos extraordinrio caso
facilmente se amedrontara, contemplava assustado e cheio de pasmo aquela
apario sobrenatural, discorrendo, descala e mal coberta com uma andrajosa
saia, pelos alegretes, a distribuir a vida em torno de si. Apesar do seu susto, porm,
extasiava-lhe a alma o sussurro da gua caindo por entre as folhas.
Afigurava-se-lhe que via estremecer de prazer o rododendro ao contacto daquela
suave frescura.
     A apario, esgotado o primeiro balde, voltou ao poo, tirou segundo e assim
continuou at regar o jardim todo. Ao ver assim discorrer por entre os arbustos
do jardim aquele vulto negro, agitando as pontas do leno esfarrapado que lhe
cobria os magros ombros, dir-se-ia um morcego esvoaando aos ltimos lampejos
da luz crepuscular.
     Concluda a tarefa a que a rapariga voluntariamente se oferecera, o venervel
ancio com as lgrimas nos olhos acercou-se dela e disselhe, passando-lhe a mo
pelo rosto:
     - Deus lhe pague, menina, que quem assim se compadece das flores no pode
ser seno um anjo!
     - No! - respondeu ela. - Eu sou mas  um diabo! Porm, isso, tanto faz -
Valha-me Deus! - atalhou o ancio sem esperar nem prestar ateno  resposta da
rapariga. - No me permitirem as minhas tristes circunstncias poder
recompensar-lhe este servio com alguma coisa!
     - Pode - atalhou ela.
     - Com qu?
     - Dizendo-me onde mora o senhor Mrio.
     - Que Mrio? - perguntou o ancio sem saber de quem a rapariga queria falar
e pondo-se a olhar para o ar como procurando colher alguma longnqua
reminiscncia.
     - Um rapaz que vinha dantes a sua casa.
     - Ah, sim! - exclamou o senhor Mabeuf, como que tendo, enfim, encontrado
uma ideia fugitiva. - Bem sei!... Mrio... o baro de Pontmercy! Ele mora...
espere... parece-me que j no... Olhe, no sei.
     E continuou logo em seguida, agachando-se, a compor uma haste do
rododendro:
     - Espere, agora me lembro. Ele passa aqui quase todos os dias pelo boulevard,
como quem se encaminha para a Glacire. Na rua de Croule-Barbe. No Campo da
Cotovia.  procur-lo por esses stios, que no lhe h-de custar a dar com ele.
     Quando o senhor Mabeuf, depois de concluir a operao em que tinha estado
ocupado, se endireitou, j no viu ningum; a rapariga tinha desaparecido.
     Esta sbita desapario amedrontou-o um pouco.
     - Realmente - disse ele consigo -, que eu acreditaria que foi algum esprito que
me apareceu, se o jardim no estivesse regado!
     Uma hora depois, na ocasio em que se ia a deitar, lembrou-lhe o que se tinha
passado, e ao pegar no sono, nesse instante turvo em que o pensamento,
semelhante  fabulosa ave que se transforma em peixe para passar o mar, vai
gradualmente tomando a forma de sonho para atravessar o sono, dizia ele
confusamente:
    - O que se passou hoje comigo quase parece o que la Rubaudire conta dos
duendes. Seria, realmente, algum?.



    IV
    Apario a Mrio



     Na manh da seguinte segunda-feira, poucos dias depois daquela apario
do esprito ao tio Mabeuf, Mrio saiu de casa, depois de meter no bolso os cem
soldos que todas as semanas, em igual dia, costumava pedir emprestados a
Courfeyrac para dar a Thenardier, porm em vez de ir imediatamente lev-los ao
seu destino, resolveu primeiro dar uma volta, esperando assim recolher-se a
casa mais disposto a retomar o trabalho. Era o seu expediente habitual. Logo que
se levantava, sentava-se  sua mesa de trabalho com um livro e uma folha de papel
diante de si, tentando dar rpido andamento a alguma das tradues, que de
ordinrio trazia entre mos, e falecia-lhe a vontade antes de dar princpio  tarefa
que se impunha. Nesse tempo era esta a verso para francs da clebre questo
entre Gans e Savigny; pegava em Savigny, pegava em Gans, lia quatro linhas,
tentava escrever uma e no podia. Via uma estrela entre ele e o papel, e tanto se
embrenhava em cogitaes alheias ao objecto em que se ocupava, que, por fim,
levantava-se da cadeira, dizendo:
     - Vou sair a ver se isto me passa.
     E dirigia-se para o Campo da Cotovia, onde a estrela que evitava ainda mais
luzente se lhe oferecia aos olhos e cada vez mais lhe desaparecia diante deles o
texto de Gans e Savigny.
     Ao recolher-se a casa, por mais que fizesse para continuar o interrompido
trabalho, era debalde. Vendo ento a inutilidade dos seus esforos para reatar os
fios que lhe quebravam no crebro as abstraces em que se embevecia, exclamava
com gesto decisivo:
     - Amanh no sairei. Preciso de trabalhar!.
     Mas saa todos os dias.
     Habitava mais o Campo da Cotovia do que a casa de Courfeyrac. O seu
verdadeiro domiclio era a stima rvore do boulevard da Sade, principiando a
contar da rua do Croule-Barbe para diante.
     Nessa manh de que falamos, o mancebo deixara o seu costumado pouso
junto  stima rvore do boulevard para se ir sentar no parapeito do regato dos
Gobelinos.
     Um sol reanimador penetrava a folhagem toda tenra e viosa e a escorrer em
ondas de luz. Mrio pensava nela. E, dolorosamente, ao mesmo tempo exprobrava
a sua ociosidade, aquela paralisia de alma, que ia manso e manso adormentando-o
e lhe apresentava ao esprito a ideia da escurido, que de instante a instante se
espessava em torno dele, a ponto de j no ver o Sol.
     No obstante, porm, o doloroso curso das suas ideias, que, mal distintas
como eram, nem monlogo se podiam chamar, porque nem ele j se sentia com
foras para oferecer o corao em pasto  dor, ainda assim, dizemos, as sensaes
externas conseguiam impression-lo atravs daquela melanclica abstraco.
Apesar dela, Mrio ouvia, de um e de outro lado do regato dos Gobelinos, as
lavadeiras batendo a roupa na pedra dos lavadouros e por cima de si o grrulo
chilrear dos pssaros empoleirados sobre os olmos, saltitando de fronde em
fronde. Em cima, o sussurro da liberdade, da indiferena ditosa, do cio, que tem
asas; em baixo, o estrpito do trabalho; porm um e outro rumor alegre, reparo
que profundamente o fazia cismar, seno reflectir.
     No meio do seu doloroso xtase, eis que ouviu de repente uma voz conhecida,
dizendo:
     - Oh! Ele c est!
     Mrio levantou a cabea e deu com os olhos na desventurada rapariga que
um dia o fora procurar ao quarto, a filha mais velha de Thenardier, Eponina,
enfim, para a designarmos pelo seu verdadeiro nome, que para Mrio tambm j
no era desconhecido. Singular contraste! Beleza e misria! No meio da sua
crescente indigncia, a formosura, longe de desmaiar ao contacto das privaes,
realara de novos atractivos aquele rosto de jovem. O seu vesturio indicava maior
misria, o rosto respirava-lhe mais donairosos atractivos. Vinha descala; descala
e coberta de andrajos, como o rapaz a vira no dia em que desempenadamente lhe
entrara no quarto. A nica diferena era que os andrajos contavam mais dois
meses, que eram maiores os rasges, maior a sordidez. A mesma voz roufenha, a
mesma fronte rugosa e tisnada, o mesmo despejado olhar, como dantes,
desvairado e indeciso. Demais, na fisionomia, s tinha essa indefinvel expresso
de terror e angstia, que o viver das prises acrescenta  misria.
     De entre os cabelos emaranhados saam-lhe vastas pontas de palha e feno,
no por ter enlouquecido, como Oflia, contagiada pela loucura de Hamlet, mas
por ter dormido em algum palheiro.
     E, apesar de tudo isto, era bela. Que grande poder o teu,  astro da juventude!
     Eponina, em cujo lvido rosto transparecia uma leve sombra de alegria, que
lhe fazia desabrochar os lbios, no que dificilmente chamareis sorriso, acercou-se
do rapaz, parou e deteve-se por instantes, como se alguma fora oculta a vedasse
de articular a menor palavra. Por fim, exclamou:
     - At que, finalmente, dei consigo! Bem me dizia o tio Mabeuf que o
procurasse aqui! O que eu tenho corrido a ver se o encontrava; nem o senhor
sabe!  verdade!
     No sabe? Estive quinze dias  sombra. Mas puseram-me na rua por falta
de provas e mesmo por eu no ter a idade da razo. Faltavam-me dois meses! Ora,
mas o que eu tenho corrido h seis semanas para c! Pelo que vejo, o senhor j no
mora l em casa?
     - No - disse Mrio.
     - Ah, j sei! Por via daquela histria! So dessas porcarias com que a gente
embirra! O caso  que o senhor mudou. Ui! Sempre traz um chapu, coisa mais
esquisita! J sem plo nenhum! Um rapaz como o senhor quer-se bem trajado!
No quer saber, senhor Mrio? Olhe, o tio Mabeuf chama-lhe o baro no sei de
qu! Mas o senhor no  baro, pois no? Bares so uns Velhos que vo tomar o
Sol para o largo do Luxemburgo e do um soldo para ler a Quotidiana. Eu uma
vez fui levar uma carta a um baro e era assim como eu digo. Tinha mais de cem
anos o bom do homem!... Mas, diga-me, onde  que mora agora?
     Mrio no respondeu.
     - Que buraco que o senhor tem na camisa!  preciso que lho cosa.
     E continuou com expresso cada vez mais triste:
     - O senhor parece que no gostou de me ver?
     Mrio continuava calado: ela guardou tambm silncio por um instante e
depois exclamou:
     - Se eu quisesse, bem sabia como havia de o ver contente!
     - O que ? - disse Mrio. - O que quer dizer?
     - Ora! O senhor dantes tratava-me por tu!
     - Pois sim, o que queres tu dizer?
     A rapariga mordeu os lbios, parecia hesitar, como que presa de uma espcie
de combate interior. Finalmente pareceu decidir-se:
     - Ora! Que importa! O senhor est triste e eu quero que esteja alegre.
Prometa-me s que se h-de rir. Quero v-lo rir. Pobre senhor Mrio! Bem sabe
que me tinha prometido dar-me tudo o que eu quisesse.
     - Sim, mas fala.
     A rapariga fitou Mrio e disselhe:
     - Sei a morada!
     Mrio empalideceu. Todo o sangue lhe refluiu ao corao.
     - Qual morada?
     - A que o senhor me tinha perguntado!
     E acrescentou, como se fizesse um esforo.
     - A morada... o senhor bem sabe... - Sim. - balbuciou Mrio.
     - Daquela menina.
     A rapariga pronunciando estas palavras, suspirou profundamente.
     Mrio saltou do parapeito onde estava sentado e pegou-lhe
desorientadamente na mo.
     - Ento dize-me onde ! Leva-me l! Pede-me tudo o que quiseres! Onde
mora?
     - Venha comigo - respondeu a rapariga. - No sei bem a rua nem o nmero; 
muito longe daqui, mas conheo bem a sua casa e vou mostrar-lha.
     A rapariga retirou a mo e disse num tom que teria entristecido um
observador, mas que nem mesmo foi notado por Mrio, que estava em perfeito
estado de embriaguez:
     - Como ficou alegre!
     De repente passou uma nuvem pelo rosto de Mrio, o qual segurou Eponina
por um brao.
     - Jura-me uma coisa!
     - Jurar! - disse ela. - Que quer isso dizer? Ento quer que eu jure?
     E riu-se.
     - Teu pai... Promete-me, Eponina, jura-me que no indicars a teu pai essa
morada!
     A rapariga voltou-se para ele com ar estupefacto.
     - Eponina! Como sabe o senhor que me chamo Eponina?
     - Prometes-me o que te disse?
     Ela porm pareceu no ouvir.
     - Que graa que tem! Chamar-me Eponina!
     Mrio pegou-lhe em ambos os braos.
     - Mas - responde-me, - d ateno ao que te digo: jura-me que no dirs a
morada a teu pai!
     - Meu pai? - disse ela. - Ah, sim, meu pai! Fique descansado. Est no segredo.
E depois, importa-me c meu pai!
     - Mas tu no me prometes! - exclamou Mrio.
     - Largue-me! - disse ela, soltando uma gargalhada. - Sim, sim, prometo! Juro!
     Que me custa a mim isso? No direi a morada a meu pai. Ento, j viram?
No querem l ver?
     - Nem a pessoa nenhuma? - retorquiu Mrio.
     - A ningum!
     - Agora - tornou Mrio - indica-me onde .
     - J?
     - Imediatamente.
     - Vamos. Como est contente! - acrescentou ela.
     A rapariga, depois de dar alguns passos, parou.
     - O senhor vem muito ao p de mim, senhor Mrio. Deixe-me ir mais adiante
e siga-me assim disfaradamente. Um rapaz como o senhor no deve ir ao p de
uma mulher como eu.
     No h lngua que pudesse exprimir quanto havia nesta palavra mulher,
pronunciada assim por uma criana!
     Deu mais uns dez passos e tornou a parar; Mrio chegou-se a ela, Eponina
dirigiu-lhe a palavra, de lado, e sem se voltar para ele.
     -  verdade; o senhor sabe que me prometeu alguma coisa?
     Mrio meteu a mo no bolso. No possua neste mundo seno os cinquenta
francos destinados a Thenardier. Pegou neles e meteu-os na mo de Eponina.
     A rapariga abriu os dedos, deixou cair o dinheiro no cho e disse,
encarando-o com ar sombrio:
     - Eu no quero o seu dinheiro!
    LIVRO TERCEIRO
    A Casa da Rua Plumet



    I
    A casa misteriosa



     Por meados do sculo passado, desejando um presidente do parlamento de
Paris ocultar, o mais que pudesse, uma mulher com quem tinha relaes
amorosas, mandou construir uma casinha na deserta rua de Blomet, no bairro
de S. Germano, hoje chamada Plumet, nas (vizinhanas do local que ento se
denominava Combate dos Animais. Nessa poca, o mesmo empenho que os
grandes senhores punham em ostentar os seus amores, punham-no os burgueses
em ocultar os seus.
     Constava a casa a que aludimos de um nico andar, em frente do qual se
estendia um vasto jardim, fechado por um largo porto de ferro, que abria para a
rua.
     Abrangia o jardim uma superfcie de cem varas quadradas, pouco mais ou
menos.
     Quanto ao interior da casa compunha-se de duas salas e uma cozinha no
rs-do-cho, de dois quartos no andar nobre, alm de um outro de vestir, e de um
sto entre o telhado e o andar nobre. Afora, porm, o que estava patente s vistas
de quem passava, havia ainda um ptio estreito, sobre o qual deitavam as traseiras
do edifcio, fechado no fundo por uma casa trrea, composta de duas saletas. Esta
segunda casa, que dir-se-ia destinada a esconder das vistas da curiosidade um
filho e uma ama, comunicava pela parte posterior, por meio de uma porta
cuidadosamente disfarada, com um estreito, comprido e tortuoso beco,
embetesgado entre duas paredes de elevada altura, que, depois de costear por
espao de quase um quarto de lgua todas as sinuosidades e meandros dos muros
dos jardins, por onde quase seguia desapercebido, ia terminar a outra porta
secreta, como a antecedente, num stio ermo da extremidade da rua de Babilnia.
Ambas estas portas tinham fechaduras de segredo.
     Assim se introduziu o digno presidente no seu den de amor, sem que, ainda
dado o caso que algum curioso, fazendo reparo nas suas dirias e misteriosas
sadas, o espreitasse, pudesse, de longe ao menos, suspeitar que as suas frequentes
visitas tinham por alvo, no uma casa da rua de Babilnia, como parecia, mas
outra, e muito distante, na rua de Blomet. Para chegar a este resultado fora o
engenhoso magistrado comprando astutamente todos os terrenos circunjacentes,
at que, afinal, senhor indisputvel deles, levou a cabo a sua empresa de viao
secreta no que era legitimamente seu, e, por conseguinte, sem embarao. Com o
andar do tempo, viera a vender em diminutas parcelas, para hortas e jardins, os
tratos de terreno contguos ao beco de um e outro lado, sem que aqueles a quem
ele trespassou o domnio de tais terrenos sequer suspeitassem a existncia daquele
extenso viaduto, serpenteando misteriosamente por entre duas paredes, cobertas
de plantas parasitas, que eles supunham ser um muro divisrio entre quintal e
quintal. Apenas os pssaros viam aquela curiosidade, e no pouco, segundo  de
supor, dariam  lngua  custa do digno presidente os melharucos e as toutinegras
desse tempo, empoleiradas nas rvores em redor.
     Era muito para se ver o aspecto daquela casinha construda de cantaria no
gosto de Mansard, estucada e mobilada no gosto de Watteau, aconchegada por
dentro, alindada por fora, e como que donairosamente desabrochando de entre
uma trplice cercadura de flores, que lhe formavam um como pedestal de cores
variegadas. Como que respirava um ar de mistrio, de garridice e gravidade, que
perfeitamente condizia com um capricho de amor de um magistrado.
     H quinze anos, ainda ali se via a casa e o beco de que tratamos, e que hoje j
no existem. Comprara-a em 1793 um caldeireiro com o intuito de a demolir,
porm como no pudesse pagar o preo da venda, confiscaram-lhe os bens, e veio
assim a acontecer que, em vez da casa, foi ele o demolido e ela a demolidora.
Desde ento conservou-se desabitada e pouco a pouco se foi arruinando, como
acontece a todas, logo que a presena do homem deixa de lhes comunicar vida e
animao. Continha ainda a casa os primitivos mveis, e, apesar de estar longo
tempo devoluta, nunca apareceu comprador ou arrendatrio que a pretendesse.
Assim o indicava o j amarelado e ilegvel escrito que desde 1810 se balouava
preso ao porto do jardim, servindo de aviso s dez ou doze pessoas que
anualmente transitavam pela rua Plumet Pouco antes do fim da restaurao,
notou-se o desaparecimento do escrito e ainda outra circunstncia, que parecia
indicar que a casa encontrara, enfim, moradores: viam-se abertas as janelas do
andar nobre. Efectivamente, algum habitava a casa, e era mulher, como o
indicavam as cortininhas que pendiam das janelas.
     Em Outubro de 1829, um sujeito, que j se no podia chamar novo,
apresentava-se a alugar a casa conforme estava, incluindo, j se v, a casa trrea
situada nas traseiras da outra e o beco que ia sair  rua de Babilnia.
      Como a casa estivesse quase mobilada com os mveis do seu primeiro
possuidor, limitou-se o novo inquilino a mandar proceder a alguns arranjos,
restaurando o que precisava de reparos e em stios acrescentando o que faltava.
Mandou ladrilhar o ptio das traseiras, em parte danificado, rebocar os telhados,
compor a escada, a que faltavam alguns degraus, consertar o soalho, em stios
esburacados, e colocar vidros nas Vidraas, do que muitas careciam.
      O seu primeiro cuidado, porm, fora restaurar as duas fechaduras de segredo,
que o presidente havia mandado pr nas duas portas do princpio e do fim do
beco.
      Finalmente, concluda as necessrias reparaes, nela foi estabelecer-se,
acompanhado de uma menina e de uma criada velha, sem a costumada azfama
que habitualmente acompanha uma mudana e mais como quem entra
sorrateiramente do que quem toma posse do que  seu. Farto tema daria tal
circunstncia s conversas dos vizinhos, se, pela simples razo de os no haver,
no tivesse passado inteiramente despercebida.
      O novo inquilino, de cuja mudana ningum se ocupou, era nem mais nem
menos do que Joo Valjean e a jovem que o acompanhara, Cosette. A criada, que
se chamava Toussaint, era uma pobre criatura, a quem ele salvara da misria e do
hospital, quase ltimo paradeiro das infelizes como ela. Era velha, provinciana e
gag, trs qualidades que poderosamente influram, em Joo Valjean para a tomar
ao seu servio. Joo Valjean, que o leitor reconheceu, sem gastar nisso tanto
tempo como Thenardier, no alugara a casa em seu nome, como  bem de supor,
mas sim sob o nome de Fauchelevent e a inculcada qualidade de rendeiro.
      Que se tinha passado que obrigara Joo Valjean a sair do convento de
Petit-Picpus?
      No se passara nada.
      Se bem se recordam os leitores, Joo Valjean vivia feliz no convento, e to
feliz, que o mesmo excesso de satisfao entrou a perturbar-lhe a conscincia. Ver
Cosette todos os dias; sentir nascer-lhe e desenvolver-se-lhe cada vez mais o
verdadeiro afecto paternal; segui-la em esprito para toda a parte, como sua que
era, e to sua, que poder nenhum da terra lha poderia arrebatar; cevar-se na grata
ideia de que este estado de coisas duraria indefinidamente, que nunca teria termo
e que ela, suavemente atrada todos os dias para o estado religioso, viria, por
ltimo, a professar, tornando-se ento o convento, onde ele se ia fazendo velho e
ela mulher, o Universo para ambos, como j era, sem que, esperana mais que
todas fagueira, jamais viessem a separar-se, seno pela morte; tudo isto o trazia
constantemente enlevado em deleitosos pensamentos.
     Reflectindo mais, porm, sobre o motivo das suas alegrias, principiou a
sentir-se perplexo. Entrou a dvida com ele e resolveu interrogar-se. Perguntou
ento  conscincia se a ventura que gozava na realidade lhe pertencia ou se no
era a ventura alheia, a ventura daquela pobre criana, que ele, um velho,
indevidamente se estava apropriando; se isto no era um roubo. E a voz da
conscincia, interrogada, respondia-lhe que aquela criana tinha direito a saber o
que era a vida, antes de a ela renunciar; que cercear-lhe de antemo e de algum
modo sem seu consentimento, todos os prazeres que se podem usufruir no
mundo, sob pretexto de lhe evitar todas as provaes que nele se experimentam,
abusar da ignorncia e do isolamento em que ela vivia para lhe fazer germinar
uma vocao fictcia, era adulterar uma criatura humana e mentir a Deus. E quem
podia afianar que ela, chegada a idade de perfeitamente discernir tudo, vendo-se
constrangida a um estado que lhe repugnasse, o no odiaria?
     Final pensamento, quase egosta e menos nobre do que os outros, mas que
Joo Valjean no podia suportar. Resolveu deixar o convento. Resoluo,
conquanto para ele em extremo dolorosa, necessria e prescrita pelo dever.
Objeces da sua parte no as tinha que opor. Cinco anos de residncia entre
aquelas quatro paredes, necessariamente deviam ter destrudo ou dispersado
qualquer motivo de receio. Velho e to mudado, podia voltar ao mundo sem
receio, que ningum a o conheceria. Quem o havia de conhecer? Mas, ainda
quando tal caso, to pouco provvel, se desse, o perigo que da podia sobrevir s
recairia sobre ele, e, por consequncia, no tinha direito a condenar Cosette ao
claustro, por a ele o terem condenado as gals. Demais, que importava o perigo, se
o dever falava? E, finalmente, quem o embaraava de proceder com prudncia e
tomar todas as medidas de precauo para sua segurana entre os homens?
     Pelo que respeitava a Cosette, a sua educao estava quase terminada e
completa.
     Firme, pois, na sua resoluo, esperou apenas por ensejo oportuno, que no
tardou a oferecer-se-lhe com a morte do velho Fauchelevent.
     Apenas este morreu, Joo Valjean solicitou uma audincia da religiosa e
exps-lhe o seguinte: Que havendo, por morte de seu irmo, ficado possuidor de
alguns bens, que lhe davam com que poder passar modestamente sem trabalhar,
estava resolvido a despedir-se do servio do convento, levando consigo sua filha;
porm que, como no era justo que Cosette, visto no professar, sasse daquela
casa educada gratuitamente, humildemente suplicava  venervel prioresa
permitisse que ele oferecesse  comunidade a quantia de cinco mil francos, como
indemnizao dos cinco anos que Cosette passara naquela casa.
      Eis de que modo saiu Joo Valjean do convento da Adorao Perptua.
      Na ocasio da sua sada foi ele prprio o que transportou debaixo do brao
aquela mala, cuja chave trazia sempre consigo, mala que tanto dava que pensar a
Cosette, por causa do cheiro a cadver embalsamado que dela saa.
      Devemos acrescentar que essa mala, que ele no quis confiar a um
carregador, mas lev-la ele prprio, nunca mais o largou desde ento. Tinha-a
sempre no quarto e era a primeira, seno s vezes a nica coisa, que transportava
consigo em ocasies de mudana. Cosette ria-se daquele afinco de Joo Valjean 
mala, chamando-lhe o indispensvel de seu pai, e s vezes murmurava-lhe: 
meu pai, olhe que eu tenho cimes da sua mala! Como  de crer, Joo Valjean
no pde furtar-se a um sentimento de aflitiva ansiedade, ao ver-se respirando o
ar livre.
      Desejoso de encontrar um retiro seguro onde evitasse vistas curiosas e
desagradveis indagaes, apenas descortinou a casa da rua Plumet, acolheu-se a
ela, dando-se por feliz com tal achado.
      Depois alugou mais duas vivendas dentro de Paris, sempre com o nome de
ltimo Fauchelevent, que tinha adaptado, para deste modo no atrair tanto sobre
si a ateno, como se residisse permanentemente no mesmo local; para, se lhe
fosse necessrio, poder ausentar-se temporariamente, ao mnimo rebate de perigo
ou dereceio, e, finalmente, para se no tornar a achar desprevenido, como na noite
em que to milagrosamente escapara das garras de Javert. Consistiam, pois, as
duas outras vivendas de Joo Valjean em duas casas de pobre e mesquinha
aparncia, situadas em locais remotssimos entre si, como eram a rua de Oeste e a
do Homem Armado.
      Deste modo, ia de tempos a tempos, passar um ms ou ms e meio ora para a
rua do Homem Armado, ora para a de Oeste, fazendo-se acompanhar por Cosette
e deixando Toussaint na outra casa, que tinha sido propriedade do presidente.
      Inculcava-se ento como rendeiro dos arrabaldes da cidade,  qual apenas
vinha passar algum tempo de folga. Assim se via constrangido aquele homem
virtuoso a ter trs domiclios em Paris para escapar  polcia.
    II
    Joo Valjean guarda nacional



     A bem dizer, porm, a sua principal residncia era na rua Plumet, onde vivia
do modo que vamos explicar.
     Cosette e a criada ocupavam a parte patente do edifcio, isto , o jardim, sobre
o qual deitavam as janelas da frente, o espaoso quarto de dormir com pinturas
nas paredes, o quarto de frisos dourados e a sala do presidente, forrada de
tapearia e mobilada com amplas cadeiras de braos. No quarto de dormir de
Cosette mandara Joo Valjean pr uma cama de cortinado de damasco antigo de
trs cores e alcatifar o cho com um belo tapete da Prsia, comprado em segunda
mo em casa da tia Gaucher, da rua da Figueira de S. Paulo, ajuntando a este traste
usado, para disfarar a severidade de to faustosas velharias, todos os objectos
prprios da alegre e graciosa vivenda de uma jovem, tais como uma jardineira,
uma estante cheia de livros ricamente encadernados, uma escrivaninha, uma mesa
e estojo de costura, com embutidos de madreprola, jarro, bacia e os mais aprestos
de lavatrio, de porcelana do Japo. Das janelas do andar nobre pendiam
compridas cortinas de damasco vermelho, com lavores de cores diversas,
semelhante ao do cortinado do leito. Nas do rs-do-cho a luz penetrava
igualmente atravs de cortinas, que aqui eram de cassa. Na estao invernosa, em
ambos os andares se acendia os foges, tornando tpida a atmosfera das salas
reservadas a Cosette.
     Joo Valjean habitava a casa trrea, situada ao fim do ptio. Os seus mveis
cifravam-se numa barra, com o respectivo enxergo, uma mesa de pinho, duas
cadeiras de palhinha, um cntaro de barro com gua, alguns livros velhos numa
prateleira e a inseparvel mala, arrumada a um canto. Lume nunca o quis no seu
quarto. s horas de jantar vinha comer com Cosette, porm, sobre a mesa, via-se
sempre um bocado de po de milho para ele. Quando tomara Toussaint ao seu
servio, dissera-lhe:
     - Olhe que a menina  que  a dona da casa.
     - E ento o... se... se... senhor? - replicara, gaguejando com visos de
admirada, a pobre mulher.
     - Eu sou mais do que dono, sou pai!
     Cosette, portanto, que no convento aprendera a governar uma casa, era quem
corria com as despesas dirias, despesas em verdade pouco avultadas.
     Desde essa poca, Joo Valjean principiou a sair todos os dias com Cosette
pelo brao, dirigindo sempre o seu passeio para a lea menos frequentada do
Luxemburgo.
     Aos domingos, iam invariavelmente ouvir missa a S. Jacques de Haut-Pas,
por ser um lugar remoto, e a dava Joo Valjean largas ao seu generoso corao,
distribuindo numerosas esmolas aos pobres, que se reuniam em roda dele  sada
do templo que dera lugar quela carta de Thenardier, dirigida ao senhor
benfeitor da igreja de S.
     Jacques do Haut-Pas. Alm dos mendigos, to numerosos naqueles stios,
socorria os enfermos e os indigentes a cujas moradas gostava de conduzir Cosette.
     Na casa da rua Plumet no entrava um s estranho. Toussaint ia fazer as
compras, e a gua era o prprio Joo Valjean quem ia busc-la a uma fonte que
havia prxima do boulevard. O vinho e a lenha guardava-os numa espcie de
concavidade meio subterrnea, forrada de conchinhas, que ficava prxima da rua
da Babilnia e que noutro tempo servira de gruta ao senhor presidente, porque
naquele tempo no havia amor sem gruta.
     Nessa mesma porta havia uma destas conhecidas caixinhas de correio, que
tm uma fenda lateral ou superior, por onde se deitam as cartas e os jornais.
Acontecia, porm, que, como os trs moradores da casa da rua Plumet nem
recebiam cartas nem jornais, o prstimo da caixa, noutro tempo medianeira e
confidente das aucaradas finezas do Narciso togado, limitava-se simplesmente 
transmisso dos avisos do recebedor dos impostos e das ordens do comandante da
guarda. Pois cumpre notar que o rendeiro Fauchelevent pertencia  guarda
nacional, no tendo podido escapar s estreitas malhas do recenseamento de 1831.
Dessa feita, as informaes municipais penetraram at ao convento do
Petit-Picpus, espcie de nuvem impenetrvel e sagrada, de dentro da qual, Joo
Valjean sara venerando aos olhos da administrao do seu bairro, e, por
conseguinte, digno de fazer parte da sua guarda.
     Em virtude disto, pois, via-se Joo Valjean, trs ou quatro vezes no ano, na
necessidade de envergar o seu uniforme e fazer o seu quarto de guarda. Tal
circunstncia, porm, longe de o contrariar, aprazia-lhe, porque era um disfarce
oficial que o punha em contacto com todos, deixando-o ao mesmo tempo
solitrio. Por isso, apesar de j ter completado a idade legal da iseno, que eram
os sessenta anos, no tratava de se livrar do servio, j porque no inculcava mais
de cinquenta, j porque no estava para apresentar ao conde de Lobau certides e
documentos, com que teria de fundamentar o seu pedido de baixa. No tinha
estado civil, ocultava a sua identidade, o seu verdadeiro nome, a idade, tudo,
enfim; e, alm disto, como ainda agora acabamos de dizer, aprazia-lhe ser guarda
nacional. A sua nica ambio era parecer-se com todo e qualquer cidado que
pagasse as suas contribuies. Era um homem que tinha dois ideais anjo na
virtude e burgus no cumprimento dos seus deveres de cidado.
     Uma circunstncia, porm, devemos ainda notar. Quando Joo Valjean saa
com Cosette, vestia-se de modo que lhe dava a aparncia de um oficial reformado.
Quando saa s, o que, de ordinrio, s fazia  noite, levava sempre vestida uma
blusa, umas calas de operrio e um bon derrubado sobre os olhos. Seria por
precauo ou humildade? Por ambas as coisas. Cosette, habituada ao lado
enigmtico do seu destino, mal dava pelas singularidades de seu pai. Quanto a
Toussaint, a pobre mulher venerava-o e tudo o que ele fazia achava bem feito. Um
dia, o cortador do talho onde ela ia a carne, disselhe, tendo lobrigado Joo
Valjean:
     - O seu amo  muito rato!
     - Um santo  o que ele ! - respondeu a boa mulher.
     Nem Joo Valjean, nem Cosette, nem Toussaint, saam ou entravam por
outra porta que no fosse a que deitava para a rua de Babilnia. A no se dar o
caso de serem avistados por entre as grades do jardim, difcil seria adivinhar que
eles moravam na rua Plumet. A grade estava sempre fechada e o jardim deixara-o
Joo Valjean inculto e presa das ervas para no atrair a ateno.
     Nisto enganava-se talvez



    III
    Foliis ac frondibus



    Assim, h mais de meio sculo, abandonado e descuidado, o jardim, em vez
de defecar, fora-se tornando extraordinariamente belo. De modo que, quem h
quarenta anos por ali passava, parava a contempl-lo do meio da rua, mal
imaginando os mistrios que por trs daquelas suas viosas e floridas moitas se
abrigavam. No poucos abstractos sonhadores desse tempo, enlevados na
formosura daquele recinto, penetraram com vistas e pensamentos indiscretos as
grades do vetusto e enferrujado porto, mal seguro nas ombreiras, cobertas de
musgo e coroado por um fronto de indecifrveis arabescos.
     Por entre as grades via-se um banco de pedra a um canto, uma ou duas
esttuas enegrecidas pelo tempo e alguns fragmentos soltos do gradeado de
madeira, que recobrira a parede. Quanto ao mais, nem ruas nem murta; jazia tudo
coberto de ervas daninhas, caso pasmoso para um mesquinho pedao de terra
Fora-se a arte e viera a natureza Os goivos, mormente, como que se pavoneavam
num festim esplndido. No havia naquele jardim um s obstculo que
contrariasse o sagrado esforo das coisas para a vida; era um crescer
desassombrado para cada planta, tendo por norte o instinto As rvores
abateram-se a enlaar os seus ramos com os estrepes dos cardos; os cardos
treparam a emaranhar-se nas rvores; marinhara o arbusto, curvara-se a rvore; o
que rastejava pelo cho fora abraar o que se exalava no ar e o que flutuava ao
vento pendera-se para o que jazia entrelaado entre o musgo; troncos, ramos,
folhas, fibras, moitas, elos, sarmentos, espinhos, misturara-se, entrelaara-se,
casara-se, confundira-se tudo; celebrara-se e consumara-se naquele recinto de
trezentos ps quadrados, com aprazimento e sob as vistas do Criador, o sagrado
mistrio da fraternidade vegetal, smbolo da fraternidade humana, num estreito e
duradouro amplexo. Aquele jardim j no era um jardim; era um silvado colossal,
quer dizer, uma coisa impenetrvel como uma floresta, populosa como uma
cidade, trmula como um ninho, sombria como uma catedral, olorosa como um
ramo, solitria como uma campa, animada como uma multido
     Na Primavera, aquele enorme balseiro, livre entre as quatro paredes do seu
recinto, principiava em anseios de cio, obedecendo  oculta influncia da
germinao universal, comeava de estremecer ao Sol nascente, quase como o
animal que aspira os eflvios do amor csmico e sente infiltrar-se-lhe e ferver-lhe
nas veias a seiva de Abril; principiava de estremecer, dizamos, e de semear,
sacudindo ao vento a sua maravilhosa coma de verdura, pela terra hmida, sobre
as esttuas desgastadas, sobre os degraus do arruinado ptio e at sobre as lajes da
solitria rua, as flores em guisa de estrelas, o orvalho  maneira de prolas, a
fecundidade, a beleza, a vida, a alegria, os perfumes. A hora do meio-dia, quando
mil brancas borboletas invadiam de roldo o abandonado vergel, era um
espectculo divinamente belo a vista daquela neve animada do Estio,
redemoinhando em flocos  sombra que procuravam refugidas.
     Ento aquilo que os gorjeios de tantas vozes inocentes, que de entre as
ridentes trevas daquela verdura se detinham em suave prtica com a alma,
esqueciam dizei, completava-o o zunido de tantas asas. Ao declinar do dia,
elevava-se do jardim um vapor de pensamentos melanclicos, como que uma
mortalha de neblina, uma tristeza de celeste serenidade, que o envolvia e cobria
todo; derramava-se pelo ar como veneno delicado e subtil, que todos os pontos se
exalava o olor embriagante das madressilvas edas trepadeiras; ouviam-se os
ltimos guinchos das fuinhas e das arvloas, acoitando-se entre a espessido da
ramagem; sentia-se essa intimidade sagrada da ave com a rvore, intimidade
nascida de que as asas de dia recreiam as folhas e  noite as folhas abrigam as asas.
     Apenas sobrevinha o Inverno, tornava-se outro o verdejante silvado. Fazia-se
negro, enchia-se de gua e despedia o seu manto de verdura, eriando-se de
espinhos e deixando a casa ento quase a descoberto. Em vez de flores nos ramos e
orvalho nas flores, viam-se apenas os compridos fios prateados da baba dos
caracis sobre o espesso e frgido tapete das folhas amarelas. De qualquer maneira,
porm, sob qualquer aspecto, em qualquer estao, na Primavera, como no
Inverno, no Vero, como no Outono, aquele ermo recinto respirava a melancolia,
a contemplao, a solido, a liberdade, a ausncia do homem, a presena de Deus;
e a vetusta e enferrujada grade parecia estar dizendo: Este jardim pertence-me.
     Embora em circuito se estendesse um sem-nmero de ruas; embora a dois
passos dali se elevassem os clssicos e esplndidos palacetes da rua de Varenne, o
zimbrio dos Invlidos, o palcio das cortes; embora pelas vizinhanas
ruidosamente rodassem os faustosos trens da rua de Borgonha e da rua de S.
Domingos, embora na prxima encruzilhada se cruzassem tumultuosos os nibus
amarelos, verdes, brancos e vermelhos, a rua Plumet era sempre um deserto; e
bastara a morte dos antigos proprietrios, a passagem de uma revoluo, a runa
de slidas fortunas, a ausncia, o olvido, quarenta anos de desamparo e viuvez,
para fazer voltar quele privilegiado local os feitos, o verbasco branco, a cicuta, as
silvas, as grandes plantas de folhas espalmadas e cor desmaiadas, os lagartos, os
escaravelhos, toda a qualidade de inquietos e assustadios insectos, para fazer
brotar das entranhas da terra e reaparecer entre aquelas quatro paredes certa
grandeza selvagem e feroz; e para que a natureza, finalmente, que desconcerta as
mesquinhas disposies do homem e  sempre perfeita nas suas obras, ou seja na
formiga ou na guia, viesse expandir-se num pobre e acanhado jardim parisiense,
com tanta rudeza e majestade como numa floresta virgem do Novo Mundo.
     Na natureza, com efeito, nada h pequeno. Sabem-no todos os que so
susceptveis da penetrao profunda das suas maravilhas. Embora a filosofia
nunca plenamente se satisfaa, quer no circunscrever das coisas, quer no limitar
dos efeitos, a vista de todas estas decomposies de foras com a unidade por alvo,
abisma a alma do homem contemplativo em xtases sem fundo.  um trabalho
universal para uma universal juno.
     A lgebra aplica-se s nuvens; a irradiao do astro desabrocha as rosas; e
ningum que pense ousar afirmar que  intil para as constelaes o perfume do
pilriteiro. Quem pode, pois, calcular o trajecto de uma molcula? Que dados
temos para no acreditar que a criao dos mundos seja determinada pela queda
de gros de areia? Quem h a que conhea os recprocos fluxos e refluxos da
pequenez infinita e da infinita grandeza, o ecoar das causas nos precipcios do ser
e os degelos da criao?
     Por pequena que seja, no h coisa nenhuma indigna de ateno; o pequeno 
grande e o grande  pequeno; tudo na necessidade se equilibra, embora o esprito
se amedronte com tal viso Entre os seres e as coisas h relaes prodigiosas; neste
inexaurvel conjunto, desde o sol at ao pulgo, no h motivo para desprezo,
porque todos carecem de mtuo auxlio. A luz no derrama pelo espao os
perfumes terrestres sem saber o que deles faz; e a noite distribui a essncia estelar
pelas flores adormecidas. As aves que voam trazem todas o fio do infinito atado 
perna. A germinao compe-se do despontar de um meteoro e da picada da
andorinha, que quebra o ovo com o bico, e d origem simultnea ao nascimento
de um verme e ao triunfo de Scrates. Onde termina a alada do telescpio, o
microscpio principia a sua. Qual deles alcana mais?
     Escolhei. Uma mancha de bolor  uma pliade de flores; uma nebulosa um
formigueiro de estrelas. A mesma, seno mais, maravilhosa promiscuidade se d a
respeito das coisas da inteligncia e dos factos da substncia. De tal modo se
misturam, combinam, desposam e multiplicam uns pelos outros os elementos e os
princpios, que chegam a pr o mundo material e o mundo moral em evidente
contacto entre si. O fenmeno  um perptuo redobramento sobre si mesmo. Nas
vastas permutaes csmicas a vida universal vai e vem em quantidades
desconhecidas, precipitando tudo no invisvel mistrio dos eflvios, empregando
tudo, sem perder o sonho de um s sono, semeando aqui um animalculo,
migando um astro alm, oscilando e serpejando, convertendo a luz em fora e o
pensamento em elemento, disseminada e indivisvel, dissolvendo tudo, menos o
ponto geomtrico do eu; reduzindo tudo  alma tomo, desabrochando tudo em
Deus; encadeando todas as actividades, desde a mais elevada at  mais baixa, na
escurido de um mecanismo vertiginoso; prendendo o voo do insecto com o
movimento da terra; subordinando, talvez, embora apenas pela identidade da lei, a
evoluo do cometa no firmamento, ao redemoinhar do infusrio na gota de gua.
     Mquina toda esprito. Aparelho colossal, de que  primeiro motor o
mosquito e ltima roda o Zodaco.



    IV
    Mudana de grade



     Parecia que aquele jardim, criado noutro tempo para esconderijo de mistrios
libertinos, se transformara e tornara prprio para asilo de castos mistrios. J no
tinha grutas, nem caramanchis, nem alegretes de murta, mas tinha uma
magnfica coma de escurido, caindo-lhe a modo de vu, por todos os lados. Era
Paphos transformado em den. Era um retiro como que arrependido da
insalubridade; uma ramalheteira, oferecendo actualmente as suas flores  alma;
um jardim garrido, emendado dos seus antigos desmanchos e novamente belo de
virgindade e pudor. O presidente amoldara-o para a galantaria, porm ela o
contornara e alindara; a natureza apoderou-se dele e encheu-o de sombra,
dispondo-o para o amor. De modo que a natureza destruiu a obra do presidente e
do seu jardineiro, dois pobres homens, um dos quais julgara que continuava
Lamoignon, e o outro Le Ntre.
     A natureza preparara aquela solido para o amor e o amor um corao para
aquela solido. E, efectivamente, s lhe faltava ao amor tomar posse daquele
templo composto de verdura, de erva, de musgo, de suspiros de aves, de
voluptuosas trevas, de ramos agitados, e de uma alma toda doura, f, candura,
esperana, aspirao e iluso.
     Cosette sara do convento quase ainda criana. Agora ia passando dos catorze
anos e, por conseguinte, estava na idade crtica. Excepto os olhos, a jovem
parecia ser mais feia do que bonita. No porque as suas feies fossem
desgraciosas, mas pela sua excessiva magreza, pelo seu desaire, pelo seu ar tmido
e ao mesmo tempo despejado, pela sua excessiva altura, pouco em relao com os
seus anos.
     Cosette recebera no convento uma educao completa, quer dizer, fora
instruda na religio e at, ou antes, principalmente, na devoo; depois aprendera
histria, isto , aquilo a que no convento do este nome; geografia e gramtica;
ensinaram-lhe os particpios, os reis de Frana, um bocado de msica, um bocado
de desenho, etc., mas quanto ao mais ignorava tudo, o que, na verdade,  um
encanto, mas que pode tambm ser um perigo.  bom que a alma de uma jovem
no fique, por assim dizer, s escuras, para que por tempo no venham a
parecer-lhe demasiado vivas e inesperadas as miragens que nela, como numa
cmara escura, se lhe reflectirem. Cumpre, porm, verter-lhe nela apenas o reflexo
das realidades, discretamente regulado, e no a luz directa em toda a sua
intensidade. Uma meia luz til e graciosamente austera, que dissipe os medos
pueris e obste s quedas. S o instinto maternal, maravilhosa intuio que se
compe das recordaes da virgem e da experincia da mulher, sabe como e de
que deve ser formada essa meia luz. No h nada que supra tal instinto. Nem
todas as religiosas do mundo reunidas valem o que vale uma me para formar a
alma de uma jovem. Ora, Cosette s conhecera madres e no me.
     Quanto a Joo Valjean, no obstante ser a mais desvelada e afectuosa criatura,
no passava de um pobre velho, que nada sabia; e nesta obra da educao, neste
grave negcio da preparao de uma mulher para a vida,  que se torna necessrio
uma grande cincia para lutar contra essa grande ignorncia chamada inocncia.
     No h coisa que mais predisponha uma jovem para as paixes do que o
convento. O corao principia a ansiar o que no conhece, at que, no achando
respirculo por onde se dilate, a si mesmo se cava e em si mesmo se entranha.
Ento se formam as vises, as suposies, as conjecturas; da um esboar de
romances, um desejar aventuras, um construir fantasias, um levantar edifcios no
meio da ntima escurido do esprito; manses misteriosas, onde as paixes vm
acoitar-se, apenas a sada da grade lhes permite a entrada. O convento  uma
compresso, que para triunfar do corao humano necessita durar toda a vida.
     Cosette, pois, no podia encontrar, na sua sada do convento, morada mais
aprazvel e mais perigosa do que a casa da rua Plumet. Era uma continuao de
solido junta a um princpio de liberdade; um jardim fechado, mas uma natureza
voluptuosa, opulenta, olorosa de acres perfumes; os mesmos sonhos do convento,
mas j entremeados de uma viso de rapazes; uma grade, finalmente, mas uma
grade que deitava para a rua.
     Entretanto, repetimo-lo, Cosette era uma simples criana quando transps o
limiar daquela casa e Joo Valjean lhe disse, fazendo-lhe completa cesso do
jardim inculto:
     - A o tens  tua inteira disposio para fazeres o que quiseres.
     Desde ento, o jardim tornou-se o teatro dos infantis brinquedos da jovem,
que se ia  cata de bichinhos, revolvendo cada moita, cada pedra que
encontrava, rindo e brincando, enquanto no era chegada a hora das vagas
cogitaes; divagando por aquele jardim  procura dos insectos, sorrateiramente
escondidos entre as ervas, enquanto no principiava a divagar nele de olhos fitos
nas estrelas suspensas dos ramos das rvores.
     Alm disto, amava de todo o corao o seu pai, isto , Joo Valjean, com uma
infantil paixo filial, que lhe fazia aprazvel e desejada a companhia daquele velho.
     Apesar dos seus infortnios, Joo Valjean nunca cessara de entregar-se 
leitura, noutro tempo sua ocupao habitual. De modo que no s falava bem,
mas possua a eloquncia e a secreta riqueza de uma inteligncia humilde, mais
cheia de rectido, que a si prpria espontaneamente se cultivou. Ficara-lhe ainda
um resto de aspereza, mas na quantidade necessria para contrabalanar a sua
bondade; aquele homem era um esprito rude e um corao afectuoso. Nos
passeios do Luxemburgo ele explicava minuciosamente todas as coisas,
socorrendo-se do que tinha lido e no poucas vezes do que tinha sofrido. Ao
mesmo tempo, porm, que ele falava, circunvagava a jovem a vista
abstractamente.
     O pensamento de Cosette contentava-se com aquele homem simples, do
mesmo modo que aquele jardim selvagem lhe bastava aos olhos. Quando, aps
desordenada correria atrs das borboletas, chegava ao p dele esbaforida,
dizia-lhe:
     - Ai, sempre dei uma corrida!
     E ele respondia-lhe, beijando-a na fronte.
     Cosette adorava o excelente homem. No o largava um instante. S onde
estivesse Joo Valjean se sentia bem. Por isso, como Joo Valjean no se detinha
nem no jardim nem na casa da frente, aprazia-lhe mais o ptio das traseiras do
que o jardim com as suas flores; a saleta, apenas mobilada com algumas cadeiras
de palhinha, do que a ampla sala, recamada de tapearias e pejada de estofadas
poltronas. Joo Valjean dizia-lhe algumas vezes, sorrindo-se da felicidade de ser
importunado:
     - Deixa-me estar s um bocado! Porque no vais para o teu quarto?
     Outras vezes dizia-lhe ela, nesse tom de quem ralha, to gracioso entre filha e
pai:
     - No seu quarto estou sempre a tremer com frio! Porque no manda pr aqui
um tapete e arranjar um fogo?
     - Olha, filha, h muita gente que vale mais do que eu e nem sequer tem um
tecto que os abrigue!
     - Ento para que quer que no meu quarto esteja sempre o lume aceso e haja
todas as demais comodidades?
     - Porque tu s mulher e menina.
     - Ora! Ento os homens devem sofrer o frio e viver mal?
     - Certos homens, filha.
     - Pois olhe, tantas vezes hei-de para aqui vir, que o hei-de obrigar a acender o
lume!
     Outras vezes dizia-lhe:
     -  meu pai, para que come desse po, que  to mau?
     - Por isso mesmo, filha.
     - Pois uma vez que come dele, tambm eu quero comer.
     E Joo Valjean ento comia po de trigo para que Cosette no comesse po
negro.
     Cosette apenas confusamente se recordava da sua infncia, mas orava pela
manh e  noite por sua me, a quem no conhecera. Quanto aos Thenardier,
lembravam-lhe como dois vultos medonhos atravs de um sonho. Recordava-se
de que certa noite fora a um bosque buscar gua, mas um bosque situado a
muitas lguas de Paris, segundo ela supunha. Afigurava-se-lhe que no princpio da
sua vida estivera num abismo, de onde Joo Valjean a viera tirar. Segundo as suas
ideias, a infncia dela fora certo tempo em que ela no via em roda de si seno
centopeias, aranhas e cobras.
     Como no tinha uma ideia precisa de ser filha de Joo Valjean nem de Joo
Valjean ser seu pai, imaginava, quando,  noite, antes de adormecer, se punha a
pensar, que a alma de sua me transmigrara para aquele velho, para que deste
modo estivesse sempre a seu lado.
     Quando ele estava sentado, ela apoiava-lhe o rosto na alvejante cabea e dizia
consigo, deixando cair silenciosamente uma lgrima:
     - Talvez este homem seja minha me!
     Cosette, por mais que tal coisa parea singular, na sua profunda ignorncia de
educanda num convento e apesar mesmo da maternidade ser toda ininteligvel
para a virgindade, acabara por imaginar que apenas tinha tido uma diminutssima
parcela da me, pois nem sequer lhe sabia o nome. Todas as vezes que o
perguntava a Joo Valjean, ficava sem resposta. Se repetia a pergunta, respondia
ele com um sorriso. Uma ocasio a jovem insistiu; o sorriso acabou por ser uma
lgrima.
     Este silncio de Joo Valjean era como um vu lanado sobre Fantine.
     Tal silncio, porm, seria prudncia? Seria respeito? Seria temor de entregar
aquele nome aos acasos de outra memria sem ser a sua?
     Enquanto Cosette fora criana, Joo Valjean gostava de lhe falar de sua me;
apenas, porm, ela chegou a mais adiantada idade, tornou-se-lhe impossvel tal
coisa.
     Parecia-lhe que j no ousava. Seria por causa de Cosette? Seria por causa de
Fantine?
     Joo Valjean sentia-se acometido de uma espcie de religioso terror com a
ideia de fazer entrar aquela sombra no pensamento de Cosette e ir juntar a
defunta no seu destino, dando-lhe parte nele. Quanto mais sagrada era para ele
esta sombra, mais temerosa ela lhe parecia. Ao lembrar-se de Fantine, como que
queria falar e no podia; afigurava-se-lhe ver por entre as trevas uma coisa
semelhante a um dedo sobre uma boca. Acaso todo esse pudor que existira em
Fantine e que em vida lhe sara violentamente teria voltado depois da sua morte a
pousar sobre ela, a velar, indignado, sobre a paz daquela mulher morta, e
guard-la, feroz, no seu tmulo? Sofreria Joo Valjean, sem o saber, a sua presso?
Ns, que somos dos que crem na morte, no rejeitaramos esta misteriosa
explicao. Eis de onde lhe provinha a impossibilidade de nem mesmo diante de
Cosette pronunciar o nome de Fantine.
     Um dia, Cosette disselhe:
     -  meu pai, eu esta noite vi minha me em sonhos. Tinha umas asas muito
grandes...  impossvel que minha me em vida no fosse uma santa!
     - Pelo martrio! - respondeu ele.
     De resto, Joo Valjean vivia satisfeito.
     Quando Cosette saa com ele, encostava-se-lhe ao brao, altiva, feliz, na
plenitude do corao. A tais mostras de to exclusiva afeio, de uma afeio que
se satisfazia com ele s, Joo Valjean sentia arrobar-se-lhe o corao em delcias.
O pobre homem estremecia inundado de uma anglica alegria, ao imaginar que
isto duraria sempre, e convencido de que no tinha sofrido bastante para merecer
de Deus to fulgurante ventura, dava-lhe graas do ntimo da alma, por permitir
que um miservel, como ele, fosse assim amado por aquela inocente criatura.



    V
    A rosa descobre que  uma mquina de guerra



    Cosette mirou-se um dia, por acaso, no seu espelho, e disse consigo:
     - Ora esta!
     Quase lhe parecia que era bonita. Esta descoberta causou-lhe singular
perturbao.
     At quele momento nunca tinha pensado no rosto.
     Via-se ao espelho, mas no se mirava. E depois, tinham-lhe dito muitas vezes
que era feia; s Joo Valjean dizia devagarinho: No , no, no ! Fosse como
fosse, Cosette julgara-se sempre feia e crescera nesta ideia com a resignao fcil
da infncia.
     Mas eis que de repente o espelho lhe dizia como Joo Valjean:
     - No , no !
     Naquela noite no dormiu.
     - Se eu fosse bonita! -, pensou ela. - Como era engraado que eu fosse bonita!
- E recordava-se das suas companheiras, cuja beleza produzia efeito no convento e
dizia: - O qu! Pois serei como a menina fulana!?
     No dia seguinte tornou a mirar-se, mas no por acaso, e duvidou.
     - Onde tinha eu o esprito! -, disse ela. - No sou feia. Tinha unicamente
dormido mal e por isso estava descorada e com olheiras. - No se sentira
demasiadamente alegre na vspera por se julgar bonita, mas ficou triste por j o
no acreditar. No tornou a mirar-se ao espelho, e durante mais de quinze dias,
penteou-se sempre voltando-lhe as costas.
     De tarde, depois de jantar, fazia habitualmente na sala algum bordado, ou
qualquer outro trabalho, e Joo Valjean lia ao lado dela. Uma vez levantou os
olhos do que estava fazendo e ficou surpreendida vendo o modo inquieto como
seu pai estava olhando para ela.
     Noutra ocasio, indo a passar por uma rua, afigurou-se-lhe ouvir dizer a
algum, que no pde ver, por lhe ficar atrs:
     - Bonita mulher! Mas muito mal arranjada!
     - Ora, aquilo no  comigo Eu sou feia e no vou muito mal arranjada! -, disse
ela consigo.
     Trazia nessa ocasio o seu chapu de pelcia e o vestido de merino.
     Finalmente, estando um dia no jardim, ouviu dizer  velha Toussaint,
dirigindo-se a seu pai:
     - O senhor ainda no reparou como a menina se vai a pr bonita!
     Cosette no ouviu o que seu pai respondeu, porm as palavras de Toussaint
causaram-lhe tal comoo que saiu do jardim, subiu ao seu quarto, correu ao
espelho, a que havia trs meses que se no tinha olhado e soltou um grito. A
imagem que o espelho lhe reflectira deixara-a deslumbrada.
     Estava bela e linda com efeito; no podia recusar o testemunho do seu
espelho, testemunho coerente com a opinio de Toussaint. As suas formas haviam
adquirido regularidade, a pele maior (brancura, os cabelos mais brilho, os olhos
de um meigo azul, certo desconhecido fulgor, que at a no tinham. Bastou um
minuto para dar-lhe completa conscincia da sua beleza. Fora um como claro
repentino. Era bela, j no podia deixar de o acreditar. Dizia-lho o espelho e antes
do espelho outros o tinham notado. Primeiro o dissera Toussaint e aquele sujeito
que ela sups no ser dela que falava, mas era indubitvel que fora. Cosette voltou
ao jardim, orgulhosa, desvairada, louca, ouvindo transportada o gorjear dos
pssaros saudando das rvores o bem-vindo sol de Inverno, parecendo-lhe ver
reflexos dourados no cu e flores mais radiantes entre as moitas de arbustos
silvestres que vegetavam no jardim.
     Pelo contrrio, Joo Valjean do seu lado sentia uma indefinvel e profunda
angstia.
      que havia algum tempo, com efeito, que ele contemplava aterrado o
crescente desenvolvimento da beleza que se expandia no meigo rosto de Cosette.
Aurora para todos risonha, s para ele lgubre!
     Cosette j era bela muito antes de dar por isso, porm aquela inesperada luz
que vagarosamente despontava, inundando a pouco e pouco a jovem, logo no
primeiro dia ferira o penetrante olhar de Joo Valjean. Conheceu que era uma
alterao numa existncia venturosa, e to venturosa que no ousava tocar-lhe,
receoso de causar algum transtorno. Aquele homem que se vira nos mais
angustiados transes, que ainda sangrava por todos os golpes do seu destino, que
fora quase um celerado e viera a tornar-se quase um santo, que, depois de rojar a
corrente de forado, rojava actualmente a invisvel, mas pesada cadeia da infmia
indefinida, aquele homem que ainda estava sob o domnio da justia, podendo,
portanto, a qualquer hora ser apanhado e ter de sair da obscuridade da sua virtude
para ser exposto  claridade do oprbrio pblico, aquele homem aceitava tudo,
tudo desculpava, perdoava, bendizia, e a tudo se sujeitava, e nada pedia seno que
a providncia, os homens, as leis, a sociedade, a natureza, o mundo, unicamente
fizessem com que Cosette o amasse.
     Com que Cosette continuasse a am-lo! Com que Deus no estorvasse que o
corao daquela inocente sentisse e para sempre abrigasse uma parcela de amor
por ele! Ser amado por Cosette! No pedia mais. No queria outra ventura, outra
recompensa, outra coroa, outro blsamo, outro prmio! Se lhe dissessem:
     - Queres estar melhor?
     Ele responderia:
     - No!
     Se Deus lhe dissesse:
     - Queres vir para o cu?
     Ele responderia:
     - Perco na troca!
     A mnima alterao, portanto, ainda que superficial, nesta situao, fazia-o
estremecer como se fora um preldio de graves acontecimentos. Joo Valjean
nunca soube bem o que era a beleza de uma mulher, mas instintivamente
parecia-lhe que era uma coisa temerosa.
     Contemplava apavorado, do fundo da sua fealdade, da sua velhice, misria,
reprovao e desalento, aquela beleza que junto dele, a sua vista, se expandia cada
vez mais triunfante e soberba na ingnua e temvel fronte daquela criana e dizia
consigo:
     - To bela! Que ser de mim agora!?
     Era esta, porm, a nica diferena entre o seu amor e o amor de uma me: ver
com angstia o que uma me gostosamente veria.
     No tardaram a manifestar-se os primeiros sintomas.
     Desde o dia seguinte quele em que a jovem dissera consigo: Realmente eu
sou bonita!, principiou Cosette a esmerasse no vesturio, lembrando-lhe o que
uma ocasio tinham dito dela: Bonita, mas muito mal arranjada! Sopro de
orculo que passara por ela e se desvanecera, depois de lhe depor no corao um
dos dois germens, que com o tempo vem a ocupar completamente a vida da
mulher o desejo de agradar.
     O outro grmen  o amor.
     Apenas se capacitou da sua beleza, entrou de se lhe desenvolver com toda a
fora o esprito feminino. Teve horror do merino e vergonha do chapu. Logo da
ficou sabendo completamente a cincia do chapu, do vestido, do mantelete, da
botinha, dos punhos, da fazenda mais prpria, da cor que melhor diz, essa cincia
que torna a mulher parisiense uma coisa indizivelmente bela, profunda e perigosa.
A nenhuma como a ela cabe o epteto de mulher que d volta ao juzo.
     A pequena Cosette, a quem seu pai no recusava coisa nenhuma, em menos
de um ms, tornou-se naquela tebaida da rua de Babilnia no s uma das
mulheres mais bonitas de Paris, o que j  alguma coisa, mas uma das que vestiam
com mais gosto, o que mais . O seu desejo era tornar a encontrar o que uma vez a
achara mal arranjada, para o ensinar, e ver o que ele diria.
     O caso  que a jovem tornara-se arrebatadora e discriminava perfeitamente
um chapu de Gerard de outro de Herbaut.
     Joo Valjean seguia ansiosamente o andamento destas devastaes. Via
nascer asas a Cosette, ele que conhecia que s podia andar de rojo, ou, quando
muito, caminhar direito.
     De resto, a qualquer mulher bastara a simples inspeco do vesturio de
Cosette para conhecer que a jovem no tinha me. Notava-se-lhe a falta de certas
pequenas convenincias no trajar, de certas convenes especiais, que ela no
observava. Se tivesse me, dir-lhe-ia esta, por exemplo, que o damasco no 
prprio para uma jovem.
     No primeiro dia que Cosette saiu com o seu vestido, o seu mantelete de
damasco preto e o seu chapelinho de crepe branco, disse para Joo Valjean,
travando-lhe do brao, com semblante risonho, olhar radiante e o corao brio
de prazer:
     -  pai, que tal lhe pareo assim?
     - Muito linda! - respondeu ele com voz que parecia a voz amarga de um
invejoso.
     Durante o passeio, Joo Valjean portou-se como de costume, porm de
regresso para casa perguntou a Cosette:
     - Ento tu fazes teno de no tornar a usar aquele vestido e o chapu?
     Como esta cena se passava no quarto da jovem, esta voltou-se para o cabide
do guarda-vestidos de que pendia o seu trajo de recolhida e disse:
     - Ora, aquele vestido de mscara! Que quer meu pai que eu faa dele? No,
semelhante coisa ao meu corpo  que no torna! Parecia mesmo a senhora
Chien-fou com aquela avantesma na cabea!
     Joo Valjean respondeu dando um profundo suspiro.
     Desde ento ele principiou a notar que Cosette, que dantes preferia sempre
ficar com ele em casa, agora preferia sempre sair. E, na verdade, de que serve a
qualquer mulher ser bonita e trajar esmeradamente, se no para se mostrar?
     Joo Valjean notou tambm que Cosette j no frequentava tanto o ptio
interior.
     Actualmente, preferia ir para o jardim, no desgostando de passear por diante
da grade. Joo Valjean, misantropo, no punha nunca os ps no jardim.
Permanecia no seu ptio, como o co.
     Apenas Cosette soube que era bela, perdeu a graa de o ignorar, graa
extrema, pois a beleza realada pela ingenuidade  inefvel, e no h coisa mais
adorvel do que uma inocente formosa caminhando com a chave de um paraso
na mo, sem o saber. O
     que perdeu, porm, em graa ingnua, ganhou-o no encanto da seriedade e
do aspecto melanclico. Resultava daquela combinao de inocncia, juventude e
beleza uma melancolia esplndida, que se lhe derramava por toda ela.
     Foi por essa ocasio que Mrio a tornou a ver no Luxemburgo, aps seis
meses de ausncia.



    VI
    Princpio da batalha



     Cosette vivia na sua sombra, como Mrio no meio da sua, prestes a
incendiar-se  primeira fasca soprada.
     O destino, com a sua misteriosa e fatal pacincia, aproximava uma da outra
aquelas duas criaturas languidamente saturadas das tempestuosas electricidades
da paixo, aquelas duas almas que abrigavam o amor, como as nuvens escondem
em si o raio, e que haviam de vir a encontrar-se e confundir-se num olhar, como
as nuvens num relmpago.
     Tem sido to frequente o abuso do olhar nos romances de ainor, que se acha
hoje desconsiderado. Mal se ousa dizer, actualmente, que tal ou tal amor nasceu
de um olhar que entre si trocaram dois entes E, todavia,  assim e s assim que
nasce o amor.
     O resto  o resto e s mais tarde vem. Nada h mais real que grandes choques
entre duas almas, originados pela combinao daquela fasca. No mesmo
momento em que Cosette, sem o saber, lanou a perturbao na alma de Mrio
com um simples olhar, mal supunha o rapaz que tambm o seu olhar a tinha
perturbado.
     A jovem sentiu o mesmo mal e o mesmo bem.
     Havia muito tempo j que ela o via e examinava, como costumam examinar e
ver as jovens, olhando para outra coisa. Ainda Mrio achava Cosette feia, j ela o
achava interessante. Mas como ele no reparava nela, tornara-se-lhe indiferente.
     No obstante isto, porm, no recndito do seu pensamento, ela confessava
que aquele rapaz tinha uns lindos cabelos, uns lindos olhos, uns belos dentes, um
gracioso tom de voz, quando o ouvia a conversar com os seus companheiros, que
no tinha bonito modo de andar,  verdade, mas que tinha nisso, todavia, uma
graa particular, que parecia rapaz esperto, que o seu todo respirava um conjunto
de nobreza, afabilidade, simplicidade e altivez, e, finalmente, que inculcava ser
pobre, mas que tinha maneiras distintas.
     No primeiro dia em que os olhos de ambos se encontraram, dizendo-se
repentinamente essas obscuras e inefveis coisas que o primeiro olhar balbucia,
Cosette no compreendeu imediatamente. Recolheu-se pensativa  casa da rua de
Oeste, onde Joo Valjean, segundo o seu costume, tinha vindo passar seis
semanas. Ao outro dia, apenas acordou, lembrou-se do rapaz desconhecido, que,
aps tanto tempo de indiferena e frieza, parecia actualmente, atentar nela, sem
que tal circunstncia, porm, lhe parecesse lisonjeira, antes sentindo certos
assomos de clera por causa do aturado desdm daquele desconhecido.
Intimamente agitada por um sentimento de guerra, pareceu-lhe que ia,
finalmente, vingar-se, e esta ideia causava-lhe certa alegria infantil.
     A convico da sua beleza dava-lhe um conhecimento mal distinto da arma
que possua, arma em que as mulheres se cortam quando brincam com a beleza,
como as crianas quando brincam com uma faca.
     Lembrados estaro os leitores das hesitaes, das palpitaes e terrores de
Mrio, no ousando largar o banco em que costumava ir sentar-se nem
aproximar-se dos outros dois passeantes. Este proceder despeitava-a. Um dia ela
disse a Joo Valjean:
     - Meu pai, vamos passear um bocadinho para aquele lado.
     Vendo que Mrio a no procurava, procurou-o ela. Em caso anlogo, todas as
mulheres se parecem com Maom. Demais, estranha coisa, o primeiro sintoma do
amor verdadeiro num rapaz,  a timidez, numa rapariga a ousadia. Causa isto
admirao e no h nada mais simples. So os dois sexos tendendo a aproximar-se
e tomando as qualidades um do outro.
     Nesse dia, o olhar de Cosette fez enlouquecer Mrio e o olhar de Mrio fez
estremecer Cosette. Mrio partiu dali com o corao cheio de confiana, Cosette
com ele em anseios de inquietao. Desde esse dia adoraram-se.
     A primeira coisa que Cosette sentiu foi uma confusa e profunda tristeza.
     Afigurou-se-lhe que de um dia para outro se lhe tinha coberto a alma de um
vu negro, a ponto de a desconhecer.  candidez da alma das jovens, mistura de
frieza e alegria, parece-se com a neve. Derrete-se ao contacto do amor, que  o seu
sol.
     Cosette ignorava o que fosse amor. At ento nunca ouvira pronunciar esta
palavra no sentido terreno. Nos livros de msica profana, que entravam no
convento, a palavra amor era substituda por tambor ou rumor, o que dava
lugar a enigmas que sobremodo preocupavam a imaginao das grandes, tais
como: Ah, muito agradvel  o tambor! ou: A compaixo no  um rumor.
Cosette, porm, que sara do convento demasiado jovem para se preocupar
seriamente com a decifrao do enigma encerrado na palavra tambor, nem
sabia que nome dar ao que actualmente sentia.
     Acaso, porm, depende a gravidade da molstia do saber-se ou ignorar-se o
nome que se lhe deve dar? Cosette amava com a maior intensidade, por isso
mesmo que amava ignorando o que sentia. No sabia se o que experimentava era
bom ou mau, til ou perigoso, necessrio ou mortal, eterno ou transitrio, lcito
ou proibido: amava.
     No pouco a admiraria que algum lhe dissesse: A menina no dorme? Olhe
que isso  proibido. A menina no come? Olhe que isso  mau. A menina sente
opresses no peito e palpitaes? Isso no se faz. A menina para que cora e
empalidece, quando certa pessoa vestida de preto assoma ao princpio de certa
lea verde? Olhe que isso  uma coisa muito feia. A jovem responderia sem
entender: Pois eu tenho culpa numa coisa a que no posso ser superior e que fao
sem saber? Acertou de ser o amor que se representava o que melhor convinha ao
estado da alma da jovem. Era uma espcie de adorao longnqua, uma
contemplao muda, a deificao de um desconhecido. Era a apario da
adolescncia  adolescncia, o sonho das noites, feito romance, mas ainda o
sonho, o desejado fantasma enfim realizado e feito carne, porm ainda sem nome,
sem seno, sem mancha, sem exigncia, sem defeito; numa palavra, o amante
longnquo, ainda nas regies do ideal, uma quimera revestida de formas. Qualquer
outro encontro mais palpvel e prximo, naquela primeira ocasio, teria
afugentado Cosette, ainda meio envolta na exageradora nvoa do claustro.
Dava-se nela uma combinao de todos os medos infantis e de todos os medos
monacais. Evaporava-se dela ainda lentamente o esprito do convento, de que em
cinco anos se saturara e ainda lhe fazia tremer tudo em roda. Nesta situao,
portanto, no era um amante que lhe convinha nem ainda um namorado, era uma
viso. Por isso o seu amor a Mrio era como a adorao de um objecto belo,
luminoso e impossvel.
     Sorria-lhe, e o seu sorriso parecia um requinte de galanteria, porque a
galanteria e a ingenuidade so duas coisas que se tocam pelos seus extremos.
     Esperava todos os dias com impacincia a hora do passeio, sentia-se
indizivelmente feliz com a presena de Mrio e julgava sinceramente exprimir
todo o seu pensamento em dizer a Joo Valjean:
     - No h jardim mais bonito do que o Luxemburgo!
     Mrio e Cosette viviam como que no meio da escurido, um para o outro.
No trocavam uma s palavra, no se saudavam, no se conheciam; viam-se; e, 
semelhana dos astros no cu, que milhes de lguas separam, viviam de se olhar.
     Eis como Cosette se ia pouco a pouco fazendo mulher e desenvolvendo, bela e
enamorada, com a conscincia da sua beleza e na ignorncia do seu amor. E, alm
disto, inocentemente galanteadora.



    VII
    Para tristeza, tristeza e meia



     Todas as situaes tm os seus instintos. A velha e eterna me natureza
advertia surdamente Joo Valjean da presena de Mrio. Joo Valjean estremecia
no mais escuro do seu pensamento. Joo Valjean no via nada e contudo
considerava com teimosa ateno as trevas em que se achava, como se sentisse
construir-se de um lado, e do outro desmoronar-se alguma coisa. Mrio,
advertido tambm, e, no que est a profunda lei de Deus, por essa mesma me
natureza, fazia tudo quanto podia para se ocultar do pai. Todavia, sucedia
algumas vezes ser visto por Joo Valjean. As maneiras de Mrio j no eram
naturais. Tinha previdncias desastradas e temeridades acanhadas. No se
aproximava tanto como dantes; sentava-se ao longe e permanecia em xtase; tinha
na mo um livro em que fingia ler; porque razo fingia? Dantes apresentava-se
com o seu casaco velho, depois, passou a trazer todos os dias o novo; no tinha a
certeza de que ele no frisava; tinha um olhar sonso e usava luvas; numa palavra,
Joo Valjean odiava-o cordialmente.
     Cosette no deixava adivinhar coisa alguma. Sem saber ao certo o que
experimentava, tinha a conscincia de que era alguma coisa que precisava ocultar.
     Havia entre o gosto de vestir bem, que se patenteava em Cosette, e o hbito
do fato novo que aparecera no desconhecido, um paralelismo importuno para
Joo Valjean. Era um acaso talvez, sem dvida, com toda a certeza, mas um acaso
ameaador.
     Nunca dirigira a Cosette a mais insignificante palavra acerca do
desconhecido.
     Contudo, um dia no pde conter-se, e com o vago desespero que lana
inopinadamente a sonda na sua infelicidade, disselhe:
     - Tem um todo bem pedante aquele rapaz!
     Cosette, um ano antes, menina indiferente, teria respondido:
     - Pelo contrrio, acho-o encantador!
     Dez anos mais tarde, com o amor de Mrio no corao, responderia: Tem
razo! No momento da vida e do corao em que se achava, limitou-se a
responder com suprema tranquilidade:
     - Ah! Aquele rapaz!
     Como se o visse pela primeira vez.
     - Que estpido sou! -, pensava Joo Valjean.  Ainda no tinha reparado nele.
Fui eu que lho mostrei!
      simplicidade dos velhos! Profundidade das crianas!
      ainda uma lei desses primeiros anos de sofrimentos e cuidados, dessas lutas
do primeiro amor contra os primeiros obstculos: a jovem no se deixou cair no
menor lao, o rapaz caiu em todos; Joo Valjean comeara contra Mrio uma
surda guerra, que este com a cegueira sublime da paixo e da idade, no
adivinhou. Joo Valjean preparou-lhe uma srie de ciladas, trocou as horas,
mudou de banco, deixou ficar sobre ele o leno de assoar, e foi s ao Luxemburgo;
Mrio caiu, cego, em todas estas armadilhas; e a todos estes pontos de
interrogao, que Joo Valjean lhe plantava no caminho, respondia ele
ingenuamente, sim. Entretanto, Cosette permanecia murada na sua aparente
indiferena e na sua imperturbvel tranquilidade, de tal modo que Joo Valjean
chegou a esta concluso:
     - Este papalvo est loucamente apaixonado por Cosette, que nem ao menos
sabe que ele existe.
     Mas nem por isso deixava de sentir no corao doloroso estremecimento. O
minuto em que Cosette amaria, podia soar de um instante para o outro No
comea tudo pela indiferena?
     Uma nica vez, Cosette cometera uma falta que o assustara. Erguendo-se do
banco, onde estivera sentado trs horas, para se retirar, disselhe ela:
     - J!
     Joo Valjean no tinha interrompido os seus passeios ao Luxemburgo, no
querendo fazer coisa alguma de singular, e sobretudo, receando despertar a
ateno de Cosette; mas durante essas horas to doces para os dois namorados,
enquanto Cosette enviava o seu sorriso a Mrio embriagado, que no reparava em
mais coisa alguma, que no via no mundo seno um radiante rosto adorado,
fitava-o Joo Valjean com os olhos flamejantes e terrveis. Ele que acabara por se
no julgar capaz de um sentimento malvolo, tinha ali momentos em que, quando
Mrio estava presente, julgava voltar a ser selvagem e feroz e sentia reabrirem-se e
agitarem contra o jovem aquelas velhas profundidades da sua alma, onde noutro
tempo houvera tanta clera.
      Quase lhe parecia que se tornavam a formar nele desconhecidas crateras. O
qu!
      Pois estava ali, aquele ente! O que vinha ele fazer? Vinha voltear, farejar,
examinar, tentar? Vinha dizer: Porque no? Vinha girar em torno da sua
felicidade, para lhe lanar a mo e arrebatar-lha! Joo Valjean acrescentava:
      - Sim,  isto mesmo! O que vem ele procurar? Uma aventura. O que quer ele?
      Alguns namoricos! E eu! Pois terei sido primeiro o mais miservel e depois o
mais desgraado dos homens, terei passado sessenta anos da vida sobre os joelhos,
terei sofrido quanto  possvel sofrer, envelhecido sem ter tido mocidade, terei
vivido sem famlia, sem parentes, sem amigos, sem mulher, sem filhos, terei
deixado tintas com o meu sangue todas as pedras, todos os espinhos, todos os
marcos, todos os muros, terei sido brando apesar de serem speros comigo, bom
conquanto fossem maus, ter-me-ei arrependido do mal que fiz e perdoado o mal
que me fizeram, e no momento em que sou recompensado, quando est tudo
terminado, quanto toco o termo, quando tenho o que quero, porque o paguei,
porque o ganhei, tudo se desvanecer, e eu perderei Cosette e perderei a minha
vida, a minha alma porque um grande asno se lembrou de vir passear ao
Luxemburgo!
      Ento as plpebras enchiam-se-lhe de uma claridade lgubre e extraordinria.
J no era um homem olhando para outro; no era um inimigo que mede o
inimigo. Era um co de fila encarando o ladro.
      O resto  sabido. Mrio continuou a ser insensato. Um dia seguiu Cosette at
 rua de Oeste. Noutro dia falou ao porteiro. O porteiro falou tambm e disse a
Joo Valjean:
      - Sabe quem seja um rapaz curioso que perguntou pelo senhor?
      No dia seguinte, Joo Valjean lanou a Mrio aquela olhadela, que ele no
pde deixar de notar. Passados oito dias tinha Joo Valjean mudado de domiclio,
voltando  sua casa da rua Plumet e prometendo a si mesmo que no tornaria a
pr os ps no Luxemburgo, nem na rua de Oeste.
     Cosette no se lastimou, no disse coisa alguma, no fez perguntas, no
diligenciou saber nenhum porqu; chegara j ao perodo em que temia trair-se.
Joo Valjean no tinha a mnima experincia destas misrias, as nicas que so
encantadoras e que ele no conhecia; isto fez com que no compreendesse a grave
significao do silncio de Cosette. O que notou unicamente foi que ela se tornara
triste, e por isso tornou-se sombrio. Era de ambos os lados a experincia em aco
Uma ocasio fez ele uma experincia. Perguntou a Cosette:
     - Queres ir ao Luxemburgo?
     O rosto plido de Cosette iluminou-se com um raio de alegria - Quero - disse
ela.
     Foram Tinham passado trs meses. Mrio j ali no ia. No estava l.
     No dia seguinte, Joo Valjean tornou a perguntar a Cosette:
     - Queres ir ao Luxemburgo?
     Ento respondeu ela suave e tristemente:
     - No!
     Joo Valjean sentiu-se magoado por aquela tristeza, e angustiado por aquela
doura.
     O que era que ocorria naquele esprito to novel e j to impenetrvel? O que
era que estava ali a ponto de se consumar? O que era que estava sucedendo  alma
de Cosette? Algumas vezes, em lugar de se deitar, Joo Valjean conservava-se
sentado ao p do seu leito, com a cabea apoiada nas mos, e passava noites
inteiras a perguntar a si mesmo o que era que havia no pensamento de Cosette e a
pensar nas coisas em que ela poderia pensar.
     Em tais momentos, que vistas dolorosas voltava para o claustro, para aquele
cume casto, lugar de anjos, inacessvel geleira de virtude! Como ele contemplava
com desesperado arrebatamento o jardim do convento cheio de flores ignoradas e
de virgens encerradas, onde todos os perfumes e todas as almas sobem direitos
para o cu! Como ele adorava aquele den fechado para sempre, de onde sara
voluntariamente, de onde loucamente se expulsara! Como lastimava a sua
abnegao e demncia de ter reconduzido Cosette para o mundo, pobre heri do
sacrifcio, aniquilado pela sua prpria dedicao! Como ele dizia para consigo
mesmo:
     - O que fiz eu?!
     No fim de tudo, nada disto era percebido por Cosette. Nem mau modo nem
aspereza. Sempre o mesmo rosto sereno e bondoso. As maneiras de Joo Valjean
eram mais ternas e paternais do que nunca. Se alguma coisa podia fazer adivinhar
nele menos alegria, era a sua mansido.
     Cosette tornava-se pela sua parte cada vez mais triste. Sofria pela ausncia de
Mrio, pelo mesmo modo que gozara com a sua presena, singularmente e sem o
saber ao certo.
     Quando Joo Valjean cessara de a conduzir aos passeios habituais,
murmurara-lhe confusamente certo instinto feminino no fundo do corao, que
no devia mais mostrar desejo de ir ao Luxemburgo, e que seu pai a tornaria a
levar ali, se isso lhe fosse indiferente. Mas foram passando os dias, as semanas e os
meses. Joo Valjean aceitara tacitamente o tcito sentimento de Cosette. Mostrou
saudades. Era j tarde. No dia em que tornou a ir ao Luxemburgo j ali no viu
Mrio, desaparecera; estava tudo acabado. Que havia de fazer? Torn-lo-ia ela a
encontrar? Cosette sentiu um aperto de corao, que coisa alguma minorava e que
aumentava todos os dias; deixou de saber se estava no Inverno ou no Vero, se
fazia sol ou se chovia, se os passarinhos cantavam, se era o tempo das dlias ou das
boninas do campo, se o Luxemburgo era mais encantador do que as Tulherias, se
a roupa que a lavadeira trazia estava ou no bem lavada; se Toussaint comprava
bem ou mal; e permanecia acabrunhada, absorta, atenta a um s pensamento,
com o olhar vago e fito, como quando se olha na escurido para o stio negro e
profundo onde se desvaneceu uma apario.
     Tambm no deixava que Joo Valjean percebesse nela coisa alguma alm da
sua palidez. Continuava a mostrar-lhe no rosto a expresso mais suave.
     Aquela palidez era assaz suficiente para preocupar Joo Valjean. Algumas
vezes ele perguntava-lhe:
     - Que tens tu?
     - No tenho nada - respondia ela.
     E aps um momento de silncio, como ela lhe adivinhasse tambm a tristeza,
continuava:
     - E o que tem o meu pai?
     - Eu? Nada! dizia ele.
     Assim, pois, aquelas duas criaturas noutro tempo unidas pelos laos do mais
tocante e exclusivo amor, que por tanto tempo tinham vivido em recproca
dedicao, sofriam agora juntos, um por causa do outro, sem que nenhum deles o
dissesse, sem que se quisessem mal, sorrindo.
    VIII
    A cadeia



     Apesar de tudo, o mais infeliz era Joo Valjean. A juventude tem sempre uma
irradiao particular, ainda mesmo no meio dos seus sofrimentos.
     Ocasies havia em que Joo Valjean chegava a ser pueril nas suas angstias,
condo particular da dor, que volve os homens  meninice. Ao ver que Cosette
irremissivelmente lhe fugia, o seu desejo era lutar, segur-la, entusiasm-la por
algum objecto brilhante que a demovesse, que a retivesse. Estas ideias, pueris e ao
mesmo tempo senis, deram-lhe, por isso mesmo, uma noo quase exacta da
influncia da passamanaria sobre a imaginao das jovens. Um dia, vendo passar a
cavalo por uma rua um general de grande uniforme, o conde Coutard,
comandante de Paris, teve inveja daquele homem agaloado. No seu entender seria
uma fortuna o poder vestir aquela farda reluzente, porque a vista dessa realidade
brilhante deslumbraria Cosette e lhe tiraria a ideia de olhar para os rapazes,
quando, ao passar por diante da grade das Tulherias com ela pelo brao, as
sentinelas lhe apresentassem armas.
     Um inesperado acontecimento veio fazer diverso a estes pensamentos de
tristeza.
     Isolados naquele ermo retiro da rua Plumet, Cosette e Joo Valjean tinham
adoptado o hbito de ir ver nascer o Sol para algum lugar ameno espcie de prazer
sereno que agrada aos que apenas entram na vida e aos que vo saindo dela.
     Passear de madrugada equivale para os amantes da solido a passear de noite,
com a vantagem de se gozar o risonho espectculo que a natureza, a essa hora,
apresenta. No se encontra ningum pelas ruas e goza-se do canto dos pssaros.
Cosette, como eles, madrugava, sempre gostosamente disposta para estas
excurses matutinas, aprazadas de vspera para a madrugada do dia seguinte. Ele
propunha, ela aceitava, marcava-se a hora, saa-se ao amanhecer. Era uma espcie
de conspiraozinha, ou, se preferem, uma dessas inocentes excentricidades com
que a juventude se deleita, e em que Cosette achava um indizvel prazer.
     Para estes passeios, o lugar predilecto de Joo Valjean, que, como  sabido,
dava sempre a preferncia aos lugares pouco frequentados, aos lugares mais
solitrios e escusos, eram uns campos de mesquinho aspecto, que ento havia nas
proximidades das barreiras, logo  sada de Paris, e como que fazendo ainda parte
da cidade. Eram uns campos tristes, no Vero cobertos de trigo enfezado, no
Outono to ermos de vegetao que dir-se-iam rapados e no ceifados Joo
Valjean, porm, escolhia-os de preferncia a qualquer outro lugar, e a Cosette no
desagradava a escolha; para ele eram a solido, para a jovem a liberdade. Cosette
brincava, corria, tirava o chapu, pousava-o nos joelhos de Joo Valjean, colhia
raminhos e punha-se a espreitar as borboletas pousadas nas flores, sem lhes deitar
a mo. Com o amor vm os sentimentos benvolos. No  pois de admirar que
tenha compaixo da asa da borboleta a jovem intimamente agitada por um frgil
ideal Cosette tecia grinaldas de papoilas, que punha na cabea, e que, atravessadas
e penetradas de Sol, purpureadas como lume, como que semelhavam uma coroa
de brasas sobre o frescor daquele rosado rosto.
     Estas excurses matutinas continuaram ainda depois que o viver de ambos
principiou a ser agitado pela tristeza.
     Numa manh de Outubro, tentados pela amena serenidade do Outono de
1831, saram e, ao romper do dia, achavam-se prximo da barreira do Maine.
Ainda no era a aurora, era a alva, transio sombria, mas cheia de encantos.
Algumas constelaes num ou noutro ponto do azul vago e profundo, a terra toda
negra, o cu todo branco, certo estremecimento nas ervas, e por toda a parte a
misteriosa inquietao do crepsculo. Uma cotovia que parecia envolvida com as
estrelas, cantava numa altura prodigiosa; ter-se-ia dito que aquele hino da
pequenez ao infinito, tranquilizava a imensidade. No oriente via-se Vnus,
elevando-se flgida por trs da cpula do Vale de Graa, que se destacava
obscuramente num horizonte alvacento, e figurava uma alma a evadir-se de um
edifcio tenebroso.
     Era tudo paz e silncio; nas ruas desertas ou apenas ressoando com os passos
de alguns raros operrios, que passavam rpidos em direco ao trabalho.
     Joo Valjean sentou-se nuns paus colocados  porta de um armazm de
madeiras, numa das leas laterais, e a permanecia com o rosto voltado para o
caminho e as costas para o ponto do horizonte onde em breve assomaria o Sol
aureolado de afogueados clares. Tudo isso, porm, esquecera, alheado numa
dessas profundas abstraces, em que o esprito todo se concentra, encerrando-o
como que entre quatro paredes, que nem o olhar deixam livre. H meditaes a
que se pode chamar verticais, porque so um como entranhar-se o esprito por
uns espaos l muito no fundo, de onde leva demorado tempo a voltar de novo 
terra. Numa dessas cogitaes se tinha entranhado Joo Valjean. Pensava em
Cosette e na possibilidade da sua grande ventura, se entre eles no surgissem
barreiras a separ-los; pensava nessa luz que lhe inundava a vida e que era a
respirao da sua alma; e estas cogitaes em que se embrenhava, enquanto
Cosette, de p junto dele, olhava para o espectculo das nuvens purpureando-se,
derramavam-lhe no corao, atribulado e alanceado de tantas dores, como que
um blsamo doce que suavemente lhas refrigerava.
     De sbito, Cosette exclamou:
     - Meu pai, parece que vem ali gente!
     Joo Valjean olhou na direco apontada pela jovem e viu que Cosette no se
enganara.
     Como  sabido, a calada que conduz  antiga barreira do Maine  uma
prolongao da rua de Svres, cortada em ngulo recto pelo boulevard interior.
Do ponto onde os dois caminhos se cortam, divergindo para lados diferentes,
partia um estrondo difcil de explicar quela hora e viu-se quase imediatamente
assomar uma massa informe, que entrava na calada, depois de haver
desembocado do boulevard.
     O que quer que era ia gradualmente avultando e parecia mover-se com
ordem, mas tremia e bramia. No obstante, s por um rumor de rodas, por um
tropear de cavalos e os estalidos de um chicote, acompanhado de gritos, se
adivinhava ser uma carruagem, cujos lneamentos, afinal, bem que ainda
empanados pelas sombras crepusculares da alvorada, de todo se fixaram. Era,
efectivamente, uma carruagem, que tinha desembocado do boulevard,
dirigindo-se para onde Joo Valjean estava, a caminho da barreira. Seguiu-se a
esta uma segunda do mesmo aspecto, e logo em seguida terceira e quarta. Sete
desembocaram sucessivamente, com to pequeno inter valo, que as cabeas dos
cavalos de umas tocavam a parte posterior das outras. Ao ver a agitao dos vultos
que confusamente se apercebiam em cima dos carros e um como relampejar de
espadas desembainhadas, ao ouvir como que o estrondear de cadeias e o crescente
e mais distinto sussurro das vozes que rompiam do meio daquela massa negra,
dir-se-ia uma sequncia de temerosas vises sadas da caverna dos sonhos.
     Apenas chegada ao p, aquela massa mvel, que transparecia por entre as
rvores, com o vu alvacento de uma apario, tomou formas, as cabeas dos
vultos tornaram-se rostos de cadveres, e ao plido claro do crepsculo
matutino, que reverberava sobre aquela massa ao mesmo tempo sepulcral e
animada, desvelou-se o vu de sombras em que despontara envolta.
     Eis o que era:
     Seguiam pelo caminho sete carruagens, umas aps outras, sendo as seis
dianteiras de singular estrutura. Pareciam carros de tanoeiros, isto , compridas
escadas assentes sobre duas rodas, formando andas na extremidade anterior. Cada
um destes carros, ou, diremos melhor, destas escadas, era puxada a quatro cavalos,
no emparelhados, mas em fileira. Transportavam estas singulares ambulncias
magotes de homens, que mal se distinguiam entre as sombras decrescentes da
madrugada. Cada carro conduzia vinte e quatro, doze de cada lado, encostados
uns aos outros, com as pernas penduradas e o rosto voltado para quem passava.
Por uma golilha que cada um destes vinte e quatro homens trazia ao pescoo
passava uma comprida corrente de ferro, que os prendia a todos, de modo que, se
tivessem de apear-se do carro e caminhar a p, ver-se-iam presos por uma espcie
de unidade inexorvel, serpenteando pelo solo com a corrente por vrtebra, quase
como uma centopeia. Adiante e atrs de cada uma das carruagens viam-se dois
homens armados de espingardas, segurando debaixo dos ps as duas extremidades
da corrente. As golilhas eram quadradas. O stimo carro, vasto coberto gradeado,
tinha quatro rodas e era puxado a seis cavalos.
     Conduzia um monte de caldeiras e panelas de ferro, de fogareiros e correntes,
e  mistura alguns homens, com aspecto de doentes, amarrados e deitados ao
comprido.
     Cingia o carro um gradeado velho, em partes quebrado, que inculcava ter
servido nos antigos suplcios.
     Estes carros seguiam pelo centro da rua. Aos lados caminhavam duas alas de
guardas, de hediondo aspecto, rotos, sujos, com Chapus chatos de trs bicos na
cabea, como os soldados do directrio, com uniformes de invlidos e calas de
gatos pingados, listadas de azul e cinzento e j esfarrapadas, com dragonas
vermelhas, boldris amarelos, facas de cozinha, espingardas e paus, espcie de
soldados de guerrilhas, esbirros, que parecia participarem da abjeco do mendigo
e da autoridade do carrasco. O que inculcava ser seu chefe brandia na mo um
chicote boleeiro. Aos crescentes clares do sol nascente, todas estas miudezas,
esfumadas pelo crepsculo, tomavam maiores e mais visveis propores.  frente
e na retaguarda do prstito iam alguns gendarmes a cavalo, de sabre em punho e
aspecto severo.
     Era to extenso o cortejo, que, quando a primeira carruagem chegava 
barreira, ainda a ltima vinha a desembocar do boulevard.
     Ao inslito estrondo acudira rapidamente, e, para assim dizer, por encanto,
como frequentemente acontece em Paris, uma multido de espectadores cados
das nuvens, que atulhavam os flancos da rua, olhando espantados para o estranho
espectculo.
     Pelas vielas e becos da vizinhana ouviam-se as vozes da gente que se juntava
e o estrpito dos tamancos.
     Triste era o aspecto daqueles homens acorrentados, tiritando, lvidos, ao
contacto da fria virao do amanhecer. No obstante os desencontrados
solavancos, em que os baldeavam os carros, nem um s quebrava a sua profunda
mudez. Trajavam todos calas de estopa, sendo o demais vesturio a capricho da
misria. O calado eram tamancos. Hedionda disparidade de trajes a daqueles
homens! No h coisa mais fnebre do que os arlequins andrajosos. Chapus
amassados, bons de oleado, carapuas de l, jaquetas rotas nos cotovelos; uns
com chapus de mulher, outros com cestos enfiados na cabea; era uma variedade
extravagantemente lgubre. Por entre os rasges da roupa entrevia-se a alguns o
peito cabeludo, sarapintado de variegados debuxos, representando templos de
amor, coraes inflamados e Cupidos. A outros divisavam-se-lhes impigens e
manchas vermelhas. Dois ou trs haviam atado cordas de palha s travessas do
carro e nelas apoiavam os ps como num estribo. Um deles tinha na mo um
objecto negro parecido com uma pedra, que de vez em quando levava  boca, e em
que parecia cravar os dentes; era um bocado de po, que ia comendo. Nem uma
lgrima borbulhava nos olhos de um s daqueles homens; conservavam-se todos
enxutos, sem brilho ou flgidos de um claro de mau agouro.
     Os da escolta praguejavam, os acorrentados nem uma palavra proferiam; de
espao a espao ouvia-se o som de uma paulada nas costas ou nas cabeas dos
desgraados. Era terrvel de ver o aspecto daqueles homens andrajosos, bocejando,
deixando pender as pernas inertes ao sabor dos solavancos, batendo com as
cabeas de encontro uns aos outros, divagando a vista com ferocidade
resplendente, fechando ou distendendo as mos sem fora, como de cadveres, e
junto a tudo isto um estrugir de ferros a cada balano dos carros. Seguiam o
fnebre prstito magotes de crianas rindo galhofeiramente.
     Fosse o que fosse, era pavorosamente lgubre o espectculo daquela fileira de
carros. Era evidente que podia sobrevir no dia seguinte ou dentro de uma hora
uma btega de gua, e aps esta outra e ainda terceira, e que aqueles homens no
se tornariam a enxugar depois de molhados, que no tornariam a aquecer depois
de repassados do frio da humidade, que lhes escorreria a gua pelas costas abaixo,
pegando-lhes a camisa ao corpo e ensopando-lhes os socos; que as chicotadas no
os estorvariam de tiritar, que a corrente continuaria a segur-los pelo pescoo e os
ps a balancearem-se, e ningum se podia furtar a um involuntrio tremor, ao ver
aquelas criaturas humanas manietadas de semelhante modo e expostas ao frio
nevoeiro do Outono,  chuva, ao nordeste, a todas as intempries do ar, como
rvores ou pedras e no como homens.
     As chicotadas nem aos doentes que jaziam manietados e sem movimento no
stimo carro poupavam ou eram mais raro distribudas. Parecia, ao ver aqueles
homens estirados a granel, que tinham sido para ali atirados como uns sacos
cheios de misria.
     De sbito despontou o Sol no horizonte, inundando tudo com purpureados
clares, a cujos revrberos dir-se-ia que ardiam as cabeas sombrias de todos
aqueles homens. Cada qual desprendeu a lngua para um concerto
estrondosamente unnime de pragas, risadas e cantares galhofeiros. A larga faixa
de luz horizontal dividiu em duas toda a fileira, iluminando as cabeas e os
troncos, e deixando em sombras os ps e as rodas. Apareceram ento nos rostos os
pensamentos; momento horrvel, em que os demnios tiraram a mscara e se
tornaram visveis, em que aquelas almas deixaram a descoberto a sua ferocidade.
O Sol cobriu com a sua luz aquela malta e ela ficou ainda tenebrosa. Alguns
metiam galhofeiramente na boca canudos de penas, pelas quais sopravam para a
multido os piolhos que tiravam do corpo, escolhendo de preferncia as mulheres;
a aurora acentuava com a negrura das sombras aquelas lastimosas figuras; nem
uma s daquelas Criaturas deixava de ser disforme  fora da misria; e era to
monstruoso o espectculo, que dir-se-ia que transformava a claridade do Sol em
claro de relmpago. Os do carro, que abria o prstito, haviam entoado e
salmodiavam descompassadamente com desvairada jovialidade um pot-pourri de
Dsaugiers, ento clebre, A Vestial; as rvores sussurravam lugubremente; nas
leas laterais viam-se alguns burgueses escutando com idiota beatitude aquelas
obscenidades galhofeiramente cantadas por espectros.
     Confundiam-se naquele prstito como um caos todas as variedades da
misria; via-se ali o ngulo facial de toda a espcie de animais, velhos,
adolescentes, crnios nus, barbas grisalhas, monstruosidades cnicas, resignaes
impacientes, bocas selvagens, atitudes loucas, porcos com carapuas, cabeas de
raparigas com uma espcie de saca-rolhas nas fontes, rostos infantis e por isso
mesmo horrveis, magras faces de esqueletos, aos quais s faltava a morte. No
primeiro carro via-se um negro, que talvez tivesse sido escravo e podia comparar
as correntes. Por todas aquelas frontes passara o medonho nvel deste mundo, a
infmia; em tal grau de abatimento, as ltimas transformaes
experimentavam-nas todos nas ltimas profundidades; e a ignorncia
transformada em embrutecimento igualava a inteligncia transformada em
desespero.
     No havia escolha possvel entre aqueles homens, que se ofereciam aos olhos
como a flor ao lodo. Era claro que o ordenador daquela imunda procisso, se o
teve, no os distribura por classes. Pegaram naquelas criaturas, acorrentaram-nas
aos pares, sem escolha, pela desordem alfabtica talvez, e carregaram-nos ao acaso
sobre aqueles carros. Os horrores grupados, porm, vm sempre por ltimo a dar
uma resultante; toda a adio de infelizes d uma soma; de cada corrente saa uma
alma comum, de cada carro sua fisionomia. Logo atrs dos que iam a cantar
seguia-se outro carro, no qual se uivava; os do terceiro mendigavam; os do quarto
rangiam os dentes; os do quinto ameaavam os que passavam; os do sexto
blasfemavam; o ltimo ia calado como um tmulo. Dante julgaria ver os sete
crculos do inferno em marcha.
     Marcha das condenaes para os suplcios, feita sinistramente, no no
temeroso carro fulgurante do Apocalipse, mas, coisa ainda mais sombria, na
carreta das gemnias.
     Um dos guardas levava na mo um pau terminando por um gancho, com o
qual de espao a espao parecia revolver aquele monte de lixo humano. Entre a
multido estava uma velha, que dizia a um rapazinho de cinco anos,
apontando-lhe aqueles homens um a um:
     - V-te naquele espelho, Velhaco!
     Como as cantigas e as blasfmias se fossem tornando mais e mais ruidosas, o
que parecia ser o capito da escolta fez estalar o seu chicote, e a este sinal uma
terrvel paulada surda e cega caiu sobre os sete carros, com o sussurro de uma
saraivada; muitos rugiram e escumaram, o que aumentou a alegria aos gaiatos,
que tinham acudido, como nuvem de varejas atradas pelo olfacto daquelas
dragas.
     Os olhos de Joo Valjean despediam um claro medonho. No era uma
pupila, era -esse vidrado escuro que substitui o olhar em detritos infelizes, que
parece no ter conscincia da realidade, e em que flameja a reverberao dos
pavores e das catstrofes. Aquele homem no presenciava um espectculo, sofria
uma viso. Quis-se levantar, fugir, afastar-se; no pde sequer descolar os ps de
onde os tinha. s vezes as coisas que vemos como que nos agarram e nos retm.
Joo Valjean ficou colado, petrificado, estpido, perguntando a si prprio, atravs
de uma confusa angstia inexprimvel, o que significava aquela perseguio
sepulcral e donde saa aquele pandemnio que o perseguia. Lentamente levou a
mo  fronte, gesto costumado daqueles a quem subitamente volta a memria;
lembrou-se que era aquele, com efeito, o itinerrio, que se costumava dar aquela
volta para evitar o encontro das pessoas reais, sempre possvel na estrada de
Fontainebleau, e que, havia trinta e cinco anos, tambm ele passara por aquela
barreira.
     Cosette tambm estava apavorada, mas por diferente motivo. No sabia o que
aquilo significava, faltava-lhe a respirao, parecia-lhe impossvel o que via; por
fim, exclamou:
     - Meu pai, que levam aqueles carros?
     - Forados! - respondeu Joo Valjean.
     - E para onde vo?
     - Para as gals!
     Neste momento multiplicaram-se assombrosamente as chicotadas, ressoaram
sem piedade as pranchadas; foi uma como raiva de chicotes e espadas; os forados
encolheram-se, obedecendo de um modo horrendo no meio daquele suplcio, e
calaram-se todos com olhares de lobos acorrentados. Cosette tremia como varas
verdes.
     - Meu pai, aquilo so homens? - tornou ela, convulsa por um geral tremor.
     - s vezes - disse ele.
     Era efectivamente a corrente que sara antes do amanhecer de Bictre,
tomando a estrada de Mans, para evitar Fontainebleau, onde ento estava o rei.
Esta Volta fazia durar o suplcio da jornada mais trs ou quatro dias; mas que
importava, se com isso se poupava a um rei a vista de um suplcio?
     Joo Valjean recolheu-se a casa acabrunhado. Encontros como aqueles so
choques e a recordao que de si deixam so um terrvel abalo.
     Entretanto, Joo Valjean, voltando Com Cosette para a rua da Babilnia, no
ouviu outras perguntas que ela lhe fez, acerca do que acabava de Ver; ia talvez
demasiadamente preocupado consigo mesmo, para perceber o que ela lhe dizia e
para lhe responder. Unicamente  noite, quando Cosette se despediu dele para se
ir deitar,  que a ouviu dizer a meia voz e como que falando consigo prpria:
     - Se encontrasse no caminho um daqueles homens... Jesus! Parece-me que
morreria s de v-lo ao p de mim! Felizmente, quis o acaso que o dia seguinte
ao do trgico espectculo fosse de festa em Paris, a propsito de qualquer
solenidade oficial e houvesse revista no Campo de Marte, teatros nos Campos
Elsios, fogo de artifcio na Estrela e iluminaes por toda a parte. Joo Valjean,
violentando os seus hbitos, conduziu Cosette a presenciar aqueles regozijos, a fim
de a distrair da impresso da vspera e de apagar, sob o risonho tumulto de toda a
cidade, o espectculo abominvel que tinha visto. A parada que adubava a festa,
tornava muito natural a circulao das fardas; Joo Valjean vestiu a sua farda de
guarda nacional, com o vago sentimento de um homem que se refugia.
     No fim de tudo pareceu-lhe ter alcanado o fim daquele passeio. Cosette, para
quem era lei agradar a seu pai, e para quem, alm disto, todo o espectculo era
novo, aceitou a distraco com a boa vontade fcil e ligeira da adolescncia, e no
fez beicinho demasiadamente desdenhoso diante da gamela de alegria, que se
chama festa pblica; de tal modo que Joo Valjean acreditou no seu bom xito,
julgando no restar j o mnimo resto da hedionda viso.
     Dias depois, numa manh em que o Sol apareceu magnfico, e em que
estavam ambos na varanda do jardim, outra infraco s regras que Joo Valjean
parecia ter imposto a si mesmo e ao hbito de se conservar no seu quarto, que a
tristeza tinha feito adoptar a Cosette, esta, de penteador, conservava-se em p, no
desalinho das primeiras horas que envolve adoravelmente as jovens, e que tem o
ar de uma nuvem sobre o astro, com a cabea inundada de luz, rosada por ter
dormido bem, olhava meigamente para o excelente homem que se achava
enternecido e desfolhava ao mesmo tempo um malmequer. Cosette desconhecia a
encantadora lenda do bem-me-queres, mal-me-queres. Quem lha havia de
ensinar? Desfolhava a flor, por instinto, inocentemente, sem suspeitar que
desfolhar um malmequer  sondar um corao. Se houvesse uma quarta graa
chamada Melancolia, apresentaria Cosette o aspecto dessa graa. Joo Valjean
estava fascinado pela contemplao daqueles dedinhos rosados sobre a flor,
esquecendo tudo perante o brilho que se destacava da linda criana. Numa moita,
ao lado, cantava um pintarroxo. Pelo cu corriam algumas nuvens brancas, to
alegremente, que parecia terem acabado de receber a liberdade. Cosette
continuava a desfolhar atentamente a sua flor; parecia estar pensando em alguma
coisa; de repente inclinou a cabea para o ombro com a delicada indolncia do
cisne e perguntou a Joo Valjean:
     -  meu pai, mas o que so as gals?
    LIVRO QUARTO
    O socorro Humano pode tornar-se socorro do Cu



    I
    Ferido por fora, restabelecido por dentro



     Assim se ia gradualmente obscurecendo a existncia daquelas duas criaturas.
     Restava-lhes apenas uma distraco, noutro tempo fonte de incomensurveis
prazeres levar po aos que tinham fome e roupa aos que tinham frio. Nestas visitas
aos pobres, visitas em que Cosette quase sempre acompanhava Joo Valjean,
encontravam ambos parte, se bem que pequena, do seu antigo contentamento, e
havia dias, quanto maior era o nmero de esfomeados socorridos, de crianas
reanimadas e agasalhadas, em que Cosette  noite se mostrava mais do que de
ordinrio jovial e satisfeita.
     Foi por esse tempo que eles fizeram a sua visita ao covil dos Jondrette.
     Logo no dia imediato ao daquela visita, Joo Valjean apareceu pela manh no
pavilho, sereno como habitualmente, mas com uma grande ferida no brao
esquerdo, muito inflamada e de pssimo aspecto, que parecia uma queimadura e
que ele explicou do modo que primeiro lhe ocorreu. Sobreveio-lhe de tal ferida
uma violenta febre que o fez estar retido em casa mais de um ms. Quando
Cosette insistiu com ele para mandar chamar um mdico, respondeu-lhe:
     - Chama o mdico dos ces.
     Cosette tratava-lhe da ferida pela manh e  noite, com to divinal modo,
com to anglico prazer de lhe ser til, que Joo Valjean Sentia reviver-lhe toda a
sua antiga alegria, dissiparem-se-lhe todos os seus temores e ansiedades, e dizia
em contemplao diante da jovem:
     - H males que valem por bens Abenoada ferida!
     Ao ver seu pai doente, Cosette desertou da sua alva casinha e retomara ao
ptio e casa trrea onde Joo Valjean fixara morada A passava junto dele os dias
quase inteiros, lendo-lhe os livros que ele preferia, e que, de ordinrio, eram os de
viagens.
     Remoava Joo Valjean com o reflorir das suas esperanas, um dia murchas e
agora outra vez abertas aos raios da sua nova ventura; apagavam-se-lhe da alma as
ideias do Luxemburgo, do rapaz desconhecido, do encontro certo dos seus
passeios, da frieza da Cosette; varriam-se-lhe do esprito todas as nuvens que to
desastradamente tinham vindo empanar lhe o brilho da sua ntima felicidade, e
chegou, por ltimo, a pensar consigo:
     - Sou um velho tonto, que me pus a imaginar tolices.
     Era tal a sua satisfao, que quase o no impressionara o medonho e to
inesperado encontro dos Thenardier naquele hediondo covil Ele conseguira
escapar-se; com os vestgios ningum seria capaz de dar-lhe: que lhe importava o
mais? Apenas lhe lembrava semelhante coisa para lastimar aqueles miserveis -
Eles l esto presos e impossibilitados de fazerem mal -, dizia ele consigo. - Mas
que desgraa de gente!
     Quanto a medonha viso da barreira do Maine nem uma s palavra tornara
Cosette a dizer a semelhante respeito.
     s vezes,  noite, Cosette punha-se a cantar, no modesto albergue do ferido,
canes tristes, que enchiam Joo Valjean de prazer. A jovem aprendera a cantar
no convento com soror Santa Matilde e tinha a voz de uma toutinegra que tivesse
alma.
     Chegada a Primavera, em que o jardim tanto se opulentava de flores, de
pssaros, de encantos, Joo Valjean disse  jovem:
     - Tu j no vais ao jardim? Eu preferia que fosses.
     - Como quiser, meu pai - respondeu Cosette.
     E a jovem volveu aos seus passeios no jardim, para obedecer a seu pai, quase
sempre s; pois, como algures deixamos dito, Joo Valjean rarssimas vezes vinha
ao jardim, talvez com receio de ser visto pelas grades do porto.
     A ferida de Joo Valjean tinha sido uma diverso.
     Ao ver seu pai menos incomodado, quase restabelecido e na aparncia
satisfeito, Cosette sentiu um contentamento to natural e to suave, que nem deu
por ele. Como no havia de ser assim, se aquele era o ms de Maro, em que os
dias j so maiores, o Inverno principia a ser afugentado pelos clares da
Primavera, levando sempre consigo uma maior ou menor parte das nossas
tristezas? Depois chegou o Abril, estivo alvorecer, respirando frescores como
todas as madrugadas, risonho como todas as infncias, s vezes mesmo choro
como um verdadeiro recm-nascido que . Nesse ms a natureza resplendeu de
uns fulgores amenos, que passam do cu, das nuvens, das rvores, dos prados e
das flores para o corao do homem.
     Cosette, como jovem que era, no podia deixar de sentir-se reanimada aos
eflvios daquela alegria de Abril, imagem sua. Pouco a pouco, e sem dar por tal
coisa, varreram-se-lhe do esprito todas as sombras que lho pejavam. Na
Primavera afilaram-se as trevas das almas tristes, como os recantos escuros das
cavernas com a luz do meio-dia. Assim acontecia, realmente, com Cosette, sem
que ela, porm, desse por tal.
     Quando pela manh, depois do almoo, aps reiteradas instncias, conseguia,
por fim, arrastar seu pai at ao jardim por um quarto de hora, passeando com ele
em frente da varanda e sustendo-lhe o brao enfermo, a cada instante lia, tudo a
alegrava e ela no dava por nada disto.
     Joo Valjean dizia ento consigo, ao ver extasiado como a jovem volvia 
primitiva cor e frescura:
     - Abenoada ferida!
     E agradecia do corao aos Thenardier.
     Restabelecido completamente, Joo Valjean continuou a dar os seus solitrios
passeios crepusculares, como dantes.
     Erro, porm, seria supor que se pode assim passear s pelos stios ermos de
Paris, sem deparar com algum mau encontro.



    II
    A tia Plutarco no sente dvida em explicar um fenmeno



     Uma tarde, lembrou-se Gavroche, o gaiato, que estava em jejum, e no s
isso, mas, o que ainda era mais aborrecido, que tambm no dia anterior no
jantara.
     Resolveu, portanto, ver se arranjaria de cear e dirigiu-se para o lugar mais
deserto da Salptrire, de onde costumam vir as boas fortunas, porque onde no
h ningum encontra-se alguma coisa, e foi caminhando at chegar a uma
povoao, que lhe pareceu ser a aldeia de Austerlitz.
     Num dos seus precedentes passeios, notara naquele stio um jardim, onde se
achava um velho e uma velha, e logo em seguida ao jardim um pomar menos
mau.
     Junto ao pomar ficava uma espcie de fruteiro mal resguardado, em que
facilmente se poderia fazer a conquista de uma ma. Uma ma  uma ceia; uma
ma  a vida. O que perdeu Ado podia salvar Gavroche. Ora o jardim deitava
para um beco solitrio, orlado de silvas do lado das casas; por consequncia,
apenas o separava da desejada ma uma sebe.
     Dirigiu-se Gavroche para o jardim, deparou com o beco, conheceu o pomar,
certificou-se do fruteiro, examinou a sebe; uma sebe  um obstculo que se vence
com um salto.
     ptima era a hora; declinava o dia, no beco no se via nem um gato.
Gavroche, portanto, principiou a escalada, mas de repente parou, porque ouviu
falar no jardim, Espreitou por um dos interstcios da sebe.
     A dois passos dele, do outro lado da sebe, justamente no stio onde iria sair
pela abertura que projectava abrir, havia uma pedra deitada ao comprido,
formando uma espcie de banco, na qual estava sentado o velho, dono do jardim,
e diante dele e em p, a Velha que Gavroche noutra ocasio vira. Como a velha
estivesse tartamudeando o que quer que fosse o gaiato ps-se  escuta, pouco
escrupuloso de devassar Vidas alheias.
     - Senhor Mabeuf! - dizia a velha.
     - Mabeuf! - disse consigo Gavroche. - Que rato de nome!
     Como o velho apostrofado no desse sinal de si, a velha tornou:
     - Senhor Mabeuf!
     - Que , tia Plutarco? - Decidiu-se enfim o velho a responder, sem despegar os
olhos do cho.
     - Tia Plutarco! - murmurou Gavroche. - Outro nome rato!
     - O senhorio no est satisfeito - tornou a tia Plutarco, dirigindo-se ao velho,
que no teve remdio seno entabular conversa.
     - Porqu?
     - Porque se devem trs trimestres.
     - E daqui a trs meses dever-se-lhe-o quatro!
     - Diz que no tarda a p-lo daqui para fora.
     - Pois que ponha!
     A mulher da lenha tambm insiste porque lhe paguem. Diz que no torna a
dar mais uma acha fiada.
     - Como h-de o senhor passar o Inverno, se no h com que acender o lume?
     - Temos o Sol.
     - O cortador diz que tambm no torna a dar carne sem lha pagarem.
     - Pouco importa; a carne  pesada e nem por isso me faz bem ao estmago!
     - Mas ento que se h-de comer?
     - Po.
     - O pior  que o padeiro quer que se lhe pague o que se l deve e diz que sem
ir dinheiro no vem po.
     - Est bom.
     - Que h-de ento comer?
     - Temos as mas do pomar!
     - As mas! L isso  verdade, mas bem v que sem dinheiro no se pode
arranjar vida.
     - Pois eu no o tenho!
     A velha retirou-se e o velho ficou s e ps-se a meditar. Gavroche meditava
tambm. Era quase noite.
     O primeiro resultado da meditao de Gavroche foi, em vez de escalar a sebe,
acocorar-se em baixo, no lugar onde os ramos deixavam uma clareira.
     - Bravo! Uma alcova! - exclamara ele interiormente, ao dar pelo esconderijo
em que se acolheu.
     Ficava este to prximo do banco do tio Mabeuf que Gavroche ouvia o
sussurro da respirao do octogenrio.
     Lembrando-se ento de que quem dorme come, tratou de ver Se dormia.
     Sono de gato era o de Gavroche, que com um olho dormia, com outro estava
alerta.
     No meio da claridade crepuscular, que ainda iluminava a terra, o beco
desenhava uma linha lvida entre duas fileiras de silvedos.
     De sbito, dois vultos assomaram no meio daquela faixa esbranquiada, um
adiante e outro atrs, mas a pequena distncia.
     - A vm dois patuscos - rosnou Gavroche.
     O primeiro vulto parecia um velho, alquebrado e pensativo, cujo vesturio era
mais do que simples, caminhando vagarosamente em virtude da sua idade, o qual
passeava  claridade das estrelas.
     O segundo era direito, firme e delgado. Regulava o seu passo pelo passo do
primeiro, mas conhecia-se flexibilidade e agilidade na voluntria lentido com que
caminhava. Este vulto apresentava, com o que quer que era de feroz e inquietador,
o todo que ento se chamava um elegante; o chapu era de forma moderna, a
sobrecasaca preta, bem feita, talvez de boa fazenda e justa ao corpo. Erguia-se-lhe
a cabea com uma espcie de donaire robusto, entrevendo-se por baixo do
chapu,  luz do crepsculo, um plido rosto de adolescente, com uma rosa na
boca. Este segundo vulto era bem conhecido de Gavroche; era Montparnasse.
     Quanto ao outro, o gaiato nada podia dizer seno que era um pobre velho
Gavroche ps-se logo em observao. Um daqueles dois passeantes
necessariamente tinha projectos a respeito do outro Gavroche estava em ptima
situao para ver o que dali se seguiria A alcova transformou-se em esconderijo
Montparnasse  caa num tal lugar e a semelhante hora, era coisa ameaadora
Gavroche sentiu as entranhas de gaiato contrarem-se-lhe com d do velho.
     O que havia de fazer? Intervir? Uma fraqueza socorrendo outra Seria coisa
para provocar o riso a Montparnasse. Gavroche no diligenciava iludir-se. Demais
sabia ele que seria um abrir e fechar de mo para aquele temvel malfeitor de
dezoito anos dar cabo do velho e dele Enquanto Gavroche deliberava, teve lugar o
ataque, repentino e feroz. Ataque de tigre contra o onagro, ataque da aranha
contra a mosca. Montparnasse atirou a rosa fora, acometeu o velho de salto,
agarrou-se-lhe ao pescoo e pendurou-se-lhe com tal fria e inopinada celeridade,
que Gavroche a custo pde reter um grito.
     Da a momentos, jazia um homem daqueles por baixo do outro, rugindo e
debatendo-se sufocado sob um joelho de mrmore que lhe desconjuntava o peito.
Com a diferena que no se tinha dado o caso que Gavroche receava. O que jazia
no cho era Montparnasse, o que estava por cima era o velho. Tudo isto
passava-se apenas a alguns passos de Gavroche.
     O velho recebera o choque e repetira-o, e to terrivelmente o repetira, que
num abrir e fechar de olhos o assaltante e o assaltado tinham trocado os papis.
     - Aquele velhote no  para graas! - disse Gavroche para si.
     E no pde conter-se sem dar palmas. Mas foram palmas perdidas, que
nenhum dos dois combatentes ouviu, to absorvidos e mutuamente ensurdecidos
estavam, naquela luta, em que as respiraes de ambos se confundiam.
     Seguiu-se ento um momento de silncio, em que Montparnasse cessou de
debater-se, e Gavroche disse com os seus botes:
     - O velho dar-lhe- cabo da pele?
     O velho, que no tinha soltado um grito nem at ento pronunciara uma
palavra, ergueu-se, e Gavroche ouviu-o dizer a Montparnasse:
     - Levanta-te!
     Montparnasse levantou-se, porm o velho no o largava. Montparnasse
estava na atitude humilhada e furiosa de um lobo que se visse abocado por um
cordeiro.
     Gavroche olhava e escutava, fazendo esforos por ver melhor, escutando bem.
O que se passava estava-o intimamente regalando.
     Breve foi recompensado da sua conscienciosa ansiedade de espectador com o
seguinte dilogo, a que a obscuridade dava como que um trgico acento. O velho
perguntava, Montparnasse respondia.
     - Que idade tens?
     - Dezanove anos.
     - s robusto e tens boa sade. Porque no trabalhas?
     -  coisa de que no gosto!
     - Que profisso  a tua?
     - Vadio.
     - Fala srio. Desejas alguma coisa? Que queres tu ser?
     - Ladro.
     Seguiu-se uma pausa, durante a qual o velho parecia meditar profundamente,
conservando-se imvel, porm sem largar Montparnasse.
     De instante a instante, o moo bandido, vigoroso e lesto, tinha sobressaltos de
animal apanhado no lao. Dava um puxo, ensaiava um pontap, torcia-se
desesperadamente, forcejando por fugir. O velho, todavia, parecia no dar pelos
esforos dele, segurava-lhe ambos os braos com uma s mo, com a soberana
indiferena de uma fora absoluta.
     Durou algum tempo a meditao do velho, at que, por fim, elevou
vagarosamente a voz, com os olhos fitos em Montparnasse, e dirigiu-lhe no meio
daquelas trevas em que ambos jaziam, uma espcie de alocuo solene, de que
Gavroche no perdeu uma s slaba:
     - Filho, entras por preguia na mais trabalhosa existncia. Ah, tu declaras-te
vadio! Prepara-te para trabalhar! J viste uma mquina temvel chamada o
laminador?
      preciso toda a cautela com ela, porque  dissimulada e feroz; se nos agarra
pela aba do casaco, leva-nos aps si. Assim  a ociosidade. Pra, enquanto ainda 
tempo e salva-te! Alis, ests perdido; no passar muito tempo que no sejas
arrebatado pela engrenagem, e depois no esperes mais nada. Ao trabalho,
preguioso! Deixa o repouso Agarrou-te a mo implacvel do trabalho. No
queres ganhar a Vida, ter uma ocupao, cumprir um dever; aborrece-te ser como
os outros! Pois no sers como eles.
     O trabalho  como a lei: quem o repele por aborrecimento t-lo- para
suplcio. No queres ser operrio, hs-de ser escravo. O trabalho solta-nos de um
lado apenas, para nos agarrar pelo outro; no queres ser seu amigo, sers seu
negro. Ah, no quiseste a honrada fadiga dos homens, vais ter o suor dos
condenados! Onde os outros cantam, tu rugirs Vers de longe, debaixo, os outros
homens a trabalhar e afigurar-se-te- que descansam. Ho-de aparecer-te entre
resplendores, como os bem-aventurados do paraso, o lavrador, o ceifeiro, o
marinheiro, o ferreiro. Que fulgor na bigorna! Guiar a charrua, atar os molhos,
que alegria! A barca balouando-se livremente, que festa!
     Enquanto tu, preguioso, trabalha, sua, moureja, caminha! Puxa pelo
cabresto, j que s besta de carga nas recovas do inferno! Ah! O teu alvo era no
fazer nada? Pois no ters uma semana, um dia, uma s hora de folga, uma s
hora livre de angstias! Cada minuto que passar te far estalar os msculos. O que
para os outros  pena, para ti ser rochedo. As coisas mais simples ho-de
tornar-se-te barreiras impossveis de vencer. A vida ser como um monstro em
roda de ti. Ir, vir, respirar, outros tantos trabalhos terrveis te ho-de ser. O
pulmo parecer-te- um peso de cem arrteis. Preferir o lugar para andar ser
para ti resolver um problema. Outro qualquer, em querendo sair, abre a porta,
ei-lo fora. Tu, se quiseres sair, hs-de primeiro romper a parede que te encurrala.
Que  o que faz qualquer, quando quer sair? Desce pela escada. E tu Rasgars os
lenis da cama s tiras, fars com eles uma corda, fio por fio, saltars pela janela,
suspender-te-s nesse fio sobre um abismo, de noite, no meio da tempestade, 
chuva e ao vento, e, se a corda for curta, em vez de descer, ters de saltar. Cair ao
acaso, de qualquer altura, a um precipcio, sobre o que estiver em baixo, sobre
nem tu sabers o qu. Ou trepars por alguma chamin, em risco de te queimares,
ou descers pelo cano de alguma latrina, em risco de te afogares No te falarei do
que passars a tapar buracos, a. pr e tirar pedras vinte vezes por dia, a esconder
na enxerga os bocados de cal que tiveres arrancado. O burgus abre a sua porta
com a chave que lhe fez o serralheiro; tu, se quiseres transpor a que te veda a sada,
ver-te-s condenado a fazer prodgios de artifcio. Tomars uma moeda de cobre,
que dividirs em duas lminas, com os instrumentos que primeiro houveres
inventado. Isso  contigo. Depois cavars o interior dessas duas lminas com todo
o cuidado, para no ofender a parte externa, e abrirs em volta uma rosca, de
modo que as duas lminas estreitamente ajustem uma na outra, como um fundo e
uma tampa. Feito isto, ningum adivinhar o que tu tens; para os guardas que
continuamente traro o olho sobre ti, ser uma moeda de cobre; para ti ser uma
caixa. De que te servir ela? De guardar um bocado de ao.
     A mola de um relgio de algibeira, que primeiro converters em serra,
fazendo-lhe dentes. Com essa serra, do tamanho de um alfinete e escondida num
soldo,  que tu ters de cortar a lingueta da fechadura, a barra do ferrolho, a argola
do cadeado, o varo da janela e a grilheta do p. Feita esta obra-prima, completo
este prodgio, executadas estas maravilhas de arte, de destreza, habilidade e
pacincia, sabes qual ser a tua recompensa, se descobrirem que s tu o seu autor?
Uma masmorra escura!
     Aqui tens o teu futuro! V que precipcios os da preguia e os do prazer! V
que lgubre resoluo a de no querer fazer nada! Viver ocioso da substncia
social! Ente intil, quer dizer, prejudicial! Irs assim direito ao fundo da misria!
     Desgraado do que quiser ser parasita, porque ser verme Ah, no gostas de
trabalhar? S queres comer bem, beber bem, dormir bem! Pois bebers gua,
comers po negro, dormirs sobre uma tbua com um cadeado de ferro apertado
aos membros e sentirs de cada vez que acordares a impresso fria do ferro nas
Carnes Quebrars o cadeado e fugirs, assim ; mas ters de andar de rojo por
entre as silvas e os tojos e comer erva como os animais, at tornares a ser
apanhado! E ento passars anos e anos num subterrneo, acorrentado a uma
parede, caminhando s apalpadelas, se quiseres ir beber  tua bilha, dando
dentadas num terrvel bocado de po negro, que os ces rejeitariam, comendo
favas, que os vermes ho-de ter comido primeiro do que tu! Sers um bicho de
conta num tmulo! Oh, tem piedade de ti, miservel criana, que no h vinte
anos que mamavas, e que de certo ainda tens me! Peo-te por quanto h que no
desprezes o que eu te digo! Queres andar vestido de fino pano preto, calar botas
de verniz, frisar-te, trazer o cabelo rescendendo perfumes, agradar s mulheres,
ser elegante. Sers rapado  escovinha, vestirs uma jaqueta vermelha, o teu
calado sero uns tamancos! Queres andar de anel no dedo; trars uma manilha
ao pescoo! E, se deitares os olhos a alguma mulher, cair-te- nas costas a corda de
um chicote! E entrars para ali aos vinte anos e aos cinquenta  que sairs!
Entrars moo, corado, fresco, com os olhos cheios de brilho, com os dentes
brancos e a tua bela cabeleira de adolescente, e sairs alquebrado, cheio de rugas,
fraco, sem dentes, de cabelos brancos, horrvel! Ah, pobre moo, o teu caminho 
errado, a vadiagem aconselha-te mal, a vida de ladro  a mais trabalhosa vida que
podes abraar! Acredita-me, deixa-te de abraar a vida de vadio, a preguia  o
trabalho mais pesado! No cuides que o ser maroto  uma coisa fcil. Menos
custoso te ser ser homem de bem. Agora vai, mas pensa no que eu te disse. 
verdade que me querias a bolsa? Toma-a l!
     E, ao dizer isto, o velho largou Montparnasse e passou-lhe a bolsa para a mo.
     Montparnasse sopesou-a um instante e em seguida meteu-a subtilmente no
bolso posterior do casaco, com a mesma maquinal precauo como se a tivera
roubado.
     Apenas Montparnasse concluiu a sua operao, o velho voltou costas e
continuou sossegadamente o seu caminho.
     - Pateta! - murmurou Montparnasse.
     Quem era aquele homem? O leitor j decerto o adivinhou.
     Montparnasse, estupefacto, ps-se ento a olhar para o velho, que ia
desaparecendo entre as sombras do crepsculo. A sua contemplao foi-lhe fatal.
     Ao mesmo tempo que o velho se afastava, aproximava-se Gavroche.
     O gaiato relanceara os olhos para o banco onde antes estava sentado o tio
Mabeuf e certificou-se de que o velho ainda permanecia no mesmo stio, talvez
dormindo. Depois saiu de entre as silvas e principiou a arrastar-se ajudado pela
obscuridade, para o lugar onde estava Montparnasse imvel e de costas voltadas
para ele. Apenas chegou ao p do bandido, sem ser visto nem ouvido, meteu
subtilmente a mo no bolso posterior do casaco de fino pano preto, que
Montparnasse vestia, pegou na bolsa, tirou-a devagarinho, deitou-se de gatas
outra vez e evadiu-se, como uma cobra, por entre as trevas. De nada dera conta
Montparnasse, j porque no tinha razo para se precaver, j porque estava
meditando, pela primeira vez na sua vida. Apenas Gavroche voltou ao lugar onde
estava o tio Mabeuf, atirou a bolsa por cima da sebe e deitou a fugir.
     A bolsa caiu aos ps de Mabeuf. Despertado por esta comoo, agachou-se a
pegar nela e abriu-a, sem entender o que aquilo significava. Era uma bolsa com
duas divises, uma das quais continha algum dinheiro mido e a outra seis
napolees.
     Mabeuf, agitado por to estranho acontecimento, levantou-se, procurou a
criada e mostrou-lhe o achado, como pedindo-lhe explicao.
     - Foi coisa que caiu do cu! - disse a tia Plutarco, explicando plena e
desassombradamente o fenmeno que o velho no compreendera.
    LIVRO QUINTO
    O fim no condiz com o princpio



    I
    Atraco entre a solido e o quartel



     A dor de Cosette, to pungente ainda e to viva quatro ou cinco meses antes,
entrava sem que ela mesmo o suspeitasse, em convalescena. A natureza, a
Primavera, a mocidade, o amor que tinha a seu pai, a alegria dos passarinhos e das
flores, faziam filtrar a pouco e pouco, dia a dia, gota a gota, naquela alma virgem e
novel, o que quer que era semelhante ao esquecimento. O fogo apagara-se ali de
todo, ou formavam-se unicamente camadas de cinza? O facto  que quase j no
sentia ponto algum dorido.
     Um dia, repentinamente, lembrou-se de Mrio e exclamou consigo mesma:
     -  estranho! J nem me lembro dele!
     Nessa mesma semana, andando a jovem a passear no jardim, avistou, ao
passar pela grade, um belo oficial de lanceiros, de espada sobraada, charuto na
boca, bigodes retorcidos, cintura de vespa, farda apurada e lustroso schapska.
Alm disto, tinha cabelos louros, olhos azuis  flor do rosto, cara redonda e
bonita, ar insolente e vaidoso; o contrrio de Mrio em tudo. Cosette viu-o e
lembrou-se que devia ser algum oficial do regimento aquartelado na rua de
Babilnia.
     No dia seguinte tornou a v-lo passar e tomou sentido na hora.
     Desde a por diante, todos os dias seria acaso? Todos os dias via passar o
elegante oficial, que para o leitor no h-de ser desconhecido, porque se chamava
Theodulo Gillenormand.
     Os camaradas notaram que nunca por ali passava o belo tenente que no
aparecesse por entre a decrpita grade que defendia o inculto jardim uma jovem, a
quem se no podia negar nome de formosa, e diziam-lhe com acento galhofeiro:
     -  Theodulo, tu nem sequer reparas na pequena do jardim, que se farta de te
mirar, quando passas?
     - Nem que eu tivesse tempo de dar ateno a todas as raparigas que olham
para mim!
     Era naquela mesma ocasio que Mrio se submergia vagarosamente no
desespero e pensava: Se pudesse torn-la a ver antes de morrer! Se os seus
desejos, porm, fossem realizados, se ele visse, naquela ocasio, Cosette olhando
para um lanceiro, primeiro expiraria de dor, antes de poder pronunciar uma
palavra.
     E quem seria o responsvel? Ningum.
     Mrio era desses temperamentos que, uma vez presos da angstia, por ela se
deixam assenhorear completamente; Cosette era dos que, apenas subjugados,
sacodem logo o jugo.
     Alm disto, Cosette achava-se ento nessa fase perigosa, nessa poca fatal da
vida da mulher, em que o corao de uma jovem que vive isolada, se assemelha
aos elos da vide enroscando-se  ventura ou no capitel de uma coluna de mrmore
ou no esteio de uma aramada de taberna. Momento rpido e decisivo, crtico para
qualquer rf, seja pobre ou rica, porque a riqueza no obsta  m escolha; nem as
unies desiguais so privativas das classes inferiores; a verdadeira desigualdade  a
das almas; assim como, pois, alguns rapazes obscuros, sem nome, sem nascimento
nem fortuna, so capitis de mrmore, que sustentam um templo de generosos
sentimentos e nobres ideias, assim muitos homens do mundo, satisfeitos e
opulentos, de polimento nos ps e verniz nas palavras, analisados, no exterior,
mas interiormente, isto , na parte reservada  mulher, no so mais do que um
estpido barrote em contacto tenebroso com as paixes violentas, imundas e
avinhadas. Esteios de taberna!
     Que abrigava a alma de Cosette? Alguma paixo acalmada ou adormecida;
algum amor no estado flutuante; o que quer que fosse de lmpido e brilhante, a
certa profundidade turvo e mais profundamente sombrio. Por baixo, bem por
baixo da superfcie, em que se reflectia a imagem do belo oficial de lanceiros,
estaria alguma recordao? Talvez, bem que Cosette no o soubesse.
     Deu-se ento um acontecimento singular.



    II
    Sustos de Cosette



    Em meados de Abril, Joo Valjean fez uma viagem, caso que, como  sabido,
s de tempos a tempos e com longos intervalos se dava no seu pacfico viver. A
sua ausncia, nessas ocasies, no passava de um, ou quando muito de dois dias.
Aonde ia ele? Ningum o sabia, nem mesmo Cosette. Apenas, por ocasio de uma
das suas costumadas sadas, a jovem o acompanhara de carruagem at  entrada
de um beco, em cuja esquina se lia Beco da Planchette. Chegados a esse lugar,
Joo Valjean apeou-se e Cosette voltou na carruagem para a rua de Babilnia. De
ordinrio, estas viagens de Joo Valjean s tinham lugar quando em casa havia
falta de dinheiro.
     Estava, pois, Joo Valjean ausente, e, segundo ele declarara no momento da
partida, s da por trs dias voltaria.
     Assim, a jovem encontrava-se sozinha; uma noite, na sala, lembrou-se de se
sentar no seu piano-rgo para se entreter e ps-se a cantar o coro de Euryanto
Caadores perdidos nos bosques, que talvez seja o mais belo trecho de msica
conhecido. Por fim, deixou descair a cabea para uma das mos, fincando o
cotovelo no bordo do piano, e ficou pensativa.
     Estava Cosette nesta atitude, quando de sbito se lhe afigurou ouvir passos no
jardim.
     Seu pai no podia ser, porque estava para fora; Toussaint tambm no,
porque estava deitada, visto j passar das dez horas.
     Dirigiu-se a uma janela da sala, colou o ouvido  madeira e escutou.
     Efectivamente, pareceu-lhe ouvir passos de homem caminhando
cautelosamente.
     Subiu rapidamente ao seu quarto, que ficava no primeiro andar, abriu um
postigo interior da janela e ps-se a examinar o jardim por entre os vidros. Era lua
cheia, fazia um luar como se fosse dia.
     No viu ningum.
     No contente com o exame por dentro dos vidros, abriu a janela e
circunvagou a vista por todos os recantos do jardim. Estava tudo em absoluto
sossego e deserta, como de costume, a parte da rua que se avista de casa.
     Em vista disto, Cosette capacitou-se que se tinha enganado com o rumor que
se lhe afigurara ouvir, tomando como realidade o que no passava de uma
alucinao produzida pelo sombrio e maravilhoso coro de Weber, que abre diante
do esprito voragens assustadoras, que treme diante do olhar como uma floresta
vertiginosa e em que se ouve o estalido dos ramos secos sob os ps dos assustados
caadores, entrevistos  luz do crepsculo.
     A jovem satisfez-se com a explicao e esqueceucompletamente o caso.
     Cosette, alm disso, era de natureza pouco atreita a medos. Girava-lhe nas
veias sangue de bomia e de aventureira descala. Se bem se recordam, Cosette,
interiormente animosa e resoluta, tinha mais de cotovia do que de pomba.
     No dia seguinte, ao cair da noite, andando a passear no jardim, parecia-lhe
ouvir de vez em quando, prximo dela, por entre os confusos pensamentos em
que andava embebida, um rudo de passos semelhante ao da noite antecedente.
No obstante, porm, tal circunstncia, continuava tranquilamente o seu passeio,
sem prestar ateno ao rumor que ouvia, o qual perfeitamente explicava a ss
consigo pelo roar de dois ramos agitados pela virao da noite, explicao
plausvel, por isso que no via ningum.
     Findo o seu passeio, a jovem saiu de entre as moitas, entre as quais andava
como encoberta, e dirigiu-se para casa. Faltava-lhe apenas atravessar um tabuleiro
de relva para chegar  varanda, quando, ao claro da Lua, que se elevava por trs
dela, projectando-lhe a sombra no espao coberto de relva, recuou apavorada. Ao
lado da sua, a Lua desenhava distintamente na relva outra sombra, sobremodo
medonha, que simulava um homem de p, com um chapu redondo na cabea e
colocado junto  orla do arvoredo a pequena distncia de Cosette.
     Aps um instante de susto, em que ficara sem poder falar, nem gritar, nem
chamar, nem mexer-se, nem voltar a cabea, encheu-se de coragem e voltou
resolutamente a cabea para o lugar onde devia estar o homem, cuja sombra
terrvel tanto a atemorizara.
     No estava ningum.
     Tornou a olhar para o cho. A sombra tinha desaparecido.
     Entrou no arvoredo, procurou por todos os cantos, foi at  grade e no
achou coisa alguma.
     Sentiu-se realmente gelada. Seria uma alucinao?
     O qu! Dois dias seguidos! Uma alucinao passa, mas duas alucinaes? O
mais inquietador era no ser a sombra decerto um fantasma. Os fantasmas j no
usam chapu redondo.
     No dia seguinte, Joo Valjean regressou. Cosette contou-lhe o que julgara
ver e ouvir. Esperava que seu pai a sossegasse e lhe dissesse encolhendo os
ombros:
     - s uma louquinha!
     Joo Valjean tornou-se pensativo.
     - Talvez no seja nada - disse ele.
     E, separando-se dela sob um pretexto qualquer, dirigiu-se ao jardim e foi
visto por Cosette, examinando a grade com muita ateno.
     Durante a noite, acordou; daquela vez no se enganava, ouvia distintamente
passos muito perto da varanda, mesmo por baixo da janela. Correu ao postigo e
abriu-o. Andava com efeito no jardim um homem, com um grosso pau na mo.
No momento em que ia para gritar, a Lua iluminou o perfil daquele homem. Era
seu pai.
     Tornou logo a deitar-se, dizendo:
     - Como ele anda inquieto!
     Joo Valjean passou aquela noite e as duas que se lhe seguiram no jardim.
     Cosette viu-o pelo seu postiguinho.
     Na terceira noite, a Lua, decrescendo, comeava a erguer-se mais tarde; seria
uma hora da manh quando ouviu uma grande risada e a voz de seu pai
chamando-a.
     Saltou abaixo da cama, vestiu um roupo e abriu a janela. Seu pai estava em
baixo no tabuleiro de relva.
     - Acordei-te para te sossegar - disse ele olha, ali tens a sombra do chapu
redondo.
     E indicou-lhe na relva uma sombra projectada pelo luar, que se assemelhava,
com efeito, ao espectro de um homem que tivesse um chapu redondo. Era a
sombra produzida pelo tubo de ferro de uma chamin, com capitel, que se elevava
acima de um telhado prximo.
     Cosette riu-se tambm; todas as suas lgubres suposies caram, e no dia
seguinte, almoando com seu pai, gracejou muito sobre o sinistro jardim
frequentado por sombras de tubos de chamins Joo Valjean ficou de novo
completamente tranquilo; quanto a Cosette, nem mesmo reparou se o tubo da
chamin ficava bem na direco da sombra que vira, ou julgava ver, e se a Lua se
achava no mesmo ponto do cu. No se interrogou muito sobre a particularidade
de um tubo de fogo, que receia ser surpreendido em flagrante delito e que se
retira quando lhe olham para a sombra, porque a sombra desaparecera quando
Cosette se voltara, e nisto julgara no se enganar. O certo  que a demonstrao de
Joo Valjean pareceu-lhe completa e que se lhe varreu do sentido a ideia da
possibilidade de anlogos encontros, quer de dia, quer de noite.
     Novo incidente, porm, sobreveio da a dias.
    III
    Auxlio dos comentrios de Toussaint



     Por uma tarde daquele mesmo ms de Abril,  hora em que Joo Valjean se
achava fora, Cosette desceu ao jardim, e, aps ter dado algumas voltas, veio
sentar-se num banco de pedra situado junto  grade da entrada e defendido das
vistas dos curiosos por um caramanchel, no obstante, da rua se poder chegar ao
banco, metendo o brao por entre as grades do porto e os ramos que formavam a
latada ou caramanchel.
     O sol desaparecera havia j algum tempo. De instante a instante, agitava-se
brandamente a ramagem das rvores ao contacto da virao fresca da noite.
     Cosette, mergulhada em profunda cogitao, sentia-se gradualmente
possuda de uma tristeza indefinida, dessa tristeza invencvel, causada pelo
declinar do dia, e que bem pode provir quem sabe? de um vago pensamento de
alm-tmulo, a essa hora em que o anjo dos sepulcros parece e levar-se no ar,
apontando para as campas entreabertas. Quem sabe se o anjo que assim pairava
entre as sombras da hora crepuscular era Fantine?
     Cosette levantou-se, deu vagarosamente um passeio pelo jardim, caminhando
por sobre a relva inundada de orvalho, dizendo a si mesma, atravs da espcie de
sonambulismo melanclico em que estava mergulhada:
     - A esta hora eram realmente precisos uns tamanquinhos para andar no
jardim.
     Pode apanhar-se uma constipao!
     Em seguida voltou ao banco.
     Porm, na ocasio em que se preparava para se sentar, reparou numa grande
pedra colocada no lugar que ela tinha deixado, e que h um instante com toda a
certeza ali no estava.
     Ps-se a contempl-la, pedindo a si mesma a explicao do que via, quando
de sbito lhe acudiu e sobremodo a assustou a ideia de que aquela pedra no viera
ali colocar-se de per si, que algum. J a pusera, metendo o brao por entre as
grades.
     Desta feita no havia que duvidar; a pedra ali estava; portanto, o seu susto
assentava num motivo real.
     Cada vez mais apavorada pelos pensamentos a que dava margem este caso,
deitou a fugir sem ter tocado na pedra nem olhar para trs, refugiou-se em casa,
fechando precipitadamente a porta do caramanchel com quantos fechos tinha, e
depois de a trancar e segurar bem, procurou Toussaint e perguntou-lhe:
     - Meu pai j veio?
     - Ainda no, menina.
     (J uma vez indicmos a gaguez de Toussaint; seja-nos lcito, portanto, no a
tornar a acentuar. Repugna-nos fazer a notao musical de um defeito).
     Joo Valjean, homem pensativo e passeante nocturno, muitas vezes s pela
noite dentro se recolhia a casa.
     - Toussaint - tornou Cosette - voc  noite tem sempre o cuidado de olhar
que fiquem bem trancadas as janelas que deitam sobre o jardim e que fiquem bem
corridos os fechos que encaixam naquelas coisas de ferro?
     - Pois tenho, menina, pode estar descansada!
     Bem sabia Cosette que nunca essa tarefa esquecia  boa mulher; todavia, no
pde ter-se que no acrescentasse:
     -  porque isto por aqui  to deserto... - Isso  que ! - atalhou Toussaint. -
Pode a gente aqui ser estrangulada sem ter tempo para dizer: Ai Jesus! E ento
logo para maior desgraa, como c no fica o senhor, somos ns duas sozinhas,
sujeitas s vezes a um perigo. Mas escusa de ter medo, menina, que eu s janelas e
s portas no lhes deito unais fechos porque os no tm. Nem as portas de uma
cadeia ficam mais seguras! Mas duas mulheres sozinhas!, faz estarrecer s
semelhante ideia! Imagine a menina: ver a gente entrar-lhe de noite no quarto um
bando de homens de m catadura, que, se vem que uma pessoa faz algum
movimento, dizem logo: Nem um pio! e principiam a cortar o pescoo  gente!
No  l por morrer, que enfim, a gente, afinal sempre vem a morrer, ou mais hoje
ou mais amanh mas o horror da gente se ver tocada, de sentir no corpo as mos
destes malvados! E sentir na carne aquelas facas que nem so amoladas nem nada!
Meu Deus!
     - Toussaint, cale-se com essas coisas e tenha sempre cuidado em olhar que
fique tudo bem fechado!
     Cosette, apavorada com o melodrama improvisado pela pobre mulher e
talvez com a lembrana das aparies da semana antecedente, nem fora teve para
lhe dizer que fosse olhar a pedra que tinham posto em cimado banco, com medo
de tornar a abrir a porta do caramanchel e entrarem os homens. Mandou fechar
cuidadosamente todas as portas e janelas, fez visitar a casa toda por Toussaint,
desde a loja at ao sto, fechou-se no quarto por dentro, olhou debaixo da cama,
e, aps tudo isto, deitou-se, mas dormiu mal. Toda a noite lhe pareceu que tinha
diante de si a pedra, mas a pedra com as propores de uma montanha e toda
cheia de cavernas.
     Ao nascer do Sol, o qual tem a propriedade de nos fazer rir dos nossos
terrores nocturnos, e rir com tanta mais vontade quanto maior foi o susto que
tivemos. Cosette acordou, e, tomando os seus terrores como simples efeito de um
pesadelo, disse entre si:
     - Eu que sonhei?  como noutro dia  noite imaginar que tinha ouvido passos
e visto gente no jardim, e sai-me a sombra de uma chamin! Querem ver que eu
me vou a fazer medrosa?
     E de tal modo se sentiu desoprimida ao aspecto do Sol, que se coava pelas
fendas das janelas, purpureando o damasco do cortinado, que todas as imagens
negras, inclusive a da pedra, se lhe varreram do pensamento.
     - Qual pedra nem meia pedra! Foi sonho meu como o mais! Existia tanto a
pedra do banco como o tal homem do chapu redondo que vi no jardim!
     A jovem vestiu-se, desceu ao jardim, correu ao banco, e, ao dar com os olhos
na pedra, que, efectivamente, l estava, sentiu correr-lhe um suor frio pelo corpo.
     Momentnea foi, porm, tal impresso. O medo de noite troca-se em
curiosidade de dia.
     - No, sempre hei-de ver o que isto !
     E, levantando a pedra, que era bastante volumosa, deparou com um objecto
semelhante a uma carta, que tirou para fora.
     Era um sobrescrito em branco e aberto, que facilmente se reconhecia conter
dentro o que quer que fosse.
     A jovem revolveu-o um instante nas mos, e, por fim, resolveu-se a abri-lo. O
que ela sentia j no era medo nem curiosidade, era um princpio de ansiedade. O
misterioso sobrescrito encerrava um caderno numerado, contendo em cada
pagina algumas linhas escritas por letra que Cosette achou bonita e sobremodo
elegante.
     vida de saber quem podia ser o autor daquele escrito, procurou um nome e
no achou nenhum; procurou uma assinatura e no a encontrou. A quem era
aquilo dirigido? Decerto a ela, visto que sobre o banco onde ela devia vir sentar-se
 que mo oculta tinha colocado o embrulho. De quem vinha ele? Assenhoreou-se
da jovem uma fascinao irresistvel, tentou desviar os olhos daquele papel, que
segurava nas mos trmulas, fitou os olhos no cu, na rua, nas accias
resplendentes de luz, nuns pombos que esvoaavam sobre um telhado vizinho,
depois baixou-os repentinamente para o manuscrito, firmemente resolvida a saber
o que ele continha. Eis o que a jovem leu:



    IV
    Um corao debaixo duma pedra



   Reduo do Universo a uma s criatura, dilatao de uma s criatura at
Deus, eis definido o amor.
   ***

    O amor  a saudao dos anjos aos astros.
    ***

    Como  triste a alma, quando  o amor a causa da sua tristeza!
    ***

     Que vcuo imenso deixa aps si o ente que se ausenta e abandona as solides
de que era encanto nico! Oh, como  verdade ser o ente amado imenso como
Deus!
     Natural seria mostrar-se Deus invejoso dele, se o Pai de todas as coisas com
certeza no houvera feito a criao para a alma e a alma para o amor.
     ***

   Um sorriso basta, entrevisto de longe nos lbios de uma fronte emoldurada
num chapelinho de crepe branco, para fazer entrar a alma no palcio dos sonhos.
   ***

     Deus habita em tudo, mas oculto a nossos olhos. As coisas so negras, opacas
as criaturas. Amar um ente  torn-lo transparente.
     ***

        H pensamentos que valem por oraes e momentos em que, qualquer
que seja a atitude do corpo, a alma est de joelhos.
    ***
     Os amantes separados iludem a ausncia por meio de mil coisas quimricas,
que tm, todavia, mais ou menos realidade. Impedem-nos de se verem,
roubam-lhes os meios de se escreverem, mas eles acham um sem nmero de
misteriosos modos de correspondncia. Enviam-se mutuamente o canto das aves,
o perfume das flores, os risos infantis, a luz do Sol, os suspiros do vento, os
fulgores das estrelas, a criao inteira. E porque no h-de ser assim, se todas as
obras de Deus foram feitas para servir o amor e se ele tem sobeja grandeza para
fazer da natureza inteira sua mensageira?  primavera, tu s uma carta que eu lhe
escrevo.
     ***

    O futuro pertence ainda mais aos coraes do que aos espritos. Amar,  a
nica coisa capaz de ocupar a eternidade. Ao que no tem fim, o que nunca se
exaure.
    ***

     O amor participa da alma, como ela tem idntica natureza, como ela 
centelha divina, como ela  incorruptvel, indivisvel, imperecvel.  um foco que
temos dentro em ns, foco imortal e infinito, que no pode ser limitado nem
extinto. Sentimo-lo queimar-nos at  medula dos ossos, v-lo inundar de seus
reflexos a terra e elevar os seus clares at  amplido do cu.
     ***

      amor, adoraes, voluptuosidade de dois espritos que se compreendem, de
dois coraes que se consubstanciam, de dois olhares que se confundem! Quando
vos gozarei,  venturas! Quando nos vereis,  aves do cu, vagueando enlaados,
mutuamente unidos, no silncio da solido! Quando vos gozarei,  dias flgidos e
abenoados, vividos do Sol da nossa ventura! Por vezes tenho sonhado que de
longe a longe caem do cu algumas partculas do viver dos anjos e vm ao mundo
misturar-se no destino dos homens.
     ***

     Em nada pode Deus aumentar a ventura dos que se amam, a no ser que os
opulente com a durao sem fim. Aps uma vida de amor, uma eternidade de
amor,  um aumento, sem dvida, mas aumentar em intensidade a felicidade
inefvel que o amor neste mundo proporciona  alma  impossvel, mesmo a
Deus. O amor  a plenitude do homem, como Deus  a plenitude do cu.
   ***

    Por dois motivos fitais uma estrela: por ela ser luminosa e por ser
impenetrvel.
    Descei, porm, a vista e vereis junto de vs mais suave luz, mais indecifrvel
mistrio - a mulher.
    ***

     Todos ns, quem quer que sejamos, temos os nossos entes respirveis. Se eles
nos faltam, falece-nos o ar, breve sufocamos. Ento  certa a morte. Morrer por
falta de amor! Oh, que terrvel morte! A asfixia da alma!
     ***

   Achado est o segredo da vida de dois entes, se os fundiu e consubstanciou
numa anglica e sagrada unidade, o amor. Tornam-se os dois termos de um
mesmo destino, as duas asas de um mesmo esprito. Amar  voar!
   ***

         Desde o momento em que vedes aureolada de luz a mulher que passou
por vs, estais perdidos, amais. S vos resta ento pensar nela to fixamente, que
ela se veja forada a pensar em vs.
     ***

    S Deus pode acabar o que o amor principia.
    ***

     o amor verdadeiro sensvel  angstia de uma luva perdida ou s alegrias de
um leno achado, e s a eternidade lhe basta s suas esperanas e s suas
dedicaes.  que o amor compe-se da grandeza infinita e da infinita pequenez.
    ***

    Se sois pedra, sede im; sensitiva, se sois flor; se sois homem, sede amor.
    ***

     o amor de sua natureza insacivel. Dai-lhe a felicidade, pede-vos o paraso;
dai-lhe o paraso, pede-vos o cu.
     ***

     almas que vos amais, sabei procurar e vereis que tudo isso contm o amor
em si! Tendes nele a contemplao que vale o cu, e, demais que no cu, a
voluptuosidade.
    ***

         - Ela tem vindo ao Luxemburgo?
    - No, senhor.
    - A esta igreja  que ela vem ouvir missa, no?
    - J c no vem.
    - Ainda mora aqui?
    - Mudou-se.
    - Para onde?
    - No disse.
    Que triste  ignorarmos a morada da nossa alma!
    ***

    O amor tem criancices, as outras paixes tm pequenezas. Vergonha s
paixes que tornam o homem pequeno! Honra  que o faz criana!
    ***

    Estranha coisa, que talvez ignoreis. Desde que me levaram o cu, vivo imerso
em profundas trevas!
    ***

    Oh, como eu me dera por contente da minha eternidade, se no mesmo
tmulo repousssemos a par, com a minha mo unida a tua, sentindo de espao a
espao a suave presso dos teus nos meus dedos!
    ***

    Se o amor vos faz sofrer, amai ainda mais. Morrer de amor  viver!
    ***

    Amai que o amor  o suplcio entremeado de uma transfigurao estrelada,
agonia em que a alma se abre  amplido de dulcssimos xtases.
    ***

     alegria das aves! Se vos no fora o ninho, como cantareis?
    ***

    O amor  uma respirao celeste do ar do paraso.
    ***

     Coraes profundos, espritos ilustrados, recebei a vida como ela vos vem da
mo de Deus - longa provao, preparao ininteligvel para um destino que no
conheceis e que para o homem comea verdadeiramente no primeiro degrau do
interior do tmulo. Ento as vises e um confuso entrever do definitivo o
definitivo, notai bem. Os vivos vem o infinito, mas s aos mortos  dado ver o
definitivo. At l, amai e sofrei, esperai e contemplai. Infeliz o que s tiver amado
corpos, formas, aparncias, que tudo lhe tirar a morte! Amai as almas, se quereis
alm do tmulo encontr-las.
     ***

     Passei uma ocasio por um rapaz, pobre de fortuna, mas opulento de amor.
     Trazia um chapu sem plo, um casaco desbotado e roto ns cotovelos;
atravs dos sapatos corria-lhe a gua, atravs da alma passavam-lhe os astros.
     ***

         Oh, que sublime coisa o ser amado! Que coisa maior ainda amar!
Torna-se herico o corao  fora de paixo! Ento no se compe seno do que
 puro, ento no se apoia seno no que  elevado e grande.  to difcil germinar
nele um pensamento indigno, como  urtiga aferrar razes no gelo. A alma alta e
serena, inacessvel s paixes e s emoes vulgares, domina as nuvens e as
sombras deste mundo, as loucuras, as mentiras, os dios, as vaidades e as misrias,
habita a amplido do cu, e apenas sente os profundos e subterrneos abalos do
destino, como o cimo das montanhas sente as convulses do terramoto.
     ***

    Se no mundo no houvesse quem amasse, apagar-se-ia o Sol.
    V
    Cosette depois da carta



      medida que a jovem ia lendo, gradualmente se lhe ia alando o esprito para
cogitaes estranhas a tudo o que a cercava. No instante em que ela desfitava os
olhos da ltima linha do papel, passava por diante da grade, como era seu costume
quela hora, o belo oficial meneando-se airoso e com ar triunfante, e Cosette
achou-o hediondo Depois deste incidente, que levemente a distraiu, voltou 
contemplao daquele papel que tinha nas mos. Era escrito em lindssima letra,
no sentir de Cosette, pela mesma mo, mas com tintas diversas, em partes muito
carregadas, em parte esbranquiadas, como acusando renovao de tinta no
tinteiro, e, por consequncia, em dias diferentes. Claro estava, portanto, que
aquele manuscrito era a expanso de um pensamento, feita suspiro a suspiro, sem
ordem, nem escolha, nem fim, inteiramente ao acaso e irregularmente. Nunca a
jovem lera coisa assim. Aquele manuscrito, em que ela ainda via mais luz do que
escurido, fazia-lhe o efeito de um santurio entreaberto.
     Resplendia-lhe aos olhos e inundava-lhe o corao de uma como luz estranha
cada uma daquelas misteriosas linhas. A educao que recebera falara-lhe sempre
da alma, mas nunca do amor, como quem falasse do tio e no da chama. Aquele
manuscrito de quinze pginas revelava-lhe repentina, mas suavemente, todos os
segredos do amor, da dor, do destino, da vida, da eternidade, o princpio e o fim.
Era uma como mo que se abria, atirando-lhe de chofre ao corao um punhado
de raios. Naquelas poucas linhas que os seus olhos viam, sentia ela uma natureza
apaixonada, ardente, generosa, honesta, um desejo santo, uma dor imensa e uma
imensa esperana, um corao em afago de nsias, um xtase em expanso de
delcias. Que era aquele manuscrito? Uma carta. Carta sem direco, sem nome,
nem data, nem assinatura, instante e desinteressada, conjunto enigmtico de
verdades, mensagem de amor para ser trazida por um anjo e lida por uma virgem,
entrevista em regies que no eram da terra, carta amorosa de um fantasma a uma
sombra. Era a mensagem de um ausente que com o corao alanceado, mas o
rosto sereno, parecia estar esperando o refgio da morte, enviando  ausente o
segredo do destino, a chave da vida, o amor. Aquelas linhas haviam sido escritas
com o p no tmulo e o dedo no cu. Quase as chamareis gotas da alma, cadas
uma a uma sobre aquele papel.
     Mas de quem viriam aquelas pginas? Que mo as teria escrito?
     A hesitao de Cosette no durou um minuto. Um nico homem podia ser.
     Ele!
     De novo se lhe inundou o esprito dos clares perdidos entre as sombras do
olvido; de novo voltaram a ele as miragens apagadas pelo entenebrecer do
esquecimento. Experimentava uma alegria inaudita e uma agonia penetrante. Fora
ele, ele que lhe escrevera, que condensara naquele papel os eflvios castos da sua
alma apaixonada, que metera o brao por entre aquelas grades e depusera naquele
banco o edite em que amealhara as riquezas do seu corao amante! E ele vinha
encontr-la, talvez depois de bem penosos esforos, ao passo que ela nem sequer
se lembrava. Nem sequer dele se lembrava?! Porventura o esquecera ela? Oh, no!
Nunca! Louca que fora, acreditando um instante que assim tinha sido. Amara-o
sempre, sempre o adorara! Escondera-se o fogo e permanecera algum tempo
encoberto, mas fora, como ela via, para minar por mais fundo e rebentar agora de
novo, abrasando-a toda. Aquele papel era uma como fasca cada de outra alma
para incendiar a sua. E esse novo incndio sentia-o ela principiar, a cada palavra
do manuscrito, que lhe acordava os ecos de uma voz j conhecida.
     - Oh, como eu reconheo tudo isto! - dizia ela consigo. -  o mesmo que,
antes de ver com os meus olhos aqui, j tinha lido nos dele!
     Ao findar pela terceira vez a leitura do manuscrito, passava de novo por
diante do porto o tenente Theodulo, batendo os ps nas lajes da rua para tornar
mais sensvel o tinido das esporas. No pde Cosette tanto consigo que no
levantasse os olhos, e, ao dar com eles no lanceiro, achou-o desengraado, parvo,
tolo, pretensioso, ftuo, desairoso, impertinente e feio. Entendeu o oficial que
devia sorrir-se para ela. Cosette voltou-lhe as costas, envergonhada e indignada. O
seu desejo naquele momento fora atirar-lhe com o que quer que fosse  cara.
     Em seguida deitou a fugir, entrou em casa e meteu-se no quarto para mais
uma vez ler o manuscrito, at o saber de cor, e para se entregar a todas as
reflexes, doces reflexes, a que ele lhe deixava vasto campo aberto. Lido e relido o
precioso manuscrito, beijou-o e meteu-o no seio.
     No havia que duvidar. Cosette volvera ao profundo amor serfico. Outra vez
se lhe abrira o abismo den.
     No decurso desse dia, Cosette andou sempre como que aturdida, sem poder
coordenar um s pensamento, ligar uma s ideia das que tumultuosamente se lhe
amontoavam no crebro, to confusas como uma meada emaranhada, formar
uma s conjectura. Esperava nos trmulos anseios da sua paixo. O qu? Nem ela
o sabia.
     Coisas vagas, pois no ousava a si mesma prometer-se nada; tudo, pois nada
queria recusar-se a si prpria. De vez em quando passava-lhe pelo rosto sbita
palidez e estremecimentos por todo o corpo. s vezes afigurava-se-lhe ser apenas
o ludbrio de um sonho, e ento era o perguntar-se no silncio do seu corao pela
realidade do que via e o apalpar sob o estofo do vestido o papel bem amado, o
apert-lo contra o corao, at sentir na carne as dobras dele. Se Joo Valjean a
visse naquele momento, teria estremecido na presena da alegria luminosa e
desconhecida que lhe transbordava das plpebras.
     - Oh, sim! -, dizia ela a ss consigo no recndito das suas alegrias. -  ele! 
ele que me envia isto! Foram os anjos, foi o cu que mo restituiu, quando eu o
supunha perdido! Perdido, meu Deus! Abenoada interveno,  anjos!
Abenoado acaso,  cu!
      transfiguraes do amor!  sonhos cegos de amantes! O acaso celeste, a
interveno dos anjos, fora a bola de po atirada por um ladro a outro ladro da
priso de Carlos Magno para a Cova dos Lees por cima dos telhados da Force.



    VI
    Os velhos nasceram para sair de casa em ocasies oportunas



     Na tarde desse mesmo dia, Joo Valjean saiu e Cosette principiou a vestir-se.
     Penteou os cabelos do modo que melhor lhe ficavam, vestiu um vestido, em
cujo corpete a costureira, por um inocente descuido, dera uma tesourada de mais,
por onde se deixava entrever a raiz do pescoo, o que, como dizem as jovens, o
tornava um pouco indecente. Nada de indecente tinha o vestido, mas era assim
mais bonito do que se no tivera aquela indiscreta abertura. Todo este esmero de
vesturio e realce de beleza empregara a jovem sem saber porqu.
     Era sua teno sair? No.
     Esperava alguma visita? No.
     Prximo ao anoitecer, desceu ao jardim. Toussaint andava atarefada no
trfego da sua cozinha, que deitava para o ptio das traseiras.
     Foi caminhando vagarosamente, desviando a intervalos com a pequenina
mo os ramos que por vezes lhe vinham voluptuosos beijar a cndida fronte, at
que, por fim, chegou junto do banco, sobre o qual ainda jazia a pedra.
     A pedra que uma noite guardara aquele tesouro, de cuja existncia a jovem
to longe estava de suspeitar.
     Sentou-se e apoiou sobre ela a meiga e alva mo, como que acarinhando-a e
agradecendo-lhe.
     De sbito, sentiu essa impresso indefinvel que ainda sem ver se
experimenta, quando por trs de ns se chega algum.
     Cosette voltou a cabea e ergueu-se.
     Era ele.
     Estava com a cabea descoberta. Parecia muito plido e magro. Apenas se lhe
distinguia o seu fato preto. O crepsculo tornava-lhe lvida a bela fronte e
cobria-lhe os olhos de trevas. Sob um vu de incomparvel doura, tinha alguma
coisa da morte e da noite. O rosto era-lhe iluminado pela claridade do dia que se
extingue e pelo pensamento de uma alma que se vai deste mundo.
     Parecia que no era ainda o fantasma, mas que tambm j no era o homem.
     O chapu atirara-o para entre as ervas, a alguns passos de distncia.
     Cosette, prestes a desfalecer, no soltou um s grito. Recuava vagamente,
porque se sentia atrada. Ele no se movia. Havia um no sei qu de Inefvel e
triste que a envolvia, sentia-lhe ela o olhar, que no via.
     Cosette, recuando, chegou a uma rvore e encostou-se a ela. Se no fosse
aquela rvore teria cado. Ento ouviu-lhe ela a voz, aquela voz que nunca
verdadeiramente ouvira, elevando-se apenas acima do ciciar da folhagem, e
murmurando:
     - Perdoe-me o estar aqui. Tenho o corao dilacerado, no podia continuar a
viver como vivia, e por isso vim. Leu o que deixei sobre este banco? No lhe sou de
todo desconhecido, no  verdade? No tenha receio. H j tanto tempo!
Lembra-se do dia em que olhou para mim? Foi no Luxemburgo, ao p do
gladiador. E os dias em que passou pela minha frente? Foi em 16 de Junho e em 2
de Julho; h quase um ano.
     Depois passou-se muito tempo sem a ver. Perguntei  alugadora de cadeiras
se a tinha visto, disseme que no. Morava na rua de Oeste, no terceiro andar de
uma casa nova; bem v que sei onde morava; segui-a muitas vezes. O que devia eu
fazer? Depois desapareceu. Um dia estando a ler os peridicos debaixo das arcadas
do Odeon, pareceu-me v-la passar; corri logo, mas tinha-me enganado. Era
apenas uma menina que levava um chapu como o seu. Quando  noite, venho
aqui. No tenha receio ningum me v. Venho olhar de perto para as suas janelas,
e ando ento muito devagarinho para que no me oia, porque talvez lhe causasse
medo. Uma destas noites estive atrs de si, voltou-se e eu afastei-me. Uma vez
ouvia-a, cantar. Sentime feliz. Sou porventura importuno em querer ouvi-la
cantar atravs das vidraas? No, isto no pode incomod-la, no  verdade? Bem
o v,  omeu anjo; consinta que eu venha; creio que vou morrer! Se soubesse!
Adoro-a! Perdoe-me, estou a falar-lhe e no sei o que digo; estou, talvez,
enfadando-a; diga-me, enfado-a?
     - Oh, minha me! - disse ela.
     E dobrou-se sobre si mesma, como se desfalecesse.
     Estava prestes a cair, o rapaz tomou-a nos braos e cingiu-a estreitamente,
sem ter conscincia do que fazia. Susteve-a cambaleando.
     Estava como se tivesse a cabea cheia de fumo; passavam-lhe relmpagos
entre as pestanas; as ideias desvaneciam-se-lhe; parecia-lhe que desempenhava um
acto religioso e que cometia uma profanao. No fim de tudo no sentia o mnimo
desejo por aquela mulher encantadora, cujas formas apertava contra o peito.
Estava desvairado de amor.
     Cosette pegou-lhe numa das mos e pousou-a sobre o seu corao. Ele sentiu
ento o papel que ali se achava e balbuciou:
     - Ento, ama-me?
     Cosette respondeu em voz to baixa que era apenas um sopro e que mal se
ouvia:
     - Cala-te! Bem o sabes!
     E ocultou o rosto cheio de rubor no peito do rapaz, ufano e enlevado.
     Deixou-se cair sobre o banco, e ela a seu lado. J no tinham palavras. As
estrelas comeavam a cintilar. Como foi que os lbios se encontraram? Como 
que o passarinho canta, que a neve se funde, que a rosa se abre, que Maio se
alegra, e que a aurora desponta por trs das rvores negras no trmulo cume das
colinas?
     Foi unicamente um beijo.
     Ambos estremeceram fitando-se reciprocamente no meio das sombras com
os olhos resplandecentes.
     No sentiam nem o fresco da noite, nem o frio da pedra, nem a humidade da
terra, nem a relva molhada; olhavam-se e tinham o corao cheio de pensamentos.
     Sem saberem como, estavam de mos dadas.
     Ela no lhe perguntava, nem se lembrava de semelhante coisa, como e por
onde entrara no jardim. Parecia-lhe uma coisa to simples que ele ali estivesse!
     De vez em quando, o joelho de Mrio tocava no de Cosette, e ambos
estremeciam.
     De espao a espao, Cosette gaguejava uma palavra. A alma tremia-lhe nos
lbios, como uma gota de orvalho na corola duma flor.
      pouco e pouco foram falando. A expanso sucedeu ao silncio, que  a
plenitude. A noite ostentava-se serena e esplndida por sobre as suas cabeas.
Aqueles dois entes, puros como espritos, contaram reciprocamente tudo; os seus
sonhos, enlevos, xtases, quimeras, esmorecimentos, o modo porque se tinham
adorado de longe, como se haviam desejado, e o seu desespero quando tinham
deixado de se ver. Confiaram um ao outro, numa intimidade ideal, o que tinham
de mais oculto e misterioso. Comu-nicaram-se, com uma f cndida em suas
iluses, tudo com que o amor, a juventude e o resto de criancice que ambos
tinham, lhes ocupava o pensamento. Aqueles dois coraes vazaram-se um no
outro; de modo que, passada uma hora, era o rapaz quem tinha a alma da jovem e
a jovem quem possua a alma do rapaz. Penetraram-se, encantaram-se,
deslumbraram-se.
     Depois de terem acabado, quando j tinham dito tudo, ela pousou a cabea n
o ombro do rapaz e perguntou-lhe:
     - Como se chama?
     - Mrio - respondeu ele. - E a menina?
     - Eu chamo-me Cosette.
    LIVRO SEXTO
    O pequeno Gavroche



    I
    Travessura do vento



     Depois de 1823, enquanto a baiuca de Montfermeil soobrava e pouco a
pouco desaparecia, no na voragem de uma falncia, mas no esterquilnio das
pequenas dvidas, dois filhos, ambos vares, vieram aumentar a famlia
Thenardier. Ficavam sendo cinco, portanto; duas raparigas e trs rapazes. Era
muito.
     Dos dois ltimos desfizera-se a Thenardier, sendo eles ainda pequenos, com
singular felicidade.
     Desfizera-se  o termo prprio. Aquela mulher possua apenas um fragmento
de natureza, fenmeno de que ela no  o nico exemplo.  semelhana da
marechala de Lamothe-Houdancoiurt, a mulher do estalajadeiro era me somente
enquanto s filhas.
     Ali findava a sua maternidade, e o seu dio ao gnero humano principiava
pelos prprios filhos. Deste lado, a maldade daquela mulher era como um
rochedo a pique, o seu corao um declive lugubremente escarpado. A Thenardier
detestava o mais velho; agora execrava os outros dois. Porqu? Porque sim. O
mais terrvel dos motivos e a mais indiscutvel das respostas: Porque sim.
     - Para que quero eu semelhante ninhada de filhos? - dizia ela.
     Expliquemos como os Thenardier tinham chegado a exonerasse dos seus dois
ltimos filhos e at a tirar proveito deles.
     Aquela Magnon, de quem mais atrs falmos, era a mesma que conseguira
que o velho Gillenormand lhe pagasse a alimentao das duas crianas que ela
tinha. Morava no cais dos Celestinos,  esquina dessa antiga rua do Petit-Musc,
que tem feito o possvel para desvanecer a m nota que dantes gozava. Lembrados
esto por certo da grande epidemia do garroltilho que h trinta e cinco anos
devastou Paris nos locais situados junto ao rio, epidemia que a cincia aproveitou
para experimentar em larga escala a eficcia das insuflaes de pedra-hume, hoje
to utilmente substitudas pela tintura externa de iodo. Nessa epidemia perdeu a
Magnon, no mesmo dia, um pela manh, outro  noite, os dois pequenos, ambos
ainda de tenra idade. Foi uma desgraa. Aquelas duas crianas eram preciosas
para sua me, para quem representavam um valor de oitenta francos mensais
Estes oitenta francos eram pagos com a maior pontualidade, em nome de
Gillenormand, pelo seu procurador Barge, antigo oficial de justia, ento morador
na rua do Rei da Siclia Mortas as crianas, l se iam os oitenta francos, e por isso a
Magnon procurou um expediente. Nesta tenebrosa maonaria do mal, a que ela
pertencia, sabe-se tudo, guarda-se segredo e auxiliam-se os membros uns aos
outros. Magnon precisava de duas crianas; a Thenardier tinha duas, do mesmo
sexo e idade. ptimo arranjo, tanto para uma como para outra. De modo que os
pequenos Thenardier ficaram sendo os pequenos Magnon. Esta deixou o cais dos
Celestinos e foi morar para a rua de Cloche-Perce. Em Paris, a identidade que liga
um indivduo a si mesmo quebra-se com a mudana de uma rua para outra.
     Como no houve denncia, a autoridade no reclamou e a substituio
operou-se com a maior simplicidade imaginvel. Thenardier apenas exigiu ,por
este trespasse de crianas dez francos por ms, que a Magnon prometeu, e at
pagou.  escusado dizer, que, quanto a Gillenormand, este continuou a ser
demandado pela costumada mesada. De seis em seis meses vinha ver os pequenos,
mas nunca deu pela mudana.
     - So mesmo o seu retrato! - dizia-lhe a Magnon.
     Thenardier, a quem eram fceis as metamorfoses, aproveitou o ensejo para se
tornar Jondrette. Tanto as duas filhas como Gavroche mal tiveram tempo de
reparar que tinham mais dois irmos. Os que chegam a certo grau de misria so
acometidos por uma espcie de indiferena de espectro, que lhes faz ver os entes
como larvas. Os nossos mais prximos parentes tornam-se-nos ento muitas vezes
apenas umas formas vagas, mal distintas no fundo nebuloso da vida e facilmente
propensas  desapario no invisvel.
     Na tarde do dia em que a Thenardier fizera a entrega das duas crianas 
Magnon, com expressa vontade de que ela fosse perptua, teve ou fez que teve um
escrpulo. Disse ao marido:
     - Valha-me Deus! Isto  deitarmos ao abandono os nossos filhos!
     Thenardier tomou um ar magistral e fleumtico e cauterizou o escrpulo de
sua mulher com este dito: Joo Jacques Rousseau ainda fez mais. Do escrpulo a
mulher passou ao receio:
     - Mas se a polcia vem a saber e ns temos que padecer por causa deste
arranjo?
     Ora diga-me, senhor Thenardier,  permitido o que ns fizemos?
     -  permitido tudo -, respondeu Thenardier. -Ningum estranhar o caso,
quanto mais que, como se trata de crianas pobres, ningum se dar ao trabalho
de fazer averiguaes.
     A Magnon era uma espcie de elegante do crime, esmerada no vesturio,
como todas as elegantes Morava, conjuntamente com uma sbia inglesa
afrancesada, numa casa miservel, mobilada com certa afectao. Esta inglesa,
naturalizada parisiense, recomendvel pelas suas relaes com a riqueza e
intimamente ligada com as medalhas da biblioteca e os diamantes de
Mademoiselle Mars, veio depois a tornar-se clebre nos registos judiciais.
Tratavam-na por Mademoiselle Miss.
     Quanto aos dois pequenos cedidos  Magnon mediante os dez francos, no
tiveram de que se queixar da mudana. Recomendados pelos oitenta francos, eram
esmeradamente tratados como tudo o que  explorado; bem vestidos, bem
alimentados, tratados quase como fidalguinhos, tinham mais que agradecer 
me mercenria do que  verdadeira. Diante deles, Magnon inculcava ares de
senhora e abstinha-se de falar em gria.
     Assim decorreram alguns anos, com grande satisfao de Thenardier, que via
seus filhos bem tratados. Uma ocasio disse ele  Magnon, ao entregar-lhe esta os
dez francos mensais do ajuste:
     - J vai sendo tempo de o pai os mandar educar convenientemente.
     De repente as duas pobres crianas, at ento favorecidas mesmo pela sua m
sorte, viram-se inesperadamente arremessadas no mundo e obrigadas a principiar
a vida.
     Uma priso em massa de malfeitores, como a que teve lugar na mansarda dos
Jondrette, necessariamente seguida de averiguaes e de outras prises,  um
verdadeiro desastre para esta hedionda contra-sociedade oculta que vive por baixo
da sociedade pblica; um acontecimento deste gnero traz consigo toda a
qualidade de desabamentos neste mundo sombrio. A catstrofe dos Thenardier
produziu a da Magnon.
     Um dia, pouco tempo depois de a Magnon entregar a Eponina o bilhete
relativo  rua Plumet, a polcia assaltou inesperadamente a casa de Magnon, que
foi presa, bem como Mademoiselle Miss e tudo o mais que a torrente das suspeitas
arrastou para dentro da rede. Nessa ocasio, achavam-se os dois pequenos a
brincar num ptio que ficava nas traseiras da casa e no viram nada da razia.
Quando tentaram entrar, acharam a porta fechada e a casa vazia. Um remendo
que morava numa loja fronteira chamou-os e entregou-lhes um papel que a me
lhes tinha deixado. O papel continha apenas estas palavras: Senhor Barge,
procurador, rua do Rei da Siclia, nmero 8. E o remendo acrescentou:
    - Vocs j aqui no moram. Vo a casa que diz o papel, que fica logo a
adiante, na primeira rua  esquerda. Mostram o papel e vo perguntando para
onde .
    As crianas partiram, o mais velho conduzindo o mais novo pela mo e
levando na outra o papel que os devia guiar. Como, porm,, em virtude do frio
que lhe entorpecia os dedos, no pudesse apertar bem o papel, ao voltar a esquina
da rua de Cloche-Perce, uma rajada de vento tirou-lho das mos, e, como era
quase noite fechada, no lhe foi possvel tornar a dar com ele, e ento
principiaram ambos a divagar ao acaso pelas ruas.



    II
    Onde o pequeno Gavroche tira proveito de Napoleo, o Grande



     A Primavera em Paris , muitas vezes, atravessada por um nordeste duro e
desabrido, com que se fica, no precisamente gelado, mas crestado; estes nordestes
que entristecem os mais belos dias, produzem exactamente o efeito dos sopros de
ar frio que entram num quarto bem aquecido, pelas fendas de uma janela ou de
uma porta mal fechada. Parece que ficaria mal fechada a porta do Inverno e que 
por ela que entra o vento. Na Primavera de 1832, poca em que se manifestou a
primeira grande epidemia deste sculo na Europa, foram aqueles nordestes mais
desabridos e mais agudos do que nunca. Era uma porta mais glacial ainda do que
a do Inverno, que estava entreaberta. Era a porta do sepulcro. Sentia-se naquelas
rajadas de vento o sopro do clera.
     Pelo modo de ver meteorolgico, aqueles ventos frios tinham a
particularidade de no excluir uma forte tenso elctrica. Naquela quadra houve
frequentes tempestades, acompanhadas de grandes trovoadas.
     Uma tarde que o nordeste soprava mais agreste, a ponto de parecer que se
estava no ms de Janeiro e de fazer com que os burgueses travassem outra vez das
suas capas, achava-se Gavroche, tiritando alegremente, como sempre, sob os
farrapos que o cobriam, de p e como que em xtase, diante da loja de um
cabeleireiro prximo ao Orme-Saint-Gervais. Era a sua cobertura um xaile de l,
que apanhara no sabemos onde, e de que fizera um abafo. Parecia estar em
atitude de profunda admirao diante de uma boneca de cera, que representava
uma noiva, decotada e com a simblica grinalda de flores de laranjeira na cabea,
volteando por dentro da vidraa e mostrando entre dois candeeiros o seu sorriso a
quem passava. Na realidade, porm, o que Gavroche observava era a loja, a ver se
poderia bifar algum sabonete para ir vender por um soldo a algum barbeiro
dos arrabaldes. No poucas vezes era um destes sabonetes o seu almoo. Chamava
ele a este gnero de trabalho, para o qual tinha particular habilidade, fazer a
barba aos barbeiros.
     Ao passo que contemplava a boneca e espreitava ensejo de lanar a mo ao
sabonete, resmoneava consigo mesmo: Tera-feira. No, no  tera-feira. 
tera-feira? Decerto  tera-feira. ,  tera-feira.
     Nunca se soube a que aludia semelhante monlogo.
     Se acaso ele se referia  ltima vez que tinha jantado, havia, portanto, trs
dias, pois era sexta naquele dia.
     O barbeiro, na sua loja, aquecida por um bom fogo, fazia a barba a um
fregus, mas de tempos a tempos lanava um olhar de travs quele inimigo,
quele gaiato descarado, tiritando de frio, que tinha as mos nos bolsos, mas o
esprito claramente fora da bainha.
     Estando Gavroche, pois, examinando a boneca, as vidraas e os
Windsor-soaps, dois rapazinhos de estatura desigual, decentemente vestidos e
ainda mais baixos do que ele, um dos quais inculcava ter sete anos, o outro cinco,
levantaram timidamente o fecho e entraram na loja, pedindo o que quer que fosse,
talvez alguma esmola, num murmrio de quem se lastima, que mais parecia um
gemido do que uma splica.
     Falavam ambos ao mesmo tempo e as suas palavras eram ininteligveis,
porque os soluos embargavam a voz do mais novo e o frio fazia tiritar os dentes
do mais velho.
     O barbeiro voltou-se com ar furibundo, e, sem pousar a navalha, empurrou o
mais velho com a mo esquerda e o mais novo com o joelho, p-los no meio da
rua e fechou a porta, dizendo:
     - Ora isto! Fazer com que a gente apanhe ar sem necessidade nenhuma!
     As duas crianas continuaram o seu caminho, chorando. A este tempo tinha
engrossado a nvoa e principiava a chover.
     Gavroche deitou a correr atrs deles e disselhes, apenas os alcanou:
     - Vocs que tm, seus fedelhos?
     - No sabemos onde havemos de ir ficar!  respondeu o mais velho.
     -  s por isso? - disse Gavroche. - Ento pouco . Por isso no vale a pena
chorar. J viram maiores mimalhos!
     E tomando por entre a sua superioridade um pouco chocarreira, um acento
de autoridade enternecida e de meiga proteco, continuou:
     - Venham da comigo!
     - Sim, senhor - disse o mais velho.
     E os dois rapazinhos comearam a segui-lo, como seguiriam um arcebispo, j
sem chorar, acompanhando-o pela rua de Santo Antnio em direco  Bastilha.
     No caminho, Gavroche voltou-se e deitou um olhar indignado e retrospectivo
para a loja do barbeiro:
     - No tem corao aquele escanhoador dos quintos!  mesmo um desalmado!
     Mestre pescada!
     Ao v-los passar todos trs em fileira com Gavroche  frente, uma rapariga
desatou a rir estrondosamente. Estas risadas inculcavam falta de respeito.
     - Ol, menina Omnibus! - disse Gavroche.
     Um instante depois, acrescentou, ao vir-lhe de novo  lembrana o barbeiro:
     - Eu chamei-lhe pescada, enganei-me;  uma serpente! Deixa estar, meu
escanhoador, que eu hei-de encomendar uma campainha a um serralheiro para ta
pr no rabo!
     O barbeiro tornara o gaiato agressivo. Ao saltar uma enxurrada, disse para
uma porteira barbuda e digna de encontrar Fausto no Brocken, a qual estava com
a vassoura na mo:
     - Ento a senhora sai no seu cavalo?
     E, ao mesmo tempo que dizia isto, salpicou de lama as botas de verniz de um
sujeito que passava.
     - Ah, grande maroto! - gritou o sujeito, furioso.
     Gavroche deitou o nariz fora do xaile e perguntou:
     - De quem se queixa, meu senhor?
     - De ti, brejeiro! - exclamou o transeunte.
     - Est fechada a repartio - disse Gavroche. J no recebo queixas!
     Ao continuar a subir a rua, avistou num portal uma mendiga de treze ou
catorze anos, tiritando e vestida com uma saia to curta, que quase se lhe viam os
joelhos. A rapariguinha principiava a ser demasiado crescida para andar daquela
forma. A idade prega destas peas. Torna-se curta a saia, quando a nudez se torna
indecente.
     - Pobre rapariga! - disse Gavroche. - Nem uma saia, ao menos! Pega l isto.
     E, desenrolando a quente manta de l que trazia, deitou-a sobre os magros e
roxos ombros da mendiga, nos quais o cache-nez se tornou xaile.
     A rapariga olhou para ele com ar de admirao e recebeu o xaile em silncio.
     Chegado a certo grau de misria, o pobre, no seu pasmo estpido, nem geme
com o mal nem agradece o bem.
     Feito isto:
     - Brrr! - fez Gavroche, tiritando mais do que S. Martinho, porque esse, ao
menos, ficou com metade da sua capa.
     Neste momento principiou a cair chuva ainda com mais fora, como se as
nuvens quisessem punir a boa aco do gaiato.
     - Ol, ol, isto que vem a ser! - exclamou Gavroche.
     - A coisa vai a mais? Pois se isto assim continua, senhor meu Deus, largo a
minha assinatura!
     E continuou o seu caminho.
     -  o mesmo - tornou ele, deitando um olhar de relance para a mendiga, que
se embrulhava cuidadosamente no seu xaile - ali est uma que tem uma famosa
casca!
     E gritou, fitando a nvoa:
     - Pra l isso!
     Os dois rapazinhos, para o acompanhar, aligeiravam o passo o mais que
podiam.
     Ao passar por um desses espessos gradeados que indicam uma padaria,
porque o po  defendido por grades de ferro como o oiro, Gavroche voltou-se e
disse para os pequenos:
     -  verdade,  pequerruchos, vocs jantaram?
     - No, senhor - respondeu o mais velho - ns desde pela manh que no
comemos!
     - Ento vocs no tm pai nem me? - tornou Gavroche majestosamente.
     - Perdo, ns temos pap e mam, mas no sabemos onde eles esto.
     - s vezes vale mais isso do que sab-lo!  disse Gavroche, que tinha seu tanto
ou quanto de filsofo.
     - H duas horas que andamos perdidos  continuou o mais velho - e, por
mais que tenhamos procurado pelo cho, a ver se achvamos alguma coisa, no
temos achado nada!
     - Eu bem sei porqu - disse Gavroche. -  porque os ces comem tudo!
     E, aps uma pausa, continuou:
     - De modo que vocs perderam-se e no sabem o que  feito dos paizinhos.
No lhes devia acontecer isso, porque vocs j no esto nessa idade. Mas, enfim,
o remdio agora  gem-lo e tratar de arranjar abrigo.
     Quanto ao mais, no lhes fez perguntas. No ter domiclio era a coisa mais
natural do mundo.
     Decorridos alguns instantes, o mais velho dos pequenos exclamou, voltando
quase inteiramente  pronta negligncia da infncia:
     - Que pena! Logo nesta ocasio que a mam nos tinha prometido levar-nos
domingo de Ramos  igreja para trazermos buxo bento!
     - Ora vejam que desgraa!
     - A mam tornou o mais velho  uma senhora que mora com Mademoiselle
Miss.
     - Sim? Pois fiquemos nisso - replicou Gavroche.
     A este tempo tinha o gaiato parado, e havia alguns minutos apalpava e
revistava todos os esconderijos do seu maltrapilho vesturio. Por fim, levantou a
cabea com um modo que queria tornar apenas satisfeito, mas, na realidade,
triunfante:
     - Caluda, seus pequerruchos! J temos com que cear todos trs.
     E tirou um soldo de um dos bolsos.
     Sem lhes dar tempo de se espantarem, empurrou-os para dentro da loja do
padeiro e deitou o soldo para cima do balco, gritando:
     - Rapaz, cinco cntimos de po!
     O padeiro, que era o prprio dono da padaria, pegou num po e numa faca e
disps-se a parti-lo.
     - Em trs bocados, rapaz! -tornou Gavroche, e acrescentou com dignidade: -
Somos trs!
     E, vendo que o padeiro, depois de examinar os trs convivas, pegara num po
negro, meteu o dedo no nariz, com to imperiosa aspirao como se sorvesse a
pitada do grande Frederico, e atirou ao rosto do padeiro esta indigna apstrofe:
     - Que diabo  isso?
     - Ora, que h-de ser! - respondeu o padeiro. -  po, ptimo po de segunda
qualidade.
     - Tem tanto de bom como eu de ingls! - replicou Gavroche, serena e
friamente desdenhoso. - Po branco  que eu quero, rapaz! Dou hoje um
banquete!
     O padeiro no pde ter-se que no sorrisse, e, ao mesmo tempo que partia o
po, contemplava-os com um ar de compaixo, que ofendeu a susceptibilidade de
Gavroche.
     - Ol,  seu padeiro - disse ele - que diabo est voc a a olhar para ns com
essa cara?
     Todos trs, postos em linha, apenas mediriam uma toeza.
     Partido o po, o padeiro guardou o soldo e Gavroche disse para os
companheiros:
     - Vamos a suquir!
     Os rapazinhos olharam para ele estupefactos.
     Gavroche ps-se a rir e acrescentou:
     - Ah,  verdade, so muito pequenos, ainda no sabem nada!
     E tornou:
     - Toca a comer!
     Ao mesmo tempo dava a cada um deles um bocado de po.
     E, lembrando-se que o mais velho, que lhe parecia mais digno da sua
conversa, merecia alguma animao especial e devia ser desembaraado de
qualquer hesitao em satisfazer o seu apetite, acrescentou, dando-lhe o bocado
maior:
     - Anda, ferra-me com isso no fole da gaita Em seguida pegou no bocado mais
pequeno e guardou-o para si.
     Todos eles, sem exceptuar o prprio Gavroche, estavam com fome. Em lugar
de sair, puseram-se a comer sofregamente o po, mesmo dentro da loja do
padeiro, que, como j tinha recebido o dinheiro, os olhava com m cara.
     - Vamos para a rua - disse Gavroche.
     Saram e continuaram o seu caminho em direco  Bastilha.
     De espao a espao, ao passarem por alguma loja iluminada, o mais pequeno
parava para ver as horas num relgio de chumbo que trazia preso ao pescoo por
um cordo.
     - Sempre  ser muito palerma! - dizia Gavroche, ao v-lo naquelas
averiguaes.
     Depois dizia por entre dentes com ar pensativo:
     - Eu c, se tivesse crianas, sempre as havia de trazer mais bem arranjadas do
que estas.
     Ao comerem o ltimo bocado das suas respectivas raes e ao chegarem 
esquina, dessa extensa rua dos Baileis, ao cabo da qual se distingue o estreito e
ominoso postigo da Force, disse uma voz:
     - Ol! s tu, Gavroche?
     - Olha o Montparnasse?! - exclamou o gaiato.
     Um homem acabava de se aproximar de Gavroche e este homem era
Montparnasse, que, disfarado com culos azuis, no deixou de ser reconhecido
pelo gaiato.
     - Irra! - prosseguiu Gavroche. - Tens uma pele cor de cataplasma de linhaa e
uns culos azuis que nem um mdico! Tens estilo, palavra de velho!
     - Fala devagar - disse Montparnasse.
     E afastou-se rapidamente com Gavroche para fora da esfera de luz
proveniente das lojas.
     Os dois pequenos seguiram-nos maquinalmente pela mo um do outro.
     Chegados a um lugar menos frequentado, meteram-se num portal, ao abrigo
das vistas curiosas e da chuva e Montparnasse perguntou:
     - Sabes onde vou?
     -  abadia de Mont--Regret (Ao cadafalso) - disse Gavroche.
     - Trocista!
     E Mont-Parnasse prosseguiu:
     - Vou falar com o Babei.
     - Ah! - disse Gavroche. - Ela chama-se Babet?
     - No  ela,  ele.
     - Ah! O Babet.
     - Sim, o Babet, - Julgava-o estardado (Preso).
     - Esteve, mas safou-se - respondeu Montparnasse.
     E contou rapidamente ao gaiato como na manh daquele mesmo dia, tendo
sido Babet transferido para o Conciergerie, se evadira, tomando para a esquerda
em vez de tomar para a direita no corredor da instruo.
     Gavroche admirou a habilidade.
     - Que dentista! - exclamou ele.
     Montparnasse acrescentou alguns pormenores sobre a evaso de Babet e
terminou, dizendo:
     - Mas ainda no  tudo.
     Gavroche, enquanto escutava, apoderara-se de uma bengala que
Mont-Parnasse tinha na mo; puxara-lha maquinalmente pela parte superior e
logo aparecera a folha de um punhal.
     - Oh, c'os diabos! - disse ele, escondendo apressadamente o punhal. -
Trouxeste o teu gendarme disfarado em, burgus?
      Montparnasse piscou um olho.
      - Mas ento vais riscar com os guitas? (Esgrimir com a polcia) - Quem sabe
l? - respondeu Montparnasse. - Sempre  bom ter a gente um alfinete consigo.
      Gavroche insistiu:
      - O que vais tu fazer esta noite?
      Montparnasse tomou novamente a corda grave e disse, mastigando as slabas:
      - Algumas coisas.
      E mudando rapidamente de assunto:
      - A propsito... - O qu!
      - Uma histria dum dia destes. Ora imagina. Encontrei um burgus que me
fez presente dum sermo e da sua bolsa. Meti tudo na algibeira e da a bocado no
encontrei nada.
      - Achaste s o sermo - disse Gavroche.
      - Mas tu onde vais agora? - prosseguiu Montparnasse.
      Gavroche indicou-lhe os seus dois protegidos, dizendo-lhe:
      - Vou deitar estas crianas.
      - Deit-las onde?
      - Em minha casa.
      - Onde  a tua casa?
      -  em minha casa.
      - Tu moras nalguma parte?
      - Sim, moro.
      - Mas onde moras?
      - No elefante - disse Gavroche.
      Montparnasse conquanto de natureza pouco susceptvel de se admirar, no
pde conter uma exclamao.
      - No elefante?!
      - Sim, no elefante, que diabo de admirao h nisso?
      A profunda observao do gaiato restituiu Montparnasse  sua primitiva
serenidade e bom senso, e no s isto, mas at parece que o bandido ficou tendo
em melhor conta o alojamento de Gavroche.
      - Ai, sim, o elefante; e que tal?
      - ptimo - disse Gavroche. -  um paraso! Ao menos, no encana o vento
como pelos arcos das pontes.
      - E como diabo entras?
      - Perfeitamente.
     - Ento por algum buraco? - perguntou Montparnasse.
     - V l com a breca, mas nada de dar com a lngua nos dentes... Entro por
um buraco que ele tem entre as pernas dianteiras, de que os cabritos (Beleguins,
espies da polcia) ainda no deram f.
     - E depois trepas? J entendo.
     - Aquilo  um abrir e fechar de olhos, e agarrem-me nas batas!
     E, aps uma pausa, Gavroche acrescentou:
     - Mas c para os pequenos hei-de arranjar-lhes uma escada.
     - Onde diabo foste tu descortinar esta ganilhada? - perguntou Montparnasse,
soltando uma risada.
     - Estes petizes fez-me presente deles um barbeiro - respondeu Gavroche com
simplicidade.
     Montparnasse, porm, tornara-se pensativo.
     - Diabo! - murmurou ele. - Conheceste-me logo!
     E, apenas dissera isto, tirou do bolso dois objectos, que eram simplesmente
dois canudos de pena embrulhados em algodo, e introduziu um de cada lado do
nariz, o que lho mudava completamente.
     - Agora, sim, ningum te conhece! - atalhou Gavroche.
     - J no pareces to feio. Para bem, havias de andar sempre assim!
     Montparnasse tinha bonita figura, porm, Gavroche tornara-se escarnecedor.
     - Agora srio - perguntou Montparnasse - fala a verdade: que tal te pareo?
     E, ao dizer isto, o som de voz do bandido era inteiramente diferente.
Montparnasse, num abrir e fechar de olhos, transformara-se completamente.
     - Ests mesmo um Polichinelo! - exclamou Gavroche.
     A este nome, os dois pequenos, que at ento nada tinham escutado, to
embe-vecidos estavam a esgaravatar no nariz, aproximaram-se e puseram-se a
olhar para Montparnasse entre alegres e admirados.
     Por desgraa, Montparnasse parecia ter coisa que o afligia.
     Decorrido um instante, ps a mo no ombro de Gavroche e disselhe,
acentuando intencionalmente cada palavra:
     - Ora olha o que eu digo, meu digno rapaz; se eu estivesse na praa com o
meu dogue, a minha dengue e a minha adaga e te dignasses dizer--me: Diga,
diga, eu indignava-me e s responderia: No te digo nada.
     Esta frase extravagante produziu um singular efeito no gaiato. Voltou-se este
rapidamente, circunvagou os olhos em torno de si, e, ao avistar a poucos passos de
distncia um agente de polcia, que estava de costas voltadas, deixou escapar um:
     Ah, j entendo!, que imediatamente reprimiu. Depois exclamou, apertando
a mo a Montparnasse:
     - Bem, adeus; recolho-me ao elefante com os petizes. No caso de teres
necessidade de mim alguma noite, procura-me l, que me hs-de encontrar. Moro
no sto.
     Porteiro  coisa que l no h. Se fores, pergunta pelo senhor Gavroche.
     - Est bem - disse Montparnasse.
     E, aps isto, separaram-se, dirigindo-se Montparnasse para a Greve e
Gavroche para a Bastilha. Mais de uma vez, o pequeno mais novo, que ia pela mo
do mais velho, o qual tambm ia a reboque de Gavroche, voltou a cabea para trs,
para ver afastar-se Polichinelo.
     A frase anfigurica pela qual Montparnasse advertira Gavroche da presena do
agente no encerrava outro talism alm da consonncia dig cinco ou seis vezes
repetida sob formas variadas. Esta slaba dig, no pronunciada isoladamente, mas
artisticamente combinada com as palavras de uma frase, quer dizer: Sentido, que
no se pode falar livremente. Alm disto, havia na frase de Montparnasse uma
beleza literria, que escapou a Gavroche: era meu dogue, minha dengue, e minha
adaga, locuo da gria do Templo, que significa meu co, minha mulher e minha
navalha, locuo muito vulgar entre os caudas vermelhas do grande sculo em
que Molire escrevia e Callot desenhava.
     H vinte anos, via-se ainda no ngulo sudeste da praa da Bastilha, prximo 
estao do Canal, cavada no antigo fosso da priso-cidadela, um extravagante
monumento, hoje inteiramente esquecido dos parisienses, conquanto tal
esquecimento seja imerecido, por ser aquele monumento uma recordao do
membro do Instituto, general-em-chefe do exrcito do Egipto.
     Chamamos-lhe monumento, conquanto no fosse mais do que um esboo.
Mas este mesmo esboo prodigioso, cadver grandioso de uma ideia de Napoleo,
que duas ou trs rajadas de vento sucessivas tinham arrebatado e lanado de cada
vez para mais longe de ns, tornara-se histrico e assumira no sei que de
definitivo, que contrastava com o seu aspecto provisrio. Era um elefante de
quarenta ps de alto, construdo de madeira e de alvenaria, sustentando sobre o
lombo a sua torre, que se assemelhava a um prdio, outrora pintado de verde por
um pintor qualquer, e depois de preto pelo cu, pela chuva e pelo tempo. Naquele
ngulo deserto e descoberto da praa, a longa fronte do colosso, a tromba, os
dentes, a torre, a enorme garupa, os quatro ps, semelhantes a colunas,
projectavam de noite, no cu estrelado, uma sombra surpreendente e terrvel. No
se sabia o que aquilo queria dizer: era uma espcie de smbolo da fora popular.
Era sombrio, enigmtico e imenso. Era no sei que poderoso fantasma visvel, de
ps ao lado do espectro invisvel da Bastilha.
     Poucos estrangeiros visitavam aquele edifcio, e nem um s transeunte olhava
para ele. Ia-se arruinando; as pores de calia que o mau tempo em todos os anos
lhe arrancava, deixavam-lhe umas como hediondas chagas. Os edis como se diz
no dialecto elegante, tinham-se esquecido dele desde 1814. Estava ali no seu canto,
triste, doente, prestes a desabar, rodeado de um tapume apodrecido, manchado a
todos os instantes pelos cocheiros embriagados; tinha o ventre cheio de fendas; do
rabo saa-lhe um barrote, a erva crescia-lhe em torno das pernas; e como o nvel
da praa se elevava  roda dele, havia trinta anos, pelo movimento vagaroso e
contnuo que ergue insensivelmente o solo das grandes cidades, estava numa cova
e parecia que a terra ia abatendo debaixo dele. Estava imundo, desprezado,
repugnante e soberbo, feio aos olhos dos burgueses, melanclico aos olhos do
pensador. Tinha o que quer que era de uma imundcie que se vai varrer e de uma
majestade que vai ser decapitada.
     Como temos dito,  noite mudava de aspecto. A noite  o verdadeiro meio de
tudo o que  a sombra. Desde que anoitecia, transfigurava-se o elefante; assumia
um todo tranquilo e temvel na formidvel serenidade das trevas. Pertencendo ao
passado, pertencia  noite; a escurido harmonizava-se com a sua grandeza.
     Este monumento rude, membrudo, pesado, spero, austero, quase disforme,
mas inquestionavelmente majestoso e impregnado de uma espcie de gravidade
magnfica e selvtica, desapareceu, para deixar reinar em paz a espcie de fogo
gigante, ornado com o seu tubo, que substituiu a sombria fortaleza de nove torres,
pouco mais ou menos como a burguesia substitui o feudalismo.  uma coisa
simples que um fogo simbolize uma poca, cujo poder  contido numa panela.
Esta poca h-de passar, vai passando j; comea-se a compreender, que se pode
haver fora numa caldeira, s num crebro pode haver poder; noutros termos: o
que leva e conduz o mundo, no so as locomotivas, so as ideias.
     Tomai as ideias pelas locomotivas, mas no tomeis o cavalo pelo cavaleiro.
     Seja como for e para voltarmos  praa da Bastilha, o arquitecto do elefante
conseguira fazer com pedra e cal, uma coisa grande; o arquitecto da chamin de
fogo, conseguira com bronze fazer uma coisa pequena.
     A chamin do fogo que foi baptizada com um nome sonoro e denominada
Coluna de Julho, aquele monumento falido de uma revoluo abortada, estava
ainda em 1832 envolvido numa imensa camisa de madeira, de que pela nossa
parte temos pena, e de uma vasta paliada feita de tbuas, que acabava de isolar o
elefante.
     Foi para este canto da praa, apenas alumiado pelo reflexo de um lampeo
distante, que o gaiato conduziu os dois pequenos.
     Seja-nos aqui permitida uma interrupo, para recordarmos que estamos em
simples realidade, e que h vinte anos tiveram os tribunais correccionais de julgar
por vadiagem e deteriorao de um monumento pblico, um rapaz que fora
surpreendido deitado no interior do elefante da Bastilha.
     Registado este facto, continuemos.
     Chegando Gavroche junto do colosso, compreendeu o efeito que o
infinitamente grande pode produzir sobre o infinitamente pequeno e disse:
     - Nada de ter medo.
     Depois entrou por uma abertura do tapume ao recinto do elefante e ajudou os
pequenos a penetrar na brecha. As duas crianas, um tanto assustadas, seguiam
Gavroche sem dizer palavra, e confiavam-se quela Providncia coberta de
farrapos, que lhes dera po e que lhes prometera um abrigo.
     Havia ali, deitada ao longo do tapume, uma escada de mo, que servia
durante o dia aos operrios de uma obra prxima. Gavroche ergueu-a com
singular vigor e aplicou-a a uma das mos do elefante. No ponto em que a
estacada ia terminar descobria-se uma espcie de buraco negro no ventre do
colosso Gavroche mostrou a escada e o buraco negro aos seus hspedes e
disselhes:
     - Subam e entrem.
     Os dois pequenos olharam um para o outro aterrados.
     - Vocs tm medo! - exclamou Gavroche.
     E acrescentou:
     - Ora vejam!
     E num abrir e fechar de olhos, abraando-se ao p rugoso do elefante, sem se
dignar servir da escada, chegou ao buraco. Meteu-se por ele como uma cobra,
desapareceu e, passado um momento, os dois pequenos viram aparecer
vagamente, como uma forma esbranquiada e lvida, o rosto plido de Gavroche 
beira do buraco cheio de trevas.
     - Ento - gritou ele - subam! Vero como se est bem aqui! Anda, tu! - disse
ao mais velho. - Segura-te  minha mo.
     Os pequenos empurraram-se um ao outro com o ombro; o gaiato metia-lhes
medo e tranquilizava-os ao mesmo tempo; e depois a chuva caa em torrentes. O
mais velho arriscou-se. O mais pequeno, vendo subir o irmo, e achando-se s
entre as quatro patas daquele enorme bicho, tinha bastante desejo de chorar, mas
no se atrevia.
     O mais velho ia subindo, a cambalear, os degraus da escada; Gavroche ao
mesmo tempo animara-o com exclamaes de mestre de armas a seus discpulos,
ou de arrieiro s suas mulas:
     - No tenhas medo!
     -Assim!
     - V para diante!
     - Pe o p ali!
     - Pe a mo acol!
     - V, v!
     E, apenas lhe chegou com a mo, segurou-o de repente com fora por um
brao e puxou-o para si.
     - Pronto! - disse ele.
     O pequeno tinha entrado para o buraco.
     - Agora - disse Gavroche - espera aqui. Queira dar-se ao incmodo de se
sentar.
     E saindo do buraco pelo mesmo modo porque entrara, deixou-se escorregar
com a agilidade de um acrobata pela perna do elefante, caiu em p na erva, pegou
no pequeno de cinco anos, p-lo no meio da escada e comeou a subir atrs dele,
gritando ao mais velho:
     - Eu empurro-o e tu puxa-o para ti.
     Num momento subiu o pequeno, sendo impelido, puxado, arrastado e
encafuado no buraco, antes que tivesse tempo de se reconhecer; e Gavroche
entrando atrs dele, empurrou com o p a escada, que logo caiu em baixo e
comeou batendo as palmas, gritando ao mesmo tempo:
     - J c estamos! Viva o general Lafayette!
     Passada esta exploso, acrescentou:
     - Ol, petizada! Esto em minha casa!
     Gavroche estava, com efeito, em sua casa.
      utilidade inesperada do que  intil, caridade das grandes coisas, bondade
dos gigantes! Aquele monumento descomunal, que contivera um pensamento do
imperador, tornara-se boceta dum gaiato. A criana fora aceita e abrigada pelo
colosso.
     Os burgueses, que com os seus fatos domingueiros passavam pela frente do
elefante da Bastilha, diziam ordinariamente, olhando para ele com ar de desprezo
e fitando-o com os seus grandes olhos  flor do rosto:
      - Para que serve aquilo?
      Aquilo servia para salvar do frio, da geada, da neve e da chuva, para abrigar
do vento do Inverno, para livrar do sono na lama que produz a febre e do sono
sobre a neve que produz a morte um entezinho sem pai, sem me, sem po, sem
asilo. Aquilo servia para recolher o inocente que a sociedade repelia. Aquilo servia
para atenuar a falta pblica. Era uma toca aberta quele para quem se fechavam
todas as portas.
      Parecia que o velho mastodonte miservel, invadido pelos vermes e pelo
esquecimento, coberto de verrugas, de bolor e de lceras, cambaleante,
carunchoso, abandonado, condenado, espcie de mendigo colossal, pedindo em
vo a esmola de uma vista benvola no meio da encruzilhada, tivera d, ele,
daquele outro mendigo, do pobre pigmeu que caminhava sem sapatos nos ps,
sem tecto por sobre a cabea, soprando os dedos enregelados, vestido de farrapos
e alimentado do que se deita fora. Eis para que servia o elefante da Bastilha.
Aquela ideia de Napoleo, desdenhada pelos homens, fora adoptada por Deus O
imperador, para realizar o que meditava, precisaria de prfiro, de bronze, de ferro,
de ouro, de mrmore, a Deus bastara aquele velho monto de tbuas, de barrotes e
de alvenaria. O que s era ilustre, tornara-se augusto. O imperador tivera um
sonho de gnio; naquele elefante titnico, armado, prodigioso, erguendo a tromba,
sustentando a sua torre e fazendo brotar de todos os lados, em torno de si, alegres
e vivificantes guas, queria encarnar o povo. Deus tornara-o uma coisa maior;
alojara nele uma criana.
      O buraco por onde Gavroche entrara era uma brecha, que mal se via da parte
de fora, oculta como estava, j o dissemos, sob o ventre do elefante, e to estreita
que s gatos e crianas poderiam caber por ela.
      - Comecemos por dizer ao porteiro que no estamos c - observou Gavroche
E penetrando na escurido como quem conhece os cantos  casa, pegou numa
tbua e tapou com ela o buraco.
      Depois disto, Gavroche tornou a mergulhar na escurido. Os pequenos
ouviram a fungadela do fsforo metido na garrafa fosfrica O fsforo qumico no
existia ainda; o fuzil Fumado representava naquela poca o progresso.
      A claridade sbita fez-lhes piscar os olhos. Gavroche acabava de acender uma
torcida embebida em resina, das que se chamam rolos. O rolo, que produzia mais
fumo que luz, s muito confusamente deixava ver o interior do elefante.
     Os dois hspedes de Gavroche olharam  roda de si e sentiram alguma coisa
semelhante ao que sentiria o indivduo que fosse encerrado no grande tonel de
Heidelberg, ou melhor ainda, o que sentiu Jonas no ventre bblico da baleia.
Viam-se rodeados e envolvidos de todos os lados por um esqueleto gigante. Na
parte superior, uma comprida viga parda, donde partiam de distncia em
distncia outras peas arqueadas, figurava a coluna vertebral com as costelas; dali
pendiam, quais vsceras, estalactites de gesso; e de uma ou outra costela vastas
teias de aranha formavam empo-eirados diafragmas. Por um e outro lado, aos
cantos, viam-se grandes manchas negras, que pareciam vivas e que mudavam
rapidamente de lugar, com um movimento sbito e assustado.
     Os fragmentos cados do lombo do elefante sobre o ventre, tinham-lhe
enchido a concavidade, de modo que se podia ali andar como num sobrado.
     O mais pequeno chegou-se muito para o irmo e disselhe a meia voz:
     -  to escuro!
     Estas palavras provocaram uma exclamao de Gavroche.
     O ar petrificado dos dois pequenos tornava necessrio um repelo.
     - O que esto vocs para a a grunhir? Faam-se agora finos! Queriam talvez
umas Tulherias? Vocs so brutos? Se o so, digam-mo! Eu c aviso-os de que no
sou do regimento dos bananas!
     No meio do espanto no deixa de ser proveitoso um pouco de arrebatamento.
 uma coisa que tranquiliza. Os dois pequenos aproximaram-se mais de
Gavroche.
     Este, paternalmente enternecido, passou do grave ao doce e dirigindo-se ao
mais pequeno disse, acentuando a injria com um certo cambiante acariciador:
     - Meu palerma , l fora  que  escuro. Da banda de fora  que chove, aqui
no chove; da banda de fora  que faz frio, aqui no h nem uma migalha de
vento; da banda de fora  que h montes de gente, e aqui s estamos ns; l fora
nem ao menos h luar, e aqui h a minha luz, com seiscentas pipas!
     Aps esta cena, os dois pequenos principiaram a olhar o aposento com menos
temor, porm, Gavroche no lhes deu tempo para os vagares da contemplao e
acrescentou quase imediatamente:
     - Vamos e muito ligeiros!
     E empurrou-os para o que, com demasiada liberdade talvez, apelidaremos o
fundo da sala, onde ficava a cama do gaiato.
     O leito de Gavroche era completo. Isto , constava de um enxergo e de um
cobertor no meio de uma alcova com cortinado.
     O enxergo era uma esteira bastante grossa, o cobertor uma pesada manta de
l escura, muito quente e quase nova Quanto  alcova, eis no que ela consistia:
Trs compridas estacas enterradas com segurana na calia que formava o
pavimento, isto , na barriga do elefante, duas adiante e uma atrs, reunidas na
extremidade por meio de uma corda, de maneira a formar um feixe piramidal
Assentava nesta armao uma rede de arame, simplesmente posta por cima,
porm artisticamente aplicada e segura por ganchos tambm de arame, de modo
que cobria inteiramente as trs estacas. Acabava de a segurar na parte inferior
uma fiada de pedras volumosas, que no deixavam passar nada por baixo. Esta
rede no era mais do que o fragmento de uma dessas grades de metal que
costumam tapar a parte dianteira dos viveiros Deste modo, pois, a cama de
Gavroche, rodeada pela grade, ficava como que dentro de uma gaiola,
assemelhando-se todo aquele aparelho a uma tenda de esquim.
     O cortinado, portanto era a rede de que acabamos de falar Gavroche afastou
as pedras que seguravam a grade por baixo, na parte dianteira, e os dois panos de
arame, que fechavam um sobre o outro, imediatamente se abriram.
     - Vamos, meus amiguinhos, mos no cho e toca a entrar!
     Ajudou-os a entrar com cautela na gaiola e em seguida entrou ele tambm, de
rastos, achegou as pedras e fechou hermeticamente a abertura.
     Um instante depois, jaziam todos trs deitados sobre a esteira, pois apesar de
pequenos, nenhum deles se poderia pr de p dentro da alcova.
     - Agora toca a ferrar o luzio, que eu vou suprimir o candelabro! - disse
Gavroche, que ainda conservava na mo o rolo aceso.
     - Para que  aquilo? - perguntou o mais velho dos dois irmos a Gavroche,
apontando para a grade.
     - Isto - disse Gavroche gravemente -  para no deixar entrar as ratazanas!
Mas toca a ferrar o luzio.
     Como, porm, se julgasse obrigado a acrescentar algumas palavras para
instru- o das duas crianas, continuou:
     - Isto foi uma herana que me veio do Jardim das Plantas e estava l a tapar as
gaiolas dos animais ferozes. H l um armazm atacado disto. Basta saltar uma
parede, trepar a uma janela, passar por baixo de uma porta e tm-se quantas se
queiram!
     Ao mesmo tempo que o gaiato falava, embrulhava com uma ponta da manta
o mais pequeno, que murmurou:
     -  to bom, to quentinho!
     Gavroche deitou um olhar de satisfao para o cobertor e prosseguiu:
     - Isto tambm  um traste que eu herdei do Jardim das Plantas. Tirei-o aos
macacos!
     E mostrando ao mais velho a esteira em que estavam deitados, esteira muito
espessa e admiravelmente tecida, acrescentou:
     - Isto era da girafa.
     Depois de uma pausa, prosseguiu:
     - Os animais tinham tudo isto. Tirei-lhes o que precisava, mas eles no se
zangaram. Disselhes que era para o elefante.
     Tornou a calar-se por um momento e depois continuou:
     - Salta-se por cima dos muros e ri-se a gente do governo. No tem mais nada.
     As duas crianas contemplavam com um respeito temeroso e estupefacto
aquele ente intrpido e inventivo, vagabundo, isolado, raqutico como eles, que
tinha o que quer que era de admirvel e de omnipotente, que lhes parecia
sobrenatural e cuja fisionomia se compunha de todas as caretas de um velho
saltimbanco aliadas ao mais ingnuo e encantador sorriso.
     - O senhor ento no tem medo dos soldados? - perguntou timidamente o
mais velho.
     Gavroche limitou-se a responder:
     - No se chamam soldados, chamam-se guitas.
     Quanto ao mais novo, tinha os olhos desmesuradamente abertos, mas no
proferia uma s palavra. Como era ele o que ficava na borda e o mais velho no
meio, Gavroche meteu-lhe o cobertor por baixo do corpo, como o teria feito uma
me, e levantou a esteira, metendo-lhe por baixo uns poucos de farrapos, de modo
a formar um travesseiro. Depois voltou-se para o mais velho e exclamou:
     - Heim!? No se est aqui magnificamente?
     -  verdade - respondeu o mais velho, contemplando Gavroche com uma
expresso de anjo salvo.
     Os dois pobres pequenos, que tiritavam com a humidade que lhes trespassava
a roupa, principiavam a aquecer.
     - Mas porque diabo choravam vocs h bocado?
     E indicando o pequeno mais novo ao irmo, continuou:
     - Um petiz como esse, no digo que no, mas j taludo como tu,  que no
tem jeito; fica assim com ar de bezerro.
     - Ora! disse o pequeno. - Pois ns no sabamos onde havamos de ir ficar,
no tnhamos casa!
     - Pacvio! - replicou Gavroche. - No se diz casa, diz-se cote.
     - E depois tnhamos medo de andar assim sozinhos de noite.
     - No se diz noite, diz-se choina.
     - Muito obrigado, senhor - retorquiu o pequeno.
     - Escuta - tornou Gavroche -  preciso no tornar a chiar por coisa nenhuma.
Eu tratarei de vocs. Vero como a gente se diverte. No Vero iremos  Glacire
com o Navelt, que  um camarada que eu tenho, tomaremos banhos na gare e
correremos nus em plo, por diante da ponte de Austerlitz:  uma coisa que faz
danar as lavadeiras.
     Gritam e fazem uma tal chiada! Vero como so reinadias! Iremos ver o
homem esqueleto, mas que est vivo, nos Campos Elseos;  magro como um
bacalhau o tal fregus. E depois lev-los-ei ao teatro. Hei-de lev-los a ver
Frederico Lemaire. Tenho bilhetes, conheo actores, e at j uma vez representei
numa pea. ramos todos assim petizes, corramos por baixo de um pano a fingir
o mar. Deixem estar que hei-de fazer com, que sejam ajustados ao meu teatro.
Iremos ver os selvagens. Mas no so selvagens verdadeiros. Tm fatos de meia
cor-de-rosa, que fazem pregas, e os cotovelos cheios de passagens, feitas com linha
branca Depois iremos  pera. Entraremos com os claqueurs. A claque da pera 
composta por muito boa gente. Ao boulevard  que eu no vou com a claque. Na
pera, imagina tu, h-os at de vinte soldos, mas so uns toleires. Chamam-lhes
esfreges. Iremos tambm ver guilhotinar. Mostrar-lhes-ei o carrasco. Mora na
rua do Marais;  o senhor Sanso, que tem  porta uma caixa para receber cartas.
Vers, h-de a gente divertir-se a cair.
     Neste momento, um pingo de cera caiu num dedo de Gavroche e chamou-o
s realidades da vida.
     - Diabo! - disse ele. - L se gasta o rolo todo. Ateno! Eu no posso gastar
mais que um soldo cada ms com a iluminao. Quando a gente se deita  para
dormir. No temos tempo para ler os romances do senhor Paulo de Kock. E o pior
 que a luz pode passar pelas frestas, e ento os guitas s precisaro de ter olhos.
     - E depois - observou timidamente o mais velho, que era o que ousava
conversar com Gavroche  pode cair algum morro na palha, e  preciso tomar
cuidado em no queimar a casa.
     - No se diz queimar a casa - observou Gavroche - diz-se frigir as pulgas.
     A tempestade redobrava de fria. Atravs dos ribombos do trovo ouvia-se o
fragor da chuva, batendo no costado do colosso.
     -  chuva at mais no - disse Gavroche.  Gosto de ouvir despejar a garrafa
pelas pernas do prdio. O Inverno  um parvalho, perde a fazenda e o trabalho e
no  capaz de nos molhar; por isso  que est to resmungo o tal velho
aguadeiro.
     Esta aluso ao trovo, do qual Gavroche, na sua qualidade de filsofo do
sculo XIX aceitava todas as consequncias, foi seguido de um grande relmpago,
to intenso que o seu claro chegou a penetrar pelo buraco do ventre do elefante.
Quase ao mesmo tempo ribombou o trovo, e muito furiosamente. Os dois
pequenos soltaram um grito e levantaram-se com tanta vivacidade, que quase iam
deslocando a grade; mas Gavroche voltou para eles o rosto atrevido e aproveitou o
estampido do trovo para soltar uma gargalhada.
     - Sosseguem, rapazes. Nada de remexer o edifcio. Bons troves. No  s a
pie-guice do relmpago. Bravo, senhor Deus! So quase to bem feitos como no
Ambigu!
     Dito isto, restabeleceu a ordem na grade, empurrou brandamente os dois
pequenos para a cabeceira da cama, juntou-lhe os joelhos para os estender bem ao
comprido e exclamou:
     - Uma vez que Deus acende a sua vela, posso eu apagar a minha. Rapazes, 
preciso dormir;  muito mau no dormir; faz mal  tosse. Tratem de se enroscar
bem na pele! Vou apagar o lampeo. Esto prontos?
     - Estamos - murmurou o mais velho -, j estou bem. Parece que tenho um
travesseiro de penas debaixo da cabea.
     - No se diz a cabea - observou Gavroche - diz-se a tla.
     Os dois pequenos chegaram-se muito um para o outro.
     Gavroche acabou de os aconchegar na esteira, puxando-lhes a manta at as
orelhas, depois repetiu pela terceira vez a recomendao, em lngua hiertica:
     - Toca a sornar!
     E apagou o rolo.
     Apenas se apagou a luz, um singular estremecimento comeou a abalar a
grade, sobre a qual estavam deitadas as trs crianas.
     Era uma multido de frices surdas que produziam um som metlico, como
o raspar de dentes ou de unhas no arame da rede; e isto acompanhado por uma
grande srie de guinchos agudos.
     O pequeno de cinco anos, ouvindo aquele motim por cima da cabea e
sentindo-se gelado pelo medo, tocou com o cotovelo em seu irmo mais velho,
mas este sornava j, como Gavroche lhe recomendara Ento o pequeno, no
podendo conter-se com o medo, atreveu-se a chamar Gavroche, mas muito
devagarinho, e contendo a respirao:
    - Que ? - disse Gavroche, que acabava de fechar os olhos.
    - O que  que faz esta bulha?
    - So os ratos - respondeu Gavroche.
    E tornou a deitar a cabea na esteira.
    Os ratos, com efeito, que pululavam dentro do elefante e que eram aquelas
manchas negras e vivas de que h pouco falmos, tinham sido contidos em
respeito pela chama do rolo enquanto ela brilhara; mas desde que aquela caverna,
que era como a cidade deles, tornara a ficar em escurido, sentindo ali o cheiro
que o excelente narrador Perrault chama de carne fresca, tinham acometido em
turba a tenda de Gavroche, tinham-lhe trepado at ao cimo e mordiam-lhe nas
malhas de arame, como se diligenciassem destruir a barreira que se lhes opunha.
    O pequeno entretanto no dormia.
    - O senhor ouve? - tornou ele.
    - Que ? - disse Gavroche.
    - O que  que so ratos?
    - So ratos.
    Esta explicao parece que tranquilizou em parte a amedrontada criana. J
uma ocasio tinha visto ratos brancos e no tivera medo. Contudo elevou
novamente a voz:
    - O senhor ouve?
    - O que ? - tornou Gavroche.
    - Porque no tem o senhor um gato?
    - J tive um - respondeu Gavroche - mas eles comeram-no.
    A segunda explicao desfez a obra da primeira e o pequenito recomeou a
tremer.
    O dilogo entre ele e Gavroche ligou-se pela quarta vez.
    - O senhor ouve?
    - Que ?
    - Mas quem  que foi comido?
    - O gato.
    - Mas que foi que comeu o gato?
    - Os ratos.
    - Os ratos?
    - Sim, os ratos.
    O pequenito consternado por causa daqueles ratos que comiam gatos,
prosseguiu:
     - Os ratos comero tambm a gente?
     - Capazes disso so eles.
     O terror do pequeno chegara ao seu auge. Gavroche acrescentou:
     - No tenhas medo, que no podem entrar. E depois estou eu aqui. Olha,
toma a minha mo. Cala-te e trata de sornar!
     Gavroche pegou ao mesmo tempo na mo do pequenito por cima de seu
irmo.
     A criana apertou muito aquela mo contra si e sentiu-se mais sossegado. O
nimo e a fora tm destas comunicaes misteriosas. O silncio restabelecera-se
em torno deles, o rudo das vozes espantara e afastara os ratos; passados alguns
minutos fizeram bem em dar novo ataque: os trs rapazes, j adormecidos, no
ouviram nada.
     As horas da noite passaram. As sombras cobriam a imensa praa da Bastilha,
um vento de Inverno que acompanhava a chuva, soprava em rajadas, as patrulhas
olhavam para as portas, para as leas, para os tapumes, para os cantos mais
escuros, e, procurando vagabundos nocturnos, passavam silenciosamente por
diante do elefante; o monstro, em p, imvel, com os olhos no meio das trevas,
parecia meditar satisfeito da sua boa aco, de abrigar do cu e dos homens as trs
pobres crianas adormecidas.
     Para se compreender o que vai seguir-se,  necessrio lembrar que o corpo da
guarda da Bastilha era situado na outra extremidade da praa, e no podia ser
visto nem ouvido pela sentinela o que se passava junto do elefante.
     Pelo fim da hora que precede imediatamente o despontar do dia, desembocou
da rua de Santo Antnio um homem, correndo, atravessou a praa, contornou o
grande tapume da coluna de Julho e meteu-se por entre a estacada, at se achar
sob o ventre do elefante. Se uma luz qualquer alumiasse aquele homem, ter-se-ia
adivinhado, pelo modo como estava encharcado, que passara a noite  chuva.
Chegando debaixo do elefante, soltou um grito extravagante, que no pertencia a
nenhuma lngua humana, e que s um periquito poderia reproduzir. O homem,
repetiu duas vezes o tal grito de que a seguinte ortografia d imperfeitamente uma
ideia:
     - Kirikikiou!
     Ao segundo grito respondeu do ventre do elefante uma voz clara, fresca e
alegre:
     - Pronto!
     Quase imediatamente a tbua que estava tapando o buraco foi afastada e deu
passagem a um rapazinho que se deixou escorregar pela mo do elefante e foi cair
ao p do homem. Era Gavroche. O homem era Montparnasse.
     Quanto quele grito kirikikiou, era sem dvida o que o rapaz queria dizer por
procurars pelo senhor Gavroche.
     Ouvindo-o, acordara sobressaltado, arrastara-se para fora da alcova,
afastando um pouco a rede, que logo tornara a aconchegar cuidadosamente;
depois abrira o alapo e descera.
     O homem e a criana reconheceram-se silenciosamente mesmo na escurido;
Montparnasse limitou-se a dizer:
     - Precisamos de ti, vem dar-nos uma ajuda.
     O gaiato no pediu mais explicaes.
     - Pronto - tornou ele.
     E dirigiram-se ambos para a rua de Santo Antnio, de onde viera
Montparnasse, serpenteando rapidamente por entre a comprida fileira de carroas
de horteles, que quela hora iam para o mercado.
     Os horteles, agachados nas carroas entre a hortalia e os legumes, meio
adormecidos, embrulhados at aos olhos nos seus gabes, por causa da chuva,
nem mesmo reparavam nos dois estranhos transeuntes.



    III
    As peripcias da evaso



     Eis o que naquela mesma noite tinha lugar na Force:
     Babet, Brujon, Gueulemer e Thenardier tinham combinado entre si um plano
de evaso, embora Thenardier jazesse no segredo. Babet evadiu-se nesse mesmo
dia, sem esperar pelos companheiros, como sem dvida se depreendeu da
narrao de Montparnasse a Gavroche. Montparnasse devia ajud-los de fora a
levar a cabo a difcil empresa.
     Brujon passara um ms num crcere de castigo, e, por conseguinte, tivera o
tempo necessrio para duas coisas essenciais. Quer dizer, aproveitara o tempo do
seu isolamento a tecer uma corda e a delinear um plano. Noutro tempo, esses
severos lugares, em que a disciplina da priso deixava o sentenciado entregue a si
mesmo, constavam de quatro paredes de pedra, com abbada e pavimento de
igual natureza, uma maca ou cama de lona, um postigo gradeado, uma porta
forrada de folha de ferro, e dava-se a isto o nome de masmorras. A masmorra,
porm, foi julgada em demasia horrvel, e esta espcie de crceres compe-se
agora de uma porta de ferro, um postigo gradeado, uma maca, quatro paredes de
pedra com tecto e pavimento igualmente de pedra, e chama-se-lhes casas de
correco. A hora do meio-dia dificilmente se v dentro destas casas, cujo
inconveniente, apesar de, como se v, no serem masmorras,  deixar entregues 
meditao criaturas que se deveriam fazer trabalhar e no meditar.
     Brujon, pois, meditara, e quando saiu da casa de correco, trazia consigo
uma corda. Como, porm, julgassem que da sua permanncia na priso
denominada de Carlos Magno se poderiam seguir perigosas consequncias,
mandaram-no para o Edifcio Novo. A primeira coisa que ele ali encontrou foi
Gueulemer, a segunda um prego, isto , em Gueulemer o crime, no prego a
liberdade.
     Brujon, de quem  tempo de dar uma ideia completa, no obstante a aparente
delicadeza da sua compleio e a languidez que inculcava, languidez finamente
fingida, era um corts, inteligente e ladino gatuno, de olhar meigo e sorriso atroz.
Isto provinha de que o olhar era o resultado da vontade, o sorriso a expresso da
natureza.
     Os primeiros estudos do bandido na sua arte tinham tido por alvo os
telhados, havendo neste ramo dado valente impulso  indstria dos larpios do
chumbo das clarabias por um processo muito conhecido deles e que ns nos
julgamos dispensados de nomear.
     Acrescia ainda, para tornar mais oportuno o ensejo de uma tentativa de
evaso, andarem exactamente os retalhadores naquela ocasio concertando e
reparando parte dos telhados das prises, de modo que a de S. Bernardo j no se
podia dizer isolada da de Carlos Magno e da de S. Lus. Em qualquer delas se viam
numerosas pranchas e escadas, ou, por outras palavras, pontes e passadios para o
lado da liberdade.
     O ponto fraco da priso era o Edifcio Novo, assim chamado, embora fosse
impossvel haver coisa mais decrpita e assinalada dos estragos do tempo. O
salitre fora carcomendo as paredes a ponto tal, que o governo viu-se na
necessidade de mandar forrar de madeira as abbadas dos dormitrios, porque s
vezes despegavam-se de cima as pedras que as formavam e vinham cair sobre os
presos que jaziam deitados. No obstante, porm, o precrio estado desta priso,
cometia-se a falta de encarcerar nela os rus de que mais se receava, os maus de
amanhar, como se diz na linguagem das prises.
     Continha o Edifcio Novo quatro dormitrios sobrepostos e um apenso
denominado a Galeria do Ar Livre. Partia do andar trreo um largo tubo de
chamin, talvez de alguma antiga cozinha dos duques da Force, que, depois de
atravessar os quatro andares do edifcio e dividir ao meio todos os dormitrios,
figurando um como pilar quase chato, ia terminar pela parte superior do telhado.
     Gueulemer e Brujon jaziam no mesmo dormitrio, no andar inferior, para
onde  cautela tinham sido mandados. Quis o acaso que os seus leitos ficassem
justamente com a cabeceira encostada ao tubo da chamin de que agora mesmo
acabamos de falar.
     Thenardier achava-se exactamente por cima da cabea deles, no apenso ou
dormitrio superior, denominado Galeria do Ar Livre.
     Quem hoje passar pela rua Culture-Sainte-Catherine, e, transposto o quartel
dos bombeiros, parar em frente do porto da casa dos Banhos, avista um terrao
cheio de flores e arbustos em caixes, ao fundo do qual se eleva um pequeno
pavilho redondo, de persianas verdes e risonho aspecto, tal como o sonhara Joo
Jacques nas horas do seu buclico devanear. Por cima, pois, desse pavilho
erguia-se, no h ainda dez anos, um muro negro, descomunal, medonho e
descarnado, que lhe ficava sobranceiro.
     Era o muro de circunvalao da Force.
     Ao ver-lhe encostado o gracioso pavilho, dir-se-ia que era Milton escoltado
por Berquin.
     No obstante a grande altura do muro, avistava-se dentro um telhado
interior, que subia acima do nvel da parede. Era o telhado do Edifcio Novo, no
meio do qual se avistavam quatro trapeiras gradeadas, que eram as janelas da
Galeria do Ar Livre.
     Alm disto, via-se mais uma chamin, que era a que passava pelos
dormitrios.
     A parte superior do Edifcio Novo, apelidada Galeria do Ar Livre, era como
que um extenso mercado com barracas, fechado por trplices grades e por portas
chapeadas de ferro e cravejadas de enormes pregos. Entrando pela extremidade
norte, ficavam  esquerda os quatro postigos e  direita, em frente dos postigos,
quatro gaiolas, bastante espaosas, mas desviadas umas das outras e separadas por
corredores estreitos, at a metade da altura de um homem, de pedra, e o resto at
ao telhado de grades de ferro.
     Thenardier jazia incomunicvel numa destas gaiolas desde a noite do dia 3 de
Fevereiro. Nunca se pde descobrir como nem por conivncia de quem ele
conseguiu obter e ter oculta uma garrafa desse vinho, segundo se diz, inventado
por Desrues.
     Este vinho, que possui uma virtude narctica, veio depois a tornar-se clebre,
em razo das aplicaes que teve entre a quadrilha dos Adormecedores.
     H em muitas prises empregados infiis, meios carcereiros, meios ladres,
que auxiliam as evases tentadas pelos presos, recebendo da polcia a paga dos
seus infiis servios e vendendo aos encarcerados os meios da sua fuga.
     Naquela mesma noite, pois, em que Gavroche recolhera os dois rapazinhos
vagabundos, Brujon e Gueulemer, sabendo que Babet, que pela manh se evadira,
os esperava na rua, bem como Montparnasse, ergueram-se devagarinho e
puseram-se a furar o tubo da chamin, junto do qual tinham as camas, com o
prego que Brujon achara, e como a calia caa sobre a cama de Brujon, era
impossvel serem pressentidos no seu trabalho. Alm disto, de vez em quando as
lufadas de vento, misturadas com o reboar do trovo, abalavam as portas nos
gonzos, produzindo dentro da priso um estrondo, que os auxiliava eficazmente
no seu intento. Alguns presos acordaram; porm, demasiadamente bons
companheiros para mutuamente se lesarem, fizeram que no viram os dois e
tornaram a adormecer. Brujon era lesto, Gueulemer vigoroso.
     Portanto, antes do guarda, que dormia no quarto gradeado imediato ao
dormitrio, para onde tinha um postigo, chegar a ouvir o mnimo rudo, estava
arrombada a parede, escalada a chamin, forada a grade de ferro que fechava o
orifcio superior do tubo e os temerosos bandidos sobre o telhado, naquela
ocasio em extremo escorregadio, por causa da chuva, que cada vez caa com mais
fria, impelida por violentos tufes de vento.
     - Que xoina to mstica para uma piranga! (Que bela noite para uma evaso) -
disse Brujon.
     Um abismo de seis ps de largura e oitenta de profundidade os separava do
muro de circunvalao, abismo no fundo do qual viam reluzir por entre a
escurido a arma de uma sentinela. Presa uma ponta da corda, que Brujon
arranjara na sua masmorra, aos restos das grades que tinham descolado, atiraram
a outra ponta por cima do muro de circunvalao, transpuseram o abismo, dando
um salto, agarraram-se  aresta do muro, escarrancharam-se nele, deixaram-se
escorregar, um depois do outro, pela corda abaixo, saltando para um telhado
imediato  casa dos Banhos, puxaram a corda a si, saltaram ao terrao dos Banhos,
atravessaram-no, abriram um dos batentes do porto levantando-lhe o fecho onde
pendia o cordo que o porteiro puxava sem sair para fora e acharam-se na rua.
     Decorridos alguns instantes, juntaram-se a Babet e a Montparnasse, que
giravam pelos arredores, no havendo ainda trs quartos de hora que eles, no
meio das trevas, se tinham posto de p sobre as camas em que dormiam, com o
prego, instrumento da sua liberdade, na mo, e o seu plano na cabea.
     Ao puxarem a corda para si, esta tinha quebrado, ficando um bocado preso 
chamin, em cima do telhado.
     Quanto ao mais, a nica avaria sofrida fora esfolarem quase completamente a
pele das mos, ao deixarem-se escorregar pela corda abaixo.
     Nessa noite, Thenardier, prevenido, sem que nunca se pudesse averiguar de
que modo o fosse, em lugar de dormir, como de costume, conservava-se de
atalaia.
     Por volta da uma hora, apesar da escurssima cerrao da noite, da chuva e
das lufadas do vendaval, Thenardier viu passar dois vultos no telhado, por diante
do postigo ou janela gradeada fronteira  gaiola em que ele jazia Um dos vultos
parou ao postigo, detendo-se apenas o tempo de um olhar, e continuou
imediatamente o seu caminho Era Brujon, a quem Thenardier para logo conheceu
e entendeu, sem haver necessidade de mais amplos esclarecimentos.
     Thenardier, considerado como perigoso e ru do crime de cilada nocturna
com emprego de meios violentos, era, portanto, guardado  vista por uma
sentinela, que passeava diante da priso dele de arma carregada, sendo rendida
por outra de duas em duas horas. Um nico lampeo alumiava toda a Galeria do
Ar Livre. Aos ps tinha o preso duas correntes de ferro, que pesavam cinquenta
libras. As quatro horas da tarde entrava todos os dias no crcere do bandido um
guarda, escoltado por dois mastins (naquela poca ainda isto tinha lugar),
pousava-lhe ao p da cama um po negro de duas libras, uma bilha de gua e uma
escudela cheia de caldo mal adubado, em cuja superfcie se viam nadar algumas
raras favas, passava-lhe revista aos ferros, corria, batendo, os vares das grades e
ausentava-se, voltando duas vezes durante a noite, sempre escoltado pelos seus
dois inseparveis mastins.
     Thenardier obtivera licena de conservar uma espcie de cavilha de ferro, de
que se servia para espetar a sua rao de po numa fenda da parede, a fim de, dizia
ele, o livrar dos ratos. Como o bandido era guardado  vista, ningum viu
inconveniente em conceder-lhe o uso de tal cavilha. Mais tarde, porm,
lembraram-se que um guarda tinha dito:
     - Era melhor darem-lhe uma cavilha de pau do que consentirem-lhe a de
ferro.
     As duas horas foi rendida a sentinela, que era um veterano, sendo substituda
por um recruta. Instantes depois veio o homem dos ces fazer a costumada visita e
ausentou-se sem nada notar, a no ser a pouca idade e o ar espantadio do
bisonho soldado.
     Passadas duas horas, isto , s quatro, vindo outra sentinela render o recruta,
encontraram-no a dormir, estirado no cho, como uma massa de pedra,  porta
da gaiola de Thenardier. Quanto a este, tinha-se evaporado, jazendo no cho os
ferros que quebrara para se evadir. No tecto da priso em que estava encerrado
via-se um buraco e no telhado outro. Na cama faltava uma tbua, que ele tinha
arrancado, e decerto levado consigo, porque no foi possvel dar com ela.
Apareceu ainda uma garrafa meia cheia, que continha o resto do vinho
narcotizado que servira para adormecer o soldado. A baioneta deste tinha
desaparecido.
     Quando se deu por tudo isto, sups-se que Thenardier estaria completamente
fora de alcance; a realidade, porm,  que conquanto ele j no estivesse dentro
dos muros do Edifcio Novo, o perigo em que se achava nem por isso era menor.
     Thenardier, chegado ao telhado do Edifcio Novo, encontrou o resto da corda
de Brujon dependurada nos vares da abertura superior da chamin, porm como
esta parte que ficara era demasiado curta, tornava-se-lhe impossvel saltar para o
muro de circunvalao, como para se evadir tinham feito Brujon e Gueulemer.
     Quando se volta da rua dos Ballets para a do Rei da Siclia, encontram-se
quase imediatamente  direita umas runas srdidas. Havia ali no sculo passado
uma casa de que j no resta mais que a parede do fundo, verdadeira parede de
pardieiro, que se eleva  altura de um terceiro andar entre os prdios vizinhos.
Estas runas reconhecem-se facilmente por duas grandes janelas quadradas que
ainda existem; a do centro, mais prxima da empena da direita, est trancada com
uma viga carunchosa. Atravs das janelas distinguia-se noutro tempo uma alta
muralha lgubre, parte da qual fechava o caminho de circunvalao da Force.
     O vo que a casa demolida deixou na rua, est quase preenchido por um
tapume de tbuas quase podres, e sustentado por cinco pilares de pedra. Dentro
deste tapume oculta-se uma barraquinha encostada  parede, que ficou de p no
meio das runas. O tapume tem uma porta que h poucos anos ainda se fechava s
com uma tranqueta.
     Foi ao alto destas runas que Thenardier conseguiu chegar pouco depois das
trs horas da manh.
     Como chegara at ali? Foi o que nunca se pde explicar nem compreender.
Os relmpagos tinham-no decerto ajudado e constrangido ao mesmo tempo.
Ter-se-ia servido das escadas de mo e dos andaimes dos pedreiros para chegar,
de telhado em telhado, de recinto em recinto, de compartimento em
compartimento, aos edifcios do ptio de Carlos Magno, depois aos do ptio de S.
Lus, ao muro de circunvalao e depois ao pardieiro que deita para a rua do Rei
da Siclia? Mas neste trajecto havia solues de continuidade que pareciam
torn-lo impossvel. Teria atravessado a tbua da barra, como uma ponte, da
Galeria para o muro do caminho de circunvalao e arrastar-se-ia de bruos sobre
o muro em toda a volta da priso at ao pardieiro? Mas o muro do caminho de
circunvalao da Force desenhava uma linha dentada e desigual, subia e descia,
baixava-se para o quartel dos bombeiros, tornava a levantar-se ao p da casa dos
Banhos, era tudo cortado por construes, no tinha a mesma altura do lado da
rua Pave; havia nele por toda a parte, declives e ngulos rectos; e depois as
sentinelas deveriam ter visto o sombrio vulto do fugitivo; deste modo ainda o
caminho percorrido por Thenardier fica pouco mais ou menos inexplicvel. De
ambos os lados fuga impossvel. Thenardier, iluminado pela medonha sede de
liberdade, que faz dos precipcios fossos, que transforma as grades de ferro em
caniado, um coxo em atleta, um gotoso em pssaro, a estupidez em instinto, o
instinto em inteligncia e a inteligncia em gnio, teria inventado e improvisado
uma terceira maneira? Nunca se soube.
     Nem sempre se podem perceber as maravilhas da evaso. O homem que
escapa, repetimo-lo,  um inspirado; o misterioso baro da fuga participa da
estrela e do relmpago; o esforo para a liberdade no  menos surpreendente do
que o voo para o sublime; e diz-se de um ladro evadido: como fez ele para escalar
aquele telhado? Do mesmo modo que se diz de Corneille: Onde achou ele que
tivesse morrido?
     Fosse como fosse, escorrendo suor, encharcado pela chuva, com o fato
esfarrapado, as mos todas feridas, os cotovelos e os joelhos ensanguentados,
chegara Thenardier ao que os rapazes, na sua linguagem figurada, chamam o cimo
do muro das runas, deitara-se sobre ele ao comprido e sentira-lhe faltarem-lhe as
foras.
     Estava separado da rua por um declive a prumo, da altura de um terceiro
andar.
     A corda de que poderia dispor era demasiado curta.
     E esperava ali, plido, exausto, j sem resto algum da esperana que tivera,
coberto ainda pela noite, mas lembrando-se de que dentro em pouco
amanheceria, espantado com a ideia de ouvir dentro de poucos instantes soar as
quatro horas no vizinho relgio de S. Paulo, hora em que iam render a sentinela e
em que a achariam adormecida sob o tecto furado, vendo com espanto, numa
profundidade terrvel,  luz dos lampies, a calada molhada e negra, aquela
calada to desejada e medonha, que era a morte e a liberdade.
     Perguntava a si mesmo se os seus trs cmplices de evaso tinham sido bem
sucedidos, se o tinham esperado, e se iriam socorr-lo. Aplicava o ouvido 
excepo de uma patrulha, no passara ningum pela rua desde que ele ali se
achava. O caminho de quase todos os horteles de Montreuil, de Charonne, de
Vincennes e de Berey, para o mercado,  pela rua de Santo Antnio.
     Deram quatro horas. Thenardier estremeceu. Poucos minutos depois
rebentou por toda a priso o confuso rumor que sucede  descoberta de uma
evaso. O ranger das portas que se abriam e fechavam, o tumulto no corpo da
guarda, as vozes roucas dos chaveiros, o estampido produzido pelas coronhas das
armas nas pedras do ptio, tudo chegava aos ouvidos de Thenardier. Pelas janelas
de grades dos dormitrios viam-se subir e descer algumas luzes no telhado da
Galeria do Ar Livre, um archote andava de um lado para o outro, tinham sido
chamados os bombeiros do quartel vizinho e viam-se-lhes os capacetes alumiados
pelo archote, agitando-se debaixo das torrentes da chuva de um para outro ponto,
ao longo dos telhados. Ao mesmo tempo, Thenardier via do lado da Bastilha um
cambiante lvido que ia aclarando lugubremente o ponto mais baixo.
     Estava sobre um muro de dez polegadas de grossura, estendido ao comprido,
debaixo das torrentes de chuva, com um abismo  direita e outro  esquerda, no
podendo fazer o mnimo movimento, preso da vertigem de uma queda possvel, e
do horror de uma priso certa, e o seu pensamento, qual badalo de um sino, batia
ora numa, ora noutra destas duas ideias:
     - Se caio morro, se fico aqui sou preso.
     No meio desta aflio avistou de repente na rua, ainda completamente escura,
um homem que caminhava muito encostado s paredes, que vinha do lado da rua
Pave e que parou na cova por sobre a qual estava Thenardier como que suspenso.
A este homem veio juntar-se outro, que caminhava com as mesmas precaues,
depois terceiro, e finalmente quarto. Estes homens depois de todos reunidos,
levantaram a tranqueta que fechava a porta do tapume e entraram no recinto em
que estava a barraca. Achavam-se precisamente por baixo de Thenardier. Os
quatro homens tinham evidentemente escolhido aquele lugar escuso para
poderem conversar sem serem vistos por quem passasse pela rua, nem pela
sentinela do postigo da Force, que ficava a pequenssima distncia.  preciso
tambm dizer que a chuva conservava a sentinela bloqueada na guarita.
Thenardier, no podendo distinguir-lhes os rostos, prestou o ouvido s suas
palavras, com a ateno desesperada de um miservel que se sente perdido.
     Thenardier viu passar diante dos olhos alguma coisa semelhante a uma
esperana: os quatro homens falavam em calo.
     O primeiro dizia em voz baixa, mas distintamente:
     - Piremo-nos. O que  que ns empatamos cigol (Vamo-nos embora! O que
estamos aqui a fazer?) O segundo respondeu:
     -  palhim capaz de apagar o aceso do tinhoso. E depois no tarda que passe a
gente da fusca; e o fundo que ali est de pasma? Vamos fazer com que nos
estardem icicaille (A chuva parece querer apagar o fogo do diabo. No tarda que
passe a gente da polcia e o soldado que ali est de sentinela? Vamos fazer com que
nos prendam aqui.) Estas duas palavras leigo e icicaille, que querem ambas dizer
aqui e que pertencem, a primeira  gria das barreiras, e a segunda  do Templo,
foram dois raios de luz para Thenardier. No icigo reconheceu Brujon, que era
ratoneiro das barreiras, e pelo icicaille. Babei, que entre todas as suas variadas
ocupaes, fora adelo do Templo.
     A antiga gria do grande sculo j se no fala seno no Templo; e mesmo
Babet era o nico que falava com toda a pureza. Seno fosse o inicicaille,
Thenardier no o teria conhecido, por isso que tinha mudado completamente a
voz.
     Entretanto interviera o terceiro:
     - No h por enquanto motivo para nos apressarmos.
     - Esperemos um bocado. Quem  que nos diz que ele no precisa de ns?
     Por isto, que era linguagem vulgar, logo Thenardier reconheceu
Montparnasse, cuja elegncia nestes casos consistia em entender todas as grias e
em no falar nenhuma.
     Quanto ao quarto conservava-se calado, mas era denunciado pela largura dos
ombros. Thenardier no hesitou. Era Gueulemer.
     Brujon replicou quase impetuosamente, mas sempre em voz baixa:
     - Que ests tu para a a cantar? O tasqueiro pode l xalar-se! No entruja
nentes da cantiga. Par bulinar a mimosa, trinchar os respaldes da pildra e avelar
uma comprida, para lazer bufos nas tapadas, fazer mos macanjas, cortar os
metais, esticar a viva, alapar-se e trocar o beque,  preciso ser tinente! O gebo
no pde raspar-se, no sabe brincar (O que ests para a a dizer! O estalajadeiro
no pde evadir-se. No sabe nada do ofcio. Para fazer em tiras a camisa e rasgar
os lenis da cama para ter uma corda, para fazer buracos nas portas, para fazer
chaves falsas, cortar os ferros, deitar para fora a corda, ocultar-se e disfarar-se, 
preciso ser esperto! O velho no pde fugir, no sabe trabalhar!) Babet acrescentou,
sempre no sbio calo clssico que falavam Poulailer e Cartouche, e que est para
o calo atrevido, novo, colorido e aventuroso de que usava Brujon, como a lngua
de Racine para a de Andr Chenier:
     - O seu tasqueiro deixou-se estardar na piresa.  preciso ter unhas e no ser
tanso. Deixou-se azoinar por algum fusco, ou por a lria de alguma cabra. Cogia,
Montparnasse: intrujas estes bramos no estarim? Viste os quartilhos? Pois est
aguentado. Ficar pronto com os seus vinte longos. Eu c no avelo fageca, no
sou carunfa,  corrente; mas no h j que empatar c no cote, e se no passarmos
os canhantes, podem-nos dar pr azar; mas no te escames, anda piar uma barra
de cinopla geba (O teu estalajadeiro deixou-se prender na fuga!  preciso ser esperto
e desembaraado. Deixou-se iludir por algum espio, ou por as boas palavras de
algum denunciante! Escuta, Montparnasse, ouves gritos na priso? Vistes os
archotes? Pois foi apanhado. Ficar quite com os seus vinte anos! Eu no tenho
medo, no sou poltro, todos o sabem, mas j aqui no h que fazer, e se no nos
safarmos, pode a coisa sair-nos mal. No te zangues, vamos todos beber uma
garrafa de tinto velho.) - No se abandonam assim os amigos no meio de
embaraos resmungou Montparnasse.
     - J cantei - tornou Brujon - o tasqueiro a estas burantas est estardado, no
vale lepes! J no adimos mentes; xalemo-nos. Est-me sempre a parecer que
coco um guita presente a fisgar-me a bata! (Afirmo-te que o estalajadeiro a estas
horas est preso, no vale um soldo! J no vemos aqui nada; vamo-nos embora.
Est sempre e parece-me que vejo um polcia pronto a deitar-me a mo!).
     Montparnasse j quase no resistia. O facto  que estes quatro homens, com a
fidelidade prpria dos bandidos em nunca se abandonarem uns aos outros,
tinham girado toda a noite pelos arredores da Force, conquanto fosse grande o
perigo, com a esperana de verem surgir Thenardier no alto de algum muro. Mas
a noite, realmente boa, era um dilvio que tornava absolutamente desertas todas
as ruas, o frio que os enregelava, o fato encharcado, os sapatos rotos, o motim
inquietador que acabava de se manifestar na priso, as horas que iam passando, as
patrulhas que se encontravam, a esperana que se ia desvanecendo e -que ia sendo
substituda pelo medo, era o que os impelia  retirada. O prprio Montparnasse,
que era um tanto genro de Thenardier, cedia.
     Um momento mais e teriam partido. Thenardier arquejava sobre o muro
como os nufragos da Medusa na sua jangada, vendo desaparecer no horizonte o
navio que tinha avistado.
     No se atrevia a cham-los; um grito que se ouvisse podia deitar tudo a
perder.
     Teve uma ideia, a ltima, um claro: tirou da algibeira o bocado da corda de
Brujon, que ele tinha desatado da chamin do Edifcio Novo e atirou-a para o
recinto fechado pelo tapume.
     A corda caiu aos ps dos que se achavam em baixo.
     - Uma viva (Uma corda (calo do Templo) - exclamou Babet.
     - A minha tortosa! (A minha corda! (calo das barreiras) - disse Brujon.
     O estalajadeiro est ali volveu Montparnasse.
     Olharam todos para cima. Thenardier estendeu um pouco a cabea -
Depressa! - exclamou Montparnasse. - Tens o outro bocado de corda, Brujon?
     - Tenho.
     - Ata os dois bocados; ns depois atiramos-lha e ele, prendendo-a ao muro,
poder descer.
     Thenardier arriscou-se a levantar a voz:
     - Estou gelado.
     - Depois te aqueces.
     - J no me posso mexer.
     - Deixa-te escorregar, que ns te aparamos.
     - No tenho fora nas mos.
     - Prende s a corda ao muro.
     - No poderei.
     -  preciso que um de ns trepe - disse Montparnasse.
     - Trs andares! - exclamou Brujon Um antigo tubo de pedra e cal, que servira
noutro tempo a um fogo que se acendia na barraca, prolongava-se pelo muro e
subia quase at ao stio onde se achava Thenardier. Este condutor, ento muito
escalavrado e cheio de fendas desmoronou-se depois, mas ainda se conhece o stio
em que esteve.
     Era em extremo delgado.
     - Podia subir-se por ali - disse Montparnasse.
     - Por aquele cano? - exclamou Babet.  Um orgue? (Um homem) Isso no
pode ser, era preciso um mion (Um rapaz (calo do Templo).
     - Era preciso um mrne (Um rapaz (calo das barreiras) - acudiu Brujon.
     - Mas onde se h-de ir buscar um mosquito?
     - Esperem - disse Montparnasse - eu arranjo isso.
     Em seguida entreabriu vagarosamente a porta do tapume, certificou-se de que
no passava ningum pela rua, saiu com precauo, tornou a fechar a porta atrs
de si e deitou a correr na direco da Bastilha.
     Passaram-se sete ou oito minutos, que foram oito sculos para Thenardier;
Babet, Brujon e Gueulemer, no disseram uma palavra; a porta tornou enfim a
abrir-se, e deu entrada a Montparnasse esbaforido, acompanhado de Gavroche. A
chuva continuava a conservar a rua de todo deserta.
     O pequeno Gavroche entrou no recinto fechado pelo tapume e encarou
aqueles rostos de malfeitores com ar tranquilo.
     Os cabelos escorriam-lhe gua. Gueulemer dirigiu-lhe a palavra.
     - Tu s um homem, petiz?
     Gavroche encolheu os ombros e respondeu:
     - Um petiz como eu  um homem, e homens como vocs so petizes.
     - Como o tal miou tem o badalo esticado! (Como o tal rapazinho tem a lngua
comprida!) - exclamou Babet.
     - O mme pantinense no  feito de forra palhinada (O rapazinho parisiense
no  feito de palha molhada) - acrescentou Brujon.
     - Que  que querem? - disse Gavroche.
     Montparnasse respondeu:
     - Que trepes por aquele cano.
     - Com esta viva (Com esta corda) - disse Babet.
     - E que afiances a tortosa (E que amarres a corda) - acrescentou Brujon.
     - L no tope do montante (No alto do muro) - tornou Babet.
     - No valente da ventana (No varo da janela) - disse Brupon.
     - E depois? - perguntou Gavroche.
     - Mexe-te! - retorquiu Gueulemer.
     O gaiato examinou a corda, o cano, o muro e as janelas, e fez o inexplicvel e
desdenhoso rudo com os beios, que significa:
     - Mas para qu?
     - Para salvares um homem que est l em cima - disse Montparnasse.
     - No queres? - Perguntou-lhe Brujon.
     - Que gajo! - respondeu o rapaz, como se a pergunta lhe parecesse inaudita; e
descalou os sapatos.
     Gueulemer pegou em Gavroche por um brao, p-lo sobre o tecto da barraca,
cujas duas tbuas carunchosas pareciam desfazer-se com to pequeno peso e
entregou-lhe a corda que Brujon tinha acrescentado durante a ausncia de
Montparnasse. O gaiato dirigiu-se em seguida para o cano, onde era fcil entrar
por um grande buraco que nele havia junto do telhado. No momento em que ia
para subir, Thenardier, que via aproximar-se a salvao e a vida, debruou-se da
borda do muro; os primeiros alvores da manh branqueavam-lhe j a fronte
inundada de suor, as faces lvidas, o nariz afilado e selvtico, a barba grisalha e
toda eriada, de tal modo, que logo foi reconhecido por Gavroche.
     - Olha! - disse ele. -  meu pai... V l, isso no tira!
     E, pegando na corda com os dentes, comeou resolutamente a escalada.
     Chegou ao alto do pardieiro, montou-se no muro como num cavalo, e
amarrou solidamente a corda a um dos vares transversais da janela.
     Passado um momento estava Thenardier ao p dos companheiros.
     Apenas ps os ps no cho, apenas se viu fora de perigo, j no se sentiu
fatigado, nem gelado, nem trmulo; as coisas terrveis de que acabava de sair
desvaneceram-se como fumo, toda aquela estranha e feroz inteligncia despertou:
achou-se em p e livre, pronto a caminhar para a frente. Eis as primeiras palavras
deste homem:
     - Agora o que vamos ns comer?
      intil explicar o sentido desta palavra medonhamente transparente, que
significa ao mesmo tempo, matar, ferir e roubar. Comer, verdadeiro sentido:
Devorar.
     - Cheguem-se bem - disse Brujon. - Acabemos a coisa com trs palavras, e
depois separar-nos-emos imediatamente.
     - Havia um negcio que parecia bom na rua Plumet, uma rua deserta, uma
casa isolada, grades ferrugentas num jardim e mulheres sozinhas.
     - E ento porque no se fez? - perguntou Thenardier.
     - Porque a tua fada (Filha) Eponina, foi ver a coisa - respondeu Babei.
     - E trouxe uma bolacha  Magnon  acrescentou Gueulemer. - No h l que
chafurdar (Roubar).
     - A fada no  tansa (rapariga no  parva) - disse Thenardier. - Mas sempre
ser bom ver.
     - Sim, sim . repetiu Brujon - sempre  bom ver.
     Entretanto, nenhum daqueles homens parecia lembrar-se de Gavroche, o
qual, durante este colquio, se sentara num dos pilares que sustentavam o tapume;
esperou alguns instantes talvez que seu pai se voltasse para ele, depois tornou a
calar os sapatos e disse:
     - Est tudo pronto? J no precisam de mim? J esto desenrascados; ento
raspo-me: tenho de ir levantar os meus petizes.
     E afastou-se.
     Os cinco homens saram do tapume a um e um.
     Depois de Gavroche ter desaparecido na esquina da rua dos Ballets, Babet
chamou Thenardier de parte:
     - Reparaste naquele rapaz? - perguntou-lhe ele.
     - Qual rapaz?
     - O que subiu ao muro, o que levou a corda.
     - No reparei muito, no.
     - Pois olha, no sei bem, mas parece-me que  teu filho.
     - Ora - disse Thenardier - pois tu crs nisso?
    LIVRO STIMO
    O calo



    I
    Origem



     Pigritia  uma palavra terrvel.
     Esta palavra gera um mundo, a pgre; leia-se: o roubo;  um inferno, a
pgrenne,- leia-se: a fome.
     Assim, a preguia  me.
     Tem um filho, o roubo: e uma filha, a fome.
     Mas onde  que nos encontramos agora? No calo.
     O que  o calo?  ao mesmo tempo a nao e o idioma;  o roubo sob as suas
duas espcies; povo e lngua.
     Quando h trinta e quatro anos o narrador desta sria e sombria histria
introduziu no meio de uma obra, escrita com o mesmo fim do que esta (O ltimo
dia de um condenado), um ladro falando calo, houve pasmo e clamor. O qu!
Pois  possvel! O calo! Mas o calo  uma coisa medonha!  a lngua das gals,
das enxovias, de tudo o que a sociedade tem de mais abominvel! etc., etc.
     Nunca compreendemos este gnero de objeces.
     Depois, dois poderosos romancistas, dos quais um  profundo observador do
corao humano, e outro intrpido amigo do povo, Balzac e Eugnio Sue, tendo
apresentado ladres falando a sua lngua natural, como fizera em 1828 o autor do
ltimo dia de um condenado, viram erguer-se as mesmas reclamaes. Repetiu-se:
O que nos querem os escritores com este repugnante dialecto? O calo  odioso!
O calo faz tremer! Sem dvida. Quem o nega?
     Desde quando  tido como erro, quando se trata de sondar uma ferida, um
abismo ou uma sociedade, penetrar demasiado, descer at ao fundo? Pensramos
sempre que era isto algumas vezes um acto de coragem, , pelo menos, uma aco
simples e til, digna da ateno simptica que  merecedor o dever aceito e
cumprido.
     No explorar, no estudar tudo, parar no meio do caminho, para qu? Parar
pertence  sonda e no a quem a lana.
     Com efeito, ir procurar nos baixios da ordem social, J onde acaba a terra e
comea o lodo, esquadrinhar nessas vagas espessas, prosseguir sempre, agarrar e
lanar, ainda palpitante, para a rua, este idioma abjecto, que trazido assim para a
luz goteja lama; este vocabulrio peonhento, de que cada palavra parece corcova
imunda de um monstro da vasa e das trevas no  tarefa atraente ou fcil.
     No h nada mais lgubre do que contemplar assim a nu,  luz do
pensamento, o terrvel e irregular movimento do calo. Parece ser realmente uma
espcie de horrvel animal s feito para a noite e que acaba de ser arrancado da sua
sentina. Julga-se ver medonha escurido, viva e eriada, que estremece, se move,
se agita, torna a pedir as trevas, ameaa e olha. Uma palavra assemelha-se a uma
garra, outra a um olho bao e sanguinrio; tal ou qual frase parece mover-se qual
pina de caranguejo.
     Tudo isto vive da vitalidade hedionda das coisas que foram organizadas na
desorganizao.
     Desde quando, porm,  que o horror exclui o estudo? Desde quando  o
mdico expulso pela doena? Imagine-se um Naturalista que se recusasse a
estudar o escorpio, a centopeia, a tarntula, e que os lanasse de novo nas suas
trevas, dizendo:
     Que feios so! O pensador que fugisse do calo, assemelhar-se-ia a um
cirurgio que voltasse o rosto vendo uma lcera. Seria o mesmo que um fillogo
hesitando em examinar um facto da lngua, um filsofo hesitando em examinar
um facto da humanidade. Porque,  necessrio diz-lo aos que o ignoram, o calo
 ao mesmo tempo um fenmeno literrio e um resultado social. O que  o calo
propriamente dito? O calo  a lngua da misria.
     Aqui podem fazer-nos parar; podem generalizar o facto, o que  algumas
vezes uma maneira de o atenuar; podem dizer-nos que todas as profisses, todos
os misteres, poder-se-ia acrescentar, quase todos os acidentes da hierarquia social,
e todas as formas da inteligncia tm o seu calo O negociante quando diz:
Montepelier disponvel, Marselha boa qualidade; o cambista: por estorno, ao
par; o jogador: estou  paz de pirulo, jogo de porta; o oficial de diligncias das
ilhas normandas: o censor arestando o prdio sujeito ao censo, no tem direito
ao fruto durante o sequestro da herana do censurio; o vaudevilista: alegrar o
urso; (Patear a pea) o autor: fiz furor; o filsofo: triplicidade fenomenal; o
caador: dei um bigode; o frenlogo:
     amatividade, combatividade, secretividade; o soldado de infantaria: o meu
fagote de sessenta palhetas: o cavaleiro: a minha perua; o mestre de esgrima:
tera, quarta, a fundo; o impressor: mordido no primeiro, no segundo tiro;
todos, impressor, mestre de esgrima, cavaleiro, soldado, frenlogo, caador,
filsofo, autor, vaudevilista, oficial de diligncias, jogador e cambista, falam calo.
     O pintor, quando diz: o meu rapin; o tabelio o meu salta pocinhas; o
cabeleireiro: o meu caixeiro; o remendo: o meu chumeco; falam calo. Em
rigor e se o quiserem absolutamente, todos estes modos de dizer a direita e a
esquerda: o marinheiro, bombordo e estibordo; o maquinista: lado do ptio,
lado do jardim; o sacristo: lado da Epstola, lado do Evangelho; so calo. H
o calo das delambidas, como houve o calo das preciosas. O palcio de
Rambouilet confinava um tanto com o Ptio dos Milagres. H tambm o calo das
duquesas, como o provam estas frases escritas num bilhete amoroso por uma
senhora muito formosa e de elevada jerarquia, do tempo da Restaurao: Vous
trouverez dans cs potains-la une foultitude de taisons pour que je me libertise
(Achareis nessas bisbilhotices uma quantidade de razes paraque eu me liberte). As
cifras diplomticas so um calo; a chancelaria pontifcia dizendo 26 em lugar de
Roma, grkztntgzgal em lugar de remessa; e abfxustgrnogtkzu tu XI em vez de
duque de Modena fala calo. Os mdicos da Idade-Mdia, que para dizerem
cenoura, rabanete e rbano, diziam: opoponach, perfcoschinum, repfitalmus,
dracatholicum angele rum, postmegorum, falavam calo; o fabricante de acar
que diz: mascavado, caixa, refinado sendo muito honesto industrial, fala calo.
Certa escola de crtica, que existia h uns vinte anos e que dizia: Metade de
Shakespeare  trocadilho, falava calo. O poeta e o artista, que com profundo
juzo qualificariam o senhor de Montmorency de burgus se no entendesse de
versos e de esttuas, falariam calo.
     O acadmico clssico que chama Flora s flores, Poznana aos frutos,
Neptuno ao mar, fogos ao amor, atractivos  beleza, um corcel a um
cavalo, a rosa de Belona ao lao branco ou tricolor, e tringulo de Marte ao
chapu armado, fala calo. A lgebra, a medicina, a botnica tm o seu calo. A
lngua que se emprega a bordo, admirvel lngua do mar, to completa e pitoresca,
que falaram Joo Bart, Duquesne, Sufren e Duperr, que se casa com o assobiar
das ondas revoltas, com o eco do porta-voz, com o embate dos machados de
abordagem e com o balano do navio, a brisa, o furaco, o troar da artilharia,  um
calo herico e brilhante, que est para o feroz calo da pgre como o leo para
o chacal.
     Sem dvida. Mas, por mais que possam dizer, este modo de compreender a
palavra calo  de uma tal extenso que nem toda a gente admitir. Quanto a ns,
conservamos nesta palavra a sua velha acepo, precisa, circunscrita e
determinada, e restringimos o calo ao calo. O verdadeiro calo, o calo por
excelncia, se  possvel juntar estas duas palavras, o imemorvel calo que era um
reino, no  outra coisa, repetimo-lo, seno a lngua disforme, inquieta, sonsa,
traidora, venenosa, cruel, vesga, vil, profunda e fatal da misria. Na extremidade
de todos os rebaixamentos e de todos os infortnios, existe uma ltima misria
que se revolta e que se decide a lutar com o conjunto dos factos felizes e dos
direitos reinantes: luta medonha, em que, ora astuciosa, ora violenta, ao mesmo
tempo raqutica e feroz, ataca a ordem social com picadas de alfinete pelo vcio, e
com pancadas de maa pelo crime. Para as necessidades desta luta inventou a
misria uma lngua de combate, que  o calo.
      Fazer sobrenadar e suster  superfcie do esquecimento,  superfcie do
abismo, ainda que no seja seno um fragmento de uma lngua qualquer que o
homem falou e que se perderia; isto , um dos elementos, bons ou maus, de que a
civilizao se compe, ou com que tem relao,  ampliar os dados da observao
social,  servir a prpria civilizao. Este servio prestou o Plauto, tendo ou no
tendo essa inteno, fazendo falar o fencio a dois soldados cartagineses; este
servio foi prestado por Molire, fazendo falar o levantino e toda a espcie de
dialectos a tantos dos seus personagens. Aqui reanimam-se as objeces: o fencio,
optimamente! O levantino, no h que dizer! Mesmo os dialectos, passe So
lnguas que pertenceram a naes ou a provncias; mas o calo! De que serve
conservar o calo? Para que se h-de fazer sobrenadar o calo?
      A isto s responderemos uma palavra.
      Decerto; se a lngua que falou uma nao ou uma provncia  digna de
interesse, h uma coisa mais digna ainda de ateno e de estudo,  a lngua que
falou uma misria.
       a lngua que tem falado em Frana, por exemplo, h quatro sculos, no
somente uma misria, mas a misria, toda a misria humana possvel.
      E depois, insistimos nisto: estudar as deformidades e as enfermidades sociais
e apont-las para serem curadas, no  um trabalho em que seja permitida a
escolha.
      O historiador dos costumes e das ideias no tem uma misso menos austera
do que o historiador dos acontecimentos. Este tem a superfcie da civilizao, as
lutas das coroas, o nascimento dos prncipes, os casamentos dos reis, as batalhas,
as assembleias, os grandes homens pblicos, as revolues  luz do dia, tudo o que
 exterior; o outro historiador tem o interior, o fundo, o povo que trabalha, que
sofre e que espera, a mulher acabrunhada, a criana que agoniza, as guerras surdas
de homem contra homem, as ferocidades obscuras, os preconceitos, as
iniquidades consentidas, as reaces subterrneas da lei, as evolues secretas das
almas, os estremecimentos indistintos das multides, os famintos, os descalos, os
nus, os deserdados, os rfos, os desgraados e os infames, todas as larvas que
divagam na escurido.  preciso que ele desa, com o corao cheio ao mesmo
tempo de caridade e de severidade, como um irmo e como um juiz, at s
casas-matas impenetrveis, onde se arrastam em confuso os que sangram e os
que ferem, os que choram e os que maldizem, os que jejuam e os que devoram, os
que suportam o mal e os que o fazem. Estes historiadores dos coraes e das almas
tero acaso deveres menores do que os historiadores dos factos exteriores?
     Julgaro que Alighieri tenha menos coisas para dizer do que Maquiavel? A
parte inferior da civilizao, por ser mais profunda e mais sombria, ser menos
importante do que a superior? Tem-se acaso perfeito conhecimento da montanha,
quando se desconhece a caverna?
     Digamo-lo, contudo, de passagem; de algumas palavras do que percebe
poder-se- inferir entre as duas classes de historiadores uma separao acentuada,
que no existe no nosso esprito. Ningum  bom historiador da vida potente,
visvel, brilhante e pblica dos povos, se no  ao mesmo tempo, numa certa
proporo, historiador da sua vida profunda e oculta; e ningum  bom
historiador do ntimo, se no sabe ser, todas as vezes que  necessrio, historiador
do que  externo. A histria dos costumes e das ideias penetra a histria dos
acontecimentos e reciprocamente. So duas ordens diferentes de factos, que se
correspondem, que se encadeiam sempre e se geram muitas vezes. Todas as linhas
que a Providncia traa na superfcie duma nao, tem as suas paralelas sombrias
mas distintas, no fundo, e todas as convulses do fundo causam agitaes na
superfcie.
     Estando a verdadeira histria ligada a tudo, deve o verdadeiro historiador
ligar-se a tudo. O homem no  um crculo com um s centro,  uma elipse com
dois focos.
     Os factos constituem uns, as ideias o outro.
     O calo no  seno um guarda-roupa, onde a lngua, tendo alguma m aco
a praticar, se disfara.
     Reveste-se ali de palavras-mscaras e de metforas-farrapos.
     Deste modo torna-se horrvel.
     Custa a conhec-la.  realmente a lngua francesa, a grande lngua humana?
Ei-la pronta a entrar em cena, a dar ao crime a rplica, e prpria para todos os
empregos do repertrio do mal. No anda, manqueja; manqueja na muleta do
Ptio dos Milagres, muleta que facilmente se metamorfoseia em maa; chama-se
madraaria; foi caracte-rizada por todos os espectros que a ajudaram a vestir;
arrasta-se e ergue-se com a dupla andadura do rptil.  ento apta para todos os
papis,  feita vesga pelo falsrio, esverdeada pelo envenenador, mascarada com a
fuligem do incendirio; e o assassino d-lhe o seu vermelho.
      Quando se escuta, do lado da gente honesta,  porta da sociedade,
surpreende-se o dilogo dos que esto de fora Distinguem-se perguntas e
respostas. Ouve-se sem se compreender um murmrio hediondo, soando quase
como a voz humana, mas mais vizinha do uivo do que da palavra.  o calo. Os
termos so disformes e impregnados de no sei que bestialidade fantstica.
Julga-se ouvir hidras a falar.
       o ininteligvel no tenebroso.  uma coisa que range e segreda, completando
o crepsculo com o enigma. H escurido na desgraa, mas mais escurido ainda
no crime. Estas duas escurides amalgamadas compem o calo. Obscuridade na
atmosfera, obscuridade nos actos, obscuridade nas vozes. Espantosa lngua-sapo
que vai, vem, salta, arrasta-se, baba-se, move-se monstruosamente no meio do
imenso nevoeiro pardo, feito de chuva, de noite, de fome, de vcio, de mentira, de
injustia e de nudez, de asfixia e de Inverno; completo meio-dia dos miserveis.
      Tenhamos compaixo dos castigados. Ai de mim!, quem somos ns mesmos?
      Quem sou eu, eu que estou falando? Quem sois vs que me escutais? Donde
vimos ns? H toda a certeza de que no tenhamos feito algumas coisas antes de
nascermos?
      A terra no deixa de assemelhar-se a uma priso. Quem sabe se o homem no
foi j castigado pela justia divina?
      Observai a vida de perto.  feita de tal modo, que por toda a parte se sente
nela a punio.
      Sois o que se chama um feliz? Pois bem, estais triste todos os dias. Cada dia
tem o seu grande desgosto, ou o seu pequeno cuidado. Ontem tremeis por uma
sade que vos  cara, hoje receais pela vossa; amanh ser uma inquietao
pecuniria, depois de amanh a diatribe dum caluniador, e no imediato a
desventura de um amigo; depois o bom ou o mau tempo, depois alguma coisa
quebrada ou pendida, depois um prazer que a conscincia e a coluna vertebral vos
repreendem; doutra vez os andamentos dos negcios pblicos. Sem contar as
penas do corao. E assim por diante. Dissipa-se uma nuvem, forma-se outra. Em
cem dias apenas um de plena alegria e de pleno sol. E sois do pequeno nmero
que tem a felicidade! Quanto aos outros homens, tm sobre si a noite estagnante.
     Os espritos reflectidos curam pouco da locuo: felizes e infelizes. Neste
mundo, evidentemente vestbulo de outro, no h felizes.
     A verdadeira diviso humana . esta: luminoso e tenebroso.
     Diminuir o nmero de tenebrosos, aumentar o dos luminosos, eis o fim. Eis
porque gritamos: Ensino! Cincia! Ensinar a ler,  acender lume; toda a slaba
soletrada lana fascas.
     No entanto, quem diz luz no diz necessariamente alegria. Sofre-se na luz; o
excesso queima. A chama  inimiga da asa. Arder sem cessar de voar,  onde est o
prodgio do gnio.
     Mas tendo todos os conhecimentos, mesmo amando, sofrereis sempre. O dia
nasce lacrimoso. Os luminosos choram, ainda que no seja seno a sorte dos
tenebrosos.



    II
    Razes



     O calo  a lngua dos tenebrosos.
     O pensamento  agitado nas suas sombrias profundidades, a filosofia social 
instigada s suas meditaes, as mais pungentes na presena deste enigmtico
dialecto, ao mesmo tempo manchado e revoltado.  ali que h castigo visvel.
Todas as slabas so marcadas. As palavras da lngua vulgar aparecem ali como
enrugadas e encoscoradas pelo ferro candente do carrasco. Algumas parecem
ainda fumegantes.
     Tal ou tal frase produz-nos o efeito do ombro marcado de um ladro
inopinadamente despido. A ideia quase recusa deixar-se exprimir por aqueles
substantivos justificados.
     A metfora  por vezes to insolente e atrevida que se tem a impresso de que
j usou golilha.
     Afinal, a despeito de tudo isto, e mesmo por causa de tudo isto, tem este
estranho dialecto direito a um compartimento no grande armrio imparcial, onde
h lugar tanto para a moeda de cobre oxidada, como para a medalha de ouro, e
que se chama literatura. O calo, quer consintam quer no, tem a sua sintaxe e a
sua poesia.  uma lngua. Se pela deformidade de certos vocbulos se reconhece
que foi mascarada por Mandrin, pelo esplendor de certas metonmias, sente-se
que foi falada por Villon.
     Este verso to esquisito e to clebre:
     Mais ou sont ls neigs d'anan?
      um verso de calo. Antan ante annum  um termo do calo de Tunes que
significava o ano passado e mais extensivamente noutro tempo. Podia ainda ler-se,
h trinta e cinco anos, na poca da partida da grande corrente de 1827, num dos
calabouos de Bictre, esta mxima, gravada com um prego na parede, por um rei
de Tunes condenado s gals: Ls dabs dantan frimaient siempre pour la pierre da
cosre; o que quer dizer: Os reis de outro tempo iam sempre sagrar-se. No
pensamento daquele rei, a sagrao era a gal.
     A palavra dcarade que exprime a partida a galope de pesado veculo, 
atribuda a Villon, de quem  digna. Esta palavra, que atira com os quatro ps,
resume numa onomatopeia magistral todo o admirvel verso de La Fontaine:
     Six fors chevaux tiraiente un coche.
     Segundo o modo de ver puramente literrio, poucos estudos seriam mais
curiosos e mais fecundos do que o do calo.  uma lngua, uma espcie de
excrescncia valetudinria, um enxerto fraco que produziu uma vegetao, um
parasita que tem as suas razes no velho tronco gauls, e cuja folhagem sinistra
trepa por todo um lado do idioma. Isto  o que poderia chamar-se primeiro
aspecto, o aspecto vulgar do calo Mas para os que estudam a lngua como deve
ser estudada, isto , como os gelogos estudam a terra; aparece o calo como um
verdadeiro aluvio. Segundo a escavao  mais ou menos profunda, encontra-se
no calo, abaixo do velho francs popular, o provenal, o espanhol, o italiano, o
levantino, essa lngua dos portos do Mediterrneo, o ingls e o alemo, o romano
nas suas trs variantes, latim-francs, latim-italiano, latim-romano, o latim, e
finalmente o basco e o celta Formao extravagante e profunda Edifcio
subterrneo edificado em comum por todos os mseros. Cada raa maldita
concorreu com a sua camada, cada sofrimento deixou cair a sua pedra, cada
corao deu o seu calhau. Uma multido de almas ms, baixas ou irritadas, que
atravessaram a vida e foram desaparecer na eternidade, esto ali quase inteiras e
de certo modo visveis ainda, sob a forma de um termo monstruoso.
     Quer-se espanhol? Pulula no velho calo gtico. Eis boffette, bofetada, que
vem de bofeton; vantane, janela (mais tarde vanterue), que vem de ventaria; gai,
que vem de gato; aciie, que vem de aceyte. Quer-se italiano? Eis spade, pe, que
vem de espada; carvel, barco, que vem de caravela. Quer-se ingls? Eis bichoi,
bispo que vem de bishope; raille, espio, que vem de rascai, tascalion, tratante;
pilche, estojo, que vem de pilchert, bainha.
     Quer-se alemo? Eis caleur, rapaz, keller; o hers, o amo, herzog, duque.
Quer-se latim? Eis frangir, quebrar, frangere; affurer, roubar, fur; cadne, cadeia,
catena; h ali uma palavra que aparece em todas as lnguas do continente com
uma espcie de poder e de autoridade misteriosa,  a palavra magnas; a Esccia faz
dela o seu mac, que designa o chefe de cl (Tribo formada de certo numero de
famlias) Mac-Farlane, Mac-Callummore, o calo faz daquela palavra o meck e
mais tarde o meg, o grande Farlane, o grande Callumtnore (Deve-se contudo
observar que Mac, em celta, quer dizer filho); isto , o Deus.
     Quer-se basco? Eis gahisto, o diabo, que vem de gaiztoa, mau; sorgabon, boa
noite, que vem de gabon, boa noite. Quer-se celta? Eis blavin, leno de assoar, que
vem de bavet, gua nascente; mnesse, mulher (em mau sentido), que vem de
meinec, cheio de pedras; barant, enxurrada; de baranton, fonte; goffeur,
serralheiro, de goff, forjador; a gudouze, a morte, que vem de guen-du,
branca-negra Quer-se enfim, histria?
     O calo chama aos escudos malteses, recordao da moeda que tinha curso
nas gals de Malta.
     Alm das origens filosficas que acabam de ser indicadas, tem o calo outras
razes mais naturais ainda e que saem, para assim dizer, do prprio esprito do
homem.
     Em primeiro lugar a criao directa das palavras.  onde est o mistrio das
lnguas. Pintar, por meio de palavras que tm, no se sabe como nem porqu,
figuras.
      isto o fundo primitivo de toda a linguagem humana,  aquilo a que se
poderia chamar seu alicerce. No calo pululam as palavras deste gnero, palavras
imediatas, criadas, completas no se sabe onde nem por quem, sem etimologia,
sem analogias, sem derivados; palavras solitrias, brbaras, algumas vezes
hediondas, que tm singular poder de expresso e que vivem. O carrasco, o taule;
a floresta, o sabri; o medo, a fuga, talf; o lacaio, o latbin; o general, o perfeito, o
ministro, pharos; o diabo, o rabouin. No h nada mais estranho do que estas
palavras que mascaram e que mostram.
     Alguns destes termos, o rabouin, por exemplo, so ao mesmo tempo
grotescos e terrveis, e produzem o efeito da careta dum ciclope.
     Em segundo lugar, a metfora. O caracterstico duma lngua que pretende
dizer tudo e tudo ocultar,  a abundncia de figuras, A metfora  um enigma
onde se refugia o ladro, que trama um dos seus feitos, o preso que combina uma
evaso.
      Nenhum idioma  mais metafrico do que o calo devisser l coco, torcer o
pescoo; tortiller, comer; ser gerb, ser julgado um rafo, um ladro de po;
lansquine, chove, velha figura surpreendente, que, de certo modo, tem consigo a
sua data, que assimila as compridas linhas obliquas da chuva aos piques bastos e
inclinados dos soldados e que resume numa s palavra a metonimia popular:
chovem espetos. Por vezes,  medida que o calo passa da primeira para a segunda
poca, passam as palavras do estado selvtico e primitivo ao sentido metafrico. O
diabo deixe de ser o rabouin, e torna-se o boulanger, aquele que mete no forno. 
mais espirituoso, mas no to grande; qualquer coisa como Racine depois de
Corneille, como Eurpides depois de Esquilo. Certas frases de calo que
participam das duas pocas e tm ao mesmo tempo o carcter brbaro e o carcter
metafrico, assemelham-se a fantasmagorias. Ls sorgueurs voni sollicer ds gails 
la lune (os ratoneiros vo roubar cavalos de noite). Isto passa diante do esprito
como um bando de espectros. No se sabe o que se v.
      Em terceiro lugar, o expediente, O calo vive sobre a lngua. Usa dela segundo
a sua fantasia, recorre a ela ao acaso, e limita-se muitas vezes, quando surge a
necessidade, a desnatur-la sumria e grosseiramente Por vezes com as palavras
usuais assim desfiguradas e envolvidas com palavras de calo puro, compe
locues pitorescas em que se sente a mistura de dois elementos procedentes, a
criao directa e a metfora: L cab jaspine, je martonne que la voulotte de Pantln
trime dans l sabri o co ladra, supondo que a diligncia de Paris vai passando
pelo bosque. L dab est sinve. la dabuge est merlaussire. la fe est bative o burgus
 estpido, a burguesa  astuta, a filha  bonita. A maior parte das vezes, a fim de
desorientar os que possam escutar, limita-se o calo a juntar indistintamente a
todas as palavras da lngua uma espcie de cauda ignbil, uma terminao em
aille, em orgue, em iergue, ou em ache. Assim: Vouziergue irouvaille bonorgue s
gigotemuche? Achais bom este pitu? Frase dirigida por Cartouche a um guarda, a
fim de saber se lhe convinha a soma oferecida para evaso.
      A terminao em mar foi acrescentada muito recentemente.
      O calo, sendo o idioma da corrupo, depressa se corrompe. Alm disto,
como diligencia sempre esconder-se apenas se sente compreendido,
transforma-se. Ali, ao contrrio de qualquer outra vegetao, tudo morre com o
mais pequeno raio de sol.
      Assim, o calo vai-se decompondo e recompondo sem cessar; trabalho
obscuro e rpido que no pra nunca. Percorre mais caminho em dez anos do que
a lngua em dez sculos. Por este modo o larton, o po torna-se o lartif; o gail, o
cavalo, torna-se o gaye; a fertanche, a palha, torna-se a fertille; os fiques, a roupa,
os frusques; a chique, a igreja, o egrugeoir; o colabre, o pescoo torna-se o colas, O
diabo passa de gahisto a rabouin, depois o boulanger; o padre  o rafichon, depois
o javali; o punhal  o vinte e dois, depois, o surin, depois o lingre; os empregados
da polcia so os railles, depois os roussins, depois os rousses, os vendilhes de
corda, os coqueurs, e finalmente, os cognes; o carrasco  o taule, depois Charlot,
depois o aigeur e o becquillard.
     No sculo XVII um duelo era dar tabaco; no sculo XIX  mescar a goela.
Entre estes dois extremos tm passado vinte locues diferentes. Cartouche falaria
hebreu para Lacenaire. Todas as palavras desta lngua esto em perptua fuga
como os homens que a falam.
     Contudo, de tempos a tempos, e por causa deste prprio movimento,
reaparece o antigo calo e torna-se novo. O templo conserva o calo do sculo
XVII; Bictre, quando era priso, conservava o de Tunes. Ouvia-se ali a
terminao em anche, dos velhos tunantes. Boyauches tu? Bebes tu? croyanche, ele
cr. Mas o movimento perptuo no deixa de ser a lei.
     Se o filsofo consegue fitar um momento, para a observar, esta lngua que se
apavora sem cessar, cai em dolorosas mas teis meditaes. Nenhum estado 
mais eficaz e mais fecundo em documentos. No h uma metfora, ou uma
etimologia do calo que no contenha uma lio. Entre tais homens, bater quer
dizer fingir, finge-se uma doena; a astcia  a sua fora.
     Para eles a ideia do homem no se separa da ideia da sombra. A noite
chama-se a sorgue, o homem, o o orgue. O homem  um derivado da noite.
     Habituaram-se a considerar a sociedade como uma atmosfera que os mata,
como uma fora fatal, e falam da liberdade como falariam da sade. Um homem
preso  um doente; um homem condenado  um morto.
     O que h de mais terrvel para o prisioneiro dentro das quatro paredes de
pedra em que se acha enterrado  uma espcie de castidade glacial; por isso chama
castus ao crcere. Neste lugar fnebre,  sempre sob o seu aspecto mais risonho
que aparece a vida exterior; o preso tem ferros nos ps. Julgais talvez que ele pensa
em que  com ps que anda? No, pensa em que  com ps que dana; assim
consiga ele serrar os ferros, e a sua primeira ideia ser que j pode danar, e chama
 serra bastringue (dana de tasca). Um nome  um centro; profunda comparao.
O bandido tem duas cabeas, uma que raciocina as suas aces e o conduz
durante a vida, outra que tem nos ombros no dia da sua morte; chama  cabea
que o aconselha ao crime sorbonna, e  que o expia tronche. Quando um homem
j no tem seno farrapos sobre o corpo e vcios no corao, quando tem chegado
 dupla degradao material e moral que caracteriza nas suas acepes a palavra
geux (miservel ou tratante), est apto para o crime;  como uma faca bem afiada;
tem dois gumes, a penria e a maldade; assim o calo no diz o gueux diz um
rguis, (duplamente preparado). O que  a gal? Um braseiro de condenao
eterna.
     O forado chama-se fagot (feixe de lenha). Enfim, que nome do os
malfeitores  priso? O de colgio. Desta palavra pode sair completo um sistema
penitencirio.
     Querem saber onde nasceu a maior parte das cantigas de gal, os estribilhos
chamados no vocabulrio especial, lironfa? Escutem isto: Havia no Chtelet de
Paris um grande e comprido subterrneo. Este subterrneo ficava oito ps abaixo
do nvel do Sena. No tinha janelas nem frestas; a nica abertura era a porta; os
homens podiam ali entrar, o ar no. Este subterrneo tinha por tecto uma
abbada de cantaria e por pavimento dez polegadas de lama. Fora lajeado, mas o
contnuo resudar das guas desunira e deslocara completamente as lgeas. A oito
ps acima do solo uma comprida e slida trave atravessa o subterrneo de lado a
lado; desta trave pendem, a distncias regulares, cadeados com trs ps de
comprimento e na extremidade de cada cadeado uma golilha.
     Era neste subterrneo que encerravam os condenados s gals at ao dia em
que partiam para Toulon. Empurravam-nos para debaixo daquela viga onde cada
um era esperado pela sua ferragem oscilante nas trevas. As correntes, braos
pendidos e as golilhas, mos abertas, agarravam aqueles mseros pelo pescoo.
Prendiam-nos deste modo e deixavam-nos ali. A corrente era demasiado curta
para que pudessem deitar-se Permaneciam imveis naquele subterrneo, naquela
escurido, debaixo da viga, quase enforcados, obrigados a esforos inauditos para
chegarem ao po ou  bilha da gua, com os ps metidos na lama, os excrementos
correndo-lhes pelas pernas, esquartejados pela fadiga, dobrando-se pelos quadris e
pelos joelhos, pendurando-se pelas mos s correntes para assim repousarem, no
podendo dormir seno em p, e sendo acordados a cada instante pelo afogamento
da golilha; alguns no tornavam a acordar.
     Para comer traziam com o calcanhar pela perna acima, at lhe chegarem com
a mo, o po que lhes atiravam para a lama. Quanto tempo permaneciam assim?
Um, dois, algumas vezes seis meses; houve um que esteve um ano. Era a
antecmara das gals.
     Era-se metido ali por haver roubado uma lebre ao orei.
     Neste sepulcro, agonizavam; e o que pode fazer-se num inferno, cantavam.
     Porque, onde j no h esperana, resta o canto. Nas guas de Malta, quando
se aproximava uma gal, ouvia-se primeiro o canto dos treinadores do que a bulha
dos remos.
     O pobre caador furtivo Survincent que atravessara a priso subterrnea do
Chtelet, dizia: As rimas  que me amparam. Inutilidade da poesia. Para que
serve a ritma? Foi naquele subterrneo que nasceram todas as cantigas de calo. 
do crcere do Grand Chtelet de Paris que vem o melanclico estribilho da gal de
Montgomery: Timaloumisaine timoulamison.
     A maior parte destas canes  lgubre; algumas so alegres; h uma que 
terna:
     Icicaille est l thtre Da petit dardant. (Frecheiro. Cupido)
     Por mais que faam no ser nunca aniquilado o eterno resto do corao do
homem, o amor.
     No imundo das aces sombrias, todos guardam segredo. O segredo  a coisa
que pertence a todos. O segredo, para tais miserveis,  a unidade que serve de
base  unio. Divulgar o segredo  arrancar a cada membro desta comunidade
feroz alguma parte de si mesmo. Denunciar, na enrgica lngua de calo,
chamava-se: comer o bocado; como se o denunciante puxasse para si uma poro
da substncia de todos e se nutrisse com um bocado de carne de cada um.
     O que  levar uma bofetada?  ver trinta e seis velas (chandelles). Ento
intervm o calo e diz: Chandelle, camoufle. Partindo daqui d a linguagem usual
por sinnimo  bofetada, camoufle. Assim, por uma espcie de penetrao de
baixo para cima, com a ajuda da metfora, trajectria incalculvel, sobe o calo da
caverna  academia; e Poulailler dizendo: acendo a minha camoufle, faz com que
Voltaire escreva: Langleviel La Beaumelle merece cem camouflets.
     Uma escavao no calo  a descoberta a cada passo. Estudar e aprofundar
este estranho idioma, conduz ao misterioso ponto de interseco da sociedade
regular com a sociedade maldita.
     O ladro tem tambm a sua chair  cnon, a matria roubvel, vs, eu, quem
quer que passe; o pantre. (Pan, todo o mundo).
     O calo  o verbo tornado forado.
     Que o princpio pensador do homem possa ser recalcado to baixo, que possa
ser ali arrastado e amarrado pelas obscuras tiranias da fatalidade, que possa ser
preso a no sei que argolas naquele precipcio,  o que consterna.
      Oh, pobre pensar dos miserveis!
      Pois qu! No vir ningum socorrer a alma humana numa tal sombra? Ser
o seu destino esperar ali para sempre o esprito, o libertador, o imenso cavaleiro
dos pgasos e dos hipogrifos, o combatente cor da aurora, que desce do azul vago
entre duas asas, o radiante paladino do futuro? Chamar ela sempre debalde em
seu auxlio a lana de luz do ideal? Estar condenada a ouvir aproximar-se
espantosamente na espessura do pego o Mal, e a entrever, cada vez mais perto de
si, sob a gua hedionda, essa cabea draconiana, essa guela vomitando escuma, e a
ondulao de garras e de ascorosas corcovas? Ter de permanecer ali, sem um
claro, sem esperana, exposta a essa aproximao formidvel, vagamente farejada
pelo monstro, trmula, desgrenhada, estorcendo os braos, para sempre
agrilhoada ao rochedo da noite, sombria Andrmeda branca e nua no meio das
trevas!



    III
    Calo que chora e calo que ri



     Como se v, todo o calo, tanto o de h quatrocentos anos como o de hoje, 
penetrado pelo sombrio esprito simblico qu d a todas as palavras ora um
aspecto queixoso, ora um ar ameaador. Sente-se nele a velha tristeza feroz
daqueles vadios do Ptio dos Milagres, que jogavam com baralhos de cartas que
lhes eram privativos, e dos quais nos foram conservados alguns. O oito de paus,
por exemplo, representava uma grande rvore com oito enormes folhas de trevo,
espcie de personificao fantstica da floresta. Ao p desta rvore via-se uma
fogueira em que trs lebres assavam um caador no espeto, e pela parte de trs,
noutro lume, uma caldeira fumegante da qual saa a cabea do co. Nada mais
lgubre do que estas represlias, em pintura, num baralho de cartas, na presena
das fogueiras de tisnar os contrabandistas e da caldeira de cozer os moedeiros
falsos. As diversas formas que o pensamento assumia no reino do calo, mesmo a
cantiga, o motejo e a ameaa, apresentavam todas este carcter impotente e
acabrunhado. Todas as cantigas das quais foram conservadas algumas melodias,
eram to humildes e lamentosas que provocavam as lgrimas. O pgre chama-se
pobre pgre, e  sempre a lebre que se oculta, o rato que foge, o pssaro que voa.
Reclama apenas; limita-se a suspirar; um dos seus gemidos chegou at ns: Je
n'entrave que l dail comment meck, l daron ds orgues, peut atiger ses homes et
ss momignards et ls locher criblan sans tre atig lui-mme (No compreendemos
como Deus, o pai dos homens, pode atormentar os seus filhos e os seus netos e
ouvi-los, gemer, sem se sentir atormentado). O miservel, todas as vezes que tem
tempo de pensar, faz-se pequeno perante a lei e mesquinho perante a sociedade;
deita-se de bruos, suplica, volta-se para o lado da piedade; v-se que conhece o
seu erro.
     Pelos meados do sculo passado operou-se uma mudana. As cantigas de
prises, os estribilhos de ladres, assumiram, para assim dizer, um gesto insolente
e jovial. O queixoso malur, foi substitudo por larifla. Acha-se, no sculo XVIII,
em quase todas as canes das gals e das enxovias uma alegria diablica e
enigmtica. Ouve-se ali o estribilho estridente e saltitante, que se diria iluminado
por um claro fosfrico; e que parece lanado na floresta por um fogo ftuo
tocando pfaro:
     Mirlababi smlababo Mirlion sibonribete Surlababi mirlababo Mirliton
sebonribo
     Isto cantava-se degolando um homem num subterrneo ou no meio de um
bosque.
     Sintoma srio. No sculo XVIII dissipa-se a antiga melancolia destas classes
tristes. Riem-se. Escarnecem o grande meg e o grande dab. A Lus XV, rei de
Frana, chamavam marqus de Pantin. Ei-los quase alegres. Destes miserveis
destaca-se uma espcie de luz ligeira como se a conscincia j lhes no pesasse.
Estas lamentveis tribos da sombra, no tm j somente a audcia desesperada das
aces, tm a audcia desleixada do esprito. Indcio este de que perdem o
sentimento da sua criminalidade e que pressentem at no seio dos pensadores e
dos sonhadores, no sei que apoios que se desconhecem a si mesmos. Indcio de
que o roubo e a pilhagem comeam a infiltrar-se at s doutrinas e sofismas, de
modo que perdem um tanto da sua fealdade e tornam feissimos doutrinas e
sofismas. Indcio, enfim, se no surge uma diverso, de algum parto prodigioso e
prximo.
     Detenhamo-nos por um momento. Quem acusamos ns aqui?  o sculo
XVIII?  a sua filosofia? No, decerto. A obra do sculo XVIII  s e boa. Os
enciclopedistas, tendo  sua frente Diderot; os fisiocratas, Turgot; os filsofos,
Voltaire; os utopistas, Rousseau, so quatro legies sagradas. O imenso passo da
humanidade para a luz, -lhes devido So estas as quatro vanguardas do gnero
humano marchando para os quatro pontos cardeais do progresso. Diderot para o
belo, Turgot para o til, Voltaire para o verdadeiro, Rousseau para o justo. Mas ao
lado e abaixo dos filsofos havia os sofistas, vegetao venenosa misturada com o
crescimento salubre, cicuta na floresta virgem. Enquanto o carrasco queimava na
escada principal do palcio da justia os grandes livros libertadores do sculo,
alguns escritores, esquecidos hoje, publicavam, com privilgio do rei, no sei que
escritos estranhamente desorganizadores, avidamente lidos pelos miserveis.
Algumas destas publicaes, extravagante pormenor, patrocinadas por um
prncipe, acham-se na Biblioteca secreta Estes factos, profundos mais ignorados,
no eram percebidos na superfcie. Por vezes  a prpria obscuridade de um facto
que constitui o seu perigo  obscuro porque  subterrneo De todos os escritores,
quem talvez aprofundou nas turbas a galeria mais insalubre foi Restif de la
Bretonhe.
     Este trabalho natural de toda a Europa, fez maior devastao na Alemanha do
que em qualquer outra parte. Na Alemanha, durante um certo perodo, resumido
por Schiller, no seu famoso drama Os bandidos, o roubo e a pilhagem erigiam-se
em protesto contra a propriedade e o trabalho, imitavam certas ideias
elementares, capciosas e falsas, justas na aparncia, absurdas na realidade;
envolvidas nestas ideias, desapareciam de certo modo nelas, tomavam um nome
abstracto e passavam ao estado de teoria; e deste modo circulavam nas multides
laboriosas, sofredoras e honestas, s escondidas mesmo das massas que aceitavam.
Um facto destes  sempre grave. O sofrimento gera a clera; e enquanto as classes
prsperas se cegam ou adormecem, o que  sempre fechar os olhos, o dio das
classes infelizes acende o seu facho nalgum esprito enfadado ou mal constitudo,
que sonha a um canto e comea a examinar a sociedade.  terrvel coisa o exame
passado pelo dio!
     Da vem o infortnio dos tempos, essas pavorosas comoes que se
chamavam outrora jacqueries, ao p das quais as agitaes puramente polticas so
brinquedos de criana, e que no so j a luta do oprimido contra o opressor, mas
da privao contra o bem-estar. Ento tudo desaba.
     As jacqueries so os terramotos do povo.
      a este perigo, iminente talvez na Europa pelos fins do sculo XVIII, que
vem cortar o passo  revoluo francesa, esse imenso acto de probidade.
     A revoluo francesa, que no  seno o ideal armado com o gldio,
ergueu-se, e, com o mesmo movimento inesperado, fechou a porta do mal e abriu
a porta do bem Desembaraou a questo, promulgou a verdade, expulsou o
miasma, tornou saudvel o sculo, coroou o povo.
     Pode dizer-se que criou o homem segunda vez, dando-lhe segunda alma o
direito.
     O sculo XIX herda e aproveita-se da sua obra, e hoje a catstrofe social que
h pouco indicmos,  de todo impossvel. Quem a denuncia  cego! Quem a teme
 nscio! A revoluo  a vacina da jacquerie.
     Graas  revoluo, esto mudadas as condies sociais.As doenas feudais e
monrquicas j no esto no nosso sangue. Na nossa constituio j no h
Idade-Mdia. J no estamos nos tempos em que as medonhas agitaes internas
irrompiam, em que se sentia debaixo dos ps a corrida obscura de um rudo
surdo, em que aparecia  superfcie da civilizao no sei que levantamento de
galerias de toupeiras, em que o Sol se fendia, em que a parte superior das cavernas
se abria e em que de repente se viam sair da terra cabeas monstruosas.
     O senso revolucionrio  um senso moral. O sentimento do direito,
desenvolvido, desenvolve o sentimento do dever. A lei de todos  a liberdade que
termina onde comea a liberdade de outro, segundo a admirvel definio de
Robespierre. Desde 89 todo o povo se dilata no indivduo sublimado; no h nele
pobre que, sentido o seu direito, no tenha a sua poro de luz; o faminto sente
em si a honestidade da Frana; a dignidade do cidado  uma armadura interior;
quem  livre  escrupuloso; quem vota reina. Daqui a incorruptibilidade; daqui o
aborto das cobias insalubres, daqui os olhos heroicamente baixos na presena das
tentaes. A salubridade revolucionria  tal, que num dia libertador, num H de
Julho, num 10 de Agosto, j no h populaa. O primeiro grito das multides
iluminadas e que se engrandecem : morram os ladres!
     O progresso  honrado. Por quem foram escoltados em 1848 os caixes que
continham as riquezas das Tulherias? Pelos trapeiros do arrabalde de Santo
Antnio. O andrajo estava de guarda ao tesouro. A virtude tornou brilhantes
aqueles esfarrapados. Havia ali, naqueles carros, naquelas caixas mal fechadas,
algumas entreabertas, entre aqueles cem estojos deslumbrantes, a velha coroa da
Franca, do Regente, toda de diamantes, sobrepujada pelo carbnculo da realeza,
que valia trinta milhes. E os ps descalos guardavam esta coroa.
     Assim, pois, j no havia jacquerie. Sinto-me contristado pelo desgosto dos
hbeis. Era o velho medo que produzia o seu ltimo efeito e que no poder tornai
a ser empregado na poltica. A mola real do espectro est partida. Agora toda a
gente a conhece. O espantalho j no espanta. Os que passam tomam
familiaridades com o manequim, os estercorrios pousam nele, os burgueses
riem-se-lhe em cima.



    IV
    Os dois deveres: velar e esperar



     Sendo assim, est dissipado todo o perigo social? No, decerto. Nada de
jacquerie.
     A sociedade pode sossegar por este lado; o sangue no tornar a subir-lhe 
cabea; mas deve dar-lhe ateno ao modo porque respira. A apoplexia j no 
para temer, mas a tsica existe. A tsica social chama-se misria.
     Morre-se minado do mesmo modo que fulminado.
     No deixemos de o repetir: cuidar antes de tudo das multides deserdadas e
dolorosas, alivi-las, arej-las, esclarec-las, am-las, alargar-lhes magnificamente
os horizontes, prodigalizar-lhes a educao sob todas as formas, oferecer-lhes o
exemplo do trabalho nunca o exemplo da ociosidade, diminuir o peso do fardo
individual, aumentando a noo do fim universal, limitar a pobreza sem limitar a
riqueza, criar vastos campos de actividade pblica e popular, ter como Briarea
cem braos para estender para todos os lados aos aflitos e aos fracos, empregar o
poder colectivo no grande dever de abrir oficinas para todos os braos, escolas
para todas as aptides e laboratrios para todas as inteligncias, aumentar o
salrio, diminuir a fadiga, balancear o deve e haver, isto , proporcionar o gozo ao
esforo e a saciedade  necessidade, numa palavra, desembaraar o aparelho social
em proveito dos que sofrem e dos que ignoram; maior claridade e maior
comodidade, no o esqueam as almas simpticas,  o que constitui a primeira das
obrigaes fraternais; , saibam-no os coraes egostas, a primeira das
necessidades polticas.
     E, digamo-lo, isto tudo no  mais que um comeo. A verdadeira questo: o
trabalho no pode ser uma lei sem ser um direito.
     No insistimos mais, no  este o lugar prprio.
     Se a natureza se chama providncia, a sociedade deve chamar-se previdncia.
     O desenvolvimento intelectual e moral no  menos indispensvel do que o
melhoramento material. Saber  um vitico, pensar  de primeira necessidade; a
verdade  tanto alimento como o po. Uma razo, em jejum de cincia e de saber
emagrece. Lastimemos, do mesmo modo que os estmagos, os espritos que no
comem. Se h alguma coisa mais pungente do que um corpo agonizante por falta
de po,  uma alma morrendo  fome de luz.
     O progresso pende todo para o lado da soluo. Um dia ficar-se-
estupefacto.
     Elevando-se o gnero humano, as camadas profundas sairo naturalmente da
zona de aflio. O desaparecimento da misria operar-se- por uma simples
elevao de nvel.
     Ser um erro duvidar desta soluo abenoada.
     O passado, com efeito,  demasiadamente forte na hora em que estamos.
     Restabelece-se. Esta rejuvenescncia de um cadver  surpreendente. Ei-lo
que marcha e que avana. Parece vencedor;  um defunto, mas conquistador. Vem
com a sua legio, as supersties, a sua espada, o despotismo: com a sua bandeira,
a ignorncia, tem ganho dez batalhas. Avana, ameaa, ri-se, est s nossas portas.
Quanto a ns no desesperamos. Vendamos o campo em que acampa Anbal.
     Ns que cremos o que podemos temer?
     As ideias no so mais susceptveis de recuar do que os rios.
     Mas pensem bem os que no querem nada do futuro. Dizendo no ao
progresso, no  o futuro o que eles condenam, mas a si mesmos. Adquirem por
suas mos uma doena sombria; inoculam-se o passado. No h seno um modo
de recusar o Amanh,  morrer.
     Ora, quanto a mortes, a do corpo o mais tarde possvel, a da alma, nunca; 
isto o que ns queremos.
     Sim, o enigma ser decifrado, a esfinge falar, o problema ser resolvido. Sim,
o povo esboado pelo sculo XIX. Quem o duvidar  idiota! O parto do futuro, o
prximo nascimento do bem-estar universal,  um fenmeno divinamente fatal.
     Os factos humanos so regidos por imenso avanar do todo, que os
conduzem, sem excepo de um s, num tempo dado, ao estado lgico, isto , ao
equilbrio,  equidade. Da humanidade resulta uma fora composta de terra e de
cu, que a governa; esta fora  uma produtora de milagres; os desfechos
maravilhosos no so mais difceis do que as peripcias extraordinrias. Ajudada
com a cincia que vem do homem e com o acontecimento que vem de um outro,
espantasse pouco das contra-
     dies na disposio dos problemas que ao vulgo parecem impossibilidades.
Esta fora no  menos hbil em fazer brotar uma soluo da aproximao das
ideias, do que da aproximao dos factos, e tudo pode esperar-se da parte desta
misteriosa potncia do progresso, que um dia confronta o Oriente com o
Ocidente no fundo de um sepulcro e faz dialogar os ims com Bonaparte no
interior da grande pirmide.
      Entretanto, nada de descanso, nada de hesitao, nada de tempo de espera na
grandiosa marcha dos espritos para a frente.
      A filosofia social  essencialmente a cincia da paz. Tem por fim e deve ter
como resultado, a dissoluo das cleras pelo estudo dos antagonismos.
      Examina, investiga e analisa; depois recompe.
      Dirige-se pelo caminho da reduo, suprimindo de tudo o dio.
      Tem-se visto mais de uma vez uma sociedade despenhada no abismo pelo
vento desencadeado sobre os homens; a histria est cheia de naufrgios de povos
e de imprios; num dia passa o tufo, o desconhecido, e leva consigo costumes,
leis e religio;  tudo arrebatado. As civilizaes da ndia, da Chaldea, da Prsia, da
Assria e do Egipto, desapareceram todas umas aps outras. Porqu? Ignoramo-lo.
Quais so as causas destes desastres? No o sabemos. Aquelas sociedades
poderiam ter sido salvas?
      Foi delas a culpa? Obstinaram-se nalgum vicio fatal que as perdeu? Que
poro de suicdio houve naquelas mortes terrveis de uma nao e de uma raa?
Perguntas sem resposta. A sombra cobre as civilizaes condenadas.
Submergiram-se, porque faziam gua;  o mais que podemos dizer, e  com uma
espcie de assombro que vemos, no fundo do mar que se chama passado, por trs
dos sculos vagas colossais, soobrar os imensos navios, Babilnia, Ninive, Tarsia,
Thebas e Roma, sob o medonho sopro que sai de todas as bocas das trevas. Mas
trevas ali, claridade aqui. Ignoramos as doenas das civilizaes antigas,
conhecemos as enfermidades da nossa. Temos por sobre toda ela o direito de luz;
contemplamos as suas belezas e pomos em perfeita nudez as suas deformidades.
Onde ela tem o mal, sondamos; e uma vez reconhecido o sofrimento, o estudo da
causa conduz  descoberta do remdio.
      A nossa civilizao, obra de vinte sculos,  ao mesmo tempo o monstro e seu
prodgio deles; vale a pena de ser salva. S-lo-. Confort-la  j muito;
esclarec-la,  ainda alguma coisa. Os trabalhos da filosofia moderna devem todos
convergir para este fim. O pensador hoje tem um grande dever auscultar a
civilizao.
      Repetimo-lo: esta auscultao anima; e  pela insistncia na animao que
queremos terminar estas poucas pginas, entreacto austero de um drama
doloroso. Sob a mortalidade social sente-se a imortalidade humana. O globo, por
ter num e noutro ponto as suas chagas, as crateras e as suas impigens, os
sulfatados, por efeito de um vulco que rebenta e lana a sua lava, no morre.
Doenas de povo no matam o homem.
     E no obstante, quem segue a clnica social encolhe por instantes os ombros.
Os mais fortes, os mais compassivos, os mais lgicos, tm as suas horas de
desnimo.
     O futuro chegar? Parece que se pode quase fazer esta pergunta, quando se
vem tantas sombras terrveis. Sombras face a face dos egostas e dos miserveis.
Nos egostas, os preconceitos, as trevas da educao rica, o apetite crescendo pelo
enebriamento, uma atordoao de prosperidade que ensurdece, o receio de sofrer
que, em alguns chega at  averso pelos que sofrem, um contentamento
implacvel, o eu to inchado que fecha a alma; nos miserveis, a cobia, a inveja, a
raiva de ver os outros gozar, os profundos abalos da besta humana para as
saciedades, os coraes cheios de nevoeiro, a tristeza, a fatalidade, a ignorncia
impura e simples.
     Deve continuar-se a erguer os olhos para o cu?
     O ponto luminoso que ali se distingue  acaso dos que se apagam? O ideal 
medonho, visto assim, perdido nas profundidades, pequeno, isolado,
imperceptvel, brilhante, mas rodeado de todas as grandes ameaas negras,
monstruosamente amontoadas em torno dele; todavia no est em maior perigo
do que uma estrela nas goelas das nuvens.
    LIVRO OITAVO
    Encantos e amarguras



    I
    Luz plena



     O leitor compreendeu, decerto, que Eponina, tendo reconhecido atravs da
grade a habitao da casa da rua Plumet, aonde a Magnon a mandara, comeara
por afastar dela os bandidos, depois conduzira ali Mrio, e que este ao cabo de
muitos dias de xtase diante daquela grade, arrastado pela fora que impele o ferro
para o im e o apaixonado para as pedras de que  feita a casa de sua amada,
acabara por entrar no jardim de Cosette como Romeu no de Julieta. Isto mesmo
fora-lhe mais fcil do que Romeu; Romeu era obrigado a escalar um muro e Mrio
s teve de entortar um dos vares da decrpita grade, que vacilava em seu alvolo
enferrujado ao modo dos dentes da gente velha.
     Mrio era delgado, portanto passou facilmente pela estreita abertura. Como
nunca passava ningum pela rua e, como alm disso, Mrio nunca entrava no
jardim seno de noite, no corria o risco de ser visto.
     A partir do momento abenoado e santo em que um beijo desposara aquelas
duas almas, Mrio voltou ali todas as noites. Se Cosette, num tal momento da sua
vida, tivesse cado no amor de um homem pouco escrupuloso e libertino, estava
perdida; por que existem naturezas generosas que se entregam, e Cosette era uma
delas. Uma das magnanimidades da mulher consiste em ceder. O amor, na altura
em que  absoluto, participa de no sei que celeste cegueira do pudor. Mas que
perigos correis, oh, nobres almas! Muitas vezes dais-nos o corao e ns
tomamo-vos o corpo! Ficais com o corao, e, estremecendo, olhais para ele na
sombra. O amor no tem meio termo: ou perde ou salva. O destino humano est
todo neste dilema.
     No h fatalidade que estabelea mais inexoravelmente o problema da
perdio ou salvao como o amor. O amor  a vida, se no  a morte. Bero, mas
tambm cova.
     O mesmo sentimento diz sim e no no corao humano. De todas as coisas
feitas por Deus,  o corao humano a que destaca maior poro de luz e maior
escurido!
     Quis Deus que o amor que Cosette encontrou fosse um dos amores que
salvam.
     Enquanto durou o ms de Maio daquele ano de 1832, encontraram-se todas
as noites no pobre jardim selvtico, sob aquela moita cada vez mais odorfera e
mais espessa, dois entes compostos de todas as castidades e de todas as inocncias,
trasbordando todas as felicidades, mais vizinhos dos arcanjos que dos homens,
puros, honestos, enebriados, brilhantes, que resplandeciam um para o outro nas
trevas.
     Cosette julgava ver uma aurola em Mrio, e Mrio julgava ver um
resplendor em Cosette. Tocavam-se, contemplavam-se, apertavam-se
reciprocamente as mos, estreitavam-se um contra o outro; mas havia entre eles
uma distncia que nunca transpunham. No porque a respeitassem;
ignoravam-na. Mrio sentia uma barreira, a pureza de Cosette; esta sentia um
apoio, a lealdade de Mrio. O primeiro beijo fora tambm o ltimo. Depois, no
fora Mrio alm de tocar com os lbios a mo, ou o lencinho do pescoo, ou um
anel dos cabelos de Cosette.
     Cosette era para ele um perfume e no uma mulher.
     Respirava-a. Ela no recusava nada, ele nada pedia.
     Cosette era feliz e Mrio sentia-se satisfeito. Viviam no arrebatador estado a
que poderia chamar-se deslumbramento de uma alma por outra alma. Era o
inefvel e primeiro abrasamento de duas virgindades no ideal. Dois entes
encontrando-se na Jungfrau. Naquela hora em que a voluptuosidade se cala
absolutamente sob a omnipotncia do xtase, Mrio, o puro e serfico Mrio, seria
mais capaz de entrar em casa de uma mulher pblica do que de erguer o vestido
de Cosette at  altura do tornozelo.
     Uma vez ao luar, Cosette curvou-se para apanhar um objecto que lhe cara;
com este movimento abrira-se-lhe um pouco o peito do vestido e deixou ver o
comeo do seio; Mrio afastou os olhos.
     Que se passava entre aqueles dois entes? Nada. Adoravam-se.
      noite, quando estavam juntos, parecia-lhes aquele jardim um lugar vivo e
sagrado. Todas as flores se abriam em torno deles e lhes enviavam incensos; eles
abriam as almas e espalhavam-nas pelas flores. A vegetao lasciva e vigorosa
estremecia cheia de seiva e de transporte em torno daqueles inocentes, e eles
diziam palavras de amor que faziam estremecer as rvores.
     Que palavras eram estas? Eram sopros. Nada mais. Bastavam estes sopros
para perturbar e abalar aquela natureza. Mgico poder que dificilmente se
compreenderia, se acaso se lessem num livro aquelas conversaes prprias para
serem arrebatadas e dissipadas como fumo pelo vento sobre a folhagem. Tirai aos
murmrios de dois amantes a melodia que sai da alma e que os acompanha como
uma lira, o que resta no  mais do que uma sombra; dizeis ento: O qu! Pois 
apenas isto! Decerto; so criancices, repeties, risos por nada, inutilidades,
Frioleiras, quanto h no mundo de mais sublime e de mais profundo! As nicas
coisas que valem a pena serem ditas e escutadas!
     O homem que no ouviu nunca estas bagatelas, estas pobrezas, o homem que
nunca as pronunciou,  um imbecil e um mau homem.
     Cosette dizia a Mrio:
     - Queres saber?... (Em tudo isto, e atravs de to celeste virgindade, sem que
fosse possvel mais a um do que a outro dizer como, tratavam-se por tu).
     - Queres saber? Chamo-me Eufrasia.
     - Eufrasia? No  tal, chamas-te Cosette.
     - Ora! Cosette  um nome muito feio que me deram quando eu era
pequenina, mas o meu verdadeiro nome  Eufrasia. No gostas do nome de
Eufrasia?
     - Gosto... Mas Cosette no  um nome feio.
     - Gostas mais dele do que de Eufrasia?
     Eu... gosto, sim.
     - Ento tambm eu gosto mais.  bem bonito Cosette. Chama-me Cosette.
     E o sorriso com que acompanhava as suas palavras, fazia deste dilogo um
idlio dum bosque que fosse situado no cu.
     Noutra ocasio, ela fitou-o e exclamou:
     - O senhor  interessante, bonito, tem muita inteligncia,  muito mais
instrudo do que eu, mas desafio-o com esta palavra: Amo-te!
     E Mrio, em pleno firmamento, julgava ouvir uma estrofe recitada por uma
estrela.
     Outras vezes era ela que lhe batia com o dedo na face para ele no tossir e lhe
dizia:
     - O senhor faz favor de estar calado? Em minha casa no  permitido tossir
sem minha licena. No  bonito tossir, para dar cuidados  gente! Quero que
tenhas sade, porque, se no a tens, que ser de mim? Que queres tu que eu faa?
     Isto era tudo simplesmente divino.
     Uma vez, Mrio disse a Cosette:
     - Durante certo tempo acreditei que te chamavas rsula.
     Foi isto uma coisa que a fez rir durante todo o tempo que naquela noite
estiveram juntos.
     No meio de outra destas tagarelices, sucedeu-lhe exclamar:
     - Um dia no Luxemburgo tive vontade de acabar de destruir um invlido!
     Mas calou-se de repente e no se adiantou mais. Teria de falar na liga de
Cosette e isso ser-lhe-ia impossvel. Havia nisto uma aproximao desconhecida, a
carne, diante da qual recuava com uma espcie de susto sagrado aquele imenso
amor inocente.
     Mrio no fazia outra ideia da vida com Cosette seno aquela; ir todas as
noites  rua Plumet, afastar o velho e condescendente varo da grade do
presidente, sentar-se ao lado dela naquele banco, ver atravs do arvoredo a
cintilao da noite em seu comeo, fazer coabitar a prega do joelho da sua cala,
com a roda do vestido de Cosette, acariciar-lhe a unha do dedo polegar, trat-la
por tu e respirar um depois do outro a mesma flor, sempre, indefinidamente.
Durante este tempo passavam-lhe nuvens por sobre a cabea. De cada vez que o
vento sopra leva mais sonhos do homem do que de nuvens do cu.
     E no se diga que este amor quase severo fosse absolutamente destitudo de
galantaria, No. Dirigir cumprimentos quela que se ama,  a primeira maneira de
fazer carcias,  uma semi-audcia ensaiando-se. O cumprimento  uma espcie de
beijo atravs do cu. A voluptuosidade sente-se nele no obstante ocultar-se. O
corao em presena da voluptuosidade recua, para amar melhor. As carcias de
Mrio, todas saturadas de quimeras, eram para assim dizer, da cor do cu.
     Os passarinhos que voando nas alturas passam pelo lado dos anjos devem
ouvir daquelas palavras. No obstante, aliava-se a elas a vida, a humanidade, toda
a quantidade de positivo de que Mrio era capaz. Era o que se dizia na gruta,
preldio do que se dir na alcova; uma expanso lrica, a estrofe e o soneto
confundidos, as graciosas hiprboles do arrulho, todos os requintes da adorao
compondo um ramalhete e exalando subtil perfume, um inefvel chilrear de
corao para corao.
     - Como s linda! - murmurou Mrio. - No me atrevo a olhar para ti.  por
isso que te contemplo. s uma graa. No sei o que tenho. Quando a ponta do teu
p se mostra fora da roda do vestido, transformo-me. E depois, que brilho
encantado quando o teu pensamento se entreabre! Raciocinas pasmosamente. H
momentos em que me parece que s um sonho. Fala, quero escutar-te, quero
admirar-te!  Cosette, como isto  estranho e encantador! Estou de todo louco! s
adorvel! Olha, estudo-te os ps com o microscpio e a alma com o telescpio.
     E Cosette respondia:
     - Amo-te tanto mais quanto  o tempo que decorreu desde esta manh.
     Tanto perguntas como respostas acomodavam-se como podia neste dilogo,
caindo sempre de acordo, sobre o amor, como os bonecos de sabugo sobre o
chumbo que lhes serve de base.
     Cosette era toda ingenuidade, simplicidade, transparncia, alvura, candura,
luz.
     Poder-se-ia dizer de Cosette que era clara. Produzia em quem a via a sensao
que produz o ms de Abril, e o despontar da aurora. Em seus olhos havia orvalho.
Cosette era uma condensao de luz matutina em forma de mulher.
     Era uma coisa simples que Mrio adorando-a a admirasse. Mas a verdade era
que aquela criana, recentemente sada do convento, se expressava com delicada
penetrao, e dizia por momentos toda a espcie de palavras verdadeiras e justas.
A sua loquacidade era conversao. No se iludia sobre coisa alguma, via tudo
com justeza. A mulher sente e fala com o terno instinto do corao, que  uma
infalibilidade. Ningum como uma mulher, sabe dizer coisas ao mesmo tempo
suaves e profundas. Doura e profundidade; eis a mulher, eis o cu.
     Em to plena felicidade, chegavam-lhes de vez em quando as lgrimas aos
olhos.
     Um animalzinho de Deus esmagado, uma pena cada dum ninho, um ramo
de pilriteiro quebrado, apiedava-os; e o seu xtase, docemente afogado em
melancolia, parecia no ter nada de melhor a desejar do que chorar. O mais
soberano sintoma do amor  um enternecimento s vezes quase insuportvel.
     E, a par disto todas estas contradies so no cruzar de relmpagos do amor
riam-se com a maior facilidade, com uma liberdade arrebatadora e to
familiarmente, que por vezes tinham o ar de dois rapazes.
     Contudo, mesmo a ocultas dos coraes brios de castidade, est sempre
presente a natureza, que nunca se esquece. Acha-se presente com o seu fim brutal
e sublime; e qualquer que seja a inocncia das almas, sente-se, ainda na mais
pudica entrevista, o ambiente que separa um par de amantes de um par de amigos.
     Idolatravam-se.
     O permanente e o imutvel subsistem. Ama-se, sorriem-se os lbios,
entrelaam-se os dedos das mos, troca-se o tratamento de tu, e nada disto
embaraa a eternidade.
     Ocultam-se dois amantes no crepsculo, no invisvel, como os passarinhos,
como as rosas; fascinam-se reciprocamente na sombra, com o corao nos olhos,
murmuram, segredam, e durante este tempo  o infinito preenchido com imensas
oscilaes de astros.



    II
    Atordoamento da felicidade completa



     Viviam vagamente assombrados de ventura. No davam pelo clera que
dizimava Paris precisamente naquele ms. Tinham feito reciprocamente o maior
nmero de confidncias que lhes fora possvel, mas todas juntas no tinham ido
alm dos seus nomes.
     Mrio dissera a Cosette que era rfo, que se chamava Mrio Pontmercy, que
era advogado, que seu pai fora coronel, que tinha sido um heri, e que ele, Mrio,
estava mal com seu av, que era rico. Chegara tambm a dizer-lhe que era baro;
mas isso no fizera o mnimo efeito em Cosette.
     - Mrio, baro? No tinha percebido. No sabia o que aquela palavra queria
dizer. Mrio era Mrio.
     Ela pela sua parte dissera-lhe que fora educada no convento do Petit-Picpus,
que sua me morrera como a dele, que seu pai se chamava Fauchelevent, que era
muito bondoso, que dava muito aos pobres, mas que tambm era pobre, e que se
privava de tudo, no a privando a ela de nada.
     Extravagante coisa: na espcie de sinfonia em que Mrio vivia desde que
falava a Cosette, o passado, mesmo o mais recente, tornara-se para ele de tal modo
confuso e longnquo, que se sentiu completamente satisfeito com o que lhe contou
Cosette. Nem mesmo se lembrou de lhe falar da aventura nocturna do casebre dos
Thenardier, da queimadura, da estranha atitude e singular fuga de seu pai.
     Mrio esquecera-se momentaneamente de tudo isto; nem mesmo sabia 
noite o que fizera de manh, nem onde almoara, nem quem lhe falara, tinha
cnticos nos ouvidos, que o tornavam, surdo a qualquer outro pensamento; s
existia quando estava ao p de Cosette. Ento, como estava no cu, era coisa
simples que se esquecesse da terra. Suportavam ambos languidamente o peso
indefinvel das voluptuosidades imateriais.  assim que vivem os sonmbulos que
se chamam namorados.
     Ah! Quem no tem experimentado estas coisas? Porque h-de haver uma
hora em que se sai deste azul, e porque se h-de continuar a viver?
     O amor substitui quase o pensar. O amor  um ardente esquecimento do
resto.
     Exigi, pois, lgica  paixo. H tanto encadeamento lgico absoluto no
corao humano, como figura de geometria perfeita na mecnica celeste.
     Para Cosette e Mrio nada mais existia do que Mrio e Cosette.
     O universo em torno deles cara numa cova. Viviam num minuto de oiro.
Para eles no havia nada antes nem depois. Mrio mal se lembrava de que Cosette
tinha um pai. No seu crebro fora tudo apagado pelo deslumbramento.
     De que falavam aqueles amantes? J o vimos: das flores, das andorinhas, ido
ocaso do Sol, do nascer da Lua, de todas as coisas importantes. Tinham-se dito
tudo, excepto tudo O tudo dos namorados  nada. Mas o pai, as realidades, a
pocilga, os ladres, aquela aventura, para que pensar em semelhantes coisas?
Havia certeza de que tivesse existido aquele pesadelo? Sendo dois, adoravam-se;
era o que havia.
     Qualquer outra coisa no existia.  provvel que este desaparecimento no
inferno por detrs de ns seja inerente  aproximao do paraso.
     Viram-se acaso os demnios? Existem eles porventura?
     Tremeu-se? Sofreu-se? J se no sabe nada. Acima de tudo est uma nuvem
de rosas.
     Assim viviam, pois, aqueles dois entes, com toda a inverosimilhana que
reside na natureza: nem no nadir nem no znite, entre o homem e o serafim,
acima do lodo, abaixo do ter, na nuvem; o menos possvel carne e osso; alma e
xtase desde os ps at  cabea; j demasiadamente sublimados para caminharem
na terra, ainda muito carregados de humanidade para desaparecerem no azul, em
suspenso, como os tomos que esperam o precipitado; aparentemente fora do
destino; desconhecendo o carril chamado ontem, hoje e amanh; maravilhados,
embasbacados, flutuantes; por momentos assaz leves para a fuga no infinito, quase
prestes para o voo eterno.
     Dormiam acordados neste acalentar.  esplndida letargia da realidade
opressa pelo ideal Algumas vezes, conquanto Cosette fosse muito linda, fechava
Mrio os olhos diante dela. Fechar os olhos  o melhor meio de olhar para a alma.
     Mrio e Cosette no perguntavam um ao outro aonde tudo aquilo os
conduziria.
     Olhavam-se como tendo j chegado.  uma estranha pretenso dos homens
quererem que o amor conduza a alguma parte.
    III
    Princpio de sombra



     Joo Valjean no suspeitava de coisa nenhuma.
     Cosette, um tanto menos melanclica do que Mrio, mostrava-se alegre, o
que era bastante para Joo Valjean estar satisfeito. Os pensamentos que se
agitavam no crebro de Cosette, as suas ternas preocupaes, a imagem de Mrio
que lhe preenchia a alma, no diminuam nunca a incomparvel pureza da sua
bela fronte casta e risonha.
     Estava na idade em que a virgem conduz o seu amor como o anjo a aucena.
Joo Valjean estava, pois, tranquilo. E depois, quando os dois amantes se
entendem, correm as coisas maravilhosamente, e a terceira pessoa, qualquer que
seja, que possa perturbar o seu amor,  mantida em perfeita cegueira por um
pequeno nmero de precaues, sempre as mesmas em todos os namorados.
Assim, nunca Cosette fazia objeces a Joo Valjean. Queria passear? Sim, meu
querido pai. Queria ficar em casa? Magnificamente. Queria passar o sero junto
dela? Mostrava-se encantada. Como Joo Valjean se recolhia para o seu quarto s
dez horas, nessas noites no ia Mrio ao jardim seno passada aquela hora,
quando, da rua, ouvia Cosette abrir a porta da varanda.  escusado dizer que
durante o dia nunca Mrio era encontrado. Joo Valjean nem mesmo pensava que
Mrio existia. S uma manh  que sucedeu ele dizer a Cosette:
     - Como tens as costas sujas de cal!
     Mrio, na vspera,  noite, e no meio de um transporte, fizera com que
Cosette se roasse pelo muro.
     A velha Toussaint, que se deitava muito cedo e que s tratava de dormir
depois de feita a sua obrigao, ignorava tudo do mesmo modo que Joo Valjean.
     Mrio nunca punha os ps dentro de casa. Quando estava com Cosette
ocultavam-se ambos num recanto junto da varanda, a fim de no os poderem ver
nem ouvir na rua, e sentavam-se ali, limitando-se muitas vezes, por nica
conversao, a apertarem-se as mos vinte vezes por minuto, olhando para o
arvoredo. Em tais ocasies poderia ribombar um trovo a trinta passos deles, que
o no teriam ouvido, tanto a meditao de um se absorvia e mergulhava na
meditao do outro.
     Purezas lmpidas. Horas todas alvas; quase todas semelhantes. Este gnero de
amores  uma coleco de folhas de lrio e de penas de pomba.
     Entre eles e a rua mediava o jardim.
     Mrio, de cada vez que entrava ou saa, punha cuidadosamente no seu lugar o
varo da grade, de modo que ali no se pudesse notar a mnima alterao.
     Retirava-se habitualmente  meia-noite e voltava para casa de Courfeyrac.
Este dizia a Bahorel:
     - Que te parece? Mrio j no vai para casa seno  uma hora da noite.
     Bahorel respondia:
     - Ento, que queres? Um seminarista contm sempre uma bomba.
     Courfeyrac cruzava de vez em quando os braos, assumia um ar srio, e dizia
a Mrio:
     - Mancebo! O senhor vai-se tornando libertino Courfeyrac, homem prtico,
no tomava  boa parte o reflexo de um paraso invisvel sobre Mrio; estava
pouco habituado s paixes inditas, impacientava-se e instava por vezes com
Mrio para que entrasse no positivo.
     Numa manh disparou-lhe esta admoestao:
     - Meu amigo, est-me parecendo que te vejo situado na Lua, reino do sonho,
provncia da iluso, capital Bola de Sabo. Vamos, mostra-te bom rapaz: como se
chama ela? Mas no havia nada que fizesse falar Mrio. Mais facilmente lhe
arran-cariam as unhas do que uma das trs slabas sagradas de que se compunha o
nome inefvel de Cosette. O amor verdadeiro  luminoso como a aurora e
silencioso como o tmulo. Para Courfeyrac no havia seno uma mudana em
Mrio: a sua taciturnidade resplandecente.
     Durante aquele doce ms de Maio, conheceram Mrio e Cosette estas imensas
venturas.
     Arrufaram-se e trataram-se por senhor, para melhor se tratarem por tu logo
em seguida.
     Falaram por muito tempo e com os mais minuciosos pormenores, de pessoas
que de modo nenhum os interessavam: mais uma prova de que na encantadora
pera a que se chama amor, o libreto pouca importncia tem.
     Para Mrio, ouvir Cosette falar de modas:
     Para Cosette, ouvir Mrio falar de poltica:
     Ouvirem, joelho com joelho, rodar as carruagens pela rua de Babilnia:
Contemplarem o mesmo planeta no espao, ou o mesmo insecto luzente na relva:
Estarem ambos calados: maior doura do que falando:
     Etc., etc.
     Entretanto aproximavam-se diversas complicaes.
     Uma noite encaminhava-se Mrio para a entrevista pelo boulevard dos
Invlidos; ordinariamente caminhava com os olhos baixos; quando ia voltar a
esquina da rua Plumet, ouviu dizer muito perto de si:
     - Boa noite, senhor Mrio.
     Ergueu os olhos e viu Eponina.
     Este encontro produziu-lhe efeito singular. No tornara a pensar uma s vez
naquela rapariga desde o dia em que ela o conduzira  rua Plumet; e no tendo
tornado a v-la, sara-lhe completamente do esprito. No tinha seno motivos
para lhe ser completamente reconhecido, devia-lhe a felicidade de que gozava:
portanto era-lhe desagradvel encontr-la.
      um erro acreditar-se que a paixo, quando feliz e pura, conduz o homem ao
estado de perfeio; contudo, j o dissemos, simplesmente a um estado de
esquecimento. O homem nesta situao esquece-se de ser mau, mas esquece-se
tambm de ser bom. O reconhecimento, o dever, as recordaes essenciais e
importunas desvanecem-se. Em qualquer outro tempo teria Mrio sido diferente
para com Eponina. Absorvido por Cosette, nem mesmo percebera muito
claramente que aquela Eponina se chamava Eponina Thenardier, e que tinha um
nome, pelo qual, alguns meses antes, to ardentemente se teria devotado.
     Mostrmos Mrio tal qual era; seu prprio pai lhe ia desaparecendo um tanto
na alma, sob o esplendor do seu amor.
     Respondeu, portanto, embaraado  rapariga:
     - Ah!  voc, Eponina?
     - Porque  que o senhor me trata por voc? Fiz-lhe algum mal?
     - No - respondeu ele.
     Decerto, no tinha dela a mnima queixa. Pelo contrrio. O que sentia era que
no poderia ter dito doutro modo: depois de tratar Cosette por tu, no poderia dar
a Eponina o mesmo tratamento. Como ele ficasse calado, Eponina prosseguiu:
     - Ora diga-me... E calou-se. Parecia que as palavras faltavam quela criatura,
dantes to desleixada e atrevida. Quis sorrir-se, mas no pde.
     - E ento!... - prosseguiu ela.
     Depois tornou ainda a calar-se e baixou os olhos.
     - Boa noite, senhor Mrio -, disse ela inesperadamente; e afastou-se.
    IV
    Um co de improviso



     No dia seguinte, era o dia 3 de Junho, 3 de Junho de 1832, data que devemos
indicar em virtude dos graves acontecimentos que por essa ocasio estavam
suspensos sobre os horizontes de Paris, como nuvens prenhes de electricidade; no
dia seguinte, ao anoitecer, seguia Mrio o mesmo caminho que no dia antecedente
e interiormente agitado pelos mesmos deslumbrantes pensamentos, quando, por
entre as rvores do boulevard, avistou Eponina dirigindo-se para ele. Dois dias a
fio, era de mais! Voltou-lhe as costas, portanto, com a maior presteza, deixou o
boulevard e mudou de caminho, dirigindo-se para a rua Plumet, pela rua do
Senhor.
     Deu isto lugar a que Eponina o seguisse at  rua Plumet, coisa que ela at
ento ainda no tinha feito. At ali, limitava-se apenas a v-lo passar pelo
boulevard, sem tentar, sequer, sair-lhe ao encontro. S na vspera fizera isso e
tentara falar com ele.
     Eponina seguiu-o sem ele dar f, viu-o deslocar o varo da grade e
introduzir-se no jardim.
     - Hum! - disse ela. - Ele entra l em casa!
     E, como quisesse examinar a grade, aproximou-se, correu um por um todos
os vares, e facilmente deu com o que Mrio deslocara e tornara a unir.
     - Pois no, pequerrucha! - murmurou ela a meia voz com acento lgubre.
     E sentou-se na soleira da grade junto do varo que Mrio desviava para
entrar, como se quisesse guard-la. Era justamente no ponto em que a grade vinha
unir  parede vizinha, de modo que no recanto escuro, formado por esta juno, o
vulto de Eponina desaparecia inteiramente. Assim esteve mais de uma hora
dominada pelos seus pensamentos sem respirar nem bulir consigo.
     Pela volta das dez horas, um dos dois ou trs transeuntes da rua Plumet, que
era um pobre velho, a quem o ver-se assim a desoras naquele stio deserto e de m
nota lhe dava incrvel ligeireza nas trpegas pernas, ao chegar ao ponto de juno
da grade com a parede, ouviu as seguintes palavras pronunciadas por uma voz
surda e ameaadora:
     - J me no admira que ele venha todas as noites!
     O solitrio passeante circunvagou a vista em torno de si, porm como no
visse ningum, no teve nimo de olhar para o ngulo escuro e apertou o passo,
seguindo apressado o seu caminho.
     Razo de sobra tinha ele, por certo, para assim fazer, pois no eram
decorridos muitos instantes, quando na rua Plumet entraram seis homens, que
algum, ao v-los desfilar separados e a alguma distncia uns dos outros, ao longo
das paredes, tomaria pelos vultos escuros dos soldados de uma patrulha.
     O primeiro que chegou junto da grade parou e esperou os outros, porm da a
um segundo estavam todos seis reunidos e principiaram ento a conversar em voz
baixa.
     -  aqui! - disse um deles.
     - H algum co no jardim? - perguntou o outro.
     - No sei. Na dvida trouxe uma bolinha para se lhe dar a morfilar (Comer).
     - Trazes inastique para frangir a ventana? (Partir um vidro por meio dum
emplastro de massa, que apoiado no vidro, lhe segura os fragmentos e evita o rudo).
     - Trago.
     - A grade  velha disse um quinto, que tinha voz de ventrloquo.
     - Tanto melhor - disse o segundo que falara  no cribelar com a bastringue
(No ranger com a serra) e no custar a fauicher (Cortar).
     O sexto, que no abrira ainda a boca, comeou a apalpar a grade, como fizera
Eponina uma hora antes, empolgando sucessivamente todos os vares e
abanando-os com precauo. Deste modo chegou ao que Mrio arrancara.
Quando ia para o segurar, caiu-lhe sobre o brao uma mo que saiu da sombra,
sentiu-se ao mesmo tempo empurrado pelo meio do peito, e ouviu uma voz
rouquenha gritar-lhe:
     - H aqui um co.
     E, acto contnuo, viu de p diante de si uma rapariga muito plida.
     O homem sentiu a comoo produzida sempre pelo que  inesperado e os
cabelos eriaram-se-lhe medonhamente. No h nada to formidvel para a vista
como a inquietao dos animais ferozes: o seu susto  assustador.
     - Quem  essa marafona?
     -  sua filha.
     Era, com efeito, Eponina, que falava a Thenardier.
     Ante a apario de Eponina, os outros cinco, isto , Claquesous, Gueulemer,
Babet, Montparnasse e Brujon, tinham-se aproximado sem bulha, sem
precipitao, sem proferirem uma palavra, com o vagar sinistro e prprio
daqueles homens da noite.
     Distinguiam-se-lhes nas mos no sei que hediondos objectos. Gueulemer
empunhava um pequeno p de cabra, dos que usam ordinariamente os ratoneiros.
     - Que diabo ests tu fazendo? Que nos queres? Endoideceste? - exclamou
Thenardier gritando, quanto  possvel gritar falando baixo. - Porque vens tu
impedir-nos de trabalhar?
     Eponina desatou a rir e Saltou-lhe ao pescoo.
     - Eu estou aqui, meu paizinho, porque estou aqui. Ento j no  permitido
sentar-se a gente nas pedras? Vossemec  que no devia aqui estar. O que vem
aqui fazer, uma vez que  bolacha. J o tinha dito  Magnon. Olhem que perdem o
tempo.
     Mas, abrace-me, meu paizinho! H que tempos que o no via! Est ento
fora!
     Thenardier diligenciou soltar-se dos braos de Eponina e resmungou:
     - Est bem, j me abraaste. Estou fora, porque no estou dentro... Agora
vai-te embora!
     Mas Eponina no o largava e redobrava de carcias.
     - Mas como foi que arranjou a coisa, meu paizinho? Sempre  preciso ser
muito fino para se poder sair dali. Conte-me como isso foi... E a me? Onde est
minha me?
     D-me notcias da mam!
     Thenardier respondeu:
     - Est boa, no sei, deixa-me; j te disse que te vs.
     - Mas eu  que no me quero ir - disse Eponina com uma inflexo cheia de
mimo -, mandar-me assim embora, depois de o no ter visto h quatro meses e de
no ter tido tempo seno de o abraar!
     E tornou a deitar-lhe os braos ao pescoo..
     - Diabo! Isto  estpido!
     - Despachemo-nos! - disse Gueulemer. - Podem passar os coques.
     A voz do ventrloquo murmurou este dstico:
     Nous n'sommes pas le jour de Van, A bcoter papa maman.
     Eponina voltou-se para os cinco ladres.
     - Olha!  o senhor Brujon. Boa noite, senhor Babet. Boa noite, senhor
Claquesous.
     No me conhece, senhor Gueulemer? Como vai isso, Montparnasse?
     - Sim, todos te conhecem! - disse Thenardier.  Mas pe-te de largo e
deixa-nos.
     -  hora das raposas e no das frangas  disse Montparnasse.
     Bem vs que temos que goupiner icigo (Trabalhar aqui) acrescentou Babet.
     Eponina pegou na mo de Montparnasse.
     - Toma cuidado! - disse ele. - Olha -que te cortas; tenho um lingre (Navalha)
aberto.
     - Mas, Montparnasse - respondeu Eponina com meiguice -  preciso ter
confiana nas pessoas. Olha que eu sou talvez filha de meu pai. Senhor Babet,
senhor Gueulemer, eu  que fui encarregada de esclarecer o negcio.
      para notar que Eponina no falava calo. Desde que conhecia Mrio,
tornara-se-lhe impossvel to medonha lngua.
     Apertou na sua pequena mo ossuda e fraca qual mo de esqueleto, os grossos
e rudes dedos de Gueulemer e continuou:
     - Bem sabem que no sou tola. Ordinariamente acreditam-me. J lhes tenho
prestado servios nas ocasies. J tomei todas as informaes: digo-lhes que se
iro expor inutilmente. Juro-lhes que no tm que fazer nesta casa.
     --Aqui h s mulheres - disse Gueulemer.
     - No h; j se mudaram.
     - Mas h luzes! - retorquiu Babet.
     E mostrou a Eponina, atravs do arvoredo, uma luz que andava de um para
outro lado, no sto do pavilho. Era a Toussaint que se no deitara para estender
uma poro de roupa.
     Eponina tentou um ltimo esforo.
     - Pois sim! - disse ela. -  gente muito pobre.  uma barraca onde no h um
soldo.
     - Vai-te para o diabo! - gritou Thenardier. - Depois de termos voltado a casa
de baixo para cima te diremos o que ela tem dentro, se so bailes, ronds ou broques
(Luses, escudos ou soldos).
     E empurrou-a para poder passar.
     - Montparnasse, o senhor que  to bom rapaz, peo-lhe eu, no entre!
     - Toma cuidado, olha que te cortas!  replicou Montparnasse.
     Thenardier continuou no tom decisivo que lhe era prprio:
     - Safa-te, safa-te! Deixa os homens tratar dos seus negcios.
     Eponina largou a mo de Montparnasse, em que tinha tornado a pegar, e
disse:
     - Vocs querem entrar nesta casa?
     - Se nos deres licena! - disse o ventrloquo em tom de zombaria.
     Ento, Eponina encostou-se  grade, voltou-se para os seis ladres, armados
at aos dentes e aos quais a noite dava um aspecto de demnios, e disse com voz
firme e baixa:
     - Mas eu, que no a dou, no quero que entrem.
     Os ladres pararam estupefactos. O ventrloquo ps termo ao seu riso
motejador e ela continuou:
     - Meus amigos, escutem isto! Agora falo eu. Se entram no jardim, se tocam na
grade, grito, bato a todas as portas, acordo toda a gente, chamo a patrulha e fao
com que sejam todos filados.
     -  capaz de o fazer - disse Thenardier em voz baixa a Brujon, que era o
ventrloquo.
     A rapariga abanou a cabea e acrescentou:
     - Principiando por meu pai.
     Thenardier aproximou-se.
     - No se chegue tanto! - disse ela.
     Thenardier recuou e resmungou por entre os dentes:
     - Mas porque diabo faz ela isto? - E acrescentou:
     - Cadela!
     Eponina ps-se a rir de um modo terrvel.
     - Como querem entrar, no ho-de entrar. Eu no sou filha de co, porque
sou filha de lobo. Vocs so homens e eu sou mulher, mas no me metem medo.
Digo-lhes que no ho-de entrar nesta casa, porque eu no quero que entrem. Se
por desgraa se chegam, ladro J lhes disse, o co sou eu. Importo-me pouco com
vocs. Vo ao vosso caminho, que j me esto aborrecendo! Vo l aonde
quiserem, mas aqui probo-lhes que venham! Vocs s facadas e eu s chineladas,
vamosa ver quem vence!
     E, medonha, deu um passo para os ladres e ps-se a rir:
     - J cantei! No tenho medo. No Vero hei-de ter fome e no Inverno hei-de
ter frio. Que estpidos so estes homens em acreditarem que metem medo a uma
rapariga! Medo! Porqu? Ah, sim!  porque vocs tm todos empadas de amantes
que se escondem debaixo da cama, quando lhes ouvem engrossar as vozes! Eu c 
que no tenho medo de ningum!
     E, fitando seu pai, acrescentou:
     - Nem mesmo de voc, meu pai.
     Depois prosseguiu fitando os ladres com as suas pupilas de espectro:
     - Que me importa a mim que amanh me encontrem estendida no meio da
rua Plumet, morta s facadas por meu pai, ou que dentro de um ano me achem
nas redes de Saint-Cloud, ou na ilha dos Cisnes no meio dos farrapos podres e dos
ces afogados!
     Aqui viu-se obrigada a interromper-se: foi atacada por terrvel tosse seca; a
respirao saa-lhe do peito acanhado e dbil como um estertor.
     Em seguida continuou:
     -A mim basta-me gritar; vocs so seis e eu sou toda a gente!
     Thenardier deu um passo para ela.
     - No se chegue! - gritou a rapariga.
     Thenardier parou e disselhe com suavidade:
     - Pois sim, no me chegarei, mas no fales to alto. Queres impedir-nos de
trabalhar, minha filha? Bem sabes que no h remdio seno ganhar a vida! J no
samiga de teu pai?
     - Ora, nada de lrias! - disse Eponina.
     - Contudo, a gente h-de comer. A barriga no tem fiador... - Que me
importa! Estalem para a!
     E dito isto, sentou-se no sop da grade, cantarolando:
     Mon bras si dodu.
     Ma jambe bien faite Bt l temps perdu.
     Tinha a face encostada  mo e o cotovelo fincado no joelho, balanando o p
com ar de indiferena. Pelos buracos do vestido viam-se as magras clavculas. O
lampio prximo iluminava-lhe o vulto. No se poderia imaginar atitude mais
resoluta nem mais surpreendente.
     Os seis escarpas, interditos e confusos, vendo-se assim ludibriados por uma
rapariga, afastaram-se para o lado onde no dava a luz do lampio e formaram
conselho,erguendo os ombros, humilhados e ferozes.
     A rapariga entretanto olhava para eles com ar sereno e severo.
     - Ela tem alguma coisa - disse Babet. - Tem por fora uma razo... Estar
enamorada do co?  uma pena que isto falhe. Duas mulheres e um velho que
dorme no quarto do ptio traseiro! O velho deve ser mesmo um guinai (Um
Judeu). A empresa parece-me de truz.
     - Pois ento entrem vocs - disse Montparnasse - faam a coisa, que eu ficarei
com a rapariga; e se ela chiar... E fez luzir com o reflexo do lampio a navalha que
tinha na mo, oculta na manga.
     Thenardier no dizia coisa nenhuma; parecia estar por tudo.
     Brujon, que passava por entendido e que tinha sido o autor daquela tentativa
de assalto, ainda no tinha falado e parecia pensativo. Era tido entre os bandidos
por homem destemido, a ponto de, por mera bazfia, se abalanar uma vez a
roubar um posto da guarda. Alm disto fazia versos e canes, o que lhe dava
grande autoridade.
     - No dizes nada, Brujon? - perguntou-lhe Babet.
     Brujon conservou-se ainda um instante silencioso, depois meneou a cabea
de modos variados, e decidiu-se enfim a erguer a voz:
     - Olhem: esta manh vi dois pardais  briga; agora esbarro com uma mulher a
gritar. Isto  mau. Vamo-nos embora.
     E afastaram-se.
     Montparnasse murmurou:
     -  a mesma coisa: mas se quisessem, daria eu a unhada.
     Babet no respondeu:
     - Eu no; no toco numa dama.
     A esquina da rua pararam e trocaram, em voz surda este dilogo enigmtico:
     - Onde devemos de ir ficar esta noite?
     - Debaixo de Pantin (Pantin, Paris).
     - Tens a chave da grade, Thenardier?
     - Tenho.
     Eponina, que no os perdia de vista, viu-os seguir pelo caminho por onde
tinham vindo. Levantou-se e foi-se arrastando de gatas atrs deles, sempre
encostada aos muros e casas. Seguiu-os assim at ao boulevard. Ali viu os seis
homens separarem-se e internarem-se na escurido, com a qual pareciam
confundir-se.



    V
    Coisas da noite



     Depois dos ladres se afastarem, a rua Plumet voltou ao seu tranquilo aspecto
nocturno.
     O que acabava de ocorrer naquela rua no teria causado admirao numa
floresta. Os bosques, as charnecas, os maninhos, os ramos asperamente
entrelaados, o mato, existem de um modo sombrio; o irregular movimento
selvtico entrev ali as sbitas aparies do invisvel; o que est abaixo do homem
distingue atravs do nevoeiro o que est alm dele, e as coisas que ns, viventes,
ignoramos, confrontam-se na escurido. A natureza hirsuta e bravia assusta-se em
certas aproximaes, onde cr pressentir o natural. As foras da sombra
conhecem-se e tm entre si misteriosos equilbrios. Os dentes e as garras temem o
que no pode ser agarrado. A bestialidade bebedoura de sangue, os vorazes
apetites esfaimados em busca de presa, os instintos armados de unhas e
mandbulas que tm por origem e fim o ventre, observam e farejam com
inquietao o impossvel lineamento do espectro girando sob um sudrio, de p e
envolto no seu vago manto arrepiador e que lhe parece viver de uma vida morta e
terrvel. Estas brutalidades, que no so mais do que matria, receiam
confusamente ter de se haver com a imensa obscuridade condensada de um ser
desconhecido.
     Uma figura negra intersectando a passagem faz parar de repente o animal
feroz. O que sai do cemitrio intimida e desorienta o que sai do antro; o que 
feroz teme o que  sinistro; os lobos encontrando um fantasma recuam.



    VI
    Mrio torna-se positivo, a ponto de dizer a Cosette onde mora



     Enquanto aquela espcie de cadela com figura humana guardava a grade, e os
seis ladres abandonavam o terreno na presena de uma rapariga, estava Mrio
junto de Cosette.
     Nunca o cu estivera mais estrelado e mais encantador, as rvores mais
ciciantes, mais penetrante o aroma das plantas: nunca os passarinhos tinham
adormecido sob a folhagem com rudo mais suave; nunca o conjunto das
harmonias da serenidade universal correspondera melhor s melodias interiores
do amor; nunca Mrio se sentira mais fascinado, mais feliz, mais extasiado.
     Mas achara Cosette triste. Cosette chorara. Tinha os olhos vermelhos. Era a
primeira nuvem naquele admirvel sonho.
     - Que tens tu? - tinham sido as palavras de Mrio.
     - Ora... Depois sentara-se no banco junto da varanda, e enquanto ele, todo
trmulo, tomava lugar a seu lado, prosseguiu:
     - Disseme meu pai esta manh que me aprontasse, que precisava tratar de uns
negcios, e por isso talvez tivssemos de partir.
     Mrio estremeceu dos ps  cabea.
     Quando se est no fim da vida, morrer quer dizer partir; quando se est no
comeo, partir quer dizer morrer.
     Havia seis semanas que Mrio, pouco a pouco, vagarosa e gradualmente, se
apossara de Cosette. Possesso toda ideal, mas profunda. Como j explicmos, no
primeiro amor toma-se a alma antes do corpo, mais tarde toma-se o corpo muito
antes da alma; algumas vezes no se toma absolutamente a alma: os Faublas e os
Proudhome acrescentam: Porque j a no h; mas o sarcasmo  por felicidade
uma blasfmia.
     Mrio, pois, possua Cosette, como se podem possuir os espritos, mas
envolvia-a completamente com a alma e apoderava-se dela ciosamente, com
incrvel convico.
     Possua-lhe o sorriso, o hlito, o perfume, o profundo fulgor dos olhos azuis,
o aveludado da pele, quando lhe tocava a mo, o gracioso sinal que a jovem tinha
no pescoo e todos os seus pensamentos. Haviam convencionado no dormir
nunca sem sonhar um com o outro, e o caso  que tinham cumprido a promessa.
Possua, portanto, todos os sonhos de Cosette. Punha-se-lhe de contnuo a fitar,
quando s vezes no chegava quase a beijar com o hlito, os cabelos menos
crescidos da parte posterior da cabea e dizia consigo que nem um s daqueles
cabelos deixava de lhe pertencer a ele, Mrio. Contemplava e adorava todas as
partes do seu trajo, o lao de fita, as luvas, os punhos, as botinhas, como objectos
sagrados, cujo dono ele era.
     Pensava em como era ele o senhor daqueles lindos pentes de tartaruga que ela
trazia na cabea, e chegava at a dizer a si prprio surdo e confuso balbuciar da
voluptuosidade que tenta mostrar-se que no havia um fio no seu vestido, uma
malha nas meias, uma prega no colete, que no fosse dele. Ao lado de Cosette,
Mrio sentia-se ao p do seu bem, do seu tudo, do seu dspota e do seu escravo.
Parecia que tinham de tal forma confundido mutuamente as almas, que, se
quisessem outra vez separ-las, lhes seria impossvel reconhec-las.
     -A minha  esta.
     - Qual ! Essa  que  a minha.
     - Olha que te enganas. No vs que sou eu?
     - Cuidas que s tu, mas sou eu.
     Mrio era uma como parte de Cosette e Cosette uma como parte de Mrio.
Mrio sentia Cosette a viver nele. Para o rapaz, possuir Cosette ou respirar eram
coisas pouco distintas. Foi no meio desta f, desta embriaguez, desta posse
virginal, singular e completa, desta soberania, que as palavras talvez tenhamos de
partir, de repente caram e que a voz da realidade lhe gritou de chofre: Cosette
no  tua! S ento  que Mrio acordou. Havia seis semanas que ele vivia
alheado, porm a palavra partir f-lo voltar a si e entrar na mais pungente das
realidades.
     No achou uma nica palavra para responder.
     Cosette, porm, reparou que ele tinha a mo muito fria e perguntou-lhe
tambm por sua vez:
     - Que tens?
     - No percebi o que me disseste! - respondeu em voz to baixa, que Cosette
mal o ouviu.
     A jovem tornou:
     - Meu pai disseme esta manh que preparasse tudo o que era necessrio, que
me havia de dar a roupa dele para eu meter na mala, porque se via na necessidade
de fazer uma viagem, que havamos de partir brevemente, que tratasse de arranjar
uma mala grande para mim e uma pequena para ele, e, finalmente, que tivesse
tudo isto pronto dentro de uma semana, porque talvez fssemos a Inglaterra.
     - Isso  monstruoso! - exclamou Mrio.
     O certo  que, naquela hora, o esprito de Mrio no achava nenhum abuso
de poder, nenhuma violncia, nenhum nefando atentado dos mais abominveis
tiranos, nenhuma aco de Busiris, de Tibrio ou de Henrique VIII, igualavam em
ferocidade o senhor Fauchelevent levando sua filha para Inglaterra, porque tinha
negcios a tratar.
     - Quando partirs? - perguntou Mrio em voz fraca.
     - Ele no disse quando seria.
     - E quando voltars?
     - Tambm o no disse.
     Mrio levantou-se e disse friamente:
     - Vai, Cosette?
     Cosette voltou para ele os lindos olhos cheios de angstia e respondeu com
um certo tom desvairado:
     - Para onde?
     - Para Inglaterra.
     - Porque no me tratas por tu?
     - Pergunto-lhe se vai... - O que queres tu que faa? - disse ela juntando as
mos.
     - Logo, vai?
     - Se meu pai vai tambm?
     Cosette pegou na mo de Mrio e apertou-lha sem responder.
     - Bem - disse Mrio. - Ento irei eu para outra parte.
     Cosette sentiu mais o sentido destas palavras do que o compreendeu
Tornou-se de tal modo plida, que o rosto pareceu destacar-se na escurido e
balbuciou:
     - O que  que queres dizer?
     Mrio encarou-a, levantou depois os olhos para o cu e respondeu:
     - Nada.
     Quando baixou os olhos viu Cosette sorrindo-se para ele. O sorriso de uma
mulher que se ama  um claro que se v no meio da noite - Que imbecis que ns
somos! Tenho uma ideia, Mrio - O que ?
     - Se eu partir, parte tambm! Dir-te-ei onde estou. Vai ter comigo!
     Mrio era ento um homem completamente acordado. Tinha de novo cado
na realidade. Ouvindo o que Cosette lhe disse, exclamou:
     - Partir tambm! Ests louca! Para isso  preciso dinheiro e eu no o tenho Ir
a Inglaterra? Mas se eu j devo no sei quanto, mais de dez luzes, a Courfeyrac,
um dos meus amigos, que tu no conheces! Tenho um chapu velho que no vale
trs francos, uma casaca quase sem botes, a minha camisa est toda despedaada,
tenho os cotovelos rotos e as botas despalmilhadas, h seis semanas que no tenho
pensado em nada disto, e no to tinha dito Sou um miservel, Cosette No me vs
seno de noite e ds-me o teu amor; se me visses de dia dar-me-ias um soldo! Ir a
Inglaterra! Nem tenho com que pagar o passaporte!
     E arrojou-se contra uma rvore que ali estava prxima, com os dois braos
acima da cabea, a fronte encostada  cortia do tronco, no sentindo nem o pau
que lhe arranhava a pele, nem a febre que lhe martelava as fontes, imvel,
prximo a cair Como a esttua do Desespero.
     Esteve assim muito tempo Ficaria eternidades naquela espcie de abismo. Por
fim, voltou-se e ouviu atrs de si um ligeiro rudo sufocado, suave e triste.
     Era Cosette soluando.
     Havia mais de duas horas que chorava ao lado de Mrio pensativo.
     Mrio dirigiu-se a ela, ajoelhou e, prostrando-se vagarosamente, pegou-lhe na
ponta do p que lhe saa para fora da roda do vestido e beijou-lho.
     Ela, silenciosa, no o interrompeu. H momentos em que a mulher aceita,
qual deusa sombria e resignada, a religio do amor.
     - No chores! - disselhe ele.
     Cosette murmurou:
     - Choro porque me vou talvez embora e tu no podes ir!
     - Amas-me? - tornou Mrio.
     Cosette respondeu-lhe, soluando, essa palavra do paraso que no  talvez
nunca to encantadora como atravs das lgrimas:
     - Adoro-te!
     Ele ento prosseguiu num tom de voz que era uma inexplicvel carcia:
     - No chores. Olha, faze o que te peo; no chores mais!
     - E tu amas-me? - perguntou ela.
     - Cosette - tornou ele, pegando-lhe na mo  nunca dei a minha palavra de
honra a ningum, porque me causa medo: sinto meu pai ao lado dela. Pois bem,
dou-te a minha palavra de honra mais sagrada, que se tu fores, morro.
     Estas palavras foram pronunciadas com um acento de melancolia to solene e
tranquilo, que Cosette estremeceu. Sentiu o frio produzido pela passagem de uma
coisa sombria e verdadeira. O grande sobressalto que experimentou f-la cessar de
chorar.
     - Agora, escuta disse ele no me esperes amanh.
     - Porqu?
     - No me esperes seno depois de amanh.
     - Mas porqu?
     - Vers.
     - Um dia sem te ver!  impossvel.
     - Sacrifiquemos um dia para termos talvez toda a vida.
     E Mrio acrescentou em voz baixa e aparte:
     -  um homem que no altera por coisa alguma os seus hbitos; no recebe
ningum seno  noite.
     - De que homem falastu? - perguntou Cosette.
     - Eu no disse nada - Mas que esperana  a tua?
     - Espera at depois de amanh.
     - Queres que seja assim?
     - Sim, Cosette Ela ento tomou-lhe a cabea entre as mos, pondo-se nos
bicos dos ps, para lhe poder chegar, e diligenciou ler-lhe nos olhos a sua
esperana.
     -  verdade - tornou Mrio - convm que saibas onde moro: ningum sabe o
que pode suceder: moro em casa do tal meu amigo chamado Courfeyrac, na rua
dos Vidraceiros, nmero 16.
     Em seguida, metendo a mo no bolso, tirou um canivete e, abrindo-o,
escreveu na parede: Rua dos Vidraceiros, nmero 16.
     Cosette, entretanto, continuara a fitar-lhe os olhos, procurando neles a
revelao do segredo que o rapaz ocultava.
     . Dize-me o teu pensamento, Mrio, porque tu tens um pensamento. Dize-me
o que , para que eu passe bem a noite!
     - O meu pensamento  que  impossvel que Deus queira separar-nos.
Espera-me depois de amanh.
     - O que hei-de eu fazer at l? - disse Cosette.  Tu andas pela rua de um para
outro lado! Como so felizes os homens! Eu ficarei sozinha! Como vou estar
triste! O que fars tu amanh  noite, dize?
     - Irei tentar uma coisa.
     - Ento suplicarei a Deus e pensarei em ti daqui at l, para que obtenhas o
resultado que desejas. No te farei mais perguntas porque o no queres; s o meu
senhor. Passarei o sero de amanh cantando aquela msica de Euryanto, de
que tu gostas e que uma noite vieste escutar por fora da janela. Mas depois de
amanh hs-de vir cedo. Esperar-te-ei s nove horas em ponto, previno-te. Que
coisa to triste que so os dias grandes! Repara bem, quando derem nove horas
estarei no jardim.
     - E eu tambm.
     E sem que o dissessem, movidos pelo pensamento, arrastados pelas correntes
elctricas que pem dois amantes em contnua comunicao, ambos brios de
voluptuosidade at mesmo na dor, caram nos braos um do outro, sem
repararem que os seus lbios se tinham unido, enquanto os olhos erguidos,
trasbordando de xtase e arrasados de lgrimas, contemplavam as estrelas.
     Quando Mrio saiu estava a rua deserta. Foi na ocasio em que Eponina
seguiu os malfeitores at ao boulevard.
     Enquanto Mrio pensava, com a cabea encostada  rvore, atravessara-lhe o
esprito uma ideia, que ele prprio julgava insensata e impossvel. Adoptara uma
resoluo violenta.
    VII
    Um corao jovem em presena de um corao velho



     Por este tempo, Gillenormand, de quem h muito nos no ocupamos, orava
pelos seus noventa e um, seno mais, e continuava a viver com sua filha na rua das
Mulheres do Calvrio, nmero 6, na velha casa que era propriamente dele. Como
os leitores estaro lembrados, Gillenormand era um desses velhos de outros
tempos, que esperam a morte com robustez, que no vergam ao peso dos anos
nem se deixam alquebrar pelo influxo dos pesares.
     Apesar disso, porm, havia algum tempo que a filha, ao ver que ele j no
batia nas criadas nem martelava com a bengala  porta com a mesma fora,
quando Biscainho se demorava a ir abrir-lha, dizia:
     - Meu pai est acabado!
     A revoluo de Julho apenas o tinha exasperado por espao de seis meses.
Uma ocasio pegara no Monitor e vira com serenidade este cadeado de palavras:
     O senhor Humblo-Cont, par de Frana.
     O caso  que o bom velho ia desaparecendo. No que ele se mostrasse
alquebrado ou rendido, porque isso era to incompatvel com a sua natureza fsica
como com a sua natureza moral, mas interiormente sentia-se desfalecer. Havia
quatro anos que esperava por Mrio, sempre com a convico de que o
libertinozinho lhe bateria  porta mais dia menos dia; agora chegava a dizer
consigo, em certas horas tristes, que por pouco que Mrio se demorasse... No era
a morte o que se lhe tornava insuportvel; a ideia de que nunca tornaria a ver
Mrio, era uma ideia que jamais lhe entrara um instante no crebro at ento:
agora comeava a aparecer-lhe, e gelava-o. A ausncia, como sucede sempre nos
sentimentos naturais e verdadeiros, no fizera seno aumentar o amor do av ao
neto ingrato, que se fora por semelhante modo.  nas noites de Dezembro com
dez graus de frio, que se pensa mais no Sol. O senhor Gillenormand era, ou
julgava ser, sobretudo, incapaz de dar um passo, ele, av, para seu neto; seria mais
fcil estalar, dizia ele. No se achava culpado, mas no pensava em Mrio seno
com profunda ternura e o mudo desespero do homem velho, que vai entrando nas
trevas.
     Comeava a perder os dentes e isso aumentava-lhe ainda a tristeza.
     O senhor Gillenormand, sem contudo o confessar a si mesmo, porque ficaria
por isso furioso e envergonhado, no quisera nunca a uma amante como queria a
Mrio.
     Mandara colocar no seu quarto, em frente da cama, para ser a primeira coisa
que visse apenas acordasse, um antigo retrato da sua outra filha, que j no existia,
a senhora de Pontmercy, retrato do tempo em que ela tinha dezoito anos. Olhava
sem cessar para ele. Um dia sucedeu-lhe dizer, contemplando-o:
     - Parece-se muito.
     - Com minha irm? - disse Mademoiselle Gillenormand.
     - Decerto.
     O velho acrescentou:
     - E com ele tambm.
     Uma ocasio em que o senhor Gillenormand estava sentado com os joelhos
unidos e os olhos quase fechados, numa atitude de grande abatimento, arriscou-se
sua filha a dizer-lhe:
     - Ainda est muito zangado com ele, meu pai?
     E calou-se; no se atreveu a adiantar-se mais.
     - Com quem? - perguntou ele.
     - Com o pobre Mrio.
     O senhor Gillenormand ergueu a cabea, apoiou o punho emagrecido e
encarquilhado na mesa, e gritou com a sua voz mais irritada e vibrante:
     - Pois no! Pobre Mrio! Um brejeiro, um velhaco, um rapaz vaidoso e
ingrato, sem corao, sem alma, um orgulhoso, um mau indivduo!
     E voltou-se para o lado oposto, para que a filha lhe no visse as lgrimas que
tinha nos olhos.
     Trs dias depois rompeu o silncio em que estivera mergulhado quatro horas,
para dizer  filha,  queima-roupa:
     - J tive a honra de dizer  senhora Gillenormand que no me tornasse a falar
de semelhante coisa!
     A filha renunciou, portanto, a qualquer tentativa mais, e inferiu do que via e
ouvia este profundo diagnstico:
     No h que duvidar. Meu pai, depois que minha irm fez aquela asneira,
nunca lhe ficou com grande afecto, e est claro que tambm no pode ver Mrio.
     Depois que fez aquela asneira queria dizer, depois que casou com o coronel.
     Apesar disso, porm, e como  fcil de supor, todas as diligncias dela para
substituir Mrio pelo seu favorito oficial de lanceiros tinham sido infrutferas.
     Gillenormand no estivera pelo qui pr quo. Vcuos do corao nem tudo os
enche. Pela sua parte, Theodulo no desgostaria de ficar com a herana, mas
repugnava-lhe o mister que teria de desempenhar. O velho no gostava do
lanceiro e o lanceiro no estava para aturar o velho.
     Theodulo era jovial, mas falador; frvolo, mas vulgar; amigo de divertir-se,
porm pouco escrupuloso na escolha dos seus passatempos; tinha amantes, 
verdade, e falava muito delas, tambm  verdade, mas era sempre em mau sentido.
Todas as suas qualidades tinham algum defeito. Gillenormand j estava farto de
lhe ouvir contar no sei que conquistas que ele tinha feito na rua de Babilnia, nas
proximidades do seu quartel. Alm disto, Theodulo, quando lhe parecia, vinha de
farda e com o seu lao tricolor, o que o tornava meramente impossvel.
Gillenormand dissera, por ltimo, a sua filha:
     - J estou farto de Theodulos! Simpatizo pouco com militares em tempo de
paz!
     Recebe-o tu, se quiseres. Quanto a mim, no estou para o aturar. No sei se
gosto mais dos espadachins do que desses senhores, que andam simplesmente a
arrastar as espadas pelas ruas! Para bem dizer, o tinir das espadas numa batalha 
menos miservel, assim mesmo, do que a bulha que esses senhores fazem a
arrast-las pelo cho. Alm disso, bambolear-se como um tranca-ruas e andar
espartilhado como um maricas  ser duas vezes ridculo! Um verdadeiro homem
evita sempre estes extremos.
     Nem traga-mouros nem alfenim. Guarda o teu Theodulo l para ti!
     Por mais que sua filha lhe dissesse: Mas bem v que  seu sobrinho, a
verdade era que Gillenormand antes queria, ser av at s pontas dos cabelos do
que tio.
     Em verdade, Theodulo no fizera mais do que dar ao velho, que no era falho
de penetrao nem de esprito, ensejo de comparar, e o resultado desta
comparao fora faz-lo mais desejar Mrio.
     Uma tarde, no dia 4 de Junho, o que no obstava a que Gillenormand no
estivesse com uma bela fogueira diante de si, achava-se ele s naquele seu quarto
forrado, depois de ter despedido a filha, que fora trabalhar na sua costura para a
sala prxima. Gillenormand estava com os ps apoiados nas travessas do fogo,
quase escondido no meio do seu biombo de Coromandel, encostado a uma mesa,
sobre a qual ardiam duas velas sob um pra-luz verde, meio enterrado na sua
poltrona e com um livro na mo, que no lia. A extravagncia do seu trajo daria
azo a que pelas ruas o seguissem, se sua filha, quando ele saa, no tivesse o
cuidado de o cobrir com uma ampla capa, que lhe evitava os dissabores por que
passaria sem ela. Em casa, Gillenormand nunca andava de robe, a no ser para se
levantar ou para se deitar.
     -  uma das coisas que nos faz parecer velhos - dizia ele.
     Gillenormand pensava em Mrio amorosa e amargamente, e, segundo o
costume, o azedume era o que predominava. A sua azedada ternura acabava
sempre por ferver e converter-se em indignao. Gillenormand tinha chegado ao
estado em que se toma, por ltimo, uma resoluo definitiva, ainda que seja a que
nos dilacera. Estava quase a afirmar consigo que era escusado esperar, porque
Mrio, a no ter voltado, tambm j no voltaria, e portanto, que devia tirar da o
sentido. Apesar, porm, da diligncia que fazia para o conseguir, no lhe era
possvel, porque o seu afecto de pai podia mais do que ele.
     - Pois qu! Ele no voltar? - dizia consigo; e era este o seu doloroso
estribilho.
     Aps isto, pendeu a cabea para o peito e fitou nas brasas do fogo o seu olhar
lastimoso e irritado.
     No mais profundo silncio da sua abstraco, entrou o antigo criado
Biscainho e perguntou:
     - O senhor pode receber o senhor Mrio?
     O velho ergueu-se num salto da cadeira, lvido e semelhante a um cadver
que pusessem em contacto com os condutores de uma pilha. O sangue reflura-lhe
todo ao corao.
     - Mrio... qu? - balbuciou ele.
     - Isso no sei - respondeu Biscainho, intimidado e enleado pelos modos de
seu amo - porque no fui eu que lhe falei. A Nicete  que me veio dizer que estava
ali um senhor, que viesse eu dizer que era o senhor Mrio.
     O senhor Gillenormand balbuciou em voz baixa:
     - Manda entrar.
     E conservou-se na mesma atitude, com a cabea trmula e os olhos fitos na
porta, a qual pouco depois tornou a abrir-se. Em seguida entrou um mancebo. Era
Mrio: Mrio parou logo no limiar, como esperando que o mandassem entrar.
     Escondido, como ficava, na penumbra das luzes, o seu vesturio quase
miservel no podia ser notado pelo velho. No se lhe distinguia mais que o rosto,
sereno e grave, porm estranhamente triste.
     O senhor Gillenormand, como que materializado pelo pasmo e alegria,
conservou-se alguns instantes sem ver outra coisa alm de um claro, como
quando se tem uma apario. Estava prestes a desfalecer; via Mrio atravs de um
deslumbramento. Era ele! Era, com efeito, Mrio!
     Finalmente! Ao cabo de quatro anos! Abrangeu-o, para assim dizer, todo
inteiro, com um s olhar. Achou-o interessante, nobre, distinto, crescido, homem
feito, com uma atitude conveniente, com um aspecto encantador. Teve vontade de
abrir os braos, de o chamar, de se precipitar para ele; as entranhas
fundiam-se-lhe em arrebatamento, as palavras afectuosas dilatavam-no e
transbordavam-lhe do peito. Enfim, toda aquela ternura se patenteou e lhe chegou
aos lbios, e, pelo contraste que era a essncia da sua organizao, produziu uma
aspereza.
     Disselhe desabridamente:
     - O que vem fazer aqui?
     Mrio respondeu embaraado:
     - Senhor... O senhor Gillenormand quisera que Mrio se lhe lanasse nos
braos. Sentiu-se descontente de Mrio e de si mesmo. Conheceu ser desabrido e
Mrio frio. Era para o excelente velho insuportvel e irritante ansiedade o
sentir-se to terno e to choroso no ntimo, e no poder ser exteriormente seno
spero. O azedume tornou a domin-lo e por isso interrompeu-o num tom
enfadado:
     - Ento para que veio?
     Isto significava: Se no veio para me abraar? Mrio encarou seu av, a
quem a palidez dera um rosto de mrmore.
     - Senhor... O velho prosseguiu com voz severa:
     - Vem pedir-me perdo? J reconheceu as suas faltas?
     Julgou que assim meteria Mrio a caminho, e que o pequeno de certo
quebraria. Mrio estremeceu: exigiam-lhe que renegasse seu pai; baixou os olhos e
respondeu:
     - No, senhor.
     - Nesse caso - exclamou impetuosamente o velho, com uma dor pungente e
repassada de clera  que me quer?
     Mrio juntou as mos, deu mais um passo e disse com voz fraca e trmula:
     - Tenha d de mim!
     Estas palavras comoveram o senhor Gillenormand; ditas mais cedo t-lo-iam
enternecido, mas tinham vindo demasiado tarde. O av ergueu-se e apoiou-se na
bengala com ambas as mos; tinha os lbios brancos, a fronte vacilava-lhe, mas
dominava Mrio curvado com a sua elevada estatura.
     - Compadecer-me de si, senhor! Um adolescente pedir a um velho de noventa
anos que se compadea dele? Quem entra na vida a quem sai dela! Quem
frequenta os teatros, os bailes, os cafs, os bilhares; quem tem talento e galanteia as
mulheres com felicidade; quem tem uma bela figura a quem, na fora do Vero, se
pe sentado ao fogo! Pedir compaixo quem possui todas as verdadeiras riquezas
deste mundo a quem s tem todas as pobrezas da velhice, os achaques e o
isolamento! Pedir compaixo quem tem os seus trinta e dois dentes, um bom
estmago, o olhar penetrante, quem tem fora, apetite, sade, alegria, uma mata
de cabelos pretos, a quem j nem brancos os tem! A quem j no tem dentes, nem
o vigor nas pernas, que tinha outrora, nem cabea para reter coisa nenhuma; a
quem sem cessar confunde a rua de Charlot com a rua de Chaume e a rua de
Chaume com a rua de Saint-Cloud; a quem chega a este ponto! Quem tem diante
de si um futuro brilhante a quem no v em roda de si seno trevas! Implorar
compaixo quem, isso est sabido, tem uma mulher que o ama, a quem no 
amado por ningum neste mundo! E vir pedir-lhe a sua compaixo!
     Realmente! Molire no se lembrou de uma coisa assim! Se os senhores
advogados costumam gracejar deste modo, dou-lhe os meus sinceros parabns,
porque na verdade, o caso tem graa!
     E o octogenrio continuou com inflexo de voz irada e grave:
     -  verdade, mas ento que me quer?
     - Senhor - respondeu Mrio - sei que a minha presena lhe desagrada, porm
eu venho simplesmente fazer-lhe um pedido, e, em seguida, retirar-me-ei.
     - Com que tolo eu estou metido! disse o velho.
     - Quem  que lhe diz que se v embora?
     Estas palavras, que Gillenormand acabava de proferir, eram a traduo de
outras, mais afveis, que ele no deixava sair do fundo do corao: Pede-me
perdo, Mrio, anda! D-me um abrao! Gillenormand sentia que dentro de
poucos instantes o rapaz se iria embora, que o seu mau acolhimento, longe de o
atrair, ainda mais o repelia, que a sua dureza no lhe podia conciliar as boas
graas; dizia tudo isto consigo mesmo e a sua dor com isso aumentava, e como a
sua dor se convertia imediatamente em clera, a sua dureza cada vez subia mais de
ponto. Gillenormand queria que Mrio entendesse, e como Mrio no entendia,
involuntariamente dava azo a que o pobre velho se tornasse furioso Este
continuou:
     - Como! Pois abandonou seu av, saiu de minha casa para ir l para onde lhe
pareceu, encheu sua tia de desgostos, viveu na estroinice o tempo que quis,
saindo quando queria, entrando quando queria, divertindo-se e levando vida de
vadio, sem nunca dar sinal de si, contraiu as dvidas que lhe pareceu, sem ao
menos me mandar dizer que as pagasse eu, fez-se estrina como os outros, andou
l por onde quis, e, ao cabo de quatro anos, procura-me a porta e no tem outra
coisa que me dizer seno isso?
     Este modo violento de impelir o rapaz para uma expanso afectuosa, longe de
produzir o efeito que o velho desejava, apenas fez com que Mrio se conservasse
em silncio. Gillenormand cruzou ento os braos, gesto que a ele lhe dava um
aspecto sobremodo imperioso, e apostrofou amargamente o rapaz do modo
seguinte:
     - Acabemos com isto! Vem pedir-me alguma coisa, diga? Se vem, fale, e no
estejamos aqui a perder tempo!
     - Senhor - disse Mrio com o olhar de um homem que se sente a ponto de
resvalar num precipcio - eu venho aqui pedir-lhe se me d licena de casar.
     Em vez de responder, Gillenormand tocou a campainha e, apenas Biscainho
entreabriu a porta, gritou-lhe:
     - Diga a minha filha que venha c.
     Da a um segundo, tornou a abrir-se a porta e a filha de Gillenormand no
entrou, mas mostrou-se; Mrio conservava-se de p, mudo, com os braos
pendentes e aspecto de ru, enquanto seu av passeava pelo quarto de um lado
para o outro.
     Apenas deu pela presena de sua filha, voltou-se para ela e disselhe:
     - No  nada.  o senhor Mrio que vem saber se pode casar! Mais nada.
D-lhe os parabns e pode retirar-se!
     O tom rouco e sacudido com que ele proferia estas palavras davam
claramente a conhecer a raiva que lhe refervia no peito A filha de Gillenormand
fitou seu sobrinho com ar assustado, sem dar grandes mostras de que o tinha
conhecido, nem soltar a menor palavra ou fazer o menor gesto, e desapareceu ao
sopro de seu pai, como um feto nas asas de um furaco.
     A este tempo, Gillenormand tinha voltado para junto do fogo e continuava,
encostado  pedra:
     - Quer casar? Aos vinte e um anos! Depressa arranjou o negcio! Visto isso s
lhe falta uma formalidade, pedir uma licena! Faa favor de se sentar, senhor.
Com que ento agora h-de estar satisfeito! Como sabe, houve uma revoluo,
depois que deixei de ter a honra de o ver, e os jacobinos levaram a melhor. Ou o
senhor deixou de ser republicano desde que est baro? Provavelmente acumula.
Faz um molho do republi-canismo para misturar com o baronato. Tambm  dos
condecorados de Julho? Tomou parte na tomada do Louvre? Aqui logo na rua de
Santo Antnio, defronte da rua das Nonaidires, fica uma casa que tem no
terceiro andar uma bala incrustada na parede com esta inscrio: 28 de Julho de
1830. Recomendo-lhe que a v ver, porque merece a pena, pela linda vista que
faz! Oh, l os seus amigos fazem coisas muito bonitas!  verdade, porque no
mandam eles fazer um chafariz na praa do senhor duque de Berry? Com que
ento est resolvido a casar? E com quem, se a pergunta no  indiscreta?
     Chegado a este ponto, fez uma pausa, e sem dar tempo a que Mrio
respondesse, acrescentou com arrebatamento:
     -  verdade, e a sua profisso? O senhor tem um belo modo de vida! Quanto
lhe rende o seu mister de advogado?
     - Nada! - respondeu Mrio com uma espcie de firmeza e de resoluo quase
ferozes.
     - Nada? Ento vive unicamente com as mil e duzentas libras que eu lhe dou?
     Mrio no respondeu e Gillenormand continuou:
     - Ah, j entendo! A noiva  rica?
     - Tanto como eu.
     - Como? Pois no tem dote?
     - No, senhor.
     - Nem esperanas de vir a ter alguma coisa?
     - Creio que no.
     - Essa no est m! E o pai? Que qualidade de homem ?
     - No sei.
     - Ento como se chama ela?
     - Eufrasia Fauchelevent.
     - Fauce qu?
     - Fauchelevent.
     - Pitt! - fez o velho com modo desdenhoso.
     - Senhor! - exclamou Mrio. Porm, Gillenormand prosseguiu como que
falando consigo mesmo:
     - Sim, senhor, acho-lhe graa! Vinte e um anos, uma mulher sem dote e mil e
duzentas libras por ano. H-de ser bonito ver a senhora baronesa de Pontmercy a
comprar cinco ris de salsa a uma hortaliceira!
     - Senhor - tornou Mrio no desvairamento de quem v esvaecer-se-lhe a
derradeira esperana. - Peo-lhe por quanto h, suplico-lhe de mos postas e de
joelhos que me permita despos-la!
     O velho soltou uma estridente e lgubre gargalhada, e exclamou num frouxo
de riso, interrompido a cada instante por outro de tosse:
     - Ah! Ah! Ah! O senhor disse com os seus botes: Enfim, visto no querer a
desgraa que eu tenha ainda vinte e cinco anos, no h remdio seno ir ter com o
velhote e pedir-lhe por bons modos que me deixe fazer esta tolice. Chegar-me-ei
ao p
     dele e dir-lhe-ei: Eu venho aqui pedir-lhe uma coisa, seno nem c aparecia.
Quero que voc, velho cretino, me deixe casar com a menina fulana, filha do
senhor sicrano.
     Verdade  que eu s tenho de meu o dia e a noite, e ela a camisa que traz no
corpo Mas isso no faz ao caso Deu-me para aqui. Tenho vontade de lanar ao rio
a minha carreira, o meu futuro, a minha mocidade, e vida; desejo dar um
mergulho na misria com uma mulher unida comigo! E, apesar de ser uma tolice
rematada, o velho fssil no ter dvida em dizer que sim, que case l com a
menina Pousselevent, Coupelevent. . ou como se chama ela... Pois est enganado,
senhor No consinto, no consinto!
     - Meu pai.
     - No consinto!... Ao ver o acento com que o velho pronunciava este no
consinto, Mrio perdeu toda a esperana e atravessou lentamente o quarto, de
cabea curvada e cambaleando, mais com ar de um moribundo do que de um
homem que se retira. Ao ver que o rapaz se retirava, que j sobre ele se ia fechar a
porta, Gillenormand, que o no perdia de vista, por um desses rpidos
movimentos peculiares aos velhos impetuosos, encaminhou-se para a porta,
agarrou em Mrio pela gola do casaco, arrastou-o para dentro do quarto e
exclamou, atirando-o para uma cadeira:
     - Conte-me j isso!
     Esta tremenda revoluo causara-a aquela simples frase meu pai, que Mrio
deixara escapar.
     O rapaz encarou-o com olhar desvairado. O cambiante rosto de
Gillenormand no exprimia, mais do que uma agreste, mas inefvel bondade.
Tinha sucedido  severidade de h pouco uma quase meiguice.
     - Vamos, seu pateta; ponha-me isso em pratos limpos. Conte l a histria dos
seus namoricos! Estes rapazes de agora sempre so muito toleires!
     - Meu pai... - tornou Mrio.
     A estas palavras, o rosto de velho como que se iluminou de um inexprimvel
claro.
     - Isso, isso, assim! Chama-me pai e vers!
     Os modos rudes de Gillenormand pareciam agora to cheios de bondade, to
meigos, to francos, to paternais, que Mrio, nesta sbita passagem do desalento
para a esperana, ficou como que desfalecido e embriagado. Gillenormand
contemplava-o cheio de pasmo, porque s agora que o rapaz estava sentado junto
 mesa, onde ardiam as duas velas,  que notava o triste estado do seu vesturio.
     - Pois ento, meu pai... - disse Mrio.
     - Nada - atalhou Gillenormand - agora vejo que, realmente, ests num estado
miservel! Eu, se te visse numa estrada com semelhante trajo, tomava-te por um
ladro!
     Foi a uma gaveta, tirou uma bolsa e disse, pousando-a em cima da mesa:
     - Aqui tens cem luzes para comprares um chapu.
     - Oh, meu pai, meu bom pai! - prosseguiu Mrio. - No imagina como eu a
amo!
     Eu no sei como isto foi. Vi-a pela primeira vez no Luxemburgo, onde ela
costumava ir passear. Ao princpio, nem para ela olhava, mas depois, sem saber
como, principiei a am-la. Foi a minha desgraa! Agora falo com ela todos os dias,
l na casa onde mora, e sem o pai saber; eu entro pelo jardim e ela vem ter
comigo. Mas veja que desgraa!
     Disselhe o pai que se aprontasse, porque dentro de poucos dias partiriam para
Inglaterra. Apenas eu soube semelhante coisa, disse comigo: Vou procurar meu
av e contar-lhe tudo, porque eu, se no caso com ela, endoideo, morro de
pesar! Ora aqui tem tudo como . Creio que no omiti nada. Ela mora na rua
Plumet, numa casa que tem um jardim tapado por uma grade. Fica mesmo nas
proximidades dos Invlidos.
     Gillenormand sentara-se junto de Mrio, com gesto radiante e saboreando
uma farta pitada, ao mesmo tempo que saboreava o som da voz do rapaz. 
palavra rua Plumet, o velho interrompeu a sua aspirao e exclamou, deixando
cair o resto da pitada sobre os joelhos:
     - Rua Plumet? Tu disseste na rua Plumet? Ora deixa ver... Nessa rua no fica
um quartel? Fica, fica, no h dvida. Teu primo Theodulo, aquele lanceiro, o
oficial, tem-me falado nisso Ora vejam, um namorico!  isso, ; rua Plumet,
chamada dantes rua Blomet. Agora me lembro. Eu j ouvi falar nessa pequena da
rua Plumet. Ora, ora!
     Num jardim! Alguma Pamela. No tens mau gosto! Aqui para ns, suponho
que o pateta do lanceiro tambm por l andou a fazer-lhe o seu bocado de
namoro. No sei a que termos isso chegou Mas, enfim, no quer dizer nada.
Quanto mais,  um toleiro que se gaba do que no faz, e por isso  preciso estar
com a pedra no sapato. Olha, Mrio, realmente parece-me bem que um rapaz
como tu se apaixone por uma rapariga.
      prprio da idade em que ests. Antes te quero assim do que jacobino.
Estimo mais que te enamorasses de uma pequena, de vinte pequenas, com mil
pipas!, do que do senhor Robespierre! Pela minha parte, declaro que em matria
de sansculotte no engrao seno com as mulheres Ora adeus! As raparigas
bonitas so sempre as raparigas bonitas; a isto no h que objectar. Mas tornando
 pequena. Com que ento, falando s escondidas do pap? Isso  da regra. Eu
disso tambm j posso contar. No foi uma nem duas! Sabes tu como essas coisas
correm? No se toma o caso a srio nem se precipita a gente no trgico; gozar e
andar Vai-se a casa do av, que sempre l tem a um canto algumas amarelas, e
diz-se-lhe: Meu av, passa-se isto E ele responde:
     Pois sim, sim, eu tambm j fui rapaz, bem sei por onde isso corre. Rapazes
so rapazes e o que querem  passar o seu tempo. Pega l duzentas pistolas e
diverte-te.
     Teus netos far-te-o o mesmo e tu responder-lhes-s como eu. Vai, vai, e goza
enquanto  tempo. Vs como se arranjam estas coisas? L casar isso nem por
sombras!
      uma coisa escusada, no sei se percebes?... Mrio, que se achava petrificado
e em estado de no poder articular uma s palavra, acenou com a cabea que no,
e o velho desatou a rir, piscando-lhe o olho e batendo-lhe com a mo no joelho.
     Depois fitou-o com ar misterioso, mas alegre, e exclamou, encolhendo os
ombros com gesto da maior meiguice:
     - Pateta, quero dizer que faas dela tua amante!
     Mrio empalideceu. De quanto o velho tinha dito no compreendera uma s
palavra Toda aquela algaravia de rua Blomet, de Pamela, de quartel e lanceiro
passara-lhe por diante como uma fantasmagoria. Nada daquilo podia referir-se a
Cosette, que era um lrio. O velho divagava, porm esta divagao terminava por
uma frase que Mrio compreendera e que era uma mortal injria para Cosette.
Aquela frase que faas dela tua amante! penetrou como uma espada no corao
do rapaz.
     Levantou-se portanto, pegou no chapu, que jazia no cho, e encaminhou-se
para a porta, com passo firme e seguro. Ao transpor o limiar, voltou-se, cortejou o
av com uma inclinao profunda, levantou a cabea com gesto decidido e
exclamou:
     - H cinco anos ultrajou meu pai, senhor; hoje ultraja minha mulher. J no
lhe peo mais nada. Adeus!
     Gillenormand, estpido de pasmo, abriu a boca, estendeu os braos, tentou
erguer-se, porm antes dele ter tempo de proferir uma palavra, aporta fechou-se e
Mrio desapareceu.
     Decorridos alguns instantes, durante os quais o pobre velho se conservou
imvel e como fulminado, sem poder falar nem respirar, como se uma mo de
ferro lhe apertasse a garganta, levantou-se, por fim, da cadeira, correu para a porta
com a velocidade que lhe permitiam os seus noventa e um anos, abriu-a e gritou:
     - Acudam! Acudam!
     Aos gritos de Gillenormand acudiu sua filha, em seguida os criados, e ele
continuou em tom lastimoso e quase sufocado:
     - Corram atrs dele, agarrem-no! Que mal lhe fiz eu? Ele est doido! L vai!
Meu Deus! Meu Deus! Desta vez vai e no torna a voltar! E dirigiu-se  janela que
deitava sobre a rua, abriu-a com as trmulas mos e comeou a gritar, meio
debruado sobre o peitoril, enquanto Biscainho e Nicolette o seguravam.
     - Mrio! Mrio! Mrio!
     Porm, Mrio j o no podia ouvir, porque a este tempo dobrava a esquina da
rua de S. Lus.
     O contristado octogenrio apertou ento por duas ou trs vezes com gesto de
angstia a cabea entre as mos, recuou, cambaleando, at junto de uma cadeira, e
deixou-se, por fim, cair nela, sem pulso nem voz, sem poder suster as lgrimas,
com a cabea pendente, os lbios trmulos, o gesto estpido, os olhos embaciados
e o corao enlutado, como se um vu negro lho cobrisse.


L09:
    LIVRO NONO
    Que destino  o seu?



    I
    Joo Valjean



     Quer fosse por prudncia, quer por desejo de se concentrar todo em si, quer,
finalmente, em virtude de uma dessas insensveis mudanas de hbitos, que pouco
a pouco se introduzem em todas as existncias, Joo Valjean, por esta poca, s
muito raras vezes se resolvia a sair com Cosette. As quatro horas do mesmo dia
em que Mrio foi a casa de seu av, achava-se ele s, sentado na base de um dos
taludes mais solitrios do Campo de Marte, vestido com a sua jaqueta de operrio
e umas calas de fazenda escura, tendo na cabea o seu bon de comprida viseira,
que lhe escondia quase todo o rosto. Os seus temores e apreenses a respeito de
Cosette tinham passado; o que durante algum tempo o assustara e perturbara
tinha-se dissipado; porm havia uma ou duas semanas que o torturavam
ansiedades de outra natureza.
     Um dia, andando a passear no boulevard, avistara Thenardier; graas ao
disfarce, Thenardier no o conhecera; porm, da por diante, Joo Valjean
tornou-o a ver muitas vezes e actualmente tinha a certeza de que ele girava pelas
imediaes da sua casa da rua Plumet. Esta circunstncia bastara para o fazer
tomar uma resoluo decisiva. Em Thenardier resumiam-se todas as espcies de
perigos. Alm disto, Paris principiava de se alvoroar, e destas perturbaes
polticas resultava o inconveniente, em verdade gravssimo para quem tinha a
ocultar algum facto da sua vida, de que a polcia se tinha tornado em extremo
desassossegada e sombria, podendo portanto acontecer que ela, procurando um
homem como Pepin ou Morey, descobrisse outro homem como Joo Valjean. Por
conseguinte, Joo Valjean resolvera sair de Paris e at de Frana, e passar a
Inglaterra. Prevenira Cosette da sua resoluo e queria partir antes de oito dias.
Naquela tarde, sentara-se no talude do Campo de Marte e pusera-se a perpassar
pelo esprito todas estas coisas: Thenardier, a polcia, a viagem e a dificuldade de
conseguir um passaporte.
     Todos estes pensamentos, portanto, o tornavam sobremodo cuidadoso.
     Acrescia ainda, para maior desassossego dele, um facto inexplicvel e recente,
de que ele ainda estava muito impressionado. Na manh daquele dia, tendo-se
levantado muito cedo e andando a passear no jardim, antes de Cosette abrir as
janelas do seu quarto, dera de chofre com os olhos nesta linha gravada na parede,
talvez com algum prego:
     Rua dos Vidraceiros, nmero 16.
     isto parecia recentssimo. Os traos, destacando-se vivamente do fundo
escuro da parede, inculcavam estar de fresco, e junto desta via-se uma moita de
urtigas recentemente calcadas e cobertas do p fino da cal que cara ao abrir das
letras. Evidentemente, aquilo tinha sido escrito naquela noite. Mas que era? Um
aviso para ele? Um sinal para algum? Em todo o caso, era evidente que o jardim
fora violado, penetrando nele quem quer que fosse. Vieram-lhe ento  lembrana
os estranhos incidentes que j por duas ou trs vezes tinham derramado o susto
em casa, entrou da em conjecturas e para logo resolveu no falar no caso a
Cosette para a no assustar.
     No meio destas preocupaes, conheceu que algum acabava de parar por
trs dele, pela sombra que um vulto produzira no espao alumiado pelo Sol. Ia,
portanto, a voltar-se -e a erguer os olhos para o cimo do talude, quando sobre os
joelhos lhe caiu um papel dobrado em quatro como se algum o tivera deixado
cair por cima dele.
     Pegou no papel, abriu-o e leu estas palavras, escri tas a lpis em letra garrafal:
MUDE DE CASA
     Joo Valjean ergueu-se com presteza, porm j no viu ningum sobre o
talude; circunvagou a vista em torno e deu com os olhos numa espcie de criatura,
com mais corpo do que uma criana e menos do que um homem, vestida com
uma blusa escura e umas calas de veludilho russo, saltando o parapeito e
desaparecendo no fosso do campo de Marte.
     Aps isto, Joo Valjean recolheu-se imediatamente a casa, ainda mais
pensativo do que dela sara.



    II
    Mrio



   Mrio sara desorientado de casa de Gillenormand, tinha ali entrado com
uma esperana pequenssima; sara com um desespero imenso.
     No fim de tudo os que tm observado os recessos do corao devem
compreend-lo o lanceiro, o oficial, o papalvo, o primo Theodulo, no lhe tinham
deixado a mnima sombra no esprito. Nem a mais leve. O poeta dramtico
poderia pela aparncia esperar algumas complicaes daquela revelao feita 
queima-roupa pelo av. Mas o que o drama podia nisso ganhar perdia-o a
verdade. Mrio estava na idade em que no se acredita nada do que respeita ao
mal. As suspeitas no so mais do que as rugas. A mocidade no as tem. O que
transtorna Otelo, resvala em Cndido.
     Suspeitar de Cosette!
     H uma multido de crimes que Mrio teria cometido mais facilmente.
     Comeou a andar pelas ruas ao acaso recurso dos que sofrem. No pensou em
coisa nenhuma de que pudesse recordar-se.
     s duas horas da manh recolheu-se a casa de Courfeyrac e deitou-se
inteiramente vestido sobre o seu colcho. Ia j alto o sol quando adormeceu, mas
com o medonho sono pesado que deixa as ideias agitarem-se no crebro. Quando
acordou viu em p no meio do quarto e prontos para sair, Courfeyrac, Enjolras,
Feuily e Combeferre.
     - No vens ao enterro do general Lamarque? - perguntou-lhe Courfeyrac.
     Pareceu a Mrio que Courfeyrac lhe falara em chins.
     Saiu pouco depois deles. Meteu na algibeira as pistolas que Javert lhe confiara
na ocasio da aventura no dia 3 de Fevereiro e que tinham ficado em suas mos.
As pistolas estavam ainda carregadas. Seria difcil dizer que pensamento obscuro
tinha ele no esprito levando-as consigo.
     Divagou durante todo o dia sem saber por onde; de vez em quando chovia,
mas ele nem dava por isso; comprou num padeiro, para jantar, um pequeno po,
meteu-o na algibeira e esqueceu-se dele. Parece que tomou tambm um banho no
Sena, sem ter a conscincia do que fazia. H momentos em que o crebro parece
conter uma fornalha. Mrio estava num destes momentos. J no tinha esperana
nem temia nada; dera aquele passo na vspera. Esperava a noite com uma
impacincia febril; no tinha seno uma ideia clara; era que s nove horas veria
Cosette. Esta ltima felicidade era por ento todo o seu futuro; depois a sombra.
De vez em quando, caminhando pelos boulevards mais desertos, parecia-lhe ouvir
desusados rumores na cidade. Deitava a cabea fora da sua abstraco e dizia:
Estaro combatendo? Pouco depois de anoitecer, s nove horas em ponto, como
prometera a Cosette, estava na rua Plumet. Quando se aproximou da grade,
esqueceu-se de tudo. Havia quarenta e oito horas que no via Cosette; ia tornar a
v-la; todos os outros pensamentos se desvaneceram; e no sentiu mais do que a
inaudita e profunda alegria Os minutos em que se vive sculos tm de soberano e
de admirvel que no momento em que passam preenchem inteiramente o
corao.
     Mrio tirou o varo da grade e precipitou-se no jardim. Cosette no estava l.
     Ergueu os olhos e viu que as janelas estavam fechadas por dentro e por fora.
Percorreu o jardim todo em volta; o jardim estava deserto. Ento voltou ao p da
casa, e insensato de amor, embriagado, assustado, exasperado pela dor e pela
inquietao, como um dono de casa que entra para ela a m hora, bateu nas
janelas. Bateu, tornou a bater, com o risco de ver abrir-se a janela e aparecer-lhe
de frente o pai, perguntando-lhe o que queria.
     Mas isto nada era a par do que ele entrevia. Depois de ter batido, ergueu a voz
e chamou Cosette.
     - Cosette!
     Ningum no jardim; na casa ningum. Mrio fitou os olhos desesperados
naquela casa lgubre, to negra, to silenciosa, mais vasta do que um tmulo, e
olhou para o banco de pedra onde passara to adorveis horas ao lado de Cosette.
Ento sentou-se nos degraus da varanda com o corao cheio de doura e de
resoluo, abenoou o seu amor no fundo do pensamento e disse consigo, que
uma vez que Cosette partira, s lhe restava morrer.
     De repente ouviu uma voz que parecia vir da rua e que gritava atravs das
rvores:
     - Senhor Mrio!
     - Que ?! - disse ele, erguendo-se.
     - Est a, senhor Mrio?
     - Estou.
     - Os seus amigos esperam-no na barricada da rua da Chanvrerie - tornou a
mesma voz.
     Esta voz no lhe era de todo desconhecida. Assemelhava-se  voz rouquenha
e spera de Eponina.
     Mrio correu  grade, afastou o varo mvel, deitou a cabea de fora, e viu
algum que lhe pareceu um rapaz desaparecer, correndo, por entre as sombras da
noite.
    III
    O senhor Mabeuf



     A bolsa de Joo Valjean tinha sido intil para o senhor Mabeuf. O infeliz
velho, com a sua veneranda austeridade infantil, resolvera no aceitar o presente
das estrelas, porque, no seu entender, era inadmissvel que um astro se
convertesse em luzes de ouro. Ignorando, portanto, que o inesperado auxlio
cado das nuvens vinha de Gavroche, fora entregar a bolsa ao comissrio de
polcia do bairro, como objecto perdido, para ser restitudo a quem mostrasse que
de direito lhe pertencia. Escusado  dizer que ningum apareceu a reclamar, e que,
portanto, a bolsa ficou realmente perdida, pois nem socorreu o pobre velho nem
voltou s mos do seu dono.
     As circunstncias crticas em que veio dar com ele aquele intil socorro cada
vez se agravaram mais.
     O resultado das experincias sobre o anil no tinha sido mais satisfatrio no
Jardim das Plantas do que o fora no seu quintal de Austerlitz. No ano antecedente,
devia as soldadas  velha que o servia; actualmente, como se viu, devia o aluguer
da casa em que habitava. Ao cabo de treze meses de espera baldada, o Monte de
Piedade vendera-lhe as chapas da sua Flora, que foram talvez -empregar-se nas
caarolas de algum caldeireiro. Deste modo, impossibilitado at de completar os
exemplares trancados que ainda possua da sua obra, resolvera vend-los, o que
fez a um livreiro alfarrabista, que lhe deu por eles uma diminuta quantia, em
virtude de considerar tudo como papel de embrulhos. Da obra, portanto, em que
consumira parte da sua vida, nada lhe restava j. Quando viu que o pequeno
produto desta venda se lhe ia tambm exaurindo, como todos os outros recursos
de que tinha lanado mo, renunciou  cultura do seu jardim, deixando crescer
nele as ervas  sua vontade.
     Quanto aos dois ovos e ao bocado de carne que de tempos a tempos
costumava comer, a esses j h muito que ele tinha renunciado. O seu jantar,
actualmente, consistia num bocado de po e algumas batatas. Levado de degrau
em degrau pelo brao da misria, vira-se obrigado a vender, primeiro os poucos
mveis que j lhe restavam, em seguida todas as peas de bragal e roupa de cama,
que tinha em duplicado, e afinal, os ervrios e as estampas. Restavam-lhe porm
ainda os seus livros mais preciosos, alguns dos quais eram, realmente, rarssimos,
tais como os Quadros Histricos da Bblia, edio de 1560, a Concordncia das
Bblias, de Pedro de Bessa, As Margaritas da Margarita, de Joo de Haya, com
uma dedicatria  rainha de Navarra, o livro do Cargo e dignidade do embaixador,
por Villiers Hotman, um Florilegium rabbinicum, de 1644, um Tibullo de 1567,
com esta esplndida inscrio Venefiis, in ozdibus Manuiianis; finalmente, um
Diogenes Laercio, impresso em Leo em 1644, no qual se encontravam as clebres
variantes do manuscrito 411, sculo XIII, pertencente ao Vaticano, e as dos dois
manuscritos de Veneza, 393 e 394, to proveitosamente consultados por Henrique
Mestienne, e todas as passagens, em dialecto drico, que se no encontram seno
no clebre manuscrito do sculo XII, pertencente  biblioteca de Npoles.
     No quarto do senhor Mabeuf nunca se acendia lume.
     Antes de anoitecer, deitava-se para no gastar luz. Quando ele saa, os
vizinhos fugiam de se encontrar com ele, e tanto  descautela, que para o pobre
velho no era desconhecido o empenho que todos punham em evit-lo. A misria
traz consigo este achaque, que no , ainda assim, privativo de todas as misrias. A
misria de uma criana interessa alguma me. A misria de um rapaz interessa a
uma rapariga, a misria de um velho a ningum interessa.  de todas as penrias a
mais erma de simpatias. Apesar de tudo isso, porm, Mabeuf no tinha perdido
inteiramente a sua infantil serenidade. Os olhos animavam-se-lhe de um tal ou
qual claro, quando os fitava nos seus livros, e at pareciam sorrir, quando o livro
em que os fixava era o seu Digenes Laercio, que era um exemplar nico. Alm
dos objectos de mais absoluta preciso, o nico dos mveis que conservava era o
seu armrio envidraado.
     Um dia, a tia Plutarco disselhe:
     -  senhor Mabeuf, eu no tenho com que fazer as despesas para o jantar.
     O que ela denominava jantar era um po e quatro ou cinco batatas.
     - Ento nem fiado? - perguntou, como hesitando, o pobre velho.
     - Bem sabe que j ningum nos quer fiar.
     O senhor Mabeuf dirigiu-se ao armrio, repositrio sagrado dos seus mais
preciosos haveres, abriu-o, ps-se a contemplar detidamente, uns aps outros,
todos os livros da sua biblioteca, com o gesto com que um pai que se visse forado
a dizimar seus filhos, antes de escolher, os correria primeiro com a vista
demoradamente, at que, por fim, pegou repentinamente num, meteu-o debaixo
do brao e saiu. Da a duas horas, voltou, sem nada debaixo do brao, deitou trinta
soldos acima da mesa e disse:
     - Aqui est para o jantar.
     Desde ento, a serena fronte do velho cobriu-se de um vu sombrio, que a tia
Plutarco nunca mais viu esvaecer-se para voltar  primitiva limpidez.
     Ao outro dia e no seguinte, e em todos os mais que se foram sucedendo,
repetia-se igual cena. Mabeuf saa com um livro e entrava com uma moeda de
prata. Os livreiros, como conheciam que o pobre velho vendia por preciso,
compravam-lhe por vinte soldos o que lhe tinha custado vinte francos, s vezes
nas lojas dos mesmos a quem agora vendia. Volume a volume ia, contudo,
passando a novo possuidor toda a livraria do bom velho. As vezes dizia ele:
     -  o mesmo; eu estou com oitenta anos... - como se por isto quisesse
exprimir no sei que secreta esperana de ver terminar seus dias antes de ver nas
mos dos livreiros o ltimo volume da sua biblioteca.
     De dia para dia aumentava a sua tristeza. Uma ocasio, porm, esta cessou
para dar lugar a uma inesperada alegria. Mabeuf saiu com um Roberto Esitienne,
que vendeu por trinta e cinco soldos no cais de Malaquias, e voltou com um Aldo,
que comprara por quarenta na rua de Grs.
     - Fiquei a dever cinco soldos! - disse ele, transbordando de prazer,  pobre
velha que o servia.
     Nesse dia no jantou.
     Mabeuf era membro da Sociedade de Horticultura e a crtica posio em que
se via era conhecida dos seus colegas.
     Uma ocasio, o presidente da citada sociedade procurou-o, prometendo-lhe
interceder por ele para com o ministro do comrcio e agricultura, e,
efectivamente, cumpriu a sua promessa.
     - Como! - exclamou o ministro. - Pois  possvel! Um sbio ancio! Um
botnico!
     Um homem inofensivo! Na verdade,  credor da minha ateno!
     No dia seguinte, Mabeuf foi convidado para jantar em casa do ministro.
Mostrou a carta de convite  tia Plutarco, trmulo de alegria, e exclamou:
     - Estamos salvos!
     No dia marcado apresentou-se em casa do ministro, notando, porm, que os
agaloados criados mostravam certo ar de admirao ao aspecto da sua desbotada
gravata, do seu casaco pouco moderno e dos seus sapatos engraxados com saliva.
     Ningum lhe falou, nem mesmo o ministro, porm no se deu por despedido
e esperou. As dez horas da noite passou a mulher do ministro, formosa dama,
decotada, de quem o pobre velho no ousou aproximar-se, e perguntou a um dos
criados:
     - Quem  aquele velhito que ali est?
     A meia-noite, cansado de esperar, recolheu-se a casa, a p, debaixo de gua e
em extremo contristado.  ida fora de sege, porm tivera de vender para a pagar
um Elzevir, que era ainda um dos ornamentos da sua quase exausta biblioteca.
      noite, antes de se deitar, Mabeuf lia sempre algumas pginas do seu
Digenes Laercio. Era um hbito que contrara e de que nem as suas privaes lhe
davam vontade de desfazer-se.
     Bastante versado na lngua grega, estava, portanto, apto para apreciar todas as
minuciosidades do texto que possua, e, actualmente, tambm era esse o seu nico
passatempo. Assim decorreram algumas semanas. De repente, a pobre velha que o
servia adoeceu. H ainda coisa mais triste do que no ter com que comprar po ao
padeiro:  no possuir meios para pagar os remdios ao boticrio. Uma ocasio, 
noite, veio o mdico e receitou uma beberagem em extremo cara. Como se isto
no bastasse, a molstia agravava-se e o estado da doente estava reclamando a
assistncia de uma enfermeira. Mabeuf dirigiu-se  sua biblioteca, abriu-a, e a
biblioteca estava vazia.
     O derradeiro volume tinha seguido o caminho dos outros. Restava-lhe pura e
simplesmente o aprecivel e apreciado Digenes Laercio.
     Era no dia 4 de Junho de 1832. Meteu o exemplar nico debaixo do brao e
saiu.
     Dirigiu-se  porta de S. Jacques e voltou para casa com cem francos no bolso.
     Encaminhou-se ao quarto da velha enferma, pousou o rolo dos cem francos
em cima do velador e recolheu-se ao seu quarto, sem proferir uma palavra.
     Ao outro dia, apenas amanheceu, ergueu-se, foi-se sentar para o jardim no
pio derrubado, que arvorara em banco, e a o poderia ver quem espreitasse por
cima da sebe, toda a manh, imvel, com a cabea pendida para o peito, os olhos
vagamente fixos nos descurados alegretes e em tal estado de abstraco, que nem
da chuva, que de espao a espao caa, parecia dar f.
     Pelo meio da tarde principiaram a ouvir-se extraordinrios sussurros para o
lado de Paris. Pareciam tiros de espingarda e gritos clamorosos de uma multido
em desordem.
     O pobre velho levantou a cabea e perguntou a um hortelo que ia a passar:
     - Que barulho  aquele?
     O hortelo parou, com a sua enxada s costas, e respondeu no mais
fleumtico tom de voz:
     -  o povo em desordem.
     - Como? O povo em desordem?
     - Sim, senhor. J no faltam tiros nem espadeiradas!
     - E porque ?
     - Quem sabe l! - respondeu o hortelo.
     - Para que lado ? - tornou o senhor Mabeuf.
     - Para a banda do Arsenal.
     Mabeuf recolheu-se a casa, pegou no chapu, procurou maquinalmente um
livro para o meter debaixo do brao, porm, como o no achasse, exclamou:
     - Ai,  verdade! - e saiu com ar desvairado.


L10:
    LIVRO DCIMO
    O dia 5 de Junho de 1832



    I
    A superfcie da questo



     De que se compe uma revolta? De tudo e de nada. De uma electricidade
lentamente desenvolvida, de uma chama subitamente produzida, de uma fora
vacilante, de uma rajada que passa. Esta rajada, porm, encontra no seu caminho
cabeas que falam, crebros que meditam, almas que sofrem, paixes que
queimam, misrias que rugem, e leva-as consigo.
     Para onde?
     Ao acaso. De encontro ao Estado, de encontro s leis, de encontro ao
bem-estar e  insolncia dos outros. Convices irritadas, entusiasmos
exasperados, indignaes agitadas, compresso dos instintos de guerra, exaltao
de valor entre os mancebos, cegueiras generosas; a curiosidade, o gosto das
inovaes, o desejo de coisas extraordinrias, o sentimento que nos leva a ler com
prazer o cartaz de um novo espectculo e a ouvir gostosos no teatro o apito do
maquinista para as transmutaes cnicas; os dios vagos, os rancores, os
desapontamentos, as vaidades que se julgam vtimas de uma bancarrota do
destino; a falta de meios, os sonhos ocos, as ambies difceis de saciar, os que
esperam que o desabamento lhes abra uma sada; finalmente, mais em baixo, a
multido, essa lama que se incendeia; eis os elementos da revolta.
     As coisas maiores e as mais pequenas; os entes que giram por fora de tudo, 
espera de ensejo, bomios, gente sem ocupao, vagabundos das encruzilhadas, os
que  noite dormem num deserto povoado de casas, sem mais tecto que as nuvens
frias que passam pelo espao, os que pedem cada dia o po, de que se ho-de
alimentar, ao acaso e no ao trabalho, os aventureiros da misria e do nada, os
braos nus, os ps descalos, tudo isto pertence  revolta.
     Todo o que abriga no peito um oculto sentimento de rebelio contra qualquer
facto do Estado, da vida ou da sorte, confina com a revolta, e, apenas esta rebenta,
principia a agitar-se e a sentir-se impelido pelo turbilho.
     A revolta  uma espcie de tromba da atmosfera social, que repentinamente
se forma, mediante certas condies de temperatura, e que, no seu redemoinhar,
sobe, corre, detona, arranca, arrasa, esmaga, derruba, arrastando consigo as
grandes naturezas e as que o no so, o homem forte e o esprito fraco, o tronco de
rvore e o fragmento de palha.
     Desgraado tanto do que  arrebatado como do que lhe sofre o choque,
porque ambos ficam esmagados.
     No sei que extraordinrio poder ela comunica queles que absorve. Enche o
primeiro que topa da fora dos acontecimentos; de tudo faz projcteis. De um
seixo faz uma bala, de um carrejo um general.
     A darmos crdito a certos orculos da poltica hipcrita, as revoltas, com
relao ao poder, no deixam de ser mais ou menos proveitosas. Para assim o
afirmar fundam-se neste sistema: As revoltas consolidam um governo, todas as
vezes que o no derrubam.
     Servem de prova para o exrcito; concentram a burguesia; distendam os
msculos da polcia; servem, enfim, para verificar a fora da ossada social.  uma
ginstica e quase uma higiene. Quase sempre o poder passa melhor depois de um
tumulto, como acontece ao homem depois de uma frico.
     H trinta anos, as revoltas eram ainda consideradas sob outros pontos de
vista.
     H uma teoria universal que serve para, tudo e que a si mesma se proclama o
bom-senso; Filinto contra Alcestes, mediao oferecida entre a verdade e a
falsidade; explicao, advertncia, atenuao com ressaibo de sobranceria, que,
por ser entremeada de censura e desculpa, passa por sabedoria, e, de ordinrio,
no  mais do que pedantismo. Isto, porm, deu origem a uma escola poltica, a
que se ps o nome de partido moderado, isto , partido da gua morna, porque
fica entre a gua fria e a gua quente. Esta escola, apesar da sua falsa
profundidade, toda superficial, que disseca os efeitos sem remontar s causas,
repreende do alto de uma meia cincia, as agitaes da praa pblica.
     Segundo esta escola: As revoltas que complicaram o facto de 1830 tiraram a
este grande acontecimento parte da sua pureza. A revoluo de Julho tinha sido
uma bela rajada de vento popular, repentinamente seguida do mais belo cu azul.
As revoltas fizeram reaparecer o cu nebuloso. Fizeram degenerar em disputa
aquela revoluo em comeo to notvel pela unanimidade. Na revoluo de
Julho, como em todo o progresso de repelo, houvera fracturas secretas; a revolta
tornou-as sensveis.
     Puderam dizer: Eis aqui isto que est quebrado. Depois da revoluo de Julho
no se sentiu seno a alforria; depois das revoltas sentiu-se a catstrofe.
     Toda a revolta fecha as lojas, deprime os fundos, consterna a praa;
suspende o comrcio, paralisa os negcios, precipita as quebras; o numerrio
desaparece, as fortunas particulares inquietam-se, o crdito pblico  abalado, a
indstria perde o equilbrio, os capitais recuam, o trabalho falta, o medo  geral;
tudo isto se repercute em todas as cidades. Daqui os pegos. Calculou-se que o
primeiro dia de revolta custou  Frana vinte milhes, o segundo quarenta, e o
terceiro sessenta. Uma revolta de trs dias custa cento e vinte milhes, isto ,
atendendo-se s ao resultado financeiro  equivalente a um desastre, naufrgio ou
batalha perdida, que aniquilasse uma esquadra de sessenta naus de linha.
     Historicamente, no h dvida que as revoltas tiveram sua beleza; a guerra
das ruas no  menos grandiosa nem menos pattica do que a guerra das moitas;
numa reside a alma das florestas, na outra o corao das cidades; uma tem Joo
Chouam, a outra tem Joana. As revoltas iluminaram de vermelho, mas
esplendidamente, todas as salincias mais originais do carcter parisiense, a
generosidade, a dedicao, a alegria tempestuosa, os estudantes provando a
aliana da bravura com a inteligncia, a guarda nacional inabalvel, os
acampamentos dos legistas, as fortalezas de gaiatos, o desprezo da morte nos que
passavam Escolas e legies embatiam-se.
     No fim de tudo, entre os combatentes no havia seno a diferena da idade;
 a mesma raa; so os mesmos homens esticos que morrem aos vinte anos pelas
suas ideias, e aos quarenta pelas suas famlias. O exrcito, sempre triste nas
guerras civis, opunha a prudncia  audcia As revoltas, ao passo que
manifestaram a intrepidez popular, educaram a coragem burguesa Muito bem
Mas vale tudo isto o sangue derramado? E ao sangue derramado juntai o futuro
sombreado, o progresso comprometido, a inquietao entre os melhores, os
liberais honestos e desesperados, o absolutismo estrangeiro satisfeito por ver a
revoluo ferida por si mesma, os vencidos de 1830 triunfando e dizendo: Bem o
tnhamos dito! Juntai Paris, talvez engrandecido, mas a Frana
inquestionavelmente deprimida. Juntai, porque  necessrio dizer tudo, as
carnificinas que desonravam, muitas vezes a vitria da ordem tornada feroz sobre
a liberdade enlouquecida.
     Em concluso as revoltas foram funestas.
     Assim fala esta quase sabedoria com que a burguesia, esse quase povo, se
contenta de to boa vontade.
     Quanto a ns repelimos a palavra revoltas demasiadamente elstica, e por
consequncia demasiadamente cmoda. Entre os movimentos populares fazemos
distino. No queremos saber se uma revolta custa tanto como uma batalha? Em
primeiro lugar, porque razo uma batalha? Aqui surge a questo A guerra 
porventura menos flagelo do que a revolta calamidade? E depois, as revoltas so
todas calamidades?
     E quando mesmo o 14 de Julho custasse cento e vinte milhes? A colocao
de Filipe V em Espanha custou  Frana dois mil milhes. Mesmo por igual preo
preferamos o 14 de Julho. Demais, repelimos estes algarismos, que parecem
razes e que no passam de palavras Dada uma revolta examinamo-la em si
mesma. Em tudo o que diz a objeco doutrinria que acabmos de expor, no se
trata seno do efeito; ns procuramos a causa.
     Resumamos.



    II
    O mago da questo



     H revolta e h insurreio; so duas cleras: uma contm o agravo, a outra o
direito. Nos estados democrticos, nicos baseados na justia, sucede algumas
vezes a fraco usurpar; ento ergue-se o todo, e a necessria reivindicao do seu
direito pode lev-lo at pegar em armas. Em todas as questes que dimanam da
soberania colectiva, a guerra do todo contra a fraco  insurreio; segundo as
Tulherias contm o rei ou a Conveno, assim elas so justas ou injustamente
atacadas. A mesma boca de fogo assestada contra a multido  um erro em 10 de
Agosto, e deixa de o ser em 14 vendmaire. Aparncia semelhante, fundo
diferente: os suos defendem o que  falso, Bonaparte o que  verdadeiro. O que
foi feito pelo sufrgio universal, em sua liberdade e soberania, no pode ser
desfeito pela rua. Do mesmo modo as coisas de pura civilizao: o instinto das
massas, ontem perspicaz, pode estar turvo amanh. A mesma fria  legtima
contra Terray e absurda contra Turgot. A destruio de mquinas, o roubo de
armazns, as rupturas de carris, a demolio de docas, os falsos caminhos seguidos
pelas multides, as recusas de justia do povo ao progresso. Ramus assassinado
pelos estudantes, Rousseau expulso da Sua s pedradas,  a revolta.
     Israel contra Moiss, Atenas contra Phocion, Roma contra Scipio,  a
revolta; Paris contra a Bastilha,  a insurreio.
     Os soldados contra Alexandre, os marinheiros contra Cristvo Colombo,  a
mesma revolta; revolta mpia; porqu? Porque Alexandre fez para a sia com a
espada, o que Cristvo Colombo fez para a Amrica com a bssola; Alexandre,
como Colombo, acha um mundo. Estes presentes de mundos  civilizao so tais
argumentos de luz, que toda a resistncia que se lhe oponha  culpada. Algumas
vezes o povo falta  fidelidade a si mesmo. A multido  traidora ao povo. H, por
exemplo, nada mais estranho do que o longo e extravagante protesto de falsos
Saulniers, legtima revolta crnica, que, no momento decisivo, no dia da salvao,
quando soa a hora da vitria popular, desposa o trono, transforma-se em
chouanneie, e de insurreio contra, se faz revolta a favor! Sombrias obras-primas
de ignorncia! O falso Saulnier escapa s forcas reais, e, com. um resto de corda ao
pescoo, arvora o lao branco.
     Morto nas Gabelas d  luz. Viva o rei. Matadores de S. Bartolomeu,
degoladores de Setembro, carniceiros de Avinho, assassinos de Coligny,
assassinos da senhora de Lamballe, assassinos de Bruno, Miquelets, Verdets,
Cadenettes, companheiros de Jehu, cavaleiros do Brassard, eis o que  a revolta. A
Vendeia  uma grande revolta catlica.
     O rudo do direito em movimento reconhece-se e nem sempre sai da agitao
das massas perturbadas; h nele raivas loucas, h sinos rachados; os toques de
rebate no tm todos o som de bronze.
     A agitao das paixes  diferente da sacudidela do progresso. Erguei-vos,
mas para vos tornardes grandes. Mostrai-me para que lado ides. No h
insurreio seno para a frente. Qualquer outro levantamento  mau, todo o passo
dado violentamente para traz  revolta; recuar,  uma via de facto contar a
humanidade. A insurreio  o acesso de furor da verdade; as pedras de calada
que a insurreio revolve lanam a fasca do direito. Essas ruas no deixam 
revolta seno a sua lama Danton contra Lus XVI,  a insurreio; Hebert contra
Danton  a revolta.
     Procede daqui a insurreio, em dados casos, pode ser, como disse Lafayette,
o mais santo dos deveres, a revolta pode ser o mais fatal dos atentados.
     H nisto tambm alguma diferena na intensidade do calrico; a insurreio 
muitas vezes vulco, a revolta fogo de palha.
     A revolta, j o dissemos, reside por vezes no poder.
     Polignac  um revoltoso; Camilo Desmoulins  um governante.
     A insurreio , por vezes, a ressurreio.
     Sendo a soluo de tudo pelo sufrgio universal um facto absolutamente
moderno, e sendo toda a histria anterior a este facto, h quatro mil anos,
preenchida com o direito violado e com o sofrimento dos povos, cada uma das
suas pocas traz consigo o protesto que lhe  possvel Sob o domnio dos Csares
no havia insurreio, mas havia Juvenal.
     O facit indignatto substitui os Grachos.
     Sob os Csares h o desterrado de Syene, mas h tambm o homem dos
Annaes.
     No falamos do imenso desterrado de Patmos, que tambm abate o mundo
real com um protesto em nome do mundo ideal, faz da viso uma stira enorme, e
lana sobre Roma-Ninive, sobre Roma-Babilnia, sobre Roma-Sodoma, a
flamejante reverberao do Apocalipse.
     Joo sobre o seu rochedo  a esfinge sobre o seu pedestal, pode no ser
compreendida;  um judeu; a sua fala  hebraica; mas o homem que escreve os
Annaes  um latino; digamos melhor,  um romano.
     Como os Neros reinam de uma maneira escura, devem ser pintados pelo
mesmo modo. O trabalho do buril s por si, seria frouxo;  necessrio vazar nos
entalhes uma prosa concentrada que morda.
     Os dspotas produzem de certo modo os pensadores. Palavra encadeada, 
palavra terrvel.
     O escritor duplica e triplica o seu estilo, quando o silncio  prescrito por um
senhor ao povo. Deste silncio sai uma certa plenitude misteriosa, que filtra e se
coalha em bronze no pensamento. A compresso na histria produz a conciso no
historiador.
     A solidez grantica de tal ou tal prosa no  mais do que um amontoamento
feito pelo tirano.
     A tirania constrange o escritor a restries de dimetro, que so aumentos de
fora. O perodo ciceroniano, apenas suficiente sobre Verrs, embotar-se-ia sobre
Calgula. Quanto menor  a amplido da frase, maior  a intensidade do golpe.
Tcito pensa com toda a fora A honestidade de um grande corao, condensada
em justia e em verdade, fulmina.
      para notar, seja dito de passagem, que Tcito no est historicamente
sobreposto a Csar. Os Tibrios so-lhe reservados Csar e Tcito so dois
fenmenos sucessivos, cujo encontro parece misteriosamente evitado por aquele
que, na disposio da cena dos sculos, regula as entradas e as sadas. So grandes
Csar e Tcito; Deus poupa estas duas grandezas, no as fazendo embater uma na
outra. O justiceiro, ferindo Csar, podia ferir demasiadamente e ser injusto. Deus
no o quer. As grandes guerras de frica e de Espanha, a destruio dos piratas da
Siclia, a civilizao introduzida na Glia, na Bretanha, na Germania,  tudo glria
que cobre o Rubicon. H uma certa delicadeza da justia divina, hesitando em
largar ao usurpador ilustre o historiador formidvel, perdoando Tcito a Csar e
concedendo as circunstncias atenuantes ao gnio.
      Inquestionavelmente o despotismo fica despotismo, mesmo sob o dspota de
gnio. H nele corrupo sob o domnio dos tiranos ilustres, mas a perda moral 
mais hedionda ainda sob os tiranos infames. Em tais reinados nada vela a
vergonha e os que produzem exemplos, seja Tcito como Juvenal, esbofeteiam
com mais utilidade, em presena do gnero humano, esta ignomnia sem rplica.
      Rama cheira pior sobre Vitellio do que sob Sylla; sob Cludio e sob
Domiciano h ali uma deformidade de baixeza correspondente  fealdade do
tirano; a vilania dos escravos  um produto directo do dspota, daquelas
conscincias corrompidas em que se reflecte o senhor, exala-se um miasma; os
poderes pblicos so imundos; os coraes so pequenos, as conscincias so
chatas, as almas so percevejos; assim  sob o domnio de Caracalla, de Commodo
e de Heliogabalo; enquanto que do senado romano, no tempo de Csar, no sai
seno o cheiro de esterco, prprio do ninho da guia.
      Daqui a vinda, em aparncia tardia, dos Tcitos e dos Juvenais;  no
momento da evidncia que aparece o demonstrador.
      Mas Juvenal e Tcito, do mesmo modo que Isaas nos tempos Bblicos, do
mesmo modo que Dante na Idade-Mdia, so o homem; a revolta e a insurreio
so a multido, que ora labora no erro, ora. tem razo.
      Nos casos mais gerais, a revolta sai dum facto material; a insurreio  sempre
um fenmeno moral.
      A revolta  Mazaniello; a insurreio  Spartacus.
      A insurreio confina com o esprito, a revolta com o estmago; Gaster
irrita-se; mas Gaster, decerto, nem sempre est em erro. Nas questes de fome, a
revolta, Buzanais, por exemplo, tem um ponto de partida verdadeiro, pattico e
justo Todavia fica sempre revolta. Porqu? Porque tendo razo no fundo andou
errada na forma.
      Feroz, como quando tendo direito, violenta, conquanto forte, feriu ao acaso;
caminhou como o ofegante cego, esmagando tudo; deixou atrs de si os cadveres
dos velhos, das mulheres e das crianas; derramou, sem saber porqu, o sangue
dos inofensivos e dos inocentes Nutrir o povo  um excelente fim, assassin-lo 
um pssimo meio.
      Todos os protestos armados, ainda os mais legtimos, ainda o 10 de Agosto,
ainda o 14 de Julho, comeam com a mesma perturbao. Antes que o direito se
desembarace h o tumulto e escuma. No princpio a insurreio  revolta, do
mesmo modo que o rio  torrente Ordinariamente termina no oceano a
Revoluo. Todavia, a insurreio, algumas vezes, vinda das altas montanhas que
dominam o horizonte moral, a justia, a sabedoria, a razo, o direito, formada da
mais pura neve do ideal, depois de aturada queda de rocha em rocha, depois de ter
reflectido o cu em sua transparncia, depois de ter engrossado com cem afluentes
na majestosa marcha do triunfo, perde-se de repente em qualquer barranco
burgus, como o Reno num charco.
     Tudo isto  do passado; o futuro  diferente. O sufrgio universal tem isto de
admirvel; dissolve a revolta em seu princpio e desarma a insurreio dando-lhe
o voto. O desaparecimento das guerras, da guerra das ruas como da guerra das
fronteiras, tal  o inevitvel progresso. Seja hoje o que for, a paz  Amanh.
     No fim de tudo, a insurreio ou revolta, o burgus propriamente dito,
conhece pouco o que as diferena, no sabe em que a primeira difere da segunda.
Para ele tudo  sedio, rebelio pura e simples, revolta do co de fila contra seu
dono, ensaio de mordedura, que  preciso punir com a corrente e a casinhola,
uivo, latido, at ao dia em que a cabea do co, avolumada de repente, se esboa
vagamente na sombra qual fronte de leo.
     Ento o burgus grita:
     - Viva o povo!
     Dada esta explicao, o que  para a histria o movimento de Junho de 1832?
 uma revolta ou uma insurreio?
      uma insurreio.
     Poder suceder-nos, ao meter em cena este acontecimento terrvel, dizermos,
por vezes, a revolta, mas ser somente para qualificar os factos superficiais; a
distino entre a forma revolta e o fundo insurreio manter-se- sempre.
     O movimento de 1832 na sua rpida expulso e na sua lgubre extino teve
tanto de grandeza, que aqueles mesmos que no vm ali seno uma revolta, no
falam dele, sem respeito. Para eles  como um lesto de 1830. As imaginaes
agitadas, dizem eles, no se acalmam num dia. Uma revoluo no se corta a
prumo. Apresenta sempre e necessariamente algumas ondulaes antes de voltar
ao estado de quietao, como uma montanha tornando a descer para a plancie.
No h Alpes sem Jura, nem Pirinus sem Astrias.
     A crise pattica da histria contempornea, que a memria dos parisienses
denomina poca das revoltas,  inquestionavelmente uma hora caracterstica entre
as horas tempestuosas deste sculo.
     Mais uma palavra antes de entrarmos na narrao.
     Os factos que vo ser apresentados pertencem  realidade dramtica e viva
que a histria algumas vezes despreza, por falta de tempo e de espao.  todavia
nela, insistimos nisto, que est a vida, a palpitao, o estremecimento humano. Os
pormenores, julgamos t-los j dito, so, para assim dizer, a folhagem dos grandes
acontecimentos que se perdem nos longes da histria.
     A poca chamada das revoltas abunda em mincias deste gnero. Os
processos judiciais, por outras razes que no so as da histria, no revelaram
nem talvez aprofundaram tudo. Vamos pois apresentar  luz, entre as
particularidades conhecidas e publicadas, coisas que no foram sabidas, factos
sobre que passou o esquecimento de uns e a morte de outros. A maior parte dos
actores destas cenas gigantescas desapareceu; no dia seguinte todos se calavam;
mas o que vamos contar, podemos dizer:
     - Vimo-lo!
     Mudaremos alguns nomes, porque a histria conta e no denuncia; mas
pinta-remos coisas verdadeiras. Nas condies do livro que escrevemos, no
mostraremos seno um lado e um episdio, decerto o menos conhecido, dos dias
5 e 6 de Junho de 1832; mas faremos de certo modo com que o leitor entreveja,
por baixo do sombrio vu que vamos erguer, o vulto real daquela medonha
aventura pblica.



    III
    Um enterro: ocasio de renascer



    Paris, na Primavera de 1832, conquanto houvesse trs meses que o clera lhe
tinha gelado todos os espritos e lanado em seu contnuo movimento uma
espcie de taciturna pacificao estava havia muito preparada para uma comoo.
Como j temos dito, a grande cidade assemelha-se a uma pea de artilharia;
quando est carregada, basta que de qualquer parte caia uma fasca para que ela se
dispare. Em Junho de 1832 a fasca foi a morte do general Lamarque.
    Lamarque era um homem de nomeada e de aco. Houvera tido
sucessivamente, no tempo do imprio e no da restaurao, as duas bravuras
necessrias s duas pocas: a dos campos da batalha e a da tribuna. Era eloquente
como fora valente; na sua palavra adivinhava-se a espada. Como Foy, seu
antecessor, depois de ter mantido a altura da autoridade, mantinha a altura da
liberdade. Tomava assento entre a esquerda e a extrema esquerda, era querido do
povo porque aceitava as probabilidades do futuro e da multido, porque servira
bem o imperador. Era como os condes Gerard e Drouet, um dos marechais in
petto de Napoleo. Os tratados de 1815 indignavam-no como uma ofensa pessoal.
Odiava Wellington com um dio directo, que agradava  multido; e durante
dezassete anos, apenas atento aos acontecimentos intermedirios, conservara
majestosamente a tristeza de Waterloo. Agonizante, na sua ltima hora, estreitara
ao corao uma espada que lhe tinham oferecido os oficiais dos Cem Dias.
     Napoleo morrera pronunciando a palavra exrcito, Lamarque
pronunciando a palavra ptria.
     A sua morte, por todos esperada, era receada pelo povo como uma perda,
temida pelo governo como uma ocasio. A sua morte foi um luto, e o luto, como
tudo o que  amargo, pode transformar-se em revolta. Foi, efectivamente, o que
aconteceu.
     Na vspera e na manh do dia 5 de Junho, dia marcado para o enterro de
Lamarque, o bairro de Santo Antnio, por onde o prstito devia passar, tomou um
aspecto temeroso, inchando-se de rumores aquela tumultuosa rede de ruas. Cada
qual armava-se com o que mais  mo encontrava. Os marceneiros travavam dos
barriletes para arrombar as portas. Um deles, de um instrumento de sapateiro
fizera um punhal, aguando-o e adaptando-o para este fim. Outro, dominado pela
febre de atacar, dormia vestido havia trs noites.
     Um carpinteiro chamado Lombier encontrava um companheiro que lhe
perguntava:
     - Onde vais tu?
     - Ora! Ver se arranjo armas.
     - E onde vais busc-las?
     - Vou  loja buscar o compasso.
     - Mas para que  isso?
     - Eu sei l - dizia por ltimo Lombier.
     Um tal Jacqueline, homem expedito, acercava-se dos operrios que iam a
passar, levava-os a uma taberna, pagava-lhes dez soldos de vinho e dizia-lhes:
     - Tens em que trabalhar?
     - No.
     - Pois vai a casa de Filspierre, entre a barreira de Montreuil e a de Charonne,
e achars obra.
      O que se achava em casa de Filspierre eram cartuchos e armas. Certos chefes
faziam de correio, isto , andavam de casa em. casa, reunindo a sua gente. Nos
armazns de Barthlemy, ao p da barreira do Trono e de Capei, no
Petit-Chapeau, os bebedores agrupavam-se com ar misterioso e diziam uns para
os outros:
      - Onde trazes a tua pistola?
      - Debaixo da blusa.
      - E tu?
      - Por baixo da camisa.
      Na rua Traversire, em frente da loja de Roland, e no ptio da
Casa-Queimada, diante da loja de ferragens de Bernier, viam-se grupos
cochichando, tornando-se entre eles muito saliente, pelo seu ardor, um certo
Mavot, que nunca parava mais de uma semana em qualquer oficina, porque os
mestres mandavam-no embora, por no estarem para disputar com ele todos os
dias. Este Mavot foi morto ao outro dia na barricada da rua de Mnilmontant.
Prevot, que tinha igualmente de sucumbir na luta, secundava Mavot, e a esta
pergunta:
      - Que fim  o teu?
      Respondia:
      - A insurreio.
       esquina da rua de Bercy, via-se um grupo de operrios,  espera de um
certo Lemarin, agente revolucionrio encarregado do bairro de S. Marcos.
Assenhas, as palavras de ordem trocavam-se quase publicamente.
      A 5 de Junho, pois, por um dia entremeado de chuva e de sol, desfilou pelas
ruas de Paris o prstito fnebre do general Lamarque, com a pompa militar oficial,
 cautela mais reforada do que era costume. Escoltavam o fretro dois batalhes
de linha, de armas em funeral e tambores cobertos de luto, dez mil guardas
nacionais, de sabre ao lado, e as suas respectivas baterias de artilharia. O coche
que conduzia o caixo era puxado por mancebos. Seguiam logo atrs os oficiais
dos Invlidos, com ramos de loureiro na mo. Aps estes seguia uma multido
sem nmero, agitada, estranha, os seccionrios dos Amigos do Povo, a Faculdade
de Direito, a de Medicina, os refugiados de todas as naes, bandeiras espanholas,
italianas, alems, polacas, bandeiras tricolores horizontais, bandeiras de quantas
castas havia, rapazes agitando ramos verdes, pedreiros e carpinteiros, impressores
com os seus barretes de papel, caminhando a dois a dois, trs a trs, dando gritos,
quase todos brandindo paus, alguns com espadas, desordenadamente, porm com
uma s alma, ora turba, ora coluna. Aqui, viam-se diversos pelotes escolhendo
chefes; alm, via-se um homem armado com um par de pistolas, passando
abertamente revista a outros, cujas fileiras se abriam diante dele. Nas alas laterais
dos boulevards, nos ramos das rvores, nas varandas, nas janelas, sobre os
telhados, ningum via seno cabeas, e nos olhos de todos, homens, mulheres,
crianas, notava-se a ansiedade. Passava uma multido armada, outra olhava
assustada.
     Quanto ao governo, observava, porm observava com a mo no punho da
espada. Na praa de Lus XV, viam-se em ordem de marcha, com as cartucheiras
cheias e as armas carregadas, quatro esquadres de carabineiros, montados e de
clarins na frente; no Bairro Latino e no Jardim das Plantas, a guarda municipal; no
mercado dos vinhos, um esquadro de drages; na Greve, metade do 12 de linha e
a outra metade na Bastilha; nos Celestinos, o 6 de drages e o ptio do Louvre
atulhado de artilharia. O resto das tropas achava-se em armas nos quartis, sem
contar os regimentos dos arredores de Paris. O poder, portanto, que se receava,
tinha suspensos sobre a multido ameaadora vinte e quatro mil soldados, dentro
da cidade, e trinta mil nos arrabaldes.
     Por entre os que compunham o prstito circulavam diversos boatos. Falava-se
de manejos legitimistas; falava-se do duque de Reichstadt, que Deus destinava 
morte naquele mesmo momento em que a multido o designava para o imprio.
Anunciava um personagem, sem se dar a conhecer, que  hora marcada dois
contramestres subornados abririam ao povo as portas de uma fbrica de armas. A
expresso predominante nas frontes descobertas da maior parte dos assistentes era
a de um entusiasmo misturado de desalento. Aqui e alm, no meio daquela
multido dominada por tantas emoes, violentas, mas nobres, viam-se
verdadeiros rostos de malfeitores - e bocas ignbeis, que pareciam estar dizendo:
Roubemos! H certas agitaes que revolvem o fundo dos pntanos, fazendo
subir  superfcie nuvens de lodo. Fenmeno  este a que as polcias bem
organizadas no costumam ser estranhas.
     Desfilou o prstito da casa morturia e principiou a caminhar pelos
boulevards em direco  Bastilha, com febril lentido. De espao a espao,
sobrevinha uma btega de chuva, a que a multido era totalmente indiferente.
Diversos incidentes assinalaram a passagem do cortejo fnebre, tais como a volta
que o fretro deu em roda da coluna Vendme, algumas pedradas atiradas ao
duque de Fitz James, por aparecer a uma janela de chapu na cabea; o galo gauls
arrancado a uma bandeira popular e arrastado pela lama; um agente de polcia
ferido com uma cutilada, junto  porta de S.
     Martinho; um oficial do 12 de linha dizendo em voz alta: Eu sou
republicano, a interveno da escola politcnica depois de ter transgredido as
ordens que recebera de no sair, os gritos de: Viva a Escola Politcnica! Viva a
repblica! Na Bastilha, juntaram-se ao prstito as cerradas fileiras de curiosos
que desciam do lado do bairro de Santo Antnio e principiou ento a alvoroar-se
a multido numa efervescncia terrvel.
     Nessa ocasio, houve quem ouvisse estar um homem dizendo para outro:
     - Vs acol aquele de barba ruiva? Pois  o que h-de dar sinal de atirar.
     Parece que este mesmo barba ruiva se achou depois noutra revolta, com o
mesmo mister que desempenhou naquela. Queremos falar da revolta Qunisset.
     O coche passou a Bastilha, seguiu pelo canal, atravessou a ponte e chegou,
finalmente,  esplanada da ponte de Austerlitz, onde parou. Vista de um lugar
elevado, a multido, naquele momento, oferecia o aspecto de um cometa, cuja
cabea estivesse na esplanada e a cauda, desenrolada sobre o cais Bourdon,
cobrisse a Bastilha e se prolongasse pelo boulevard at  porta de S. Martinho. A
multido formou um crculo em volta do coche e emudeceu. Lafayette levantou
ento a voz e disse adeus a Lamarque. Foi um instante tocante e augusto em que
todas as cabeas se descobriram e todos os coraes pulsavam comovidos. De
repente, apareceu no meio do grupo um homem a cavalo, vestido de preto, com
uma bandeira vermelha na mo, outros dizem que com uma lana coroada por
um barrete vermelho. Lafayette voltou a cabea, Excelmans deixou o prstito Esta
bandeira vermelha suscitou uma tempestade e nela desapareceu Desde o
boulevard Bourdon at  ponte de Austerlitz, a multido foi agitada por um desses
clamorosos rumores que parecem vagas. Lamarque para o Panteon! Lafayette
para o palcio municipal! Foram os dois gritos maravilhosos que reboaram pelo
espao Alguns rapazes correram ento para o coche, no meio das aclamaes da
multido, e principiaram a pux-lo pela ponte de Austerlitz, enquanto outros
conduziam Lafayette numa sege pelo cais de Morland.
     No meio da multido que rodeava e aclamavaLafayette, notava-se, e era por
muitos apontado, um alemo, chamado Ludwig Snyder, que veio a morrer de
avanada idade, depois de ter feito a guerra de 1776 e combatido em Trenton s
ordens de Washington e em Brandywne, sob o comando de Lafayette.
     Ao mesmo tempo, a cavalaria municipal, que se achava na margem esquerda,
principiava a agitar-se com o intuito de tomar a passagem da ponte, e na margem
direita os drages desfilavam dos Celestinos e estendiam-se ao longo do cais de
Morland. Apenas o povo, que trazia no meio de si Lafayette, os avistou, principiou
a gritar: A vm os drages! A vm os drages! A vm os drages! Estes
avanavam, a passo, em silncio, com as pistolas nos coldres, os sabres
embainhados, as clavinas nos ares, com gesto de sombria expectativa A
duzentos passos da ponte do canal, fizeram alto. A sege que conduzia Lafayette
encaminhou-se para o lado onde eles estavam, os drages abriram filas,
deixaram-na passar e tornaram-se a unir, apenas o veculo passou. Nessa ocasio,
drages e povo estavam to prximos, que se tocavam uns aos outros. As
mulheres deitavam a fugir, aterradas.
     Que foi o que se passou naquele fatal instante? Ningum o saber dizer.  o
momento tenebroso da juno de duas nuvens. Contam uns que para o lado do
Arsenal se ouvira um clarim tocando a carregar, outros que um rapaz dera uma
punhalada num soldado de drages. O certo  que se dispararam subitamente trs
tiros, um dos quais matou o chefe de esquadro Cholet, outro uma velha mouca
da rua de Contrescarpe, na ocasio em que fechava a sua janela, e outro queimou
uma dragona a um oficial.
     Apenas uma mulher gritou:
     - Comearam cedo de mais! - viu-se vir imediatamente do lado oposto ao cais
de Morland um esquadro de drages, que tinha ficado em quartis, a galope e de
sabre em punho, pela rua de Bassonpierre e boulevard Bourdon, trazendo tudo
diante de si.
     Ento foi o desencadear-se a tempestade. Chovem as pedradas, rebenta a
fuzilaria; muitos atiram-se da ribanceira abaixo e passam o pequeno brao do
Sena, hoje entulhado; eriam-se de combatentes os armazns da ilha Louviers,
espcie de cidadela preparada para aquele fim; arrancam-se estacas, disparam-se
pistolas, principia-se uma barricada; os rapazes que puxavam o coche funerrio,
apertados pela multido, arrastam-no com presteza pela ponte de Austerlitz,
carregando a guarda municipal; acodem os carabineiros, os drages acutilam, a
multido dispersa-se em todas as direces; ressoa um sussurro de guerra pelas
ruas de Paris, grita-se:
     - As armas!
     Os amotinados correm, atropelam-se, fogem, resistem; enfim, a clera ateia a
revolta do mesmo modo que o vento ateia o fogo.
    IV
    As efervescncias de outrora



     No h nada mais extraordinrio do que a primeira confuso de uma revolta.
     Rebenta tudo simultaneamente em toda a parte. Era uma coisa prevista? Era.
Estava preparada? No. De onde sai semelhante coisa? Das ruas. De onde cai? Das
nuvens.
     Aqui, a insurreio toma o carcter de uma conspirao; alm, o de uma
improvisao.
     O primeiro que aparece apodera-se de uma corrente da multido e leva-a
para onde lhe apraz.
     Comeo medonho, entremeado de certa alegria terrvel. Aos clamores, pelos
quais principia a revolta, fecham-se as lojas, desaparecem os mostradores; em
seguida comeam por ouvir-se tiros isolados; cada qual foge para o seu lado;
ouvem-se bater coronhadas de armas pelas portas e no interior das casas os risos
das criadas, dizendo:
     - Temos desordem no caso, estamos bem aviadas!
     Da a menos de um quarto de hora, eis o que se passava em Paris, em vinte
pontos diferentes ao mesmo tempo:
     Na rua de Santa Cruz da Bretonnerie, uns vinte rapazes de barbas e cabelos
compridos entravam por uma casa de pasto dentro e um momento depois
tornavam a sair, trazendo arvorada uma bandeira tricolor horizontal coberta de
fumo, precedidos por trs homens, um armado com um sabre, outro com uma
espingarda e o terceiro com um chuo.
     Na rua das Nonaindires, via-se um burgus obeso, bem trajado, de voz
sonora, calvo, fronte espaosa, barba preta, bigode cerdoso, oferecendo
publicamente cartuchos a quem passava.
     Na rua de S. Pedro de Montmartre, viam-se uns poucos de homens, de
mangas arregaadas, agitando uma bandeira preta em que se liam. estas palavras:
Repblica ou morte.
     Na rua dos Jeneurs, do Quadrante, de Montorgueuil, de Mandar, viam-se
agitando bandeiras, nas quais se lia, em letras douradas, a palavra seco,
seguida de um nmero. Uma dessas bandeiras era vermelha e azul com uma
imperceptvel risca branca no meio No boulevard de S. Martinho, assaltava-se
uma fbrica de armas e trs oficinas de armeiros, a primeira na rua de Beaubourg,
a segunda na rua de Miguel-le-Comte, a terceira na rua do Templo. Dentro em
poucos minutos, as mil mos da multido travavam de duzentas e trinta
espingardas, quase todas de dois canos, de sessenta e quatro sabres e de oitenta e
trs pistolas. Para que ficasse maior nmero de pessoas armado, uns guardavam as
espingardas e outros ficavam com as baionetas.
     Defronte do cais da Greve, via-se uma multido de rapazes, armados de
mosquetes, instalando-se em casa de umas mulheres para da fazerem fogo. Um
deles trazia um mosquete de rodas. Batiam, entravam e punham-se a fazer
cartuchos. Uma dessas mulheres disse depois:
     - Eu nem sabia o que eram cartuchos Meu marido foi que mo disse.
     Na rua das Vieilles-Haudrietes, um grupo arrombava a porta de uma loja de
curiosidades, e apossava-se dos yatagans e armas turcas com que nela deparara.
     Na rua da Prola, jazia o cadver de um pedreiro, morto com um tiro de
espingarda.
     Alm disto, na margem direita, na esquerda, no cais, nos boulevards, no
Bairro Latino, nos Mercados, viam-se homens arquejando, operrios, estudantes,
seccionrios, lendo proclamaes e gritando s armas, quebrando os lampies,
tirando os cavalos s carruagens, descalando as ruas, arrombando as portas das
casas, arrancando as rvores, dando buscas no interior das habitaes, rolando
pipas, amontoando pedras, tbuas, cadeiras, mesas, trancas, construindo
barricadas.
     Se algum burgus passava, obrigavam-no a ajud-los. Entravam pelas casas
dentro, foravam as mulheres a apresentar-lhes os sabres de seus maridos ausentes
e saam, deixando na parede escrito a giz:
     Ficam entregues as armas.
     Alguns assinavam com os seus nomes, recibos de espingardas e sabres, e
diziam:
     - Mande busc-las amanh a casa do maire.
     Pelas ruas desarmavam as sentinelas isoladas e os guardas nacionais que
encontravam em caminho para a sua municipalidade. Aos oficiais
arrancavam-lhes as dragonas.
     Na rua do cemitrio de S. Nicolau, um da guarda nacional viu-se to
perseguido por uma turba armada de paus e floretes, que teve de se refugiar numa
casa, o que a muito custo conseguiu, da qual s  noite pde sair, e disfarado.
     Na rua de S. Jacques, viam-se enxames de estudantes saindo em tropel de suas
casas, encaminhando-se pela rua de S. Jacinto para o caf do Progresso ou para o
dos Sete Bilhares, na rua dos Mathurins. Nesses stios, viam-se alguns rapazes
distribuindo armas de cima dos pies Na rua de Transnonain, alguns insurgentes
roubavam um armazm de madeiras para as barricadas. Num nico stio faziam
resistncia os habitantes; era s esquinas das ruas de Saint-Avroye e de
Simon-le-Franc, onde eles prprios destruam a barricada Num nico ponto
sucumbiam os insurgentes: era na rua do Templo, onde eles abandonavam uma
barricada, depois de haver feito fogo sobre um destacamento da guarda nacional,
e fugiam pela rua da Cordoaria. Nessa barricada o destacamento encontrou uma
bandeira vermelha, um mao de cartuchos e trezentas balas de pistola. Os guardas
nacionais rasgaram a bandeira e levaram os bocados espetados nas pontas das
baionetas Tudo isto, que ns aqui relatamos lenta e sucessivamente, tinha lugar,
ao mesmo tempo, em todos os pontos da cidade, no meio de um tumulto imenso,
 semelhana de um sem nmero de relmpagos acompanhados de um s trovo
Em menos de uma hora, s no bairro dos Mercados levantaram-se do cho vinte e
sete barricadas. No centro ficava a clebre casa nmero 50, que foi a fortaleza de
Joana e de seus cento e seis companheiros, e que, flanqueada de uma parte por
uma barricada, em Saint-Merry, e da outra por uma barricada, na sua Maubue,
dominava trs ruas, a dos Areis, a de S. Martinho e a de Aubry-leBoucher, com a
qual defrontava.
     Na rua de Montorgueuil e na de Geoffroy-Langevin, Viam-se mais duas
barricadas; a primeira prolongava-se em ngulo recto para a Grande
Trouandetrie, a segunda para a rua de Saint-Avoy. Sem contar inumerveis
barricadas em mais vinte lugares de Paris, no Marais, na montanha de Santa
Genoveva; uma na rua de Menilinontant, onde se via um porto arrancado dos
gonzos; outra junto  ponte do Hotel-Dieu, formada de uma carruagem deitada
por terra, a trezentos passos da prefeitura de polcia.
     Na barricada da rua dos Menestris, andava um homem bem trajado
distribuindo dinheiro aos trabalhadores. Na barricada da rua Grenta, apareceu
um cavaleiro e entregou ao que inculcava ser o chefe da barricada um embrulho,
que parecia de dinheiro.
     - Aqui tem -, disse ele -, para pagar as despesas, o vinho, etc..
     Aqui, via-se um rapaz, de cabelos louros, correndo de barricada em barricada,
a levar palavras de ordem. Mais alm, via-se outro de sabre desembainhado e com
um bon azul de polcia na cabea distribuindo sentinelas. No interior, isto , para
c das barricadas, as casas de pasto e os quartos dos porteiros eram transformados
em postos de guarda Em suma, a revolta procedia com a mais sbia tctica militar.
As ruas, estreitas, sinuosas, desiguais,cheias de ngulos e de voltas, no podiam ser
melhor escolhidas, principalmente as das imediaes dos Mercados, rede de ruas
mais emaranhada que uma floresta. Dizia-se que a Sociedade dos Amigos do Povo
fora a que tomara a seu cargo dirigir a insurreio no bairro de Saint-Avoy. Na
rua do Ponceau, encontrou-se um homem morto. Revistaram-no e acharam-lhe
uma planta de Paris.
     O que, realmente, tinha tomado a direco da revolta era uma como
impetuosidade inaudita que andava na atmosfera. A insurreio, num instante,
levantara com uma das mos as barricadas, enquanto com a outra tinha sufocado
quase todos os postos da guarda. Semelhantes a um rastilho de plvora, os
insurgentes, em menos de trs horas, tinham invadido e ocupado, na margem
direita, o Arsenal, a mairie da Praa Real, a fbrica das armas Popincourt, a
Galiote, o Chteau d'Eau, todas as ruas das imediaes dos Mercados; na margem
esquerda, o quartel dos Veteranos, Santa Pelagia, a praa Maubert, o paiol dos
Dois Moinhos e todas as barreiras. s cinco horas da tarde, estavam senhores da
Bastilha, da Lingerie e de Blancs-Manteaux: os seus postos avanados chegavam
quase at  praa das Vitrias, ameaando o Banco, o quartel dos Petts-Pres e a
casa do Correio. A tera parte de Paris pertencia  revolta.
     Em todos os pontos a luta travava-se gigantescamente: dos desarmamentos,
das visitas domicilirias, das rpidas invases das oficinas dos armeiros resultava
que o combate, principiando s pedradas, continuava a tiros de espingarda.
     Por volta das seis horas da tarde, a passagem do Salmo tornava-se um campo
de batalha. Numa extremidade achavam-se os revoltosos, na outra a tropa,
disparando tiros de um lado para o outro. Um observador, um sonhador, o autor
deste livro, foi ver o vulco de perto e achou-se metido entre os dois fogos, sem ter
outra coisa que o escudasse das balas alm das salincias das meias colunas que
separam as lojas, conservando-se nesta arriscada situao perto de meia hora.
     Ao mesmo tempo, soava o toque a reunir, vestiam-se e armavam-se  pressa
os guardas nacionais, saam das mairies as legies, dos quartis os regimentos.
Defronte da passagem da Ancora era apunhalado um tambor. Outro, na rua do
Cisne, era assaltado por uns trinta rapazes que lhe esmigalharam o tambor,
tirando-lhe o sabre.
     Na rua do Celeiro de S. Lzaro, era assassinado outro. Na rua de
Miguel-le-Comte, caram mortos trs oficiais, uns aps os outros. Muitos guardas
nacionais chegavam  rua dos Lombardos e voltavam para trs feridos.
     Em frente de Cour-Batave, um destacamento de guardas nacionais
encontrava uma bandeira vermelha com esta inscrio: Revoluo republicana
nmero 127.
     Realmente, aquilo era uma revoluo?
     Os revoltosos tinham transformado o centro de Paris numa como cidadela
inextrincvel, tortuosa e colossal.
     Era aquele o foco; a questo resumia-se toda ali.
     Quanto ao resto, eram tudo simples escaramuas. O que provava que a
questo se resolveria toda ali era que o combate, naquele ponto, ainda no tinha
principiado.
     Em alguns regimentos, os soldados estavam indecisos, o que aumentava a
temerosa obscuridade da crise, ao lembrarem-se da ovao popular com que em
Julho de 1830 fora acolhida a neutralidade do 53 de linha. Comandavam as tropas,
naquela ocasio, dois homens intrpidos e experimentados nas grandes guerras, o
marechal Lobau e o general Bugeaud, s ordens do primeiro. Aqui e alm, viam-se
numerosas patrulhas compostas de batalhes de tropa de linha, fechados por
companhias inteiras de guardas nacionais, reconhecendo as ruas insurgidas,
precedidos de um comissrio de polcia de banda. Pela sua parte, os insurgentes
distribuam vedetas pelas esquinas das encruzilhadas e mandavam patrulhas com
toda a ousadia para a parte exterior das barricadas. De ambos os lados, estavam os
adversrios em observao. O governo, apesar de ter  sua disposio um exrcito,
hesitava; era quase noite e principiava a ouvir-se o sino de Saint-Merry, tocando a
rebate. O marechal Soult, ministro da guerra naquela poca, que tinha assistido 
batalha de Austerlitz, olhava para tudo aquilo com gesto sombrio.
     Estes marinheiros velhos, afeitos  manobra correcta, e que s se deixam
guiar pela tctica, que  a bssola das batalhas, em presena dessa imensa escuma
chamada clera pblica, ficam completamente desorientados. O vento das
revolues torna a manobra difcil.
     Dos arrabaldes corriam tambm alguns destacamentos de guardas nacionais,
apressadamente e em desordem. Em S. Diniz via-se um batalho do 12 de linha,
avanando a marche-marche; de Courbevoie chegava o 14; no Carroussel,
tomavam posio as baterias da Escola Militar; pelo lado de Vincennes, vinham
entrando algumas peas.
     As Tulherias principiavam a ficar desertas, porm, Lus Filipe, conservava-se
na maior serenidade.
    V
    Originalidade de Paris



     Como noutra parte dissemos, Paris tinha visto mais de uma insurreio
dentro do espao de dois anos. Ordinariamente, fora dos locais da insurreio no
h coisa mais estranhamente serena do que a fisionomia de Paris neste dias
revoltos Paris depressa se habitua a tudo.
     -  apenas uma revolta! -, dizem os parisienses, e por to pouca coisa no se
incomodam nem abandonam os numerosos negcios com que se vem
assoberbados.
     S cidades colossais como Paris podem oferecer espectculos assim S
recintos imensos como o dele podem conter, ao mesmo tempo, a guerra civil e
uma no sei que estranha tranquilidade. De ordinrio, quando principia uma
insurreio, o lojista, ao ouvir os tambores, os clarins, o toque a generala, limita-se
a dizer:
     Parece que anda rusga acol para a rua de S. Martinho.
     Ou:
     - Para o lado do bairro de Santo Antnio.
     Muitas vezes, mesmo, acrescenta com indiferena:
     - Ele  para a para esses stios.
     Passado tempo, quando se ouve distintamente o lgubre estrondear do
tiroteio entre o povo e a tropa, diz o lojista:
     - A coisa pega! Bravo! O negcio agora sempre vai a mais!.
     Um instante depois, se a revolta se aproxima e dobra de fria, o lojista fecha
precipitadamente as portas da sua loja, enfia rapidamente o uniforme, quer dizer,
pe a bom recato as suas mercadorias, e arrisca a sua prpria pessoa.
     Rebenta um tiroteio em cada encruzilhada, em cada beco, em cada esquina;
tomam-se, perdem-se, tornam-se a tomar as barricadas; corre o sangue, crivam-se
de metralha as fachadas dos prdios, entram as balas pelas casas e matam quem
nelas encontram; atulham-se as caladas de cadveres, e, no meio de tudo isto,
apenas a alguns passos de toda esta efervescncia de uma revolta, ouve-se o
choque das bolas de marfim dentro das salas dos cafs.
     Abrem-se as portas dos teatros; os actores representam, os curiosos
conversam e riem a dois passos daquelas ruas, onde tudo  tumulto e guerra. As
seges passam, os transeuntes vo jantar onde lhes faz conta, s vezes, mesmo aos
lugares onde anda travado o combate. Em 1831, os combatentes -de uma rua
interromperam o tiroteio para deixar passar um acompanhamento nupcial.
     Por ocasio da insurreio de 12 de Maio de 1839, via-se andar na rua de S.
     Martinho, da barricada para a tropa e desta para aquela, um velho aleijado,
puxando um carro de mo, do meio do qual saa um pau com um farrapo tricolor
na ponta.
     Continha o carro algumas garrafas cheias no sabemos de que lquido, as
quais ele andava imparcialmente oferecendo ora  anarquia, ora ao governo.
     No h mais singular espectculo;  este o caracterstico das revoltas de Paris
e em nenhuma outra capital se do cenas iguais. Para isso seriam necessrias duas
coisas: a grandeza de Paris e o seu humor folgazo. Seria mister a cidade de
Napoleo e a de Voltaire.
     Desta feita, porm, isto , por ocasio da revolta de 5 de Junho de 1832, a
grande cidade sentiu o que quer que fosse maior do que ela. Teve medo. Viram-se,
por toda a parte, portas, janelas e postigos fechados em pleno dia, ainda nos
lugares mais remotos e alheios  revolta. Os animosos armaram-se, os poltres
esconderam-se. O transeunte indiferente ou preocupado desapareceu. Muitas ruas
viam-se completamente desertas, como s quatro horas da madrugada. Corriam
de boca em boca boatos assustadores, espalhavam-se notcias fatais. Que eles
estavam senhores do Banco; que s no claustro de Saint -Merry estavam
seiscentos, entrincheirados na igreja; que a tropa de linha no estava segura; que
Armand Cairel tinha ido falar com o marechal Clausel e que o marechal tinha
dito: Arranjem primeiro um regimento; que Lafayette se achava doente, porm
que assim mesmo lhes dissera: Estou s suas ordens e segui-las-ei para toda a
parte onde houver lugar para uma cadeira; que era necessrio estar de vigia,
porque de noite no faltariam ladres nos lugares mais desertos de Paris (nisto
reconhecia-se a imaginao da polcia, essa Ana de Radcliffe adjunta do governo);
que na rua de Aubry-le-Boucher se tinha estabelecido uma bateria; que Lobeau e
Bugeaud tinham estado em conferncia, e que pela meia-noite ou de madrugada,
o mais tardar, marchariam quatro colunas, ao mesmo tempo, sobre o centro da
revolta, a primeira pelo lado da Bastilha, a segunda pela porta de S.
     Martinho, a terceira pelo lado da Greve, a quarta pelo dos Mercados; que,
provavelmente, as tropas evacuariam Paris, Retirando-se para o Campo de Marte;
que no se sabia o que viria a acontecer ou no, mas que, em todo o caso, desta vez
o negcio era srio.
     Por outro lado, as hesitaes do marechal Soult davam azo a numerosas
apreenses.
     - Porque razo no atacava ele j?.
     O certo  que o experimentado guerreiro andava profundamente preocupado,
como se, leo amestrado, atravs daquelas sombras, pressentisse pelo faro um
monstro desconhecido.
     Chegou a noite, porm desta vez os teatros no se abriram; circulavam as
patrulhas com gesto irritado; revistavam-se os transeuntes, prendiam-se os que se
tornavam suspeitos. s oito horas, j o nmero das pessoas presas subia a mais de
oitocentas, de modo que se achava atulhada a prefeitura de polcia, a Conciergerie
e a Force. Na Conciergerie, especialmente, o comprido subterrneo denominado
rua de Paris estava juncado de molhos de palha, sobre os quais jazia um monto
de prisioneiros, a quem Lagrange, o homem de Lyon, arengava calorosamente.
Quando eles revolviam toda aquela palha ao mesmo tempo, produzia-se um
sussurro semelhante ao de uma forte pancada de gua. Alm destes, via-se ainda
um sem nmero de presos deitados nos ptios ao relento e quase uns por cima dos
outros. Em todos os rostos se via pintada a ansiedade e o temor dos
acontecimentos que poderiam sobrevir no dia seguinte.
     Nas casas, cada qual tratava de se entrincheirar o melhor que podia, e as
mulheres que tinham seus filhos ou maridos fora, cheias de inquietao,
exclamando a cada momento:
     - Valha-nos Deus! E ele ainda sem vir para casa!
     Pelas ruas j no transitava uma s carruagem; apenas de espao a espao,
porm com grandes intervalos, se ouvia o rodar de alguma l ao longe. Os mais
animosos vinham s portas escutar os rumores, os gritos, os tumultos, o surdo e
indistinto rumorejar, que ora diziam ser a cavalaria, ora os carros do trem a
galope, os clarins, os tambores, o tiroteio, e, sobretudo, o lamentoso som dos sinos
de Saint-
     Merry, tocando a rebate, entremeado do estrondear da artilharia. A cada
momento, assomavam s esquinas homens desconhecidos, que gritavam:
     - Fechem as portas! - e tornavam a desaparecer, ficando cada qual a cumprir
o melhor que podia a recomendao por eles feita.
     Se tinham tempo de falar, perguntavam uns para os outros:
     - Em que vir a parar isto?.
     De instante a instante,  medida que ia sobrevindo a noite, assim Paris se ia
colorindo, cada vez mais lugubremente, do temeroso e coruscante fulgor da
revolta.


L11:
    LIVRO DCIMO PRIMEIRO
    O tomo confraternizando com o furaco



    I
    Alguns esclarecimentos sobre a origem da poesia de Gavroche.



     Influncia de um acadmico sobre essa poesia
     O refluxo produzido pela insurreio, quando rebentando do choque entre o
povo e a tropa, em frente do Arsenal, determinou um movimento retrgrado na
multido que seguia o coche, e que, para assim dizer, como que pesava, em toda a
extenso dos boulevards, sobre a cabea do prstito, foi terrvel. Agitou-se a turba
em confuso, romperam-se as fileiras, dispersaram, debandaram, deitaram todos a
correr, uns soltando gritos de ataque, outros levando nos rostos a palidez do
medo. Num abrir e fechar de olhos, dividiu-se o grande rio que cobria os
boulevards, transbordando para um outro lado, e espalhando-se em torrentes
impetuosas por duzentas ruas ao mesmo tempo, como uma larga represa a que
tivessem repentinamente soltado todos os diques Nessa ocasio, um rapaz
esfarrapado que vinha descendo pela rua Menilmontant, trazendo na mo um
ramo de codeo florido que havia colhido junto a Beleville, ao avistar no
mostrador de uma loja de adelo uma pistola usada, atirou fora o ramo de codeo
que trazia na mo e exclamou, pegando na pistola e deitando a fugir:
     -  tia coisa! A pistola c vai!
     Dois minutos depois, era o gaiato encontrado por uma onda de assustados
burgueses, que vinham, fugindo pelas ruas Atnelot e Basse. O gaiato brandia
alegremente a pistola que roubara na loja de adelo e ia cantando estes versos: De
noite ningum v nada, Mas de dia v-se bem Por qualquer escrito falso O burgus
sente desdm Da virtude segue o estudo Tu! Tu! Tu! Chapu bicudo.
     Era Gavroche de caminho para a campanha.
     Ao chegar ao boulevard, deu f que a pistola no tinha gatilho.
     Quem era o autor daquela copla, que lhe servia de regular a marcha, e de
todas as mais canes que ele, em se lhe oferecendo ensejo, costumava cantar?
Ignoramo-lo.
     Quem sabe? Talvez fosse ele mesmo. Quanto mais, Gavroche sabia toda a
coleco de cantigas em voga e punha-lhes de sua casa o seu prprio chilrear.
Diabrete e gaiato, formava um pot-pourri das vozes da natureza e das vozes de
Paris, combinando o reportrio das aves com o reportrio das oficinas. Mantinha
relaes com estudantes de pintura, tribo contgua  sua, e temos alguns dados
para afirmar que estivera trs meses numa tipografia, aprendendo o ofcio de
impressor. Uma ocasio, fizera um recado ao senhor Baour Lormlan, membro da
academia. Por consequncia, Gavroche era um gaiato literato.
     Mal imaginava porm Gavroche que aqueles dois rapazinhos, a quem ele, na
invernosa noite em que os encontrou, oferecera a hospitalidade do seu elefante,
fazendo para com eles o papel de Providncia, eram seus prprios irmos. De
modo que, na mesma noite, tinha socorrido seu pai e seus irmos. Gavroche,
apenas se despediu dos bandidos, voltara apressadamente ao elefante, ajudou-os a
sair o melhor que pde de dentro da gaiola em que todos tinham pernoitado,
repartiu com, eles do almoo, que o seu gnio inventivo conseguiu descobrir, e
despedira-os, confiando-os a essa boa me, a rua, que quase o tinha criado a ele.
Ao dizer-lhes adeus, recomendou-lhes que  noite fossem ter ao mesmo stio,
entremeando esta recomendao com o seguinte discurso:
     - Amados petizes, participo-lhes que me esgueiro, por outra, que me piro, ou,
como dizem os marinheiros, que me vou fazer de vela! Se no encontrarem o
paizinho nem a mezinha, venham  noite aqui ter. Tero cama e mesa grtis!
     Os dois rapazinhos, porm, ou porque tivessem sido presos por vadios ou
roubados por algum saltimbanco, ou, simplesmente, se houvessem perdido no
imenso labirinto das ruas de Paris, o certo  que no tornaram a aparecer no stio
que lhes aprazara o gaiato. Os baixios do actual mundo social andam cheios destes
rastos perdidos. Tinham decorrido trs meses depois daquela noite e Gavroche
no os tornara a ver. No poucas vezes, no decurso desse tempo, Gavroche
exclamara, coando a cabea:
     - Que diabo ser feito, a estas horas, dos meus dois pequerruchos?
     Gavroche, pois, caminhava alegremente com a sua pistola na mo. Ao chegar
 rua da Ponte das Couves, reparou que no havia em toda ela mais do que uma
loja aberta, e, coisa digna de reflexo, que essa loja era a loja de um pasteleiro. Era
uma ocasio providencial de comer ainda um bocado de pudim de batatas, antes
de ir experimentar os desconhecidos azares da guerra. Gavroche parou,
apalpou-se, procurou, revistou todos os bolsos, no encontrou nada e principiou a
gritar:
     - Estou roubado!
     Realmente,  duro ver falhar o ltimo recurso.
     O gaiato, contudo, no deixou por isso de continuar o seu caminho.
     Dali a dois minutos, achava-se na rua de S. Lus. Ao atravessar a rua do
Parque Real, sentiu necessidade de se desforrar do impossvel pudim de batatas, e
principiou, com imensa voluptuosidade sua, a rasgar em pleno dia os cartazes
afixados nas esquinas.
     Mais adiante, ao ver passar um grupo de sujeitos com cara de sade, e que a
ele se lhe afiguraram ser proprietrios, encolheu os ombros e atirou  aventura
para o ar esta golfada de blis filosfica:
     - Estes senhores rendeiros regalam-se de bons bocados! Olhem que caraas
eles tm! Parece mesmo que lhes est a sair a gordura pela pele fora!
Perguntem-lhes o que fazem ao dinheiro, a ver se eles sabem! Comem-no, os
malditos! Ainda eles comam tanto, que a barriga lhes estoure como uma castanha!



    II
    Gavroche em marcha



     Gesticular com uma pistola sem gatilho, no meio de uma rua,  um meio to
eficaz de entusiasmo, que Gavroche cada vez redobrava mais o seu, gritando por
entre os pedaos da Marselhesa que ia cantando:
     - Corre tudo s mil maravilhas! O pior  uma dor que aqui tenho na pata
esquerda, com licena de quem est presente! Mas isso  o mesmo, cidados!
Vamos a eles, que so uns ces! A respeito de ces, caluda, que me pode ouvir
algum espio Um espio  um co. Exactamente o que falta  minha pistola Com
mil diabos! Uma pistola sem gatilho  um podengo sem nariz! Avante, meus
amigos, a panela j ferve, toca a escum-la! Quem for de plos, para diante com a
cara! Os homens conhecem-se nas ocasies Aqui estou eu que vou dar a vida pela
ptria, deixando a minha amante ao Deus dar, sem uma cdea para roer!  o
mesmo! Viva a pndega! A eles, rapazes!
     Estou farto de despotismo!...
     Neste instante, o cavalo de um lanceiro da guarda nacional que vinha
passando caiu, e Gavroche, ao ver o cavaleiro entalado entre o cavalo e as pedras,
pousou a pistola no cho, ajudou a levantar o homem, ajudou a erguer o cavalo,
pegou outra vez na pistola e seguiu o seu caminho.
     Na rua de Torigny era tudo silncio e solido. Esta apatia, peculiar ao Marais,
contrastava com o imenso rumor que o rodeava  porta de uma casa viam-se
quatro senhoras vizinhas conversando. A Esccia possui os seus trios de
feiticeiras, mas Paris possui quartetos de senhoras vizinhas, e o hs-de ser rei
seria to lugubremente dito a Bonaparte na encruzilhada de Baudoyer como a
Macbeth na charneca de Armuyr. Quase seria o mesmo coaxar de rs.
      As matronas de que falamos ocupavam-se, exclusivamente, dos negcios que
lhes diziam respeito. Eram trs porteiras e uma trapeira, com o seu gancho e
cabaz.
      Vistas assim de p, pareciam quatro esttuas representando as quatro fases da
velhice a caducidade, a decrepidez, a runa e a tristeza.
      O aspecto da trapeira inculcava humildade. Naquela sociedade ao ar livre, a
trapeira corteja, a porteira protege, porque depende dela que o monte do cisco
amontoado ao canto da porta seja mais ou menos abundante, segundo for vontade
sua.
      Pode haver bondade na vassoura.
      A trapeira, portanto, que era uma criatura grata, sorria-se e que sorriso! para
as trs porteiras e conversavam todas quatro em coisas como as que seguem:
      -  verdade, e o seu gato ainda  ruim como dantes?
      - Bem sabe que os gatos so naturalmente inimigos dos ces; por isso, esses 
que se queixam.
      - E a gente tambm.
      - E mais as pulgas dos gatos no saltam para a gente.
      - Isso no faz ao caso. Todavia, os ces so levados da breca. Lembra-me
haver um ano tanta abundncia deles, que at os botaram s folhas Era quando
havia nas Tulherias uns carneiros muito grandes que puxavam o carrinho do rei
de Roma.
      Lembram-se do rei de Roma?
      - Eu gostava muito mas era do duque de Bordus.
      - Eu conheci Lus XVII. Muito gostava eu dele!
      - Est a carne pela hora da morte, tia Patagon!
      - Ai, nem me fale nisso, que s a gente lembrar-se de semelhante coisa faz
tremer! D a gente uma mo cheia de dinheiro e ainda por cima  mal servida! E
ele custa tanto a ganhar!
      -  verdade, isso  que custa! - disse a trapeira, intervindo na conversa. - Vai
fraco tempo para o negcio. O lixo agora no presta, porque ningum j deita
nada fora. Comem tudo!
     - Ainda as h que tm menos do que vossemec, senhora Vargoulme.
     - L isso  verdade - respondeu a trapeira com deferncia. - Ao menos eu, ou
bom ou mau, sempre tenho o meu modo de vida.
     Seguiu-se uma pausa, aps a qual a trapeira, cedendo a essa necessidade de
expanso que  o fundo da natureza humana, acrescentou:
     - Pela manh, assim que me recolho a casa, despejo o meu cesto e comeo a
arrumar o que acerto de trazer dentro dele. Tudo so montinhos no meu quarto.
Os farrapos deito-os a um cesto e os que so de linho arrumo-os num armrio, os
traos deito-os numa panela, os farrapos de l meto-os na cmoda, os bocados de
papel ponho-os ao canto da janela, o que ainda pode servir para comer vai para
um alguidar, os pedaos de vidro em cima do fogo, os chinelos atrs da porta e os
ossos debaixo da cama.
     Apenas a trapeira acabara de proferir a ltima palavra, uma voz exclamou por
trs das quatro mulheres:
     - Ah, suas velhas! Que diabo esto vocs a a falar em poltica?
     Era Gavroche, que, ao avistar as velhas entretidas no seu colquio, parara e
pusera-se a escutar.
     Como era de supor, a abrupta interpelao do gaiato foi acolhida pelas quatro
velhas com uma saraivada de iradas imprecaes.
     - Querem vocs ver o espantalho pequeno, o Senhor me perdoe?
     - Ele que traz ali nos cotos, salvo seja?  uma pistola?.
     - Tu que tens que cheirar aqui, grandssimo velhaco?
     - Esta canalha no descansa enquanto no deitar abaixo o governo!
     Gavroche, em extremo desdenhoso para com as iras das quatro mulheres,
limitou-se, por nica represlia, a levantar a ponta do nariz com a extremidade do
dedo polegar, abrindo, ao mesmo tempo, o resto da mo.
     - Fora, malcriado!- gritou a trapeira.
     A que dava pelo nome de tia Patagon bateu as mos uma na outra, com ar de
escndalo, e exclamou:
     - No tem que ver! Est o mundo perdido! Vocs conhecem aquele barbicha
ali da esquina? Pois at agora via-o passar sempre pela manh com uma serigaita
pelo brao; hoje vi-o passar dando o brao a uma arma! Disseme a tia Bacheux
que houvera a semana passada uma revoluo em... em... ora que no mie
lembra... Onde h a vitela! Em Pontoise. E seno vejam, aquele pelintra pequeno,
o Senhor me perdoe, ali com uma pistola na mo! Creio que nos Celestinos est
tudo atacado de peas. Ora como querem que haja paz com uns mafarricos assim,
que no fazem seno causar sustos  gente e meter-nos a todos em trabalhos! E
dizermos agora, quando tudo principiava a estar em sossego, depois de tantos
barulhos que tem havido! Fortes malditos! Deram cabo daquela santa rainha, que
eu vi por meus olhos passar para a guilhotina, e ainda andam com mais coisas,
tudo para fazer encarecer o rap! J  pouca vergonha! Mas deixa, meu cara
estanhada, que tambm me hei-de regalar de te ver guilhotinar!
     - Cala-te l, centopeia! - disse Gavroche.  Assoa primeiro o promontrio, se
queres falar!
     E, dito isto, continuou o seu caminho.
     Ao chegar  rua da Calada, a trapeira acudiu-lhe  lembrana e teve consigo
este solilquio:
     - Fazes mal em insultar os (revolucionrios, tia carroa do lixo. Eu, se aqui
vou com esta pistola,  para teu bem.  para achares pelas ruas mais coisas que
ainda possam servir para comer!.
     De repente, porm, ouviu bulha atrs de si e voltou-se. Era a porteira
Patagon, que o tinha seguido e lhe gritava de longe, mostrando-lhe o punho
cerrado:
     - Bem mostras que s enjeitado, pedao de tratante!
     - Sabe que mais, minha av? - exclamou Gavroche.
     - V pregar a outra freguesia, que eu no estou para a aturar!
     Pouco depois, ao passar defronte do palcio Lamoignon, soltou este brado de
guerra:
     - A caminho para a batalha!
     E, subitamente acometido de um acesso de melancolia, acrescentou com um
ar de lstima, que parecia querer enternecer a pistola:
     - Que pena! Haver pr a tanto co e tu no teres um!
     Em seguida, encaminhou-se para o Olmo de S. Gervsio.



    III
    Justa indignao de um cabeleireiro



    O digno cabeleireiro que expulsara os dois pequenos, aos quais Gavroche
fran-queara o intestino paternal do elefante, estava naquele momento na sua loja,
ocupado em barbear um velho soldado legionrio, que servira no tempo do
imprio. Entretanto conversavam. O barbeiro tinha provavelmente falado ao
veterano da revolta, depois falaram no general Lamarque e do imperador. Daqui
resultara um dilogo de barbeiro e de soldado, que se fosse ouvido por
Proudhomme seria enriquecido com arabescos e intitulado: Dilogo da navalha de
barba e do sabre.
     - Que tal montava a cavalo o imperador? - dizia o barbeiro.
     - Mal. No sabia cair; por isso no caa nunca.
     - Tinha bons cavalos? Devia ter bons cavalos o imperador.
     - No dia em que ele me condecorou, reparei-lhe bem para a cavalgadura. Era
uma gua de corridas, toda branca. Tinha as orelhas muito afastadas uma da
outra, era muito selada, tinha uma cabea muito fina, com uma estrela preta na
testa, o pescoo muito comprido, os jarretes fortemente articulados, os ilhais
salientes, as espduas oblquas e forte movimento de garupa. Tinha pouco mais de
quinze palmos de altura.
     - Bonito cavalo! - disse o barbeiro.
     Era o cavalo de Sua Majestade.
     O barbeiro conhecendo que era conveniente um movimento de silncio
depois destas palavras, conformou-se com a convenincia e depois continuou:
     - O imperador no foi ferido seno uma vez, no  verdade?
     O velho soldado respondeu com o acento tranquilo e soberano do homem
que presenciou o facto:
     - No calcanhar. Foi em Ratisbonne. Nunca o vi to bem vestido como naquele
dia. Estava mesmo um palmito.
     - O senhor  que deve ter sido ferido muitas vezes?
     - Eu! - retorquiu o soldado. - Nem por isso. Em Marengo levei duas cutiladas
na nuca, uma bala no brao direito em Austerlitz, outra na ndega esquerda em
Jena, em Friedland uma baionetada aqui em Moscovo sete ou oito lanadas em
diferentes partes, em Lutzen fiquei com um dedo esmigalhado pelo caco de uma
granada... Ah! E depois em Waterloo um biscainho numa coxa; e nada mais.
     - Como  para invejar! - exclamou o barbeiro num tom pindrico. - A morte
no campo da batalha! Eu, palavra de honra, em vez de espichar na cama de uma
doena, vagarosamente, e um bocadinho cada dia rodeado de garrafadas e coberto
de cataplasmas, antes queria levar com uma bala de artilharia.
     - O senhor no  difcil de contentar - disse o soldado.
     Tinha apenas o soldado proferido estas palavras, quando um estampido
imenso pareceu abalar toda a loja. Era um vidro do mostrador que fora naquele
mesmo instante partido violentamente.
    O barbeiro tornou-se lvido.
    - Valha-me Deus! Ali est uma!
    - Uma qu?
    - Uma bala de artilharia.
    - Aqui a tem - disse o soldado.
    E apanhou um objecto que rodava pelo cho. Era um calhau.
    O barbeiro correu  vidraa partida e ainda viu Gavroche fugindo a sete ps
para o mercado de S. Joo. O gaiato sentindo os dois pequenitos a pesar-lhe no
corao e passando pela loja do barbeiro, no pde resistir ao desejo de o
cumprimentar, o que fez atirando-lhe uma pedra aos vidros.
    - Ora vejam l isto! - bramiu o barbeiro, que de branco se tornara azul. - 
mesmo o mal pelo mal! O que  que fizeram quele maroto, no me diro?



    IV
    A criana admirada do velho



    No mercado de S Joo, porm, cujo posto da guarda j tinha sido desarmado,
Gavroche operara a sua juno com um bando capitaneado por Enjolras,
Courffeyrac, Combeferre e Feuilly, todos armados ou quase armados
Engrossavam o grupo Bahorel e Joo Prouvaire, que se lhes tinham vindo juntar
ao caminho. Enjolras levava uma espingarda de caa de dois canos, Combeferre
uma espingarda de guarda nacional com o nmero da legio a que pertencia, e
duas pistolas  cinta, as quais se lhe entreviam pela abertura que deixava o casaco
desabotoado; Joo Prouvaire uma clavina velha de cavalaria, Bahorel um
bacamarte, Courfeyrac uma bengala de estoque, a qual ia brandindo numa das
mos. Feuilly marchava na frente de sabre desembainhado em punho e gritando:
    - Viva a Polnia!
    Os guerreiros mancebos vinham do cais Morland, sem gravatas, nem
chapus, esbaforidos, ensopados em gua, fuzilando relmpagos no olhar
Gavroche uniu-se a eles serenamente e perguntou:
    - Para onde  a ida?
    - Anda da tambm - disse Courfeyrac.
    Atrs de Feuilly marchava, ou antes, saltava Bahorel, espcie de peixe nas
guas da revolta. Levava um colete vermelho e ia proferindo dessas palavras
incendirias que fazem estremecer tudo.  vista do colete, um homem que ia a
passar gritou, tremendo de susto:
     - A temos os vermelhos!
     - Quais vermelhos nem meios vermelhos  replicou Bahorel - O seu medo
causa riso, burgus! Eu no tenho medo de uma papoila nem tremo  vista de um
capelo encarnado! Olhe, burgus, deixemos o medo do vermelho aos animais
corngeros!
     E exclamou logo em seguida, ao avistar numa esquina a mais pacfica folha de
papel que podia haver, uma pastoral do arcebispo de Paris, em virtude da qual
autorizava o uso de ovos s suas ovelhas:
     - Ovelhas!  o mesmo que chamar-nos tolos por boas palavras!
     E, ao dizer isto, arrancou a pastoral. Este acto de coragem conquistou-lhe as
boas graas de Gavroche. Desde esse instante, o gaiato ps-se a estudar Bahorel.
     - Bahorel, tu nisso fazes mal - observou-lhe Enjolras. - Ns no temos nada
com os papis que esto pelas esquinas, por isso devias deixar a pastoral do
arcebispo em sossego. Guarda a tua proviso de clera, no a desbarates to
inutilmente. O fazer fogo  nas fileiras, seja com alma, seja com a espingarda.
     - Cada qual para o que nasceu! - retrucou Bahorel.
     - Causou-me um no sei qu c por dentro este aranzel de bispo, porque eu
quero comer ovos sem lhe darem licena. Tu s um vulco debaixo de uma crusta
de neve, eu no sou assim, gosto de me divertir. Quanto mais, isto no 
malbaratar coisa nenhuma,  para me exercitar. Se rasguei esta pastoral, Hercle!,
foi para criar nimo.
     Impressionado por aquela palavra, Gavroche, que buscava todas as ocasies
de se instruir, e que se sentia atrado para aquele destruidor de cartazes,
perguntou-lhe:
     - Que diabo quer dizer Hercle?
     - Quer dizer santo nome de co, em. latim!  respondeu Bahorel.
     E, ao avistar a uma janela um rapaz plido e de barba preta, que acudira a
v-los passar, e que de certo era tambm algum amigo do ABC, gritou-lhe de
baixo:
     - Ol! Cartuchos com fora. Para bellum.
     - Belo homem! J sei - disse Gavroche, que j entendia o latim.
     Acompanhava j os rapazes um prstito tumultuoso, composto de estudantes,
artistas, jovens filiados na Cougourde de Aix, operrios, moos de fretes, uns
armados de paus ou baionetas, outros com pistolas metidas por entre as calas,
como Combeferre. Marchava no meio do bando um homem, que parecia de idade
bastante avanada, sem qualquer arma, e que, apesar do seu ar distrado, fazia
diligncia por no ficar atrs.
     - Quem  este? - exclamou Gavroche, apontando o ancio a Courfeyrac - 
um velho.
     Era Mabeuf.



    V
    O velho



     Digamos o que se tinha passado.
     Na ocasio em que os drages principiaram, a avanar, Enjolras e os seus
amigos achavam-se no boulevard Bourdon, prximo aos celeiros. Enjolras,
Courfeyrac e Combeferre tinham sido dos que haviam deitado pela rua
Bassonpierre, gritando: s barricadas! Chegados  rua Lesdiguires,
encontraram-se com um velho que vinha em direco oposta. O que mais lhes
atraiu as atenes foi ver o pobre homem caminhando aos ziguezagues, como
embriagado. Alm disto, apesar de ter chovido toda a manh e chover ainda
naquela ocasio com toda a fora, trazia o chapu na mo.
     Courfeyrac conheceu logo que era Mabeuf, porque tinha muitas vezes
acompanhado Mrio at junto da porta dele. Conhecedor, pois, dos pacficos e
mais do que tmidos costumes do velho tesoureiro alfarrabista, e espantado de o
ver no meio daquele tumulto a dois passos das cargas da cavalaria, quase no meio
de um tiroteio, sem chapu e  chuva, passeando sossegadamente entre as balas,
chegou-se a ele, e ento trocou-se o seguinte dilogo entre o revoltoso de vinte e
cinco anos e o octogenrio: -  senhor Mabeuf!  melhor recolher-se a casa.
     - Porqu?
     - Porque vamos ter barulho.
     - Isso  bom.
     - No ho-de faltar tiros nem cutiladas.
     - Isso  bom.
     - E at descargas de artilharia.
     - Isso  bom. E para onde vo os senhores?
     - Deitar o governo a terra.
     - Isso  bom.
     E principiara a segui-los. Desde aquele momento, porm, no tornara a
pronunciar uma palavra. O seu andar tornara-se subitamente firme, de modo que,
tendo-lhe alguns operrios oferecido o brao, ele acenou com a cabea que no.
     Caminhava quase na primeira fileira da coluna, apresentando ao mesmo
tempo o movimento de um homem que anda e o rosto de um homem que dorme.
     - Que danado de velho! - murmuravam os estudantes.
     Corria entre os do bando o boato de que era um antigo convencional, um
velho regicida.
     O ajuntamento j em extremo numeroso, tomara pela rua dos Vidraceiros.
Na frente marchava Gavroche, cantando com toda a fora que podia, o que lhe
dava ares de uma corneta, os seguintes versos: Ai, que noite to bonita, To bonita
de luar Ai, que noite to serena Para andar a passear!
     Tou, tou, tou,
     P'r Chateau.
     Eu sem po, sem pau, sem pedra, Vou daqui a Pontevedra.
     Numa fresca madrugada, Vi dois pardais sentados A comer e a beber vinho.
     Como dois homens casados.
     Zi, zi, zi, Pra Passy.
     Eu sem po, sem pau, sem pedra, Vou daqui a Pontevedra.
     Mais alm vi dois lobinhos.
     Fartos j de bons bocados, E trs tigres numa gruta, Rindo muito descansados.
     Don, don, don, Pra Mendon.
     Eu sem po, sem pau, sem pedra, Vou daqui a Pontevedra.
     Ai, que noite to bonita.
     To amena de luar; Ai, que noite to serena!
     Quem no quer vir passear?
     Tim, tim, tim, P'ra Pantin.
     Eu sem po, sem pau, sem pedra, Vou daqui a Pontevedra.
     E assim caminhavam em direco a Saint-Merry.
    VI
    Recrutas



     O bando engrossava de instante a instante. Nas alturas da rua das Billetes,
reuniu-se-lhes um homem, de meia idade, que nenhum deles conhecia, mas que,
pela sua elevada estatura, aspecto rude e ousado, chamou a ateno de Enjolras,
Courfeyrac e Combeferre Gavroche, entretido a cantar, a assobiar, a produzir
variados sons com a boca, a bater com a coronha da sua pistola sem fechos nas
portadas das lojas, nem dele deu f.
     Como o ajuntamento se encaminhava pela rua dos Vidraceiros, onde ficava a
casa de Courfeyrac, este julgou a propsito separar-se do bando para subir ao seu
quarto buscar o que quer que fosse e exclamou: - No deixa de fazer conta. Uma
vez que passam pela minha porta, deixem-me ir buscar a bolsa, que me esqueceu,
e um chapu, que o outro... foi-se!
     E saindo apressadamente do ajuntamento, foi direito a casa, subiu ao seu
quarto, pegou na bolsa e num chapu velho, e foi igualmente buscar uma espcie
de caixa ou ba que jazia enterrado debaixo da roupa suja a um canto. Na ocasio,
porm, em que a toda a pressa descia as escadas, a porteira gritou-lhe: - Senhor de
Courfeyrac!
     - Como se chama, senhora porteira?  replicou Courfeyrac.
     A porteira olhou-o com gesto de estpido assombro e depois exclamou:
     - Ora, o senhor sabe perfeitamente que sou a tia Veuvain!
     - Muito bem; pois fique sabendo que, se me torna a tratar por senhor de
Courfeyrac, trat-la-ei por tia de Veuvain. Agora diga l. Que temos? Que h de
novo?
     - Est ali uma pessoa que lhe quer falar.
     - Quem ?
     - No sei.
     - Onde est?
     - No meu quarto.
     -  diabo! - disse Courfeyrac.
     - E h mais de uma hora que o espera!  tornou a porteira.
     Ao mesmo tempo saiu do cubculo da porteira uma espcie de operrio,
muito moo, magro, plido, de pequena estatura, muito sardento, vestido com
uma blusa esburacada, umas calas de belbutina remendadas, e que apresentava
mais depressa o aspecto de uma rapariga vestida de rapaz do que o de um homem;
saiu do cubculo, dirigiu-se a Courfeyrac, e disse-lhe com uma voz que nem por
sombras era a de uma mulher: - Tem a bondade de me dizer se sabe do senhor
Mrio?
     - No sei.
     - No voltar hoje para casa?
     - No sei.
     E Courfeyrac acrescentou:
     - Eu  que no volto.
     O rapaz fitou nele os olhos e perguntou-lhe:
     - Porqu?
     - Porque sim.
     - Para onde vai o senhor?
     - Que tens tu com isso?
     - Quer que lhe leve a sua mala?
     - Vou para as barricadas.
     - Quer que v com o senhor?
     - Se queres vir! - respondeu Courffeyrac. - A rua  de todos.
     E deitou a correr para ir juntar-se aos seus amigos.
     Quando se lhes tornou a incorporar deu o cofre a um deles para que o levasse.
S passado um quarto de hora reparou que o rapazito os seguia com efeito.
     Um ajudante no vai precisamente aonde quer. J explicmos que  impelido
por uma rajada de vento. Assim passou alm de Saint-Merry e achou-se, sem
saber como, na rua de S. Diniz.


L12:
    LIVRO DCIMO SEGUNDO
    Corinto



    I
    Histria de Corinto desde a sua fundao



     Mal imaginam os parisienses de hoje que, ao entrar na rua de Rambuteau,
pelo lado dos Mercados, avistam  direita, em frente da rua de Mondtour, uma
loja de cesteiro, que tem por tabuleta um cesto figurando o imperador, sobre o
qual se l a inscrio: NAPOLEO  TODO FEITO DE VIME
     nem mesmo lhes passaro pela ideia as cenas terrveis que aquele local, h
apenas trinta anos, presenciou.
     Era aquele o local da rua de Ghanvrerie, ou Chanverrene, como se l nos
documentos antigos Igualmente era situada nesse stio a clebre casa de pasto
denominada de Corinto.
     Todos se lembram do que se disse acerca da barricada levantada naquele
local, eclipsada, porm, pela de Saint-Merry , pois, sobre essa clebre barricada
da rua de Chanvrerie, hoje sumida entre profundas sombras, que ns vamos
derramar alguma luz Seja-nos lcito ainda recorrer, para clareza da nossa
narrao, ao meio simples de que j nos servimos com relao a Waterloo. As
pessoas que quiserem representar de um modo bastante exacto os grupos de casas
que nessa poca se elevavam junto da ponta de Santo Eustquio, no ngulo
nordeste dos Mercados de Paris, onde hoje fica a embocadura da rua de
Rambuteau, no tm mais do que imaginar um N, cujas hastes verticais figuraro
a rua da Grande Truanderie e a da Chanvrerie, e a transversal a rua da Pequena
Truanderie. Imagine-se mais este N cortado pela antiga rua Mondtour, numa
extenso que abarcava as trs hastes e formando com todas elas tortuosssimos
ngulos. Resultava daqui ser suficiente o labirntico cruzamento daquelas quatro
ruas para, num espao de cem toezas quadradas, compreendido entre os
Mercados e a rua de S. Diniz de uma parte, e as ruas do Cisne e dos Pregadores da
outra, formar sete ilhotas de casas extravagantemente construdas, de diferentes
propores, situadas de esguelha e como que ao acaso, e separadas apenas, 
semelhana dos bancos de uma pedreira, por estreitas fendas.
     Estreitas fendas, dissemos ns, e cremos que no podemos dar ideia mais
exacta do que eram aquelas vielas escuras, apertadas, angulosas e orladas de
casares de oito andares. Era tal a decrepitude destes casares, que na rua da
Chanvrerie e da Pequena Truanderie as fronteiras eram escoradas, na sua maior
parte, por vigas ou barrotes, que atravessavam de um para outro lado da rua. Esta
era to estreita e as enxurradas em ocasies de chuva dilatavam-se por tal modo
para fora do seu leito, que quem passava necessariamente se molhava, seguindo ao
longo daquelas fileiras de lojas escuras como subterrneos e por entre grandes
frades de pedra com aros de ferro, enormes montes de lixo e portas de ptios
guarnecidas de disformes grades, que atestavam a sua longa idade.
     A palavra Mondtour no pode pintar melhor as sinuosidades daquele
ddalo.
     Mais adiante ficava uma rua, a rua Pirueta, que vinha desembocar na rua de
Mondtour, cujo nome ainda melhor as exprimia.
     Era impossvel a todo o que, ao sair da rua de S. Diniz, se embrenhasse na da
Chanvrerie, deixar de notar que esta se ia gradualmente estreitando diante dele 
medida que fosse avanando, como se tivesse entrado num comprido funil. Ao
fim da rua, que era sobremodo curta, encontrava-se a passagem tomada do lado
dos Mercados por uma elevada fileira de casas, de modo que qualquer se julgaria
metido num beco sem sada, se logo de um e de outro lado no avistasse dois
cortes negros, por onde podia escapar-se. Era a rua de Mondtour, que ia
desembocar por um dos lados  rua dos Pregadores, e pelo outro  rua do Cisne e
da Pequena Truanderie. No fundo desta espcie de beco sem sada,  esquina da
entreaberta da direita, notava-se uma casa menos elevada do que as outras, a qual
formava uma espcie de cabo sobre a rua.
     Era nessa casa, apenas de dois andares, que, havia trezentos anos, se achava
alegremente estabelecida uma casa de pasto ilustre. Era uma manso de prazer,
cujo jovial sussurro contrastava com a natural melancolia daquele mesmo local, a
que o velho Tefilo se referiu nesses seus dois versos: Ali baloua o esqueleto
horrvel De um amante infeliz que se enforcou.
     O local, porm, era to afreguesado, que os donos da casa de pasto iam
transmi-tindo o seu mister de pais a filhos.
     No tempo de Mathurin Regnier, denominava-se aquela casa de pasto O
Vaso da Roseira, e como eram moda os enigmas, tinha por divisa um poste
pintado de cor-de-rosa. No sculo passado, o digno Natoire, um dos mestres de
fantasia, hoje desprezados pela escola metdica, movido de um sentimento de
gratido pela lembrana das muitas vezes que se embriagara naquela casa de
pasto,  mesma mesa onde Regnier costumava saciar a sua paixo gastronmica,
pintara um cacho de uvas de Corinto no poste cor-de-rosa. Desvairado de alegria,
o dono do estabelecimento resolveu mudar a antiga divisa, mandando para isso
escrever em letras doiradas, por cima do cacho de uvas, as palavras: Casa de
pasto das uvas de Corinto. Desde ento o estabelecimento ficou sendo conhecido
pelo nome de Corinto. No h coisa mais congruente com a ndole dos bbados
do que as elipses. Pouco a pouco, o cognome de Vaso da Roseira foi sendo
destronado pela nova denominao de Corinto, de modo que o ltimo
proprietrio pertencente  dinastia, ignorando j completamente a tradio, tinha
mandado pintar o poste de azul.
     Uma sala no rs-do-cho, onde ficava o mostrador, outra no primeiro andar,
onde se achava o bilhar, uma escada de madeira, em espiral, que rompia o tecto,
mesas cobertas de copos de vinho, paredes defumadas, velas acesas ainda que
fosse dia claro, eis no que consistia a casa de pasto. Descia-se para a adega por
uma escada de alapo, que havia na sala inferior. No andar superior ficavam os
aposentos dos Hucheloup, donos do estabelecimento.
     Subia-se para eles por uma escada extremamente ngreme, para a qual dava
entrada uma porta falsa, situada na sala grande do primeiro andar. Junto ao
telhado ficavam dois stos reservados para quartos, ou antes, ninhos das criadas.
Ficava a cozinha na parte posterior da loja.
     Hucheloup, o proprietrio da casa de pasto nascera talvez qumico, mas o
caso  que se achava cozinheiro; em sua casa no se bebia s, comia-se tambm,
isto , o seu estabelecimento era loja de bebidas e um bocado de casa de pasto.
Hucheloup inventara um apetitoso manjar que s em casa dele se comia e que
consistia em carpas recheadas, ou, como ele as denominava, carpas gordas.
Comia-se isto  luz de uma vela de sebo ou de um candeeiro do tempo de Lus
XVI em mesas cobertas de oleado, em guisa de toalha. Vinham de longe os
armadores, atrados pelo sabor do convidativo acepipe. Um dia, Hucheloup
tirou-se de seus cuidados, e julgando a propsito advertir os transeuntes da sua
especialidade, pegou num pincel, molhado em tinta preta feita de ps de
sapatos, e como tinha uma ortografia prpria, do mesmo modo que possua uma
culinria toda sua, improvisou na parede esta notvel inscrio: CARPES HO
GRAS
     As chuvas e os gelos de um Inverno tinham tido a fantasia de apagar o S que
terminava a primeira palavra e o G que comeava a terceira e ficara isto: CARPE
HO RAS
      Com a ajuda do tempo e da chuva, tornara-se em profundo conselho um
humilde anncio gastronmico.
      Deste modo sucedera que o tio Hucheloup, no sabendo francs soubera
latim, fizera sair da cozinha a filosofia, e querendo unicamente suplantar Careine,
igualara Horcio. O mais frisante era que o ttulo assim, queria dizer tambm: -
Entra na minha taberna.
      Nada disto existe hoje. O ddalo Mondtour extirpado e largamente aberto j
em 1847, provavelmente j no existe hoje; a rua da Chanvrerie e Corinto
desapareceram sob a calada da rua Rambuteau.
      Como j dissemos, Corinto era um dos pontos de reunio de Courffeyrac e
dos seus amigos. Corinto fora descoberto por Grantaire, o qual ali entrara por
causa de Carpe horas, e voltara por causa das Carpes-au-gras.
      Ali comia-se, bebia-se, gritava-se, gastava-se pouco, pagava-se mal, ou mesmo
no se pagava, e era sempre bem aparecido O tio Hucheloup era um bom homem.
      Hucheloup, bom homem, como acabamos de dizer, era um baiuqueiro de
bigode, variedade muito divertida.
      Estava sempre mal encarado, parecia querer intimidar os fregueses,
resmungava com as pessoas que lhe entravam em casa, e mostrava-se sempre mais
disposto a disputar com elas do que a servir-lhes a sopa. Todavia, sustentava o
dito: eram sempre bem aparecidas. Esta extravagncia -dera-lhe voga ao
estabelecimento e conduzia-lhe sempre rapaziada, que dizia sempre entre si:
-Vamos ouvir rosnar o tio Hucheloup.
      Noutro tempo fora mestre de esgrima. De repente desatava a rir. Voz grossa,
pobre diabo. Tinha um fundo cmico com uma aparncia trgica; o que ele
desejava era assustar, pouco mais ou menos como as caixas de rap que tm a
forma de uma pistola. A detonao faz espirrar.
      Tinha por Consorte a tia Hucheloup, que era um ente barbudo, em extremo
feio.
      O tio Hucheloup morreu por volta de 1830 e com ele desapareceu o segredo
das Carpes-au-gras. A sua viva pouco consolvel, continuou com a taberna; mas
a cozinha degenerou e tornou-se execrvel, e o vinho que fora sempre mau,
tornou-se horrvel. No obstante, Courffeyrac e os seus amigos continuaram a
frequentar o estabelecimento - por caridade - dizia Bossuet.
      A tia Hucheloup era esbaforida e disforme com recordaes campestres.
Tirava-lhes a insipidez com a pronncia. Tinha um modo particular de dizer as
coisas, que temperava as suas reminiscncias aldes.
     A sala do primeiro andar do restaurante era uma casa grande e comprida
atulhada de bancos, de cadeiras, de mochos, de mesas e de um bilhar velho e coxo.
     Subia-se para ali pela escada em espiral que terminava a um canto da sala,
numa abertura quadrada, semelhante  escotilha de um navio.
     Esta casa, que alm da luz de um candeeiro aceso de dia e de noite, s recebia
a claridade que lhe entrava por uma janela, tinha o ar de um sto. Os mveis de
quatro ps comportavam-se todos como se tivessem trs. As paredes, caiadas, no
tinham por ornato seno este quarteto, em honra da tia Hucheloup, escrito a
carvo numa delas: A dez passos espanta, a dois assusta, Tal  de seu nariz o bom
tamanho.
     No ser maravilha se algum dia Outro dilvio houver, porm de ranho.
     A tia Hucheloup, muito bem descrita pelo quarteto, passava desde manh at
 noite por diante dele com a mais perfeita tranquilidade. Duas criadas chamadas
Matelote e Gibelotte, s quais nunca se conhecera outros nomes, ajudavam a tia
Hucheloup a pr sobre as mesas os canjires de vinho e as variadas chanfanas que
eram servidas aos famintos em tigelas de barro. Matelote, grossa, rolia, ruiva e
berradora, antiga sultana favorita do defunto Hucheloup, era mais feia do que
qualquer monstro mitolgico; contudo, como  bem que a criada se conserve
sempre atrs da ama, era menos feia do que a tia Hucheloup. Gibelotte, alta,
delicada, clara, mas de uma alvura linftica, os olhos quase fechados, as plpebras
descidas, sempre exausta e acabrunhada, padecendo do que se poderia chamar
cansao crnico, sendo a primeira que se levantava e a ltima que se deitava,
servia toda a gente, incluindo a outra criada, silenciosa e com agrado, sorrindo sob
a fadiga com uma espcie de vago sorriso adormecido.
     Antes de Se entrar na sala do restaurante lia-se por cima da porta este
verso, escrito a giz por Courffeyrac:
     Regala-te, se podes; come, se tens nimo.



    II
    Alegrias preliminares



     Laigle de Meaux, como  sabido, preferia a habitao de Joly a qualquer outra
residncia. Laigle de Meaux era como os pssaros, aos quais qualquer ramo de
rvore serve de morada. Os dois amigos, pois, viviam juntos, comiam juntos,
dormiam juntos; tudo entre ambos era comum, mesmo Musicheta, at certo
ponto. Eram o que os frades capuchinhos denominam bini. Na manh do dia 5 de
Junho foram almoar ambos a Corinto. Joly tinha o nariz entupido, porquanto
tinha sido acometido de um forte defluxo, que Laigle de Meaux principiava a
partilhar. Laigle trajava um casaco desbotado; Joly, porm, ia apuradamente
vestido.
     Eram quase nove horas da manh, quando os dois amigos transpuseram o
limiar da porta do clebre restaurante e subiram ao primeiro andar, onde foram
recebidos por Matelote e Gibelotte.
     - Fiambre, queijo e ostras - disse Laigle, e procuraram assento junto a uma
das mesas, A sala estava completamente deserta. Eram os dois amigos os nicos
convivas do estabelecimento.
     Gibelotte, reconhecendo Joly e Laigle, ps logo na mesa uma garrafa de
vinho.
     Quando estavam saboreando as primeiras ostras, viram aparecer uma cabea
na escotilha da escada e ouviram uma voz, dizendo:
     - Ia passando, mas fui atacado na rua por um cheiro de queijo de Brie to
delicioso, que no pude resistir  tentao.
     Era Grantaire, que logo pegou num mocho e se chegou para a mesa.
     Gibelotte, vendo Grantaire, trouxe mais duas garrafas de vinho.
     Ficaram sendo trs.
     - Fazes ento teno de despejar essas duas garrafas? - perguntou Laigle a
Grantaire.
     Grantaire respondeu:
     - Engenhosos so todos, mas ingnuo s s tu. Duas garrafas de vinho nunca
causaram espanto a homem nenhum.
     Os outros tinham comeado por comer, Grantaire comeou por beber. Meia
garrafa foi rapidamente despejada.
     - Tens algum buraco no estmago? - tornou Laigle.
     - Tambm tu tens um, mas  no cotovelo  disse Grantaire.
     E depois de ter despejado o copo, acrescentou:
     - Laigle das oraes fnebres, tens uma casaca muito velha!
     -  por isso que me dou muito bem com ela. Acomoda-se a todas as minhas
rugas, no me incomoda em coisa nenhuma, ajeita-se s minhas disformidades, 
condescendente com todos os meus movimentos; no a sinto seno porque me
aquece.
     O fato velho  como os velhos amigos.
     - Isso  que no tem dvida! - exclamou Joly, intervindo no dilogo. - Um
casaco velho  um abrigo velho.
     - Especialmente na boca dum homem que tenha o nariz entupido! -
respondeu Grantaire.
     - Vens do boulevard, Grantaire? - perguntou Laigle.
     - No.
     - Eu e o Joly vimos h pouco passar a frente do cortejo.
     -  um espectculo baravilhoso! - disse Joly, trocando os mm em bb, por
causa do seu defluxo.
     - Que tranquila  esta rua! - exclamou Laigle. - Quem suspeitaria aqui do
tumulto que vai por Paris? Como se conhece ter sido isto por aqui cheio de
conventos noutro tempo! Du Breuil e Sauval do a lista deles, assim como o abade
Leboeuf. No havia outra coisa em todo este stio; frades calados, descalos,
tonsurados, barbadi-nhos, pardos, pretos, brancos, franciscanos, mnimos,
capuchos, carmelitas, agostinhos maiores, agostinhos menores, velhos
agostinhos... enfim, era um nunca acabar!
     - No falemos em frades - disse Grantaire -  uma coisa que faz comicho.
     E em seguida exclamou:
     - Puf! Engoli agora uma ostra que no prestava para nada! A est a
hipocondria outra vez de volta comigo. As ostras esto podres e as criadas feias
como no sei que diga! Meus amigos, eu odeio a espcie humana! Passei agora
pela rua Richelieu e olhei com nusea para a enorme livraria pblica. Aquele
monte de cascas de ostras chamado biblioteca tira-me mesmo a vontade de
pensar. O que ali vai de papel, de tinta, de garatujas! Escreveu-se tudo aquilo! E,
no obstante isto, qual foi o maroto que disse que o homem era um bpede sem
penas? Ainda para mais, encontro-me com uma linda rapariga do meu
conhecimento, bela como a Primavera, digna de se chamar Floreai, extasiada,
transportada, jubilosa, alegre, louca de prazer, a miservel, porque um torpe
banqueiro, com a cara cheia de buracos de bexigas, se dignou ontem fazer-lhe
fosquinhas! A mulher  assim. Tanto ameiga o merceeiro como o narciso
perfumado! So como as gatas, que tanto caam ratos como pssaros! Ainda no
h dois meses que ela vivia honestamente, numa gua-furtada, de pregar ilhozes
em espartilhos; vocs sabem como isto se chama? Vivia da costura, que  o caso;
dormia numa barra de pinho, trabalhava sempre com um vaso de flores ao p de
si, vivia satisfeita. Agora a a tm banqueira! Operou-se esta noite essa
transformao e hoje pela manh encontrei a vtima muito alegre da sua vida! O
que  pouca vergonha  que a brejeira to bonita era ontem como hoje. No se lhe
conhecia o tratante do banqueiro na cara! As rosas tm de mais ou de menos que
as mulheres conhecer-se-lhe o rasto das lagartas. Santo Deus! A moral  coisa que
neste mundo no existe! Seno, sirva de prova o mirto, smbolo de amor, o
loureiro, smbolo da guerra, a oliveira, essa coisa to estpida, smbolo da paz, a
macieira, que por um triz no esganava Ado com a pevide, e a figueira, a av das
saias. Quanto ao direito, querem vocs saber o que  o direito? Os Gauleses
cobiam Clusa, Roma protege-a e pergunta-lhes que mal lhes fez Clusa. Brenno
responde: O mesmo que vos fez Alba, o mesmo que vos fez Fidena, que vos
fizeram os Equos, os Volscos e os Sabinos. Eram vossos vizinhos. Os Clusenses
esto para ns na mesma razo. Entendemos a vizinhana como vs. Vs
roubastes Alba, ns tomamos Clusa. Roma disse: Pois no haveis de tomar
Clusa.
     Mas foi Brenno e tomou Roma. E depois gritou: Vae victis. Aqui tendes. O
direito  isto. Ah, o que por esse mundo no vai de aves de rapina! Quase tudo so
guias!
     Tantas, que tenho medo delas!
     O rapaz estendeu o copo a Joly, que lho encheu, e prosseguiu, depois de o
despejar, quase sem se interromper com este copo de vinho, de que ningum deu
f, nem ele mesmo: - Brenno, tomando Roma,  uma guia; o banqueiro, tomando
a costureira,  uma guia. Tanta vergonha se d num como noutro. Portanto, no
acreditemos em nada. A nica realidade  - beber. Seja qual for a vossa opinio, ou
sejais pelo galo gauls como o canto de Uri ou pelo galo godo como o canto de
Claris, isso pouco importa, o caso  beber!  verdade, vocs falaram-me h bocado
no boulevard, no prstito, etc. Com que ento temos mais outra revoluo?
Realmente,  para espantar esta indigncia de meios da parte de Deus. No sei que
diabo  isto, que  preciso que ele esteja a todo o instante a untar os eixos dos
acontecimentos! Porque isto no anda; porque as dobradias esto perras... J, j
uma revoluo! Deus j h-de andar com as mos pretas de estar sempre a
lubrificar a mquina! Eu, no lugar dele, no estava l com meias medidas nem me
punha com vagares a concertar o casco para a humanidade fazer a sua viagem;
levava o gnero humano de um encontro s, urdia os acontecimentos malha por
malha, sem quebrar o fio, e no me punha com composturas, com expedientes
provisrios, nem admitia repertrio extraordinrio. Isso que vocs chamam
progresso  tocado por dois motores, os homens e os acontecimentos. Porm,
triste coisa! De tempos a tempos, torna-se necessrio o excepcional. Nem os
homens nem os acontecimentos se do s vezes por satisfeitos com a companhia
ordinria, e ento  necessrio que entre os homens apaream gnios, e entre os
acontecimentos se dem revolues. So de lei os grandes desastres, e tanto que
nem a ordem social os pode dispensar. Para bem dizer,  vista das aparies dos
cometas, quase estou em acreditar que at mesmo o cu tem necessidade de
actores para as suas representaes.
     No momento em que a gente menos o espera, zs! pega Deus num meteoro,
espeta-me com ele na parede do firmamento, e ali aparece uma estrela esquisita,
sublinhada por uma enorme cauda, que faz morrer Csar. Bruto d-lhe uma
punhalada, Deus uma cometada. No lhes digo nada; anda a gente muito
descansada da sua vida, zs!, uma aurora boreal, uma revoluo, um grande
homem; 93 em grandes letras, Napoleo de sentinela, o cometa de 1811 no cimo
do cartaz. Ai, meu belo cartaz azul, todo marchetado de inesperados fulgores!
Bum! Bum!, espectculo extraordinrio. Levantai a cabea, papalvos.  tudo
desgrenhado, tanto o astro como o drama. Deus das alturas,  de mais, e no 
bastante. Estes recursos, tirados da excepo, parecem magnificncia e so
pobreza. Meus amigos, a Providncia acha-se reduzido a lanar mo de
expedientes. Uma revoluo! Isso que prova? Que Deus se v em apuros. D um
golpe de Estado, por que h soluo de continuidade entre o presente e o futuro, e
porque ele apesar de ser Deus, no pode chegar a unir as duas pontas. Na verdade,
esta circunstncia acaba de me confirmar nas minhas conjecturas sobre a situao
de fortuna de Jeov, e a julgar por tantas pobrezas que j vo l em cima e c em
baixo,  vista de tanta mesquinhez e penria, de tanta inpia e falta de meios,
assim na terra como no cu, desde a ave que no tem um gro de paino at eu
que no tenho cem mil libras de renda,  vista do destino humano, que est
bastante roado, e at do destino real, que mostra o fio haja vista ao prncipe de
Conde enforcado  face do Inverno, que no  mais do que um rasgo no znite
por onde sopra o vento, a julgar pelo sem-nmero de remendos que se vem em
tudo, mesmo na prpura toda nova da manh no alto das colinas, a julgar pelas
gotas do orvalho, que so outras tantas prolas falsas, a julgar pela geada, que 
um diamante fingido, a julgar pela humanidade descosida e pelos acontecimentos
j batidos,  vista de tantas manchas no Sol, de tantos buracos na Lua,  vista de
tanta misria em tudo, desconfio que Deus no est l muito rico. H aparncia, 
verdade, mas conhece-se a pobreza que se esconde. Ele d uma revoluo, como o
negociante, cujo cofre se acha vazio, d um baile. Ningum julgue dos deuses
pelas aparncias. Entrevejo por baixo das douraduras do cu um universo pobre.
A criao ressente-se de bancarrota.  por isso que no estou satisfeito.
     Ora vejam vocs; estamos a 5 de Junho e  quase noite escura; desde pela
manh que estou  espera do dia, e ele no acaba de chegar nem, estou capaz de
apostar, chegar hoje.  uma falta de pontualidade, prpria de caixeiro que no
anda bem pago.  como lhes digo. Anda tudo fora do eixo, no h uma s coisa
que diga com outra, acha-se tudo empenado. Sabem vocs que mais? Passo-me
para a oposio.
     Anda tudo como Deus  servido; est um universo bom para dar cabo da
pacincia  gente.  como com os filhos; os que os desejam, no os tm, os que os
no desejam, vem-se cobertos deles. Em suma: tenho a pacincia ralada, que  o
que vos sei dizer.
     Ainda para maior zanga, aqui est Laigle de Meaux que nem ele sabe o ferro
que me mete com a sua calva. Humilha-me s a lembrana de que sou da mesma
idade que este joelho, porque tu hs-de saber, meu caro Laigle das elegias
sagradas, a tua calva, e a calva de todos os calvos, parece um joelho. Contudo, seja
dito em abono da verdade, eu critico, mas no insulto. O universo  aquilo que .
Se falo,  sem m inteno e s para descargo da minha conscincia. Recebei,
Padre Eterno, os protestos da minha distinta considerao. Oh, por todos os
santos do Olimpo e por todos os deuses do Paraso, eu no nasci para parisiense,
quero dizer, para andar sempre, como um volante entre duas baquetas, do grupo
dos tafues para o grupo dos trocistas! Eu nasci para turco, para estar um dia
inteiro a ver executar por slfides orientais as delicadas danas egpcias, lbricas
como os sonhos de um homem casto; eu nasci para campons beaucense, ou para
fidalgo veneziano, rodeado de damas gentis, ou principezinho alemo,
contribuindo com metade de um soldado para a confederao germnica, e
ocupando as minhas horas de cio a enxugar os coturnos na minha sebe, isto , na
minha fronteira! Eis os destinos para que eu nasci! Turco, disse eu, e no me
desdigo.
     No sei porque razo quase sempre se toma a palavra turco em mau sentido;
Maom tem coisas boas; respeito ao inventor dos serralhos de houris e dos
parasos de odaliscas! No insultemos o maometismo, a nica religio que tem
por ornamento um galinheiro. A vista disto beberei mais. A terra  uma tolice
chapada. E, segundo parece, esses patetas vo bater-se uns contra os outros,
esmurrarem as ventas, fazerem-se em postas, no pino do Vero, no ms de Junho,
quando, em lugar disso, podiam ir com uma ninfa a reboque pelo brao, aspirar
ao campo a imensa chvena de ch dos trigos ceifados. Realmente, ningum v
seno tolices! Vi h bocado em casa de um adeleiro uma lanterna velha e
quebrada, que me sugere uma reflexo. Julgo que j  tempo de esclarecer o
gnero humano. Mas a vem outra vez a tristeza tomar posse de mim!
     Vejam o que faz engolir a gente uma ostra e uma revoluo  sobreposse! A
estou eu lgubre! Oh, velho mundo, velho mundo! s o vaso torpe da
desmoralizao, da privao, da prostituio, da ambio, da inaptido!
     E Grantaire, aps este mpeto de eloquncia, teve um mpeto de tosse,
merecido!
     - A propsito de revoluo - disse Joly  creio que sempre  certo o Mrio
estar enamorado.
     - Sabe-se por quem? - perguntou Laigle.
     - No.
     - No?!
     - J te disse que no.
     - Os amores de Mrio! - exclamou Grantaire. - Estou a v-los daqui. Mrio 
um nevoeiro que achou talvez uma nebulosa. Mrio  de raa potica. Quem diz
poeta, diz doido. Thymbroeus Apollo. Mrio e a sua Maria, ou a sua Mariette, ou
a sua Marion; no devem ser feios os tais amores. Eu percebo bem a coisa: so
tudo xtases em que o beijo  completamente esquecido. So castos na terra, mas
desposam-se no infinito. So duas almas que tm sentidos. Dormem juntas no
meio das estrelas.
     Grantaire ia a encetar a sua segunda garrafa e talvez a sua segunda arenga,
quando surgiu da abertura quadrada da escada um novo ente. Era um rapazito de
menos de dez anos, esfarrapado, amarelo, com a boca em forma de focinho, olho
vivo, cabelos muito crescidos, todo encharcado pela chuva, e com ar satisfeito.
     O rapazito, escolhendo sem hesitar entre os trs, conquanto no conhecesse
evidentemente nenhum, dirigiu-se a Laigle de Meaux.
     - O senhor  que  o senhor Bossuet? - perguntou ele.
     - Sou - respondeu Laigle - que me queres?
     - Eu lhe digo. No boulevard, um sujeito loiro disseme: Conheces a tia
Hucheloup? Conheo, disse eu, na rua da Chanvrerie, a viva do velho. Ele ento
continuou: Vai l, procura o senhor Bossuet e dize-lhe da minha parte A. B. C.
Isto  troa, no  verdade?
     E deu-me dez soldos.
     - Joly, empresta c dez soldos - disse Laigle, e voltando-se para Grantaire,
acrescentou: - Grantaire, empresta-me dez soldos.
     E, juntando os vinte soldos, deu-os ao rapazito.
     - Muito obrigado - disse ele.
     - Como te chamas? - perguntou-lhe Laigle.
     - Chamo-me Navet, sou amigo de Gavroche.
     - Fica connosco - disse Laigle.
     - Almoa com a gente - acrescentou Grantaire.
     - No posso - retorquiu o pequeno - sou do cortejo; eu  que grito abaixo
Polignac.
     E, recuando muito um dos ps, que  o mais respeitosodos cumprimentos
possveis, foi-se embora.
     Depois do rapaz sair, Grantaire tomou a palavra.
     - Aquilo  o gaiato puro. H muitas variedades no gnero. O gaiato escrivo
chama-se salta-pocinhas, o gaiato cozinheiro chama-se bicho, o gaiato padeiro
chama-se moo, o gaiato lacaio chama-se groom, o gaiato marinheiro chama-se
pirralho, o gaiato soldado chama-se danante, o gaiato negociante chama-se
paquete, o gaiato corteso chama-se moo fidalgo, o gaiato rei chama-se delfim e
o gaiato deus chama-se menino.
     Entretanto, Laigle, que estava meditando, disse a meia voz:
     - A. B. C., quer dizer: Enterro de Lamarque.
     - O sujeito loiro - observou Grantaire - foi o Enjolras, que te mandou avisar.
     - Vamos? - disse Bossuet.
     - Est a chover - disse Joly. - Eu jurei ir ao fogo e no  gua. No quero
constipar-me.
     - Eu fico aqui - retorquiu Grantaire. - Prefiro um almoo a um coche de
enterro.
     - Em concluso - tornou Laigle - no vamos. Mas, toca a beber. E depois,
pode-se faltar ao enterro sem faltar  revolta.
     - A revolta no! - exclamou Joly.
     Laigle esfregou as mos:
     -Vai ser retocada a revoluo de 1830. Precisa-o bem; est apertada nas cavas,
prende os movimentos do povo.
     - Para mim  quase indiferente a sua revoluo - disse Grantaire. - No
aborreo este governo.  a coroa equilibrada pelo barrete de algodo.  um ceptro
terminado em chapu de chuva. Com efeito, hoje no me tinha lembrado disto -
com este tempo poder Lus Filipe tirar proveito dos dois extremos da sua realeza,
estender o extremo do ceptro contra o povo e abrir o extremo chapu de chuva
contra o cu.
     A casa escurecera; a claridade acabava de ser suprimida por espessas nuvens.
     No estava uma s pessoa i, na taberna nem na rua; toda a gente tinha ido
ver os acontecimentos.
     -  meio-dia ou meia-noite? - gritou Bossuet. - No se v nada, Gibelotte, luz!
     Grantaire, triste, bebia.
     - Enjolras despreza-me - murmurou ele. - Enjolras disse consigo. - Joly est
doente e Grantaire bbado, e, portanto, mandou o recado a Bossuet. Se ele viesse
buscar-me, segui-lo-ia. O mal  para ele! No vou ao enterro.
     Adoptada esta resoluo, Bossuet, Joly e Grantaire, no se moveram da
taberna.
     s duas horas da tarde estava a mesa a que se tinham sentado coberta de
garrafas vazias. Estavam tambm ali duas velas acesas, uma metida numa
palmatria de lato perfeitamente verde, a outra no gargalo de uma garrafa
rachada. Grantaire arrastara Joly e Bossuet para o vinho, Bossuet e Joly tinham
reconduzido Grantaire para a alegria.
     Quanto a Grantaire, depois do meio-dia ultrapassara o vinho, medocre fonte
de sonhos. O vinho, para os bbados srios, no tem seno um xito de estima. Na
ebriedade h a magia preta e a magia branca. Grantaire era um aventuroso
bebedor de sonhos. A negrura d uma embriaguez temvel, entreaberta diante
dele, em vez de o fazer parar, atraa-o. Deixara de parte as garrafas e lanara mo
da caneca. A medida  o abismo. No tendo ali  mo pio, nem haxixe, e
querendo preencher o crebro de crepsculo, recorrera  medonha mistura de
aguardente, de cerveja e de absinto, que produz to terrveis letargos.  dos trs
vapores, cerveja, aguardente, absinto, que se compe o chumbo da alma. So trs
trevas; a borboleta celeste afoga-se nelas; e formam-se ali, num fumo membranoso
vagamente condensado em asa de morcego, trs frias mudas; o Pesadelo, a Noite,
a Morte, esvoaando por sobre psich adormecida.
     Grantaire no chegara ainda a esta fase lgubre, estava muito longe dela. A
sua alegria era prodigiosa; Bossuet e Joly correspondiam-lhes tocando os copos.
     Grantaire juntava  acentuao excntrica das palavras e das ideias a
divagao do gesto; apoiava com dignidade o punho esquerdo no joelho, fazendo
esquadria com o brao, e, com a gravata desatada, a cavalo num banco, com o
copo cheio na mo direita, dirigia  alentada Matelote estas palavras solenes: -
Abram-se as portas do palcio! Sejam todos da academia francesa para terem o
direito de abraar a senhora Hucheloup! Bebamos!
     E voltando-se para a tia Hucheloup, acrescentou:
     - Mulher antiga e consagrada pelo uso, aproxima-te, deixa-me contemplar-te!
     Joly gritou:
     - Matelote e Gibelotte, no dem mais vinho a Grantaire, que d cabo de um
dinheiro louco. Desde esta manh que tem devorado em prodigalidades
desatinadas dois francos e noventa e cinco centimes!
     Grantaire continuou:
     - Quem foi que despendurou as estrelas sem minha licena, para vir p-las
sobre a mesa  maneira de luzes?
     Bossuet, muito embriagado, conservara a sua tranquilidade. Sentara-se no
parapeito da janela, que estava aberta, deixando molhar as costas pela chuva e
contemplando os dois amigos.
     De repente ouviu atrs de si um grande tumulto, passos precipitados e gritos
de:
     s armas! Voltou-se e viu passar na rua de S. Diniz, no extremo da rua da
Chanvrerie, Enjolras de carabina na mo, Gavroche com a sua pistola, Feuilly com
o seu sabre, Courffeyrac com a sua espada, Joo Prouvaire, Combeferre e Bahorel
com as suas espingardas, e enfim, todo o ajuntamento armado e tempestuoso que
os seguia.
     A rua de Chanvrerie, desde a taberna at ao seu extremo, no era mais
comprida do que o alcance duma clavina. Bossuet improvisou com as mos um
porta-voz e gritou: - Courffeyrac! Courffeyrac!
     Courffeyrac ouviu o chamamento, deu alguns passos para a rua de
Chanvrerie e gritou um: Que queres tu? que se cruzou com um: Aonde vais
tu? - Fazer uma barricada - respondeu Courffeyrac.
     - Vem faz-la aqui que  um bom stio; vem faz-la aqui!
     - Tens razo, Laigle de Meaux! - disse Courffeyrac.
     E a um aceno seu a multido precipitou-se pela rua de Chanvrerie.



    III
    Em que Grantaire principia a escurecer



    Efectivamente, o stio indicado por Bossuet no podia ser melhor. A rua 
entrada era larga e estreita no fundo, em forma de funil, por causa da casa em que
se achava estabelecida a locanda da viva Hucheloup; a rua de Mondtour, fcil de
obstruir de um e de outro lado, e, finalmente, dava-se a circunstncia de ser
impossvel qualquer ataque, a no ser pela rua de S, Diniz, isto , de frente e a
descoberto.
     Bossuet tinha tido, bbado, o olhar de Anbal em jejum.
     Com a irrupo do bando ficou a rua em completo susto. No se tornou a ver
nem mais um transeunte. Em menos de um segundo, lojas, portas, janelas,
persianas, postigos, trapeiras, grades, fechou-se tudo de alto a baixo, em toda a
extenso da rua e circunvizinhanas. Uma velha, aterrada com a ideia das balas,
pusera fora da janela um colcho pendurado numa vara de enxugar roupa. S a
casa da locanda tinha ficado aberta, pela simples razo de que o bando havia
entrado por ela dentro.
     - Ai, Jesus Senhor! Ai, meu Deus! - suspirava a pobre viva Hucheloup.
     Bossuet tinha descido a encontrar-se com Courffeyrac.
     Joly acorrera  janela e gritava para baixo:
     - Courffeyrac, fazes mal em andar sem guarda-chuva. Olha que te arriscas a
constipar-te!
     Dentro de poucos minutos, porm, os revoltosos tinham arrancado vinte
vares  grade da taberna e descalado mais de dez toezas de rua; Gavroche e
Bahorel tinham-se apoderado e estendido por terra uma carroa de um fabricante
de cal, de nome Anceau, a qual conduzia trs barricas cheias de cal, que colocaram
por baixo das pedras arrancadas  calada e amontoadas em pilhas; Enjolras tinha
levantado o alapo da adega, de onde tirara todas as vasilhas vazias da viva
Hucheloup para colocar ao lado das barricas de cal; Feuilly, com os seus dedos
afeitos a iluminar as delicadas lminas dos leques, tinha guarnecido as barricas e o
carro com dois grossos montes de pedras, pedras arranjadas como o mais, sem se
saber onde nem como. Sobre as vasilhas assentavam algumas vigas, que serviam
de escoras a uma casa prxima, de onde tinham sido arrancadas pelos revoltosos.
Quando Bossuet e Courffeyrac se voltaram, metade da rua achava-se j obstruda
por uma trincheira da altura de um homem. No h coisa mais diligente do que o
brao popular para construir aquilo que se constri demolindo.
     Matelote e Gibelotte tinham-se juntado aos trabalhadores. Gibelotte levava
para a barricada cestos de entulho. A sua canseira ajudava a construo. Servia
pedras como teria servido vinho, com o todo de quem andava a dormir.
     No momento de maior fervor, passou na extremidade da rua um omnibus
puxado a dois cavalos brancos.
     Bossuet saltou a barricada em comeo, deitou a correr para o fim da rua, fez
parar o cocheiro, descer os viajantes, dando a mo s senhoras, despediu o
condutor e voltou, conduzindo carro e cavalos pelas rdeas.
     - Por diante de Corinto no passam omnibus!  exclamou ele. - Non licet
omnibus adite Corinihum.
     Da por um instante, os cavalos vagavam  solta pela rua de Mondtour e o
omnibus, jazia deitado de lado  entrada da rua, concorrendo para a sua completa
obstruo.
     A viva Hucheloup tinha-se refugiado no primeiro andar, espavorida do
belicoso aspecto de todos aqueles homens.
     Seus olhos desvairados olhavam sem ver; a voz ficava-lhe presa na garganta,
como se o susto lha tomara.
     -  o fim do mundo! - murmurava ela.
     Joly depunha um beijo no gordo, vermelho e enrugado pescoo da viva
Hucheloup e dizia a Grantaire:
     - Meu caro, eu sempre considerei o pescoo de uma mulher como uma coisa
infinitamente delicada!
     Grantaire, porm, atingia as mais altas regies do ditirambo. Ao dar por
Matelote, que tinha subido ao primeiro andar, agarrara-a pela cintura e dizia da
janela, soltando grandes gargalhadas: - Matelote  feia? Matelote  a fealdade ideal!
 uma quimera. Querem saber o segredo do seu nascimento? Ei-lo: - Um dia um
pigmalio gtico, que fazia carrancas para catedrais, enamorou-se de uma delas,
da mais horrvel; pediu ao amor que a animasse e saiudaqui Matelote. Ora olhai,
cidados! Tem os cabelos cor de cromato de chumbo, como a amante de Ticiano,
e  uma boa rapariga. Afiano-vos que se h-de bater bem! Toda a boa rapariga
encerra em si um heri! Quanto  tia Hucheloup,  uma valorosa velha. Vejam
que bigodes ela tem! Herdou-os do marido.  uma granadeira! Vocs vero como
ela tambm se h-de bater! Bastam elas ambas para porem medo a todo o
termo!... Camaradas! Havemos de derrubar o governo, to certo como existirem
quinze cidos intermedirios entre o cido margarico e o cido frmico; que,
afinal de contas, isso para mim  completamente indiferente. Senhores, meu pai
detestou-me sempre, porque eu nunca pude meter dente nas matemticas. Eu c
no compreendo seno o amor e a liberdade! Sou Grantaire, o bom rapaz! Como
nunca tive dinheiro nunca me acostumei a ele, e, por conseguinte, nunca me
faltou; porm, se eu fosse rico, no tornava a haver pobres, haviam de ver! Oh, se
os bons coraes fossem os que tivessem boas burras, outro galo cantaria e as
coisas haviam de marchar por outro trilho! Ora imaginem Jesus Cristo, com a
fortuna de Rothschild!
     Que bem ele no faria! D-me um abrao, Matelote! s voluptuosa e tmida!
Tens umas faces que atraem beijos de irm e lbios que esto pedindo beijos de
amante!
     - Cala-te, pipa! - disse Courffeyrac.
     - Sou capito e mestre dos jogos florais.
     Enjolras, que se encontrava de p em cima da encetada barricada, de
espingarda na mo, levantou o belo e austero rosto e fitou Grantaire, Enjolras,
como sabem, participava do espartano e do puritano. Com Lenidas teria morrido
nas Thermopylas, com Cromwell teria ajudado a queimar Drogheda.
     - Grantaire! - gritou ele. - Vai cozer a bebedeira para outro stio! Aqui  o
lugar da embriaguez, mas no da bebedice! No desonres a barricada!
     Estas irritadas palavras produziram um efeito singular sobre Grantaire.
Dir-se-ia que lhe tinham atirado um copo de gua fria  cara. Como que lhe
passou de repente a embriaguez. Sentou-se, encostou-se a uma mesa junto da
janela, fitou Enjolras com inexprimvel meiguice e disse-lhe: - Ento deixa-me
aqui dormir.
     - Ora, vai dormir para outro stio! -gritou Enjolras.
     Grantaire, porm, tornou a fitar no rapaz o seu olhar embaciado e cheio de
ternura e respondeu:
     - Deixa-me dormir aqui at morrer!
     Enjolras fitou-o com olhar desdenhoso e retorquiu:
     - Olha, Grantaire, s incapaz de crer, de pensar, de viver e de morrer!
     - Tu vers! - replicou Grantaire com grave inflexo de voz.
     Balbuciou ainda mais algumas palavras ininteligveis pendeu em seguida a
cabea pesadamente para cima da mesa e da a um instante - costumado efeito do
segundo perodo da embriaguez, para o qual Enjolras rude e, inesperadamente o
impelira - tinha adormecido profundamente.
    IV
    Tentativa de consolao  viva Hucheloup



     Bahorel, extasiado em presena da barricada, exclamou:
     - Est a rua decorada! Como isto sabe bem!
     Courffeyrac, ao passo que quase demolia a taberna, diligenciava consolar a
viva taberneira.
     -  tia Hucheloup, no se queixava h dias de que a tinham intimado para
pagar uma multa, porque a Gibelotte sacudira um tapete  janela?
     -  verdade, senhor Courffeyrac. Valha-me Deus! Tambm me leva essa mesa
para o seu horror? E no s pelo tapete como por um vaso de flores que caiu da
gua-furtada para a rua extorquiu-me o governo cem francos de multa. Veja se
no  desaforo!
     - Pois  disso que ns vamos ving-la, tia Hucheloup.
     A tia Hucheloup, naquela reparao que lhe faziam, no parecia compreender
muito bem o seu benefcio.
     Estava satisfeita ao modo daquela mulher rabe, que tendo levado do marido
uma bofetada, se foi queixar a seu pai, clamando por vingana e dizendo: Pai,
deves a meu marido afronta por afronta! O pai perguntou-lhe: Em que face te
deu ele a bofetada? Na face esquerda. O pai deu-lhe uma bofetada na direita,
dizendo-lhe: A tens. Vai dizer a teu marido que esbofeteou minha filha, mas que
eu lhe esbofeteei a mulher.
     A chuva cessara. Tinham chegado recrutas. Alguns operrios haviam trazido
debaixo das blusas um barril de plvora, um cesto contendo garrafas de vitrolo,
dois ou trs archotes do carnaval, e uma canastra cheia de tigelinhas de
iluminao, que tinham ficado dos anos do rei.
     O festejo deste ano estava muito recente; fora no primeiro de Maio. Dizia-se
que aquelas munies eram mandadas por um confeiteiro do arrabalde de Santo
Antnio, chamado Ppin. Quebraram o nico lampio da rua da Chanvrerie, o da
rua de S.
     Diniz e todos os outros das ruas circunvizinhas da de Mondtour, do Cisne,
dos Pregadores, da Grande e da Pequena Truanderie.
     Enjolras, Combeferre e Courffeyrac dirigiam tudo. Ento construram-se ao
mesmo tempo duas barricadas; apoiando-se ambas na casa de Corinto e formando
esquadria; a de maiores dimenses fechava a rua da Chanvrerie, a outra fechava a
rua Mondtour do lado da rua do Cisne. Esta ltima barricada, em extremo
acanhada, era apenas construda de pipas e pedras da calada. Havia nela uns
cinquenta trabalhadores, dos quais trinta estavam armados com espingardas,
porque, de caminho, tinham feito um emprstimo em globo numa loja de
armeiro.
     No havia nada mais extravagante nem mais variegado do que aquele bando.
     Um estava de quinzena, com sabre de cavalaria e duas pistolas de sela, outro
em mangas de camisa, de chapu redondo e um polvorinho pendente ao lado,
outro tinha uma couraa feita de nove folhas de papelo e estava armado com
uma sovela de seleiro. Havia tambm um que gritava: Exterminemos at ao
ltimo e morramos na ponta das nossas baionetas! O que assim gritava nem
baioneta tinha! Outro apresentava em cima da sobrecasaca umas correias e uma
patrona da guarda nacional e na capa da patrona lia-se este dstico feito com l
vermelha: Ordem pblica.
     Muitas espingardas com os nmeros de diversas legies, poucos chapus,
nenhuma gravata, grande nmero de braos nus, bastantes chuos. Juntai a isto
todas as idades, toda a espcie de fisionomias, rapazitos magros e lvidos,
trabalhadores do porto tisnados pelo Sol. Todos se apressavam e ao passo que
mutuamente se ajudavam, falavam sobre as probabilidades possveis: - que seriam
socorridos pelas trs horas da manh - que contavam com um regimento e que
Paris se sublevaria.
     Conversao terrvel em que se divisava uma espcie de cordial jovialidade.
Teriam sido todos julgados irmos e no sabiam os nomes uns dos outros. Os
grandes perigos tem isto de bom: patenteiam a fraternidade dos desconhecidos.
     Na cozinha tinham acendido um lume, no qual fundiam num molde de balas,
canecos colheres e quanto havia de estanho na taberna. Atravs de tudo isto iam
bebendo. Os fulminantes e as balas estavam sobre as mesas no meio dos copos de
vinho. Na sala do bilhar, a tia Hucheloup, Matelote e Gibelotte, diversamente
modificadas pelo terror, uma embrutecida, outra esbaforida e a outra meia
acordada, rasgavam trapos de linho e faziam fios; junto delas estavam trs
insurgentes, de grandes barbas, que tambm desfiavam trapos com dedos que
pareciam habituados quele mister e que as faziam tremer de susto.
     O homem de elevada estatura que Courffeyrac, Combeferre e Enjolras tinham
notado, no momento em que se juntara ao grupo  esquina da rua dos Billetes,
estava trabalhando na barricada mais pequena, onde se tornava muito til.
Quanto ao rapaz que esperava por Courffeyrac em sua casa e lhe perguntara por
Mrio, desaparecera pouco mais ou menos no momento em que fora voltado o
omnibus.
     Gavroche, radiante e parecendo voar, encarregara-se dos preparativos. Corria
de um para outro lado, subia, descia, tornava a subir, gritava, parecia lanar
fascas.
     Parecia estar ali para dar nimo a todos. Tinha algum, motor o gaiato? Tinha:
a sua misria. Tinha asas? Decerto: a sua alegria; Gavroche era um turbilho.
Viam-no sem cessar, ouviam-no sempre. Como estava em toda a parte ao mesmo
tempo, enchia o ar.
     Era uma espcie de ubiquidade quase irritante; com ele no havia paragem
possvel.
     A enorme barricada sentia-o na garupa. Repreendia os ociosos, excitava os
preguiosos, reanimava os fatigados, impacientava os pensativos, dava alegria a
uns, a fadiga a outros, encolerizava o resto, punha todos em movimento, picava
um estudante e mordia um operrio; tomava posio, parava, afastava-se depois,
voava acima do tumulto e do esforo, saltava destes para aqueles, murmurava,
zumbia e inquietava todo o aparelho, qual mosca do imenso coche revolucionrio.
     O movimento perptuo residia em seus pequenos braos e o clamor infindo
em seus pequenos pulmes.
     - V, vamos a isto! Mais pedras! Mais pipas! Onde as h para se irem buscar?
     Venha um cesto de entulho para tapar este buraco. Est muito pequena a
barricada.
      preciso que cresa. Arrumem-lhe tudo que acharem. Deitem a casa abaixo.
Uma barricada  o ch da tia Gibou. Olhem, aqui est muito  mo uma porta de
vidraa!
     Isto fez exclamar, cheios de pasmo, os trabalhadores:
     - Uma porta de vidraa? O que queres tu que se faa de uma porta de vidraa,
tubrculo?
     - Tubrculos so vocs! - retorquiu Gavroche. - Uma porta de vidraa numa
barricada  uma coisa excelente; no impede que seja atacada, mas incomoda os
que a quiserem tomar. Vocs nunca saltaram um muro coberto de fundos de
garrafas, para irem palmar mas? Uma porta de vidraa corta os calos aos
guardas nacionais, quando queiram subir  barricada. Com a fortuna, o vidro 
traidor! Vocs, amigos, sabem pouco disto e tm a imaginao pouco desenfreada!
     No fim de tudo estava furioso contra a sua pistola sem co e corria sem
cessar, de um a outro, gritando:
     - Quero uma espingarda! Dem-me uma espingarda! Porque me no do
uma espingarda?
     - Uma espingarda para ti?! - disse Combeferre.
     - Ora essa! - replicou Gavroche. - Porque no? Ento no tive uma em 1830,
quando se disputou com Carlos X?
     Enjolras encolheu os ombros.
     - Quando as houver para todos os homens., ento se daro s crianas.
     Gavroche voltou-se atrevidamente para ele e respondeu-lhe:
     - Se fores morto primeiro do que eu, tirar-te-ei a tua.
     - Garoto! - disse Enjolras.
     - Fedelho! - replicou Gavroche.
     Um elegante, transviado do bom caminho e que estava pasmado no fim da
rua, operou uma diverso a este incidente.
     Gavroche gritou-lhe:
     - Eh! Venha para o p da gente! Ento no se faz nada por esta velha ptria?
     O elegante fugiu.



    V
    Preparativos



     Os peridicos daquele tempo dizendo que a barricada da rua da Chanvrerie,
construo quase inexpugnvel!, como eles lhes chamavam, chegava  altura de
um primeiro andar, enganaram-se. O facto  que a sua altura mdia no era
superior a seis ou sete ps. Estava construda de modo que os combatentes podiam
 vontade, ou abrigar-se atrs dela, ou domin-la, e mesmo subir-lhe ao; cimo por
meio de uma qudrupla fileira de pedras, como degraus pela parte de dentro.
Exteriormente a barricada, composta de pedras de calada, de pipas seguras por
vigas e tbuas, que encaixavam nas rodas da carroa de cal e do omnibus
tombado, apresentava o aspecto de um obstculo eriado e inextricvel. Entre a
parede das casas e a extremidade da barricada mais afastada da taberna, tinham
deixado uma abertura suficiente para passar um homem, de modo que era
possvel uma sortida. Na lana do nibus erguida ao alto sobre a barricada
flutuava, segura com cordas, uma bandeira vermelha.
     A barricada pequena da rua Mondtour, oculta por detrs da casa da taberna,
no se via. As duas barricadas reunidas formavam um verdadeiro reduto. Enjolras
e Courffeyrac tinham julgado til no entrincheirar a outra seco da rua
Mondtour, que abre, pela rua dos Pregadores, uma sada para os Mercados,
querendo, sem dvida, conservar possvel comunicao com o exterior, receando
pouco serem atacados pela perigosa e difcil rua dos Pregadores.
     Deste modo, o interior da barricada em que a taberna formava um ngulo
saliente com a sada livre, que constitua o que Folard, no seu estilo estratgico,
teria chamado um desfiladeiro, e tomando tambm em linha de conta a exgua
abertura que dava sada para a rua de Chanvrerie, apresentava o aspecto de um
quadriltero irregular, fechado por todos os lados. Entre o grande parapeito e as
casas que formavam o fundo da rua, havia um intervalo de uns vinte passos, de
sorte que podia dizer-se estar a barricada encostada quelas casas todas habitadas,
mas completamente fechadas de alto a baixo.
     Este trabalho foi feito sem impedimento em menos de uma hora, sem que
aquele punhado de homens atrevidos visse surgir uma barretina nem uma
baioneta. Os raros burgueses que se arriscavam ainda naquele momento da
revolta a passar pela rua de S.
     Diniz, olhavam para a rua da Chanvrerie, viam a barricada e dobravam o
passo.
     Concludas as duas barricadas e arvorada a bandeira, trouxeram para fora da
taberna uma mesa; Courffeyrac saltou para cima dela.
     Enjolras foi buscar a caixa quadrada e Courffeyrac abriu-a. A caixa estava
cheia de cartuchos. Quando apareceram os cartuchos houve um estremecimento
entre os mais bravos e um momento de silncio.
     Courffeyrac distribuiu-os, sorrindo.
     Cada um recebeu trinta cartuchos. Muitos tinham plvora e puseram-se a
fazer mais, com as balas que estavam fundindo. Quanto ao barril de plvora estava
sobre uma mesa  parte e ficou de reserva.
     O toque da chamada que percorria Paris, no cessava, mas acabara por no
ser mais do que um rudo montono, a que eles no davam ateno. Este rudo
ora se afastava, ora se aproximava com lgubres ondulaes.
     Todos carregaram ao mesmo tempo as espingardas e as clavinas sem
precipitao e com solene gravidade. Enjolras foi postar trs sentinelas fora das
barricadas, uma na rua da Chanvrerie, a segunda na rua dos Pregadores e a
terceira  esquina da Pequena Truanderie.
     Depois de construdas as barricadas, distribudos os postes, carregadas as
armas, postadas as vedetas, isolados no meio daquelas temveis ruas por onde j
no passava ningum, cercados por aquelas casas mudas e como mortas, onde no
palpitava o mnimo movimento, envolvidos pelas primeiras sombras do
crepsculo, no meio daquela obscuridade e silncio em que se sentia avanar o
que quer que era, e que tinha no sei que de trgico e de aterrados, ss, armados,
resolutos e tranquilos, esperavam.



    VI
    Enquanto esperavam



    Que fizeram eles naquelas horas de espera?
     indispensvel que o digamos, porque tudo pertence  histria.
    Enquanto os homens faziam cartuchos e as mulheres fios, enquanto as
vedetas velavam, de armas no brao, pela barricada, enquanto Enjolras incapaz de
ser distrado, velava pelas vedetas, reuniram-se Combeferre, Courffeyrac, Joo
Prouvaire, Feuilly, Bossuet, Joly, Bahorel e ainda outros, como nos dias tranquilos
das suas palestras de estudantes e num canto da taberna transformada em casa
mata, a dois passos do reduto que tinham levantado com as carabinas carregadas e
escorvadas, apoiadas nas costas das cadeiras, todos aqueles belos rapazes, to
prximos de uma hora suprema, comearam a recitar versos de amor.
    Versos que aqui reproduzimos:
    Dize filha, ainda te lembras Desses tempos descuidados, Quando eram s
nossos sonhos Sermos amantes e amados?
    Juntando aos meus os teus anjos Ningum quarenta fizera; No prprio Inverno
sombrio Nos sorria a Primavera.
    Bom tempo era ento; bom tempo!... Vivia a Frana em banquete.
    Certo dia no teu cinto.
    Piquei-me num alfinete.
    Eras o enlevo de todos; Se ias ao Prado jantar.
    Quantas vezes vi as rosas De pura inveja corar!...
    E ento diziam: Reparem, Que aroma, que formosura; Ho-de pender-lhe dos
ombros Asas de esplndida alvura.
    amos ss: quem nos via Punha-se a olhar de soslaio:
    Era o doce ms de Abril Casado com o ms de Maio.
     O nosso refgio humilde Todo era amor e alegria; Mal a boca eu descerrava
Tua alma me respondia.
     Tivemos junto  Sorbonne, Tanto idlio de inocncia!... No se imolava a
ternura Sobre as aras da cincia.
     Quando, a perna recurvando, Teu brao airoso a cingia; Eu sob o tecto da casa,
Uma estrela a brilhar via,
     Li Plato, mas esqueceu-me; Porm, se esses dedos teus Uma florinha me
davam...
     Cria logo no bom Deus.
     Que amizade aquela nossa, E como o tempo desliza... As vezes via-te ao
espelho, A sorrir... s em camisa.
     Como hei-de esquecer-me agora Dessa quadra de luseiros, Quando o amor
como avezinha, Chilreava dias inteiros!
     Um vaso, jardim nos era.
     Cobria um pano a vidraa; Em qualquer taa eu bebia Mas tu em chinesa taa,
     E umas desgraas pequenas, O mantelete a esgarar, A efgie de Shakespeare
Vendida para cear...
     Beijava-te os braos ndios, Depois as mos pequeninas.
     Um Dante in-flio era a mesa De centos de gelosias.
     Quando, no canto em que vivo, Teus lbios senti nos meus,
     Tu saste em desalinho, Eu fiquei pensando em Deus,
     Dessas auroras perdidas!, S resta o vago lembrar.
     Oh, como os nossos suspiros Se ho-de na sombra encontrar!
     A hora, o local, as recordaes da mocidade, algumas estrelas que comeavam
a brilhar no cu, o repouso fnebre daquelas ruas desertas e a iminncia da
inexorvel aventura que se preparava, davam um encanto pattico queles versos
murmurados a meia voz no crepsculo por Joo Prouvaire que, como dissemos,
era um suave poeta.
     Entretanto tinham acendido uma lanterna na barricada pequena, e na grande
um daqueles archotes de cera, como os que no dia do entrudo se vm nas
carruagens carregadas de mscaras, que se dirigem para a Courtille. Estes
archotes, como se viu, vinham do arrabalde de Santo Antnio.
     O archote fora colocado dentro de uma espcie de caixa feita de pedras,
fechada por trs lados, para o abrigar do vento, e disposto de modo que toda a luz
reflectia na bandeira. A rua e a barricada ficavam mergulhadas na escurido e no
se via coisa alguma alm da bandeira vermelha, formidavelmente iluminada por
uma enorme lanterna de furta-fogo.
   Aquela luz juntava ao escarlate da bandeira no sei que terrvel prpura.



    VII
    O homem recrutado na rua dos Billetes



     Tinha j anoitecido e contudo no sobrevinha coisa alguma. S se ouviam
rumores confusos e por instantes alguns tiroteios, mas raro, pouco sustentado e
longnquo. Aquela dilao, que tanto se prolongava, era sinal que o governo
aproveitava o tempo e reunia as suas foras. Aqueles cinquenta homens
esperavam sessenta mil.
     Enjolras sentiu-se dominado pela impacincia que se apodera das almas
fortes no limiar dos acontecimentos terrveis. De repente foi em busca de
Gavroche, que se tinha ido pr a fazer cartuchos, na casa baixa,  claridade
duvidosa de duas velas, colocadas  cautela sobre o balco, por causa da plvora
que estava espalhada pelas mesas.
     Aquelas duas velas no davam o mnimo reflexo para a rua. Os insurgentes
alm disso tinham tido todo o cuidado de no acender luz nos andares superiores.
     Gavroche naquele momento estava muito preocupado, mas no precisamente
com os seus cartuchos. O homem da rua dos Billetes, acabara de entrar na loja e
sentara-se  mesa que estava no ponto mais escuro. Tinha-lhe cabido uma
espingarda, de munio, de modelo grande, que conservara entalada nas pernas.
     Gavroche at quele momento, distrado por cem coisas divertidas, nem
mesmo vira o homem. Quando entrou na loja, Gavroche seguiu-o maquinalmente
com a vista, admirando-lhe a espingarda e depois, de repente, quando o homem
se sentou, o gaiato levantou-se. Os que tivessem espreitado o homem, t-lo-iam
visto observar todos os pormenores da barricada e todos os insurgentes com
singular ateno; mas desde que entrara na loja da taberna, parecera recolher-se
em si mesmo, dando mostras de no ver nada do que se passava. O gaiato
aproximou-se do pensativo personagem e comeou a girar  roda dele nos bicos
dos ps, como quando se receia acordar algum que esteja dormindo. Ento em
seu rosto infantil, ao mesmo tempo to descarado e srio, to estouvado e
profundo, to jovial e pungente, todos esses indescritveis movimentos que
significam: Ora esta! No pode ser! Tenho poeira nos olhos! Estou
sonhando! Pois ser?... Nada, no ! Mas ! No , no !, etc., etc.
     Gavroche balouava-se sobre os calcanhares, fechava os punhos dentro da
algibeira, movia o pescoo como um pssaro e estendia em desmedida beiola
toda a sagacidade do seu lbio inferior. Estava estupefacto, incerto, incrdulo,
convencido, deslumbrado. Apresentava a fisionomia do chefe de eunucos no
mercado de escravas, descobrindo-se uma Vnus entre estafermos e o ar de um
amador de quadros reconhecendo um Rafael num monto de pinturas
insignificantes. Tudo nele se achava em exerccio; o instinto que fareja e a
inteligncia que combina. Era evidente que estava sucedendo grande coisa a
Gavroche.
     Foi no momento em que estava mais profundamente preocupado, que
Enjolras chegou junto dele.
     - Tu s pequeno - disse Enjolras - por isso no te vero. Sai das barricadas,
percorre essas ruas, sempre encostado s casas e vem contar-me o que vires ou o
que ouvires.
     Gavroche endireitou-se quanto pde.
     - Ento j os pequenos servem para alguma coisa! Uma fortuna! Vou fazer o
que me disse! Entretanto, fie-se nos pequenos e desconfie dos grandes...
     E Gavroche levantando a cabea e baixando a voz, acrescentou, designando o
homem da rua dos Billetes:
     - O senhor v aquele grande que ali est?
     - Vejo.
     -  um agente da polcia.
     - Ests bem certo disso?
     - Ainda no h quinze dias que me tirou pelas orelhas da cornija da ponte
Real, onde eu estava tomando ar.
     Enjolras afastou-se rapidamente do gaiato e murmurou algumas palavras
quase em segredo a um trabalhador do mercado dos vinhos, que ali se
encontrava.O trabalhador saiu da loja e tornou a entrar quase imediatamente
acompanhado por mais trs. Os quatro homens, quatro carregadores de largos
ombros, foram-se colocar, sem fazer coisa alguma que pudesse atrair-lhe a
ateno, atrs da mesa a que se achava encostado o homem da rua dos Billetes.
Estavam evidentemente prontos para se lanarem a ele.
     Enjolras aproximou-se ento do homem e perguntou-lhe:
     - Quem  o senhor?
     O homem ouvindo esta pergunta inopinada sobressaltou-se.
     Mergulhou a vista at ao fundo das pupilas cndidas de Enjolras e pareceu ir
ali abraar-lhe o pensamento. Sorriu-se com um sorriso que continha tudo que
pode haver no mundo de mais desdenhoso, enrgico e resoluto e respondeu com
grave altivez: - J vejo o que ... Pois bem, no nego!
     - Voc  espio?
     - Sou agente de autoridade.
     - Como se chama?
     - Javert.
     Enjolras fez um sinal aos quatro homens. Num abrir e fechar de olhos, antes
que Javert houvesse podido voltar-se, foi agarrado pelo pescoo, lanado por terra,
amarrado e apalpado.
     Acharam-lhe um bilhetinho circular colocado entre dois vidros, tendo de um
lado as armas da Frana com esta legenda: Vigilncia e actividade, e do outro esta
meno: JAVERT, inspector de polcia; cinquenta e dois anos de idade; e por
baixo a assinatura de Gisquet, ento prefeito de polcia.
     Alm disto, tinha consigo um relgio e uma bolsa com algumas moedas de
ouro.
     Foi-lhe deixada a posse do relgio e da bolsa. Por trs do relgio, no fundo do
bolso, foi ainda encontrado um papelinho dobrado em quatro, que Enjolras logo
desdobrou e onde leu estas linhas, escritas pelo prprio punho do prefeito da
polcia: Apenas o inspector Javert tenha desempenhado a sua misso poltica,
assegurar-se-, por uma vigilncia especial, se  verdade aparecerem malfeitores
na encosta da margem direita do Sena, junto da ponte de lena. Terminada esta
investigao, levantaram Javert, prenderam-lhe os braos atrs das costas e
amarraram-no no meio da loja quele clebre poste, que noutro tempo dera o seu
nome  taberna.
     Gavroche que presenciara toda esta cena, aprovando-a com um silencioso
movimento de cabea, aproximou-se de Javert e disse-lhe:
     - Foi o rato que apanhou o gato.
     Isto fora to rapidamente feito, que j estava tudo concludo quando notaram
que Javert no soltara um grito, Courffeyrac, Bossuet, Joly, Combeferre e os mais
que estavam na rua, avistando Javert amarrado, correram todos para verem de que
se tratava.
     Javert, encostado ao poste e to enleado de cordas que no podia fazer o
mnimo movimento, ergueu a cabea com a intrpida serenidade do homem que
nunca mentiu.
    -  um espio - disse Enjolras.
    E voltando-se para Javert:
    - Dois minutos antes de tomada a barricada ser fuzilado.
    Javert replicou no tom mais imperioso:
    - Porque no h-de ser j?
    - Porque precisamos poupar a plvora.
    - Ento acabem isto com uma facada.
    - Espio - disse o belo Enjolras - ns somos juzes e no assassinos.
    Em seguida chamou Gavroche, - No fazes o que te disse?
    - Vou j! - gritou Gavroche.
    E, parando um instante antes de partir, acrescentou:
    -  verdade, no me d a espingarda? Deixo-lhe o msico, mas quero O
fagote.
    O gaiato fez uma continncia militar e saiu alegremente pela abertura da
grande barricada.



    VIII
    Muitos pontos de interrogao a respeito de um certo Le Cabuc, que no se
chamava talvez assim



     A pintura trgica que empreendemos no ficaria completa, se o leitor no
apreciasse em seu relevo exacto e real, os grandes momentos de parto social e de
nascimento revolucionrio, em que h convulso de envolta com o esforo, se
omitssemos no esboo aqui traado, um incidente cheio de horror pico e feroz,
que sobreveio logo aps a partida de Gavroche.
     Os ajuntamentos, como  sabido, tornam-se uma espcie de bolas de neve e
aglo-meram rolando um monto de homens tumultuosos. Estes homens no
perguntam uns aos outros de onde vm. Entre os indivduos que se tinham
juntado ao grupo conduzido por Enjolras, Combeferre e Courffeyrac, havia um
homem com um jaqueto de moo de fretes, coado nos ombros, que gesticulava,
vociferava e tinha a fisionomia de uma espcie de bbado selvagem. Este homem,
chamado ou alcunhado Le Cabuc, e de todo desconhecido dos que pretendiam
conhec-lo, muito embriagado ou fingindo que o estava, sentara-se com alguns
outros a uma mesa que tinha puxado para fora da taberna. Este tal Cabuc, ao
passo que instava os que lhe faziam companhia, para que bebessem, parecia
observar com ar de reflexo o grande prdio que ficava ao fundo da barricada,
cujos cinco andares dominavam toda a rua e faziam frente para a de S.
     Diniz.
     De repente, ele exclamou:
     - Sabem uma coisa, camaradas? Daquela casa  que devemos fazer fogo. Em
ns estando naquelas janelas, os diabos me levem se h algum capaz de entrar na
rua!
     - Sim, mas a casa est fechada - disse um dos bebedores.
     - Batamos.
     - No nos abriro.
     - Arrombamos a porta.
     Cabuc corre  porta, que tinha uma forte argola de ferro, e bate.
     A porta no se abre. Bate segunda vez. Ningum responde. Terceira vez. O
mesmo silncio.
     - Est aqui algum? - grita Cabuc.
     No se ouve o mnimo rumor.
     Ento deita a mo a uma espingarda e comea s coronhadas  porta. Era
uma velha porta cintada de ferro, baixa, estreita, slida, toda de carvalho, e forrada
por dentro com uma folha de ferro; verdadeiro postigo de uma bastilha.
     Todavia,  de crer que os habitantes tivessem por fim ouvido, porque se viu
enfim aparecer luz numa fresta quadrada, no terceiro andar e pouco depois
mostrar-se nela uma vela e o rosto beato e assustado de um velho, que era porteiro
do prdio.
     O homem que estava batendo interrompeu-se.
     - O que querem os senhores? - perguntou o porteiro, - Abre! - ordenou
Cabuc.
     -  senhores, isso no pode ser!
     - J te disse que abras!
     -  impossvel, senhores!
     Cabuc meteu a espingarda  cara e fez pontaria ao porteiro, mas como estava
em baixo e a noite era muito escura, no foi visto por ele.
     - Queres abrir ou no queres?
     - No, senhores!
     - Dizes que no?
     - Digo que no, meu ami... O porteiro no terminou a palavra. Disparado o
tiro entrara-lhe a bala por baixo do queixo e sara-lhe pela nuca, depois de lhe ter
atravessado a jugular. O velho caiu sobre si mesmo sem soltar um suspiro. A vela
caiu e apagou-se e no se viu mais do que uma cabea imvel pousada sobre o
parapeito da fresta e um pouco de fumo esbranquiado que se elevava acima do
telhado.
     - A tens! - disse Cabuc, deixando cair no cho a coronha da espingarda.
     Mal tinha pronunciado estas palavras sentiu pousar-lhe no ombro uma mo
com o peso de uma garra de guia, e ouviu uma voz que lhe dizia: - Ajoelha!
     O assassino voltou-se e viu diante de si o rosto alvo e frio de Enjolras, que
tinha na mo uma pistola.
     Ouvindo a detonao acudira logo.
     Com a mo esquerda agarrara no pescoo, na blusa, na camisa e no
suspensrio de Cabuc.
     - Ajoelha! - repetiu-lhe ele.
     E o dbil mancebo de vinte anos, dobrou como um junco o mariola
membrudo e robusto, obrigando-o a ajoelhar na lama.
     Cabuc tentou resistir, mas pareceu-lhe que tinha sido agarrado por um pulso
sobrenatural.
     Enjolras, plido, com o pescoo nu, os cabelos despenteados e o seu rosto
feminino!, apresentava naquele momento certo aspecto da antiga Themis. As
ventas dilatadas e os olhos baixos, davam-lhe ao implacvel perfil grego a
expresso de clera e da castidade, que segundo o modo de ver do antigo mundo,
convinha  justia.
     Toda a gente da barricada correra para o mesmo ponto, dispuseram-se em
crculo a certa distncia, conhecendo que era impossvel pronunciar uma palavra
em face do que iam presenciar.
     Cabuc, subjugado, j no tentava resistir e tremia como varas verdes. Enjolras
largou-o e puxou pelo relgio.
     - Recolhe-te em ti - disse-lhe ele - e pede perdo a Deus. Tens um minuto.
     - Perdo! - balbuciou o assassino. Depois curvou a cabea e balbuciou alguns
juramentos inarticulados.
     Enjolras no afastou os olhos do relgio; deixou passar um minuto e meteu-o
em seguida no bolso. Feito isto, deitou a mo aos cabelos de Cabuc, que se lhe
enovelava nos joelhos e apoiou-lhe no ouvido a boca da pistola. Muitos daqueles
homens intrpidos, que tinham entrado com a maior tranquilidade na mais
medonha das aventuras, voltaram a cabea.
     Ouviu-se a detonao, o assassino caiu, batendo com a fronte na calada e
Enjolras endireitou-se, lanando  roda de si um olhar de severa convico.
     Depois deu com o p no cadver, dizendo:
     - Deitem isto fora.
     Trs homens ergueram o corpo do miservel, que se agitava com as ltimas
convulses maquinais da vida extinta e lanaram-no por cima da barricada
pequena, para a rua Mondtour.
     Enjolras ficara pensativo. Sob a sua terrvel serenidade, espalhavam-se
vagarosamente no sei que grandiosas trevas. De repente ergueu a voz. Tudo ficou
silencioso.
     - Cidados - disse Enjolras - o que esse homem fez  medonho, o que eu fiz 
horrvel. Matei-o; porque matou. Tive que o fazer porque  necessrio manter a
disciplina dentro da insurreio; o assassnio aqui  maior crime do que em
qualquer outra parte; estamos sob as vistas da revoluo, somos os sacerdotes da
repblica, somos as hstias do dever,  necessrio que no possam caluniar o
nosso combate.
     Julguei e condenei  morte esse homem. Quanto a mim, constrangido de
fazer o que fiz, mas aborrecendo-o, julguei-me tambm e dentro em pouco vero
ao que me condenei.
     Os que estavam escutando estremeceram.
     - Participaremos da tua sorte! - exclamou Combeferre.
     - Pois seja - tornou Enjolras. - Ainda uma palavra. Punindo esse homem,
obedeci  necessidade, mas a necessidade  um monstro do velho mundo; a
necessidade chama-se Fatalidade. Ora, a lei do progresso  que os monstros
desapaream diante dos anjos e que a Fatalidade se desvanea em presena da
Fraternidade. No haver no futuro trevas nem raios, nem a ignorncia feroz, nem
o talio sanguinrio. Como deixar de haver Satans, no haver Miguel. No
futuro ningum matar o seu semelhante, a terra resplandecer, o gnero humano
amar. Chegar o dia, cidados, em que tudo ser amor, luz, alegria e vida; h-de
chegar e  para que chegue que ns vamos morrer!
     Enjolras calou-se. Os seus lbios de virgem cerraram-se: depois permaneceu
por algum tempo de p no lugar em que derramara o sangue, numa imobilidade
de mrmore. O seu olhar fito fazia que todos falassem baixo em torno dele.
     Joo Prouvaire e Combeferre apertaram-se silenciosamente as mos e
encostados um ao outro ao ngulo da barricada, contemplavam com assombro em
que havia compaixo, o grave mancebo algoz e sacerdote, de luz como o cristal,
mas tambm de rocha.
     Sem nos reservarmos para mais tarde, diremos j que, no fim da aco,
quando os cadveres foram recolhidos e apalpados, para serem em seguida
enterrados, foi achada em Cabuc uma nomeao de agente de polcia. O autor
deste livro teve em suas mos, em 1848, o relatrio especial que foi apresentado
sobre este assunto ao prefeito de polcia em 1832.
     Acrescentamos que, dando-se crdito a uma tradio de polcia, estranha,
mas provavelmente bem fundada, Le Cabuc era Claquesous. Este malfeitor no
deixou O
     mnimo rasto do seu desaparecimento: pareceu ter-se amalgamado com o
invisvel. A sua vida compusera-se de trevas; o seu fim foi a noite.
     Ainda o grupo insurgente estava todo sob a impresso do trgico processo,
to rapidamente instaurado e to depressa terminado, quando Courffeyrac tornou
a ver na barricada o rapaz que, de manh procurara Mrio em sua casa.
     Este rapaz, que tinha um ar atrevido e desleixado, tornara,  noite, a juntar-se
aos insurgentes.


L13:
    LIVRO DCIMO TERCEIRO
    Mrio entra na sombra



    I
    Da rua Plumet ao bairro de S. Diniz



     Aquela voz que atravs do crepsculo chamara Mrio para a barricada da rua
da Chanvrerie, produzira-lhe o efeito da voz do destino. Queria morrer e a ocasio
proporcionava-se-lhe: batia  porta do sepulcro e uma mo no meio da sombra
oferecia-lhe a chave. As lgubres abertas que se apresentam no meio das trevas,
diante do desespero, so tentadoras. Mrio afastou o varo que tantas vezes o
deixara passar, saiu do jardim e disse: - Vamos!
     Enlouquecido pela dor, no sentindo j coisa alguma firme nem slida no
crebro, incapaz de aceitar o menor favor da sorte, depois daqueles dois meses
passados nos arroubamentos da juventude e do amor, acabrunhado ao mesmo
tempo por todos os sonhos acordados do desespero, no tinha mais do que um
desejo: chegar ao fim.
     Comeou pois a caminhar apressadamente. Sucedia achar-se armado, por
isso que tinha consigo as pistolas de Javert.
     O rapaz que julgara ver, desaparecera por uma das ruas prximas.
     Mrio que sara da rua Plumet pelo boulevard, atravessou a Esplanada e a
ponte dos Invlidos, os Campos Elsios, a praa de Lus XV e chegou  rua de
Rivoli. Ali conservavam-se as lojas abertas, o gs iluminava as arcadas, as casas de
modas estavam cheias de senhoras fazendo compras, o caf Laiter cheio de gente
tomando gelados, e na Pastelaria Inglesa davam-se do mesmo modo grande
consumo aos bolos, O que havia unicamente de notvel eram as carruagens de
posta que saam a galope do Hotel dos Prncipes e do Hotel Maurice.
     Mrio encaminhou-se para a rua de Santo Honorato, pela passagem Delorme.
Ali estavam as lojas fechadas, os lojistas conversavam diante das suas portas
entreabertas, os transeuntes circulavam, os lampies estavam acesos, e a partir do
primeiro andar, em todas as janelas se via luz, como sucedia ordinariamente. Na
praa do Palais-Royal estacionava uma fora de cavalaria.
     Mrio seguiu pela rua de Santo Honorato.  medida que se afastava do
Palais-Royal, via menos janelas iluminadas; as lojas estavam completamente
fechadas, no se via ningum a conversar a uma ou a outra porta, a rua tornara-se
sombria e ao mesmo tempo espessa multido. Por que a gente que ento passava
ia em turba. No se ouvia falar ningum naquele ajuntamento, no obstante sair
dele surdo e profundo zumbido.
     Prximo do chafariz da rvore Seca, viam-se alguns ajuntamentos, grupos
imveis e sombrios, que se mantinham entre os que iam e os que vinham, quais
pedras no meio da gua corrente.
      entrada da rua dos Prouvaires j a multido no caminhava. Era um
rochedo resistente, macio, slido, compacto, quase impenetrvel, de gente
amontoada falando em voz baixa. Quase se no via ali uma sobrecasaca ou chapu
redondo. Blusas e barretes, cabeas eriadas e terrosas. Esta multido ondulava
confusamente no meio do nevoeiro nocturno. O seu segredar tinha o acento
rouco de um bramido. Conquanto no andassem ouvia-se o bater dos ps na
lama. Alm desta espessura de povo, na rua do Roule, na dos Prouvaires e no
prolongamento da de Santo Honorato, no havia uma nica janela em que
brilhasse luz. Viam-se internar pelas ruas as fileiras solitrias e decrescentes dos
lampies. Os lampies daquele tempo assemelhavam-se a grandes estrelas
vermelhas penduradas em cordas e projectavam na rua uma sombra que tinha a
forma de uma grande aranha. Estas ruas no estavam desertas. Distinguiam-se
nelas sarilhos de armas, baionetas movendo-se e tropa em expectativa. Nenhum
curioso ultrapassava aquele limite. Ali cessava a circulao. Ali terminava a
multido e comeava o exrcito.
     Mrio queria, com vontade do homem que j no espera coisa nenhuma.
     Tinham-no chamado era preciso que fosse. Achou meio de atravessar a
multido, o espao ocupado pelas tropas; ocultou-se s patrulhas e evitou as
sentinelas. Fez um rodeio, chegou  rua Bthisy e dirigiu-se para os Mercados. A
esquina da rua dos Bourdonnais j no havia lampies.
     Depois de ter passado a zona da multido, ultrapassara a raia das tropas e
achou-se num lugar desconhecido e medonho. Nem um transeunte, nem um
soldado, nem uma luz; ningum. A solido, o silncio, a noite; no sei que frio que
entorpecia. Entrar numa rua era entrar num subterrneo.
     Mrio continuou a avanar.
     Deu alguns passos. Junto dele passou algum correndo; era homem ou
mulher?
     Uma ou mais pessoas? No o teria podido dizer. O que quer que era passara e
desaparecera.
     De crculo em crculo chegou a uma rua que julgou ser a da Poterie: e a meio
desta rua tropeou num objecto indistinto. Estendeu as mos. Era, uma carroa
tombada; com os ps reconheceu que havia ali poas de gua e muitas pedras,
umas dispersas, outras amontoadas. Estava numa barricada apenas esboada e
abandonada logo em seguida. Trepou pelas pedras e achou-se do outro lado da
projectada trincheira. Caminhava muito chegado aospoiais e guiando-se pelas
paredes das casas.
     Pouco adiante da barricada afigurou-se-lhe ver um objecto esbranquiado.
     Aproximou-se, e ento o que se lhe apresentara de um modo vago tomou
forma.
     Eram dois cavalos brancos: os cavalos do omnibus apreendido por Bossuet,
que tinham divagado ao acaso de rua em rua durante todo o dia, acabando por
parar ali, com a pacincia prostrada dos animais, que no compreendem melhor
as aces do homem do que o homem as aces da Providncia.
     Mrio no fez caso dos cavalos. Quando ele chegava a uma rua que lhe
pareceu ser a do Contrato Social, ouviu um tiro de espingarda disparado no
soube donde, e cuja bala atravessando a escurido ao acaso, sibilou muito perto
dele e foi furar uma bacia de lato, que estava pendurada  porta de um barbeiro.
Em 1846 via-se ainda na rua do Contrato Social,  esquina dos pilares dos
Mercados, aquela bacia de lato furada.
     Mas aquilo foi ainda um indcio de vida. A partir daquele momento no
encontrou mais coisa nenhuma. Este itinerrio assemelhava-se todo a uma
descida por negros degraus.
     Mrio nem por isso deixou de ir avante, como se, no; meio da escurido que o
rodeava, entrevisse, enfim, o termo infalvel das suas angstias.



    II
    Paris de noite



     O ente que naquele momento tivesse pairado sobre Paris com as asas do
morcego ou da coruja, teria sob a vista um triste espectculo.
     Todo o velho stio dos Mercados, que  como uma cidade na cidade,
atravessado pelas ruas de S. Diniz e de S. Martinho, onde se cruzam mil becos e de
que os insurgentes tinham feito o seu reduto e sua praa de armas, ter-se-ia
afigurado um enorme buraco sombrio feito no centro de Paris. Ali a vista caa
num abismo.
     Graas aos lampies quebrados, graas s janelas fechadas, cessara todo o
brilho, toda a vida, todo o rumor, todo o movimento. A invisvel polcia da revolta
velava por toda a parte e mantinha a ordem, isto , a noite. Mergulhar o pequeno
nmero numa vasta escurido, multiplicar cada combatente pelas possibilidades
contidas por esta escurido,  a tctica necessria da insurreio.
     Ao anoitecer toda a janela em que aparecera uma luz recebera uma bala. A luz
apagava-se, e algumas vezes ficava morto o habitante. Assim, coisa alguma se
movia.
     Nas casas no havia mais do que susto, luto e pasmo; nas ruas uma espcie de
terror sagrado. Nem mesmo se distinguiam as grandes fileiras de janelas, os
muitos andares, a desigualdade dos telhados e das chamins, os reflexos vagos que
luzem na rua molhada e lamacenta. Os olhos que de alto tivessem olhado para
aquele monto de sombra teriam entrevisto talvez num ou noutro ponto, de
distncia, em distncia, umas claridades indistintas tornando salientes linhas
interrompidas e extravagantes vultos de construes singulares, coisas
semelhantes a clares divagando por entre runas; era onde estavam as barricadas.
O resto era um lago de escurido, nebuloso, pesado, fnebre, acima do qual se
erguiam sombras imveis e lgubres, a terra de S.
     Jacques, a igreja de S. Merry e mais dois ou trs dos grandes edifcios de que o
homem faz gigantes e a noite fantasmas.
     Em torno de todo aquele labirinto deserto e inquietador, nos lugares em que a
circulao parisiense no estava abolida, onde brilhavam alguns raros lampies,
teria o observador areo podido distinguir a cintilao metlica dos sabres e das
baionetas, o rodar surdo da artilharia, os movimentos dos batalhes silenciosos,
engrossando de minuto a minuto; cinto formidvel, que vagarosamente se
apertava e fechava em torno da revolta.
     O bairro cercado no era mais do que uma espcie de monstruosa caverna;
tudo ali parecia adormecido ou imvel, e como se acabava de ver, nenhuma das
ruas onde se podia penetrar apresentava nada alm da sombra.
     Sombra feroz, cheia de ciladas, de embates desconhecidos e temveis onde era
medonho penetrar e espantoso permanecer, onde os que entravam estremeciam
diante dos que estavam prestes a chegar. Combatentes invisveis entrincheirados a
cada esquina da rua, emboscados do sepulcro ocultos nas espessuras da noite.
Estava tudo acabado. J no havia a esperar outra claridade que no fosse o
relmpago das espingardas, nem outro encontro alm da apario inopinada e
rpida da morte. Onde?
     Como? Quando? No se sabia: mas era certo e inevitvel.
     Ali, naquele lugar designado para a luta, iam aproximar-se s apalpadelas o
governo e a insurreio, a guarda nacional e as sociedades populares, a burguesia e
a revolta. Tanto para um como para outros a necessidade era a mesma. Sarem
dali mortos ou vencedores, era o nico fim possvel. Situao de tal modo
extrema, obscuridade de tal modo poderosa, que os mais tmidos sentiam-se ali
resolutos e os mais destemidos aterrados.
     Quanto ao mais, de ambos os lados a mesma fria, o mesmo encarniamento,
a mesma determinao. Para uns, avanar era morrer, e ningum pensava em
fugir. Era necessrio que ao amanhecer tudo estivesse concludo, que o triunfo
estivesse num ou no outro lado, que a insurreio fosse uma revoluo ou uma
escaramua.
     O governo compreendia-o to bem como os partidos; percebia-o o mais
insignificante burgus. Daqui um pensamento aflitivo que se casava com a
impenetrvel sombra daquele bairro onde tudo se ia decidir; daqui um aumento
de ansiedade em volta daquele silncio, donde ia sair uma catstrofe. No se ouvia
seno um rudo aflitivo como um estertor, ameaador como uma maldio: era o
toque de rebate em S. Merry. No havia nada mais glido do que o clamor daquele
sino desorientado e desesperado, lamentando-se no meio das trevas.
     Como no poucas vezes sucede, parecia que a natureza se tinha posto de
acordo com o que os homens iam fazer. Coisa nenhuma discordava das funestas
harmonias daquele conjunto. As estrelas haviam-se sumido, o horizonte cobria-se
de grossas nuvens, que abarcavam nas suas melanclicas dobras toda a amplido
do espao.
     Aquele cu escuro por cima daquelas ruas mortas era uma como imensa
mortalha estendida por sobre um tmulo imenso.
     Ao mesmo tempo, porm,, que naquele local, j testemunha de tantos outros
sucessos revolucionrios, se preparava mais uma batalha poltica; ao mesmo
tempo que a mocidade, as associaes secretas, as escolas e a classe mdia se
aparelhavam para um temeroso recontro, as primeiras em nome das teorias, as
ltimas em nome do interesse, recontro em que mutuamente desejavam
estreitar-se e derrubar-se; ao mesmo tempo que cada qual apressava e ansiava a
hora extrema e decisiva da crise, em que deviam sucumbir ou vencer, longe
daquela estncia fatal, na mais profunda das insondveis cavidades de Paris, do
Paris decrpito e miservel, encoberto sob o esplendor do Paris feliz e opulento,
ouvia-se o rumorejar surdo da sombria voz do povo, aparelhando-se tambm para
a luta suprema.
     Voz temerosa e santa, que participa do rugido do animal e da palavra de
Deus, voz que amedronta os fracos e adverte os sbios, voz que, ao mesmo tempo,
parece elevar-se da terra, como o bramido do leo, e descer do cu, como o
ribombo do trovo.



    III
    ltimas extremidades



     A este tempo, Mrio havia chegado aos Mercados.
     Neste ponto, jazia tudo ainda mais silencioso, escuro e imvel do que nas ruas
circunvizinhas. Dir-se-ia que da terra tinha surgido glida a paz do tmulo para se
espalhar pelo espao.
     No meio, porm, deste fundo escuro, avistava-se um claro avermelhado, que
fazia destacar os elevados telhados das casas que fechavam a rua da Chanvrerie,
pelo lado de Santo Eustquio. Era o reflexo do archote que ardia na barricada
construda junto  casa de pasto de Corinto. Guiado por aquele claro, Mrio
chegara at ao mercado das Acelgas, de onde j entrevia a escura entrada da rua
dos Pregadores, pela qual tomou, sem ser pressentido pela vedeta dos insurgentes
que estacionava na extremidade oposta, de ouvido atento aos rumores que
pudessem elevar-se das trevas.
     Mrio, ao sentir-se to prximo do que ia procurar, caminhava em bicos de
ps, como se receasse que algum imprevisto obstculo lhe surgisse da terra,
despertado pelo rumor dos seus passos. Chegado assim junto  esquina da
pequena seco da viela de Mondtour, que era, como os leitores ho-de estar
lembrados, a nica comunicao com o exterior, deixada livre por Enjolras,
Mrio, antes de dobrar a ltima casa  esquerda, estendeu o pescoo e olhou.
     Um pouco alm do ngulo escuro da travessa e da rua da Chanvrerie que
projectava uma grande sombra, em que ele prprio estava mergulhado, avistou
certa claridade que dava nos montes de pedras, viu parte da taberna, e por trs
uma lanterna pestanejando numa espcie de muralha informe e homens sentados
com espingardas sobre os joelhos.
     Tudo isto estava a dez toezas dele. Era o interior da barricada. As casas que
orlavam a rua do lado direito, ocultavam-lhe o resto da taberna, a grande
barricada e a bandeira. Mrio no tinha que dar seno um passo.
     O infeliz mancebo sentou-se ento num poial, cruzou os braos e pensou em
seu pai. Pensou naquele herico coronel Pontmercy, que fora to bravo soldado,
que guardara com a repblica a fronteira da Frana e tocara com o imperador a
fronteira da sia, que tinha visto Gnova, Alexandria, Milo, Turim, Madrid,
Viena, Dresde, Berlim, Moscovo; que deixara em todos os campos de vitria da
Europa gotasdaquele mesmo sangue, que ele, Mrio, tinha nas veias, que
encanecera antes da idade prpria, no meio da disciplina e do comando, que
vivera com o cinturo afivelado, as dragonas caindo-lhe para o peito, o lao
enegrecido pela plvora, a fronte enrugada pela barretina, sob a barraca, no
acampamento, nas ambulncias, e que no fim de vinte anos voltara das grandes
guerras, com a face acutilada, o rosto risonho, simples, tranquilo, admirvel, puro
como uma criana, tendo feito tudo em pr da Frana e nada contra ela.
     Disse consigo que lhe tinha chegado tambm o seu dia, que a sua hora havia
enfim soado, que depois de seu pai, ia pela sua vez, ser bravo, intrpido,
destemido, correr ao encontro das balas, oferecer o peito s baionetas, derramar o
seu sangue, procurar a morte; que ia tambm fazer a guerra e entrar no campo de
batalha, que esse campo de batalha era a rua, e a guerra que ia fazer a guerra civil.
     Viu a guerra civil aberta como um; abismo adiante de si e viu que se ia
precipitar nele. Ento estremeceu.
     Lembrou-se da espada de seu pai, que seu av vendera a um adelo, venda que
ele to dolorosamente lastimara. Disse consigo que aquela valente e casta espada
fizera bem em fugir-lhe e em desaparecer irritada nas trevas; que se ela assim tinha
fugido, fora por ser inteligente e por que previra o futuro, fora porque pressentira
a revolta, a guerra das enxurradas, a guerra das ruas, os tiros pelos respiradouros
dos subterrneos, os golpes dados e recebidos pelas costas; fora porque vindo de
Marengo e de Friedland no queria ir para a rua da Chanvrerie; porque depois do
que fizera com o pai, no queria assim proceder com o filho! Disse consigo que se
tivesse aquela espada, se tendo-a achado  cabeceira de seu pai falecido, ousasse
pegar-lhe e traz-la para aquele combate nocturno entre franceses numa
encruzilhada, queimar-se-lhe-ia indubitavelmente as mos e mostrar-se-lhe-ia
flamejante como a espada do anjo!
     Concluiu que era felicidade no a possuir, ter ela desaparecido, que assim
devia ser, que era uma coisa justa, que fora seu av o verdadeiro guarda de honra
de seu pai, e que era prefervel que a espada do coronel fosse apregoada em leilo,
vendida ao adelo lanada nos ferros velhos, a que sangrasse naquele dia o flanco
da ptria.
     Depois desatou a chorar amargamente.
     Era uma coisa horrvel. Mas o que havia de fazer? Viver sem Cosette no
podia.
     Uma vez que ela tinha partido, era indispensvel que ele morresse. No lhe
tinha dado a sua palavra de honra de que morreria Cosette partira sabendo isto;
logo agradava-lhe a sua morte. E depois, era evidente que ela j no o amava por
isso que assim o tinha deixado, sem o advertir, sem uma palavra, sem uma carta,
conhecendo-lhe a morada. Para que continuaria a viver? Quando no fosse por
outras consideraes, no o deveria demover a de ter ido at ali para recuar?
Ter-se aproximado do perigo... fugir dele? Ter ido olhar para a barricada e
esquivar-se todo trmulo e dizendo: com efeito, basta-me o que eu vi,  suficiente,
 a guerra civil; portanto, retiro-me! Abandonar os seus amigos que o esperavam,
que precisavam talvez dele, que eram um punhado de homens contra um
exrcito? Faltar a tudo ao mesmo tempo,  amizade,  sua palavra? Dar  sua
fraqueza o pretexto do patriotismo? Mas isso era impossvel; e se o fantasma de
seu pai estivesse ali, na sombra, e o visse recuar, bater-lhe-ia com a espada de
prancha e gritar-lhe-ia: Para a frente, cobarde! Preso do vaivm dos seus
pensamentos, Mrio curvara a cabea.
     De repente ergueu-a. Acabava de se lhe operar no esprito uma espcie de
esplndida rectificao. H uma dilatao de pensamento, que  prpria das
vizinhanas do tmulo; estar prximo da morte faz ver a verdade. Viso da aco
na qual se sentia talvez prestes a entrar, apareceu-lhe, no j lamentvel, mas
soberba. A guerra da rua transfigurou-se-lhe subitamente, por no sei que
trabalho ntimo da alma, aos olhos do pensamento. Todos os tumultuosos pontos
de interrogao do seu sonho acordado se lhe apresentaram novamente em turba,
mas sem o perturbar. No deixou nenhum sem resposta.
     Vejamos; porque se indignaria seu pai? No h porventura casos em que a
insurreio sobe  dignidade de dever? O que haveria pois de humilhante para o
filho do coronel Pontmercy no combate que ia travar-se? J no  Montmirail
nem Champaubert,  outra coisa. No se trata j de um territrio sagrado, mas de
uma ideia santa. A ptria lastima-se, pois seja; mas a humanidade aplaude. E no
fim de tudo,  realmente verdade que a ptria se lastima? A Frana sangra, mas a
liberdade sorri; e a Frana, em presena do sorriso, da liberdade, esquece-se da sua
ferida. E depois, vendo as coisas de mais alto ainda, o que poderiam dizer da
guerra civil?
     Guerra civil? Que quer isto dizer? H alguma guerra estrangeira? Porventura
no so todas as guerras entre irmos? A guerra no se qualifica seno pelo seu
fim.
     No h guerra estrangeira nem guerra civil; no h seno a guerra injusta e
guerra justa. At ao dia em que se conclua a grande concordata humana, a guerra,
pelo menos a que  o esforo do futuro, que se apressa contra o passado que se
demora, pode ser necessria. O que  que tm a repreender a esta espcie de
guerra? A guerra no se torna vergonhosa e a espada no se torna punhal seno
quando assassina o direito, o progresso, a razo, a verdade. Ento guerra
estrangeira ou civil,  inqua; chama-se crime. Fora desta coisa santa, a justia;
com que direito uma forma de guerra desprezar a outra? Com que direito poder
a espada de Washington renegar o chuo de Camillo Desmoulins? Qual tem
maior vulto, Lenidas contra o estrangeiro, ou Timolon contra o tirano? Um  o
defensor, o outro o libertador. Manchar-se-, sem se ter em vista o fim, todo o
emprego de armas no interior da cidade? Ento apontem com infmia Brutus,
Arnould de Blanknheim, Coligny. Guerra de valados? Guerra de ruas? Porque
no? Era a guerra de Ambiorix, de Artevelde, de Marnix, de Agneessens.
     Mas Ambiorix lutava contra Roma, Artevelde contra a Frana, Marnix contra
a Espanha, Agneessens contra a ustria; todos contra o estrangeiro.
     Pois bem, a monarquia  o estrangeiro; a opresso  o estrangeiro; o direito
divino  O estrangeiro. O despotismo viola a fronteira divina, como a invaso;
viola afronteira geogrfica. Expulsar o tirano ou expulsar o ingls, , em ambos os
casos, retomar o territrio. Chega uma hora em que j no basta protestar; depois
da filosofia  necessria a aco; a viva fora completa o que foi esboado pela
ideia: Promotheo acorrentado comea, Aristogiton, acaba; a Enciclopdia
esclarece as almas, o 10 de Agosto electriza-as.. Depois de Esquilo, Thrasybulio,
depois de Diderot, Danton. As multides tendem a acatar o senhor. A sua massa
depe a apatia. Uma multido totaliza-se facilmente em obedincia.  necessrio
mover, impelir, tratar asperamente os homens com o prprio benefcio da sua
alforria, ferir-lhe os olhos com a verdade, lanar-lhes a luz em punhados terrveis.
 preciso que sejam eles mesmos um tanto fulminados pela sua prpria salvao;
este deslumbramento desperta-os. Daqui a necessidade dos toques a rebate e das
guerras.  necessrio que os grandes combatentes se ergam; iluminem as naes
pela audcia e sacudam a triste humanidade que se acha coberta de sombra pelo
direito divino, pela glria cesariana, pela fora, pelo fanatismo, pelo poder
irresponsvel e pelas majestades absolutas; turba estupidamente ocupada em
contemplar no seu esplendor crepuscular, esses sombrios triunfos da noite.
Abaixo o tirano! Mas o qu? De quem falais vs! Chamais tirano a Lus Filipe?
     No; tanto como a Lus XVI. So ambos o que a histria costuma denominar
bons reis; mas os princpios no se retalham, a lgica do verdadeiro  rectilnea, a
falta de condescendncia  o caracterstico da verdade; nada, pois, de concesso,
toda a usurpao ao homem deve ser reprimida; h direito divino em Lus XVI, h
o porque Bourbon em Lus Filipe; ambos representam, numa certa proporo, a
confiscao do direito, e para repelir a usurpao universal  preciso combat-los;
 preciso, porque  sempre a Frana quem comea. Quando o senhor cai em
Frana, cai em toda a parte.
     Em suma, restabelecer a verdade social, restituir  liberdade o seu trono, o
povo ao povo, o homem  soberania, tornar a pr a prpura na cabea da Frana,
restaurar em toda a sua plenitude a razo e a equidade, suprimir todo o germe de
antagonismo, restituindo cada um a si mesmo, aniquilar o obstculo que a realeza
apresenta  imensa concrdia universal, nivelar o gnero humano com o direito;
que causa pode ser mais justa, que guerra mais grandiosa? Estas guerras
constroem a paz. H uma enorme fortaleza de prejuzos, de privilgios, de
supersties, de mentiras, de exaces, de abusos, de violncias, de iniquidades, de
trevas, que esto ainda de p sobre o mundo, com as suas torres de dio. 
necessrio demoli-la.  urgente fazer desabar essa massa monstruosa. Vencer em
Austerlitz  grandioso; tomar a Bastilha  imenso.
     No h ningum que o no tenha experimentado por si mesmo: a alma - e 
esta a maravilha da sua unidade mesclada de ubiquidade - tem a estranha aptido
de raciocinar quase friamente, nas extremidades mais violentas; e sucede muitas
vezes que a paixo desola e  profundo desespero, na prpria aflio dos seus mais
negros monlogos, tratam diversos assuntos e discutem teses. A lgica participa
da convulso, e o fio do silogismo flutua, sem se quebrar, na lgubre tempestade
do pensamento: Era esta a situao do esprito de Mrio.
     Enquanto assim pensava, opresso, mas resoluto, hesitando todavia, e em
suma, tremendo diante do que ia fazer, deixava divagar a vista pelo interior da
barricada.
     Os insurgentes conversavam ali a meia voz, sem se moverem, e sentia-se em
torno deles o quase silncio, que marca a ltima fase da expectativa. Por cima
deles, numa fresta de um terceiro andar, distinguia Mrio uma espcie de
espectador ou de testemunha que lhe parecia singularmente atenta. Era o porteiro
morto por Le Cabuc.
     Debaixo, com o reflexo do archote abrigado pelas pedras, divisava-se
vagamente aquela cabea. No havia nada mais estranho,  claridade sombria e
inerte do archote, do que aquele rosto lvido, imvel, espantado, com os cabelos
eriados, os olhos abertos e fitos e a boca escancarada, debruado para a rua numa
atitude de curiosidade.
     Dir-se-ia que o morto espreitava os que iam morrer.
     Da fresta at  altura do primeiro andar, onde terminava, descia pela parede,
em fios avermelhados, um grande rasto de sangue que correra daquela cabea.


L14:
    LIVRO DCIMO QUARTO
    A grandeza do desespero



    I
    A bandeira vermelha arriada



     Acabavam de soar dez horas em Saint-Merry e nenhum movimento exterior
que viesse perturbar os insurgentes se tinha dado ainda. Junto da abertura da
barricada grande, onde se tinham ido: colocar de clavinas aperradas, viam-se
Enjolras e Combeferre, mudos, atentos, parecendo quererem escutar ainda o mais
confuso e afastado rumor de passos.
     De sbito, do meio do profundo e lgubre silncio que os rodeava, elevou-se
uma voz, clara, forte e alegre, que parecia vir da rua de S. Diniz, e principiou a
cantar distintamente, na msica da antiga cano popular Ao Luar, a seguinte
poesia, terminada por uma espcie de grito semelhante ao canto do galo: Vm-me
as lgrimas aos olhos, Meu caro amigo Bugeaud, Empresta-me os teus gendarmes,
Quero falar com eles s
     Eis que de capote azul, De galinha no shak, A vem o termo todo!
     Kiri-co-cocoroc!
     Os dois amigos ouvindo isto apertaram-se reciprocamente as mos.
     -  Gavroche - disse Enjolras.
     O silncio da rua deserta foi perturbado por uma corrida precipitada e viu-se
um ente mais gil do que um clown trepar pelo omnibus e saltar para o meio da
barricada.
     Era Gavroche, esbaforido, que dizia:
     - A minha espingarda! Eles a vm!
     Nisto, um estremecimento elctrico percorreu toda a barricada e ouviu-se o
movimento das mos em busca das espingardas.
     - Queres a minha carabina? - perguntou Enjolras ao gaiato.
     - Quero a espingarda grande - respondeu Gavroche.
     E pegou na espingarda de Javert.
     Duas sentinelas, retirando, entraram na barricada quase ao mesmo tempo
que Gavroche. Era a do extremo da rua e a da Pequena Truanderie. A vedeta do
beco dos Pregadores conservava-se no seu posto, o que indicava no vir nada do
lado das Pontes e dos Mercados.
     A rua da Chanvrerie, de que apenas se viam algumas pedras com o reflexo da
luz que se projectava na bandeira, oferecia aos insurgentes o aspecto de um grande
prtico negro, vagamente aberto no meio de espesso fumo.
     Cada um correra logo ao posto de combate.
     Quarenta e trs insurgentes, entre os quais se contavam Enjolras,
Combeferre, Courffeyrac, Bossuet, Joly, Bahorel e Gavroche, estavam de joelhos
na grande barricada, apenas com as cabeas acima do parapeito, os canos das
espingardas e clavinas assestadas sobre as pedras como em seteiras, atentos,
mudos e prontos para fazerem fogo.
     Seis, comandados por Feuilly, tinham-se postado de armas  cara nas janelas
dos dois andares, de Corinto.
     Passaram ainda alguns minutos, depois ouviu-se do lado de Saint-Leu um
rudo de passos cadentes, pesados, e numerosos. Este rudo em comeo fraco,
depois mais acentuado, depois pesado e sonoro, aproximava-se vagarosamente,
sem cessar, sem interrupo, com tranquila e terrvel continuidade. No se ouvia
mais nada. Era ao mesmo tempo o silncio e o rudo da esttua do Comendador;
mas aquele passo de pedra tinha no sei qu de enorme e de mltiplo, que
despertava ao mesmo tempo a ideia de uma multido e de um espectro. Parecia
ouvir-se marchar a medonha esttua Legio. Aquele passo aproximou-se;
aproximou-se mais e parou. Parecia ouvir-se, no fim da rua, a respirao de
muitos homens. Contudo, no se via coisa alguma; somente se distinguia ao
fundo, naquela espessa escurido, uma multido de fios metlicos, finos como
agulhas e quase imperceptveis, que se agitavam semelhantes aos indescritveis
tecidos fosfricos que se entrevem no momento de adormecer, sob as plpebras
cerradas, nos primeiros fumos do sono. Eram as baionetas e os canos das
espingardas, confusamente iluminados pela reverberao longnqua do archote.
     Houve ainda uma pausa como se ambos os lados esperassem. De repente, do
fundo daquela sombra, uma voz, tanto mais sinistra, quando se no via pessoa
alguma, e porque parecia sair da prpria escurido que falava, gritou: - Quem
vive?
     Ao mesmo tempo ouviu-se o estalido das espingardas, que eram metidas 
cara.
     Enjolras respondeu num tom vibrante e altivo:
     - Revoluo francesa.
     - Fogo! - disse a voz.
     A rua foi instantaneamente iluminada por um relmpago vermelho, como se
houvesse aberto e imediatamente fechado a boca de uma fornalha.
     Medonha detonao rebentou sobre a barricada.
     A bandeira vermelha caiu. A descarga fora to violenta e to cerrada que lhe
cortou a haste; isto , o extremo da lana do nibus. Algumas balas depois de
baterem nas paredes das casas voltaram de ricochete para dentro da barricada e
feriram muitos homens.
     A impresso produzida por esta primeira descarga foi de regelar. O ataque era
rude e de natureza tal, que devia fazer pensar os mais ousados. Era evidente que
tinham pela frente, pelo menos, um regimento inteiro.
     - Camaradas! - gritou Courffeyrac. - No desperdicemos plvora. Esperemos
para lhes retorquir que se aproximem mais.
     - Antes de tudo - disse Enjolras - ergamos a bandeira!
     E levantou do cho a bandeira, que lhe tinha cado aos ps.
     Da parte de fora ouvia-se o tinir das varetas nas espingardas; a tropa tornava a
carregar as armas.
     Enjolras prosseguiu:
     - Quem  que tem valor aqui? Quem torna a arvorar a bandeira sobre a
barricada?
     Ningum respondeu. Subir ao alto da barricada no momento em que ela
estava, sem dvida, sob nova pontaria, era simplesmente a morte. O mais bravo
hesitou em se condenar. O prprio Enjolras sentiu um estremecimento e repetiu: -
Ningum se apresenta?



    II
    A bandeira vermelha novamente hasteada



    Desde que os insurgentes tinham chegado a Corinto e comeado a construir a
barricada, ningum dera mais ateno ao tio Mabeuf. Todavia, o senhor Mabeuf
no deixara o bando. Entrara para a taberna e fora sentar-se por trs do balco. Ali
tinha-se, para assim dizer, suprimido a si mesmo. Parecia j no ouvir nem ver,
Courffeyrac e outros tinham-se chegado a ele por duas ou trs vezes, advertindo-o
do perigo, e convidando-o a que se retirasse, sem que ele mostrasse ouvi-los.
    Quando no falavam com ele movia os lbios como se estivesse respondendo
a algum; apenas lhe dirigiam a palavra, tornavam-se-lhes imveis os lbios e os
olhos deixavam de parecer vivos.
     Algumas horas antes de ser atacada a barricada tomara ele uma atitude que
no deixara ainda: os dois punhos sobre os joelhos e a cabea pendida para a
frente como se olhasse para um abismo. No houvera nada que o fizesse mudar de
posio: parecia at mesmo que nem o seu esprito estava na barricada. Quando
cada um fora tomar o seu lugar de combate, no ficara na loja da taberna seno
Javert, amarrado ao poste, um insurgente de sabre nu, de guarda a ele, e O senhor
Mabeuf.
     No momento do ataque, quando houvera a detonao, Mabeuf sentira-se
alcanado pelo abalo fsico que ela geralmente produzira e, como acordando,
levantara-se de repente, atravessara a loja, de modo que quando Enjolras repetiu o
seu apelo: No se apresenta ningum,?, vira aparecer o velho no limiar da
taberna.
     A sua presena produziu certa comoo nos grupos e muitas vozes disseram:
     -  o votante! O convencional!  o representante do povo!
      de crer que ele os no ouviu.
     Mabeuf foi direito a Enjolras - os insurgentes afastaram-se diante dele com
um certo temor religioso arrancou a bandeira a Enjolras, que ficou petrificado, e
ento sem que ningum ousasse cortar-lhe o passo, nem ajud-lo o velho de
oitenta anos, com a cabea trmula e o p firme, comeou a subir vagarosamente a
escada de pedras praticada na barricada. Era isto to sombrio e to grandioso, que
todos em volta gritaram: Chapus na mo! A cada degrau que subia, tornava-se
mais medonho; os cabelos brancos, a face decrpita, a elevada fronte calva e
enrugada, os olhos encovados, a boca aberta e como pasmada, o seu velho brao
sustentando a bandeira vermelha, surgindo da sombra e aparecendo cada vez mais
 claridade sanguinolenta do archote; todos julgavam ver sair da terra o espectro
de 93, empunhando a bandeira do terror.
     Quando subiu o ltimo degrau, quando aquele fantasma trmulo e terrvel,
de p sobre aquele monto de entulho, na presena de mil e duzentas espingardas
invisveis, se ergueu em face da morte e como se fosse mais forte do que ela, toda a
barricada assumiu nas trevas um vulto sobre-humano e colossal.
     Houve um silncio dos que s se observam em volta dos prodgios.
     No meio deste silncio, o velho agitou a bandeira vermelha e gritou:
     - Viva a Revoluo! Viva a Repblica, a Igualdade, a Fraternidade e a Morte.
     Ouviu-se ento na barricada um murmrio ininteligvel e rpido, semelhante
ao de um sacerdote apressado, desejando chegar ao fim de uma orao. Era
provavelmente o comissrio de polcia fazendo as intimaes legais no outro
extremo da rua.
     Depois, a mesma voz estridente que tinha perguntado quem vive?, gritou:
     - Retirai-vos!
     O senhor Mabeuf, plido, desorientado, as pupilas iluminadas com as
lgubres chamas do desvairo, ergueu a bandeira acima da cabea e repetiu: - Viva
a repblica!
     - Fogo! - disse a voz, A esta ordem, segunda descarga, espessa como a
primeira, foi dada sobre a barricada.
     O velho ajoelhou, tornou a erguer-se, largou a bandeira e caiu para trs na
calada, como uma prancha, estendido e com os braos em cruz.
     Debaixo dele surgiu um rio de sangue. O seu velho rosto lvido e triste,
parecia olhar para o cu.
     Os insurgentes sentiram-se dominados por uma das comoes to superiores
ao homem, que at fazem com que se esquea da sua defesa e aproximaram-se do
cadver, com um espanto respeitoso.
     - Que homens so estes regicidas! - disse Enjolras.
     Courffeyrac aproximou-se dele e disse-lhe ao ouvido:
     - Isto  s para ti, no quero diminuir o entusiasmo: este homem estava
muito longe de ser um regicida. Conhecia-o, chamava-se Mabeuf; mas no sei o
que ele tinha hoje. Foi destemido o pobre diabo!
     - Pobre diabo, mas corao de Brutus!  respondeu Enjolras.
     E depois erguendo a voz:
     - Cidados! Eis o exemplo que os velhos do aos moos. Ns hesitmos e ele
exps-se! Ns recumos e ele avanou! Eis o que os que tremem de velhice
ensinam aos que tremem de medo. Este velho  augusto perante a ptria. Teve
longa vida e magnfica morte! Agora recolhamos o cadver, defenda cada um este
velho morto, como defenderia seu pai vivo, e torne a sua presena aqui
inexpugnvel a barricada!
     Estas palavras foram seguidas de um murmrio de adeso sombriamente
enrgico.
     Enjolras curvou-se, levantou a cabea do velho, e, feroz, beijou-o na fronte;
depois, abrindo-lhe os braos e movendo-o com a mais terna precauo, como se
temesse molest-lo, despiu-lhe a casaca e disse, mostrando aos circunstantes os
buracos ensanguentados: -  esta agora a nossa bandeira.
    III
    De como Gavroche teria feito melhor aceitando a carabina de Enjolras



     Acto contnuo, o tio Mabeuf foi coberto com um grande xaile preto da viva
Hucheloup. Seis homens fizeram das espingardas uma padiola, sobre as quais foi
posto o cadver, e assim o levaram, de cabeas descobertas, vagarosa e
solenemente, para cima da maior mesa que havia na loja.
     Aqueles homens, todos entregues  coisa grave e sagrada que estavam
fazendo, j nem pensavam na perigosa situao em que se achavam.
     Quando o cadver passou prximo a Javert, como sempre impassvel,
Enjolras disse ao espio:
     - Tu, logo!
     Durante este tempo, Gavroche, o nico que no deixara o seu posto e que
ficara em observao, julgou ver alguns homens que se aproximavam da
barricada, com ps de ladro. De repente gritou: - Ateno!
     A este brado, Courffeyrac, Enjolras, Joo Prouvaire, Combeferre, Joly,
Bahorel e Bossuet, saram todos tumultuosamente da taberna. Era tarde; via-se j
ondular no cimo da barricada grande espessura de baionetas. Alguns guardas
municipais, de grande estatura, penetravam j na barricada, uns subindo pelo
nibus, os outros pela abertura de comunicao, levando diante de si o gaiato, que
recuava mas no fugia.
     O momento era crtico. Era o primeiro e temvel minuto da inundao,
quando o rio se ergue ao nvel da levada, e que a gua comea a infiltrar-se pelas
fendas do dique. Mais um segundo e estaria tomada a barricada.
     Bahorel arremessou-se sobre o primeiro guarda municipal que ia entrando e
matou-o com um tiro de clavina  queima-roupa; o segundo matou Bahorel com
uma baionetada. Outro tinha j lanado por terra Courffeyrac, que gritava: A
mim! O mais alto de todos, espcie de colosso, corria sobre Gavroche de baioneta
calada.
     O gaiato ergueu com os pequenos braos a enorme espingarda de Javert, fez
resolutamente a pontaria ao gigante e desfechou. A arma no fez fogo. Javert no a
tinha carregado. O soldado soltou uma gargalhada e ergueu a baioneta sobre o
rapazito.
     Antes, porm, que a baioneta tocasse em Gavroche, a espingarda caiu das
mos do guarda municipal, o qual, ferido por uma bala na fronte, tombou para
trs. O outro guarda que assaltara Courffeyrac caa igualmente, ferido por outra
bala, recebida em cheio no peito.
     Era Mrio que acabava de entrar na barricada.



    IV
    O barril de plvora



     Mrio, ainda oculto pelo cotovelo da rua Mondtour, assistira,  primeira fase
do combate irresoluto e trmulo. Contudo no pudera resistir por muito tempo 
vertigem misteriosa e soberana que poderia denominar-se atraco do abismo.
Diante da iminncia do perigo, diante da morte do senhor Mabeuf, fnebre
enigma, em presena de Bahorel morto, de Courffeyrac pedindo auxlio, dos seus
amigos a socorrer ou a vingar, toda a hesitao se lhe desvanecera, e precipitara-se
na refrega com as duas pistolas em punho. Com o primeiro salvara Gavroche,
com o segundo libertara Courffeyrac.
     Ao estampido dos tiros, aos gritos dos guardas feridos, tinham os assaltantes
trepado ao parapeito, em cuja crista se viam aparecer em mais de meio corpo e em
turba, guardas municipais, soldados de linha e guardas nacionais do termo, todos
de espingardas na mo. J cobriam mais de dois teros da trincheira, mas no
saltavam para o recinto e pareciam indecisos temendo alguma cilada. Olhavam
para o escuro interior da barricada como se olhassem para um antro de lees. O
claro do archote no iluminava seno as baionetas;, as felpudas barretinas e a
parte superior dos rostos inquietos e irritados.
     Mrio estava desarmado, por que lanara para longe de si as pistolas
descarregadas, mas tinha lobrigado o barril de plvora dentro da loja, ao p da
porta. No momento em que se voltava de lado, olhando para aquele stio, um dos
soldados apontou-lhe a espingarda, fazendo meno de disparar. Nesse instante,
uma mo tapou a boca da arma. Era a do jovem operrio de calas de belbutina. O
soldado desfechou, a bala atravessou a mo, talvez mesmo o operrio, porque este
caiu, mas no alcanou Mrio. Tudo isto no meio de espesso fumo, mais
entrevisto que visto.
     Mas em momentos como estes as coisas que se vem vacilam e precipitam-se,
e a vista no se demora -em coisa alguma. Sente-se o indivduo obscuramente
impelido para maior sombra ainda;  tudo nevoeiro.
     Os insurgentes, surpresos, mas no atemorizados, tinham-se reunido.
Enjolras gritara:
     - Esperem! No atirem ao acaso!
     No primeiro momento de confuso podiam com efeito ferir-se uns aos
outros. A maior parte subira para a janela do primeiro andar e para as
guas-furtadas, donde dominavam os assaltantes. Os mais resolutos com Enjolras,
Courffeyrac, Joo Prouvaire e Combeferre, tinham-se atrevidamente encostado s
casas do fundo, a descoberto;, e fazendo frente s fileiras de soldados que
coroavam a barricada.
     Tudo isto se executou sem precipitao, com a estranha e ameaadora
gravidade que procede as lutas. De ambos os lados se apontaram as armas 
queima-roupa; estavam to prximos uns dos outros, que poderiam ouvir-se
falando sem esforo.
     Quando chegaram ao momento em que a centelha est prestes a despedir-se,
viu-se um oficial de gola bordada e grandes dragonas, erguer a espada e dizer: -
Apontar!
     - Fogo! - disse Enjolras.
     As duas descargas partiram ao mesmo tempo e tudo ficou envolto em fumo.
     Fumo acre e sufocante em que se arrastavam com gemidos fracos e surdos os
moribundos e os feridos.
     Quando o fumo se dissipou, viram-se de ambos os lados os combatentes,
desbaratados, mas. nos mesmos lugares, e carregando as armas em silncio.
     De repente, ouviu-se uma voz estrondosa gritando:
     - Retirem-se ou fao ir pelo ar a barricada!
     Todos se voltaram para o lado donde vinha a voz.
     Mrio entrara na loja e pegara no barril de plvora; depois, aproveitando-se
do fumo e da espcie de nevoeiro que enchera o recinto entrincheirado, correu
encostado  barricada at ao ponto em que estava a espcie de caixa de pedras que
abrigava o archote.
     Tirar dali o archote e pr no seu lugar o barril de plvora, impelir as pedras
para cima do barril, que logo se abriu com uma espcie de terrvel obedincia, fora
tudo executado por Mrio no tempo de se baixar e de se tornar a endireitar; e
ento, todos, guardas nacionais e municipais, oficiais e soldados, como que
encolhidos no outro extremo da barricada, encararam-no cheios de pasmo, de
sobre as pedras, com o archote na mo, o altivo rosto iluminado! por uma
resoluo fatal, inclinando a chama do archote para o terrvel monto onde se
distinguia o barril de plvora arrombado, e soltando este grito aterrador: -
Retirem-se, ou fao ir pelos ares a barricada!
     Mrio sobre aquela barricada depois do octogenrio, era a viso da revoluo
nova depois da apario da velha revoluo.
     - Ir pelo ar a barricada! - disse o sargento. - E tu tambm!
     Mrio respondeu:
     - E eu tambm!
     E aproximou o facho do barril de plvora.
     Mas no havia j ningum na trincheira. Os assaltantes, abandonando os seus
mortos e feridos, refluindo em confuso e desordem para o extremo da rua, ali se
perderam novamente na escurido. Foi um salve-se quem puder!
     A barricada estava desembaraada.



    V
    Fim dos versos de Joo Prouvaire



     Todos rodeavam Mrio. Courffeyrac deitou-se-lhe ao pescoo.
     - Eis-te enfim!
     - Que felicidade - exclamou Courffeyrac.
     - Chegaste a tempo! - disse Bossuet.
     - Se no fosses tu j estava morto! - tornou Courffeyrac.
     - Se no fosse o senhor, tambm eu j estava estripado! - acrescentou
Gavroche.
     Mrio perguntou:
     - Onde est o chefe?
     - O chefe s tu! - disse Enjolras.
     Mrio tivera durante todo o dia uma fornalha no crebro, agora era um
turbilho que residia nele e que lhe parecia arrebat-lo.
     Afigurava-se-lhe estar j a imensa distncia da vida. Os seus dois breves e
luminosos meses de jbilo e de amor terminado de um modo abrupto naquele
medonho precipcio. Cosette perdida para ele, aquela barricada, o senhor Mabeuf
fazendo-se matar pela repblica, ele prprio chefe de insurgentes, eram tudo
coisas que por momentos lhe pareceu monstruoso pesadelo. Era obrigado a
empregar um esforo de esprito para se recordar de que tudo que o rodeava era
com efeito realidade. Mrio tinha ainda vivido pouco para saber que no h nada
to iminente como o impossvel e que o que deve sempre prever-se  o imprevisto.
     Mrio assistia ao seu prprio drama como a uma pea que se no
compreende.
     Naquela perturbao em que tinha o pensamento no reconhecera Javert que,
amarrado ao seu poste, no fizera o mnimo movimento durante o ataque da
barricada, e que viu agitar-se em torno de si a revolta com a resignao de um
mrtir e a majestade de um juiz.
     Mrio nem mesmo deu por ele.
     Entretanto, os assaltantes no continuavam a agresso; ouviam-se andar e
agitar-se no fim da rua, mas no se internavam nela, ou fosse porque esperassem
ordens, ou porque aguardassem reforo antes de se precipitarem novamente
contra o inexpugnvel reduto. Os insurgentes haviam postado sentinelas; e alguns
que eram estudantes de medicina tinham comeado a curar os feridos.
     Tinham tirado as mesas da taberna para a rua;  excepo das duas reservadas
para os fios e cartuchos e da outra em que jazia o tio Mabeuf, tinham-nas juntado
 barricada e substitudo na loja pelos colches das camas da tia Hucheloup e das
criadas. Nestes colches tinham deitado os feridos. Quanto s trs pobres
criaturas que habitavam Corinto;, no se sabia o que fora feito delas. Afinal foram
encontradas escondidas na cave - como advogados - disse Bossuet. E acrescentou:
- Mulheres, que peste!
     Neste momento, pungente comoo cobriu de sombra a alegria da barricada
desembaraada.
     Fizeram uma chamada. Faltava um dos insurgentes.
     E qual era? Um dos dois valentes, Joo Prouvaire. Procuraram-no entre os
feridos, no o encontraram; procuraram-no entre os mortos, tambm ali no
estava.
     Era evidente que ficara prisioneiro.
     - Apanharam-nos o nosso amigo - disse Combeferre a Enjolras - mas ns
possumos o seu agente. Tens interesse na morte do espio?
     - Decerto - respondeu Enjolras - mas muito menos que na vida de Joo
Prouvaire.
     Tudo isto se passava dentro da taberna, ao p do poste de Javert.
     - Neste caso - tornou Combeferre - vou atar um leno na minha bengala e
vou como parlamentrio oferecer-lhes a troca de prisioneiros.
     - Escuta - disse Enjolras, pondo a mo no brao de Combeferre.
    Ouviu-se ento no fim da rua um muito significativo tinir de armas e uma
voz gritar com energia:
    - Viva a Frana! Viva o futuro!
    Era a voz de Prouvaire.
    Logo em seguida viu-se um relmpago acompanhado de uma detonao.
    Depois tudo tornou a ficar silencioso.
    - Mataram-no! - exclamou Combeferre.
    Enjolras olhou para Javert e disse-lhe:
    - Acabas de ser fuzilado pelos teus amigos.



    VI
    A agonia da morte aps a agonia da vida



     Uma singularidade deste gnero de guerra  que o ataque das barricadas 
esperado quase sempre de frente, e que em geral os assaltantes se abstm de cercar
as posies, ou porque temam emboscadas, ou porque receiam aventurar-se em
ruas tortuosas. Toda a ateno dos insurgentes se dirigia para o lado da grande
barricada, que era evidente o ponto sempre ameaado, e onde infalivelmente devia
recomear a luta. Todavia, Mrio lembrando-se da barricada pequena, foi
observ-la. Estava deserta e era apenas guardada pela lanterna que estremecia
entre as pedras. O mais, isto , o beco Mondtour e as ramificaes da rua da
Pequena Truanderie e do Cisne, estavam profundamente tranquilas.
     Quando Mrio, depois de feita a sua inspeco, se retirava, ouviu que
chamavam pelo seu nome muito devagarinho.
     - Senhor Mrio... O rapaz estremeceu, porque reconheceu a voz que duas
horas antes o chamara, atravs da grade da rua Plumet.
     A diferena era que aquela voz j no parecia mais que um sopro.
     Olhou  roda de si e no viu ningum.
     Mrio julgou que se havia enganado e que aquilono fora mais do que uma
alucinao, acrescentada pelo seu esprito s realidades extraordinrias que o
rodeavam. Deu portanto um passo, para se afastar da barricada.
     - Senhor Mrio! - repetiu a voz.
     Desta vez no podia duvidar, ouvira distintamente; tornou a olhar, mas no
viu nada.
     - Aos seus ps... - disse a voz.
     Ento Mrio curvou-se e viu, no meio da sombra, um vulto que se dirigia
para ele. O que quer que era arrastava-se pela rua: era aquilo o que lhe falara.
     A lanterna permitiu-lhe distinguir uma blusa, umas calas, de belbutina todas
rasgadas, uns ps descalos e uma coisa escura que se assemelhava a um charco de
sangue. Mrio entreviu um rosto lvido, que se erguia para ele e que lhe dizia: -
No: me conhece?
     - No.
     - Sou a Eponina, Mrio curvou-se rapidamente. Era com efeito a desgraada
criana. Estava vestida de homem.
     - Como  que se encontra neste lugar? O que est fazendo aqui?
     - Esperando a morte - disse ela.
     H palavras e incidentes que despertam os entes mais opressos. Mrio
exclamou, como que sobressaltado:
     - Est ferida! Espere, vou lev-la para a loja! Vai J ser tratada!  muito grave
o ferimento? Como  que devo pegar-lhe para lhe no fazer mal? Em que stio  a
ferida?
     Valha-me Deus! Acudam! Mas o que vem fazer aqui?
     E, ao mesmo tempo que dizia isto, tentava passar-lhe o brao por baixo do
corpo para a levantar.
     Ao fazer, porm, este movimento, tocou-lhe na mo e a infeliz soltou um
pequeno grito.
     - Magoei-a? - perguntou-lhe Mrio.
     - Um pouco.
     - Mas s lhe toquei na mo.
     A rapariga ergueu a mo e Mrio pde ver-lhe no centro, um buraco negro.
     - O que  que tem na mo? - perguntou ele.
     - Foi furada!
     - Furada?
     - Sim.
     - Com qu?
     - Com: uma bala.
     - Mas como?
     - No viu uma espingarda que um soldado lhe apontava?
     - Vi, assim como pr-lhe no sei quem a mo adiante.
     - Era eu.
     Mrio estremeceu.
     - Que loucura! Pobre criana! Mas ainda bem que  s isso, no h perigo,
deixe-me lev-la para uma cama. Vai j ser tratada, no se morre de uma mo
furada.
     Eponina murmurou:
     - A bala atravessou-me a mo; mas saiu-me pelas costas.  intil tirar-me
daqui.
     Vou dizer-lhe como  que me pode tratar melhor do que um cirurgio.
Sente-se ao p de mim nesta pedra.
     Mrio obedeceu; a infeliz descansou-lhe a cabea nos joelhos e disse sem
olhar para ele:
     - Como isto - bom! Como se est bem assim! At que enfim! J no sofro.
     Depois ficou por um momento silenciosa; por fim voltou com muito custo o
rosto, e olhou para Mrio.
     - No sabe, senhor Mrio? Ralava-me a pacincia v-lo -ir quele jardim; era
uma tolice, porque eu  que lhe tinha ensinado a casa; e depois sempre tinha de
me convencer de que um rapaz como o senhor....
     Interrompeu-se, e ultrapassando as sombrias transies que lhe estavam sem
dvida no esprito, continuou com um sorriso despedaado: - Achava-me feia,
no  assim?
     E prosseguiu:
     - O senhor est perdido! Agora j ningum sair da barricada. V? E fui eu
quem o conduziu aqui! Tenho toda a certeza de que h-de morrer. Todavia,
quando vi que lhe apontavam uma espingarda, tapei-lhe o cano com a mo. Que
tolice! Mas eu queria morrer antes do senhor. Quando recebi esta bala,
arrastei-me at aqui, ningum me viu nem me levantaram. Estava  sua espera e
dizia comigo: Pois ele no vir? Se soubesse como eu mordia a blusa com a fora
das dores! Agora sinto-me boa. Lembra-se daquele dia em que entrei no seu
quarto e em que estive a mirar-me no seu espelho?
     No dia em que o encontrei no boulevard? Como os passarinhos cantavam!
No h ainda muito tempo. O senhor tinha-me dado cem soldos e eu disse-lhe:
No quero o seu dinheiro. Apanhou ao menos o dinheiro? O senhor no  rico.
No me lembrei de lhe dizer que o apanhasse. Estava um sol to bonito!
Lembra-se de tudo isto, senhor Mrio? Oh, que felicidade a minha! Toda a gente
vai morrer.
     Eponina tinha um ar insensato, grave e pungente.
     A blusa rasgada deixava-lhe o peito nu. Enquanto falava apoiava a mo
furada no peito, onde havia outro buraco, do qual saa de vez em quando uma
golfada de sangue, qual jacto de vinho de um batoque aberto.
     Mrio contemplava to desventurada criatura com profunda -compaixo.
     - Ai, Jesus! - disse ela. - A vem outra vez, ai que eu morro!
     E pegando na blusa, mordeu-a; as pernas inteiriaram-se convulsivamente
sobre a calada.
     Neste momento retiniu na barricada a voz de frango de Gavroche. O gaiato
subira para cima de uma mesa para carregar a espingarda, e, enquanto o fazia
cantava alegremente a cano, ento to popular: Mal peseta. Lafayette.
     O gendarme repete:
     Fujamos! Fujamos! Fujamos, j, j!
     Eponina ergueu-se um pouco, aplicou o ouvido e murmurou:
     -  ele.
     E voltando-se para Mrio:
     - Meu irmo esta ali.  preciso que me no veja.
     Ralharia comigo.
     - Seu irmo? - perguntou Mrio, que pensava, no mais amargo e doloroso do
corao, nos deveres que seu pai lhe legara para com os Thenardier. Quem  seu
irmo?
     - O pequeno.
     - O que est cantando?
     - Sim.
     Mrio fez um movimento.
     - No se v! - disse ela. - J no levar muito tempo!
     Eponina estava quase sentada, mas a voz era muito baixa e entrecortada de
soluos. De vez em quando era interrompida pelo estertor e aproximava quanto
podia o seu rosto do de Mrio. Em seguida acrescentou com estranha expresso: -
Oia, no quero pregar-lhe uma pea. Tenho na minha algibeira uma carta para o
senhor, desde ontem. Tinham-me dito que a deitasse no correio, mas eu
guardei-a; no queria que lhe fosse parar  mo. Mas o senhor talvez me quisesse
mal, por causa disto, quando daqui a pouco nos vssemos. A gente torna a ver-se,
no  verdade?
     Tome a sua carta.
     Em seguida pegou convulsivamente na mo de Mrio com a sua,
despedaada, mas -parecendo no sentir j a dor e levou-a ao bolso da blusa.
Mrio sentiu com efeito ali um papel.
    - Tire-a - disse ela.
    Mrio tirou a carta.
    Eponina fez um sinal de satisfao e de assentimento.
    - Agora, pelo meu trabalho, prometa-me... E calou-se.
    - O qu? - perguntou Mrio.
    - Prometa!
    - Prometo.
    - Prometa que me dar um beijo na testa depois de eu estar morta, porque o
hei-de sentir!
    Tornou a deixar cair a cabea sobre os joelhos de Mrio e os olhos
fecharam-se-lhe. O mancebo julgou que aquela pobre alma j tinha partido.
Eponina conservava-se imvel. De repente, no instante em que Mrio a julgava
para sempre adormecida, abriu vagarosamente os olhos, em que aparecia a
sombria profundidade da morte e disse-lhe num tom cuja suavidade parecia vir j
do outro mundo: - Se quer que lhe diga, senhor Mrio, eu julgo que estava um
bocado apaixonada pelo senhor!
    E, ao proferir estas palavras, tentou ainda sorrir-se e expirou.



    VII
    Gavroche profundo calculista de distncias



     Mrio cumpriu a sua promessa. Apenas a infeliz expirou, deps-lhe um beijo
na fronte lvida, orvalhada ainda do suor da morte. No era uma infidelidade a
Cosette; era um melanclico e suave adeus a uma alma desditosa.
     Ao pegar na carta que Eponina lhe dera, Mrio no pde esquivar-se a um
ntimo estremecimento. Parecia-lhe que aquela carta encerrava algum grande
acontecimento, e por isso estava impaciente por l-la.  assim o corao do
homem; ainda a infeliz rapariga mal tinha fechado os olhos, j Mrio no se
lembrava seno de abrir aquele papel. Deps, portanto, o cadver no cho com
-todo o cuidado e retirou-se.
     Dizia-lhe no sei que voz desconhecida que no podia ler aquela carta em
presena daquele cadver.
     Entrou na loja e aproximou o papel de uma luz. Era um bilhetinho dobrado e
fechado com o esmero elegante particular s mulheres. O sobrescrito inculcava ter
sido feito por mo feminina e era assim concebido: Senhor Mrio Pontmercy, em
casa do senhor Courffeyrac, rua dos Vidraceiros, nmero 16.
     Mrio rompeu o sobrescrito e leu:
     Meu querido. Infelizmente, meu pai quer que partamos j. Esta noite
estaremos na rua do Homem Armado, nmero 7, e dentro de oito dias em
Londres. Cosette - 4 de Junho.
     A tal ponto chegava a inocncia destes amores, que Mrio ainda no conhecia
a letra de Cosette.
     O que se tinha passado em poucas palavras se pode referir. Eponina fizera
tudo.
     Aps a noite de 3 de Junho, dois projectos concebera: frustrar os planos de
seu pai e dos outros bandidos, a respeito da casa da rua Plumet e separar Mrio de
Cosette.
     Firme nesta resoluo, trocou os seus andrajos com O primeiro galhofeiro
gaiato que encontrou, disposto a vestir-se de mulher, enquanto Eponina se
disfarava de homem.
     Fora ela que no Campo de Marte dera a Joo Valjean aquele expressivo aviso
mude de casa. Joo Valjean, efectivamente, apenas se recolhera a casa;, dissera a
Cosette: - Esta noite iremos ficar  rua do Homem Armado e para a semana que
vem havemos de estar em Londres. Toussaint h-de acompanhar-nos.
     Cosette, aterrada por to inesperado golpe, escrevera  pressa duas linhas a
Mrio. Porm, como deitar a carta ao correio, se ela nunca saa s, e Toussaint,
maravilhada de semelhante incumbncia, iria imediatamente mostrar a carta ao
senhor Fauchelevent? No meio desta angstia, Cosette avistara Eponina por entre
a grade, a qual, disfarada com trajos de homem, no saa um s instante de ao p
do jardim. A jovem chamara, pois, o moo operrio e dissera-lhe,
entregando-lhe cinco francos e a carta: - Leva esta carta j ao seu destino.
     Eponina metera a carta na algibeira. No outro dia, 5 de Junho, fora a casa de
Courffeyrac, perguntara por Mrio, no para lhe entregar a carta, mas, coisa que
todas as almas apaixonadas compreendero, para ver. Ali esperara Mrio ou,
pelo menos, Courffeyrac ainda para ver. Quando Courffeyrac lhe dissera: Vamos
para as barricadas, tivera uma ideia. Arrojar-se quela morte, como se teria
arrojado a qualquer outra e impelir para ela Mrio. Tinha seguido Courffeyrac,
assegurara-se bem do lugar em que construam a barricada e, tendo toda a certeza
de que Mrio, que no recebera o menor aviso e a quem interceptara a carta, iria 
noite  entrevista do costume, fora  rua Plumet, esperara ali Mrio e enviara-lhe,
em nome dos seus amigos, aquele apelo, que devia, pensava ela, conduzi-lo 
barricada. Eponina contara com o desespero de Mrio no encontrando Cosette, e
no se enganara. Depois voltara  rua da Chanvrerie. H pouco se viu o que ali fez.
Morrera com a alegria trgica dos coraes ciosos, que arrastam o ente amado na
sua morte e que dizem: - Ningum o possuir!
     Mrio cobriu de beijos a carta de Cosette. Amava-o realmente! Teve, por um
instante, a ideia de que no devia morrer. Depois disse consigo: - Mas ela parte.
Seu pai leva-a para a Inglaterra e meu av ope-se ao casamento.
     No se mudou coisa alguma na fatalidade.
     Ento lembrou-se de que lhe restavam dois deveres a cumprir: enviar a
Cosette um supremo adeus e salvar da catstrofe que se estava preparando aquele
pobre rapazito, irmo de Eponina e filho de Thenardier.
     Tinha consigo uma carteira; a mesma que contivera o caderninho onde
escrevera tantos pensamentos de amor para Cosette. Arrancou-lhe uma folha e
escreveu nela, a lpis, estas linhas: O nosso casamento  impossvel. Pedi a meu
av o seu consentimento e ele negou-mo; eu, como tu, no tenho fortuna. Corri a
tua casa e no te encontrei; sabes a palavra que te dei; cumpro-a: morro. Amo-te.
Quando leres Isto estar a minha alma a teu lado e rrr-se- para ti. No tendo
nada com que fechar esta carta, limitou-se a dobrar o papel em quatro e a pr-lhe
este sobrescrito:
     Para a menina Cosette Fauchelevent na rua do Homem Armado, nmero 7.
     Depois de dobrar a carta, ficou por um momento pensativo, tornou a pegar
na carteira, abriu-a e escreveu com o mesmo lpis na primeira pgina estas linhas:
     Chamo-me Mrio Pontmercy. Levem o meu cadver a casa do meu av, o
senhor Gillenormand, na rua das Mulheres do Calvrio, nmero 6, no Marais.
Guardou em seguida a carteira no bolso do casaco e chamou Gavroche. O gaiato
ouvindo a voz de Mrio, correu logo com a alegria e a dedicao no rosto.
     - Queres fazer alguma coisa em meu servio?
     - Tudo - disse Gavroche. - Com a fortuna! Se no fosse o senhor j eu tinha
baldeado.
     - Vs bem esta carta?
     - Vejo, sim, senhor.
     - Guarda-a. Sai j da barricada (Gavroche inquieto, comeou a coar atrs da
orelha), e amanh de manh lev-la-s ao seu destino,  menina Cosette, a casa do
senhor Fauchelevent, na rua do Homem Armado, nmero 7.
     O herico rapazito respondeu:
     - Pois sim! Mas durante esse tempo tomaro a barricada, e eu no estarei
nela.
     - A barricada j no ser atacada seno ao amanhecer; segundo todas as
aparncias no ser tomada antes do meio-dia.
     A nova espera que os assaltantes davam,  barricada, ia-se com efeito
prolongando. Era uma das intermitncias frequentes nos combates nocturnos, que
so sempre seguidos de duplo encarniamento.
     - E se eu for levar a sua carta amanh de manh?
     - Ser muito tarde. A barricada ser provavelmente cercada e ento no
poders sair. Vai sem demora.
     Gavroche no teve que replicar; ficou imvel, indeciso, e coando novamente
atrs da orelha. De repente, com um daqueles movimentos de pssaro que lhe
eram naturais, pegou na carta.
     - Bem... - disse ele - e deitou a correr pela rua Mondtour.
     Gavroche tivera uma ideia que o determinara, mas que no expressara, com
medo de que Mrio lhe fizesse alguma objeco. A ideia fora esta:
     -  apenas meia-noite: a rua do Homem Armado no  longe, portanto vou
levar a carta e ainda volto a tempo.


L15:
    LIVRO DCIMO QUINTO
    A Rua do homem amado



    I
    Indiscrio de um espelho



     O que so as comoes duma cidade a par das revoltas da alma? O homem 
uma profundidade maior ainda que o povo. Naquele mesmo momento, em que se
passava quanto acabamos de ver, estava Joo Valjean preso de medonha agitao
interior. Tinham-se aberto novamente nele todos os abismos. Estremecia tambm
como Paris, no limiar de uma revoluo formidvel e obscura. Para isto tinham
bastado apenas algumas horas. O destino e a conscincia tinham-se-lhe coberto
inopinadamente de sombras. Podia dizer-se a seu respeito, como a respeito de
Paris: esto face a face os dois princpios. O anjo cndido e o anjo negro vo lutar
corpo a corpo sobre a ponte do abismo.
     Qual deles precipitar o outro? Quem vencer? Na vspera daquele mesmo
dia 5 de Junho fora Joo Valjean, acompanhado de Cosette e de Toussaint,
estabelecer-se na rua do Homem Armado, onde o esperava uma peripcia.
     Cosette no tinha sado da rua Plumet sem intentar resistir. Fora a primeira
vez, desde que existiam em companhia um do outro, que a vontade de Cosette e a
vontade de Joo Valjean se tinham mostrado distintas e se haviam seno
embatido, pelo menos achado em contradio. Tinha havido objeco de um lado
e Inflexibilidade do outro.
     O inopinado conselho para que se mudasse, dado por um desconhecido a
Joo Valjean, assustara-o a ponto de o tornar desptico. Julgava-se descoberto e
perseguido. Cosette tivera de ceder.
     Tinham chegado ambos  rua do Homem Armado sem abrirem a boca, sem
proferirem uma s palavra, absorto cada um na sua preocupao pessoal; Joo
Valjean to inquieto que no reparava na tristeza de Cosette, Cosette to triste que
no via a inquietao de Joo Valjean.
     Joo Valjean levara tambm Toussaint, coisa que nunca fizera nas
precedentes ausncias. Entrevia que no voltaria talvez  rua Plumet, e por isso
no podia deixar ali Toussaint, nem comunicar-lhe o seu segredo. E depois
tinha-a por dedicada e segura.
     Da criada para o amo a traio comea pela curiosidade. Ora, Toussaint,
como se fora predestinada para criada de Joo Valjean, no era curiosa atravs do
seu gaguejar, e falando como os camponeses de Barneville, dizia:
     - Eu c sou assim. Fao a minha obrigao e no me meto com a vida de
ningum.
     Naquela sada da rua Plumet, que fora quase uma fuga, Joo Valjean no
levara consigo seno a cheirosa caixinha baptizada ,por Cosette com o nome de
inseparveis.
     Para conduzir malas seriam necessrios moos, e os moos so testemunhas.
Joo Valjean mandou esperar uma carruagem  porta que deitava para a rua da
Babilnia e, chegada a ocasio, meteram-se todos nela e partiram.
     Foi com muita dificuldade que Toussaint obteve licena para fazer uma
trouxa de alguma roupa, Cosette no levara seno a sua papeleirazinha (espcie de
pasta com mata-borro).
     Joo Valjean;, para aumentar a solido e a sombra desta desapario,
preparara tudo de modo que no sasse da rua Plumet seno ao anoitecer, o que
dera tempo a Cosette de escrever o seu bilhete a Mrio.
     Quando chegaram  rua do Homem Armado, era noite fechada e trataram
logo de se deitar, o que fizeram no maior silncio.
     A habitao da rua do Homem Armado era situada num ptio traseiro, num
segundo andar, e constava de dois quartos de cama, de uma casa de jantar, que
dava para uma cozinha -e de um vo, onde havia uma cama, que foi destinada a
Toussaint.
     A casa de jantar servia ao mesmo tempo de sala e de separao dos dois
quartos de cama. Tudo estava convenientemente mobilado. O homem
tranquiliza-se quase to loucamente como se inquieta;  assim a natureza
humana,. Apenas Joo Valjean se achou na rua do Homem Armado, sentiu
diminuir a aflio que o oprimia, at que gradualmente se dissipou.
     H locais que so calmantes e que actuam no esprito de certo modo
mecnico.
     Rua obscura, habitantes pacficos. Joo Valjean sentindo no sei que contgio
de tranquilidade naquele beco do antigo Paris, to estreito, que era vedado aos
trens por uma prancha assente transversalmente em dois postes, mudo e surdo no
meio da cidade amotinada, crepuscular de dia claro e, para assim dizer, incapaz de
comoes entre as suas duas fileiras de altos prdios centenrios, sempre calados
como verdadeiros velhos. H naquela rua um como esquecimento estagnado.
      Ali respirou Joo Valjean. Por que meio o descobririam num tal lugar?
      O seu primeiro cuidado foi colocar a inseparvel junto de si.
      Dizem que a noite  boa conselheira, porm, pode-se afirmar que ela no s
aconselha, mas tranquiliza. No dia seguinte pela manh, Joo Valjean ergueu-se
quase de aspecto jovial. Achou lindssima a sala de jantar que no podia ser mais
feia, mobilada com uma mesa redonda, velha, um bufete baixo, sobre o qual se via
um espelho inclinado, uma poltrona carunchosa e algumas cadeiras, sobre as
quais jaziam as trouxas de Toussaint. Por uma abertura destas trouxas entrevia-se
o uniforme de guarda nacional de Joo Valjean.
      Quanto a Cosette, ordenou a Toussaint que lhelevasse um caldo ao quarto e
no apareceu seno de tarde.
      Por volta das cinco horas, Toussaint, at ento atarefada nos arranjos da nova
morada, ps na mesa uma galinha assada, a que Cosette, por deferncia para com
seu pai, mal deitara os olhos.
      Terminada a simples refeio Cosette pretextou uma violenta dor de cabea e
retirou-se ao seu quarto, dando as boas noites a seu pai. Joo Valjean comera uma
asa de galinha, com muito apetite, e debruara-se depois sobre a mesa, parecendo
quase restitudo  sua primitiva serenidade. Durante a sbria refeio, por duas ou
trs vezes lhe parecera ouvir a algaraviada da criada, falando-lhe de barulhos na
cidade, porm absorto numa infinidade de combinaes interiores, no fizera
reparo no que a velha tinha dito, ou, para melhor dizer, nem a tinha ouvido.
      Decorridos assim alguns instantes, levantou-se e principiou a passear da
janela para a porta e da porta para a janela, cada vez mais desassombrado.
      Com o desassombro voltara-lhe ao pensamento a ideia de Cosette, sua nica
preocupao. No porque lhe desse cuidado aquela dor de cabea, crise nervosa
sem consequncia, arrufo de mulher jovem, nuvem de um momento, que dentro
de um ou dois dias completamente desapareceria, mas vinha-lhe  lembrana o
futuro, e, como de ordinrio, a ideia do futuro tornava-se-lhe suave. No fim de
tudo, que obstculo havia para que a vida feliz continuasse o seu curso? Em certas
horas tudo parece impossvel, noutras tudo parece fcil; Joo Valjean achava-se
numa dessas boas horas.
      De ordinrio sucedem s ms, como o dia  noite, em virtude dessa lei de
sucesso e de contraste que constitui o fundo da natureza, e que os espritos
superficiais denominam anttese. Nesta pacfica rua, em que se havia refugiado,
Joo Valjean desembaraava-se de tudo o que h pouco o perturbava. Por isso
mesmo que tinha visto sempre trevas,  que principiava a entrever um fragmento
de cu. Sair da rua Plumet sem complicao nem incidente era j um bom passo
dado. Talvez a prudncia aconselhasse uma mudana de terra, para Londres, por
exemplo, ainda que no fosse seno por alguns meses. E porque no! Tanto valia
estar em Frana como em Inglaterra, uma vez que tivesse Cosette a seu lado.
Cosette era a sua ptria; era-lhe bastante a jovem para que ele se julgasse
completamente feliz.
     A lembrana de que ele no bastaria a torn-la feliz, lembrana que, noutro
tempo, o torturava a ponto de lhe causar febre e tirar o sono, essa nem ao esprito
se lhe apresentava. Estava no colapso de todas as suas dores passadas em pleno
opti-mismo. O ver Cosette sempre ao p de si fazia-lhe parecer que ela lhe
pertencia, efeito ptico que toda a gente experimenta.
     Deste modo, portanto, planeava a ss consigo, com todas as facilidades
imaginveis, a sua partida para Inglaterra em companhia de Cosette,
parecendo-lhe, no seu devanear, ver reconstrudo o edifcio da sua ventura, onde
nem ele bem o sabia.
     Ao tempo que assim passeava de uma para outra parte, embebido em toda a
espcie de pensamentos agradveis, o seu olhar fixou-se, de repente, num
estranho objecto.
     Em frente de si, no espelho inclinado sobre o bufete, acabava de avistar as
linhas que em seguida reproduzimos:
     Meu querido. Infelizmente, meu pai quer que partamos j. Esta noite
estaremos na rua do Homem Armado, nmero 7, e dentro de oito dias em
Londres. Cosette - 4 de Junho.
     Joo Valjean parou estupefacto.
     Cosette, quando chegara, pusera a pasta sobre o bufete diante do espelho e,
entregue  sua dolorosa aflio, esquecera-se de a levar dali, sem ao menos reparar
em que a deixara aberta, e aberta precisamente na pgina sobre a qual tinha
enxugado as linhas que escrevera e de que encarregara o rapazito que passara pela
rua Plumet. A escrita tinha passado toda para o mata-borro.
     O espelho reflectia a escrita.
     Resultara o que em geometria se chama imagem, simtrica; de tal modo que a
letra, que no mata-borro se achava invertida, apresentava-se no espelho no seu
sentido natural; e Joo Valjean tinha diante dos olhos a carta que Cosette
escrevera na vspera a Mrio.
     Era uma coisa simples e fulminante.
     Joo Valjean aproximou-se mais do espelho. Releu aquelas linhas, mas no as
acreditou. Produziram-lhe um efeito como se lhe aparecessem no claro de um
sonho.
     No passava de uma alucinao. Era impossvel. No podia ser!
     A pouco e pouco foi-se-lhe tornando a percepo mais precisa e determinada;
olhou para a pasta de Cosette e teve ento o sentimento da realidade. Pegou no
mata-
     borro, onde a inclinao das letras produzia as mais. extravagantes garatujas,
e no viu nelas sentido algum. Ento disse consigo:
     - Mas isto no significa nada.
     E respirou com toda a fora dos pulmes, inexplicavelmente aliviado. Quem
h que no tenha experimentado destas alegrias estpidas em momentos
horrveis? A alma no se rende ao desespero seno depois de ter esgotado todas as
iluses.
     Conservava o mata-borro na mo e contemplava-o, estupidamente
satisfeito, e quase disposto a rir-se da alucinao que o lograra. De repente tornou
a olhar para o espelho e de novo se lhe deparou a mesma viso. Aquelas linhas
desenhavam-se no vidro com inexorvel nitidez. Desta vez no era uma miragem,
a reincidncia de uma viso  realidade, era a escrita posta a direito pelo espelho.
Compreendeu tudo.
     Joo Valjean cambaleou, deixou cair da mo o mata-borro e sentou-se na
velha poltrona que estava ao lado do bufete, com a cabea curvada, as pupilas
vtreas e desorientadas. Viu ento ser evidente que a luz do mundo se eclipsara
para sempre e que Cosette escrevera aquilo a algum. Ento ouviu a alma,
novamente terrvel, soltar nas trevas um rugido surdo. V-de se sois capaz de tirar
ao leo o co que ele tem na jaula!
     Extravagante e triste coisa: naquele momento ainda Mrio no tinha recebido
a carta de Cosette; o acaso, como traidor, mostrara-a a Joo Valjean antes de a
entregar a Mrio.
     At quele dia nunca Joo Valjean fora vencido pela provao. Tinha sido
submetido a medonhas experincias; a fortuna no lhe poupara violncias; a
ferocidade da sorte, armada com todas as vindictas e com todos os desprezos
sociais, tomara-o por alvo e encarniara-se contra ele. No recusara nem vergara
em presena de coisa alguma.
     Aceitara, sempre que fora preciso, todas as extremidades; tinha sacrificado a
sua inviolabilidade de homem reconquistada, entregando a sua liberdade,
arriscado a cabea, perdido e sofrido tudo, e mostrara-se sempre desinteressado e
estico, a ponto talque, por momentos, o poderiam julgar ausente de simesmo
como um mrtir.
     A sua conscincia, aguerrida em todos os assaltos possveis da adversidade,
podia parecer para sempre inexpugnvel. Pois bem, se algum lhe houvesse
penetrado no foro ntimo seria obrigado a registar a sua fraqueza naquele
momento.
      que de todos os tratos que sofrera na prolongadatortura que o destino lhe
aplicara, aquele era o mais temvel. Nunca fora agarrado por semelhante tenaz.
     Sentiu a agitao misteriosa de todas as sensibilidades; sentiu a beliscadura da
febre desconhecida. Ah! A provao suprema, digamos melhor a provao nica,
 a perda do ente amado!
     O pobre velho Joo Valjean no amava decerto seno como um pai; mas j o
fizemos notar: nesta paternidade tinha a prpria viuvez da sua vida introduzido
todos os amores; amava Cosette como uma filha, amava-a como sua irm; e, como
no tivera nunca amante nem esposa, como a natureza  um credor que no aceita
protesto algum, tambm esse sentimento menos fcil de perder do que qualquer
outro, se achava aliado aos demais, anglico, divino, menos como um sentimento
do que como um instinto, menos como instinto do que como uma inclinao,
imperceptvel e invisvel, mas real; e o amor propriamente dito estava na sua
ternura enorme por Cosette como o veio de oiro na montanha, tenebrosa e
virgem.
     Recorde-se esta situao do corao, que j indicmos. Entre eles no 
possvel consrcio algum; nem mesmo O das almas; todavia  certo que os seus
destinos se tinham desposado. A excepo de Cosette, isto ,  excepo de uma
infncia, nunca Joo Valjean, em toda a sua longa vida, conhecera nada do que
pode amar-se. As paixes e os amores que se sucedem no tinham produzido nele
os sucessivos verdes, verde desmaiado e verde sombrio, que se notam nas folhas
que passaram o Inverno e nos velhos que passaram os cinquenta anos. Em suma -
mais de uma vez temos insistido nesse ponto. Toda aquela efuso interior, todo
aquele conjunto, cuja resultante era uma elevada virtude, terminavam por fazer de
Joo Valjean um pai Para Cosette. Pai extraordinrio, forjado do av, do filho, do
irmo e do marido, que residiam em Joo Valjean; pai em que chegava a haver
me, pai que amava Cosette, que a adorava, e para quem aquela criana era a luz, a
habitao, a famlia, a ptria, o paraso.
     Assim, quando viu que tudo decididamente acabara, que ela lhe escapava, que
lhe escorregava das mos, que se ocultava, que era um fludo; quando viu diante
de si esta evidncia esmagadora: - um outro  o alvo do seu corao, um outro
constitui a aspirao da sua vida; h um querido, eu sou apenas o pai, j no existo
- Quando no pde duvidar, quando disse consigo Vai deixar-me; a dor que
experimentou ultrapassei os limites do possvel. Ter feito tudo o que tinha feito
para chegar a semelhante resultado, e, no fim de tudo no ser nada! Ento, como
h pouco dissemos, houve nele um estremecimento de revolta. Sentiu at  raiz
dos cabelos o imenso despertar do egosmo; o eu uivou no abismo daquele
homem.
     H desmoronamentos interiores. A penetrao de uma convico
desesperada no homem, no se opera sem que se afastem e rompam certos
elementos profundos, que so por vezes, o prprio homem. A dor quando atinge
este grau,  um salve-se quem puder de todas as foras da conscincia. So estas
crises fatais Poucos de entre ns saem delas semelhantes a si mesmos e firmes no
dever. Quando o limite do sofrimento se tem ultrapassado abala-se at a virtude
mais imperturbvel. Joo Valjean levantou do cho o mata-borro convenceu-se
novamente e ficou curvado e como que petrificado, olhando para as irrecusveis
linhas, com olhar fito; e formou-se nele uma tal nuvem, que poderia julgar-se
ter-lhe desabado todo o ntimo da alma.
     Examinou a revelao atravs do engrossamento do sonho, com uma
tranquilidade aparente e medonha; pois que  uma coisa medonha e temvel a
tranquilidade do homem, quando chega  frieza da esttua.
     Mediu o passo espantoso que o seu destino tinha dado, sem que ele o
suspeitasse, recordou-se dos receios do Vero anterior, to loucamente dissipados;
reconheceu o precipcio, era sempre o mesmo; a diferena comsistia em j no
estar, ele, Joo Valjean,  beira, mas sim no fundo.
     Inaudita e pungente circunstncia: cara nele sem que o percebesse. Toda a
luz da sua vida para ali tinha ido e ele acreditando ver sempre o Sol!
     O seu instinto no hesitou. Aproximou certas circunstncias, certas datas, o
rubor e a palidez de Cosette em dadas ocasies, e disse consigo:  ele. O dom de
adivinhar do desespero,  uma espcie de arco misterioso que no erra nunca o
tiro. Logo  primeira conjuntura alcanara Mrio. No sabia o nome, mas achou
rapidamente o homem. Avistou distintamente, no fundo da implacvel evocao
das recordaes, o desconhecido passeante do Luxemburgo, aquele miservel
namorador, aquele bargante de romances, aquele imbecil e cobarde; porque  uma
cobardia mostrar olhos ternos s raparigas que esto ao lado dos seus pais, que as
amam.
     Depois de bem convencido de que tinha achado o heri, ele, Joo Valjean, o
homem regenerado, que tanto tinha trabalhado para a sua alma, o homem que
empregara todos os esforos para resolver a vida toda, toda a misria e toda a
desventura em amor, olhou para dentro de si mesmo e viu um espectro, o dio. As
grandes dores contm prostraes. Tiram o nimo. O homem em que elas entram
sente sair de dentro de si o que quer que . Uma tal visita na mocidade  lgubre;
mais tarde,  sinistra.
     Ah! Quando o sangue ferve, quando os cabelos so pretos, quando a cabea se
ostenta firme sobre o corpo como a chama sobre o facho, quando o rolo do
destino apresenta quase toda a sua espessura, quando o corao, cheio de um
amor cobivel, tem ainda palpitaes que podem ser correspondidas, quando
temos diante de ns o tempo de reparar tudo, todas as mulheres, todos os sorrisos,
todo o futuro e todo o horizonte, quando a fora da vida est completa, se ento 
uma coisa medonha a desesperana, o que no  ela na velhice quando os anos se
precipitam cada vez mais polidos, na hora crepuscular em que se comea a ver as
estrelas do interior do tmulo!
     Enquanto Joo Valjean assim pensava, entrou Toussaint.
     Joo Valjean levantou-se e perguntou:
     - De que lado , sabe?
     Toussaint, estupefacta, s pde responder-lhe:
     - Ora esta!
     - No me disse h pouco que havia combate? tornou Joo Valjean.
     - H, sim, senhor - respondeu Toussaint - l para os lados de Saint-Merry.
     H certos movimentos maquinais que provm, sem que demos por isso, do
nosso pensamento mais profundo. Foi decerto, por um impulso deste gnero e de
que apenas tinha a conscincia, que Joo Valjean se achou na rua ao cabo de cinco
minutos.
     Estava com a cabea descoberta, sentado no degrau da porta, parecendo
escutar.
     Tinha j anoitecido.
    II
    O gaiato inimigo das luzes



     Quanto tempo esteve Joo Valjean naquela posio? Quais foram os fluxos e
refluxos da sua trgica meditao? Ergueu-se? Permaneceu curvado? Ter-se-ia
curvado at quebrar? Poder-se-ia ainda endireitar e tomar p nalgum ponto slido
da sua conscincia? Provavelmente nem ele prprio poderia diz-lo.
     A rua estava deserta. Alguns burgueses que se recolhiam rapidamente para
suas casas mal deram por ele. Nos tempos de perigo cada um vela por si... O
limpa-candeeiros foi, como era costume, acender o lampio; situado precisamente
defronte da porta nmero 7 e seguiu o seu destino. Joo Valjean, se algum,
naquela ocasio, o observasse, no parecia um homem vivo. Estava sentado no
degrau da porta, imvel como uma larva de gelo. O desespero contm certa
congelao. Ao longe ouvia-se o toque de rebate e vagos rumores tumultuosos.
     No meio de todas aquelas convulses do sino casadas com a revolta, deu o
relgio de S. Paulo onze horas, gravemente e sem se apressar; porque o toque de
rebate  o homem; a hora  Deus. O passar da hora no produziu efeito algum em
Joo Valjean, que no se moveu. Contudo, quase ao mesmo tempo, ressoou no
espao uma inesperada detonao do lado dos Mercados, que foi logo seguida por
segunda, mais violenta ainda; fora, provavelmente, o ataque da barricada da rua
da Chanvrerie, que h pouco vimos repelido por Mrio. Joo Valjean ouvindo
aquela dupla descarga, cuja fria parecia aumentar com o pasmo produzido pela
noite, estremeceu; ergueu-se, voltando-se para o lado donde viera O rudo; depois
tornou a deixar-se cair sobre o poial, cruzou os braos e a cabea tornou
vagarosamente a pender-lhe para o peito.
     E continuou o tenebroso dilogo consigo mesmo.
     De repente ergueu os olhos; vinha algum pela rua; ouviu passos perto de si,
olhou, e  luz do lampio, do lado da rua que conduz aos Arquivos, viu um rosto
lvido, jovem e alegre.
     Gavroche acabava de chegar  rua do Homem Armado.
     Gavroche olhava para cima e parecia procurar alguma coisa. Via
perfeitamente Joo' Valjean, mas no o dava a conhecer.
     O gaiato, depois de ter olhado para cima, olhou para baixo; punha-se nos
bicos dos ps e apalpava as portas e as janelas das lojas, que estavam todas
fechadas e aferrolhadas. Depois de ter examinado cinco ou seis portas, todas
fortificadas, encolheu os ombros e entrou em matria consigo mesmo, nestes
termos:
     - C'os diabos!
     Depois continuou a olhar para o ar.
     Joo Valjean, que um momento antes, na situao de alma em que se achava,
no teria falado nem mesmo olhado para pessoa alguma, sentiu-se
irresistivelmente impelido a dirigir a palavra quela criana.
     - O que tens tu, pequeno?
     - Tenho fome - respondeu Gavroche prontamente.
     E acrescentou:
     - Pequeno  voc tambm.
     Joo Valjean meteu a mo no bolso e tirou uma moeda de cinco francos.
     Mas Gavroche, que era uma espcie: de borboleta e que passava rapidamente
de um para outro gesto, acabara de apanhar uma pedra. Descobrira um lampio.
     - Olha! - disse ele. - Ainda por aqui h disto. Vocs no esto na ordem, meus
amigos. Isto  desordem. Abaixo com ele.
     E atirou a pedra ao lampio, cujo vidro caiu em pedaos, com um tal
estampido, que uns burgueses escondidos por trs das cortinas da casa fronteira,
exclamaram:
     - Estamos em 93!
     O candeeiro oscilou violentamente e apagou-se. A rua ficou repentinamente
escura.
     -  assim mesmo, sua rua velha: ponha o seu barrete de dormir.
     E voltando-se para Joo Valjean:
     - Como  que vocs chamam quele monumento muito grande que est l no
fim da rua? So os Arquivos, no  verdade? Aquelas colunas  que eram mistcas
para uma barricada.
     Joo Valjean aproximou-se de Gavroche.
     - Pobre criana - disse ele a meia voz, como se falasse consigo mesmo - tem
fome.
     E meteu-lhe na mo a moeda de cem soldos.
     Gavroche levantou O nariz, espantado pela grandeza da ddiva; mirou-a no
meio da sombra e ficou deslumbrado pela alvura de to grande soldo. No
conhecia as moedas de cinco francos seno por ouvir dizer, a sua reputao
era-lhe muito agradvel, por isso ficou encantado por ver uma e disse consigo:
Contemplemos o tigre. Olhou alguns instantes para o dinheiro, extasiado;
depois voltou-se para Joo Valjean e disse majestosamente, querendo restituir-lhe
a moeda de cinco francos.
     - Burgus, quero antes quebrar os candeeiros. Guarde a sua fera. A mim
ningum me corrompe. Este bicho tem cinco garras, mas no me arranha.
     - No tens me? - perguntou Joo Valjean.
     - Talvez tanto como voc.
     - Pois ento guarda esse dinheiro para tua me - tornou Joo Valjean.
     Gavroche sentiu-se comovido. Depois acabara de reparar que o homem
estava com a cabea descoberta, e isso inspirava-lhe confiana.
     - Mas ento no  para me impedir que eu quebre os lampies?
     - Quebra tudo o que tu quiseres.
     - Isso  que  ser homem s direitas - disse Gavroche.
     E meteu num dos bolsos a moeda de cinco francos.
     Sentindo em seguida aumentar-se-lhe a confiana, acrescentou:
     - O senhor  daqui da rua?
     - Sou, porqu?
     - Sabe dizer-me onde  o nmero 7?
     - O nmero 7, para qu?
     O rapaz calou-se, receou ter falado de mais; e metendo energicamente os
dedos pelos cabelos, limitou-se a responder:
     - Ora a est!
     De repente foi Joo Valjean acometido por uma ideia. A aflio tem s vezes
lucidez.
     - Tu  que me trazes a carta que eu espero?  disse ele ao gaiato.
     - O senhor? - retorquiu Gavroche. - O senhor no  mulher.
     - A carta no  para a menina Cosette?
     - Cosette?  murmurou Gavroche, - Sim, parece-me que  um nome assim
arrevesado.
     - Pois sou eu quem lhe hei-de entregar a carta. D-ma.
     - Ento h-de saber que foi da barricada que aqui me mandaram?
     - Sei muito bem - respondeu Joo Valjean imperturbavelmente.
     Gavroche mergulhou a mo noutra algibeira e tirou dela um papel dobrado
em quatro.
     Em seguida fez uma continncia militar.
     - Respeito para com o despacho - disse ele vem do governo provisrio.
     Gavroche conservava o papel levantado acima da cabea.
     - No pense que  alguma carta de amores.  para uma mulher,, mas  do
povo.
     Ns c batemo-nos, mas respeitamos o sexo: No somos como a sociedade
fina, onde h lees que fingem de camelos.
     - D c.
     - A falar a verdade -continuou Gavroche - o senhor parece ser bom homem.
     - D c depressa.
     - Aqui tem.
     E entregou o papel a Joo' Valjean.
     -  a Saint-Merry que deve ser levada a resposta? - tornou Joo Valjean.
     - A fazia voc um bolo dos que vulgarmente denominam brtochel (Em
linguagem popular: erro, descuido, falta de habilidade) Esta carta vem da barricada
da rua da Chanvrerie, para onde volto j. Boas noites, cidado.
     Gavroche depois disto foi-se, ou para melhor dizer,continuou para o stio:
donde viera, o seu voo de pssaro fugido da gaiola. Mergulhou na escurido,
como se nela se fizesse um buraco, com a rapidez rgida de um projctil; a rua do
Homem Armado tornou a ficar silenciosa e solitria; aquela estranha criana, que
participava da sombra e do sonho, internara-se no nevoeiro daquelas fileiras de
casas escuras, perdendo-se nele, qual fumo no meio das trevas; e pod-lo-iam
julgar dissipado e extinto, se alguns minutos depois da sua desapario, a
estrondosa quebradela de vidros e o esplndido rudo de um lampio caindo na
rua, no tivessem acordado novamente os burgueses indignados.
     Era Gavroche passando pela rua do Chaume.



    III
    Enquanto Cosette e Toussaint dormiam



    Joo Valjean entrou para casa com a carta de Mrio na mo.
    Subiu a escada s apalpadelas, satisfeito com as trevas, qual mocho de posse
da sua presa, abriu e fechou brandamente a porta, escutou, viu que, segundo as
aparncias, tanto Cosette como Toussaint, estavam dormindo, acendeu a luz, com
mo trmula, como o ladro que se introduz furtivamente numa casa, sentou-se 
mesa, abriu o papel e leu-o.
    No meio das comoes violentas, no se l, aniquila-se, para assim dizer, o
papel que se tem na mo, oprime-se como uma vtima prostrada, amarrota-se e
cravam-se-lhe as unhas com clera, ou com alegria; corre-se ao fim, salta-se ao
princpio; a ateno  febril; compreende-se em globo, pelo menos, o essencial;
abrange-se um ponto, e todo o resto desaparece. No bilhete de Mrio a Cosette
no viu Joo Valjean seno o seguinte:
     ...Quando leres isto, estar a minha alma a teu lado...
     Em presena destas palavras teve um deslumbramento horrvel; ficou por um
momento como que esmagado pela mudana de comoo que sentia operar-se em
si, e olhava para o bilhete de Mrio com uma espcie de espanto de ebriedade;
tinha diante dos olhos um grande esplendor: a morte do ente odiado.
     Joo Valjean soltou um medonho grito de alegria ntima. Assim, estava tudo
acabado. O desfecho apresentava-se mais depressa do que poderia esperar-se.
     O ente que entulhava o seu ntimo desaparecia. Iluminava-se por si mesmo,
livremente, de boa vontade, sem que ele, Joo Valjean, tivesse concorrido para
isso; aquele homem ia desaparecer sem que ele fosse o culpado. Talvez at j
estivesse morto. Aqui a febredos clculos. No, no morreu ainda. A carta foi
visivelmente escrita para ser lida de manh; depois daquelas duas descargas que se
tinham ouvido entre as onze e a meia-noite no houve mais nada; a barricada no
ser atacada seno ao amanhecer; mas  o mesmo, desde que este homem se
acha envolvido em tal guerra, est perdido; est seguro pela engrenagem.
     Joo Valjean sentiu-se liberto. Ia, pois, tornar a achar-se s com Cosette. A
concorrncia cessava: recomeava o futuro. S lhe restava guardar aquela carta na
algibeira. Cosette no saberia nunca o que fora feito daquele homem: No h
mais do que deixar consumar os factos:
     - Este homem no pode escapar. Se no est morto ainda, tem a certeza de
que morrer! Que felicidade!
     Depois de dizer tudo isto consigo mesmo, ficou sombrio. Em seguida tornou
a descer e acordou o porteiro.
     Passado pouco mais ou menos uma hora, Joo Valjean saiu de casa
completamente fardado e armado como guarda nacional. O porteiro obtivera
facilmente na vizinhana com que completar o seu equipamento.
     Transposto o limiar da porta, em que, pouco antes, estivera sentado,
encaminhou-se para o lado dos Mercados com a sua espingarda carregada e a
patrona cheia de cartuchos.
    IV
    Excesso de zelo de Gavroche



     Entretanto acabava de suceder uma aventura a Gavroche.
     O gaiato depois de ter conscienciosamente apedrejado o lampio da rua do
Chaume, chegou  rua das Vieilles-Haudriettes, e no vendo ali nem um gato,
achou excelente a ocasio para entoar todas as canes de que era capaz.
     A sua velocidade em vez de diminuir com o canto, acelerava-se. Caminhando
sempre, foi semeando ao longo das casas adormecidas ou aterradas uma cano
muito em voga.
     Gavroche, cantando, prodigalizava grande soma de mmica. O gesto  o
ponto de apoio do estribilho. O seu rosto, inesgotvel repertrio de mscaras,
produzia as caretas mais convulsivas e fantsticas, que possam conceber-se.
Infelizmente indo s, e sendo noite, no era visto nem visvel. Neste mundo h
muitas riquezas perdidas.
     De repente parou.
     - Interrompamos a romanza - disse ele.
     A sua pupila felina acabava de descobrir no vo de uma porta o que em
pintura se chama um todo, isto , um ente e uma coisa; a coisa era um carrinho
de mo, o ente um aldeo do Auvergne, que estava dormindo sobre ele.
     Os varais do carrinho descansavam no cho e a cabea do aldeo estava
apoiada no extremo do carro, tendo o corpo estendido naquele plano inclinado e
os ps tocando no cho.
     Gavroche, com a experincia das coisas deste mundo, reconheceu logo um
bbado.
     - Aqui est - disse Gavroche - para que servem as noites de Vero. O
auvergnez dorme dentro do seu carro. Toma-se o carro para a repblica e deixa-se
o auvergnez para a monarquia.
     O esprito do gaiato acabava de ser iluminado pela seguinte ideia:
     Este carro faria um maravilhoso arranjo para a nossa barricada.
     O auvergnez ressonava com estrondo.
     Gavroche puxou brandamente o carro pela parte de trs e o auvergnez pela
frente, isto , pelos ps, e passado um minuto estava o auvergnez, imperturbvel,
repousando de bruos nas pedras da rua.
     Gavroche, habituado a ter de se haver por todos os lados com o imprevisto,
tinha sempre tudo consigo.
     Vasculhou as algibeiras e tirou um bocado de papel e um pedao de lpis
vermelho, bifado a algum carpinteiro e escreveu:
     REPBLICA FRANCESA
     Foi recebido o teu carro.
     E assinou:
     Gavroche.
     Feito isto meteu-o no bolso do colete de belbutina do auvergnez, que
continuava a ressonar, empunhou as duas varas do carro e partiu na direco dos
Mercados, impelindo-o diante de si, a galope, e produzindo um motim
gloriosamente triunfal.
     Isto tornava-se perigoso. Na Imprensa real havia um posto de guarda,
Gavroche no se lembrava de semelhante coisa. Aquele posto estava ocupado por
guardas nacionais do termo. A fora comeava a sentir-se inquieta e as cabeas
comeavam a erguer-se sobre a tarimba. Dois candeeiros quebrados
sucessivamente, aquela cano cantada em alto berreiro, era demasiado para ruas
to medrosas, que logo ao pr-do-sol tm; sono e que apagam as luzes to cedo.
     Havia uma hora que o gaiato fazia naquele lugar pacfico a bulha de um
mosquito dentro de uma garrafa.
     O sargento da guarda aplicava o ouvido e esperava.
     Era um homem prudente.
     O rodar desesperado do carro fez transbordar a medida da expectativa
possvel e determinou o sargento a tentar um reconhecimento.
     -  algum bando deles -, disse o sargento consigo.
     Era evidente que a hidra da anarquia sara da sua priso e que se andava
agitando por aqueles stios.
     E o sargento arriscou-se a sair da casa da guarda nos bicos dos ps.
     Gavroche, continuando a impelir o carrinho, achou-se de repente, quando ia
a desembocar da rua das Vieilles-Haudrietes, em frente de uma farda, de uma
barretina, de um penacho e de uma espingarda.
     Pela segunda vez estacou.
     - Olha! - disse o gaiato. -  ela! Senhora ordem pblica, estimo que tenha
passado muito bem.
     Os espantos de Gavroche eram pouco duradouros e desfaziam-se
rapidamente.
     - Aonde vais tu, vadio? - gritou o sargento.
     - Cidado - disse Gavroche - eu ainda lhe no chamei burgus. Porque me
insulta?
     - Aonde vais, velhaco?
     - O senhor talvez fosse ainda ontem um homem inteligente - tornou
Gavroche - mas hoje est infeliz.
     - Pergunto-te aonde vais, tratante?
     - Isso  que  falar - respondeu Gavroche. - Realmente ningum dir a Sua
idade, O senhor devia vender os seus cabelos a cem francos cada um; apurava
quinhentos francos.
     - Aonde vais? Aonde vais, ladro?
     Gavroche continuou:
     - Isso so palavras feias. A primeira vez que lhe derem de mamar  preciso
que lhe limpe melhor a boca.
     O sargento cruzou a baioneta.
     - Dizes-me aonde vais, ou no dizes, miservel!
     - Meu general - disse Gavroche - vou chamar um mdico para minha esposa,
que est de parto.
     - s armas! - gritou o sargento.
     Salvarem-se pelo meio que os perdeu,  em que consiste a obra-prima dos
homens fortes e resolutos: num abrir e fechar de olhos, Gavroche mediu toda a
situao. O carrinho  que o tinha comprometido, era ele que devia proteg-lo.
     No momento em que o sargento arremetia com Gavroche, fazia o garoto
rodar furiosamente sobre ele o carro transformado em projctil, e arremessado
com toda a fora possvel; o sargento, levando a pancada no ventre caiu para trs
no meio da lama, enquanto a espingarda se lhe disparava para o ar.
     Ao grito do sargento tinham os soldados sado em confuso da casa da
guarda; o tiro isolado determinou uma descarga geral ao acaso, depois da qual
tornaram a carregar as armas e recomearam.
     Esta fuzilaria  cabra-cega, durou um quarto de hora, e matou alguns vidros
de diferentes janelas.
     Entretanto, Gavroche, que tinha voltado para trs a sete ps, parou, depois de
ter passado cinco ou seis ruas e sentou-se arquejante, no marco da esquina dos
Enfants-Rouges.
     Em seguida aplicou o ouvido.
     Depois de ter descansado por alguns instantes, voltou-se para o lado de onde
se ouviam os tiros, ergueu a mo esquerda  altura do nariz e lanou-a trs vezes
para a frente, batendo ao mesmo tempo e outras tantas vezes com a mo direita na
nuca, gesto soberano, no qual a gaiatada parisiense condensou a ironia francesa,
que  evidentemente eficaz, por isso que j dura h meio sculo.
     Esta alegria foi perturbada por uma reflexo amarga.
     - Sim -, disse ele, - abundo em alegria, mas estou perdendo o meu tempo;
agora tenho de fazer um rodeio. Contanto que no chegue tarde  barricada.
     Acto contnuo prosseguiu na sua corrida.
     -  verdade, em que ponto estava eu? - disse ele, mesmo correndo.
     E continuou a cantar a sua cano, percorrendo rapidamente diferentes ruas,
e parecendo fazer diminuir a escurido.
     As operaes militares da guarda no foram inteis. Foi conquistado o
carrinho e aprisionado o bbado. Um foi posto em depsito, o outro, mais tarde,
um tanto perseguido como cmplice. O ministrio pblico de ento provou nesta
circunstncia o seu zelo infatigvel pela defesa da sociedade.
     A aventura de Gavroche, que faz parte da tradio do bairro do Templo, 
uma das recordaes mais terrveis dos velhos burgueses do Marais, e  intitulada
em sua memria: Ataque nocturno  guarda da imprensa real.
     Fim do Quarto Volume
Quinto Volume
Quinta Parte
Joo Valjean
    LIVRO PRIMEIRO
    A guerra entre quatro paredes



   I
   O Charybdes do arrabalde de Santo Antnio e o Scylla do arrabalde do
Templo



     As duas mais memorveis barricadas que podem ser mencionadas pelo
observador das doenas sociais, no pertencem ao perodo em que est includa a
aco deste livro. Estas duas barricadas, ambas smbolos, sob dois aspectos
diferentes, de uma situao temvel, surgiram do cho, por ocasio da fatal
insurreio de Junho de 1848, a maior guerra das ruas que a histria tem visto.
     Sucede algumas vezes, mesmo contra a liberdade, a igualdade e a
fraternidade, mesmo contra o voto universal, mesmo contra o governo de todos
por todos, que do fundo das suas aflies, do seu desnimo, de suas febres,
privaes, miasmas, ignorncias e trevas, a grande desesperada, a nfima plebe,
protesta, e a populaa d batalha ao povo.
     Lgubres combates estes, em que os miserveis atacam o direito comum, em
que a oclocracia se insurge contra o demos, pois que essa demncia encerra
sempre maior ou menor poro de direito, pois que esse duelo participa do
suicdio, e essas palavras miserveis, ral, oclocracia, gentalha, empregadas como
injrias, mais provam, infelizmente, os erros dos que dominam do que os
daqueles que sofrem, mais os dos privilegiados do que os dos deserdados.
     Pelo que nos toca, nunca proferimos uma s dessas palavras sem nos
sentirmos tomados de dor e de respeito, porque quando a filosofia sonda os factos
por elas designados, a par de muitas misrias, encontra no poucas grandezas.
Atenas era uma oclocracia; os miserveis fizeram a Holanda; a plebe salvou Roma
por mais de uma vez; a gentalha seguia Jesus Cristo.
     No h homem pensador que no: se tenha detido, por vezes, a contemplar as
magnificncias das nfimas regies.
     Era de certo a essa gentalha, a todos esses pobres, a todos esses vagabundos, a
todos esses miserveis, de entre os quais saram os apstolos e os mrtires, que S.
     Jernimo se referia, quando misteriosamente dizia: Fex itrbis, lex vorbis.
     As exasperaes da multido que sofre e se v torturada, as suas insensatas
violncias contra os princpios que lhe constituem a vida, as suas vias de facto
contra o direito, so golpes de Estado populares, e por isso devem ser reprimidos.
Nessas ocasies, o homem probo mostra a sua dedicao  multido,
combatendo-a. Combate-a, mas como ele a acha digna de desculpa, ao mesmo
tempo que se lhe ope! Como ele a venera, ao mesmo tempo que lhe resiste! D-se
ento um desses raros casos em que, apesar de se fazer o que se deve, se sente uma
espcie de desanimao, um como movimento interior que despersuade de ir mais
avante; persiste-se porque  necessrio, mas a conscincia entristece-se depois de
satisfeita e o corao como que se confrange com o cumprimento do dever.
     Junho de 1848, digamo-lo j, foi um facto excepcional e quase impossvel de
classificar na filosofia da histria. Nada do que acabamos de dizer tem aplicao a
essa extraordinria revolta, em que se sente a santa ansiedade do trabalho
reclamando os seus direitos. Foi necessrio, era mesmo dever combat-la, porque
ela atacava a repblica. No fundo, porm, que foi Junho de 1848? Uma revolta do
povo contra si mesmo.
     No se d digresso, uma vez que no se perca de vista o assunto; portanto,
seja-me lcito ocupar, por um momento, a ateno do leitor com as duas
barricadas, absolutamente nicas, de que acima falamos, e que caracterizaram essa
insurreio.
     Uma pejava a entrada do arrabalde de Santo Antnio, a outra defendia as
avenidas do arrabalde do Templo. Jamais olvidaro essas duas medonhas e
primorosas obras da guerra civil os que, sob o lmpido cu de Junho, assistiram 
sua construo.
     A barricada do arrabalde de Santo Antnio era monstruosa; tinha a altura de
uma casa de trs andares e setecentos ps de largura. Obstrua, com toda a sua
extenso:, a ampla embocadura do arrabalde, isto , trs ruas; desigual, cheia de
montculos, de excrescncias; de covas, rasgadas por uma imensa abertura,
reforada por alguns aterros que formavam uns como basties, com seus ngulos
reentrantes e salientes, solidamente travada nos dois grandes promontrios de
casas do arrabalde, surgia como um dique de ciclopes no fundo do temeroso local,
que presenciou as cenas de 14 de Julho. Dezanove barricadas se elevavam por trs
daquela barricada me no interior das ruas que se seguiam. Bastava olhar para ela
para se conhecer que o sofrimento agonizante do arrabalde era chegado ao
extremo momento em que uma misria vai produzir uma catstrofe. De que era
construda a barricada? Do entulho de trs prdios de seis andares, para esse fim
demolidos, diziam uns. Do prodgio de todas as cleras, diziam outros. O seu
aspecto era o de todas as construes do dio: a Runa. Podia dizer-se: Quem
construiu isto? e do mesmo modo se podia dizer:
     Quem destruiu isto? Era o improviso da efervescncia. Ol! Venha essa
porta! Essa grade! Esse coberto! Esse fogareiro quebrado! Essa panela velha! Dai
tudo! Lanai tudo! Puxai, rolai, cavai, desmantelai, arrancai demoli tudo! Era a
colaborao da ljea da rua, da viga, do varo de ferro, do caco, do caixilho
quebrado, da cadeira arrombada, do talo de couve, do trapo, de andrajo e da
maldio! Era uma grande coisa e uma coisa pequena. Era o abismo parodiado na
praa pelo tumulto. A massa a par com o tomo; o lano de parede demolido e o
alguidar quebrado; uma confraternidade temerosa de toda a espcie de destroos,
a que no faltava nem o rochedo de Sisipho nem a telha de Job. Em suma, uma
coisa terrvel. Era a acrpole dos andrajos. Acidentavam os taludes vrios carros
deitados de lado, entre os quais figurava uma enorme carroa, que, com o eixo
voltado para o ar, semelhava um gilvaz no meio daquela desordenada frontaria;
um omnibus, guindado entre risos para Q cimo daquele confuso acervo, como se
os arquitectos daquela selvajaria quisessem misturar o jocoso com o terrvel,
oferecia a lana desaparelhada a no sei que areos cavalos.
     Aquele acervo gigantesco, aluvio da revolta, apresentava-se ao esprito como
um Ossa sobre o Pelion de todas as revolues; 93 sobre 89, o 9 thermidr sobre o
10 de Agosto, o 18 brumrio sobre o 21 de Janeiro, venimacio sobre prairial,
1848 sobre 1830. O local era apropriado e a barricada digna de aparecer no
prprio stio de onde tinha desaparecido a Bastilha. Se o Oceano fizesse diques,
seria daquele modo que os construiria. Aquela informe aglomerao de to
diversos objectos como que deixava transparecer a fria da vaga. Que vaga? A
multido. Dir-se-ia que estava ali o tumulto petrificado. Parecia ouvir-se zumbir
por cima daquela barricada, como se achassem ali no seu cortio as enormes e
escuras abelhas do progresso violento. Era uma mata? Era uma bacanal? Era uma
fortaleza? Parecia uma coisa construda pelas asas da vertigem.
     Era um reduto quase cloaca, um monturo quase olmpico. Viam-se, em
desesperada desordem, frechais de telhados, pedaos de trapeiras com o seu papel
pintado, caixilhos de janelas com todos os seus vidros cobertos de entulho, 
espera da artilharia, foges, armrios, mesas, bancos, uma aglomerao raivosa
dessas mil coisas indigentes, de que nem o mendigo faz caso, e que contm, ao
mesmo tempo, o furor e o nada. Dir-se-ia o andrajo de um povo, andrajo de pau,
de ferro, de bronze, de pedra, que o arrabalde atirara para ali com uma colossal
vassourada, convertendo a sua misria em barricada. Cepos, correntes deslocadas,
madeiramentos com formas de forcas, rodas horizontais saindo de entre o
entulho, amalgamavam com aquele edifcio da anarquia o sombrio aspecto dos
antigos suplcios sofridos pelo povo.
     A barricada de Santo Antnio tudo convertia em armas; saa dali tudo o que a
guerra civil pode atirar  cabea da sociedade; no era combate, era paroxismo; as
clavinas que defendiam aquele reduto, entre as quais havia alguns bacamartes,
eram carregadas com pedacinhos de loua, ossos, botes e at roldanas de
veladores, projcteis perigosos, por causa do cobre. Era uma barricada impetuosa,
que elevava aos ares um clamor inexprimvel; em certas ocasies, cobria-se de
multido e de tempestade para provocar o exrcito; coroava-a uma chusma de
cabeas flamejantes; enchia-a um redemoinhar tumultuoso; tinha uma crista
eriada de espingardas, de sabres, paus, chuos, machados, baionetas, entre as
quais se desfraldava ao vento uma bandeira vermelha; ouviam-se os gritos de
comando, as canes de ataque, os rufos do tambor, os soluos das mulheres e as
risadas tenebrosas dos famintos. Era uma coisa descomunal e animada, da qual,
como do lombo de um animal elctrico, saa um faiscar de raio, O esprito da
revoluo cobria com a sua nuvem aquele cume, onde rugia a voz do povo, que
parece a voz de Deus; estranha majestade se desenvolvia daquele titnico cesto de
entulho. Era um monturo e era o Sinai.
     Como acima dissemos, aquela barricada atacava, em nome da revoluo. O
qu?
     Aquela barricada, o acaso, a desordem, o desvairamento, o equvoco, o
incgnito, tinha na sua frente a assembleia constituinte, a soberania do povo, o
sufrgio universal, a nao, a repblica; era a Carmagnole desafiando a
Marselhesa.
     Desafio insensato, mas herico, pois  certo que aquele velho arrabalde  um
heri.
     O arrabalde e o seu reduto auxiliavam-se mutuamente. O arrabalde prestava
os ombros ao reduto e este debruava-se sobre eles. A vasta barricada oferecia o
aspecto de um rochedo, de encontro ao qual ia quebrar-se a estratgia dos
generais da frica.
     Suas cavernas, suas excrescncias, suas verrugas e sinuosidades eram uns
como trejeitos que ela fazia, rindo ironicamente sob o fumo. Era uma massa
informe, em que se sumia a metralha, em que as bombas se enterravam e
desapareciam;, em que s as balas conseguiam abrir brecha: de que serve
bombardear o caos? E os regimentos, acostumados s mais ferozes vises da
guerra contemplavam com olhar desassossegado aquela espcie de reduto-fera,
pelo eriamento javali, montanha pela enormidade.
     Se a um quarto de lgua dali, isto , da esquina da rua Velha do Templo, que
desemboca no boulevard, prximo ao Chateau-dEau, se estendesse ousadamente
o pescoo fora da ponta formada pela frente do armazm Dallemagne,
avistar-se-ia ao longe, adiante do canal, na rua que costeia a ladeira de Belleville,
no ponto culminante da serra, uma parede singular ao nvel dos segundos andares
das casas, espcie de linha de unio entre os prdios da direita e os da esquerda,
como se a rua tivesse por si mesmo dobrado a sua parede mais alta para
repentinamente se fechar. Este muro era construdo com as lgeas da rua. Era
direito, correcto, frio, perpendicular, nivelado, esquadrado, alinhado e aprumado.
Faltava-lhe decerto o cimento, mas, como em certos muros romanos, esta
circunstncia no perturbava a sua rgida arquitectura.
     Adivinhava-se-lhe a profundidade pela altura. A cimalha era
matematicamente paralela  base. De espao a espao, distinguiam-se-lhe na
alvacenta superfcie seteiras quase invisveis, que pareciam fios negros, situados a
distncia igual uns dos outros. A rua via-se deserta em toda a sua extenso, as
portas e as janelas todas fechadas. No fundo elevava-se aquela trincheira, que fazia
da rua um beco sem sada; muro imvel e sossegado, em que se no via ningum
nem se ouvia coisa alguma: o mnimo grito, o mnimo rumor, o mnimo sopro.
Um sepulcro.
     Inundava de luz aquela coisa terrvel o deslumbrante Sol de Junho. Era a
barricada do arrabalde do Templo.
     Ao dar com os olhos nela, era impossvel, ainda aos mais intrpidos, no
ficarem pensativos diante daquela misteriosa apario. Era uma coisa ajustada,
encaixilhada, rectilnea, simtrica e fnebre. Revelava cincia e trevas.
Conhecia-se que o chefe daquela barricada ou era um gemetra ou um espectro.
Olhava-se para aquilo e falava-se em voz baixa.
     De tempos a tempos, se algum, soldado, oficial ou representante do povo, se
aventurava a atravessar a solitria calada, ouvia-se um assobio agudo e fraco, e o
viandante caa ferido ou morto, ou, se escapava, via-se cravar em alguma janela,
na calia de uma parede ou na fenda de duas pedras uma bala, algumas vezes de
biscainho, porquanto os homens da barricada tinham arranjado duas peazinhas
de artilharia de dois pedaos de tubos de gs, tapados numa extremidade com
estopa e tijolo. No se gastava inutilmente a plvora, porque quase todos os tiros
se empregavam. Aqui e alm, viam-se pela rua alguns cadveres e charcos de
sangue.
     Lembro-me de ter visto, nessa ocasio, uma borboleta branca esvoaando
pelo stio da barricada. O Vero no abdica.
     Nos arredores, os stos estavam atulhados de feridos.
     Quem passava sentia-se alvo da oculta pontaria feita por invisveis entes em
toda a extenso da rua.
     Agrupados por trs da volta, que faz a ponte do canal  entrada do arrabalde
do Templo, os soldados da coluna de ataque observavam, graves e silenciosos,
aquele lgubre reduto, imvel e impassvel, do meio do qual saa a morte. Alguns
chegavam at ao meio do lombo formado pela ponte, porm de rojo e com o
maior cuidado para no serem vistos.
     Admirava e estremecia o valente coronel Monteynard a vista daquela
barricada.
     - Que construo! - dizia ele a um representante. - Nem uma s pedra
desali-nhada! Parece porcelana!
     Neste momento, a cruz que trazia ao peito foi-lhe quebrada por uma bala e
ele caiu.
     - Cobardes! - diziam alguns. - Porque se no mostram? Para que se
escondem?
     Atrevam-se a aparecer! No so capazes!
     A barricada do arrabalde do Templo, defendida por oitenta homens e atacada
por dez mil, resistiu por espao de trs dias. No quarto, fizeram como em Zaatcha
e em Constantina, entraram pelas casas dentro, subiram aos telhados e a barricada
foi tomada. Nem um s dos oitenta cobardes pensou em fugir; todos morreram
nela,  excepo do chefe, Barthlemy, de quem em breve nos vamos ocupar.
     A barricada do arrabalde de Santo Antnio era o tumulto dos troves; a
barricada do Templo era o silncio. Havia entre os dois redutos a diferena que
vai do terrvel ao sinistro. Uma parecia uma goela, outra uma mscara.
     Admitindo que a gigantesca e tenebrosa insurreio de Junho era composta
de uma clera e de um enigma, sentia-se na primeira barricada o drago e por trs
da segunda a esfinge.
     Estas duas fortalezas haviam sido construdas por dois homens, chamados
um, Cournet, outro; Barthlemy Cournet presidira  construo da barricada de
Santo Antnio; Barthlemy  da barricada do Templo. Cada uma delas era a
imagem do homem que presidira  sua construo.
     Cournet era um homem de estatura elevada, ombros largos, rosto corado,
pulso de ferro, corao intrpido, alma leal, olhar sincero, mas terrvel. Ousado,
enrgico, irascvel, tempestuoso; o mais cordial dos homens, o mais temeroso dos
combatentes.
     A guerra, a luta, a refrega, eram o seu meio respirvel e a sua mais jovial
distraco.
     Fora em tempo oficial de marinha, e pelos seus gestos e voz conhecia-se que
saa do Oceano e que vinha da tempestade, continuando o furaco na batalha. A
no ser o gnio, havia em Cournet alguma coisa de Danton, como a no ser a
divindade, havia em Danton alguma coisa de Hrcules.
     Barthlemy, magro, de aspecto doentio, plido, taciturno, era uma espcie de
gaiato trgico, que, recebendo uma ocasio, uma bofetada de um empregado civil,
esperou-o e matou-o, pelo que foi condenado s gals, tendo dezassete anos de
idade.
     Depois saiu e fez aquela barricada.
     Mais tarde - coisa fatal! - achando-se ambos proscritos em Londres,
Barthlemy - matou Cournet. Foi um fnebre duelo. Passado algum tempo,
apanhado pela engrenagem de uma dessas misteriosas aventuras em que anda de
envolta a paixo, catstrofe em que a justia francesa v circunstncias atenuantes
e em que a justia inglesa no v seno a morte, Barthlemy foi enforcado.
     Tal  a sombria construo da sociedade, que, por efeito da misria material,
por efeito da obscuridade moral, aquele desventurado ente que continha uma
inteligncia, firme com certeza e talvez grande, principiou em Frana pelas gals e
acabou em Inglaterra pela forca. Dada a ocasio, Barthlemy arvorava uma s
bandeira  a preta.



    II
    Que se h-de fazer no abismo, seno conversar?



     Eram decorridos dezasseis anos passados na subterrnea educao da revolta,
de que Junho de 1848 sabia muito mais do que Junho de 1832. Assim,, pois a
barricada da rua da Chanvrerie era apenas um esboo e um embrio, comparada
com as duas barricadas colossos que acabamos de esboar, mas para a poca era
terrvel.
     Os insurgentes, vigiados por Enjolras, porquanto Mrio j no olhava para
nada, tinham aproveitado a noite. A barricada havia sido no s reparada, mas
ampliada, elevando-a mais dois ps acima do primitivo nvel. Muitos vares e
ferros cravados nas pedras pareciam lanas enristadas. A frente constava de toda a
espcie de entulho, trazido de todas as partes e ali amontoado.
     O reduto fora inteligentemente reconstrudo; por dentro muralha, por fora
sara.
     Fora reparada a escada de pedras soltas que permitia subir ao cume da
trincheira, como a um muro de cidadela.
     Arrumara-se a barricada, desobstrura-se a loja, arvorara-se a cozinha em
ambulncia, conclura-se o curativo dos feridos, recolhera-se a plvora espalhada
pelo cho e por cima das mesas, fundiram-se balas, fabricaram-se cartuchos,
fizeram-se fios, distriburam-se as armas sem dono, limpara-se o interior do
reduto apanharam-se os destroos, procuraram-se os cadveres.
     Os mortos foram depositados em monto na viela de Mondetour, onde, por
muito tempo, se viu uma mancha avermelhada no stio em que estiveram os
cadveres.
     Entre os mortos havia quatro guardas nacionais do termo, cujos uniformes
Enjolras mandou pr  parte.
     Enjolras aconselhara duas horas de sono, e um conselho de Enjolras era uma
ordem. Contudo, apenas trs ou quatro resolveram segui-lo. Feuilly empregou
essas duas horas na gravura desta inscrio na parede fronteira  taberna: VIVAM
OS POVOS!
     Estas trs palavras, abertas a prego, liam-se ainda naquela parede, em 1848.
     As trs mulheres tinham aproveitado a folga da noite para desaparecer de vez,
o que fazia respirar os insurgentes mais  vontade.
     Tinham achado meio de se refugiarem em alguma casa prxima.
     A maior parte dos feridos podiam e queriam ainda combater.
     Na cozinha, transformada em hospital de sangue, jaziam deitados em
colches e feixes de palha cinco homens, dois dos quais eram guardas municipais;
foram estes os primeiros a quem os insurgentes dispensaram os seus cuidados.
     Na loja s ficara o tio Mabeuf coberto com o xaile preto e Javert amarrado ao
poste.
     - Aqui  a casa dos mortos - disse Enjolras.
     No interior desta casa, apenas alumiada por uma nica vela, l ao fundo,
ficava a mesa morturia por trs do poste como uma travessa horizontal, de sorte
que de Javert em p e de Mabeuf deitado resultava uma grande cruz vaga.
     A lana do omnibus, conquanto quebrada pelas balas, era ainda bastante
grande para se lhe poder iar uma bandeira.
     Enjolras, que possua as qualidades de um chefe, executando sempre o que
dizia, pendurou no resto da lana o casaco furado e ensanguentado do velho
morto.
     Era impossvel a menor refeio. No havia ali nem po nem carne. Os
cinquenta homens da barricada achavam-se ali havia dezasseis horas, tendo,
durante esse tempo, acabado as parcas provises da casa de pasto. Chegada a
ocasio, toda a barricada que resiste se torna inevitavelmente em jangada de
Medusa. Foi necessrio, resignarem-se  fome. Estava-se nas primeiras horas desse
dia esparciata de 6 de Junho, em que, na barricada de Saint-Merry, Jeanne,
rodeado de insurgentes que pediam po, a todos os combatentes que gritavam:
Queremos comer! ele respondia: Para qu? So trs horas, s quatro estaremos
todos mortos! Como, pois, j no havia que comer, Enjolras proibiu que algum
bebesse vinho, permitindo apenas a aguardente, que foi distribuda em raes.
     Na adega foram encontradas umas quinze garrafas, hermeticamente lacradas,
que Enjolras e Combeferre examinaram. Quando; Combeferre subiu, disse:
     - Isto so bens antigos do tio Hucheloup, que principiou por droguista.
     - Deve ser verdadeiro vinho - atalhou Bossuet. Ainda bem que Grantaire
dorme, quando no havia de custar a salvar-lhe das garras todas essas garrafas!
     Enjolras, apesar dos murmrios, ps o seu veto sobre as quinze garrafas, e
para que ningum lhes tocasse, como se fossem coisa sagrada, mandou-as pr em
cima da mesa em que jazia o tio Mabeuf.
     Pelas duas horas depois da meia-noite, houve uma chamada e verificou-se
serem ainda trinta e sete os insurgentes.
     Principiava a despontar o dia. Acabavam de apagar o archote, que tornara a
ser colocado no seu alvolo de pedras. O interior da barricada, espcie de pequeno
ptio feito na rua, jazia imerso em trevas e assemelhava-se, atravs do vago horror
crepuscular, ao convs de um navio abandonado. Os combatentes pareciam vultos
negros movendo-se de um para outro lado. Por cima deste temeroso ninho de
sombras, desenhavam-se lvidamente os andares das casas silenciosas, no alto das
quais principiavam a distinguir-se as chamins, tingidas de uma cor lvida. O cu
apresentava esse cambiante indeciso e cheio de encanto, que tanto se pode dizer
branco como azul. Os pssaros comeavam a esvoaar, soltando gritos alegres. A
casa alta que formava o fundo da barricada, como ficava voltada para o Oriente,
reflectia no telhado um claro cor-de-rosa. No postigo do terceiro andar via-se
ainda a cabea pendida do homem morto por Le Cabuc, com os grisalhos cabelos
agitados pela virao da manh.
     - Estou satisfeitssimo por ver o archote apagado - dizia Courffeyrac a Feuilly.
- J estava farto de ver aquele archote aoitado pelo vento. Parecia que estava com
medo! A luz dos archotes  como a prudncia dos cobardes: alumia mal, porque
treme.
     O alvorecer do dia desperta os espritos do mesmo modo que as aves; por
isso, todos conversavam.
     Joly, ao ver um gato em cima de um telhado, ps-se a fazer filosofia.
     - Que  o gato? - exclamava ele. -  um correctivo. Deus fez o rato, porm
depois arrependeu-se e disse: Ora, fiz uma asneira! E fez o gato. O gato  a
errata do rato. O gato e o rato so a prova revista e correcta da criao.
     Combeferre, rodeado de estudantes e operrios, falava dos mortos, de Joo
Prouvaire, Bahorel, Mabeuf, e at de Le Cabuc e da tristeza severa de Enjolras.
     - Harmodio e Aristogiton - dizia ele - Bruto, Chras, Stephano, Cromwell,
Carlota Corday e Sand, todos tiveram, depois do golpe o seu momento de
angstia. O nosso corao  to vacilante, a vida humana um tal mistrio, que
ainda num assassnio cvico, num assassnio libertador, se os h, o remorso de ter
ferido um homem excede o prazer de ter sido til ao gnero humano.
     E, apenas um instante depois disto, Combeferre, por uma transio suscitada
pelos versos de Joo Prouvaire, com essa volubilidade de assuntos peculiar aos que
conversam, fazia o paralelo dos tradutores das Gergias, comparando Raux com
Cournaud, Cournaud com Delille, apontando algumas passagens traduzidas por
Malfiltre, especialmente os prodgios da morte de Csar, palavra que fazia voltar
o assunto da conversa outra vez para Bruto.
     - Csar - dizia Combeferre - caiu porque devia cair, Ccero foi severo com
Csar, mas no sem razo. A severidade de Ccero no era a diabrite. Quando
Zoilo insulta Homero, quando Mevio insulta Virglio quando Vise insulta
Molire, quando Pope insulta Shakespeare, quando Freron insulta Voltaire, isto
no  mais do que a execuo de uma antiga lei de inveja e dio; os gnios atraem
a injria, os grandes homens so sempre mais ou menos mordidos. Porm, Zoil e
Ccero so duas entidades diversas.
     Ccero  um justiceiro pelo pensamento, do mesmo modo que Bruto  um
justiceiro pela espada. Pela parte que me pertence, censuro este modo de fazer
justia pela espada porm a antiguidade admitia-o. Csar, violador do Rubicon,
conferindo, como senhor supremo, as dignidades que procediam do povo, no se
levantando  entrada do senado, fazia, como diz Eutropio, coisa de rei e quase de
tirano, regia ac pesrfe tyrannica. Era um grande homem, feliz ou infelizmente; a
lio  mal elevada.
     Comovem-me menos as vinte e trs feridas que ele recebeu do que o escarro
na fronte de Jesus Cristo Csar  apunhalado pelos senadores; Cristo 
esbofeteado pelos lacaios. Pelo excesso do ultraje, conhece-se o Deus.
     Bossuet, ao alto de um monte de pedras, de onde dominava o grupo dos que
conversavam, exclamava, ao mesmo tempo, agitando a clavina que tinha na mo:
     -  Cydatheneo,  Myrrhino,  Probalyntho, graas da Aeantide! Ah, quem
me dera pronunciar os versos de Homero como um grego de Laurio ou de
Edapton!



    III
    Luz e sombra



     Enjolras tinha sado em reconhecimento pela viela de Mondtour, cosendo-se
com a parede das casas para no ser pressentido.
     Os insurgentes - devemos confess-lo  estavam cheios de esperana. O modo
como haviam repelido o ataque nocturno fazia-lhes quase ligar pouca importncia
ao ataque que deveria ter lugar de madrugada.
     Os insurgentes, pois, esperavam e sorriam, certos do seu bom resultado,
como o estavam da causa, por cujo respeito opunham o peito s balas. Alm disto,
era evidente que no tardariam a ser socorridos, socorro com que firmemente
contavam. Em virtude dessa facilidade de profecia triunfal, que  uma das foras
do francs combatendo, eles dividiam em trs fases infalveis o dia que no
tardaria a principiar: s seis horas, aderiria ao movimento dos insurgentes um
regimento de antemo apalavrado; ao meio-dia, rebentaria a insurreio em toda
a cidade; ao pr-do-sol teria lugar a revoluo.
     A este tempo ouvia-se ainda o sino de Saint-Merry, que desde a vspera se
no tinha calado um instante, tocando a rebate, o que provava que a outra
barricada, a grande, a de Jeanne, continuava a resistir.
     Todas estas esperanas se transmitiam de um a outro grupo, com certo ar de
mistrio galhofeiro, mas terrvel, que se assemelhava ao zunido de uma colmeia
em guerra.
     Passado algum tempo, tornou a ver-se Enjolras, de volta da sua sombria
digresso de guia por entre a escurido exterior. Quedou-se um instante,
escutando toda aquela alegria, de braos cruzados e com uma mo na boca, e em
seguida exclamou, fresco e rosado no meio da crescente claridade da madrugada:
     - A tropa de Paris est toda em armas. A tera parte pesa sobre a barricada em
que estamos. J no falo na guarda nacional. Acabo agora mesmo de avistar as
barretinas do 5. de linha e os estandartes da sexta legio. Dentro de uma hora
seremos atacados. Quanto ao povo estava ontem em efervescncia, porm hoje
no se mexe.
     No h que esperar, no podemos contar com ningum, nem com povo nem
com tropa! Estamos abandonados!
     Estas palavras, cadas sobre o zunido dos grupos, produziram neles o mesmo
efeito que produz num enxame a primeira gota de gua da tempestade.
Emudeceram todos. Seguiu-se quelas palavras um instante de inexprimvel
silncio, durante o qual se teria ouvido o esvoaar da morte.
     Esse instante, porm, durou pouco.
     Do fundo mais obscuro dos grupos elevou-se uma voz e disse para Enjolras:
     - Embora! Elevemos a barricada a vinte ps de altura e morramos todos nela!
     Cidados, faamos o protesto dos cadveres. Mostremos que, se o ovo
abandona os republicanos, os republicanos no abandonam o povo!
     Estas palavras tiveram a virtude de desligar da penosa nuvem das ansiedades
individuais o pensamento de todos, sendo acolhidas por uma entusistica
aclamao.
     Nunca se soube o nome do homem que assim falou; foi talvez algum
ignorado operrio, algum desconhecido, algum esquecido, algum viandante heri,
esse grande annimo sempre aliado s crises humanas e aos gnesis sociais, que,
na ocasio oportuna, profere de um modo supremo a frase decisiva, sumindo-se
nas trevas, depois de ter representado um instante,  luz de um relmpago, o povo
e Deus.
     Esta resoluo inexorvel andava por tal modo espalhada na atmosfera do dia
6 de Junho de 1832, que, quase  mesma hora, levantavam os insurgentes da
barricada de Saint-Merry o seguinte brado, que foi consignado no processo e
depois se tornou histrico:
     - Quer venha algum socorrer-nos, quer no venha,  o mesmo! Resistamos
at ao derradeiro!
     Como se v, as duas barricadas comunicavam-se, Se bem que materialmente
isoladas.



    IV
    Cinco de menos, um de mais



     Apenas o desconhecido, que decretara o protesto dos cadveres, acabou de
falar, dando a frmula da alma comum, saiu de todas as bocas um brado de
terrvel satisfao, fnebre pelo sentido e triunfal pela entoao:
     - Viva a morte! Morramos aqui todos!
     - Todos para qu? - disse Enjolras.
     - Todos, todos!
     Enjolras prosseguiu:
     - A posio da barricada no pode ser melhor. Trinta homens bastam para a
defender. Por consequncia, para que sacrificar quarenta?
     - Porque nenhum de ns daqui quer sair!  replicaram eles.
     - Cidados! - exclamou Enjolras com voz em que se notava certo tremor
quase irritado. - No  a repblica to rica, que possa dispender homens
inutilmente. A vanglria  um desperdcio. Se o dever de alguns  retirar-se,
devem cumpri-lo, como cumpririam qualquer outro.
     Enjolras, o homem-princpio, dominava os seus correligionrios por essa
espcie de omnipotncia que d o absoluto; porm, no obstante essa
omnipotncia, houve murmrios.
     Chefe, porm, no rigor da palavra, Enjolras, ao ver que os insurgentes, longe
de obedecer, murmuravam, insistiu, prosseguindo com altivez:
     - Os que receiam ser s trinta declarem-no!
     A este dito de Enjolras cresceram os murmrios.
     - E, quanto mais - atalhou uma voz que se elevou do meio de um grupo quem
 que pode sair, estando a barricada cercada, como est? Diz-lo pouco custa!
     - Do lado dos Mercados no est cercada a barricada - replicou Enjolras. -
Acha-se livre a viela de Mondtour; portanto, indo-se pela rua dos Pregadores,
pode chegar-se at ao mercado dos Inocentes sem dificuldade.
     - Sim - tornou outra voz do meio de um grupo - para a gente a chegar e ser
agarrada por algum piquete de tropa de linha ou de guardas nacionais, que, ao
verem passar um homem de blusa e bon, perguntar-lhe-o: De onde vens? Sers
tu dos da barricada? Deixa ver as mos! Cheiram a plvora. Fuzilemo-lo!
Enjolras, em vez de responder, tocou no ombro de Combeferre e entraram ambos
para dentro da loja.
     Um instante depois, tornaram a sair. Enjolras trazia nas mos os quatro
uniformes que mandara guardar; Combeferre seguia-o, trazendo as correias, e as
barretinas.
     - Fardados com isto - disse Enjolras  podem confundir-se com os da guarda
nacional e escapar. Aqui est para quatro.
     E atirou ao cho os quatro uniformes.
     O estico auditrio, porm, ficou imvel.
     Combeferre tomou a palavra:
     - Vamos - disse ele -  necessrio ter alguma piedade. Sabem de quem aqui se
trata? Trata-se das mulheres. Vejamos. Tm vocs ou no tm mulheres? No tm
filhos? No tm mes, que com o p embalam o bero de uma criana e se vm
rodeadas de um magote delas? Levante o brao aquele de entre vs que ainda no
viu o seio de uma me. Ah, querem morrer? Tambm eu; porm eu, que vos estou
falando, no quero sentir  roda de mim fantasmas de mulheres torcendo os
braos.! Morrei, embora, se assim o quereis, mas no causeis a morte! Suicdios
como o que aqui no tardar a ter lugar so sublimes, mas o suicdio que envolve
o prximo toma o nome de assassnio! Lembrai-vos das cabecinhas louras e dos
cabelos brancos! Escutai o que me disse h pouco Enjolras: ao passar pela esquina
da rua do Cisne, disseme ele que avistara luz na janela de um quinto andar e nos
vidros a trmula sombra de uma cabea de mulher velha, que parecia ter esperado
toda a noite. Talvez seja a me de algum de vs! Pois bem, retire-se esse e
apresse-se em ir dizer  pobre mulher: Aqui me tem, minha me! Pode ir
descansado, porque tudo se far como se ele aqui estivesse. Quando o nosso
trabalho  o amparo dos nossos, no temos direito a sacrificar-nos. Semelhante
proceder seria o mesmo que desertar da famlia! E os que tm filhos?
     Os que tm irmos?! Pois no pensais nisso? Quereis morrer; est muito bem,
morrei; mas amanh? Raparigas sem po  uma terrvel coisa! O homem mendiga,
a mulher vende-se! Oh, meu Deus, pois esses entes to graciosos e to meigos, que
andam to honestamente vestidos, que enchem a casa de castidade, que cantam e
tagarelam, que so uma espcie de perfume animado, que provam a existncia dos
anjos no cu pela pureza das virgens na terra, essa Joana, essa Lse, essa Mimi,
essas adorveis e honestas criaturas que fazem a vossa felicidade e o vosso
orgulho, deixareis que elas sintam a fome! Quereis que vos diga? Existe um
mercado de carne humana, e no ser, por certo, com as vossas mos de espectros
que as impedireis de entrar nele. Lembrai-vos da rua por onde transitam
inmeros passeantes, das lojas, em frente das quais passam mulheres decotadas e
descalas. Tambm j foram puras essas mulheres!
     Lembrem-se de suas irms aqueles que as tm. A misria, a prostituio, a
cadeia, o hospital, eis onde vo cair essas delicadas jovens, essas frgeis maravilhas
de pudor, de beleza e graa, mais frescas que os lilases no ms de Maio! Ah,
desejastes morrer; muito bem. Quisestes subtrair o povo  realeza e entregastes
vossas filhas  polcia!
     Amigos, por quem sois, no vos recuseis a ser compassivos para com as
mulheres, as desventuradas mulheres, que esto pouco afeitas a ver-se lembradas!
Dizem que as mulheres no receberam a educao dos homens, no as deixam ler,
no as deixam pensar, no as deixam ocupar-se da poltica: tambm as impedireis
de ir ao depsito reconhecer os vossos cadveres? Vamos;  necessrio que os que
tm famlia sejam bons rapazes, se despeam de ns e vo embora, deixando o
mais por nossa conta.
     Bem sei que  preciso coragem para isso, que  difcil; porm quanto mais
difcil for, mais meritrio ser. Dir-me-eis: Tenho uma arma, estou na barricada,
e, por conseguinte, no me vou embora. Isto  bom de dizer. Lembrai-vos, meus
amigos, que h um amanh, que no alvorecer para vs, mas alvorecer para as
vossas famlias, escuro e cheio de sofrimentos. Sabeis o que vem a acontecer 
galante criancinha robusta, sadia, corada, tagarela, galhofeira, que se v
abandonada? Falar-vos-ei de uma que, uma ocasio, vi. Morrera-lhe o pai.
Tomaram conta dela, por caridade, uns pobres, que nem para si tinham po. Era
de Inverno, mas ela, apesar disso e de andar sempre morta com fome, nunca
chorava. Viam-na chegar ao p do fogo, em que nunca se acendia lume, e que era
feito, como sabeis, de barro; a criana arrancava-lhe com os tenros dedinhos
alguns pedaos e comia-os. Tinha a respirao rouca, as faces lvidas, as pernas
trmulas, o ventre inchado. Nunca proferia a menor palavra. Se algum lhe falava,
no respondia. Transportaram-na para o hospcio de Necker, onde eu era interno,
e l morreu. Agora, se entre vs h pais que faam consistir a sua felicidade em
sair a passear com seus filhinhos pela mo, imagine cada qual que este filho  o
seu. Ainda me lembro; quando o puseram em cima da mesa da aula de anatomia,
as costelas formavam umas salincias por baixo da pele, como as sepulturas por
baixo da erva de um cemitrio. Feita a autpsia, encontrou-se-lhe uma espcie de
lama no estmago e os dentes cheios de cinza!  vista disto, metamos a mo na
cons-
     cincia e aconselhemo-nos com o corao. As estatsticas provam que a
mortalidade das crianas abandonadas  de cinquenta e cinco por cento. Repito,
trata-se das mulheres, das mes, das jovens, das crianas. Porventura, fala algum
de vs? Bem sabemos quem vs sois; por Deus! bem sabemos que sois todos uns
bravos; bem sabemos que todos tendes na alma a alegria e a glria de dar a vida
pela grande causa; bem sabemos que vos sentis eleitos para morrer til e
magnificamente, e que cada um de vs tem parte no triunfo! Ainda bem! Porm
no sois ss no mundo. H outros entes em quem deveis pensar. No queirais ser
egostas!
     Todos curvaram a cabea com aspecto sombrio.
     Estranhas contradies do corao humano nestes sublimes momentos!
Combeferre, que falava daquele modo, no era rfo. Lembrava-se do que deviam
sofrer as mes dos outros e olvidava a sua. Queria morrer sem reflectir que
tambm era egosta! Mrio, em jejum, febril, perdendo sucessivamente todas as
esperanas, encalhado na dor, o mais sombrio dos naufrgios, saturado de
emoes violentas e sentindo adivinhar-se o fim, cada vez mais se embrenhava
nesse torpor visionrio que precede sempre a hora fatal voluntariamente aceita.
     Um fisiologista teria podido estudar nele os crescentes sintomas da absoro
febril conhecida e classificada pela cincia, a qual  para o sofrimento, o que a
voluptuosidade  para o prazer. O desespero tem tambm o seu xtase. Mrio
chegara a este ponto e assistia a tudo parecendo estar de fora; como dissemos, as
coisas que ocorriam na sua presena pareciam-lhe longnquas; avistava o todo,
mas no distinguia os pormenores. Via os movimentos de uns e outros como
atravs de chamas; ouvia-lhes as vozes como vindas do fundo de um abismo.
     Entretanto, o episdio que acabamos de ver, comoveu-o. Houve naquela cena
uma ponta que o picou e que o fez acordar. No tinha seno uma ideia, morrer, e
no queria distrair-se dela; mas pensou no meio do seu fnebre sonambulismo,
que perdendo-se no lhe era defeso salvar algum.
     - Enjolras e Combeferre tm razo - disse ele, erguendo a voz - nada de
sacrifcios inteis. Junto a minha voz s suas;  necessrio no haver demora. O
que Combeferre vos disse  decisivo. H entre vs quem tenha famlia, me,
irmos, esposa e filhos.
     Esses, que saiam das fileiras.
     Ningum se moveu.
     - Os homens casados e os que sustentam famlia, fora das fileiras! - repetiu
Mrio.
     A sua autoridade era grande. Enjolras era chefe da barricada, mas Mrio era o
seu salvador.
     - Ordeno-o! - gritou Enjolras.
     - Suplico-lhe! - disse Mrio.
     Ento aqueles homens hericos, abalados pelas palavras de Combeferre,
assustados pela ordem de Enjolras, comovidos pela splica de Mrio, comearam
a denunciar-se uns aos outros.
     -  verdade,  - dizia um rapaz a um homem j feito - tu s pai de famlia,
vai-te embora.
     - Vai tu antes, que sustentas duas irms.
     E comeava a patentear-se uma luta inaudita. Era a quem maior esforo
empregaria para no ser posto fora da porta do tmulo.
     - Despachemo-nos - disse Courffeyrac - daqui a um quarto de hora j ser
tarde.
     - Cidados - prosseguiu Enjolras - aqui est a repblica, reina o sufrgio
universal. Designem por si mesmos os que devem retirar-se.
     Obedeceram. Passados cinco minutos estavam cinco unanimemente
designados e saam das fileiras.
     - So cinco! - exclamou Mrio.
     No havia seno quatro fardamentos, - Nesse caso - disseram os cinco a uma
voz  preciso que fique um.
     E cada qual comeou a achar nos outros razes para no deverem ficar.
     Recomeou a generosa disputa.
     - Tu tens uma mulher extremosa.
     - Tu tens tua me j muito velha.
     - Tu j no tens pai nem me, o que ser dos teus trs irmos, que so to
pequenos?
     - Tu s pai de cinco filhos.
     - Tu tens direito de viver; aos dezassete anos  muito cedo.
     Estas grandes barricadas revolucionrias eram centros de herosmo. O
inverosmil ali tornava-se simples.
     Aqueles homens no causavam admirao uns aos outros.
     - Decidam depressa! - repetia Courffeyrac.
     Dois diferentes grupos gritavam a Mrio:
     - Designe o senhor quem deve ficar.
     - Sim, sim, escolha - disseram os cinco - obedeceremos.
     Mrio j no acreditava na possibilidade de sentir uma comoo. Contudo,
em presena da ideia de escolher um homem para morrer, todo o sangue lhe
refluiu ao corao. Teria empalidecido, se isso lhe fosse possvel.
     Dirigiu-se para os cinco, que o olhavam sorrindo-se, e cada um,, com os
olhos iluminados por essa grande chama que se avista nas Thermopilas, lhe
gritavam:
     - Eu, eu, eu!
     E Mrio, estupidamente, contou-os; continuavam a ser cinco!
     Depois baixou a vista para os quatro fardamentos.
     Neste momento, um quinto fardamento caiu, como que do cu, sobre os
outros quatro.
     O quinto homem estava salvo.
     Mrio abriu os olhos e logo se lhe deparou o senhor Fauchelevent.
     Joo Valjean acabava de entrar na barricada.
     Ou porque se houvesse informado, ou por instinto, ou por acaso, fora pela
rua Mondtour. Graas ao seu uniforme de guarda nacional, passara sem
dificuldade.
     A vedeta postada pelos insurgentes na rua Mondtour no dera sinal de
alarme, por causa de um s guarda nacional. Deixara-o internar-se na rua,
dizendo:
     -  provavelmente um reforo, e quando menos um prisioneiro.
     A ocasio era demasiadamente grave para que a sentinela pudesse distrair-se
do seu dever e do seu posto de observao.
     No momento em que Joo Valjean entrara no reduto, ningum dera por ele,
porque todas as vistas estavam fitas nos cinco escolhidos e nas cinco fardas. Joo
Valjean vira e ouvira tudo e, silenciosamente, despira a farda e lanara-a para o
lugar em que estavam as outras.
     A sensao foi indescritvel.
     - Quem  aquele homem? - perguntou Bossuet.
     -  um homem que salva os outros  respondeu Combeferre.
     Mrio acrescentou com voz grave:
     - Conheo-o.
     Esta fiana satisfez todos.
     Enjolras voltou-se para Joo Valjean e exclamou:
     - Cidado, seja bem-vindo!
     E acrescentou:
     - Sabe que no tardaremos todos a morrer?
     Joo Valjean, sem responder, ajudou o insurgente a quem salvara, a vestir a
sua farda.



    V
    O horizonte que se avista do alto de uma barricada



     A situao de todos, naquela hora fatal e naquele lugar inexorvel, tinha
como resultante e como auge a suprema melancolia de Enjolras.
     Enjolras era a plenitude da revoluo, sem, todavia, deixar de ser incompleto,
at o ponto que o pode ser o absoluto; participava demasiado de Saint Just e de
Anacharsis Clootz menos que o suficiente: o seu esprito, porm, no meio da
sociedade dos Amigos do ABC, viera, por ltimo, a sofrer uma magnetizao das
ideias de Combeferre; havia algum tempo que ele saa das estreitas formas do
dogma e abraava as dilataes do progresso, at, por ltimo, chegar a aceitar,
como evoluo definitiva e magnfica, a transformao da grande repblica
francesa em imensa repblica humana. Pelo que respeita aos meios imediatos,
dada uma situao violenta, queria que os meios tambm fossem violentos; era a
sua opinio invarivel, opinio pela qual se v que o mancebo pertencia  pica e
terrvel escola resumida pela nica palavra:
     Noventa e trs.
     Achava-se Enjolras de p, no alto da barricada, com um dos cotovelos
apoiado no cano da sua clavina. Meditava. De espao a espao estremecia, como
ao contacto de algum desconhecido sopro. As manses da morte produzem destes
efeitos de tripea.
     Ao ver-lhe os olhos cheios da intuio ntima, dir-se-ia que saam deles uns
como fogos abafados. De repente, o mancebo levantou a cabea, deitando para
trs os louros cabelos, como o anjo na sombria quadriga formada de estrelas ou
leo que eria a juba em flamejar de aurola, e exclamou:
     - Cidados! Acaso imaginais o que h-de vir a ser o futuro? Eu vo-lo digo.
Sero as ruas das cidades inundadas de luz, os ramos verdes nos limiares das
portas, as naes irms, os homens justos, os velhos abenoando as crianas, o
passado amando o presente, os pensadores em completa liberdade, os crentes em
plena igualdade, o cu como religio. Deus sacerdote directo, a conscincia
humana transformada em altar, o termo dos dios, a fraternidade entre a oficina e
a escola, por penalidade e recompensa a notoriedade, para todos o trabalho, para
todos o direito, a paz sobre todos, o termo das guerras, o fim das violncias, a
felicidade das mes; eis o que ser o futuro! O primeiro passo  subjugar a matria,
o segundo realizar o ideal. Reflecti no que o progresso j tem feito. Noutro tempo,
as primeiras raas humanas viam com terror passar por diante de si a hidra
soprando sobre as guas, o drago vomitando chamas, o grifo, que era o monstro
do ar, voando com asas de guia e garras de tigre; animais terrveis, superiores ao
homem. O homem, porm, armou os seus laos, os sagrados laos da inteligncia,
e conseguiu, afinal, apanhar neles os monstros. A hidra j a subjugmos, e
chama-se vapor; j subjugmos o drago, que se chama locomotiva; e estamos em
vsperas de subjugar o grifo, que j temos seguro, e que se chama balo.
      No dia em que terminar esta obra prometeana e em que o homem tiver
definitivamente ligada  sua vontade a trplice Quimera antiga, a hidra, o drago e
o grifo, ficar senhor da gua, do fogo e do ar, e ser para o resto da criao
animada o que, outrora, eram para ele os antigos deuses. nimo e avante!
Cidados! Para onde vamos? Que destino  o nosso? A cincia feita governo, a
fora das coisas tornada nica fora pblica, a lei natural com a sua sano e a sua
penalidade em si mesma, e promulgando-se pela evidncia; um alvorecer de
verdade correspondente ao alvorecer do dia. O nosso destino  a unio dos povos;
a unidade do homem. Basta de fices e de parasitas. A realidade governada pela
verdade, eis o alvo. A civilizao ter o seu tribunal no cume da Europa, e mais
tarde, no centro dos continentes, num grande parlamento formado pela
inteligncia. J no  caso novo. Os anficties tinham duas sesses por ano, uma
em Delfos, sede dos deuses, outra nas Thermopylas, sede dos heris. A Europa
ter tambm os seus anficties; t-los- o globo;  a Frana que traz no seio este
futuro sublime. Eis qual  a gestao do sculo XIX. O que a Grcia apenas
esboou  digno de ser concludo pela Frana. Escuta-me tu, Feuilly, valoroso
operrio,homem do povo, homem dos povos! Venero-te! Sim, tu vs claramente
os tempos por vir; sim, tu tens razo. No tinhas pai nem me, mas adoptaste por
me a humanidade, por pai o direito, e por eles vais morrer aqui, isto , triunfar.
Cidados, acontea hoje o que acontecer, ou sejamos derrotados ou fiquemos
vencedores,  uma revoluo que vamos fazer! Assim como os incndios alumiam
uma cidade inteira, as revolues alumiam todo o gnero humano. Que revoluo
faremos? Ainda agora o disse - a revoluo da verdade. Politicamente falando, no
h mais do que um princpio - a soberania do homem sobre si mesmo. Essa
soberania de mim e sobre mim chama-se Liberdade. Onde duas ou mais destas
soberanias se associam principia o Estado. Nesta associao, porm, no se d
abdicao de qualidade nenhuma. Cada sobe rania concede certa quantidade de si
mesma para for mar o direito comum, quantidade que no  maior para uns do
que para os outros. Esta identidade de concesso que cada um faz a todos
chama-se Igualdade. O direito comum no  mais do que a proteco de todos
dividida pelo direito de cada um. Esta proteco de todos sobre cada um chama-se
Fraternidade. O ponto de interseco de todas estas soberanias que se agregam
chama-se Sociedade, Ora, sendo essa interseco uma juno, por consequncia
esse ponto  um n. Daqui vem o que ns chamamos lao social. Dizem alguns
contrato social, o que vem a ser o mesmo, visto que a palavra contrato 
etimologicamente formada com a ideia de lao. Vejamos agora O que  a
igualdade, pois se a liberdade  o cume, a igualdade  a base. A igualdade,
cidados, no  o nivelamento de toda a vegetao; uma sociedade de grandes
cnulas de erva e pequenos carvalhos; um tecido de invejas; , civilmente, a
admisso de todas as aptides; politicamente, o mesmo peso para todos os votos.
A igualdade tem um rgo; a instruo gratuita e obrigatria. Principie-se pelo
direito ao alfabeto, seja a lei a escola primria imposta a todos, a escola secundria
oferecida a todos. Da escola idntica sai a sociedade igual. Sim, instruo! Luz e
mais luz! Tudo vem da luz e para ela volta! Cidados, o sculo XIX  grande, mas
o sculo XX ser venturoso, porque ento no haver nada parecido com a
histria antiga; no haver a temer, como hoje, uma conquista, uma invaso, uma
usurpao, uma rivalidade de naes  mo armada, uma interrupo de
civilizao dependente de um casamento de reis, um nascimento nas tiranias
hereditrias, uma partilha de povos por meio de um congresso, um
desmembramento por desabamento de dinastia, um combate entre duas religies
encontrando-se de frente, como dois bodes da sombra na ponte do infinito; no
haver a temer a fome, a especulao, a prostituio resultante da misria, a
misria resultante da falta de trabalho, o cadafalso, a espada, as batalhas e todos os
latrocnios do acaso na floresta dos acontecimentos. Quase se pode dizer que para
ento no haver acontecimentos. Sero felizes todos. O gnero humano cumprir
a sua lei, como o globo cumpre a sua; restabelecer-se- a harmonia entre a alma e
o astro; a alma gravitar em roda da verdade como o astro em volta da luz.
Amigos, a hora em que estamos e em que vos falo  uma hora sombria, mas  por
este preo que se compra o futuro. Uma revoluo  um direito de portagem que
se paga. Oh, a humanidade h-de ser libertada, exaltada, consolada!
Afirmamos-lho ns nesta barricada. De onde se soltar o grito de amor, a no ser
do alto do sacrifcio?  meus irmos,  este o lugar de juno dos que pensam e
dos que padecem; esta barricada no  feita nem, de pedras, nem de traves, nem
de ferro;  feita de dois montes - um de ideias e outro de dores - nos quais a
misria se choca com o ideal e o dia abraa a noite, dizendo-lhe: Eu vou morrer
contigo e tu vais renascer comigo. Do abrao de todas as angstias resulta a f.
Os sofrimentos vm aqui trazer a sua agonia e as ideias a sua imortalidade. Essa
agonia e essa imortalidade no tardaro a confundir-se para formar a nossa morte.
Irmos, quem aqui morre, morre na irradiao do futuro, e o tmulo em que
vamos entrar  inundado pelos clares de uma aurora plena!
    Chegado aqui, Enjolras calou-se, ou antes, interrompeu-se, porque ficou
bulindo com os lbios em silncio, como se continuasse falando consigo mesmo, o
que fez com que os insurgentes o contemplassem atentos para ainda o ouvirem.
No houve aplausos, porm por muito tempo ficaram uns com outros
segredando. A palavra  um sopro; por isso o rumorejar das inteligncias  um
como rumorejar de folhas.



    VI
    Mrio desvairado, Javert, lacnico



      Vejamos o que se passava no esprito de Mrio.
      Recordemo-nos da situao da sua alma. Como h pouco ainda fizemos ver,
aos olhos dele era tudo mera viso. No seu estado, era-lhe impossvel qualquer
exacta apreciao do que via. Mrio, repetimos, achava-se sob a sombra das
grandes e tenebrosas asas que se abrem sobre os agonizantes. Sentia-se entrado no
tmulo, parecia-lhe que j se achava do outro lado da parede, que j no via os
rostos dos vivos seno com os olhos de um morto.
      Como  que Fauchelevent ali se achava? Que motivo o trouxera? Que vinha
ali fazer? Mrio nem uma s destas perguntas dirigiu a si mesmo.  que a nossa
desesperao tem a particularidade de envolver os outros to completamente
como a ns mesmos, e por isso Mrio achava lgico que todos quisessem morrer.
      Pensando, porm, em Cosette, sentiu apertar-se-lhe o corao.
      No fim de tudo, o senhor Fauchelevent no lhe falou, no olhou para ele, e at
mostrou no o ouvir, quando ele elevou a voz para dizer:
     - Conheo-o.
     Quanto a Mrio, sentia-se aliviado por aquela atitude do senhor
Fauchelevent; e, se pudesse empregar-se uma tal palavra para semelhantes
impresses, diramos, agradava-lhe. Tinha sempre sentido a mais absoluta
impossibilidade de dirigir a palavra quele homem enigmtico, que era para ele,
ao mesmo tempo equvoco e majestoso.
     Alm disto, havia muito tempo que o no via, o que para a natureza tmida e
reservada de Mrio aumentava ainda a impossibilidade.
     Os cinco homens designados saram da barricada pelo beco Mondtour,
perfeitamente semelhantes a guardas nacionais. Um deles ia chorando. Antes de
partirem abraaram os que ficavam.
     Depois de se retirarem os cinco homens reenviados para a vida, lembrou-se
Enjolras do condenado  morte, e entrou na loja da taberna. Javert, amarrado ao
poste, estava meditando.
     - Precisas de alguma coisa? - perguntou-lhe Enjolras.
     Javert respondeu:
     - Quando me matam?
     - Espera. Por enquanto precisamos de todos os nossos cartuchos.
     - Ento d-me de beber - disse Javert.
     Enjolras apresentou-lhe pessoalmente um copo de gua; e como Javert estava
amarrado, ajudou-o a beber.
     - Nada mais? - tornou Enjolras.
     - Estou mal neste poste - respondeu Javert. Foram pouco compassivos em me
deixarem passar a noite aqui. Amarrem-me como quiserem, mas deitem-me sobre
uma mesa, como o outro.
     E com a cabea designou o cadver de Mabeuf.
     Havia, como devem lembrar-se, no fundo da casa, uma grande mesa sobre a
qual tinham fundido balas e feito cartuchos. Como os cartuchos estavam todos
feitos e a plvora toda empregada, achava-se desocupada a mesa.
     Por ordem de Enjolras foi Javert desamarrado do poste por quatro
insurgentes.
     Enquanto o desamarravam, conservava-lhe um quinto a ponta da baioneta
apoiada no peito. Deixaram-lhe as mos presas atrs das costas, ataram-lhes nos
ps uma corda delgada mas forte, que lhe permitia dar passos de quinze polegadas
como os dos que sobem para o cadafalso, e fizeram-no caminhar at  mesa do
fundo da casa, onde o estenderam, estreitamente ligado pelo meio do corpo.
     Para maior segurana, por meio de uma corda presa ao pescoo, ampliaram o
sistema de ligaduras que lhe tornava impossvel toda a espcie de evaso, com o
lao, denominado nas prises gamarra, que parte da nuca, se bifurca sobre o
estmago e vem prender as mos depois de ter passado por baixo das pernas.
     Enquanto estavam amarrando Javert, apareceu no limiar da porta um
homem, que o observava com singular ateno. A sombra produzida por este
homem fez voltar a cabea a Javert, o qual, erguendo os olhos, reconheceu Joo
Valjean. Javert nem sequer estremeceu, baixou altivamente a vista e limitou-se a
dizer:
     -  uma coisa simples.



    VII
    Agrava-se a situao



     O dia caminhava rapidamente. Mas nem uma janela se abria, nem uma porta
se descerrava; era a aurora, mas no o despertar. A extremidade da rua da
Chanvrerie oposta  barricada fora evacuada pelas tropas, como j dissemos;
parecia desimpedida e aberta aos transeuntes com sinistra tranquilidade. A rua de
S. Diniz estava muda como a Avenida das Esfinges em Tebas. No se via vivalma
nas encruzilhadas aclara-das pelo reflexo do Sol. No h nada to lgubre como a
claridade das ruas desertas.
     No se via coisa alguma, mas ouvia-se. Em certa distncia havia um
movimento misterioso. Era evidente que se aproximava o instante crtico. Como
na vspera  noite, recolheram as vedetas, mas desta vez todas.
     A barricada estava mais forte do que na ocasio do primeiro ataque. Depois
da partida dos cinco, tinham-na alteado ainda mais.
     Enjolras, seguindo a opinio da vedeta que observava a regio dos Mercados,
e com medo de uma surpresa pela retaguarda, tomou uma resoluo grave. Fez
com que se fizesse uma barricada na estreita garganta do beco Mondtour,
desimpedida at ento. Para isso descalou-se mais uma poro de rua. Deste
modo, a barricada, murada sobre trs ruas, na frente a da Chanvrerie, na esquerda
as do Cisne e da Pequena Truanderie, e na direita o beco Mondtour, estava
verdadeiramente quase inexpugnvel;  verdade que tambm ali se estava
fatalmente encerrado. Tinha trs frentes, mas nem uma nica sada. Fortaleza,
mas tambm ratoeira, dizia Courffeyrac, rindo.
     Enjolras fez amontoar na frente da porta da taberna um punhado de pedras,
arrancadas de mais, dizia Bossuet.
     O silncio era naquela ocasio to profundo do lado de onde devia vir o
ataque;, que Enjolras fez com que cada um ocupasse imediatamente o seu posto de
combate.
     Neste momento foi distribuda a todos uma rao de aguardente.
     No h nada mais curioso do que uma barricada que se prepara para um
assalto.
     Cada um escolhe um lugar, como no teatro. Escoram-se, encostam-se e
empurram-se.
     Alguns h que improvisam logo um assento de pedras. Depara-se um ngulo
de muro que incomoda, todos se afastam; descobre-se um redente que pode
proteger, todos se abrigam nele. Os canhotos so precisos, ocupam os lugares
incmodos aos outros.
     Muitos dispem-se para combater sentados. Querem estar com comodidade
para matar e comodamente para morrer. Na funesta guerra de Junho de 1848, um
insurgente que tinha uma pontaria temvel, e que se estava batendo num terrao
sobre um telhado, mandara ir para ali uma cadeira  Voltaire; um tiro de metralha
ali mesmo o foi apanhar.
     Apenas o chefe d a voz de chega a postos, cessam todos os movimentos
desordenados, nada mais de incertezas de uns para outros, nem de conversaes,
nem de apartes, nem de grupos separados; tudo o que estia nos espritos converge
e se muda na expectativa do assaltante. Uma barricada antes do perigo  o caos; no
perigo  a prpria disciplina. O perigo produz a ordem.
     Desde que Enjolras pegou na sua carabina e se postou junto de uma espcie
de seteira, que reservara para si, todos se calaram. Ao longo das pedras retiniu
confusamente uma srie de estalidos secos.
     Era o emperrar das espingardas.
     Quanto ao mais as atitudes apresentavam-se mais altivas e mais confiantes do
que nunca; o excesso de sacrifcio  um fortalecimento; j no tinham esperana,
mas tinham desespero. O desespero  a ltima arma, que d algumas vezes a
vitria, disseo Virglio. Os recursos supremos saem das resolues extremas.
Embarcar na morte  muitas vezes o meio de escapar ao naufrgio; e a tampa do
atade transforma-se em tbua de salvao.
     Como na noite da vspera, todas as atenes estavam voltadas, e poder-se-ia
quase dizer, apoiadas, no extremo da rua, agora iluminada e visvel.
     A expectativa no foi muito demorada. O movimento recomeou
distintamente do lado de Saint-Leu, mas no se assemelhava ao do primeiro
ataque. Um rudo de correntes, o balouar inquietador de uma massa, o tinir de
bronze ressaltando na cal- ada, uma espcie de motim solene, anunciaram a
aproximao de sinistra ferramenta.
     Houve um estremecimento nas entranhas daquelas velhas ruas pacficas,
abertas e construdas para a circulao fecunda dos interesses e das ideias, e no
feitas para o monstruoso rodar das rodas de guerra.
     A fixidez dos olhos de todos os combatentes no extremo da rua, tornou-se
feroz.
     Apareceu uma pea de artilharia.
     Os artilheiros empurravam a pea, desengatada do armo; dois sustinham a
carreta, quatro iam s rodas, os mais seguiam o caixo. O morro aceso via-se
fumegar.
     - Fogo! - gritou Enjolras.
     Toda a barricada fez fogo, uma nuvem de fumo cobriu e fez desaparecer a
pea e os artilheiros; passados alguns segundos dissipou-se o fumo e tornou a
aparecer a boca de fogo e os homens; os serventes da pea acabaram de a fazer
rodar para a frente da barricada, vagarosa e correctamente, sem se apressarem.
     Nem um s fora alcanado pela descarga. Em seguida o chefe da pea,
pesando sobre a culatra para elevar o tiro, comeou a pontaria com a gravidade de
um astrnomo, assestando um culo.
     - Bravo, artilheiro! - gritou Bossuet.
     E toda a barricada deu palmas.
     Um instante depois, via-se no meio da rua, assestada contra o reduto dos
insurgentes, a temerosa boca de uma pea de artilharia.
     - Olhem a patusca! - disse Courffeyrac.  Agora o caso  srio! At aqui eram
s piparotes, mas agora esperem-lhe pela volta! O exrcito estende para ns a sua
grande pata, A fuzilaria arranha, mas a artilharia segura!
     -  uma pea de bronze de calibre oito e do novo modelo - acrescentou
Combeferre. - Nesta qualidade de peas, por pouco que se exceda a proporo de
dez partes de estanho por cem de cobre, ficam arriscadas a rebentar, porque o
excesso de estanho torna-as brandas, do que resulta ficarem com cavidades ao
ouvido. Para obviar a este perigo e poder forar a carga, talvez fosse necessrio
recorrer ao processo do sculo XIV, que consistia em cingir exteriormente a pea
com uma srie de arcos os anis de ao sem soldadura, desde a culatra at ao
munho. Entretanto, remedeia-se como  possvel esse defeito, indagando onde
so as cavidades do ouvido por meio da raspadeira. H, porm, outro meio mais
profcuo de chegar ao mesmo fim:  a estrela mvel de Gribeauval.
     - No sculo XVI - atalhou Bossuet - as peas eram raiadas.
     - Eram - respondeu Combeferre, - Essa circunstncia aumenta a fora
balstica, mas diminui a justeza da pontaria. No tiro para pequena distncia, a
trajectria no tem todo o vigor que seria para desejar, exagera-se a parbola, o
caminho do projctil no  suficientemente rectilneo para poder ferir os objectos
intermedirios, o que  uma necessidade no combate, necessidade que aumenta
com a proximidade do inimigo e a precipitao do tiro. Esta falta de tenso na
curva do projctil, que se d nas peas raiadas do sculo XIV, era devida 
fraqueza da carga; necessidade reclamada pelas exigncias da balstica, tais como,
por exemplo, a conservao das carretas. Em suma, a pea de artilharia  uma
espcie de dspota, que no pode quanto quer; a fora  uma grande fraqueza.
Uma bala de artilharia no anda mais que seiscentas lguas por hora, enquanto
que a luz vence setenta mil lguas por segundo. Tal  a superioridade de Jesus
Cristo sobre Napoleo.
     - Tornemos a carregar! - disse Enjolras, De que modo se comportaria o
revestimento da barricada sob o impulso das balas? Abriria brecha? Eis qual era a
questo.
     Enquanto de um lado os insurgentes carregavam de novo as armas,
carregavam os artilheiros do outro lado a pea.
     Profunda ansiedade se via pintada nos rostos dos insurgentes.
     No mesmo instante, os artilheiros chegaram. O morro  pea, ao que se
seguiu uma tremenda detonao.
     - Presente! - exclamou uma voz em tom galhofeiro.
     Era Gavroche, caindo na barricada ao mesmo tempo que a bala.
     Vinha do lado da rua do Cisne e havia saltado ligeiramente por cima da
barricada acessria, que fazia frente para o ddalo da Pequena Truanderie.
     Gavroche produziu mais efeito na barricada do que a bala, que se foi sumir
num monte de entulho, quebrando apenas uma roda ao nibus e fazendo algum
destroo no carro que fora apreendido ao fabricante de cal Anceau.
      vista disto, toda a barricada desatou a rir e Bossuet exclamou:
     - Pois no, senhores artilheiros, continuem!
    VIII
    Os artilheiros fazem-se tomar a srio



     Mal os insurgentes viram entrar Gavroche, rodearam-no logo, porm o gaiato
nem tempo: teve para contar coisa nenhuma, porquanto Mrio o levou
imediatamente consigo, sem poder dominar o tremor que lhe causara a presena
do gaiato.
     - Que vens tu c dizer? - disselhe ele.
     - Ora essa! - respondeu a criana. - E o senhor?
     E, ao dizer isto, fitou Mrio com o seu olhar de pico desgarre. Parecia que os
seus olhos se dilatavam com a luz que continham.
     Mrio prosseguiu em tom severo:
     - Quem te mandou voltar? Levar-me-ias tu, ao menos, a carta ao seu destino?
     A respeito da carta, Gavroche sentia a conscincia a guilhotinada de um tal
ou qual remorso. A sua pressa de voltar para a barricada fizera com que ele mais
se desfizesse dela do que a entregasse. Via-se, pois, obrigado a concordar consigo
mesmo que andara um tanto levianamente, entregando-a quele desconhecido,
cujo rosto nem sequer pudera distinguir bem. Verdade  que o homem estava em
cabelo, mas no bastava isso. Finalmente, quanto a este ponto, Gavroche
censurava-se a si prprio no seu foro ntimo e estava com receio das repreenses
de Mrio. Para sair deste estado, pois, adoptou o expediente mais simples: mentiu
abominavelmente.
     - Cidado, entreguei a carta ao porteiro, porque a senhora j estava a dormir.
     Disseme que lhe seria entregue apenas ela acordasse, Mrio tivera em vista
dois fins, mandando aquela carta a Cosette: despedir-se dela e salvar Gavroche,
porm teve de se contentar apenas com a satisfao de metade dos seus desejos.
     O incidente da carta fez-lhe vir ao esprito a presena de Fauchelevent na
barricada, e a tal ponto o impressionou esta coincidncia, que perguntou a
Gavroche, apontando-lhe o pai de Cosette:
     - Conheces aquele homem?
     - No, senhor - respondeu Gavroche, Efectivamente, como ainda agora
acabamos de dar a entender, Joo Valjean era completamente desconhecido para
o gaiato, por isso que este s o vira de noite.
     A resposta de Gavroche fez dissipar as confusas e pouco sensatas conjecturas
que a presena do senhor Fauchelevent naquele local tinha suscitado no esprito
de Mrio.
     Que motivo tinha ele para estranhar a sua presena ali, se no sabia quais
eram as suas opinies? No podia dar-se o caso que o senhor Fauchelevent fosse
tambm republicano? Decerto. Nessa hiptese, ento, que coisa mais natural do
que acudir ele ali, onde se achavam tantos outros que professavam as mesmas
ideias?
     Ao mesmo tempo que Mrio se entregava a todas estas cogitaes, correra o
gaiato  outra extremidade da barricada, onde reclamava em altos gritos a sua
espingarda, que, por ordem de Enjolras, lhe foi imediatamente entregue.
     Aps isto, Gavroche participou aos seus camaradas, como ele os apelidava,
que se achava cercada a barricada, tendo ele prprio experimentado no pequenas
dificuldades para penetrar at junto deles. Por qualquer dos lados se achava
tomada a passagem. Na pequena Truanderie, achava-se um batalho de linha,
com as armas ensarilhadas e em observao para a rua do Cisne; do lado oposto,
estava a rua dos Pregadores ocupada pela guarda municipal. A frente era tomada
pelo corpo do exrcito.
     Dada esta informao, Gavroche acrescentou:
     - Agora mando eu que se lhes d uma coa mestra!
     Ao mesmo tempo, continuava Enjolras na sua seteira, observando
atentamente os movimentos dos assaltantes, que, pouco satisfeitos decerto com o
resultado do seu tiro de pea, no haviam dado outro.
     Na retaguarda da pea, na extremidade da rua, viam-se os soldados de uma
companhia de infantaria, que ali tinha ido postar-se, descalando a rua e
construindo uma trincheira baixa, fronteira  barricada, espcie de espalda que
no tinha mais de dezoito polegadas de altura. Do lado esquerdo da improvisada
trincheira, avistava-se a vanguarda de um batalho do termo, que ocupava a rua
de S. Diniz.
     Sempre atento no seu posto de observao, Enjolras julgou ouvir o estrondo
que se produz ao tirar dos caixes as granadas e viu, ao mesmo tempo, que o chefe
da pea lhe mudava a pontaria, inclinando-a levemente para a esquerda.
     Em seguida viu os artilheiros a carregar a pea.
     Concluda a operao, pegou mesmo o chefe da pea no morro e chegou-lho
ao ouvido.
     - Abaixem-se e encostem-se  parede - gritou Enjolras - e os que estiverem
junto da barricada, de joelhos!
     A esta voz, os insurgentes que se achavam junto da porta da casa de pasto,
para onde tinham ido  chegada de Gavroche, abandonando o seu posto de
combatente, precipitaram-se de tropel para a barricada, porm, antes que a ordem
de Enjolras fosse executada, disparou-se a pea com o horroroso estampido de um
tiro de metralha, que, efectivamente, era.
     O tiro fora dirigido contra a abertura do reduto, de onde viera em ricochete
de encontro  parede, matando dois homens e ferindo trs.
     Este acontecimento, pelo qual se via que, se as coisas continuassem assim, o
estado da barricada tornar-se-ia precrio, suscitou geral consternao,
manifestada por um surdo rumor.
     - Tratemos, ao menos, de obstar a segundo tiro - disse Enjolras.
     E, ao dizer isto, baixou a clavina para fazer pontaria ao chefe, que, naquela
ocasio, se achava curvado sobre a culatra da pea, tratando de a assestar
definitivamente.
     O chefe de pea era um belo sargento de artilharia, ainda novo, cabelos
louros, rosto meigo, ar inteligente, particular a essa arma predestinada e terrvel,
que,  fora de se aperfeioar no horror, h-de acabar por matar a guerra.
     Combeferre, em p ao lado de Enjolras,, contemplava-o e dizia:
     - Que pena! Hediondas carnificinas as nossas! Ainda bem que, quando deixar
de haver reis, deixar tambm de haver guerra! Enjolras, tu ests a fazer pontaria
quele sargento sem o fitar. Olha que bela presena, que intrpido aspecto, v-se
que pensa; estes rapazes de artilharia ,so todos muito instrudos. Terra pai, me,
famlia; talvez ame; no inculca ter mais de vinte e cinco anos, se  que os tem;
podia ser teu irmo!
     - -o! - disse Enjolras.
     - Concordo, e meu tambm - replicou Combeferre.
     - Portanto, no o matemos.
     - Deixa-me. Assim o querem, assim o tenham!
     E uma lgrima deslizou lentamente pelo rosto de mrmore de Enjolras.
     Ao mesmo tempo, puxou pelo gatilho da clavina e o tiro partiu. O artilheiro
deu duas voltas sobre si mesmo, estendendo os braos para diante e levantando a
cabea como para tomar flego, e, aps isto, caiu de lado sobre a pea e ficou sem
movimento.
     Saiu-lhe do meio das costas um jorro de sangue. Estava morto. A bala
tinha-lhe atravessado o peito de lado a lado.
     Enquanto dali o tiravam e o faziam substituir por outro, ganhavam os
insurgentes, com efeito, alguns minutos.
     IX
     Emprego da habilidade de caador furtivo e daquela pontaria certeira que
influi na sentena de 1796



     Na barricada, cada qual oferecia o seu alvitre. Os tiros de pea no tardariam
a repetir-se, e com semelhante metralha bastaria um quarto de hora, para dar cabo
da barricada. Era, portanto, absolutamente necessrio cuidar de remediar, por
algum modo, to grande inconveniente.
     - Tragam para ali um colcho! - disse Enjolras em tom imperativo.
     - Todos os que havia esto ocupados pelos feridos - disse Combeferre.
     At quele instante, Joo Valjean conservara-se sempre  esquina da casa de
pasto, com a espingarda entre os joelhos, sem tomar parte em nada do que se
passava nem parecer ouvir os combatentes, que em volta dele diziam:
     - Aqui est uma espingarda que no faz nada!
     Ao ouvir a ordem dada por Enjolras, levantou-se.
     Como devem estar lembrados, quando  rua da Chanvrerie chegou o bando,
uma velha, com medo das balas, pusera um enxergo  janela. Esta janela, que era
a de uma gua-furtada, deitava para o telhado de uma casa de seis andares, situada
a pequena distncia fora da barricada. O colcho pela parte inferior apoiava-se em
duas varas de estender roupa e estava seguro em cima por duas cordas, que de
longe pareciam dois barbantes, presas a dois pregos metidos nas ombreiras da
gua-furtada.
     As duas cordas, que de baixo se viam distintamente, pareciam dois cabelos.
     - Quem me empresta uma clavina de dois canos? - disse Joo Valjean.
     Enjolras, que acabava de carregar a sua, ofereceu-lha.
     Joo Valjean meteu a arma  cara, fazendo pontaria  trapeira e desfechou.
     Uma das duas cordas que segurava o colcho ficou logo cortada e este
pendente apenas por um fio.
     Joo Valjean disparou segundo tiro. A outra corda bateu na vidraa da
gua-furtada, e o colcho, escorregando por entre os dois paus, veio cair  rua.
     A barricada aplaudiu e aclamou a uma voz:
     - J temos colcho!
     - Pois sim, - disse Combeferre - mas quem o h-de ir buscar?
     Efectivamente, o colcho tinha cado fora da barricada, entre os sitiados e os
sitiantes. Ora havia alguns instantes que os soldados, exasperados com a morte do
sargento de artilharia, se tinham deitado de bruos por trs da pequena trincheira
por eles improvisada e da faziam fogo para a barricada, suprindo o forado
silncio da pea, que duraria enquanto no se organizasse o seu servio. Os
insurgentes, pouco inclinados a desperdiar munies, que podiam empregar
melhor, no respondiam a esta mosquetaria. Este tiroteio no causava dano 
barricada, porm na rua cruzavam-se as balas de um modo terrvel.
     Joo Valjean saiu pela abertura, entrou na rua, por baixo de um chuveiro de
balas, encaminhou-se para onde estava o colcho, pegou nele, p-lo s costas e
voltou para a barricada, onde ele mesmo O colocou na abertura, encostando-o 
parede de modo que os artilheiros o no vissem.
     Feito isto, esperaram outro tiro de metralha, que no levou muito tempo.
     A pea vomitou rugindo o seu pacote de estilhaos, que, desta feita, no
produziu ricochete, porque se amorteceu no colcho. Estava obtido o previsto
efeito e preservada a barricada dos estragos da metralha.
     - Cidado - disse Enjolras, dirigindo-se a Joo Valjean - os meus
agradecimentos em nome da repblica!
     Bossuet admirava e ria, exclamando:
     -  uma imoralidade que um simples colcho tenha tanto poder. Vitria do
que cede sobre o que fulmina. Mas  o mesmo; glria ao colcho que anula a pea
da artilharia!



    X
    Aurora



     Naquela mesma ocasio, acordava Cosette.
     O seu quarto era pouco espaoso, mas asseado e retirado do bulcio das ruas,
recebendo a luz do lado do nascente por uma ampla janela, que deitava para as
traseiras da casa.
     Cosette nada sabia do que se passava em Paris, pela simples razo de que,
quando Toussaint, no dia antecedente, dissera para Joo Valjean que lhe parecia
haver barulho na cidade, j a jovem se tinha recolhido ao seu quarto.
     Cosette dormiu poucas horas, mas bem. Tivera sonhos agradveis, para o que
talvez no pouco concorresse a deslumbrante alvura do seu leito. Entre as vises
esplndidas do seu dormir, aparecera-lhe uma, que a jovem tomou por Mrio.
Quando acordou, dava-lhe o sol nos olhos, o que, a princpio, lhe pareceu uma
como continuao dos seus sonhos.
     O seu primeiro pensamento, aps o despertar, foi risonho e consolador. Do
mesmo modo que Joo Valjean algumas horas antes, Cosette estava passando por
essa fase de reaco em que o esprito obstinadamente se recusa a familiarizar-se
com a ideia da desventura. Esperava com afinco; o qu, nem ela, se lho
perguntsseis. Vo-lo saberia dizer. Em seguida, porm, sentiu confranger-se-lhe o
corao, ao lembrar-se que havia trs dias j que no tornara a ver Mrio. A isto
objectava ela prpria com novas razes de esperana. Em virtude da sua carta,
Mrio devia estar informado da sua actual morada, e seria confiar pouco na
inteligncia do mancebo supor que ele no acharia modo de penetrar at junto
dela. E isto naquela mesma manh, ou, quando menos, em todo o decurso do dia.
E convencida de que Mrio,, efectivamente, Viria, e viria muito cedo, a jovem
levantou-se - a fim de estar pronta para o receber - iludida, porm, quanto  hora,
que julgava mais matutina do que, realmente, era.
     Ela julgava-se na impossibilidade de viver sem Mrio, e por isso parecia-lhe
esta razo bastante para que o rapaz viesse. A isto no havia a opor objeco
admissvel, por ser verdade incontestvel. Bem bastavam aqueles trs dias que ela
estivera sem ver Mrio. Passar trs dias sem ver Mrio, Deus do cu! Esta
monstruosidade at aos prprios olhos dele repugnaria! Ainda bem que era
passada a hora da provao, dessa travessura dolorosa com que algum gnio
malfazejo a quisera flagelar. Mrio ia voltar, portador de boas novas.
     Assim  a mocidade. Chora agora e logo enxuga o pranto. Parece-lhe intil a
dor, e por isso recusa submeter-se-lhe. A juventude  o sorriso do porvir ante um
desconhecido, que  ele prprio. A felicidade  o seu elemento; a esperana, para
assim dizer, a sua respirao.
     No meio de tudo isto, porm,, no era possvel a Cosette recordar-se do que
Mrio lhe dissera relativamente  sua ausncia, que apenas devia durar um dia,
nem to-pouco da explicao que dela lhe havia dado. Todos tero notado com
que presteza e artifcio uma moeda, que, acaso deixamos cair ao cho, corre a
esconder-se e procura refugiar-se onde no torne a dar com ela. Assim  com
certas ideias; acantoam-se-nos em qualquer desconhecido recanto do crebro e
disse; por mais que forceje a memria, no  para ela tornar achar-lhe o rasto. So
como se nunca tivessem existido. Cosette, ludibriada por uma destas travessuras
de reminiscncia, agastava-se ao ver a inutilidade dos seus esforos, e, por fim, a si
prpria se recriminava e lanava em rosto, como grave culpa,, ter olvidado o que
Mrio lhe dissera.
     Em seguida levantou-se e principiou as suas duas quotidianas ablues - a da
alma, que consistia em orar; a do corpo, que consistia em lavar-se.
     Rigorosamente falando, pode um autor devassar uma alcova nupcial, mas
nunca a alcova de uma virgem. Mal o ousar o verso; a prosa, porm, deve
abster-se.
     O quarto de uma virgem  como que o arcano de uma flor ainda por
desabrochar, um floco alvo numa plaga escura, a clula ntima de um lrio por
abrir, que as vistas do homem no devem devassar, enquanto a no penetrarem os
raios do sol.
     Deve ser sagrada a mulher em boto. Aquela cama que inocentemente se
descobre; aquela adorvel seminudez, que at de si mesma tem medo; aquele alvo
p que se refugia no bordado carpim; aquele seio que se vela em presena de um
espelho, como se o espelho fosse um olho aberto sobre os mistrios desse seio;
aquela camisa rapidamente achegada para os ombros, ao estalido de um mvel, ao
rumor de uma sege na rua; aquele aconchego de cordes, de fitas, de colchetes;
aqueles estremecimentos de frio e pudor; aquele susto contnuo ao menor
movimento; aquela agitao quase voltil onde no h nada a temer; aquelas
sucessivas fases de vesturio, aprazveis como as da aurora - coisas imprprias
para contar, se  que indic-las simplesmente j no  demais.
     A vista do homem deve ser mais religiosa ainda diante do erguer de uma
jovem do que do despontar de uma estrela. A possibilidade de alcanar deve
tornar-se em respeito. A penugem do pssego, a cinza da ameixa, o cristal radiado
da neve, a asa da borboleta polvilhada de penas, so tudo coisas grosseiras a par da
castidade que nem sabe que  casta. A jovem no  mais do que a aparncia de um
sonho, no  ainda uma esttua. A sua alcova oculta-se na parte sombria do ideal.
O indiscreto toque do olhar maltrata esta vaga penumbra.. Ali, contemplar, 
profanar.
     No mostraremos, pois, nada da suave confuso do despertar de Cosette.
     Diz um conto do Oriente que Deus fizera branca a rosa, mas que tendo Ado
olhado para ela no momento em que se entreabria, tivera a flor: vergonha e se
tornara rosa. Ns somos dos que se sentem interditos em presena das jovens e
das flores, por julg-las venerveis.
     Cosette vestiu-se muito depressa e penteou-se, o que era muito simples
naquele tempo, em que as senhoras no alteavam as tranas por meio de
almofadinhas e rolos, e no usavam crinolines nos cabelos. Em seguida abriu a
janela e olhou para todos os lados, esperando descobrir algum ponto da rua,
alguma esquina de prdio, um canto da calada, e poder ali espreitar a chegada de
Mrio. Mas no se via coisa alguma do exterior. O ptio traseiro era quase
rodeado por muros muito altos, deixando-se de um lado avistar alguns quintais,
que Cosette declarou hediondos; foi a primeira vez na sua vida que achou feias as
flores. A menor poro da rigueira de uma encruzilhada interess-la-ia muito
mais. Por fim, tomou a resoluo de olhar para o cu,, como se julgasse que Mrio
poderia vir tambm dali.
     Subitamente os olhos arrasaram-se-lhe de lgrimas. No era Isto volubilidade;
mas a sua situao compunha-se de esperanas, cortadas por esmorecimento.
Sentiu confusamente o que quer que era horrvel. As coisas passam, com efeito,
no: ar. Disse consigo que no estava certa de coisa alguma, e que deixarem-se de
se ver era perderem-se; ento a ideia de que Mrio lhe poderia vir do cu
pareceu-lhe j no encantadora, mas lgubre.
     Instantes depois, por uma dessas transformaes particulares a esta espcie de
nuvens, voltaram-lhe ao esprito as fugidas esperanas, que se lhe traduziam
exteriormente por uma espcie de sorriso inconsciente, mas crente em Deus.
     No resto da casa, os outros moradores estavam ainda todos recolhidos. No
se via uma nica janela aberta nem se ouvia o menor rumor que indicasse
achar-se mais algum de p. Estava tudo num silncio absoluto, que se estendia
desde o ltimo andar at ao quarto do porteiro, que se conservava ainda fechado.
Ao ver que a prpria Toussaint se no havia ainda levantado, Cosette
naturalmente sups que tambm seu pai se achava ainda recolhido.
     No meio das alternativas por que estava passando, a jovem acusava seu pai e
como que mentalmente lhe atribua a causa da sua desgraa. Necessrio fora que
Cosette tivesse sofrido muito e ainda sofresse para dar guarida a tais ideias.
Felizmente que contava com Mrio, porque era de todo o ponto impossvel o
eclipse de semelhante luz;. De espao a espao, ao ouvir, ao longe, uns como
surdos abalos, dizia consigo:
     -  singular principiarem hoje to cedo a bater com as portas!
     O que ela tomava por um estrondo de abrir e fechar de portas eram os tiros
de pea com que a tropa procurava forar a barricada da rua da Chanvrerie.
     Logo por baixo da janela do quarto de Cosette, na antiga e enegrecida cornija,
havia um ninho de andorinhas, que formava uma salincia para fora da cornija, de
modo que de cima se podia descobrir o interior daquele diminuto paraso.
Naquela ocasio, achava-se no ninho a me, cobrindo os filhinhos com as asas,
estendidas em forma de leque, e o pai volitava em torno, ia e vinha, trazendo-lhes
no bico sustento e beijos.
     A este espectculo, dourado pelos clares do Sol nascente, a esta cena em que
a sublime lei Multiplicar se apresentava graciosa e augusta, Cosette debruou-se
como que maquinalmente, os cabelos inundados pelos reflexos do Sol, a alma
absorta em quimeras, interiormente iluminada pelo amor, exteriormente pela
aurora, e, quase sem ousar a si mesma confessar que, ao mesmo tempo que tinha
os olhos naquele ninho, tinha o pensamento em Mrio, deixou-se ficar em
contemplao diante daqueles passarinhos, daquela famlia, daquele macho e
fmea, daquela me e seus filhinhos, na profunda perturbao de esprito que a
vista de um ninho produz numa virgem.



    XI
    Pontaria certeira que no mata ningum



     A este tempo, continuava na barricada o fogo dos assaltantes. Alternava-se a
mosquetaria com a artilharia, porm, em verdade, com pouco sucesso. O nico
destroo produzido pelo fogo dos inimigos era o que sofria a parte superior da
casa de pasto, para o lado da frente, onde a janela do primeiro andar e as
guas-furtadas, debaixo de um chuveiro de balas e biscainhos, se iam
gradualmente desmoronando, de modo que os combatentes, que ocupavam estes
dois postos, houveram por bem retirar-se. Tctica  essa sempre seguida no ataque
de todas as barricadas: - Oprimir os insurgentes debaixo de um fogo contnuo, de
modo a fazer-lhes esgotar as munies, se eles caem no erro de responder com
igual tiroteio. Conhecido, pelo afrouxar deste, que lhes vo escasseando as
munies, d-se ento o assalto.
     Enjolras, porm, que conhecia o lao, ordenara que a barricada se conservasse
silenciosa.
     A cada descarga, cuja detonao se ouvia, dava Gavroche um estalido com a
lngua, como indcio de profundo desprezo, e dizia:
     - Muito bem; rasguem mais pano, que temos c preciso de fios!
     Courffeyrac exprobrava  metralha o seu diminuto efeito e dizia para a pea:
     - A modo que te vais tornando difusa, pobre pateta!
     Este silncio da parte do reduto principiava, sem dvida, a dar cuidado aos
sitiantes e a fazer-lhes temer algum inesperado incidente. Era natural, portanto,
que eles, convencidos da necessidade de saber o que realmente se passava por trs
daquela muralha, que recebia impassvel os abalos sucessivos de to repetidas
descargas, tratassem de, por qualquer modo, o levar a cabo. Assim foi, porque, de
sbito, os insurgentes avistaram no telhado de uma casa prxima, um capacete
brilhando ao reflexo do Sol. Era um bombeiro encostado a uma chamin, de onde,
olhando a prumo para a barricada, observava tudo o que nela se passava.
     - Ali est uma sentinela realmente incmoda  disse Enjolras.
     Joo Valjean, que tinha restitudo a clavina ao mancebo, mas que conservava
ainda a sua espingarda, ajustou-a, sem proferir uma palavra, contra o bombeiro, e
um instante depois caa o capacete com estrondo no meio da rua, e o soldado
fugia a toda a pressa, espavorido pelo risco que correra.
     O seu lugar foi logo ocupado por segundo observador. Este era um oficial.
Joo Valjean, que tornara a carregar a espingarda, fez nova pontaria ao segundo
curioso e mandou a barretina do oficial juntar-se  do soldado.. O oficial no
insistiu; e retirou-se apressadamente. Desta vez foi compreendido o aviso. No
tomou a aparecer ningum sobre o telhado; renunciaram a espionar a barricada.
     - Porque no matou o homem? - perguntou Bossuet a Joo Valjean.
     Joo Valjean no lhe respondeu.
     Bossuet murmurou ao ouvido de Combeferre:
     - No respondeu  minha pergunta.
     -  um homem que exerce a bondade a tiro  retorquiu Combeferre.



    XII
    A desordem partidria da ordem



    Os que tm conservado alguma lembrana desta poca j afastada, sabem que
a guarda nacional do termo era valente contra as insurreies. Nas jornadas de
Julho de 1832 foi singularmente intrpida e encarniada.
    Tal ou tal taberneiro de Pantin, das Vertus ou da Cunetite, a quem a revolta
deixava deserto O estabelecimento, tornava-se leonino vendo a sua sala de
dana abandonada, e fazia-se matar para salvar a ordem representada pela baiuca.
Os interesses, naquele tempo burgus e herico, em presena das ideias que
tinham os seus cavaleiros, tinham tambm os seus paladinos. O prosasmo do
mvel no diminua coisa alguma  bravura do movimento. O decrescimento de
uma pilha de escudos fazia com que os baiuqueiros -cantassem a Marselhesa.
Derramavam liricamente o seu sangue a pr do balco e defendiam com
entusiasmo lacedemonio a loja, imenso diminutivo da ptria.
     No fundo de tudo isto, digamo-lo, no havia nada que no fosse da maior
seriedade. Eram os elementos sociais que entravam em luta, esperando o dia em
que entraro em equilbrio.
     Outro caracterstico daquele tempo era a anarquia ligada ao
governamentalismo (nome brbaro do partido correcto). Era-se pela ordem com
indisciplina. O tambor rufava inopinadamente por ordem de tal ou tal coronel da
guarda nacional, fazendo chamadas de capricho; tal ou tal capito entrava em fogo
por inspiraes; tal ou tal guarda nacional batia-se pela ideia e por sua prpria
conta. Nos momentos de crise, nas jornadas, tomava cada um conselho, menos
dos seus chefes do que dos seus instintos. Havia no exrcito da ordem verdadeiros
guerreiros, uns de espada, como Fannicot, outros de pena, como Henrique
Fonfrde.
     A Civilizao, infelizmente representada naquela poca mais por uma
agresso de interesses do que por um grupo de princpios, estava ou julgava estar
em perigo, e soltava o grito de alarme; cada um se tornava por si mesmo centro,
defendia-a, socorria-a e protegia-a, colocando-se-lhe na frente, e o primeiro que
disso se lembrava tomava sobre si o encargo de salvar a sociedade.
     O zelo chegava s vezes at ao extermnio. Tal ou tal peloto de guardas
nacionais constitua-se por sua autoridade privada conselho de guerra, e julgava e
executava em cinco minutos um insurgente prisioneiro. Fora um destes
improvisos que produzira a morte de Joo Prouvaire. Feroz lei de Lynch, que
nenhum partido tem direito de repreender aos outros, porque  aplicada pela
repblica na Amrica do mesmo modo que pela monarquia na Europa. Esta lei de
Lynch no era isenta de enganos.
     Num dia de revolta, um moo poeta chamado Paulo-Aim-Garnier, foi
perseguido na Praa Real,  ponta de baioneta, e s pde escapar-se refugiando-se
no vo do porto nmero 6. Gritavam atrs dele:
     - Aqui est ainda um sansimonlano!
     E diligenciavam mat-lo.
     Ora, Garnier levava debaixo do brao um volume das memrias do duque de
Saint-Simon. Um, guarda nacional tinha lobrigado, no livro o nome de
Saint-Simon, e gritara: Morra! No dia 6 de Junho de 1832, uma companhia de
guarda nacional do termo, comandada pelo capito Fannicot, de quem h pouco
falmos, fez-se dizimar, por simples fantasia, na rua da Chanvrerie, O facto, por
mais singular que parea, foi registado pelo processo judicial instaurado logo em
seguida  insurreio de 1832.
     O capito Fannicot, burgus impaciente e destemido, espcie de condotire
da ordem, um daqueles que h pouco caracterizmos, governamentalista fantico
e Indomvel, no podia resistir  tentao de fazer fogo antes da hora, e  ambio
de tomar a barricada s por si, isto , com a sua companhia. Exasperado pela
apario sucessiva da bandeira vermelha e da casaca velha, que ele tomou por
bandeira preta, censurava em voz alta os generais e os chefes dos corpos, que se
achavam em conselho, e que no julgando chegado o momento decisivo do
ataque, deixavam, segundo a expresso clebre de um deles, coser a insurreio
no seu prprio suco. Quanto a ele, achava a barricada madura, e como o que est
maduro deve cair, tentou.
     Os homens a quem comandava eram resolutos como ele; furiosos, disse
uma testemunha. A sua companhia, a mesma que fuzilara o poeta Joo Prouvaire,
era a primeira do batalho postado na esquina da rua. No momento em que
menos se esperava, arrojou o capito os seus homens contra a barricada. Este
movimento executado com mais boa vontade do que estratgia, custou caro 
companhia Fannicot.
     Antes que ela tivesse chegado a dois teros da rua, foi recebida por uma
descarga geral da barricada. Quatro dos mais audazes, que corriam na frente,
foram fulminados  queima-roupa, mesmo ao p do reduto, e a corajosa turba de
guardas nacionais, gente extremamente valorosa, mas que no tinha a tenacidade
militar, teve de retirar, depois de alguma hesitao, deixando na rua quinze
cadveres.
     O instante de hesitao deu aos insurgentes tempo para tornarem a carregar
as armas, e uma segunda descarga assaz mortfera, alcanou a companhia antes
que ela pudesse chegar  esquina da rua, que lhe servia de abrigo. Por um
momento achou-se entre dois fogos e suportou o tiro da pea que estava em
bateria, e que, no tendo recebido ordem contrria, continuara a fazer fogo.
     Este ataque, mais furioso do que srio, irritou Enjolras.
     - Imbecil! - disse ele. - Faz com que lhe matem os soldados e gasta-nos as
muni- es para nada!
     Enjolras falava como verdadeiro general de revolta.
     A insurreio e a represso no lutam com armas iguais.
     A insurreio, prontamente exausta, no tem seno um certo nmero de tiros
de que pode dispor e certo nmero de combatentes a arriscar. Uma patrona vazia,
um homem morto, no podem ser substitudos. A represso tendo o exrcito, no
conta os homens, e tendo Vincennes, no conta os tiros. A represso tem tantos
regimentos, como homens a barricada, e tantos arsenais como a barricada
cartucheiras. Assim, estas lutas so de um contra cem e terminam sempre pela
aniquilao das barricadas; salvo quando a revoluo surgindo inopinadamente,
venha lanar na balana o seu flamejante gldio de arcanjo. Isto sucede. Ento
tudo se ergue, as pedras entram em ebulio, os redutos populares pululam. Paris,
estremece soberanamente, o quid divinum desprende-se, pairam na atmosfera um
10 de Agosto e um 29 de Julho, aparece uma prodigiosa luz, a goela escancarada
da fora recua e o exrcito, feroz leo, v diante de si, de p e tranquila, a profetiza
que se chama Frana.



    XIII
    Clares efmeros



     Nos caos de sentimentos e paixes que defendem uma barricada h de tudo:
h denodo, juventude, pundonor, entusiasmo, ideal, convico, contumcia de
jogador, intermitncias de esperana.
     Uma dessas intermitncias, um desses vagos estremecimentos de esperana,
perpassou de sbito, e no momento em que menos se esperava, pela barricada da
rua da Chanvrerie.
     - Escutem - disse repentinamente Enjolras, sempre firme no seu posto de
observao - parece-me que Paris sempre acordou!
     Efectivamente, na manh do dia 6 de Junho, a insurreio, no decurso de uma
ou duas horas, experimentou uma tal ou qual recrudescncia. A obstinao dos
sinos de Saint-Merry reanimou algumas veleidades. Nas ruas da Pereira e dos
Gravilliers, chegaram a comear-se barricadas, que no passaram dos
fundamentos. Prximo  porta de S. Martinho, investiu sozinho e a peito
descoberto com um esquadro de cavalaria um rapaz armado com uma clavina.
Chegou ao meio do boulevard, ps um joelho em terra, apontou a arma em
direco ao comandante do esquadro,, disparou e continuou o seu caminho,
depois de o matar, dizendo:
     - Sempre  um de menos, de quem j no temos que temer!
     Finda, porm, a sua tarefa, carregou sobre ele a cavalaria e acutilou-o. Na rua
de S. Diniz,, houve uma mulher que se ps a fazer fogo sobre a guarda municipal,
entrincheirada por trs de uma gelosia, cujas tbuas estremeciam a cada tiro que a
mulher descarregava sobre os soldados. Na rua da Cossonerie, foi preso um rapaz
de catorze anos, por se lhe encontrarem os bolsos cheios de cartuchos.
Chegaram-se a atacar algumas casas de guarda.  entrada da rua de Bertin-Poire,
rompeu, de sbito, entre o povo e um regimento de couraceiros, comandado pelo
general Cavaignac de Baragne, um vivssimo tiroteio. Na rua de Planche-Mibray,
os moradores atiravam de cima dos telhados sobre a tropa cacos e utenslios
caseiros, o que  mau sinal; quando contaram o caso ao general Soult, o antigo
tenente de Napoleo tornou-se pensativo, recordando-se, sem dvida, do dito de
Suchet em Saragoa:
     - As velhas j nos despejam penicos pela cabea? Ento perdidos estamos!
     Estes sintomas gerais, que se manifestavam na mesma ocasio em que o
governo supunha localizada a revolta, esta febre raivosa predominando outra vez
os populares, estas fascas redemoinhando por sobre essas profundas massas de
combustvel denominadas arrabaldes de Paris, todo este conjunto principiou a pr
em sobressalto os chefes militares, que cuidaram de apagar quanto antes estes
princpios de incndio, reservando para depois de abafadas estas fascas o ataque
s barricadas de Maubue, Chanvrerie e Saint-Merry, a fim de que, no tendo a
ocupar-se seno com elas, pudessem melhor cortar pela raiz este tenaz rebento da
insurreio. Para isto, diversos piquetes foram destacados para as ruas em
efervescncia, desimpedindo as grandes, sondando as pequenas, de um e de outro
lado, ora cautelosamente e a passo, ora a marche-marche, arrombando as portas
das casas de onde se tinham disparado tiros, ao mesmo tempo que a cavalaria, por
meio de adequadas manobras, fazia dispersar dos boulevards os grupos que os
enchiam. No tanto a mos lavadas, porm, foi levada a efeito esta represso, que
no se desse, por essa ocasio, o rumor e tumultuoso sussurro prprio destes
recontros entre o povo e a tropa. Era esse o sussurro que Enjolras ouvia nos
intervalos em que se calava o estrondo do tiroteio contra a barricada. Alm disto,
tinha visto passar no extremo da rua alguns feridos conduzidos em macas; o que o
havia feito dizer para Courffeyrac:
     - Algum:, sem sermos ns, os ps naquele estado!
     Pouco tempo, porm, durou este claro de esperana, que se extinguiu to
rapidamente como tinha nascido. Em menos de meia hora, desvaneceram-se
todos aqueles rumores, to aprazveis aos ouvidos dos insurgentes. Foi um como
relmpago sem raio, um como cair de novo sobre os insurgentes essa espcie de
chapa de chumbo, sob que a indiferena do povo encerra os obstinados
abandonados.
     Abortou o movimento geral, que parecia ter-se gerado, de modo que tanto a
ateno do ministro da guerra como a estratgia dos generais podiam agora
concentrar-se nas trs ou quatro barricadas, que continuavam a oferecer
resistncia.
     Ia alto o sol.
     Um dos insurgentes chegou ao p de Enjolras e disselhe:
     - Ns temos fome! Queria que me dissesse se, realmente, havemos de aqui
morrer sem tornar a comer!
     Enjolras fez com a cabea um aceno afirmativo, sem desencostar o brao de
cima do parapeito da barricada nem desfitar os olhos da entrada da rua.



    XIV
    Onde se ter ocasio de saber o nome da amante de Enjolras



     Sentado numa pedra ao lado de Enjolras, via-se Courffeyrac, que continuava
a dirigir chufas  pea assestada no meio da rua. Cada vez que por diante dele
passava, com medonho estampido, essa sombria nuvem de projcteis chamada
metralha, o rapaz ria e acolhia-a com alguma baforada irnica.
     - Para que te esfalfas, velha rabugenta? Realmente, tenho d de ti! No era
melhor estares calada? Isso no  trovejar,  tossir!
     E todos riam  volta dele.
     Courffeyrac e Bossuet,, cuja inabalvel jovialidade aumentava com o perigo,
faziam como Madame Scarron: em vez de comer, galhofavam, e j que no havia
vinho, queriam que todos estivessem alegres.
     - Estou admirado com Enjolras - dizia Bossuet. Maravilha-me aquela sua
temeridade impassvel. Enjolras anda quase sempre triste, decerto por viver
sozinho, e queixa-se da sua grandeza, porque O fora  viuvez. Ns c nesse
ponto, ao menos, somos mais felizes do que ele; todos temos maior ou menor
nmero de amantes, que nos fazem doidos, quero dizer, que nos tornam bravos.
Quem ama como tigre no  muito que se bata como leo.  uma maneira de nos
vingarmos dos tormentos com que s senhoras nossas grispttes apraz flagelar-nos.
Rolando quis morrer, mesmo de propsito, s para meter ferro a Anglica; todos
os nossos herosmos provm das mulheres. Um homem sem mulher  como uma
pistola sem gatilho; a mulher  que faz disparar o homem. E, contudo, Enjolras
no tem mulher. Achou meio de ser intrpido sem viver enamorado. , realmente,
a coisa mais singular que tenho visto: poder um homem ser frio como gelo e
audaz como O fogo!
     Enjolras parecia nada ouvir; porm, se perto dele se achasse algum naquela
ocasio, ouvir-lhe-ia por entre dentes:
     - Ptria!
     Continuava Bossuet ainda a rir, quando Courffeyrac exclamou:
     - Novidade no caso!
     E acrescentou logo em seguida, imitando a voz de um porteiro anunciando
algum:
     - Sou a Pea de Oito!
     Efectivamente, um novo personagem acabava de entrar em cena.
     Era uma segunda boca de fogo, que os artilheiros, por uma rpida manobra,
assestaram junto da primeira.
     Assim se preparava o desenlace.
     Instantes depois, principiaram as duas peas em fogo activo e continuado
contra o reduto, fronteiras ao qual se achavam, auxiliadas pelo vivssimo tiroteio
dos guardas nacionais e mais tropa de linha.
     A pequena distncia daquele local, ouvia-se igualmente um estrondo de
artilharia.  que, ao mesmo tempo que duas peas batiam obstinadamente o
reduto da rua da Chanvrerie, outras duas bocas de fogo, uma assestada na rua de
S. Diniz, outra na de Aubry-le-Boucher, faziam chover as balas sobre a barricada
de Saint-Merry, correspondendo-se mutuamente todas quatro em lgubre eco,
como se fossem ces de guerra enviando-se reciprocamente seus uivos.
     Das duas peas, que agora batiam a barricada da rua da Chanvrerie, uma era
carregada com bala, a outra arremessava golfadas de metralha.
     A pontaria da primeira fora calculada e disposta de modo que as balas,
batendo no bordo da aresta superior do parapeito, iam abrindo brecha por cima e,
ao mesmo tempo, arremessando sobre os insurgentes as lascas das pedras,, 
feio de estilhaos de metralha.
     Tinha por fim este sistema de pontaria afugentar os combatentes do cimo da
barricada e obrig-los a refugiar-se no interior, para melhor darem o assalto.
     Expulsos que fossem os insurgentes daquela posio pelas balas, bem como
das janelas, por meio da metralha, ficariam as colunas de ataque em condies de
poder invadir a rua, sem risco de serem incomodadas pelo fogo dos insurgentes
nem mesmo talvez pressentidas, e escalar repentinamente o reduto, como no dia
antecedente, seno  que at tom-lo de surpresa.
     -  absolutamente indispensvel diminuir o incmodo que nos esto
causando aquelas duas peas disse Enjolras portanto - acrescentou ele, elevando a
voz fogo sobre os artilheiros!
     Todos, naquela ocasio, se achavam prontos para atirar. Assim, pois, a
barricada, h tanto tempo silenciosa, deu uma descarga atroadora e desesperada, a
que se sucederam mais sete ou oito, com uma espcie de raiva misturada de
prazer, que encheram a rua de espesso fumo. Ao cabo de alguns instantes,
puderam, finalmente, os insurgentes descobrir confusamente, por entre aquela
espcie de nevoeiro listrado de fogo, duas teras partes dos artilheiros estendidos
ao p das rodas das peas, ao lado das quais os que no haviam sucumbido
continuavam a servi-las com severa serenidade, porm menos assduos nas
descargas.
     - O negcio vai bem! - disse Bossuet. -  um sucesso!
     Enjolras, porm, abanou a cabea e respondeu:
     - Ests enganado. Se as coisas continuam assim por mais um quarto de hora,
no ficam dez cartuchos na barricada!
     Parece que Gavroche ouviu esta resposta.



    XV
    Gavroche fora da barricada



     Por entre o chuveiro das balas, Courffeyrac avistou, de sbito, um vulto pela
parte exterior da barricada, porm no longe dela.
     Era Gavroche, que sara pela abertura, depois de ter ido buscar um cesto 
casa de pasto, para dentro do qual estava sossegadamente deitando as cartucheiras
repletas, pertencentes aos guardas nacionais que tinham sido mortos junto ao
reduto.
     - Que ests tu a a fazer? - perguntou-lhe Courffeyrac.
     - Estou a encher o meu cesto, cidado! - replicou Gavroche, levantando
desempenadamente a cabea.
     -  rapaz, pois tu no vs a metralha?
     - Est bem! Est a chover. E depois?  respondeu Gavroche.
     - Volta para aqui! - ordenou-lhe Courffeyrac em tom imperativo.
     - Vou j - disse o gaiato.
     E de um salto embrenhou-se pela rua.
     Como devem estar lembrados, a companhia de Fannicot, na sua retirada,
deixara atrs de si um rasto de cadveres.
     Uns vinte mortos jaziam aqui e ali, pelo cho, em toda a extenso da rua.
Vinte patronas para Gavroche. Uma proviso de cartuchos para a barricada.
     O fumo que enchia a rua parecia um nevoeiro. Os que tm visto alguma
nuvem cada numa garganta no meio de duas rochas alcantiladas podero
imaginar o que era aquele fumo, cerrado e como que condensado entre duas
escuras linhas de altas casas, subindo lentamente e renovando-se sem cessar, do
que resultava uma escurido gradual, que encobria mesmo a luz do Sol, e que no
deixava verem-se mutuamente os combatentes de uma extremidade da rua 
outra.
     Este escurecimento, provavelmente desejado e calculado pelos chefes que
deviam dirigir o ataque da barricada, foi til a Gavroche.
     Encoberto por este vu de fumo e favorecido pela sua pequena estatura, pde
o gaiato meter-se pela rua dentro at uma distncia considervel, sem ser visto,
esvaziando a salvo umas sete ou oito patronas que primeiro encontrou.
     Caminhava de gatas, correndo s vezes, com o cesto seguro nos dentes,
torcendo-se, ondulando, serpenteando de um cadver para outro, esvaziando uma
cartucheira ou uma patrona, como um macaco abre uma noz.
     Na barricada, da qual ainda se no achava muito desviado, ningum ousava
gritar-lhe que se recolhesse, com receio de atrair a ateno sobre ele.
     Ao deparar com um polvorinho, em forma de frasco, no cadver de um cabo
da guarda nacional, disse:
     - Para matar a sede!
     E meteu-o no bolso.
     Avanando sempre, chegou, por ltimo, ao ponto em que o nevoeiro
produzido pelas descargas se tornava transparente.
     De modo que os atiradores da tropa de linha que jaziam, de bruos por trs
da improvisada trincheira, bem como os da guarda nacional postada  esquina da
rua, apontaram de sbito uns aos outros um vulto movendo-se no meio do fumo.
     No momento em que Gavroche mais entretido se achava a esvaziar a patrona
de um sargento estendido junto de uma porta, uma bala bateu no cadver.
     - Arreda! - exclamou Gavroche. - Assim matam-me os mortos!
     Uma segunda bala fez faiscar uma pedra ao lado: dele. Seguiu-se terceira, que
lhe tombou o cesto.
     Gavroche olhou e viu que as balas vinham dos guardas nacionais.
     Ergueu-se de mpeto, os cabelos soltos ao vento, as mos nas ilhargas, os
olhos fitos nos guardas nacionais, que continuavam a fazer fogo sobre ele e
principiou a cantar:
     Se h gente feia em Nanterre, A culpa  s de Voltaire; Se h asnos em
Palaiseau, A culpa  s de Rousseau.
     Depois pegou no cesto, deitou para dentro dele, sem deixar um s, os
cartuchos que tinham cado por fora, e avanando sempre para a frente, isto ,
para o lado de onde partiam os tiros, principiou a esvaziar outra patrona. Quarta
bala passou por ele, sem lhe acertar, e o gaiato continuou a cantar:
     A culpa  s de Voltaire, De eu no ter tabelio; A culpa  s de Rousseau, De
eu no ser um passaro.
     Uma quinta bala veio, mas no conseguiu mais do que tirar dele terceira
copla: A culpa  s de Voltaire, Se eu do prazer sou amigo; A culpa  s de Rousseau
No ser eu mais que um mendigo.
     Assim continuaram as coisas por mais algum tempo.
     Era horrvel e belo o espectculo, vendo Gavroche zombando daquele
chuveiro de balas, parecendo at que lhe agradava imenso aquele lance. Era o
pardal dando bicadas nos caadores.
     A cada descarga replicava com uma copla. Estavam todas as espingardas
apontadas para ele e nenhum tiro lhe acertava. Os guardas nacionais e os soldados
riam-se, ao fazer-lhe pontaria. O gaiato deitava-se, levantava-se, metia-se no vo
de alguma porta, saltava, desaparecia, tornava a aparecer, escondia-se, fugia,
voltava, respondia  metralha fazendo trejeitos, e, no entanto, ia recolhendo os
cartuchos, esvaziando as patronas e enchendo o cesto. Os insurgentes seguiam-no
com a vista, na maior ansiedade.
     A barricada tremia, ele cantava. No era uma criana, no era um homem: era
um gaiato-fada. Dir-se-ia o invulnervel ano do combate.
     As balas corriam atrs dele, porm ele era mais veloz do que elas. Parecia
jogar no sei que medonho jogo das escondidas com a morte; de cada vez que a
cara desnarigada do espectro aparecia, o gaiato dava-lhe um piparote.
     Uma bala, porm, mais certeira ou mais traioeira do que as outras, alcanou,
por ltimo, a fantstica criatura. Gavroche oscilou e caiu. Da barricada partiu um
grito geral. O pigmeu, porm, tinha qualquer coisa de Anteu; para o gaiato tocar a
calada  como para o gigante tocar o cho; Gavroche apenas cara para mais
depressa se levantar; levantou-se, pois, isto , sentou-se no meio da rua, e, ao passo
que o sangue lhe escorria em fio pelo rosto, levantou os braos,, olhando para a
parte de onde tinha partido o tiro que o ferira, e ps-se a cantar:
     A culpa  s de Voltaire, Se agora dei trambolho; A culpa  s de Rousseau Se
dei co nariz no...
     No concluiu a copla. Segunda bala do mesmo atirador o atingiu. Desta feita,
caiu com o rosto para diante e no se tornou a mover. Aquela pequenina grande
alma acabava de se evolar.



    XVI
    De como o irmo se torna pai



     Naquele mesmo momento achavam-se no jardim, de Luxemburgo - porque a
vista do drama deve estar em toda a parte - dois pequeninos dando a mo um ao
outro. Um poderia ter sete anos, o outro cinco. Como estavam molhados pela
chuva, caminhavam pelas leas do lado do Sol; o mais velho conduzia o mais
moo; estavam muito plidos e cobertos de farrapos; tinham o ar de pssaros
bravios. O mais pequeno dizia:
     - Tenho muita fome!
     O mais velho, j um tanto protector, conduzia seu irmo com a mo esquerda
e levava na direita uma chibata.
     Entraram ss no jardim. O jardim estava deserto; a polcia mandara fechar as
portas por causa da insurreio.
     As tropas que l tinham estacionado haviam j sado, pelas necessidades do
combate.
     Como estavam ali aquelas crianas? Tinham-se talvez evadido de alguma casa
de guarda, cuja porta apanhassem entreaberta; ou talvez nas proximidades, na
barreira do Inferno, ou na esplanada do Observatrio, ou na encruzilhada vizinha
dominada pelo fronto, onde se l: invenemnt parvalum panns involutum.
Houvesse alguma barraca de saltimbancos de onde tivessem fugido. Teriam na
vspera iludido a vigilncia dos guardas do jardim  hora de se fecharem as portas
e passado a noite nalguma daquelas guaritas em que se lem os peridicos? O
facto  que andavam errantes e que pareciam livres. Andar errante e parecer livre,
 estar perdido.
     Os pobres pequenos estavam, com efeito, perdidos.
     Aquelas crianas eram as mesmas que tanta pena tinham causado a Gavroche
e de que o leitor se deve lembrar. Filhos de Thenardier, alugados  Magnon,
atribudos ao senhor Gillenormand, e por fim folhas cadas de todos aqueles
ramos sem razes e roladas no p pelo vento.
     O fato muito asseado no tempo de Magnon e que lhe servia de prospecto para
com o senhor Gillenormand, tornara-se farrapos.
     Aquelas criaturinhas pertenciam agora  estatstica das Crianas
Abandonadas que a polcia regista, apanha, perde e torna achar nas ruas de Paris.
     Era necessria a perturbao de um tal dia para que os dois infelizes pequenos
se achassem naquele jardim. Se os guardas houvessem lobrigado semelhantes
farrapos t-los-iam expulsado. As crianas pobres no entram nos jardins
pblicos; contudo, dever-se-ia pensar que, como crianas, tm direito s flores.
     Aquelas achavam-se ali, graas s grades fechadas.
     Estavam em contraveno, haviam penetrado no jardim e tinham-se deixado
ficar. As portas fechadas no do folga aos guardas, a vigilncia deve continuar,
mas enfraquece e repousa; os guardas, mais ocupados do exterior do que do
interior, no olhavam pelo jardim, e por isso no tinham visto os dois
delinquentes.
     Na vspera, assim como de manh, chovera. Mas em Junho no se faz caso da
chuva. Uma hora aps o aguaceiro a custo se reconhece que em to belo dia tem
chovido. A terra no Vero enxuga to depressa como as faces duma criana.
     Na poca do solstcio,  a luz do meio-dia, por assim dizer, agarradora.
Apodera-se de tudo. Aplica-se e sobrepe-se  terra com uma espcie de suco. O
Sol parece que tem sede. Um aguaceiro  um copo de gua; a chuva  bebida
apenas cai. De manh tudo gotejava, de tarde est tudo coberto de p.
     No h nada mais admirvel do que uma verdura lavada pela chuva e enxuta
pelo Sol;  a frescura quente. Os jardins e os campos tendo gua nas razes e Sol
nas flores, tornam-se caoulas de incensos e brotam de si ao mesmo tempo todos
os perfumes. Tudo ri, canta e se oferece. Sente-se a mais doce embriaguez.
     A Primavera  um paraso provisrio: o Sol ajuda o homem a ter pacincia.
     H no mundo entes que no pedem mais; viventes que julgam bastante ter o
cu azul, sonhadores absortos pelo prodgio, bebendo na idolatria da natureza a
indiferena do bem e do mal, contempladores do cosmos, radiantemente
distrados do homem, que no compreendem que algum se ocupe da fome
destes, da sede daqueles, da nudez do pobre no Inverno da curvatura linftica de
uma espinhazita dorsal, da enxerga, da trapeira, do crcere, nem dos andrajos das
raparigas que tremem de frio, quando podem sonhar acordados  sombra do
arvoredo; espritos pacficos e terrveis, implacavelmente satisfeitos. Estranha
coisa, basta-lhes o infinito.
     A grande necessidade do homem, o finito, que admite a unio, ignoram-no
eles. No finito, que admite o progresso, o trabalho sublime, nem pensam. O
indefinido que nasce da combinao humana e divina, do infinito e finito,
escapa-lhes  apreciao.
     Sorriem-se, contanto que estejam face a face com a imensidade. Nunca a
alegria, sempre o xtase. Abismarem-se,  a sua vida. A histria da humanidade,
para eles, no  mais do que um plano parcelar; o Tudo no existe nela, o
verdadeiro Tudo fica-lhe de fora; para que se ho-de ocupar do pormenor
chamado homem? O homem sofre,  possvel, mas olhai como Aldebaran se
ergue! A me j no tem leite, o recm-nascido morre; no sei, mas V-de esta
roscea maravilhosa, que faz um escudo do alburno do abeto, examinado ao
microscpio! Comparai isto  mais bela renda de Malines.
     Pensadores tais esquecem-se de amar. O Zodaco domina-os a ponto de os
impedir que vejam a criana chorando. Deus eclipsa-lhes a alma. Constituem uma
famlia de espritos ao mesmo tempo grandes e pequenos. Horcio e Goethe
pertenciam-lhe, La Fontaine talvez; magnficos egostas do infinito, espectadores
tranquilos da dor, que no vem Nero se faz bom tempo, aos quais o Sol oculta a
fogueira, que veriam guilhotinar, diligenciando descobrir no cadafalso um efeito
de luz, que no ouvem o gemido nem o soluo, nem o toque de rebate, para quem
tudo vai bem porque h o ms de Maio, que enquanto tiverem acima da cabea
nuvens de prpura e de ouro se declaram satisfeitos, e que esto decididos a ser
felizes at se haver exaurido o brilho dos astros e o canto das aves.
     So estes os radiantes tenebrosos. No suspeitam que so dignos de lstima.
     Decerto que o so. Quem no chora no v.  foroso admir-los e
lastim-los, como se admiraria e lastimaria um ente, ao mesmo tempo escurido e
luz, sem olhos sob as sobrancelhas e com um astro no meio da fronte.
     A indiferena destes pensadores , segundo alguns, uma filosofia superior.
Pois seja, mas nesta superioridade h enfermidade. Pode-se ser imortal e coxo;
sirva de exemplo Vulcano. Pode-se ser mais do que homem e menos do que
homem. O incompleto imenso est na natureza. Quem sabe se o Sol no  cego?
     Mas ento, em que deve haver confiana? Solem Quis dicere falsum audeat.
Pois tambm certos gnios, certos Altssimos humanos, certos homens astros,
podero enganar-se? O que est to elevado, no cume, no znite, o que envia tanta
luz  terra, ver pouco, ver mal, no ver coisa alguma? No  isto para
desesperar? No. Mas o que h pois acima do Sol? Deus.
     O Luxemburgo, no dia 6 de Junho de 1832, pelas onze horas da manh,
solitrio e despovoado, estava encantador. Os canteiros e os alegretes enviavam-se
reciprocamente no meio da luz blsamos e sedues. Os ramos, loucos com o Sol
do meio-dia, pareciam querer abraar-se. Havia nos sicmoros uma matinada de
toutinegras, os passarinhos triunfavam, os piscos trepavam pelos troncos dos
castanheiros dando pequeninas bicadas nos buraquinhos da cortia. As latadas
aceitavam a realeza legtima do lrio; o mais augusto dos perfumes  o que sai da
alvura. Respirava-se oaroma apimentado dos cravos. As velhas gralhas de Maria
de Mdicis brincavam amorosamente nas rvores mais altas. O Sol dourava,
purpurizava e acendia as tlipas, que no so mais do que todas as variantes da
chama, tornadas flores.  roda dos maos de tlipas volteavam as abelhas, fascas
destas flores chamas. Tudo era graa e alegria, incluindo a ltima chuva; esta
reincidncia de que os lrios e as madressilvas deviam aproveitar-se no tinham
nada que inquietasse. As andorinhas faziam a encantadora ameaa de voarem
baixo. Quem ali estava respirava felicidade, a vida era aromtica, toda aquela
natureza exalava candura, socorro, assistncia, paternidade, carcias e aurora. Os
pensamentos que caam do cu eram macios como a mozinha de criana que se
beija.
     As esttuas sob as rvores, nuas e brancas, mantos de sombra rasgados pela
luz; aquelas deusas estavam todas esfarrapadas pelo Sol; pendiam-lhe raios de
todos os lados. Em torno do grande lago estava a terra j de todo seca. Soprava o
vento suficiente para levantar num e noutro ponto redemoinhos de p. Algumas
folhas amarelas, que ali tinham ficado no ltimo Outono, perseguiam-se
alegremente e pareciam brincar.
     A abundncia de luz tinha o que quer que era de tranquilizador. Vida, seiva,
calor e eflvios, trasbordavam; sentia-se sob a criao a enormidade da sua
origem; em todos aqueles sopros saturados de amor naquele vaivm de
reverberao e de reflexos, naquela prodigiosa profuso de raios, no indefinido
correr de outro fludo, sentia-se a prodigalidade do; que  inesgotvel; e por trs
de tanto esplendor, como por trs de um vu de chamas, entrevia-se Deus, o
milionrio de estrelas.
     Graas  areia, no havia ali uma s mancha de lama; graas  chuva no
havia um gro de p. Os ramalhetes acabavam de se lavar; os veludos, os cetins, os
vernizes e os ouros que saem da terra sob a forma de flores estavam todos
irrepreensveis.
     Aquela magnificncia era asseada. O grande silncio da natureza feliz
preenchia o jardim. Silncio celeste compatvel com mil msicas, arrulhos de
ninhos, zumbidos de enxames, palpitaes do vento. Toda a harmonia da estao
os ostentava em gracioso conjunto; as entradas e sadas da Primavera
efectuavam-se na devida ordem; terminavam os lilases, comeavam os jasmins;
algumas flores demoravam-se; a guarda avanada das borboletas, vermelhas de
Junho fraternizava com a retaguarda das borboletas brancas de Maio. Os pltanos
mudavam de pele. A brisa cavava ondulaes na enormidade magnfica dos
castanheiros.
     Era esplndido. Um veterano do quartel vizinho olhava para tudo aquilo
atravs das grades, e dizia:
     - A est a Primavera de grande uniforme e de armas apresentadas!
     A natureza toda almoava; a criao estava  mesa; era a hora; a grande toalha
azul estava estendida no cu, e a grande toalha verde sobre a terra; o Sol iluminava
o giorno. Deus servia a refeio universal. Cada ente tinha o seu pasto ou a sua
ceva. O pombo bravo achava a semente do linho, o tentilho o milho modo, o
pintassilgo, achava o paino, o pintarroxo vermezinhos, a abelha achava flores, a
mosca infusrios, os engole-ventos achavam moscas. Comiam-se um tanto uns
aos outros, o que representa o mistrio do mal misturado com o bem, mas nem
um s animalzinho tinha o estmago vazio, Os dois pequenitos abandonados
tinham chegado junto do grande lago, e um tanto perturbados por toda aquela
luz, diligenciavam ocultar-se, instinto do pobre diante da magnificncia, ainda
que impessoal; e conservavam-se atrs da barraquinha dos cisnes.
     De vez em quando;, quando o vento soprava, ouviam, confusamente, aqui e
alm, certos gritos, certo rumor, espcie de estertores tumultuosos, que eram tiros
de canho. Por cima dos telhados do lado dos Mercados via-se fumo. Um sino,
que parecia chamar, tocava muito ao longe.
     Os dois pequenitos mostravam no dar por aqueles rudos. O mais pequeno
repetia, de vez em quando a meia voz:
     - Tenho fome!
       Quase ao mesmo tempo que as duas crianas, aproximara-se do lago outro
par.
     Era um velho de cinquenta, anos, levando pela mo uma criana de seis anos.
Sem dvida pai e filho... A criana tinha na mo um grande bolo.
     Naquela poca, certas casas confinantes com o jardim pela rua de Madame e
pela do Inferno, tinham uma chave do Luxemburgo, da qual gozavam os
locatrios, quando o jardim estava fechado ao pblico; tolerncia que mais tarde
foi suprimida.
     Aquele pai e aquele filho tinham sado decerto, duma das tais casas.
     Os rapazinhos vendo aproximar aquele senhor esconderam-se ainda mais.
     O senhor era um burgus; talvez o mesmo que Mrio, um dia, atravs da
sua febre de amor tinha ouvido ao p daquele mesmo lago, aconselhando seu filho
a que evitasse os excessos. Tinha um ar afvel e altivo, e uma boca que, no se
fechando nunca, sorria sempre. Este sorriso mecnico, produzido por excesso de
queixada e por defeito de pele, mostrava mais depressa os dentes do que a alma. O
pequeno, com o seu bolo dentado, mas que no acabava de comer, parecia
contrariado. A criana estava vestida com o uniforme da guarda nacional, por
causa da revolta e o pai deixara-se ficar com o fato de burgus, por causa da
prudncia.
     Pai e filho tinham parado junto do lago onde giravam os dois cisnes. O
burgus dedicava aos cisnes uma admirao especial. Talvez isto se desse, por
muito se parecer com eles no modo de andar.
     Naquele momento os cisnes nadavam, o que constitui a sua principal
habilidade e mostravam-se soberbos.
     Se os dois pequenitos pobres tivessem escutado e tivessem idade de as poder
compreender, ouviriam as palavras de um homem srio. O pai dizia ao filho:
     - O sbio vive contente com pouco. Pe os olhos em mim, meu filho. No
gosto de fausto. Nunca me vem coberto de ouro nem de pedrarias; deixo esse
falso esplendor para as almas mal organizadas.
     Aqui, os gritos profundos que vinham do lado dos Mercados, redobravam de
intensidade, acompanhados por mais violento toque do sino.
     - O que  aquilo? - perguntou o pequeno.
     O pai respondeu:
     - So saturnais.
     De repente deu pelos dois pequenos, imveis, atrs da casinha dos cisnes, -
Ali est o princpio disse ele.
     E depois de um momento de silncio, acrescentou:
     - A anarquia j est no jardim.
     Entretanto, o filho deu uma dentada no bolo, deitou fora o bocado que lhe
arrancou e comeou a chorar.
     - Porque choras tu? - perguntou o pai.
     - J no tenho vontade - disse o pequeno.
     O sorriso do pai acentuou-se mais.
     - Um bolo come-se mesmo sem vontade.
     - Mas no gosto dele, est duro.
     - No queres mais?
     - No.
     O pai indicou-lhe os cisnes, - D-os a esses palmpedes.
     O pequeno hesitou. No ter j vontade de comer um bolo no  razo para o
dar.
     O pai prosseguiu:
     - S humano.  preciso ter d dos animais.
     E, tirando o bolo da mo ao filho, atirou-o para a gua.
     Os cisnes estavam longe, no centro do lago, entretidos com alguma presa.
No tinham visto nem o burgus nem o bolo.
     O burgus, vendo o risco em que estava o bolo de se perder e inquieto por to
intil naufrgio, entregou-se a uma agitao telegrfica, que acabou por atrair a
ateno dos cisnes.
     Os palmpedes avistaram um objecto boiando, viraram de bordo, como
verdadeiros navios, e dirigiram-se vagarosamente para o bolo, com a majestade
beatfica que convm a animais brancos.
     - Os cisnes compreendem os sinais - disse o burgus, satisfeito por ter tido
uma ideia boa.
     Neste momento o tumulto longnquo da cidade teve ainda sbita
recrudescncia.
     Desta vez foi uma coisa sinistra. H rajadas de vento que falam mais
distintamente do que outras. A que soprou naquele momento trouxe nitidamente
rufos de tambor, clamores, descargas cerradas e lgubres rplicas de toques de
rebate e de tiros de artilharia. Isto coincidiu com a passagem de uma nuvem,
negra que ocultou repentinamente o Sol.
     Os cisnes no tinham ainda chegado ao bolo.
     - Voltamos para casa - disse o pai - esto atacando as Tulherias.
     Tornou a pegar na mo de seu filho e prosseguiu:
     - Das Tulherias ao Luxemburgo no h seno a distncia que separa a realeza
do pareato, no  longe. No tarda que chovam balas.
     Depois olhou para a nuvem.
     - A chuva tambm no tarda em cair; o cu tomou parte nisto, o amo mais
novo est condenado. Vamos para casa depressa.
     - Queria ver os cisnes comer o bolo - disse o pequeno.
     O pai respondeu:
     - Seria uma imprudncia, menino.
     E arrastou atrs de si aquela tenra vergntea da burguesia.
     O pequeno, com saudades dos cisnes, foi sempre olhando para trs, at que
numa curva do jardim deixou de ver o lago.
     Entretanto, e ao mesmo tempo que os cisnes, tinham-se os dois pequenitos
vagabundos aproximado do bolo, o mais crescido olhava para o burgus que se
afastava.
     O pai e o filho entraram no labirinto de leas que conduz ao macio de
arvoredo, do lado da rua de Madame.
     O pequeno mais velho apenas os perdeu de vista, deitou-se rapidamente de
bru- os sobre o rebordo convexo do lago e, segurando-se com a mo esquerda,
debruado sobre a gua, quase a cair, estendeu com a mo direita a sua chibatinha
para o bolo. Os cisnes vendo o inimigo, apressaram-se, fazendo um movimento
que foi til  pesca da pobre criana; a gua refluiu diante dos cisnes, e com uma
das suas ondulaes concntricas, impeliu suavemente o bolo para a chibata do
pequenito. A chibata tocou o bolo quando os cisnes estavam j prestes a
chegar-lhe. O pequeno puxou para si o bolo, espantou os cisnes, empolgou a presa
e levantou-se. O bolo estava molhado, mas eles tinham fome e sede. O mais velho,
dividindo o bolo em duas partes desiguais, ficou com a mais pequena para si e deu
a maior ao irmo, dizendo:
     - A tens, toca a rufar, ferra com esta bucha na mala.



    XVII
    Mortuus pater filium moritorum expectat



    Mrio sara apressadamente da barricada, seguido por Combeferre. Porm, j
era tarde. Gavroche estava morto. Combeferre trouxe o cesto dos cartuchos,
Mrio o corpo da infeliz criana.
     Oh! O que o pai do desditoso gaiato fizera por seu pai, pensava Mrio, ele
o fazia agora ao filho de Thenardier; porm, Thenardier salvara seu pai,
enquanto ele apenas conduzia o cadver do filho do estalajadeiro.
     Ao voltar para o reduto com Gavroche nos braos, Mrio trazia, como o
infeliz gaiato, o rosto a escorrer em sangue.
     Provinha isto de que, na ocasio em que se agachara a pegar no corpo de
Gavroche, acertara-lhe uma bala na cabea, ferindo-o apenas ligeiramente, to
ligeiramente, que nem a sentira.
     Courffeyrac tirou o leno do pescoo e atou-lho na cabea. Apenas entrados
na barricada, dirigiram-se  casa de pasto e a colocaram o corpo de Gavroche em
cima da mesa onde jazia Mabeuf, cobrindo-os a ambos com o xaile preto,
suficientemente amplo para que o pudessem fazer.
     Combeferre distribuiu os cartuchos contidos no cesto que trouxera, vindo,
em virtude deste auxlio, a ficar cada insurgente com munies para quinze tiros.
     Joo Valjean continuava imvel na soleira da porta em que se sentara.
Quando Combeferre lhe entregou os quinze cartuchos que lhe tocavam, abanou a
cabea.
     - Aquele homem  esquisito a mais no poder ser! - disse Combeferre em voz
baixa para Enjolras - Julgo que est resolvido a no combater nesta barricada,
onde todos combatem!
     - O que no obsta a que ele a defenda!  respondeu Enjolras.
     - O herosmo tem seus originais - tornou Combeferre.
     E Courffeyrac, que ouviu isto, acrescentou:
     -  um segundo Mabeuf, porm noutro gnero.
     Uma coisa devemos observar. O fogo dirigido contra a barricada pouco ou
nada perturbava o seu interior. Os que nunca se viram no meio do turbilho desta
espcie de guerras no podem formar a mais leve ideia dos singulares momentos
de tranquilidade observados nestas convulses. Entrecruzam-se, conversam,
gracejam, passeiam abstrados do fim que ali os retm. Uma pessoa do nosso
conhecimento ouviu, uma ocasio, dizer a um combatente, no meio da metralha:
     - Estamos aqui como se nos achssemos em roda de uma mesa almoando
com uns poucos de amigos!
     O reduto da rua da Chanvrerie, repetimos, parecia interiormente pacfico.
Todas as peripcias e fases tinham sido ou iam ser terminadas. A posio dos
insurgentes de crtica tornara-se temerosa e de temerosa ia, provavelmente,
tornar-se desesperada.  medida que a situao se anuveava, um claro herico
cada vez mais purpureava a barricada. Enjolras dominava agravemente, na atitude
de um jovem esparciata dedicando a espada desembainhada ao sombrio gnio
Epidotas.
     Combeferre ocupava-se no curativo dos feridos, de avental atado  cintura;
Bossuet e Feuilly faziam cartuchos com plvora do polvorinho achado por:
Gavroche no cadver do cabo da guarda nacional e Bossuet dizia para Feuilly:
     - Estamos por instantes a fazer-nos de vela para outro planeta!
     Courffeyrac colocava e acomodava em cima do monte de pedras que
reservara para si, ao lado de Enjolras, a sua bengala de estoque, a espingarda, duas
pistolas de aro e outra de algibeira, com o esmero de uma jovem que pe em
ordem um aparador. Joo Valjean contemplava silencioso a parede que lhe ficava
fronteira. Um operrio atava  cabea com um barbante um grande chapu de
palha da tia Hucheloup para se preservar do ardor do sol, dizia ele. Os jovens da
Cougourde de Aix conversavam alegremente uns com os outros, como se
quisessem aproveitar a ltima ocasio, de se falarem na sua algaravia natal.
     Joly examinava a lngua num espelho da viva Hucheloup, que tirara do
prego em que se achava pendurado.
     Alguns combatentes, tendo deparado com algumas cdeas de po, j
bolorentas, dentro de uma gaveta, comiam-nas avidamente. Mrio andava
desassossegado com a ideia do que seu pai lhe ia dizer.



    XVIII
    O abutre convertido em presa



     Insistimos sobre um facto, psicolgico particular s barricadas. Nada do que
caracteriza esta maravilhosa guerra das ruas deve ser omitido.
     Por maior que seja a singular tranquilidade interior de que acabamos de falar,
a barricada, para os que dentro dela se acham, nem por isso deixa de ser uma
viso.
     A guerra civil tem o que quer que seja de apocalptico;  um conjunto de
clares terrveis acompanhados de toda a espcie de nvoas do incgnito. As
revolues so esfinges, e quem se v no meio de uma barricada julga-se ludibrio
de um sonho.
     O que em tais lugares se sente j o deixmos dito a propsito de Mrio.,
porm agora vamos a ver as suas consequncias, que so mais e menos do que a
vida. Quem uma vez sai de uma barricada no se recorda j do que nela viu.
Levamos o nosso denodo ao extremo do furor e ignoramo-lo. Vimo-nos rodeados
de ideias combatendo sob formas humanas; vimo-nos inundados da luz do futuro;
vimos cadveres estendidos no cho e fantasmas de p. As horas eram colossais e
pareciam as da eternidade.
     Vivemos na morte. Vimos deslizar sombras. Que seria? Vimos mos
manchadas de sangue; sentamos um ensurdecimento terrvel, reinava tambm
um silncio medonho; havia bocas abertas que gritavam, e outras tambm abertas,
que se conservavam silenciosas; era tudo fumo e talvez trevas. Julgamos ter tocado
a transudao sinistra das profundezas desconhecidas; olhamos e vemos um no
sei qu vermelho nas unhas. De mais nada nos recordamos.
     Voltemos  rua da Chanvrerie.
     Num intervalo entre duas descargas, ouviu-se, de repente, ao longe, um sino
dando horas.
     -  meio-dia - disse Combeferre.
     Ainda bem no tinham soado as doze badaladas, Enjolras alou-se em p e
bradou do alto da barricada em voz clamorosa:
     - Levem pedras para casa. Guarneam o parapeito da janela e as
guas-furtadas.
     Metade dos homens s espingardas, a outra metade s pedras. No h um
minuto a perder.
     Na extremidade da rua acabava de aparecer em ordem de batalha um peloto
de sapadores bombeiros, de machados ao ombro.
     No podia ser seno uma testa de coluna. Evidentemente da coluna de
ataque, por isso que os sapadores bombeiros encarregados de demolir a barricada,
deviam preceder os soldados encarregados de a escalar. Chegava-se
evidentemente ao momento a que o senhor de Clermont-Tonerre em 1822,
chamava decisivo.
     A ordem de Enjolras foi executada com a correcta presteza prpria dos navios
e das barricadas, nicos lugares de combate de onde  impossvel a evaso.
     Em menos de um minuto os dois teros de pedras que Enjolras fizera
amontoar  porta de Corinto foram levadas para o primeiro andar e para o sto,
e antes que houvesse passado um segundo minuto estavam todas aquelas pedras
colocadas artisticamente umas sobre as outras,, murando a janela do primeiro
andar e das guas-furtadas at meia altura, Alguns intervalos cuidadosamente
conservados por Feuilly, principal construtor, podiam deixar passar os canos das
espingardas. Este armamento das janelas pde fazer-se com tanta facilidade,
porque cessara a metralha. As duas peas tinham passado a atirar  bala, ao centro
da barricada, a fim de lhe fazer uma aberta, e, se fosse possvel, uma brecha para o
assalto.
     Depois de colocadas convenientemente as pedras destinadas a sustentar a
defesa suprema, mandou Enjolras levar para o primeiro andar da taberna as
garrafas que pusera sobre a mesa em que estava deitado o senhor Mabeuf.
     - Quem beber isto? - perguntou-lhe Bossuet.
     - Eles - respondeu Enjolras.
     Em seguida fortificaram a janela da loja e puseram ao alcance da mo as
barras de ferro, que serviam para de noite trancar interiormente a porta da
taberna, A fortaleza estava completa. A barricada era a trincheira, a taberna o
reduto.
     Com as pedras que restavam, taparam a abertura que servia de porta 
barricada.
     Como os defensores de uma barricada so sempre obrigados a poupar as
muni- es, e como os assaltantes o sabem, executam estes todos os seus preparos
com uma espcie de irritante sossego, expondo-se antes de tempo ao fogo, mais na
aparncia do que na realidade, e adaptando-se todas as comodidades. Os aprestes
do ataque fazem-se sempre com certo vagar metdico; depois do que cai o raio.
     Este vagar permitiu que Enjolras revisse e aperfeioasse tudo,. Tinha a
convico de que tais homens deviam morrer, portanto queria que a sua morte
fosse uma obra-prima.
     - Ns somos os dois chefes - disse ele a Mrio. - - Eu vou dar as ltimas
ordens no interior, tu conserva-te fora e observa.
     Mrio colocou-se em observao no alto da barricada. Enjolras mandou
pregar a porta da cozinha, que, como devem lembrar-se, era o hospital.
     - Nada de salpicar os feridos - disse ele.
     Em seguida deu as ltimas ordens na loja da taberna, com voz breve, mas
profundamente tranquila; Feuilly escutava e respondia em nome de todos.
     - No primeiro andar tenham os machados prontos para cortar a escada;
tm-nos?
     - Temos - disse Feuilly.
     - Quantos?
     - Dois machados e um malho.
     - Bem. Ns somos ainda vinte e seis combatentes.
     - Quantas espingardas temos?
     - Trinta e quatro.
     - Oito de mais. Tenham essas espingardas carregadas com as outras e ao
alcance da mo. A cintura os sabres e as pistolas. Na barricada vinte homens; os
seis restantes emboscados nas guas-furtadas e na janela do primeiro andar, para
fazerem fogo sobre os assaltantes atravs das seteiras que se deixaram entre as
pedras.  necessrio que no haja aqui um nico trabalhador intil. Daqui a
pouco, apenas o tambor tocar  carga, precipitem-se os vinte de baixo sobre a
barricada. Os que chegarem ali primeiro so os que ficaro mais bem colocados.
     Adoptadas estas disposies, voltou-se para Javert e disselhe:
     - No me esqueo de ti.
     E, pondo sobre a mesa uma pistola, acrescentou:
     - O ltimo que sair dar um tiro neste homem.
     - Aqui? - perguntou uma voz.
     - No, no misturemos este cadver com os nossos.
     A barricada pequena da rua Mondtour pode saltar-se, tem apenas quatro ps
de altura. O homem est bem amarrado, levem-no para l e executem-no ento,
Havia ali algum, que naquele momento estava mais impassvel do que Enjolras;
era Javert.
     Nisto apareceu Joo Valjean, que estava envolvido no grupo dos insurgentes.
     Saiu dele e disse a Enjolras:
     - O senhor  que  o comandante?
     - Sou.
     - H pouco dirigiu-me um agradecimento?
     - Em nome da repblica. A barricada tem dois salvadores:
     Mrio Pontmercy e o senhor.
     - Parece-lhe que mereo uma recompensa?
     - Sem dvida.
     - Ento tenho a pedir uma.
     - Qual ?
     - Ser eu quem abra o crnio a este homem.
     Javert levantou a cabea, viu Joo Valjean, fez um movimento imperceptvel e
disse:
     -  justo.
     Quanto a Enjolras, que se pusera a carregar a sua carabina, olhou  roda de si.
     - No h reclamao?
     E voltando-se para Joo Valjean:
     - Apodere-se do espio.
     Joo Valjean, tomou posse, com efeito, de Javert, sentando-se na extremidade
da mesa. Pegou na pistola e um pequeno estalido anunciou que a tinha armado.
     Quase ao mesmo tempo ouviu-se um toque de corneta.
     - s armas! - gritou Mrio do alto da barricada.
     Javert ps-se a rir com aquele riso surdo que lhe era prprio e fitando os
insurgentes, disselhes:
     - No tm mais sade do que eu.
     - Tudo fora! - gritou Enjolras.
     Os insurgentes correram em tumulto e, saindo da loja, receberam nas costas
estas palavras de Javert:
     - At logo!



    XIX
    Vingana de Joo Valjean



     Joo Valjean apenas se achou a ss com o prisioneiro, desatou a corda que o
prendia pelo meio do corpo, e cujo n fora dado por baixo da mesa. Depois disto
fez-lhe sinal para que se levantasse.
     Javert obedeceu, com o indefinvel sorriso em que se condensa a supremacia
da autoridade manietada.
     Joo Valjean pegou em Javert pela corda, como quem seguraria uma besta de
carga pelo cabresto e, puxando-o atrs de si, saiu da casa de pasto, lentamente,
visto que Javert no podia dar grandes passos por ter as pernas presas.
     Joo Valjean levava a pistola na mo.
     Atravessaram deste modo o trapzio interior da barricada. Os insurgentes
todos atentos ao ataque iminente, voltaram-lhe as costas.
     Somente Mrio, colocado na extremidade esquerda da barricada, os viu
passar.
     Aquele grupo do paciente e do algoz, iluminou-se-lhe com todo o claro
sepulcral que tinha na alma, Joo Valjean fez Javert subir, com algum custo mas
sem o largar um instante, a pequena barricada do beco Mondtour.
     Depois de saltarem a trincheira acharam-se ss no beco. Ali j ningum os
via. O cotovelo formado pelas casas ocultava-os aos insurgentes. A alguns passos
estava o horrvel monto de cadveres tirados da barricada.
     Distinguiam-se no monto dos mortos uma face lvida, uns cabelos soltos,
uma mo furada, e um seio de mulher meio nu. Era Eponina.
     Javert olhou de revs para a morta, e, profundamente sossegado, disse a meia
voz:
     - Parece-me que conheo aquela rapariga.
     Depois voltou-se para Joo Valjean.
     Joo Valjean meteu a pistola debaixo do brao e fitou em Javert um olhar que
no precisava de palavras para dizer:
     - Javert, sou eu.
     Javert respondeu:
     - Desforra-te.
     Joo Valjean tirou do bolso uma navalha e abriu-a.
     - Uma navalha! - exclamou Javert. - Tens razo.  o que te convm.
     Joo Valjean cortou-lhe a corda que tinha ao pescoo, depois as que lhe:
prendiam os punhos, em seguida baixou-se e cortou-lhe a que lhe atava os ps e,
endireitando-se, disselhe:
     - Ests livre, Javert no se admirava facilmente. Contudo, apesar de estar
senhor de si, no pde subtrair-se a uma comoo.
     Ficou imvel e de boca aberta.
     Joo Valjean prosseguiu:
     - Eu no creio que possa sair daqui. Todavia, se por acaso sair, moro na rua
do Homem Armado, nmero 7, sob o nome de Fauchelevent.
     Javert teve uma contraco de tigre, que lhe entreabriu um canto da boca e
murmurou por entre dentes:
     - Toma cuidado.
     - Pode ir.
     Javert continuou:
     - Tu disseste, Fauchelevent, rua do Homem Armado?
     - Nmero 7.
     Javert repetiu a meia voz:
     - Nmero 7.
     Tornou a abotoar a sobrecasaca, restituiu aos ombros a inflexibilidade militar,
cruzou os braos, sustentando a barba numa das mos, e comeou a caminhar na
direco dos Mercados. Joo Valjean seguiu-o com a vista. Javert depois de dar
alguns passos voltou-se para trs e gritou a Joo Valjean:
     - O senhor est-me desgostando. Mate-me antes.
     Javert nem reparava que j no; tratava Joo Valjean por tu.
     - V-se embora - disse Joo Valjean.
     Javert afastou-se vagarosamente. Passado um momentovoltou a esquina da
rua dos Pregadores.
     Joo Valjean, apenas Javert desapareceu, disparou a pistola para o ar. Depois
entrou na barricada e disse:
     - Pronto.
     Entretanto, eis o que ocorrera:
     Mrio, mais ocupado com o exterior do que com o interior, no tinha at
ento; dado muita ateno ao espio quase oculto na escura loja.
     Quando: o viu  claridade do dia, atravessando a barricada para ir morrer,
reconheceu-o e sentiu entrar-lhe no esprito sbita recordao. Recordou-se do
inspector da rua de Pontoise e das duas pistolas que lhe tinha dado; e de que ele,
Mrio, se servira na barricada; e no somente se lhe recordou da fisionomia, mas
tambm do nome.
     Todavia, esta recordao era nebulosa e embaraada como todas as suas
ideias.
     No foi uma afirmativa que apresentou a si mesmo, foi uma pergunta que se
dirigiu:
     - No foi este o inspector de polcia que me disse chamar-se Javert?
     Talvez fosse ainda tempo de intervir a favor: daquele homem. Mas em
primeiro lugar precisava saber se era, com efeito, Javert.
     Mrio chamou Enjolras, que acabava de se postar no outro extremo da
barricada:
     - Enjolras!
     - O que ?
     - Como se chama aquele homem?
     - Qual homem?
     - O agente de polcia. Sabes o seu nome!
     - Sei. Foi ele que mo disse.
     - Ento como se chama?
    - Javert.
    Mrio endireitou-se.
    Neste momento ouviu-se um tiro de pistola.
    Joo Valjean tornou a aparecer, e gritou:
    - Pronto.
    Mrio sentiu apertar-se-lhe o corao



    XX
    Os mortos tm razo e os vivos tambm



     A agonia da barricada ia comear.
     Tudo concorria para a majestade trgica daquele momento supremo: mil
estrondos misteriosos na atmosfera, a respirao das massas armadas postas em
Movimento nas ruas que se no viam, o galope intermitente da cavalaria, o pesado
rodar da artilharia avanando, as descargas de peloto e os tiros de pea
cruzando-se no ddalo de: Paris, o fumo da batalha, elevando-se dourada acima
dos telhados, no sei que gritos longnquos vagamente terrveis, por toda a parte
relmpagos de ameaa, o toque de rebate de Saint-Merry, que ento se assemelha
a soluos, a suavidade da estao o!
     esplendor do firmamento cheio de sol e de nuvens, a beleza do dia e o
espantoso silncio das casas.
     Porque desde a vspera que as duas fileiras de casas da rua da Chanvrerie se
tinham transformado em muralhas; muralhas impraticveis. Portas, janelas,
postigos, tudo fechado.
     Naqueles tempos to diferentes destes em que estamos, quando chegava a
hora em que o povo queria pr termo a uma situao que durara
demasiadamente, quando queria acabar com uma carta outorgada ou com um
pas legal, quando a clera universal se achava difundida na atmosfera, quando a
cidade consentia que lhe descalassem as ruas,, quando a insurreio fazia sorrir a
burguesia, segredando-lhe ao ouvido a palavra de ordem, ento o habitante, por
assim dizer penetrado da revolta, era o auxiliar do combatente, e a casa
fraternizava com a fortaleza improvisada que se apoiava nela. Quando a situao
no estava madura, quando a insurreio no era decididamente consentida,
quando a massa negava o movimento:, m sorte era a dos combatentes, a cidade
transformava-se num deserto  roda da revolta, as almas gelavam-se, os asilos
muravam-se e a rua tornava-se desfiladeiro para ajudar o exrcito a tomar a
barricada.
     Por surpresa no se faz caminhar um povo mais depressa do que ele quer.
     Desgraado do que intenta forar-lhe a mo! Um povo no deixa que faam
dele o que quiserem. Ento: abandona a insurreio a si mesma. Os insurgentes
tornaram-se empestados. Uma casa  uma escarpa, uma porta uma recusa, uma
fachada  um muro. Este muro v, ouve e no o quer dar a conhecer. Poderia
entreabrir-se e salvar-vos. Que sombrias so as casas fechadas. Parecem moitas e
esto vivas. A vida ali est como suspensa, mas persiste. Ningum sai delas  vinte
e quatro horas; mas ningum ali falta. No interior dessa rocha andam de um para
outro lado, deitam-se, levantam-se; esto reunidas as famlias, come-se, bebe-se,
tem-se medo, terrvel coisa! O medo desculpa essa inospitalidade temvel; e
junta-se-lhe o pasmo como circunstncia atenuante. Algumas vezes, j se tem
visto, o medo; torna-se paixo o susto; pode tornar-se em fria, como a prudncia
em raiva; daqui a frase profunda: Os danados dos moderados. H crepitaes de
espanto supremo de onde sai, como uma fumaa lgubre, a clera.
     - O que quer essa gente? Nunca est contente. Comprometem os homens
pacficos. Parece que no esto ainda fartos de revolues! O que vieram aqui
fazer?
     Avenham-se como puderem. Tanto pior para eles. A culpa  sua. No tm
seno: o que merecem. No temos nada com tudo isto. A fica a nossa pobre rua
toda crivada de balas. E um bando de vagabundos. Cuidado no abram a porta.
     E a casa toma o aspecto; de um tmulo. O insurgente agoniza diante dessa
porta; v aproximarem-se-lhe a metralha e os sabres nus; se grita, sabe que o
ouvem, mas que lhe no acudiro; h ali paredes que poderiam proteg-lo,
homens que poderiam salv-lo; e essas paredes tm ouvidos de carne, e esses
homens tm entranhas de pedra.
     Quem se h-de acusar?
     Ningum, e todos.
     Os tempos incompletos em que vivemos.
      sempre por sua conta e risco que a utopia se transforma em insurreio,
que de protesto filosfico se torna em protesto armado, e de Minerva se torna
Palas. A utopia que se impacienta e se faz revolta sobre o que a espera, quase
sempre chega demasiadamente cedo. Ento resigna-se e aceita estoicamente, em
vez do triunfo a catstrofe.
     Serve sem se queixar e at desculpando-os, aqueles que o renegam, e a sua
magnanimidade consiste em consentir o abandono.  indomvel contra o
obstculo e meiga para com a ingratido.
     Mas, no fim de tudo, h ingratido?
     Sim, em relao ao gnero humano.
     No, em relao ao indivduo.
     O progresso:  o modo de ser do homem. A vida geral do gnero humano
chama-se Progresso; o passo colectivo do gnero humano chama-se Progresso. O
progresso caminha; faz a grande viagem humana e terrestre para o celeste e o
divino, tem os seus pontos de alto onde rene o bando que se deixou ficar atrs;
tem as suas estaes onde meditar, em presena de qualquer Chama esplndida,
desvendada de repente no seu horizonte; tem as suas noites em que dorme; e 
uma das pungentes aflies do pensador ver a sombra por de sobre a alma
humana,, apalpar nas trevas, sem poder despert-lo, o progresso adormecido.
     - Deus est talvez morto - dizia um dia Gerard de Nerval a quem escreve estas
linhas, confundindo o progresso com Deus e tomando a interrupo do
movimento pela morte do Ente.
     Quem desespera no tem razo. O progresso acorda infalivelmente, e, em
suma, poder-se-ia dizer que caminha, mesmo dormindo porque cresce. Quando
se torna a encarar de p, v-se que est mais alto. Estar sempre pacfico no  mais
prprio do progresso do que do rio; no lhe oponhais diques; no lhe lanceis
rochedos; o obstculo faz espumar a gua e ferver a humanidade. Daqui as
perturbaes; mas depois delas reconhece-se que h caminho adiantado. At que a
ordem, que no  seno a paz universal, seja estabelecida, at que reinem a
harmonia e a unidade, ter o progresso de pr ponto alto s revolues.
     O que  pois, o progresso? Acabmos de o dizer.  a vida permanente dos
povos.
     Ora, sucede algumas vezes, que a vida momentnea dos indivduos ope
resistncia  vida eterna do gnero humano.
     Confessemo-lo sem amargor, o indivduo tem o seu interesse distinto;, e pode
sem prevaricao fazer estipiraes a favor desse interesse e defend-lo; o presente
tem a sua qualidade desculpvel de egosmo; a vida momentnea tem o seu direito
e no  obrigada a sacrificar-se incessantemente ao futuro. A gerao, que tem
actualmente a sua vez de passagem na terra, no  forada a resumi-la a favor das
geraes, no fim de tudo suas iguais, que tero essa vez mais tarde.
     - Existo -, murmura esse algum que se chama Todos. - Sou moo e estou
enamorado, sou velho e quero descansar, sou pai de famlia, trabalho, prospero,
fao negcios vantajosos, tenho casas para alugar, emprestei dinheiro ao Estado,
sou feliz, tenho mulher e filhos, amo, tudo isto, desejo viver, deixai-me tranquilo.
     Daqui, em certos momentos, profunda frieza nas magnnimas avanadas do
gnero humano.
     No fim de tudo  necessrio convir que a utopia, fazendo a guerra, sai da sua
esfera radiante. Ela, a verdade de amanh, pede emprestado  mentira de ontem o
seu meio, a batalha. Ela, o futuro, procede como o passado. Ela, a ideia pura,
toma-se via de facto. Deslustra o seu herosmo com uma violncia pela qual deve
com justia responder; violncia de ocasio e de apuro, contrria aos princpios, e
de que  fatalmente punida.
     A utopia insurreio, combate com o velho cdigo militar em punho;
espingar-deia os espies, executa os traidores, suprime entes vivos e lana-os nas
trevas desconhecidas. Coisa assaz grave: serve-se da morte.
     Parece que a utopia no tem j f no seu esplendor na sua fora incorruptvel.
     Fere com o gldio. Ora, o gldio simples no existe. Todas as espadas tm
dois gumes; quem fere com um fere-se com o outro.
     Depois de enunciarmos esta reserva, e com toda a severidade, no nos 
possvel deixar de admirar, tenham ou no bom xito, os gloriosos combatentes
pelo futuro, os proclamadores da utopia. Ainda quando os esforos abortam, so
venerveis, e  talvez na derrota que se mostram mais majestosos. A vitria,
quando  ganha segundo o progresso, merece o aplauso dos povos; mas uma
derrota herica merece o seu enternecimento. Uma  magnfica, a outra  sublime.
Para ns, que preferimos o martrio ao bom xito, John Brown  superior a
Washington, e Pisacane a Garibaldi.
      necessrio que algum seja pelos vencidos.
     Somos injustos para com esses grandes ensaiadores do futuro, que no
conseguem o seu fim.
     Acusam os revolucionrios de semear o susto. Toda a barricada parece
atentado.
     Incriminam-lhes as teorias, suspeitam-lhes dos fins, temem-lhes as segundas
tenes, denunciam-lhes a conscincia. Repreendem-nos por construrem e
amontoarem contra o facto social reinante um acervo de misrias, de iniquidades,
de dores, de vexames, de desesperos e de arrancarem das profundidades penedos
de trevas, para nelas se fortificarem e combaterem. Gritam-lhes: Vs descalais o
inferno! Mas eles poderiam responder:  por isso que a nossa barricada  feita
de boas intenes.
     O melhor, indubitavelmente,  a soluo pacfica.
     Em suma, concordamos: quando se v atirar uma pedra, teme-se o levar com
ela;  uma boa vontade com que a sociedade se inquieta. Mas depende da
sociedade salvar-se a si mesma;  para a sua prpria vontade que apelamos. No 
necessrio remdio algum violento. Estudar o mal amigavelmente, conhec-lo e
depois cur-lo.  para isto que a convidamos.
     Seja como for, ainda cados, principalmente cados, so augustos os homens
que em todos os pontos do universo, com os olhos fitos na Frana, lutam em prol
da grande obra, escudados com a lgica inflexvel do ideal; do
desinteressadamente a vida pelo progresso; cumprem a vontade da Providncia;
desempenham um acto religioso.
      hora dada, com tanto desinteresse como o de um actor aceitando a deixa,
obedecendo ao contra-regra divino, entram no tmulo.
     Neste combate sem esperana, nesta desapario estica, aceitam, para o
conduzirem s suas supremas e esplndidas consequncias universais, o magnfico
movimento humano, irresistivelmente comeado em 14 de Julho de 1789; esses
soldados so sacerdotes. A revoluo francesa  um gesto de Deus.
     No fim de tudo - convm juntar esta distino s distines j indicadas
noutro captulo: - h insurreies aceitas que se chamam revolues; h
revolues rejeitadas que se chamam revoltas. Uma insurreio rebentando  uma
ideia fazendo o seu exame perante o povo.
     Se o povo deixa cair a sua esfera preta, a ideia  fruto seco; a insurreio 
temeridade.
     Entrar em guerra a qualquer aprazamento e sempre que a utopia o deseja, no
 coisa que esteja nas mos dos povos. As naes no tm a todo o momento o
temperamento dos heris e dos mrtires.
     So positivas.  priori, a insurreio repugna-lhes; em primeiro lugar, porque
muitas vezes resulta dela uma catstrofe, depois, porque tem sempre por ponto de
partida uma abstraco.
     Porque - e isto  belo -  sempre pelo ideal, que se dedicam os que se dedicam.
     Uma insurreio  um entusiasmo. O entusiasmo pode encolerizar-se; daqui
os armamentos. Mas, toda a insurreio cuja pontaria se dirige a um governo ou a
um sistema, mira a mais alto. Assim, por exemplo insistimos nisto - o que os
chefes da insurreio de 1832 combatiam, e particularmente os jovens entusiastas
da rua da Chanvrerie, no era precisamente Lus Filipe. A maior parte, falando
francamente, fazia justia s boas qualidades daquele rei mdio entre a monarquia
e a revoluo; nenhum o odiava. Mas atacavam o ramo mais novo do direito
divino em Lus Filipe, como tinham atacado o ramo mais velho em Carlos X; e o
que eles queriam derrubar, derrubando a realeza em Frana, era a usurpao do
homem sobre o homem: e do privilgio sobre o direito em todo o universo. Paris
sem rei d em resultado o mundo sem dspota. Era deste modo que eles
raciocinavam. O seu fim estava, decerto longe, era talvez vago e recuava diante do
esforo, mas era grande.
     Isto  assim. E h quem se sacrifique por estas vises, que para os sacrificados
so quase sempre iluses, mas iluses s quais, em suma, se alia toda a certeza
humana. O insurgente poetiza e doira a insurreio. Lanam-se nestas coisas
trgicas, embriagando-se com o que, vo fazer. Quem sabe? Talvez se saiam bem.
 pequeno o seu nmero; tm contra si um exrcito inteiro; mas defendem o
direito, a lei natural, a soberania de cada um sobre si mesmo, que no tem
abdicao possvel, a justia, a verdade; e, sendo preciso, morrem, como os
trezentos espartanos. No pensam em D.
     Quixote, mas sim em Lenidas, Vo para a frente e, uma vez travada a luta, j
no recuam, precipitam-se furiosamente, tendo por esperana uma vitria
inaudita, a revoluo completa, o progresso posto em liberdade, o
engrandecimento do gnero humano, a libertao universal; e supondo o pior, as
Thermopylas.
     Estes passos de armas a favor do progresso so muitas vezes malogrados,
acabmos de dizer porqu. A turba  rebelde ao enlevo dos paladinos. As pesadas
massas, as multides, frgeis por causa do seu prprio peso, temem as aventuras; e
no ideal h aventura.
     Depois - no esquea isto - os interesses persistem to pouco amigos do ideal
como do sentimental. Algumas vezes o estmago paralisa o corao, A grandeza e
a beleza da Frana consistem em ter ela menor barriga do que os outros povos;
aperta facilmente os rins com a corda.  a primeira que desperta, a ltima que
adormece. Vai sempre na frente.  investigadora.
     Isto provm dela ser artista.
     O ideal no  mais que um ponto culminante da lgica, assim como o belo  o
cume do verdadeiro. Os povos artistas so tambm os povos consequentes. Amar
a beleza,  ver a luz.  por isto que o facho da Europa, quer dizer, da civilizao,
foi sustentado, primeiro pela Grcia, que o passou  Itlia, e esta  Frana.
     Divinos povos batedores! Vitae Lampada tradunt.
      Admirvel coisa! A poesia de um povo  o elemento do seu progresso. A
quantidade de civilizao mede-se pela quantidade de imaginao; mas o povo
civilizador deve conservar-se varonil. Corinto, sim; Sibaris, no. Quem se efemina
degenera.  preciso no ser diletante nem virtuoso; mas  necessrio ser artista.
Em matria de civilizao,  necessrio no refinar, mas sublimar. Com esta
condio d-se ao gnero humano o molde do ideal.
      O ideal moderno tem o seu tipo na arte, e o seu meio na conscincia.  com a
cincia que se h-de realizar a viso augusta dos poetas: o belo social.
Reconstruir-se- o den com o A+B. No ponto a que a civilizao tem chegado, o
exacto  um elemento necessrio do esplndido, e o sentimento artstico  no
somente servido, mas completo pelo rgo cientfico; o sonho deve calcular. A
arte, que  a conquistadora, deve ter por ponto de apoio a cincia que  a
caminhante. Deve atender-se  solidez do meio de transporte. O esprito moderno
 o gnio da Grcia, tendo por veculo o gnio da ndia; Alexandre sobre o
elefante.
      As raas petrificadas do dogma, ou desmoralizadas pelo medo, so
imprprias para condutoras da civilizao. A genuflexo perante o dolo ou
perante o dinheiro disseca o mundo que caminha e a vontade que avana. A
absoro hiertica ou mercantil diminui o brilho de um povo, baixa-lhe o
horizonte, baixando-lhe o nvel, retira-lhe a inteligncia, ao mesmo tempo divina
e humana, do fim universal, que produz as naes missionrias. Babilnia e
Cartago no tm ideal. Atenas e Roma conservam, ainda atravs de toda a
espessura nocturna dos sculos, aurolas de civilizao.
      A Frana tem a mesma qualidade de povo que a Grcia e a Itlia.  ateniense
pelo belo e romana pelograndioso. Alm disto  bondosa. Sente-se mais
frequentes vezes do que qualquer outro povo, disposta para a dedicao e
sacrifcio. S o que tem,  que esta disposio desvanece-se-lhe com a mesma
facilidade com que lhe surge,  onde est o grande perigo para os que correm,
quando ela apenas quer caminhar. A Frana tem suas recadas de materialismo, e,
em certos momentos, as ideias que obstruem to sublime crebro no tm nada
que recorde a grandeza francesa, e so das dimenses de um Missuri ou de uma
Carolina do Sul, O que se lhe h-de fazer? A giganta finge de an; a imensa Frana
tem as suas fantasias de pequenez. Eis o que .
      A isto no h que dizer. Os povos tm, como os astros, O direito de eclipse.
Tudo vai bem, contanto que a luz volte e que o eclipse no degenere em noite.
Aurora e ressurreio so sinnimos. A reapario da luz  idntica  persistncia
do cu.
     Registemos estes factos com serenidade. A morte na barricada, ou o tmulo
no desterro, so, para a dedicao, casos aceitveis. O verdadeiro nome da
dedicao  desinteresse. Deixem-se abandonar os abandonados, desterrar os
desterrados, e limitemo-nos a suplicar aos grandes povos, que quando recuem no
recuem demasiadamente.  preciso que sobre pretexto de regresso  razo, se no
avance demasiadamente na descida.
     A matria existe, o momento existe, os interesses existem, o estmago existe;
mas  preciso que o estmago no seja a nica sabedoria. A vida momentnea tem
o seu direito, admitimo-lo, mas a vida permanente tambm tem o seu. Ah, estar
em cima, no impede de cair! V-se isto na histria mais do que para desejar.
     Uma nao  ilustre; saboreia o ideal, depois morde o lobo e acha-lhe bom
sabor; se lhe perguntam porque razo abandona Scrates por Falstaf responde:
Porque gosto dos homens de Estado.
     Uma palavra ainda antes de voltar  refrega.
     Uma batalha como a que estamos descrevendo, no  seno uma convulso
para o ideal. O progresso pesado e doentio tem trgicas epilepsias. A doena do
progresso, a guerra civil, tivemos ns de a encontrar em nosso caminho.  essa
uma das fases fatais, ao mesmo tempo acto e entreacto do drama, cujo eixo  um
rprobo social e cujo verdadeiro ttulo : O Progresso.
     O Progresso!
     Este grito que nos soltamos repetidas: vezes  todo o nosso pensamento, e, no
ponto a que chegmos deste drama, tendo a ideia que ele contm mais de uma
provao porque passar, nos  talvez permitido, se no erguer o vu que a oculta,
pelo menos deix-la transparecer claramente.
     O livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos, , do princpio at
ao fim, no todo e nos pormenores, quaisquer que sejam as intermitncias, as
excepes ou desfalecimentos:, o caminhar do mal para o bem, do injusto para o
justo, do falso para o verdadeiro, da noite para o dia, do apetite para a conscincia,
da podrido para a vida, da bestialidade para o raciocnio, do inferno para o cu,
do nada para Deus.
     Ponto de partida: matria; ponto de chegada: a alma. No comeo, hidra; no
fim, anjo.
    XXI
    Os heris



     De repente ouviu-se o tambor rufando  carga.
     O ataque foi a tempestade. Na vspera a barricada atacada silenciosamente
como por uma jibia. Mas depois,  luz do dia, era de todo impossvel a surpresa;
alm disso, tinha-se desmascarado a viva fora, a artilharia comeava a rugir. o
exrcito precipitou-se sobre a barricada. A fria tornara-se habilidade.
     Uma potente coluna de infantaria de linha, cortada em intervalos iguais pela
guarda nacional e municipal a p e apoiada em massas compactas, que se sentiam
sem se verem, desembocou da rua a passo de carga, com o tambor rufando, a
corneta soando, de baionetas cruzadas, com os sapadores na frente, imperturbvel
sob os projcteis, e caiu sobre a barricada com o peso de um arete contra uma
muralha.
     A muralha resistiu.
     Os insurgentes fizeram fogo impetuosamente. O reduto ante a escalada
mostrou uma crina de relmpagos; o assalto foi to desesperado, que a barricada
esteve por um instante inundada de assaltantes; mas sacudiu os soldados como o
leo os ces, e no se cobriu de assaltantes seno como o rochedo de espuma, para
tornar a aparecer aps um instante, escarpada, negra e formidvel.
     A coluna, forada a recuar, permaneceu cerrada na rua, a descoberto, mas
terrvel, e replicando ao reduto com medonhas descargas. Quem tenha
presenciado um fogo de vistas, deve recordar-se do feixe formado por um
cruzamento de raios, a que chamam ramalhete. Imagine-se esse ramalhete, no
vertical, mas horizontal, levando uma bala, um quarto, ou um biscainho na ponta
de cada um dos seus jactos de fogo, e debulhando a morte dos seus cachos de
troves. Por baixo estava a barricada.
     A resoluo era igual de ambos os lados. A bravura ali era quase brbara e
aliava-se uma espcie de ferocidade herica, que comeava pelo sacrifcio prprio.
Era a poca em que um guarda nacional se batia como um zuavo. A tropa queria
acabar com aquilo; a insurreio queria lutar. A aceitao da agonia em plena
mocidade e em plena sade, transforma a intrepidez em frenesi. Cada um naquela
refrega tinha o engrandecimento da hora suprema. A rua juncou-se de cadveres.
     A barricada conservava numa das suas extremidades Enjolras, e na outra
Mrio..
     Enjolras, que tinha toda a barricada no crebro, preservava-se e abrigava-se,
trs soldados caram sucessivamente sob a seteira sem ao menos o terem visto;
Mrio combatia a peito descoberto. Fazia-se ponto de mira. Tinha mais de meio
corpo fora da crista do reduto. No  possvel haver prdigo mais violento do que
o cavalo que toma o freio nos dentes; no h homem mais medonho na aco do
que um sonhador. Mrio estava formidvel e pensativo. Conservava-se no meio
da batalha como no meio de um sonho. Dir-se-ia ser um fantasma disparando
uma espingarda.
     Os cartuchos dos sitiados iam-se-lhes acabando; os sarcasmos no. No
turbilho do sepulcro em que estavam, riam-se.
     Courffeyrac estava com a cabea descoberta.
     - Que fizeste do chapu? - perguntou-lhe Bossuet.
     Courffeyrac respondeu:
     - Acabaram por mo tirar da cabea a tiros de pea.
     Ou ento diziam coisas altivas.
     -  impossvel compreenderem-se estes homens! - exclamava amargamente
Feuilly (e citava-lhes os nomes, nomes conhecidos, at clebres, e alguns do antigo
exrcito) - Que tinham prometido juntar-se-nos, jurado ajudar-nos e empenhado
nisso a sua honra, que so nossos generais e que nos abandonam!
     E Combeferre limitava-se a responder-lhe com grave sorriso:
     - H gente que observa as regras da honra como se observam as estrelas, de
muito longe.
     O interior da barricada estava de tal modo semeado de papis e cartuchos,
que parecia ter ali cado neve.
     Os assaltantes tinham por si o nmero, os insurgentes a posio. Estavam no
alto de uma muralha e fulminavam  queima-roupa os soldados estrebuchando
sobre os mortos e os feridos e embaraados pela escarpa. Aquela pela escarpa.
Aquela barricada, construda como estava e admiravelmente amparada pela parte
de dentro., era com efeito uma das posies em que um punhado de homens
contm uma legio.
     Contudo, a coluna de ataque aumentando sempre sob a chuva de balas,
aproximava-se inexoravelmente, mas ento a pouco e pouco, passo a passo, com
firmeza; o exrcito apertava a barricada como a vara de um lagar.
     Os assaltos tornavam-se sucessivos. O horror ia aumentando.
     Ento travou-se sobre aquele monto de pedras, naquela rua de Chanvrerie,
uma luta digna de uma muralha de Tria. Aqueles homens, macilentos, rotos,
exaustos, que no comiam havia vinte e quatro horas, que no tinham dormido,
que s podiam atirar mais alguns tiros, que apalpavam as algibeiras vazias de
cartuchos, quase todos feridos, com a cabea ou com o brao envolto num trapo
enegrecido, tendo no fato buracos por onde corria sangue, apenas armados com
ms espingardas e Velhos sabres ferrugentos, tornavam-se Tits. A barricada foi
dez vezes investida, assaltada e escalada, mas nunca tomada.
     Para se fazer ideia de uma tal luta, dever-se-ia imaginar que tinha pegado o
fogo num monto de coragens terrveis e que se presenciava o incndio.
     No era combate, era o interior de uma fornalha; as bocas ali respiravam
chamas, os rostos eram extraordinrios. A forma humana parecia ento
impossvel, os combatentes flamejavam, e era monstruoso ver agitar no meio do
fumo vermelho aquelas salamandras da refrega. Renunciamos  pintura das
sucessivas e simultneas cenas daquela grandiosa matana. S a epopeia tem o
direito de encher doze mil versos com uma batalha.
     Ter-se-ia dito ser o inferno do bramanismo, o mais temvel dos dezassete
abismos, a que o Veda chama Floresta das Espadas.
     Batiam-se corpo a corpo, passo a passo,  cutilada, a soco de longe, de perto,
de alto, de baixo por toda a parte, do telhado do prdio, das janelas da taberna e
das frestas da cave para onde alguns tinham descido. Eram um contra sessenta. A
fachada de Corinto, meio demolida, estava hedionda. A janela, picada pela
metralha, perdera vidros e caixilhos e no era mais do que um buraco informe,
tumultuosamente tapada com pedras de calada. Bossuet, Feuilly, Courffeyrac e
Joly foram mortos; Combeferre, atravessado por trs baionetadas no momento em
que levantava um soldado ferido, s teve tempo de olhar para o cu e expirar.
     Mrio no cessava de combater um instante, porm achava-se to crivado de
feridas, principalmente na cabea, que ao ver-lhe o sangue que abundantemente
lhe escorria pelo rosto, dir-se-ia que um leno vermelho lho cobria.
     S Enjolras era o nico intacto. Quando no tinha arma, estendia a mo para
um ou outro lado, e algum dos insurgentes lhe passava uma. De quatro espadas,
com que havia combatido, mais uma do que as de Francisco I em Marignan,
apenas lhe restava um fragmento da quarta.
     Homero diz: Diomedes degola Axylo, filho de Teuthrania, que habitava na
feliz Arisba; Euryalo, filho de Mecisteu, extermina Dresos e Opheltios, Esepo e
esse Pedaso que a naiade Abarbara concebeu, do irrepreensvel Bucolionte;
Ulisses prostra por terra Pydito de Percose, Antiloquo, Ablero; Polypetes, Astyalo,
Polydamente, Otos de Cyllene; e Teucro, Arethaonte. Meganthios morre aos
golpes da lana de Eurypikx Againemnon, rei dos heris, deita por terra Eslatos,
nascido na escarpada cidade banhada pelo sonoro rio Satnois.
     Nos nossos antigos poemas de Gestes, Esplandiano ataca com um bisegre de
fogo o marqus gigante Swantiboro, o qual se defende apedrejando o cavaleiro
com as torres que arranca do solo Em algumas paredes antigas, vem-se pinturas a
fresco, representando os dois duques de Bretanha e Bourbon, armados;, cheios de
timbres e brases de guerra, a cavalo e em atitude de se investirem, de acha de
armas em punho, mscaras de ferro no rosto, grevas e guantes, um ajaezado de
arminho, o outro vestido de azul; Bretanha com o seu leo entre as duas pontas da
sua coroa, Bourbon com um capacete em forma de monstruosa flor de lis com
viseira. Para parecer sublime, porm, no  preciso trazer como Yvon o morrio
ducal, empunhar como Esplandiano uma chama viva, ou como Phileu, pai de
Polydamante, ter trazido de Ephyro uma excelente armadura, presente do rei dos
homens Eupheto; basta dar a vida por qualquer convico ou lealdade. Vedes
aquele galucho, ainda ontem aldeo de Beauce ou Limousin, girando, de baioneta
ao lado, em volta das criadas que vo passear os meninos ao Luxemburgo? Vedes
aquele estudante plido, inclinado sobre uma pea anatmica ou sobre um livro,
louro adolescente que faz a barba com a tesoura das unhas, vede-los? Pegai neles,
insuflai-lhes o sentimento do dever, colocai-os em frente um do outro no largo de
Boucherat ou no beco de Planche-Mibray, e que um combata pela sua bandeira,
outro pelo seu ideal, de modo que ambos imaginem que combatem pela ptria;
vereis como a luta se torna colossal; vereis como a sombra produzida por esse
galucho e esse aprendiz de cirurgia no grande campo pico em que a humanidade
luta, igualar a sombra projectada por Megaryonte, rei da Lycia, cheia de tigres,
arcando peito a peito com o imenso Ajax, igual aos deuses.



    XXII
    Palmo a palmo



    Mortos todos os outros chefes,  excepo de Mrio e de Enjolras que se
achavam nas duas extremidades da barricada, o centro, que durante tanto tempo
havia sido defendido por Courffeyrac, Joly, Bossuet, Feuilly e Combeferre,
principiou a bater em retirada. O fogo das peas, posto no abrisse brecha
bastante para a tomada do reduto, tinha-lhe, contudo, feito um grande rombo no
meio, de modo que neste stio, a parede da barricada acabara por aluir-se ao
impulso das balas, formando, por ltimo, os destroos, tanto da parte interna
como da parte externa da barricada, duas espcies de taludes, dos quais o segundo,
isto , o da parte exterior, oferecia aos assaltantes um plano inclinado.
     Por a tentaram estes ltimos um supremo assalto, mais bem sucedido que os
outros. A massa, eriada de baioneta e a passo acelerado, chegou irresistvel, e a
espessa vanguarda da coluna de ataque apareceu por entre o nevoeiro de fumo no
alto do talude. Desta feita, o assalto era decisivo. O grupo dos insurgentes que
defendia o centro recuou tumultuosamente.
     Ento despertou em alguns o sombrio amor  vida. Ao verem apontada
contra eles aquela floresta de espingardas muitos perderam o desejo de morrer. 
este o momento em que o instinto da conservao solta rugidos e em que no
homem reaparece a besta.
     Os insurgentes achavam-se situados junto  elevada casa de seis andares, que
formava o fundo da barricada. Esta casa podia ser a salvao, porm achava-se
trancada como que murada, desde o primeiro at ao ltimo andar. Antes que a
tropa de linha penetrasse no interior do reduto, podia, com a rapidez do
relmpago, abrir-se e fechar-se uma porta, que, assim aberta e fechada de repente,
seria a vida para aqueles, infelizes. Por trs daquela casa, havia ruas, a
possibilidade da fuga, o espao.
     Principiaram, pois, a bater s portas com as coronhas das armas e com os ps,
gritando, chamando, suplicando de mos erguidas. Ningum, porm, a veio abrir.
Apenas do postigo do terceiro andar continuava a contempl-los a cabea mvel
do porteiro assassinado por Le Cabuc.
     Porm, Enjolras, Mrio e mais sete ou oito que se lhes haviam agregado,
postaram-se na frente deles, protegendo-os. Enjolras gritou aos soldados:
     - No avancem!
     E, como um oficial no obedecesse, fez-lhe pontaria e matou-o.
     Achava-se agora no pequeno ptio interior do reduto, encostado  casa de
pasto, de espada numa mo e clavina na outra, guardando a porta aberta e
rechaando os assaltantes. Gritou para os desesperados:
     - A nica porta aberta  esta!
     E, cobrindo-os com o seu corpo, afrontando s um batalho inteiro,
mandou-os passar por trs de si, o que eles fizeram, precipitadamente. Enjolras,
executando com a clavina, de que agora se servia como de uma bengala, o que os
jogadores de pau chamam vira-octas, baixou as baionetas que o cercavam e entrou
na retaguarda dos outros, dando-se ento uma luta horrvel entre os soldados, que
queriam entrar, e os insurgentes, que forcejavam por fechar a porta. Afinal, foi
esta fechada com tal violncia, que, ao bater na ombreira, apanhou os cinco dedos
de um soldado, cortando-lhos e deixando-lhos apertados entre a madeira e a
pedra.
     Mrio ficou da parte de fora. Um tiro de espingarda acabava de quebrar-lhe a
clavcula, em virtude do que se sentiu desfazer e quase prestes a cair. Neste
momento, com os olhos j fechados, sentiu o contacto de uma robusta mo, que o
agarrava, e o desmaio, no qual perdeu o acordo, deixou-lhe apenas tempo para
este pensamento, unido  suprema lembrana de Cosette: Estou prisioneiro, vou
ser fuzilado! Enjolras, no vendo Mrio entre os que se tinham refugiado na casa
de pasto, teve a mesma lembrana. Aqueles homens, porm, achavam-se nesse
instante em que cada qual s tem tempo para pensar na sua prpria morte.
Enjolras deitou a tranca  porta, correu-lhe os ferrolhos e deu duas voltas 
fechadura e ao cadeado, ao mesmo tempo que da parte de fora batiam
furiosamente, os soldados com as coronhas das armas, os sapadores com os
machados. Os assaltantes tinham-se juntado  porta da loja. Era o ataque da casa
de pasto que agora ia comear.
     Cumpre dizer, os soldados estavam furiosos.
     Alm da morte do sargento de artilharia, que os irritara, outra circunstncia
mais terrvel se dava, e vinha a ser que, poucas horas antes do ataque, algum
espalhara entre eles que os insurgentes mutilavam os prisioneiros, como o
testemunhava o cadver de um soldado sem cabea que se achava na loja da casa
de pasto.
     Esta qualidade de rumor fatal  o acompanhamento das guerras civis, e foi
um falso boato desta natureza que depois veio a causar a catstrofe da rua
Transnonain.
     Trancada a porta, Enjolras disse para os outros:
     - Vendamos caro a vida!
     Em seguida aproximou-se da mesa em que jaziam Mabeuf e Gavroche, e
onde, por baixo do xaile preto, se viam dois vultos estendidos e inteiriados, um
maior outro mais pequeno, e de modo que os dois rostos se desenhavam
vagamente sob as frias dobras do sudrio. Debaixo do xaile saa uma mo lvida,
que pendia para o cho. Era a do velho.
     Enjolras inclinou-se e beijou aquela veneranda mo, como no dia antecedente
lhe beijara a fronte.
     Eram aqueles dois beijos os nicos que ele, em toda a sua vida, tinha dado.
     Resumamos. A barricada lutara como uma porta de Tebas; a casa de pasto
lutou com uma casa de Saragoa. Estas resistncias costumam ser agrestes. No se
concede quartel. No h parlamentado possvel, Resignam-se todos a morrer,
contanto que matem. Quando Suchet diz:
     - Capitulai!
     Palafox responde:
     - At aqui a guerra a tiros de pea, agora a guerra a facadas!
     Nada faltou no assalto da casa de pasto, nem as pedras arremessadas de cima
do telhado e das janelas sobre os assaltantes, de modo a exasperarem os soldados,
esmagando-os horrorosamente, nem os tiros dados pelas frestas da adega e das
guas-furtadas, nem o furor do ataque, nem o desespero da defesa, nem,
finalmente, quando a porta cedeu, as demncias frenticas do extermnio. Os
assaltantes, ao precipitarem-se pela casa de pasto dentro, tropeando nas
almofadas da porta arrombada e atirada ao cho, no depararam com um nico
combatente. A escada de caracol, cortada a golpes de machado, jazia no meio da
loja; alguns feridos acabavam de expirar; os que no haviam morrido achavam-se
no primeiro andar, de onde, pela abertura do tecto, que fora a entrada da escada,
rebentou um tiroteio terrvel. Eram os ltimos cartuchos.
     Apenas os gastaram, quando queles temveis agonizantes escasseou de todo
a plvora e as balas, cada qual pegou em duas garrafas das que Enjolras tinha
reservado, e com essas massas Horrivelmente frgeis se postaram na abertura do
tecto fazendo, frente aos assaltantes. As garrafas continham gua-forte.
     Apresentamos em toda a sua nudez estas coisas sombrias da carnificina. Num
assalto, de tudo se faz armas. O fogo de artifcio no desonrou Arquimedes nem o
pez a ferver deslustrou Bayard. Toda a guerra  um horror em que se no repara
na escolha dos meios. O fogo dos assaltantes, bem que feito de baixo para cima, e
por isso menos comodamente, era terrivelmente mortfero. O rebordo da abertura
do tecto no tardou, a cobrir-se de cabeas mortas, das quais escorriam compridos
fios vermelhos e fumegantes. O estrondo era inexprimvel; um fumo cerrado e
ardente quase cobria de trevas o combate. Faltam-nos as palavras para descrever
semelhante grau de horror. J no eram homens os que sustentavam aquela luta,
agora infernal. J no eram gigantes contra colossos. Aquilo tinha mais de Milton
e de Dante que de Homero. Era um ataque de demnios e uma resistncia de
espectros!
     Era o herosmo monstro.
    XXIII
    Orestes em jejum e Pylades embriagado



     Finalmente, trepando aos ombros uns dos outros, servindo-se do esqueleto da
escada, trepando pelas paredes, agarrando-se ao tecto, acutilando mesmo  beira
do alapo os ltimos que ainda resistiam, uns vinte assaltantes, soldados, guardas
nacionais, guardas municipais, desordenadamente, a maior parte desfigurados
pelos ferimentos que tinham recebido, naquela terrvel ascenso, os olhos cobertos
de sangue, furiosos, selvagens, penetraram na sala do primeiro andar, onde apenas
restava de p um nico homem: Enjolras. Sem cartuchos, sem espada, apenas
conservava na mo o cano da sua clavina, cuja coronha havia partido na cabea
dos que entravam. Interpusera o bilhar entre ele e os assaltantes e encostou-se ao
canto da sala, onde com olhar altivo, de cabea erguida, com aquele fragmento de
arma na mo, conseguia conservar os assaltantes em respeito, de modo que
nenhum ousava acercar-se-lhe.
     - Aquele  o chefe! - gritaram os soldados.  Foi o que matou o artilheiro!
Uma vez que ele escolheu o lugar fuzilemo-lo ali mesmo!
     - Fuzilem! - disse Enjolras.
     E, lanando fora o cano da clavina, cruzou os braos e apresentou o peito.
     O herico desprezo da morte abala sempre os homens. To depressa Enjolras
cruzou os braos, oferecendo o peito s balas, assim cessou na sala o indefinvel
rumor da luta, pacificando-se subitamente aquele caos numa espcie de
solenidade sepulcral.
     Parecia que a ameaadora majestade de Enjolras, desarmado e imvel, pesava
sobre aquele tumulto, e que s com a autoridade do seu olhar tranquilo aquele
rapaz, o nico que nem levemente tinha sido ferido, soberbo, coberto de sangue
que tinha feito derramar, de agradvel aspecto, indiferente como um invulnervel,
obrigava aquele sinistro bando a mat-lo com a sua beleza, a que, naquela ocasio,
acrescia a altivez, era um como resplendor, e como se fosse to inacessvel  fadiga
como aos golpes, conservava-se corado como se nada fosse. Era a ele decerto que
aludia a testemunha que perante o conselho de guerra dizia:
     - Um dos insurgentes chamava-se Apolo, segundo ouvi dizer.
     Um guarda nacional, que j lhe tinha feito a pontaria, baixou a arma,
dizendo:
     - Parece-me que vou fuzilar uma flor!
     No canto oposto onde se encontrava Enjolras, formaram-se doze homens em
peloto e principiaram a preparar silenciosamente as espingardas.
     Em seguida, um sargento gritou:
     - Apontar!
     - Esperem! - atalhou do lado um oficial.
     E acrescentou, dirigindo-se para Enjolras:
     - Quer que lhe vendem os olhos?
     - No!
     - Foi realmente o senhor quem matou o sargento de artilharia?
     - Fui!
     Grantaire havia alguns instantes que tinha acordado.
     Grantaire, como o leitor h-de estar lembrado, dormia, desde o dia
antecedente, na sala do primeiro andar, sentado numa cadeira e debruado sobre
uma mesa.
     O rapaz era a realizao completa da antiga metfora bebedeira de morte. O
hediondo filtro, composto de cerveja, aguardente e absinto, lanara-o em letargia.
     Como a mesa sobre que adormecera era pequena, e por isso no servia para a
barricada, deixaram-lha. Sempre na mesma posio, com o peito fincado na mesa,
a cabea apoiada nos braos, rodeado de copos, garrafas e canjires, Grantaire
dormia o pesado sono do urso transido de frio ou da sanguessuga saciada. Nada
conseguira despert-lo; nem o estrondo da mosquetaria, nem o dos tiros de peas,
nem a metralha, que entrava pela janela da sala em que ele se achava, nem o
prodigioso sussurro do assalto.
     Apenas, de espao a espao, respondia ao canho com um ronco. Parecia
achar-se ali  espera que alguma bala viesse poupar-lhe o trabalho de acordar. Em
volta dele vrios cadveres jaziam, e,  primeira vista, nada o distinguia dos que
dormiam o profundo sono da morte.
     O que faz acordar um bbado no  o estrondo,  o silncio. Tem-se
observado esta singularidade por mais de uma vez. A queda de tudo em volta dele
aumentava o aniquilamento de Grantaire; o desabamento servia a embal-lo. A
espcie de pausa que fez o tumulto diante de Enjolras foi um abalo para aquele
pesado sono,  semelhana do que produz em ns uma carruagem que roda a
galope e de repente pra, fazendo-nos acordar, se tnhamos adormecido.
Grantaire ergueu a cabea sobressaltado, estendeu os braos, esfregou os olhos,
olhou, bocejou e compreendeu.
     O termo da embriaguez assemelha-se ao rasgar de um vu. O bbado v um
globo e de um s lance de olhos, tudo o que ela lhe ocultava. Volta-lhe de sbito a
memria, e conquanto nada saiba do que durante vinte e quatro horas se tem
passado, mal abre os olhos, acha-se ao facto de tudo. Tornam-lhe as ideias com
instantnea lucidez e o escurecimento da embriaguez, espcie de nuvem de p que
lhe cerrava o crebro, dissipa-se para dar lugar  clara e lmpida intuio das
realidades.
     Metido a um canto e como que escondido por trs do bilhar, os soldados,
com os olhos fitos, no tinham sequer dado por Grantaire, e O sargento
preparava-se para repetir a ordem de apontar, quando de sbito, ouviram este
grito, entoado por uma voz forte que ao lado deles se elevou:
     - Viva a repblica! Esperem l por mim!
     E, ao dizer isto, levantou-se.
     O claro imenso de todo aquele combate a que ele no havia assistido
revelou-se no olhar fulgurante do transfigurado bbado.
     Repetiu:
     - Viva a repblica!
     Atravessou a sala com passo firme e foi postar-se defronte das espingardas, ao
lado de Enjolras.
     - Escusam de matar um por cada vez! - disse ele.
     E, voltando-se serenamente para Enjolras, disselhe:
     - Ds licena?
     Enjolras apertou-lhe a mo, sorrindo.
     Ainda o rapaz no tinha acabado de sorrir, rebentou a descarga.
     Enjolras, trespassado por oito balas, ficou como que pregado  parede, de p e
apenas com a cabea curvada.
     Grantaire caiu fulminado a seus ps.
     Instantes depois, os soldados desalojavam do alto da casa, onde se tinham
refugiado, os ltimos insurgentes, fazendo fogo por entre uma grade de madeira
que havia nas guas-furtadas. Neste combate, travado na parte superior da casa,
muitos corpos, alguns dos quais ainda vivos, foram arremessados pela janela. Dois
soldados de caadores, que tentavam levantar o nibus, foram mortos por dois
tiros disparados da gua-furtada, de onde um homem de blusa, momentos antes,
tinha sido precipitado, com uma baionetada na barriga e agonizava no meio da
rua. Um soldado e um insurgente, agarrados um ao outro, resvalavam pelo
telhado abaixo e caam ambos na rua, estreitamente ligados num abrao feroz.
     Na adega, outra luta semelhante tinha lugar. Gritos, tiros, um rumor
horroroso, a que se seguiu o silncio.
    A barricada estava tomada.
    Os soldados principiaram a dar busca em todas as casas das imediaes e a
perseguir os fugitivos.



    XXIV
    Prisioneiro



     Mrio estava, na realidade, prisioneiro. Prisioneiro de Joo Valjean.
     A mo que o agarrara por trs, no momento em que ele ia a cair, e cujo
contacto havia sentido ao desmaiar, era a de Joo Valjean.
     Joo Valjean no tomara parte no combate, a no ser a de se expor a ser
morto. A no ser ele, ningum, naquela suprema agonia, teria tido o cuidado dos
feridos. Graas a ele, presente como uma providncia a todos os lugares onde se
consumava aquela grande carnificina, os que caam eram levantados,
transportados para a loja e a tratados. Nos intervalos livres da sua tarefa,
ocupava-se a reparar a barricada. Nada, porm, que pudesse parecer-se com um
tiro, com um ataque, ou mesmo com uma defesa pessoal saiu de suas mos.
Calava-se e socorria. De resto, apenas tinha algumas arranhaduras. As balas
haviam-no respeitado.
     Se o suicdio fazia parte das suas cogitaes, quando viera para aquele
sepulcro, mal sucedido havia sido. Porm ns duvidamos que ele sequer se tivesse
lembrado desse irreligioso acto, o suicdio.
     Joo Valjean parecia no dar por Mrio com o espesso fumo do combate; a
verdade, porm,  que no despegava os olhos dele. Mal o rapaz cara ferido, Joo
Valjean saltou com a agilidade de um tigre, arremessou-se para ele como para
uma presa e levou-o.
     Nessa ocasio, o turbilho do ataque estava to violentamente concentrado
em Enjolras e na porta da casa de pasto, que ningum viu Joo Valjean, levando
nos braos Mrio desfalecido, atravessar o cho descalado da barricada e
desaparecer por trs da volta formada pela casa de pasto.
     Como o leitor estar lembrado, a casa de pasto formava uma espcie de cabo
na rua, que no s resguardava das balas e da metralha, mas tambm dos olhares,
alguns ps quadrados de terreno. H, assim, s vezes, num incndio, um quarto
isento das chamas, e nos mares mais tempestuosos, aqum de um promontrio ou
de uma cordilheira de fragas, um cantinho tranquilo. Fora nessa espcie de
recanto do trapzio interior da barricada que Eponina tivera a sua agonia.
     Chegado ali, Joo Valjean pousou Mrio cautelosamente no cho,
encostou-se  parede e circunvagou a vista em torno de si.
     A situao era assustadora.
     Por enquanto, durante dois ou trs minutos talvez, aquele lano de parede era
um abrigo. Mas, depois, como escapar  terrvel carnificina? Joo Valjean
recordava a angstia em que, oito anos antes, se achara na rua de Polonceau e o
modo porque conseguira escapar-lhe; mas, se ento fora difcil, hoje era
impossvel. Diante de si tinha aquela silenciosa e inexorvel casa de seis andares,
que apenas parecia habitada pelo homem morto, que se via debruado a uma das
janelas;  direita tinha,  verdade, a pouco elevada barricada da Pequena
Truanderie, que fcil era de saltar, porm por cima dela avistava-se uma fileira de
baionetas. Era a tropa de linha, postada em observao do outro lado da barricada.
Era evidente que transpor a barricada era ir expor-se a um fogo de peloto e que
toda a cabea que se arriscasse a mostrar-se por cima do pequeno parapeito
serviria de alvo a sessenta tiros de espingarda.  esquerda ficava o campo do
combate.
     Era a morte por trs da volta da parede.
     Que fazer?
     S um pssaro conseguiria pr-se dali a salvo.
     E era necessrio decidir-se quanto antes, descobrir um expediente, tomar
uma resoluo. Apenas a alguns passos dele, travava-se a luta; felizmente, todos se
encarni- avam num ponto nico - a porta da casa de pasto; porm, se um
soldado, um s, se lembrasse de costear a casa ou atac-la de flanco, tudo ficaria
perdido.
     Joo Valjean olhou para a casa fronteira, olhou para a barricada, que lhe
ficava  ilharga, e, por ltimo, fitou os olhos no cho com a violncia da
extremidade suprema, desvairado e como se tivesse por fim trespassar o solo com
o olhar.
      fora de olhar, um no sei qu vagamente visvel em tal agonia se desenhou
e tomou formas a seus ps, como se com o olhar tivera o poder de fazer aparecer a
coisa desejada. Joo Valjean acabava de avistar, a poucos passos de distncia, na
base da barricada pequena, to inexoravelmente guardada e vigiada pela parte de
fora, por baixo de um monte de pedras que, em parte, a escondia, uma grade de
ferro, colocada ao nvel do solo. Esta grade, formada de grandes vares
transversais, tinha quase dois ps quadrados. O caixilho de pedras a que estava
segura havia sido arrancado, de modo que a grade estava meia despregada.
Atravs dos vares entrevia-se uma escura abertura, quase semelhante ao cano de
uma chamin ou  abbada de uma cisterna.
     Joo Valjean correu para a grade, com o esprito iluminado pelo claro da sua
antiga cincia das evases. Desviar as pedras, levantar a grade, pr aos ombros o
corpo de Mrio, inerte como um cadver, descer com este fardo s costas,
segurando-se com os cotovelos e os joelhos, para aquela espcie de poo,
felizmente pouco profundo, deixar cair por cima de si o pesado alapo de ferro,
sobre o qual tornaram a rolar as pedras arrancadas, tomar p numa superfcie
lajeada, a trs metros abaixo do solo, tudo isto foi executado por Joo Valjean
como no meio de um delrio, isto , com fora de gigante e agilidade de tigre;
todos estes movimentos tiveram lugar apenas no curto espao de alguns minutos.
     Joo Valjean achou-se, com Mrio sempre desmaiado, numa espcie de
comprido corredor subterrneo, onde tudo era silncio absoluto, paz profunda e
completa escurido.
     A impresso que ele, outrora, experimentara ao cair da rua no convento,
renovou-se-lhe ento. Com a diferena, porm, de que ento era para salvar
Cosette e agora era para salvar Mrio.
     Naquela ocasio, mal ouvia por cima de si, como um vago murmrio, o
temeroso tumulto da casa de pasto, que a tropa acabava de tomar de assalto.
    LIVRO SEGUNDO
    O intestino de Leviathan



    I
    A terra empobrecida pelo mar



     Paris lana anualmente vinte e cinco milhes  gua. No  metfora. Como e
por que modo? De dia e de noite. Com que fim? Sem fim nenhum. Com que
pensamento?
     Sem em tal pensar. Para qu? Para nada,. Por meio de que rgo? Por meio
do seu intestino. Qual  o seu intestino? So os seus canos de esgoto.
     Vinte e cinco milhes  ainda a mais moderada das cifras aproximativas
apresentadas pelas avaliaes da cincia especial.
     A cincia, depois de ter por muito tempo andado s apalpadelas, sabe hoje
que o mais fecundante e eficaz adubo  o excremento humano. Antes de ns,
digamo-lo para nossa vergonha, j os chins o sabiam. No; h um s aldeo chins
- diz Eckeberg - que, ao voltar da cidade, no traga pendurados das pontas do seu
bambu dois baldes cheios do que ns chamamos imundcies. Actualmente, a terra
na China  ainda to nova como no tempo de Abrao, e isto  devido ao
excremento humano. O trigo chins produz cento e vinte por um.
     No h guano comparvel ao excremento de uma capital.
     Uma grande cidade  o mais rico dos esterquilnios.
     Empregar a cidade em fertilizar o campo seria uma ptima empresa. Se o
nosso ouro  esterco, em compensao o nosso esterco  ouro, Que se faz deste
ouro-esterco?
     Atira-se ao abismo.
     Gastam-se somas considerveis para mandar ao plo austral flotilhas de
navios com o fim de recolherem o excremento dos pinguins e outros pssaros, e
deita-se ao mar o incalculvel elemento de opulncia, de que to fcil fora tirar
proveito. Todo o excremento humano e animal, perdido pelo mundo, se fosse
lanado  terra, em vez de ser lanado  gua, bastaria para a alimentar.
     Esses montes de lixo que se vem pelas ruas, essas carroas de lama que de
noite se ouvem rodar, essas sujas pipas da limpeza pblica, esses ftidos
escoamentos de lama subterrnea que a calada nos encobre, sabeis o que so?  o
prado coberto de flores, a erva verdejante, o serpo, o rosmaninho e a salva;  a
caa, o gado. O alegre mugido dos bois ao recolher do pasto;  o feno odorfero, 
o trigo dourado,  o po da vossa mesa,  o sangue quente das vossas veias,  a
sade, a alegria, a vida. Assim o quer essa misteriosa criao, que  transformao
na terra e transfigurao no cu.
     Passai isto pelo grande cadinho, vereis sair dele a vossa abundncia. A
nutrio.
     A nutrio das plantas produz o sustento dos homens.
     Podeis, porm, desaproveitar essa riqueza, se vos aprouver, e at chamar-me
ridculo, ainda por cima. Ser a prova mais plena da vossa ignorncia.
     Est calculado pela estatstica que s a Frana lana ao Atlntico:, pela boca
dos seus rios, quinhentos milhes.
     Notem bem: com estes quinhentos milhes pagar-se-ia a quarta parte das
despesas do oramento. Porm a habilidade do homem  tanta, que ele antes quer
deixar perder esses quinhentos milhes, que a gua sorve.  a prpria substncia
do povo que leva aos rios e ao Oceano, aqui gota a gota; acol em ondas, o
miservel vmito dos nossos canos e o vmito gigantesco dos nossos rios. Cada
golfada das nossas cloacas custa-nos mil francos. O que d dois resultados: a terra
empobrecida e a gua empestada. A fome a sair do campo e do rio a doena.
      notrio, por exemplo, como o Tamisa, actualmente, est envenenando
Londres.
     Pelo que diz respeito a Paris, no: vai longe a poca em que tiveram de mudar
a maior parte das embocaduras dos canos para diante da ltima ponte.
     Um duplo aparelho tubular, munido de vlvulas e mbolos, aspirante e
pre-mente, um sistema de drenagem elementar, simples como o pulmo do
homem, e que j satisfatoriamente funciona em muitas comunas de Inglaterra,
bastaria para trazer s nossas cidades a gua pura dos campos e enviar para estes a
gua fertilizadora das cidades, de modo que este fcil vaivm, o mais simples que
se pode imaginar, reteria em nosso poder os quinhentos milhes que deitamos
fora. Para outras coisas, porm, se voltam as atenes.
     O processo actual  mau, pretendendo ser bom.  boa a inteno, porm
triste o resultado, julga-se purificar a cidade e debilita-se a populao; Um cano de
despejo  um engano. Quando a drenagem, com a sua dupla funo de restituir o
que recebe, tiver por toda a parte substitudo o esgoto, simples lavagem, que s
debilita, ento, combinado isto com os dados de uma nova economia social, o
produto da terra ser o dcuplo do actual e o problema da misria ser
singularmente atenuado. Juntai-lhe a supresso do parasitismo e t-lo-eis
resolvido.
     Entretanto, a riqueza pblica deita-se ao rio, em virtude desse mau sistema
actualmente seguido; que s parece ter por fim a runa da Europa.
     Quanto  Frana, acabamos de dizer o que ela perde. Como Paris, porm,
contm a vigsima quinta parte da total populao de Frana e o guano parisiense
 o mais fecundante de todos, ainda ficamos aqum da verdade, avaliando em
vinte e cinco milhes a parte da perda que pertence a Paris nos quinhentos
milhes que a Frana anualmente deita fora. Estes vinte e cinco milhes,
empregados em socorros e conforto, duplicariam o esplendor de Paris. A cidade
gasta-os em cloacas. De modo que se pode dizer que a grande prodigalidade de
Paris, a sua maravilhosa festa, a sua loucura Beaujon, a sua orgia, o seu ouro
espalhado s mos cheias, o seu fausto, o seu luxo, a sua magnificncia, so os seus
canos.
     Assim  que, na cegueira de uma m economia poltica, se deita fora e se
deixa ir pela gua abaixo precipitar-se na voragem, a prosperidade: geral.
Convinha que houvesse redes de Saint-Cloud para a fortuna pblica.
     Economicamente, o facto pode resumir-se assim: Paris.  um cesto roto.
     Paris, a cidade modelo, prottipo das capitais bem organizadas, de que cada
povo procura ter uma cpia, metrpole do ideal, ptria augusta da iniciativa, do
impulso e da tentativa, centro e lugar dos espritos, cidade-nao, colmeia do
futuro, composto maravilhoso de Babilnia e Corinto; Paris, que  tudo isto, no
ponto de vista que acabamos de assinalar, faria encolher os ombros a qualquer
campons de FoKian, Imitai Paris e ficareis arruinados.
     No fim de tudo, Paris, principalmente no que toca a este imemorial e
insensato desperdcio,  um simples imitador.
     Estas pasmosas inpcias no so novas; no  uma insensatez de agora. J os
antigos faziam o mesmo. As cloacas de Roma, diz Liebig, absorveram toda a
prosperidade do campons romano. Arruinada a campanha de Roma pela cloaca
romana, Roma exauriu a Itlia, e depois que dentro da sua cloaca deitou a Itlia,
lanou-lhe a Siclia, depois a Sardenha, em seguida a frica. Os canos de Roma
tragaram o mundo, porque  cidade e ao Universo; urbi et orbi, ofereciam a sua
voragem.
     Cidade eterna, cloaca insondvel.
     Nestas coisas, assim como em outras, Roma d o exemplo.
     E Paris segue o exemplo com toda a estupidez prpria das cidades
inteligentes.
     Para as necessidades da operao sobre a qual acabamos de explicar-nos,
Paris tem por baixo de si outro Paris: um Paris de canos, com suas ruas,
encruzilhadas, praas, largos, becos, artrias e circulao, que  a lama com a
forma humana de menos.
     Pois no devemos lisonjear, nem mesmo a um grande povo; onde h tudo, h
ignomnia ao lado da sublimidade; e se Paris contm Atenas, a cidade da luz;
Tyro, a cidade da opulncia; Esparta, a cidade da virtude; Ninive, a cidade das
maravilhas, tambm contem Lucteci, a cidade da lama.
     Alm disto, o selo da sua opulncia consiste nisso, e a titnica sentina de Paris
 a realizao, entre os monumentos, desse estranho ideal realizado na
humanidade por alguns homens, tais como Maquiavel, Bacon e Mirabeau; o
grandioso objecto.
     O subsolo de Paris, se o olhar pudesse penetrar-lhe a superfcie, apresentaria
o aspecto de uma madreprola colossal. Uma esponja no tem mais buracos e
sinuosidades do que o torro de terra de seis lguas de circunferncia, sobre que
repousa a antiga e grande cidade. Sem falar nas catacumbas, que so um
subterrneo  parte, sem falar na inextricvel rede de tubos de gs, sem contar o
vasto sistema tubular da distribuio de gua nativa, que vai ter a todos os
chafarizes, os canais de despejo s por si formam de um e de outro lado do rio
uma prodigiosa rede tenebrosa; labirinto cujo nico fio  o seu declive.
     Ali aparece, no meio das hmidas exalaes que dele se levantam, o rato, que
parece ser o produto do parto de Paris.



    II
    Histria antiga dos canos



     Imagine-se Paris levantado com uma tampa, e a rede subterrnea dos canos,
vista de cima do espao, desenhar nas duas margens uma espcie de grande ramo
enxertado no rio. Na margem direita, o canomestre ser o trono desse ramo, os
canos secundrios os ramos e as bifurcaes destes os ramsculos.
     Esta figura  apenas sumria e incompleta, visto que o ngulo recto, que  o
vulgar neste gnero de ramificaes subterrneas,  extremamente raro na
vegetao.
     Formar-se- uma ideia mais aproximada deste singular plano geomtrico,
supondo que v estendido sobre um fundo de trevas algum extravagante alfabeto
oriental, emaranhado como uma ramada, e cujas letras disformes se prendessem
umas s outras em aparente desordem e como ao acaso, ora pelos seus ngulos,
ora pelas suas extremidades.
     Na Idade-Mdia, as sentinas e os canos representavam um importante papel
no Baixo Imprio e no antigo Oriente. Deles nascia: a peste, neles morriam os
dspotas. As multides contemplavam quase com temor religioso esses leitos de
podrido, monstruosos beros da morte. A cova dos vermes de Benars no 
menos vertiginosa do que a Cova dos Lees de Babilnia. Theglath-Phalasar, no
dizer dos livros rab-nicos, jurava pela sentina de Ninive. Era dos canos de
Munster que Joo de Leyde fazia sair a sua falsa Lua e  do; poo-cloaca de
Kekscheb que o seu menecma oriental, Mokanna, o profeta velado do Khorassan,
fazia sair O seu falso Sol.
     A histria dos homens reflecte-se na histria das cloacas. As gemonias eram
uma como narrao de Roma.
     Os canos de Paris foram, em tempos remotos, uma coisa terrvel. Foram
sepulcro e foram asilo. O crime, a inteligncia, o protesto social, a liberdade de
conscincia, o pensamento, o roubo, tudo quanto as leis humanas perseguem ou
tm perseguido, tm feito desse subterrneo um esconderijo; no sculo XIV os
maceiros, no sculo XV os gatunos, no sculo XVI os huguenotes, no sculo XVII
os iluminados de Morin, no sculo XVIII os fogueiros. H cem anos saa dali a
punhalada nocturna e ali se escondia o ladro que se via em perigo; o bosque tinha
a caverna, Paris tinha a cloaca. A Truanderie, essa picareria gaulesa, aceitava a
cloaca como sucursal da Corte dos Milagres, e de noite, astuta e feroz, recolhia-se
ao vomitrio Maubue como a uma alcova.
      natural que os que tinham por oficina quotidiana o beco de Vide-Gousef ou
a rua de Coupe-Gorge tivessem por domiclio nocturno o cano do Caminho
Verde ou a vala de Hurepoix. Da uma srie de recordaes. Fantasmas de toda a
espcie frequentam aqueles compridos e solitrios corredores; por toda a parte a
putrefaco e o miasma; aqui ou ali algum suspirculo por onde Villon, do lado de
dentro, conversa com Rabelais, da parte de fora.
     Os canos, no antigo Paris, eram o ponto de reunio de todos os esgotamentos
e de todas as tentativas; um lugar em que a economia poltica v um despejo., a
filosofia social num resduo.
     O esgoto  a conscincia da cidade. Tudo para ela converge e a se confronta.
     Naquele lugar lvido, h trevas, mas j no h segredo. Cada objecto tem a sua
forma verdadeira, ou, pelo menos, a sua forma definitiva. O monturo tem a seu
favor o no ser mentiroso. A ingenuidade refugiou-se ali. Ali se encontra a
mscara de Baslio., mas v-se-lhe o papelo, e os atilhos, o interior e o exterior, e
 acentuada por uma lama honesta. Fica-lhe ao p o nariz postio de Scapin.
Todas as sujidades da civilizao, uma vez fora de servio, caem nesta cova da
verdade, onde vem ter o imenso despenho social. A se abismam, porm, sem se
ocultarem. Esta confuso  uma confisso. Ali se acabam as falsas aparncias, os
disfarces, a imundcie tira: a camisa, nudez completa, termo das iluses e das
miragens, mais nada do que aquilo que realmente existe, fazendo a sinistra figura
daquilo que acaba,. Realidade e desapario. Ali um fundo de garrafa acusa a
embriaguez, a asa de um cesto descobre a domesticidade; ali o caroo de ma,
que teve opinies literrias, torna-se o caroo de ma; a efgie da moeda de cobre
reveste-se francamente de verdete; o escarro de Caifaz encontra o vmito de
Falstaff; o lus de ouro que sai da casa de jogo bate no: prego, de que pende o
fragmento de corda do suicida; um feto lvido rola envolto nas lantejoulas, que no
findo Carnaval danaram nos bailes da pera, uma gorra que julgou homens se
acha ao lado de um objecto podre, que foi a saia de Margoton; tudo isto  mais do
que fraternidade,  tratamento de tu, O que era arrebique mudou-se em farruscas.
O ltimo vu  arrancado Um encanamento  um cnico. Diz tudo.
     Esta sinceridade da imundcie tem de bom O repousar a alma. Quem passar o
tempo a sofrer na terra o espectculo dos ares imperiosos que toma a razo de
estado.
     O juramento, a sabedoria poltica, a justia humana, as probidades
profissionais, as austeridades de situao, as togas incorruptveis, sente-se aliviado
ao entrar num encanamento e ver nele a lama que lhe convm.
     Isto, ao mesmo tempo, ensina, Como mais acima dissemos, a histria passa
pela cloaca. Os S. Bartolomeus ali se infiltram gota a gota por entre as pedras. Os
grandes assassnios pblicos, as carnificinas polticas e religiosas atravessam este
subterrneo da civilizao e ali lanam os seus cadveres. Para o olhar do
pensador, todos os assassnios histricos ali se acham na penumbra hedionda, de
joelhos, com um bocado do seu sudrio como avental, passando lugubremente a
esponja sobre a sua obra. Ali se acha Lus XI com Tristo, Francisco I, com
Duprat, Carlos IX com sua me, Richelieu com Lus XIII e Louvoir, Letellier,
Heber e Maillard, raspando as pedras e procurando fazer desaparecer os vestgios
das suas aces. Ouve-se debaixo daquelas abbadas o sussurro que fazem aqueles
espectros com as suas vassouras. Respira-se ali o ftido enorme das catstrofes
sociais. Vem-se aos cantos reflexos avermelhados. Corre ali uma gua em que se
lavaram, mos ensanguentadas.
     O observador social deve entrar nestas trevas, pois fazem parte do seu
laboratrio. A filosofia  o microscpio do pensamento. Tudo lhe quer fugir, mas
nada lhe escapa.  intil tergiversar. Que lado de ns mesmos mostramos
tergiversando? O lado vergonha. A filosofia persegue com o seu olhar probo O
mal e no o deixa fugir para o nada. No esvaecimento das coisas que desaparecem,
na diminuio das que se perdem de vista, ela reconhece tudo. Reconstri a
prpura por meio do farrapo e a mulher por meio de um fragmento de vestido.
Com a cloaca refaz a cidade, com o lixo os costumes.
     Ao ver o caco, da conclui se foi nfora, se foi jarro. Reconhece por uma
unhada impressa num pergaminho, a diferena que separa a judiaria da
Judengasse da do ghetto, Encontra no que resta o que j existiu, o bem, o mal, o
falso, o verdadeiro, a mancha de sangue do palcio:, o borro de tinta da caverna,
o pingo de sebo do lupanar, as provaes, as tentaes bem acolhidas, as orgias
vomitadas, a dobra feita pelos caracteres ao aviltarem-se, o vestgio da prostituio
nas almas que a sua prpria grosseria predispunha para ela e nas vestes dos moos
de fretes de Roma o sinal da cotovelada de Messalina.



    III
    Bruneseau



     Na Idade-Mdia, os canos de Paris eram legendrios. No sculo XVI, tentou
Henrique II uma sondagem, que abortou. H menos de cem anos, segundo atesta
Mercier, a cloaca da grande capital achava-se completamente abandonada e
entregue a si mesma.
     Tal era o antigo Paris, presa dos tumultos, das indecises e dvidas. Por
muito tempo jazeu na maior estupidez. Mais tarde, 89 mostrou como as cidades
recuperam a inteligncia. Porm, no bom tempo antigo, a inteligncia da capital
no era grande; no sabia curar dos seus negcios, nem moral nem
materialmente, e tanta inaptido tinha para varrer o lixo como os abusos. Tudo
eram obstculos e questes. Os canos, por exemplo, eram refractrios a qualquer
itinerrio. To difcil era a qualquer orientar-se no encanamento como
entender-se na cidade: em cima O ininteligvel, em baixo o inextricvel; por baixo
da confuso das lnguas ficava; a confuso dos subterrneos; era
Ddalo-sustentando Babel.
     s vezes, os canos de Paris entravam a trasbordar, como se aquele desprezado
Nilo subitamente se encolerizasse, causando, coisa vergonhosa, inundaes de
lixo. Se aquele estmago da civilizao digeria mal, a cloaca reflua  garganta da
cidade e Paris tinha o ressaibo da sua lama. Estas semelhanas da cloaca com o
remorso tinham sua convenincia; eram avisos, avisos, porm, em extremo mal
acolhidos; a cidade indignava-se que o seu lixo tivesse tanta audcia e no admitia
que ele voltasse.
     Expelia-o melhor.
     A inundao de 1802,  uma das recordaes actuais dos parisienses
octogenrios. A lama espalhou-se em cruz pela praa das Vitrias, onde est a
esttua de Lus XIV; entrou na rua de Santo Honorato pelos dois boeiros dos
Campos Elseos, na rua de S. Florentine pelo cano de S, Florentine, na rua de
Pierre--Poisson pelo cano da Sonnerie, na rua de Popincourt pelo cano do
Caminho Verde, na da Roquette pelo cano da rua de Lappe; cobriu as pedras do
centro dos Campos Elseos at uma altura de trinta e cinco centmetros; e ao sul,
pelo vomitrio do Sena, fazendo a sua funo em sentido inverso, penetrou na rua
Mazarina, na do Escaldado e na do Marais, onde parou numa extenso de
novecentos metros; justamente a alguns passos da casa onde morara Racine,
respeitando no sculo XVII o poeta mais do que o rei. Atingiu a sua maior altura
na rua de S. Pedro, onde se elevou trs ps acima das lajes da bica, e a sua mxima
extenso na rua de S. Sabino, onde se dilatou por uma superfcie de duzentos e
trinta e oito metros.
     No princpio deste sculo, os canos de Paris eram ainda um lugar misterioso.
A lama nunca poder gozar de bons crditos; mas, no caso sujeito, a m nota
tocava as raias do terror. Paris apenas confusamente sabia que tinha por baixo de
si um subterrneo terrvel. Falava-se dele como desse monstruoso charco de
Tebas, onde se criavam centopeias de quinze ps de comprimento e que poderia
servir de banheira a Behemoth. As grandes botas dos limpadores no se
aventuravam nunca a passar alm de certos lugares conhecidos. Ainda no ia
longe o tempo em que as carroas do lixo, de cima das quais Saint-Foix
fraternizava com o marqus de Crqui, se despejavam simplesmente dentro dos
canos. Quanto  limpeza deles, confiava-se esse encargo aos aguaceiros, que mais
serviam a obstru-los do que a limp-los. Roma deixava ainda alguma poesia  sua
cloaca, chamando-lhe gemonias; Paris insultava a sua, chamando-lhe
buraco-persevejo. Cincia e superstio, ambas se davam as mos para o horror.
     O buraco-persevejo repugnava igualmente  higiene e  lenda. O Papo
nascera debaixo da ftida abbada do cano Mouffetard; os cadveres dos
Marmousets tinham sido lanados ao cano da Barlillerie; Fagon atribura a terrvel
febre maligna de 1685  grande abertura do cano do Marais, que permaneceu
assim at 1833, na rua de Lus, quase defronte do escritrio do Mensageiro
Galante. A boca do esgoto da rua da Mortallerie foi clebre pelas pestes que
causou; com a sua grade de ferro, com bicos semelhantes a uma fieira de dentes,
ela era nessa rua fatal como uma goela de drago soprando o inferno sobre os
homens. A imaginao popular adubava a sombria cova parisiense de onde saa
aquela horrenda mistura sem fim. A cloaca de Paris no tinha fundo Era o
bratro. A polcia nem sequer se lembrava de explorar aquelas leprosas regies.
Tentar esse incgnito, lanar a sonda nessas trevas, ir  descoberta por aquele
abismo, quem o ousaria? Era uma coisa medonha. Algum, porm, se apresentou
e a cloaca teve o seu Cristvo Colombo. Um dia, em 1805, por ocasio de uma
dessas raras aparies do imperador em Paris, o ministro do interior, um tal
Decrs ou Crtet, foi apresentar-se-lhe logo de manh. Ouvia-se no Carroussel o
arrastar das espadas de todos esses soldados extraordinrios da grande repblica e
do grande imprio; a porta de Napoleo estava atravancada de heris; homens do
Reno, de Escaut, de Adige e do Nilo; companheiros de Joubert, de Desaix, de
Marceau, de Hoche, de Klber; aerstatas de Fleurus, granadeiros de Mayence,
pontoneiros de Genes, hussards das Pirmides, artilheiros de Junot, couraceiros
que haviam tomado de assalto Zuyderze; uns haviam seguido Bonaparte sobre a
ponte de Lodi; outros haviam acompanhado Murat na trincheira de Mantua,
outros haviam antecedido Lannes no caminho cavado de Montebello. Todo o
exrcito de ento estava ali, na corte das Tulherias, representado por uma
esquadra ou por um peloto e guardava Napoleo no repouso; era a poca
esplndida em que o grande exrcito tinha atrs de si Marengo e diante dele
Austerlitz. Senhor, disse o ministro do interior a Napoleo, vi ontem o homem
mais intrpido do nosso imprio.
     - Quem  esse homem e que fez ele? - perguntou bruscamente o imperador.
     - Quer ver uma coisa, senhor?
     - O qu? - Examinar os canos de esgoto de Paris.
     Este homem existia e chamava-se Bruneseau.
    IV
    Pormenores ignorados



     A visita efectuou-se. Foi uma temvel campanha; uma batalha nocturna
contra a peste e contra a asfixia, ao mesmo tempo foi uma viagem de descobertas.
Um dos que sobreviveram a esta explorao, operrio inteligente, muito jovem
ento, contava, h poucos anos ainda, os pormenores que Bruneseau julgou dever
omitir no seu relatrio ao prefeito da polcia, como indignos do estilo
administrativo.
     Os meios desinfectantes eram naquela poca em extremo rudimentares.
Apenas Bruneseau passou alm das primeiras articulaes da rede subterrnea,
logo oito dos vinte trabalhadores se recusaram a avanar mais. A operao era
complicada; a visita trazia consigo a necessidade de limpeza; era preciso, pois,
limpar, e no haver demora; notar as entradas de gua, contar as grades e as bocas,
separar as ramificaes, indicar as correntes nos pontos de diviso, reconhecer as
respectivas circunscries de diferentes bacias, sondar os canos pequenos
enxertados no cano principal, medir a altura e a largura de cada corredor, tanto
no ponto em que comeavam as abbadas como na base, determinar enfim as
ordenadas do nivelamento ao direito de cada entrada de gua, quer no cano, quer
no solo da rua. Avanava-se com dificuldade. No era raro que as escadas de mo
mergulhassem em trs ps de lodo. As lanternas agonizavam no meio dos
miasmas. De quando em quando reconduziam um trabalhador desfale-
     cido. Em certos pontos era um precipcio. O solo apresentava depresses, o
lajedo tinha-se aberto, o cano transformado em sorvedouro; no se achava ponto
algum slido; um dos homens desaparecera repentinamente; foi grande o trabalho
para o tirar do pego. Por conselho de Fourcroy acendiam de distncia em
distncia, nos stios suficientemente beneficiados, grandes fogachos de estopa
embebida em alcatro. As paredes :estavam, em partes, cobertas de disformes
excrescncias fungosas, que pareciam tumores; a prpria pedra parecia doente
naquele meio irrespirvel.
     Brunezeau, na sua explorao, caminhou das elevaes para os lugares mais
baixos. No ponto de diviso dos dois condutores de gua do Grand-Hurleur,
decifrou numa pedra saliente a data de 1550; esta pedra indicava o limite onde
parara Philibert Delorme, encarregado por Henrique II de visitar a canalizao de
Paris. Aquela pedra era, no cano, a marca do sculo XVI; Bruneseau tornou a
achar a mo de obra do sculo XVII no cano de Ponceau, e no da rua Velha do
Templo, abobadados entre 1600 e 1650; e a do sculo XVIII na seco oeste do
canal colector, guarnecido e abobadado em 1740. Estas duas abbadas, sobretudo
a menos antiga, a de 1740, estavam mais gretadas e mais decrpitas do que a
alvenaria do cano de cintura, a qual datava de 1412, poca em que o regato de
gua viva de Menilmontant foi elevado  dignidade de cano real de Paris,
adiantamento anlogo ao do campons que se tornasse primeiro criado particular
do rei; uma coisa como Gros-Jean transformado em Lebel.
     Julgou-se reconhecer, num e noutro ponto especialmente por baixo do
palcio da Justia, alvolos de antigos crceres praticados no prprio cano. In
paces hediondos.
     Numa destas clulas pendia uma golilha de ferro. Foram todas muradas.
Houve achados extraordinrios; entre outros o esqueleto de um orangotango
fugido do Jardim das Plantas em 1800, fuga provavelmente conexa com a famosa e
incontestvel apario do diabo da rua dos Bernardos, no ltimo ano do sculo
passado. O pobre mono acabara por se afogar no cano.
     No comprido corredor que termina no Arche-Marion causou a admirao
dos conhecedores uma alcofa de trapeiro, perfeitamente conservada. Por toda a
parte, o lodo que os trabalhadores tinham conseguido remover intrepidamente,
abundava em objectos de valor, ouro, prata, pedras preciosas e dinheiro.
     Se um gigante tivesse filtrado aquela cloaca acharia no seu filtro a riqueza dos
sculos. No ponto em que se dividem os dois ramos da rua do Templo e da de
Saint-Avoye, deparou-se uma singular medalha huguenote, de cobre, tendo de um
lado um porco com chapu de cardeal e do outro um lobo de tiara na cabea.
     O encontro mais surpreendente foi  entrada do cano geral. Esta entrada fora
noutro tempo fechada por uma grade da qual s restavam os gonzos. De um
destes gonzos pendia uma espcie de farrapo informe e sujo que, sem dvida
preso ali na sua passagem, flutuava no meio da sombra, e acabara por se desfiar.
Bruneseau aproximou a lanterna e examinou o farrapo. Era bretanha finssima; e
num dos cantos menos consumido do que o resto, distinguia-se uma coroa
herldica bordada por cima das sete letras: LAUBESP. A coroa era de marqus e as
sete letras significavam LAUBESPINE. Reconheceram que o que tinham diante
dos olhos era um bocado da mortalha de Marat. Marat, na sua mocidade, tivera
uns amores. Foi quando fez parte da casa do conde de Artois, na qualidade de
mdico dos escudeiros. Daqueles amores, historicamente comprovados, com uma
senhora de elevada jerarquia, tinha-lhe restado aquele lenol. Pela sua morte,
como foi o nico lenol fino que lhe acharam em casa, amortalharam-no nele. O
trgico amigo do povo fora embrulhado para o tmulo, por umas mulheres
velhas, no lenol que participara da sua voluptuosidade. Bruneseau passou
adiante. Deixou o farrapo onde estava; no o destruiu. Seria desprezo ou respeito;
Marat merecia ambas as coisas. E depois, o destino estava ali demasiadamente
impresso para que no houvesse hesitao em tocar-lhe. Alm disso,  necessrio
deixar as coisas do sepulcro no lugar que elas escolhem. Em suma, era uma
estranha relquia. Dormira nela uma marquesa: Marat ali apodrecera; e tinha
atravessado o Panteon para chegar aos ratos do cano. Aquele farrapo de alcova, de
que Walteau teria noutro tempo alegremente desenhado todas as pregas, acabara
por ser digno do olhar fito de Dante.
     A visita total da canalizao dos despejos de Paris durou sete anos, de 1805 a
1812. Bruneseau, ao passo que se ia adiantando; ia determinando, dirigindo e
fazendo executar considerveis trabalhos; em 1808 baixava O nvel do cano de
Ponceau; e criando por toda a parte novas linhas, levava o cano, em 1809, da rua
de S. Diniz at  fonte dos Inocentes, em 1810, por baixo das ruas de
Froidmanteau e da Salptrire, em 1811, por baixo da rua Nova dos Petits Pres,
do Mail, da Echarpe, por baixo da Praa Real, e em 1812 por baixo da rua da Paz e
a calada de Antin. Ao mesmo tempo fazia desinfectar e melhorar toda a
canalizao. No segundo ano agregara Bruneseau a si seu genro Nargaud.
     Foi assim que no princpio deste sculo, a velha sociedade cuidou do seu
segundo fundo e cuidou da toilette dos seus canos de despejo. Sempre limpou
alguma coisa.
     Tortuoso, fendido, deslajeado, cortado por charcos, cheio de extravagantes
cotovelos, subindo e descendo sem lgica, ftido, selvagem, feroz, submerso em
escurido, com cicatrizes nas lgeas, gilvazes nas paredes, espantoso, tal era, visto
retrospectiva-mente, o antigo cano de despejo em Paris. Ramificaes em todos os
sentidos, encru-zamento de fossos, ps de pato, estrelas como nas sapaz, fundos de
saco, abbadas salitrosas, barrancos infectos, resudamento herptico nas paredes,
os tectos gotejando, e trevas; coisa alguma igualava o horror desta velha cripta
ulcerosa, aparelho digestivo de Babilnia, antro, fosso, pego cheio de ruas,
escavao titnica, onde o esprito julga ver girar, atravs da sombra, na imundcie
que foi esplendor, a enorme toupeira chamada passado.
     Isto, repetimos, era outro tempo.
    V
    Progresso actual



     Hoje o esgoto  limpo, severo, direito. e correcto. Realiza quase o ideal do que
em Inglaterra se entende pela palavra respeitvel.  decente, pardacento e
alinhado; poder-se-ia quase dizer, esticado com alfinetes. Assemelha-se a um
merceeiro feito ministro de estado. Na cloaca de hoje v-se quase claro; a
imundcie porta-se decentemente.  primeira vista tomar-se-ia por um dos
corredores subterrneos to comuns noutro tempo e to teis naquelas fugas dos
monarcas e dos prncipes; naquele bom tempo em que o povo amava os seus
reis. A cloaca actual tem beleza; ali reina o estilo puro, o clssico alexandrino
rectilnio que, expulso da poesia, parece ter-se refugiado na arquitectura,
patenteia-se em todas as pedras da comprida abbada tenebrosa e esbranquiada;
cada sada  uma arcada; a rua de Rivoli  modelo at na cloaca. No fim de tudo, se
a linha geomtrica est em alguma parte no seu lugar , decerto, no fosso
estercorrio de uma grande cidade. Ali tudo deve estar subordinado ao caminho
mais curto. O cano de despejo tem assumido hoje certo aspecto oficial. As
prprias informaes da polcia de que ele  por vezes objecto, j lhe no faltam ao
respeito. As palavras que o caracterizam na linguagem administrativa so elevadas
e dignas. Ao que chamavam tripa, chamam galeria; ao que chamavam buraco,
chamam olho. Vilon no reconheceria j a sua habitao acidental. Esta rede de
subterrneos continua a ter a sua imemorial populao de roedores, mais
pululante do que nunca; de tempos a tempos, um rato j pelado, arrisca-se a
mostrar a cabea  janela do cano, e examina os parisienses; mas os mesmos ratos
se domesticam, satisfeitos como esto, com o seu palcio subterrneo. A cloaca j
no tem nada da sua ferocidade primitiva.
     A chuva que sujava os canos de outro tempo lava os canos de hoje. Contudo,
no vos fieis nisso. Os miasmas habitam ainda neles. So mais hipcritas do que
irrepreensveis. A prefeitura de polcia e O conselho de sade debalde se tm
afadigado. A despeito de todos os aperfeioamentos na salubridade exalam um
cheiro vago e suspeito como Tartufo depois da confisso.
      necessrio convir que, como afinal a limpeza  um servio que a cloaca
presta  civilizao e como por este modo de ver, a conscincia de Tartufo  um
progresso sobre a pocilga de Augias,  fora de dvida que a cloaca de Paris tem
melhorado.
     mais do que o progresso; uma transmutao. Entre a cloaca antiga e a
cloaca actual h uma revoluo.
    Quem fez essa revoluo?
    Um homem de quem toda a gente se esqueceu e que ns nomemos -
Bruneseau.



    VI
    Progresso futuro



     A construo da cloaca de Paris no foi pequena tarefa. Nela trabalharam os
dez sculos ltimos sem conseguir termin-la, como no conseguiram terminar
Paris. A cloaca, efectivamente, recebe todas as repercusses do aumento de Paris.
 uma espcie de plipo terrestre, tenebroso e dotado de mil antenas, que cresce
em baixo, ao mesmo tempo que a cidade cresce em cima. Todas as vezes que a
cidade abre uma rua, a cloaca estende um brao, A antiga monarquia apenas
construra, vinte e trs mil e trezentos metros de encanamento; eis quantos Paris
contava no 1. de Janeiro de 1806.
     Dessa poca, de que logo tornaremos a falar, por diante, a obra foi proveitosa
e energicamente continuada; Napoleo construiu (so curiosos estes nmeros)
quatro mil e oitocentos e quatro metros; Lus XVIII cinco mil e setecentos e nove;
Carlos X dez mil e oitocentos e trinta e seis; Lus Filipe oitenta e nove mil e vinte; a
repblica de 1848 vinte e trs mil trezentos e oitenta e um; o regime actual setenta
mil e quinhentos, ao todo, na actualidade, duzentos e vinte e seis mil e dez;
sessenta lguas de canos; entranhas enormes de Paris. Ramificao obscura
sempre crescente; construo ignorada e imensa Como se v, o ddalo
subterrneo de Paris  hoje mais do dcuplo do que era no princpio deste sculo.
 impossvel imaginar todos os esforos e perseverana que foi necessrio
empregar para levar este encanamento ao ponto de perfeio relativa em que
actualmente se acha. S a muito custo conseguira o prebostado monrquico, e nos
dez ltimos anos do sculo XVIII, a mairie revolucionria, abrir as cinco lguas de
canos, que antes de 1806 existiam,. Embaraos de toda a espcie dificultavam esta
operao, uns particulares  natureza do solo, outros inerentes aos prprios
preconceitos da populao laboriosa de Paris. Paris acha-se edificado sobre um
terreno estranhamente rebelde ao alvio,  enxada,  picareta, ao manuseamento
humano.  impossvel haver coisa mais difcil de abrir e penetrar do que essa
formao geolgica,  qual se sobrepe a maravilhosa formao histrica,
chamada Paris; desde que, debaixo de qualquer forma, o trabalho entra e se
aventura nessa camada de aluvies, abundam as resistncias subterrneas. No se
encontram seno argilas lquidas, guas nativas, rochas duras, e essa qualidade de
lodo mole e profundo, que a cincia denomina mostarda.
     A picareta avana a custo em camadas calcrias, alternadas com filetes de
greda, extremamente delgados, e com camadas chistosas, que se apresentam em
folhas incrustadas de cascas de ostras, coevas dos oceanos preadamitas. s vezes,
rebenta repentinamente uma corrente de gua de cima de uma abbada em
princpio e deita-a por terra, alagando, ao mesmo tempo, os trabalhadores; outras
vezes,  uma torrente de mame que rebenta, precipitando-se com a fria de uma
catarata e quebrando como vidro as mais grossas vigas do escoramento.
     Ainda no h muito que na Villette, quando foi necessrio fazer passar o
canomestre por baixo do canal de S. Martinho, sem o escoar nem interromper a
navegao, a gua, penetrando por uma fenda que se abriu no leito do canal,
irrompeu to abundantemente pela galeria subterrnea, que as bombas de esgoto
foram insuficientes a dar-lhe vazo. Foi necessrio um mergulhador ir tapar a
fenda, que era  entrada da bacia grande, o que no custou pouco. Noutros stios,
prximos ao Sena, e mesmo afastados dele, como, por exemplo, em Belleville,
Grande Rue e Passage Lunier, encontram-se areais sem fundo, em que se pode
internar e desaparecer um homem. Ajuntai a isto a asfixia pelos miasmas, o perigo
dos desabamentos e repentinos aluimentos. Ajuntai o tifo de que os trabalhadores
lentamente se vo impregnando.  dos nossos dias o facto seguinte: depois de ter
aberto a galeria de Clichy com baqueta para receber um canomestre de gua do
Ourcq, trabalho executado a dez metros abaixo do solo; depois de ter, por entre
desabamentos, por meio de escavaes, muitas vezes ptridas, e de escoramentos,
abobadado a Bievre desde o boulevard do Hospital at ao Sena; depois de ter, para
livrar Paris das guas torrenciais de Montmartre e dar vazo ao pntano fluvial de
nove hectares que se estendia junto da barreira dos Mrtires; depois de ter,
dizemos, construdo a linha de canos que vai da barreira Branca at ao caminho
de Aubervilliers dentro de quatro meses, de dia e de noite, a uma profundidade de
onze metros; depois de ter, coisa que ainda se no havia visto, feito
subterraneamente um cano na, rua de Barre-du-Bec, seis metros abaixo do solo; o
director Monnot morreu. Depois de ter abobadado trs mil metros de
encanamento em todos os pontos da cidade, desde a rua
Traversiere-Saint-Antoine at  de Lourcine; depois de ter, pela ramificao da
Arbalete, dado vazo s inundaes fluviais do largo de Censier-Mouffettard;
depois de ter construdo O cano de S. Jorge, sobre rocha e argamassa, em areias
fluidas; depois de ter, dirigido o temvel abaixamento da grade de juno de Nossa
Senhora de Nazar, o engenheiro Duleau morreu. Para estes actos de bravura no
h boletim, apesar da sua utilidade, que  maior, por certo, do que a da carnificina
dos campos de batalha.
     Em 1832, os canos de Paris achavam-se muito longe de ser o que hoje so.
     Bruneseau dera o impulso, mas, era necessrio que viesse a clera para
determinar a vasta reconstruo que depois teve lugar. Parecer incrvel, por
exemplo, que em 1821, parte do canomestre, chamado Canal Grande, como em
Veneza, se conservasse ainda por entulhar na rua de Gourdes. S em, 1823  que a
cidade de Paris encontrou no bolso os duzentos e sessenta e seis mil e oitenta
francos e seis centimes, necessrios para cobrir aquela imundcie. Os trs poos
absorventes do Combate, da Cunnette e de Saint Mande, com os seus
escoadouros, aparelhos e canos depuratrios, datam apenas de 1836. O
encanamento de Paris foi reconstrudo, e, como j dissemos, cresceu dez vezes
mais h um quarto de sculo a esta parte.
     H trinta anos, na poca da insurreio de 5 a 6 de Junho de 1832, quase
existia ainda em muitos stios o antigo sistema de canos. Um grande nmero de
ruas, hoje abauladas, eram ento caladas em plano inclinado para o centro.
Viam-se com muita frequncia, no ponto declive onde terminavam as vertentes de
uma rua ou de um largo, grandes grades quadradas, formadas por grossos vares,
cujo ferro luzia  fora de ser polido pelos ps da multido, stios escorregadios e
perigosos para as carruagens, cujos cavalos as grades faziam cair.
     Em 1832, ainda a antiga cloaca gtica mostrava cinicamente as suas goelas
num sem-nmero de ruas, tais como na da Estrela, S. Lus, Templo, velha do
Templo, Nossa Senhora de Nazar, Folie-Mirecourt, cais das Flores, rua do
Petit-Musc, Normandia, Pont-aux-Bichees, arrabalde de S. Martinho, a de Nossa
Senhora das Vitrias, arrabalde de Montmartre, rua Grange-Batelire, Campos
Elseos, rua Jacob, rua do Tournon. Eram enormes aberturas de pedra, em forma
de abbada, s vezes cercadas de pilares e sempre monumentalmente descaradas.
     Em 1806, a extenso do encanamento de Paris era quase a mesma que
abrangia em Maio de 1663, isto , cinco mil trezentos e vinte e -oito toezas. No 1.
de Janeiro de 1832, depois dos aumentos feitos por Bruneseau, a extenso do
encanamento era de quarenta mil e trezentos metros. Desde 1806 a 1831, foram
construdos anualmente, termo mdio, setecentos e cinquenta metros; desde ento
por diante, construram-se cada ano oito e mesmo dez mil metros de galerias,
formadas de pequenas pedras cimentadas com cal hidrulica e aliceradas sobre
argamassa. A duzentos francos cada metro, representam, portanto, quarenta e oito
milhes as sessenta lguas do actual encanamento de Paris.
     Alm do progresso econmico de que no princpio fizemos meno, graves
problemas de higiene pblica se acham ligados a esta imensa questo do
encanamento de Paris.
     Paris est - entre duas camadas - uma de gua, outra de ar. A primeira, que
jaz a uma grande profundidade subterrnea, mas que j foi explorada por duas
perfuraes,  fornecida pela camada de grs verde, situada entre a greda e o
calcrio jurssico; nesta camada, que pode ser representada por um disco de vinte
e cinco lguas de raio, filtram-se um sem-nmero de rios e regatos; num copo de
gua do poo de Grenelle bebemos o Sena, o Marne, o Yonne, o Oise, o Aisne, o
Cher, o Vienne e o Loire. A camada de gua  salubre; primeiro vem do cu,
depois da terra; a camada de ar  morbfica, porque vem do encanamento...
Todos os miasmas da cloaca se misturam com a respirao da cidade; da o seu
mau hlito. O ar tomado por cima de uma esterqueira est provado
cientificamente -  mais puro do que o ar que se respira por cima de Paris. Tempo
vir, porm, em que, com o auxlio do progresso e de mais perfeitos aparelhos, em
que, com o aumento dos conhecimentos, se empregar a camada de gua a
purificar a camada de ar - queremos dizer a lavar o encanamento.
     Sabe-se que, por lavagem do encanamento, entendemos restituio da lama 
terra; devolvimento do lixo ao solo e do; adubo aos campos. Bastar este simples
facto para, em benefcio de toda a comunidade social, produzir a diminuio da
misria e o aumento da sade. No momento em que falamos, a irradiao das
doenas de Paris estende-se a cinquenta lguas em volta do Louvre, tomando
como centro desta roda pestfera.
     Pode-se afirmar que a cloaca , h dez sculos, a doena de Paris,  o vcio
que ela tem no sangue. A este respeito nunca o instinto popular se enganou. O
mister dos trabalhadores de canos era, noutro tempo, to perigoso e quase to
repugnante ao povo como o de esfolador de animais, por tanto tempo votado ao
horror e abandonado ao algoz.. S por meio de elevada paga se decidia algum
pedreiro a entranhar-se nessa ftida sapa, em que a escada do limpador hesitava
antes de descer; dizia-se proverbialmente: Descer ao encanamento  entrar na
sepultura; e, como j dissemos, lendas medonhas de toda a natureza cobriam de
terror esse cano colossal; sentina temerosa que guarda em si tanto os vestgios das
revolues do globo como os das revolues dos homens, e em que se encontram
vestgios de todos os cataclismos, desde a concha diluviria at ao trapo de Marat.
    LIVRO TERCEIRO
    A lama, mas tambm a alma



    I
    A cloaca e as suas maravilhas



     Joo Valjean achava-se, pois, no cano de despejo de Paris.
     Outra semelhana de Paris com o mar. Como no Oceano, o mergulhador
pode nele desaparecer. A transio era inaudita. Joo Valjean sara da cidade
mesmo no meio dela e, num abrir e fechar de olhos, no tempo de levantar e de
baixar. Uma tampa, passara da luz do dia para a completa escurido, do meio-dia
para a meia-noite, do tmulo para o silncio, do turbilho dos troves para a
estagnao do tmulo; e por uma peripcia muito mais prodigiosa ainda do que a
da rua de Polonceau, do extremo perigo para a segurana absoluta.
     A sbita queda numa vala; a desapario no subterrneo de Paris; deixar
aquela rua, onde a morte espreitava por toda a parte, por essa espcie de sepulcro
onde residia a vida, foi uma singular transio para Joo Valjean, que ficou alguns
segundos como que atordoado, aplicando o ouvido com ar estupefacto. A
armadilha da salvao abrira-se-lhe subitamente debaixo dos ps. A bondade
celeste como que o apanhara  falsa f. Adorveis ciladas da Providncia!
     O pior, porm, era que o ferido no fazia o mnimo movimento e Joo
Valjean no sabia se o que levava s costas era um morto ou um vivo.
     A sua primeira sensao foi a cegueira. Repentinamente deixou de ver.
Pareceu-lhe que num minuto ensurdecera. No ouvia j coisa alguma, A frentica
tempestade de homicdio que se desencadeava alguns ps acima dele no lhe
chegava, como j dissemos, aos ouvidos, graas  espessura de terra que o
separava dela, seno muito confusamente, e como um rumor sado de uma
profundidade. Conhecia que era slido o que tinha debaixo dos ps; nada mais,
mas era o que bastava. Estendeu um brao, depois o outro, tocou de ambos os
lados a parede e reconheceu que o corredor era estreito; escorregou e reconheceu
que a laje estava molhada. Adiantou com precauo um p, temendo que se lhe
deparasse um buraco, um poo ou um precipcio, e convenceu-se de que o lajedo
se prolongava. O conhecimento do lugar em que se achava foi-lhe dado por uma
baforada ftida.
     Passados alguns minutos j no estava cego. Pelo respiradouro por onde tinha
descido penetrava uma poro de luz, que o ajudou a recuperar a vista no meio da
vala em que se achava. Comeou a distinguir alguma coisa. O corredor onde se
enterrara - nenhuma outra palavra exprime melhor a situao - era fechada pela
parte de trs. Era um dos fundos de saco que a linguagem especial denomina
ramais. Na frente tinha outro muro; um muro de trevas. A luz do respiradouro
extinguia-se a dez ou doze passos do stio onde se encontrava Joo Valjean, e
deixava apenas uma claridade lvida em alguns metros da parede hmida do cano.
Para alm a opacidade era macia; penetrar nela parecia horrvel; a entrada ali
assemelhava-se a uma submerso. Contudo, podia-se penetrar naquela muralha
de nevoeiro, e assim era preciso. Era necessrio at no haver demora. Joo
Valjean lembrou-se de que aquela grade, descoberta por ele debaixo das pedras,
podia-o ser tambm pelos soldados, e que tudo dependia de um tal acaso. Podiam
tambm descer ao cano e revist-lo. No havia um minuto a perder. Depusera
Mrio no cho, tornou a apanh-lo -  ainda este o verdadeiro termo  tornou a
p-lo s costas e meteu-se ao caminho. Entrou resolutamente naquela escurido.
     A realidade  que estavam menos salvos do que Joo Valjean supunha. Eram
esperados por perigos doutro gnero e no menores. Depois do turbilho
fulgurante do combate, a caverna dos maternas e dos enganos; depois do caos, a
cloaca. Joo Valjean cara de um dos crculos do inferno para outro.
     Quando j tinha dado uns cinquenta passos teve de parar e resolver a dvida
que se lhe oferecia. O corredor terminava noutro Cano, no qual desembocava
transversalmente. A ofereciam-se dois caminhos. Qual deles seguir? Deveria
tomar  direita ou  esquerda? Como orientar-se naquele escuro labirinto? Este
labirinto, como j noutra parte notmos, tem um fio:  o seu declive. Seguir o
declive  ir ter ao rio.
     Joo Valjean compreendeu-o imediatamente.
     Disse consigo que, provavelmente, se achava no cano dos Mercados; que, se
tomasse  esquerda, chegaria em menos de um quarto de hora a alguma
embocadura do Sena entre Pont-au-Change e a Ponte Nova, isto , achar-se-ia em
pleno: dia no stio mais povoado de Paris. Talvez fosse ter ao respiradouro de
algum largo. Pasmo entre os transeuntes ao verem surgir-lhe debaixo dos ps dois
homens cobertos de sangue.
     Os agentes da polcia acudiriam, o posto de guarda mais prximo pr-se-ia
em armas.
     Seria agarrado logo ao sair do cano. Antes entranhar-se naquele ddalo,
embrenhar-se naquela escurido e entregar o resultado nas mos da Providncia.
     Dito isto, subiu o declive e tomou  direita.
     Apenas dobrou a Volta da galeria, o longnquo claro do respiradouro
desapareceu completamente, caindo sobre ele um vu de trevas, no meio das quais
lhe era impossvel ver coisa alguma. Nem por isso, todavia, deixou de prosseguir,
com a maior rapidez que podia, levando Mrio s costas com os braos passados
em roda do pescoo e os ps pendentes. Com uma das mos segurava-lhe os
braos e com a outra apalpava a parede. O rosto do rapaz como que se colava ao
dele, em virtude do sangue que lho cobria. Do corpo de Mrio corria um lquido
tpido, que trespassava a roupa do seu salvador. Entretanto, o calor hmido que
se exalava da boca do ferido, e que Joo Valjean sentia num dos ouvidos, indicava
que ainda respirava, e, por consequncia, vivia. O corredor por onde Joo Valjean
agora caminhava era menos estreito do que o primeiro. Todavia, Joo Valjean
avanava com grande dificuldade. As guas da chuva do dia antecedente
continuavam ainda a correr, formando uma pequena enxurrada pelo centro do
cano, de modo que ele via-se na necessidade de se cozer com a parede para no
molhar os ps. Assim caminhava por entre aquelas trevas, semelhante a um
fantasma, s apalpadelas no meio do invisvel e subterraneamente perdido nas
sinuosidades da escurido.
     Pouco a pouco, porm, ou porque alguns respiradouros longnquos
derra-massem alguma claridade flutuante no meio daquela opaca cerrao ou
porque os seus olhos j Estivessem afeitos  escurido, o caso  que principiou a
distinguir confusamente, ora a parede, unido  qual caminhava, ora a abbada,
por baixo da qual passava. As pupilas dilatam-se na escurido, na qual, por
ltimo, chegam a ver claramente, do mesmo modo que a alma se dilata no
infortnio, no qual vem, por ltimo, a descobrir Deus.
     Difcil, porm, era o orientar-se no meio daquele labirinto.
     O traado dos canos repercute, para assim dizer, o traado das ruas que lhe
fica sobreposto. Havia ento em Paris duas mil e duzentas ruas. Por aqui se
poder formar ideia do que seria essa floresta de ramos tenebrosos, chamada
encanamento. O sistema de canos existente naquela poca, pegados uns aos
outros, apresentaria uma extenso de onze lguas. J dissemos que a rede actual,
graas  extrema actividade destes ltimos trinta anos, no tem menos de sessenta
lguas.
     Joo Valjean principiou por enganar-se.
     Sups que estava por baixo da rua de S. Diniz, e oxal que assim tivesse sido.
     Ficava por baixo da rua de S. Diniz um antigo cano de pedra, que data de Lus
XIII, e que vai ter direito ao canomestre chamado Cano Grande, tendo apenas
uma volta do lado direito, na altura da antiga Corte dos Milagres, e uma nica
ramificao, o cano de S. Martinho, cujos quatro braos se cortam em forma de
cruz. O cano, porm,, da Pequena Truanderie, cuja entrada ficava prxima da casa
de pasto de Corinto, nunca, em tempo algum, comunicou com o subterrneo da
rua de S. Diniz; desemboca no cano de Montmartre, exactamente onde Joo
Valjean se achava. Neste ponto, as ocasies de se perder ainda eram em maior
nmero, por isso o cano de Montmartre era, naquele tempo, um dos mais
enlabirintados de toda a rede. Felizmente, Joo Valjean j tinha passado o cano
dos Mercados, cujo plano geomtrico figura um sem nmero de mastarus
entrecruzados, porm tinha para diante de se ver em mais de uma coliso: e de
encontrar mais de uma esquina de rua - pois aquilo so ruas oferecendo-se-lhe
como pontos de interrogao; em primeiro lugar,  esquerda, o grande cano da
Platrire, espcie de capacete chins, estendendo e emaranhando o, seu caos de
TT e ZZ por baixo da casa do Correio e da rotunda do Mercado do trigo at ao
Sena, onde termina em Y; segundo,  direita, o corredor curvo da rua do
Quadrante com os seus trs dentes, que so outros tantos becos sem sada;
terceiro,  esquerda, a ramificao do Mail, complicada, quase  entrada, por uma
espcie de bifurcao, e indo, de ziguezague em ziguezague, desembocar na
grande cripta-lcera do Louvre, contada e ramificada em todos os sentidos;
finalmente,  direita, o corredor sem sada da rua dos Jejuadores, sem contar
diversos cotovelos aqui e alm, antes de chegar ao canomestre, o nico que o
podia conduzir a alguma sada remota, e, por consequncia segura. Se Joo
Valjean tivesse alguma noo de quanto aqui indicamos, depressa conheceria,
apalpando simplesmente a parede, que se no achava na galeria subterrnea da
rua de S. Diniz. Em vez da antiga pedra de cantaria, em vez da antiga arquitectura,
altiva e rgia at naquilo, com leito e fiadas certas de granito e argamassa feita da
melhor cal, a qual custava a oitocentas libras a toeza, conheceria, ao toc-la, a
barateza contempornea, o expediente econmico, a alvenaria cimentada com
argamassa hidrulica sobre camadas de betume, que custa duzentos francos o
metro, sistema burgus chamado de materiais midos.
     Assim caminhava Joo Valjean, ansioso, mas sereno, sem ver nada, sem nada
saber, confiando-se ao; acaso, isto , entregando-se  Providncia.
      medida, porm, que ia avanando, sentia-se tomado de certo horror e com
o esprito penetrado da escurido que o envolvia, como se caminhasse por entre
um enigma.  aqueduto da cloaca  temvel, com o seu vertiginoso cruzamento de
ramificaes.  uma coisa lgubre achar-se qualquer naquele Pas de trevas.
     Joo Valjean via-se na necessidade de achar c quase de inventar o seu
caminho, sem o ver. Naquela manso desconhecida, cada passo que ele
aventurava podia ser o ltimo. Como sairia ele dali? Depararia com alguma sada?
Encontr-la-ia a tempo?
     Conseguiria abrir e penetrar aquela colossal esponja subterrnea de alvolos
de pedra?
     Encontraria algum inesperado n de escurido? Chegaria ao inextrincvel e
ao inacessvel? Veria morrer Mrio, em virtude da hemorragia, e ele morreria de
fome?
     Acabariam por perder-se ambos e tornarem-se dois esqueletos em algum
canto daquela escurido? No o sabia. Fazia todas estas perguntas a si mesmo, e
no sabia que responder-lhes. O intestino de Paris  um precipcio. Joo Valjean
achava-se, como o profeta, dentro da barriga do monstro.
     Um inesperado acontecimento o veio surpreender. No momento em que
menos o pensava e sem ter cessado de caminhar em linha recta, conheceu que no
subia; a gua da enxurrada batia-lhe nos calcanhares, em lugar de lhe passar pelas
pontas dos ps.
     Por consequncia, o cano descia. Que queria isto dizer? Dar-se-ia o caso que
ele estivesse por momentos a desembocar no Sena? O perigo em que se ia meter
era grande, mas o de recuar ainda maior.  vista disto, continuou a avanar.
     No era, porm, ao Sena que ia ter. A proeminncia que o solo de Paris
apresenta na margem direita escoa uma das suas vertentes no Sena e a outra no
canomestre. O cume desta proeminncia, que determina a diviso das guas,
desenha uma linha em extremo caprichosa. O ponto culminante, que  o lugar em
que se separam as enxurradas, fica, no cano de Saint-Avoye, diante da rua de
Miguel L Comte, no do Louvre, prximo aos boulevards, e no de Montmartre,
prximo aos mercados. Era a esse ponto culminante que Joo Valjean tinha
chegado. Dirigia-se ele, pois, para o canomestre e achava-se em bom caminho,
porm no tinha disso o menor conhecimento.
     Todas as vezes que encontrava alguma ramificao apalpava-lhe as esquinas,
e se via que a abertura que se lhe apresentava era mais estreita do que o corredor
em que se achava, no entrava nela e continuava o seu caminho, julgando, e com
razo, que todo o caminho mais estreito devia ir ter a algum pequeno cano sem
sada, que s serviria para mais o afastar do seu alvo, isto , da sada. Evitou assim
o lao qudruplo que lhe preparavam, no meio das trevas, os quatro ddalos que
acabamos de enumerar.
     Em certa ocasio, conheceu que saa debaixo da parte de Paris, petrificada
pela revolta, onde as barricadas tinham feito cessar a circulao, e que entrava
para debaixo da parte de Paris viva e normal, porquanto ouviu, de sbito, por
cima, um como ribombo de trovo, longnquo, mas contnuo. Era o rodar das
seges.
     Havia meia hora quase, segundo o seu clculo, que ele caminhava, ,sem se
lembrar sequer de descansar, mudando apenas a mo com que agarrava Mrio.
Cada vez era mais profunda a escurido, mas esse mesmo aumento de trevas, o
tranquilizava.
     De sbito, viu que a sua prpria sombra se desenhava num pequeno e mal
distinto claro avermelhado, que vagamente purpureava o pavimento e a abbada
do cano em que se achava, reflectindo-se de um lado e de outro sobre as paredes
viscosas do corredor.
     A esta vista voltou-se estupefacto.
     Pelo lado de trs, na parte do corredor para diante do qual acabava de passar,
a distncia que lhe pareceu imensa, refulgia, fendendo com a sua luz a espessa
escurido, uma espcie de horrvel astro, que parecia contempl-lo.
     Era a sombria estrela da polcia, surgindo na cloaca.
     Para l desta estrela, oito ou dez vultos negros, direitos, indistintos, terrveis,
se agitavam confusamente.



    II
    Explicao



    Por ocasio da revolta de Junho., ordenara a autoridade que se efectuasse uma
busca geral no encanamento de Paris, por se lembrar que talvez algum dos
vencidos tivesse procurado esse refgio.
    Em virtude disto, ao mesmo tempo que o general Bugeaud, no dia 6, corria o
Paris pblico, o prefeito Gisquet pesquisava o Paris oculto; dupla operao
conexa, que exigia uma dupla estratgia da parte da fora pblica, em cima
representada pela tropa, em baixo pela polcia. Trs pelotes de agentes e
trabalhadores se entranharam em explorao pelo encanamento de Paris, o
primeiro na margem direita, o segundo na margem esquerda, o terceiro na Cite.
     Os agentes procediam quela busca armados de clavina, cacetes, espadas e
punhais.
     O claro que acabava de impressionar Joo Valjean era o da lanterna da
ronda da margem direita, a qual tinha findado o seu exame quanto  galeria curva
e aos trs becos que ficam por baixo da rua Quadrante. Na ocasio em que ela
examinava, ao claro da sua lanterna, todos os recantos desses becos, chegara Joo
Valjean  entrada da galeria, porm vendo que esta era mais estreita do que o
corredor principal, deixou-a e passou adiante.
     Ao sarem da galeria do Quadrante, afigurou-se aos homens da polcia ouvir
rumor de passos na direco do canomestre.
     Eram, efectivamente, os passos de Joo Valjean.
     O sargento que comandava a ronda elevou a lanterna e puseram-se todos a
olhar, por entre a cerrao, para o lado de onde tinha vindo o rumor.
     Foi este, para Joo Valjean, um indefinvel instante.
     Felizmente, se ele via bem a lanterna, a lanterna a ele via-o mal. Ela era a luz,
ele a escurido, afastado e confundido, como se achava, nas espessas trevas
daquele lugar.
     Contudo, parou e cozeu-se o mais que pde com a parede.
     Verdadeiramente, porm, nem ele sabia o que aquilo era. A falta de sono e de
alimento, as emoes, porque tinha passado, haviam-no igualmente reduzido ao
estado de visionrio. Via um claro, em roda do qual se moviam umas larvas. Mas
o que isso significava no sabia ele.
     Como  natural, apenas Joo Valjean parou, cessou tambm o rumor de
passos, que os agentes de polcia tinham suposto ouvir.
     Como, porm, escutassem e nada ouvissem, olhassem e no vissem coisa
alguma, entraram em deliberao.
     Havia ento, naquele ponto do cano de Montmartre, uma espcie de largo
chamado de servio, que depois foi suprimido, por causa do pequeno lago
interior que as guas das chuvas, em ocasio de Inverno, ali formavam.
     Foi nesse largo que os agentes de polcia se reuniram a conferenciar.
     Joo Valjean viu formar uma espcie de crculo quelas larvas, viu
chegarem-se umas s outras aquelas cabeas de ces de fila e entrarem a
cochichar.
     O resultado do concilibulo dos ces de fila foi dizerem-se mutuamente que
se tinham enganado, quanto ao rumor que haviam julgado ouvir; que se no
achava ningum dentro do cano; que era escusado embrenharem-se no
canomestre, porque seria tempo perdido, mas que deviam dirigir-se
imediatamente para o lado de Saintterry, pois se havia a desencovar alguma
caa, era decerto para esse lado.
     Em virtude desta deliberao, o sargento mandou obliquar  esquerda, para o
lado da vertente do Sena.
     Se, em vez disto, se lembrassem de se dividir em dois grupos, tomando cada
qual uma direco oposta, Joo Valjean seria preso infalivelmente,  provvel,
porm, que as instrues da prefeitura, prevendo algum caso de combate e alguma
multido de insurgentes, proibissem  ronda que se fraccionasse. Assim, pois, por
este ou outro motivo, o caso  que os agentes continuaram o seu caminho,
deixando Joo Valjean em sossego. De todo aquele movimento, o extenuado
salvador de Mrio apenas percebeu o eclipse da lanterna, que desapareceu
subitamente.
     Antes, porm, de se retirar, e para descargo da conscincia da polcia, o
sargento disparou a sua clavina na direco do stio onde se achava Joo Valjean e
que eles tinham resolvido abandonar. A detonao retumbou de eco em eco, pela
extenso da cripta, como um burburinho daquele titnico intestino. Um bocado
de calia que se despegou de cima e veio cair no meio da gua que escorria pelo
cano, fazendo-a saltar para os lados, deu-lhe a conhecer que a bala tinha batido na
abbada, por cima da sua cabea.
     Durante algum tempo, ainda se ouviu um rumor de passos cadenciados e
lentos, cada vez mais confusos,  medida que se iam afastando; o grupo dos vultos
negros desapareceu; viu-se oscilar, flutuar e depois sumir-se completamente o
claro de uma luz, que desenhava na abbada um arco avermelhado
sucessivamente menor; tornou-se de novo profundo o silncio e completa a
escurido, e Joo Valjean, no ousando ainda mover-se, permaneceu por muito
tempo encostado  parede, com o ouvido atento, as pupilas dilatadas,
contemplando inconsciente o desaparecimento daquela patrulha de fantasmas.



    III
    O homem perseguido



    A polcia daquele tempo - justia lhe seja feita nem ainda nas mais graves
conjunturas pblicas deixava de desempenhar com toda a imperturbabilidade os
seus deveres de limpeza e vigilncia. No seu entender, uma revolta no podia ser
mais do que mero pretexto para deixar os malfeitores  larga e descurar a
sociedade, por se achar o governo em perigo. Assim, pois, o servio ordinrio
efectuava--se conjuntamente com o extraordinrio, sem que o segundo
perturbasse o andamento do primeiro.
     No obstante a simultaneidade de algum incalculvel acontecimento poltico
em princpio, no obstante a presso da possibilidade de uma revoluo, um
agente de polcia dava do mesmo modo caa aos ladres, sem se deixar distrair
pela insurreio nem pela barricada.
     Era exactamente uma coisa semelhante a isto o que ocorria na tarde do dia 6
de Junho, na ribanceira da margem esquerda do Sena, logo adiante da ponte dos
Invlidos. Hoje a ribanceira j no existe e o aspecto desse local mudou.
     Por essa ribanceira viam-se caminhar dois homens, que, conquanto
separados por alguma distncia, pareciam observar-se um ao outro e mutuamente
evitar-se. O que caminhava adiante procurava afastar-se, o que o seguia a alguma
distncia forcejava por no perd-lo de vista.
     Era uma espcie de partida de xadrez, jogada de longe e em silncio.
     Nenhum deles mostrava ter pressa, antes caminhavam vagarosamente, como
se cada um deles receasse fazer apertar demais o passo ao seu parceiro.
     Dir-se-ia uma fera seguindo a sua presa, sem dar a conhecer que o fazia de
propsito.
     A presa, porm, era matreira e sabia como haver-se com a fera. Era o mastim
no encalo da fuinha.
     Assim, se julgaria decerto, ao ver to bem guardadas as propores entre
perseguido e perseguidor. O que procurava escapar-se era magro e de dbil
aspecto; o perseguidor, de avantajada corpulncia, tinha um aspecto rude e no
parecia bom de vergar. Em virtude disto, o primeiro, por isso mesmo que
reconhecia a superioridade do outro, evitava-o, mas evitava-o de um modo em
que transluzia a mais concentrada raiva. Se a algum fosse dado observ-lo,
ver-lhe-ia nos olhos a sombria hostilidade da fuga, a expresso ameaadora do
temor.
     A margem do rio jazia completamente solitria. No se via um nico
transeunte, nem dentro das embarcaes amarradas ao longo da ribanceira se
divisava algum barqueiro ou carrejo.
     S do cais fronteiro seria possvel ver distintamente aqueles dois homens.
     Examinados desse ponto, o que ia na frente apresentaria o aspecto de um ente
eriado, olhando desconfiado em torno de si e tiritando de frio debaixo da
esfarrapada blusa que o cobria; e o outro, o aspecto de um homem clssico e
oficial, com o seu casaco de empregado do Estado abotoado at cima. Sem
dvida que o leitor os conheceria, se os visse mais perto.
     Que fim tinha o segundo em vista?!
     Proporcionar decerto ao primeiro mais agasalhado vesturio.
     Quando algum homem, vestido pelo Estado, vai no encalo de outro homem
coberto de andrajos,  porque tambm quer facilitar-lhe o ensejo dele receber
igual graa do Estado. O ponto est simplesmente na cor.
     O trajo azul  uma glria; o encarnado uma coisa desagradvel. Tambm
existe uma prpura que simboliza abjeco.
     Era decerto ao dissabor de se ver obrigado a envergar semelhante prpura
que o primeiro se desejava esquivar.
     Se o outro assim o deixava ir livremente seguindo o seu caminho, sem
procurar ainda deitar-lhe a mo era, como evidentemente parecia, porque
esperava v-lo chegar a algum stio onde tivesse lugar o seu encontro, de antemo
aprazado, com outros da mesma laia, a que ele pudesse deitar a mo. Chama-se a
esta delicada operao dar caa.
     Esta conjectura  tanto mais provvel, por isso que o homem do casaco
abotoado, vendo passar pelo cais um fiacre sem ningum dentro, fez sinal ao
cocheiro para que parasse; este, que percebeu o sinal e conheceu decerto com
quem tratava, mudou de direco e principiou a seguir vagarosamente os dois
homens de cima do cais.
     Nenhum destes movimentos, porm, foi percebido pelo homem da blusa
esfarrapada que ia adiante O carro seguia ao longo das rvores dos Campos
Elsios, por cima de cujo parapeito se via perpassar o busto do cocheiro, de chicote
em punho.
     Entre as instrues secretas da polcia h uma que contm o seguinte artigo:
Ter sempre  mo uma carruagem de aluguer para qualquer eventualidade.
     Ao passo que cada um daqueles homens executava a sua estratgia com a
maior percia, aproximavam-se ambos mais e mais de uma rampa que descia do
cais para a ribanceira, por onde os cocheiros das seges que transitavam na estrada
de Passy traziam os cavalos a beber ao rio. Esta rampa, submissa aos caprichos da
simetria, veio, mais tarde, a ser suprimida. Morrem os cavalos  sede, mas a vista
acha em que se recrear.
     Natural era que o homem da blusa subisse por essa rampa, tentando evadir-se
pelos Campos Elseos, local coberto de rvores,  verdade, mas, em compensao,
muito frequentado pelos agentes de polcia, em quem o outro encontraria fcil
auxlio, se o da blusa, como parecia, para ali se dirigisse.
     Com grande surpresa, porm,, do homem do casaco abotoado, o da blusa,
em vez de tomar pela rampa, continuou a seguir pela ribanceira ao longo do cais.
     A sua posio, portanto, tornava-se visivelmente crtica.
     A no ser o de lanar-se ao Sena, que outro fim poderia ele ter em vista?
     Pois que no tomava pela ladeira, nenhum outro meio lhe restava de subir
para o cais; nem rampa nem escadas. Longe disso. Pouco adiante do stio onde o
homem da blusa se achava, a direito da ponte de Iena, o rio formava um cotovelo,
onde a ribanceira, cada vez mais estreita, acaba, por ltimo, em ponta aguda,
sumindo-se por baixo de gua. Chegando a, como estava bem de ver, o homem
achar-se-ia bloqueado, inevitavelmente, por todos os lados;  direita, pelo muro
do cais, cortado a prumo;  esquerda e pela frente, pelo rio; finalmente, da
retaguarda, pelo homem que o seguia.
     Verdade  que, ao fim da ribanceira, se achava um monte de entulho de seis
ou sete ps de altura, proveniente de no sabemos que demolio. Mas que
importava isso? Pois o homem esperaria, porventura, achar um esconderijo
seguro, ocultando-se por trs daquele monte de entulho, em roda do qual bastaria
que o outro desse uma volta para logo dar com ele? O expediente seria, realmente,
pueril. To pueril, que nem decerto lhe passava pela ideia. A inocncia dos ladres
no chegaria a semelhante ponto.
     Chegado junto do monte de entulho, o qual formava  beira de gua uma
espcie de eminncia que se prolongava com um promontrio at ao muro do
cais, o homem da frente transps o outeirinho de calia, por trs do qual
desapareceu aos olhos do que o seguia.
     Este, que assim como no via, tambm no era visto, aproveitou o ensejo para
pr termo  dissimulao com que at ento procedera e principiou a caminhar
apressadamente. Por consequncia, dentro de poucos instantes achava-se ao p do
promontrio de entulho, que transps sem perda de tempo. Chegado a, parou
estupefacto. O homem em cuja caa ia, havia desaparecido.
     Total eclipse do homem da blusa.
     Do monte de entulho para diante, apenas havia uns trinta passos mais de
ribanceira. Ao fim dos trinta passos, a ribanceira mergulhava no rio o qual vinha
bater de encontro ao muro do cais.
     Ora o fugitivo no podia ter-se lanado ao Sena nem escalado o muro sem ser
visto pelo que o seguia; por conseguinte, que era feito dele?
     Incapaz de resolver tal enigma, o homem do casaco abotoado avanou at ao
fim da ribanceira, onde se deteve um momento pensativo, fechando e abrindo
convulsivamente os punhos e circunvagando a vista por todos os objectos em
redor, com perscrutadora ateno. De sbito, interrompeu-se a si prprio,
batendo na testa, como se tivesse achado o fio do enigma, cuja decifrao
baldadamente procurava. No stio em que findava a terra e principiava a gua,
acabava de avistar uma grade de ferro, larga e baixa, em forma de arco e reforada
por uma segurssima fechadura e trs descomunais dobradias. Por baixo desta
grade, espcie de porta aberta na base do cais, e que tanto deitava para o rio como
para a ribanceira, corria um rego de gua suja, que desaguava no Sena.
     Pela parte de dentro dos grossos e enferrujados vares que formavam a grade,
avistava-se apenas uma espcie de corredor abobadado e escuro.
     O homem cruzou os braos e deitou um olhar de repreenso para a grade.
     Como o olhar, porm, no bastasse, tentou abri-la; abanou-a, mas ela resistiu
solidamente. Posto se no tivesse ouvido o menor rudo, coisa singular numa
grade to cheia de ferrugem, de supor era que tinha sido aberta; mas o que era
indubitvel  que havia sido fechada outra vez, o que indicava que aquele a quem
ela acabava de dar passagem, possua no uma gazua, mas uma chave.
     To evidente se afigurou esta hiptese ao esprito do homem que forcejava
por abrir a grade, que lhe fez bradar num tom de indignao:
     - Isto  de mais! Uma chave do governo!... E, serenando-se imediatamente,
continuou, exprimindo a infinidade de ideias que lhe acudiam ao crebro, pela
seguinte cadeia de exclamaes admirativas, proferidas com acento quase irnico:
     - Ora! Ora! Ora!
     Dito isto, foi postar-se  espreita por trs do monte de entulho, com a raiva
paciente do mastim!,  espera no sei se de ver sair o homem que entrara, se de ver
entrar mais alguns.
     Quanto ao carro, que regulava pelos dele todos os seus movimentos, parara
junto do parapeito, e o cocheiro, prevendo considervel demora, encaixou o
focinho dos seus cavalos no saco de aveia molhada em baixo; saco to conhecido
dos parisienses, por isso que s vezes o governo - seja dito em parntesis - lhes d
de comer nele.
     Ao mesmo tempo, os raros transeuntes da ponte de Iena, antes de
completamente se afastarem, voltavam-se e punham-se a contemplar por alguns
momentos aqueles dois vultos imveis, que faziam parte da paisagem: o homem
na ribanceira, o carro no cais.



    IV
    Tambm ele carrega com a sua cruz



     Joo Valjean pusera-se de novo a caminho, porm cada vez eram maiores as
dificuldades que lhe surgiam diante, porque nem sempre o nvel das abbadas dos
canos  o mesmo. A sua altura mdia regula por cinco ps e seis polegadas, mas
conquanto fosse calculada para a estatura de um homem, Joo Valjean via-se
obrigado a agachar--se para obstar a que Mrio batesse com a cabea na abbada.
A cada instante se via na necessidade de se curvar e tornar-se a endireitar, sem,
porm, nunca deixar de apalpar a parede. Infelizmente, quer para as mos, quer
para os ps, eram pouco seguros os pontos de apoio que encontrava, por causa da
humidade das pedras e da viscosidade do pavimento do cano. Por consequncia, a
cada passo escorregava ou vacilava no meio do sujo canal subterrneo. Os reflexos
intermitentes dos respiradouros apenas apareceriam de longe em longe, e to
descorados, que mais pareciam provir da Lua que do Sol; tudo o mais eram trevas,
miasmas, sombras, cerrao escura. Pela fome, e especialmente pela sede, ele se
sentia pungido o desditoso, e ali tinha gua; mas gua que, como no mar, ele via e
no podia beber.
     Apesar da fora de que era dotado, que era extrema, como se sabe, e que nem
com a idade tinha diminudo, graas ao seu casto e sbrio viver, Joo Valjean
comeava a sentir-se enfraquecer, e,  medida que mais se sentia presa do cansao,
mais se lhe aumentava o peso do fardo que conduzia. Mrio, cadver, talvez
apesar do extremo cuidado com que Joo Valjean lhe procurava deixar O peito
desoprimido para que tomasse livremente a respirao, pesava como pesam todos
os corpos inertes. Ao firmar os ps no cho, os ratos cruzavam-se em tal
quantidade pelo pavimento do cano; que ele sentia-os roarem-lhe pelas pernas,
chegando um, a mord-lo; espavorido talvez do inaudito encontro. De espao a
espao; porm, batia-lhe no rosto, coada pelas grades dos respiradouros, uma
lufada de ar fresco, que o reanimava.
     Seriam trs horas da tarde, pouco mais ou menos, quando ele chegou ao
Cano Grande.
     No primeiro relance, ficou maravilhado daquele sbito alargamento, ao
ver-se de chofre no meio de uma ampla galeria, a cujas paredes no chegava ao
mesmo tempo com ambos os braos estendidos e debaixo de uma abbada em
que no tocava com a cabea. Esta circunstncia, porm,, facilmente se explica,
sabendo-se que o Cano Grande tem sete ps de altura sobre oito de largo.
     No stio onde o cano de Montmartre vem desaguar ao Cano Grande, h uma
encruzilhada formada por mais duas galerias subterrneas, a da rua da Provena e
a do Matadouro, que tambm ali desaguam. Outro qualquer, ao ver-se entre
aqueles quatro caminhos, teria ficado indeciso; Joo Valjean no hesitou,
tomando pelo mais largo; isto , pelo principal. Neste ponto, porm, a mesma
dvida do princpio se oferecia: devia subir ou descer? Joo Valjean viu que a
situao urgia, e que, portanto, lhe cumpria chegar ao Sena a todo o transe, ou,
por outras palavras, descer. Foi o que fez, tomando, sem: hesitao,  esquerda.
     Foi o que lhe valeu, pois seria erro supor que o Cano Grande tem duas sadas,
uma para o lado de Bercy, outra para o de Passy, e que e, como  primeira vista
pareceria, a circunvalao subterrnea da margem direita de Paris. O Cano
Grande, que no  outra coisa mais - repetimos - do que o antigo ribeiro de
Meniljnontant, termina em cima num outro cano sem sada, isto , no seu antigo
ponto de partida, na base da colina de Menilmontant, onde tinha a sua origem, e
no tem comunicao directa com a ramificao que recebe as guas de Paris, de
Popincouit para baixo, e que vai desaguar no Sena pelo cano de Amelote, logo
acima da antiga ilha de Louviers.
     Esta ramificao, que  o complemento do cano principal, fica separada dele,
por baixo da prpria rua de Menilmontant, por uma grossa parede, que marca o
ponto de diviso das guas de um lado e do outro. Por conseguinte, se Joo
Valjean tivesse subido a galeria, chegaria, aps mil obstculos, extenuado de
fadiga, mais morto do que vivo, a uma parede, e ento ficaria perdido.
     Em vez de subir, porm, descera, guiado apenas pelo instinto, que no o
enganou. Nisso consistia, efectivamente, a possibilidade de se ver a salvo daquele
medonho labirinto, pelo meio do qual caminhava e de que nada sabia. Se algum,
naquela hora, lhe perguntasse onde se achava, Joo Valjean apenas responderia:
Nas trevas! Guiado, pois, unicamente pelo seu instinto, o generoso salvador de
Mrio deixou  direita os dois corredores que se bifurcam em forma de garra por
baixo da rua Laffite e da de S. Jorge, bem como a outra bifurcao da calada de
Antin.
     Chegado pouco adiante de um afluente, que cremos seria a ramificao da
Madalena, Joo Valjean parou, arquejante de cansao, justamente num stio do
cano que um respiradouro bastante largo, talvez o da rua de Anjou, iluminava
quase completamente, e poisou Mrio na banqueta do cano com a cautelosa
solicitude que qualquer usaria para com um irmo ferido.
     Ao claro projectado pelo respiradouro para dentro do subterrneo, o
ensanguentado rosto de Mrio desenhou-se como no fundo de um tmulo. Os
olhos fechados, os cabelos empastados de sangue, colados s fontes, como pincis
molhados em tinta vermelha e depois secos, as mos pendentes e sem movimento,
os membros frios, os lbios manchados de sangue coagulado, eis o aspecto que
oferecia o rapaz. Uma grande pasta de sangue cobria-lhe o lao da gravata; a
camisa pegara-se-lhe s feridas; o pano do casaco roava-lhe igualmente nelas e
devia avivar-lhe o sofrimento, se ele estivesse em estado de sentir.
     Joo Valjean desviou-lhe a roupa com as pontas dos dedos e ps-lhe a mo no
corao, que ainda pulsava. Em seguida, rasgou um bocado da prpria camisa,
ligou-lhe as feridas o melhor que pde e obstou assim  continuao da
hemorragia; feito isto, inclinou-se para o jovem que continuava desmaiado e
fitou-o com um olhar de inexprimvel dio.
     Ao tratar os ferimentos de Mrio, Joo Valjean encontrara-lhe nos bolsos
dois objectos - o bocado de po que ele no dia antecedente tinha metido no bolso
do casaco e a carteira. Comeu o. po e abriu a carteira. Apenas terminara esta
operao, deparou logo com o bilhete com as seguintes linhas, escritas por Mrio,
e que o leitor decerto ainda no esqueceu:
     Chamo-me Mrio Pontmercy. Peo que levem o meu cadver a casa de meu
av, o senhor Gillenormand, morador na rua das Mulheres do Calvrio, nmero
6, ao Marais. Joo Valjean leu estas quatro linhas ao claro do respiradouro .e
ficou um momento como que profundamente absorto, repetindo a meia voz:
     - Rua das Mulheres do Calvrio, nmero 6, senhor Gillenormand.
     Em seguida, tornou a meter a carteira no bolso, de Mrio e, restaurado de
foras com o bocado de po que tinha comido, tornou a pegar nele s Costas,
encostou-lhe cuidadosamente a cabea ao seu ombro direito e continuou a descer
O cano.
     O Cano Grande, que segue o thalweg do vale de Menilmontant, tem perto de
duas lguas de comprimento e  pavimentado de pedra em grande parte da sua
extenso.
     Uma coisa, porm, cumpre notar.
     O facho das ruas de Paris, com que aos olhos do leitor alumiamos a marcha
subterrnea de Joo Valjean, no o tinha este. Indcio nenhum lhe dizia que zona
da cidade ele atravessava nem que poro de caminho tinha vencido. Apenas o
descoramento das rstias de luz que de espao a espao encontrava lhe indicava
que o Sol ia fugindo das ruas e no tardaria a esconder-se; e como o rodar dos
carros, que ouvia por cima, cada vez mais indistinto, viesse, por ltimo, a cessar
completamente, concluiu daqui que j no se achava por baixo do centro de Paris,
mas sim que se avizinhava de algum solitrio lugar das imediaes dos boulevards
exteriores ou dos ltimos cais.
     Onde h menos casas e menos ruas, os canos tambm tm: menos
respiradouros.
     Apesar da Crescente escurido que por todos os lados o envolvia, nem por
isso desistiu de avanar sempre, embora s apalpadelas e rodeado de trevas.
     Chegado a certo ponto, esta escurido tornou-se repentinamente terrvel.



    V
    Existe na areia como na mulher, certa finura prfida



     Joo Valjean conheceu que ia a meter-se em gua e que o que tinha sob os ps
j no era pedra, mas lodo.
     Em certas costas da Bretanha ou da Esccia, sucede s vezes que um homem,
viajante ou pescador, caminhando na baixa-mar pela praia, longe de terra, de
sbito d conta que h muitos minutos experimenta certa priso ao andar. O solo
parece pez, em que se lhe agarram os sapatos, como se j no fosse areia, mas
visco, o que os seus ps pisam. Afigura-se-lhe completamente enxuta a areia, mas
a cada passo que ele d, a cova que seus ps descreveram no cho enche-se de
gua. Nenhuma mudana, apesar disso, descobre a vista; a imensa plaga continua
lisa e tranquila, toda a areia tem o mesmo aspecto, nenhuma diversidade se nota
entre a terra firme e a que j o no ; diante do viandante continua a saltar do
mesmo modo a alegre nuvem dos pulges marinhos. O homem segue o seu
caminho, vai andando sempre, tomando para o lado da terra e procurando
aproximar-se da costa, sem que, porm, o menor temor o sobressalte. Temor de
qu? Todavia, sente o que quer que seja, como se os ps se lhe tornassem mais
pesados a cada passo que d. De repente, enterra-se. Enterra-se duas ou trs
polegadas. Decididamente, no vai pelo bom caminho; pra a orientar-se. De
sbito, olha para o cho. Os ps desapareceram-lhe debaixo de uma camada de
areia.
     Tira-os, tenta retroceder, volta atrs, enterra-se ainda mais. Ao ver-se
enterrado em areia at ao tornozelo, faz um esforo para tomar  esquerda,
enterra-se at meio da perna; faz outro esforo, firmando-se para o outro lado,
enterra-se at ao joelho. Ento conhece, possudo de indizvel terror, que se acha
no meio de um areal movedio, em que ao homem  to impossvel andar como
ao peixe nadar. Atira fora o que traz s costas, se traz alguma coisa, alija tudo o
que o sobrecarrega, como o navio surpreendido pela tempestade, mas nada lhe
vale, que a areia passa-lhe j acima do joelho.
     Ento chama e agita o chapu ou o leno, e, ao mesmo tempo, a areia mais e
mais o submerge; se a praia se acha deserta, se ele est muito distante de terra, se o
banco de areia goza de m nota, se no h heris nos arredores, disse; o infeliz ali
ficar submerso, condenado a essa horrorosa morte, demorada, infalvel,
inevitvel, impossvel de ser apressada ou espaada, morte que dura horas, que
parece no ter termo, que nos colhe de p, livre e cheio de sade, morte que nos
puxa pelos ps, e a cada esforo que tentamos, a cada grito que elevamos, nos
arrasta agora um pouco, logo mais, que parece punir-nos da nossa resistncia,
confrangendo-nos gradualmente, que lentamente obriga o homem a entranhar-se
pela terra, sem o estorvar de contemplar o horizonte que vai deixar, o horizonte,
as rvores, os campos esmaltados de verde, os tectos de colmo dispersos pela
amplido da plancie, sobre os quais se elevam espirais de fumo, que se ramificam,
se estendem e se dissipam no ar; sem vos estorvar de contemplar as velas dos
navios ondulando alm no mar, e as aves que esvoaavam se cantam por cima de
Vs, indiferentes  imaginvel angstia que lentamente vos absorve a vitalidade;
sem vos estorvar de contemplar o Sol e o cu, sorrisos de Deus para as flores,
esplendores de clares em que se perdem e se ofuscam as trevas da vossa agonia.
     Sabeis o que  morrer assim, privado de auxlio, tocando com os ps na morte
e os braos na vida, respirando o ar, isto , a vida; sentindo a presso da areia
molhada, isto , a morte? Sabeis o que isto ?  a mar do sepulcro subindo das
entranhas da terra a submergir aquele homem que est vivo:. cada minuto  um
coveiro inexorvel.
     O infeliz tenta sentar-se, firmar-se nas mos, desprender-se por qualquer
modo, e cada movimento que faz no seu exasperado contorcer-se mais o enterra;
ora se arranca 
     voragem, ora cai nela; tenta erguer-se, o abismo abre as fauces, mas logo as
cerra com mais frenesi, como se quisesse deix-lo livre por um instante, a cada
esforo que ele faz, para mais ao largo o abocar na sua goela medonha. Ele ruge,
implora, brada, contorce-se desesperado. Intil esforo, baldado estrebuchar!
Vede-o como se enterra em areia at ao ventre; vde-o como j esta lhe chega ao
peito; livre da boca da voragem, resta-lhe aquilo que vedes - o busto! Ouvi-lhe as
vozes sem conforto com que o desgraado impele os ecos da praia; vede como
ergue as mos, como se expande em gemidos desesperados, cravando as unhas na
areia, traidor apoio, que lhe foge com o seu auxlio, tentando agarrar-se ao que
no tem consistncia, fincando-se nos cotovelos para se tirar desse pego
movedio, soluando freneticamente; e a areia sempre a subir, subindo sem
descanso, de contnuo, pouco a pouco, mas incessantemente. Ei-la que lhe cobre
os ombros, ei-la que lhe chega ao pescoo; eis que j apenas o rosto  a nica parte
visvel de todo ele. Gritava; encheu-se-lhe de areia a boca, emudeceu. Os olhos,
vem ainda, a areia fecha-lhos. Silncio, depois trevas. Que resta ainda? Vedes-lhe
um fragmento de testa. L desapareceu agora. Uma madeixa de cabelos
redemoinhando na areia, ao sopro de uma lufada do mar. L se sumiu tambm.
Esperai. L se agitou o que quer que fosse.  o derradeiro estertor?  isso e mais.
Uma mo, que irrompe do cho, se move no ar e desaparece para sempre.
      sinistra desapario humana!
     Eis como, nessas terrveis plagas, tm lugar estas medonhas catstrofes, em
que s vezes acontece ficar sepultado cavalo e cavaleiro, e outras no s o carro,
mas quem o dirige.  um naufrgio sem ser na gua.  a terra afogando o homem.
A terra, impregnada de gua, convertendo-se em armadilha.  a terra
apresentando-se como plancie e tragando como vaga. Traio em que o abismo
abunda.
     Esta fnebre aventura, ainda hoje possvel em certas praias de mar, era-o
igualmente, h trinta anos no encanamento de Paris.
     Antes dos importantes trabalhos principiados em 1833, era o encanamento de
Paris sujeito a repentinos desabamentos.
     Infiltrava-se a gua em certos terrenos subjacentes, mormente se eram
friveis, e o pavimento do cano, quer fosse (revestido de pedra, como no sistema
antigo, quer formado de cal hidrulica, como nas galerias actuais, desnivelava-se,
uma vez que no achasse ponto de apoio. Em pavimentos deste gnero, um desvio
de nvel  uma fenda,  a runa certa. Abria-se o pavimento dentro de certa rea,
e a esta: abertura, hiato de um abismo de lama, chamava-se na linguagem especial
algara subterrnea. Que  uma algara? A areia movedia da beira-mar
encontrada, de repente, debaixo da terra; o areal do monte de S. Miguel num
cano. O solo parece uma substncia em fuso; todas as suas molculas se acham
em suspenso num meio inconsistente; no  terra, mas tambm no  gua. No
se pode imaginar coisa mais temerosa. Se predomina a gua,  rpida a morte,
porque a submerso  instantnea; ,se predomina a terra,  lenta a morte, porque
h enterramento.
     Quem h a capaz de avaliar o horror de semelhante morte? Se o
enterramento  horroroso numa praia de mar, que no ser numa cloaca?
     Em vez do ar livre, da luz do dia, daquele horizonte claro, daqueles
majestosos sussurros, daquelas nuvens livres de que chove a vida, daquelas barcas
avistadas ao longe, daquela esperana que toma todas as formas, da possibilidade
de passar algum, da possibilidade de ser socorrido at o ltimo instante, em vez
de tudo isto, a surdez, a cegueira, uma abbada escura, o interior de um tmulo
pronto e acabado, a morte na lama debaixo de uma tampa! A sufocao lenta por
meio da imundcie, um caixo de pedra em que a asfixia estende as garras no meio
do lodo e vos aperta a garganta; o ftido de envolta com a agonia; o lodo em vez
da areia; o hidrognio sulfurado em vez do furaco; o lixo em vez do Oceano, e
clamar, e ranger os dentes, e estorcer-se, e debater-se e agonizar com: a cidade
enorme, que o ignora, por cima da cabea! Inexprimvel horror - o de tal morte!
     A morte compensa s vezes a sua atrocidade por uma certa dignidade terrvel.
     No naufrgio, na fogueira, podemos ser grandes;  possvel uma atitude
majestosa, quer no meio das chamas, quer no meio da espuma; transfiguram-nos
em qualquer dessas conjunturas. Mas, no caso que indicamos, no. Nesse caso, a
morte  asquerosa,  humilhante expirar. As supremas vises que flutuam diante
de nossos olhos so abjectas. Lama  sinnimo de vergonha.  mesquinho, feio e
infame. Morrer afogado num tonel de Malvasia, como Clarence, passa; no lixo de
um cano, como Escottbleau,  horrvel. Debater-se ali dentro  medonho; ao
mesmo tempo que agoni-zamos, chafurdamos. So trevas demais para se chamar
quilo inferno, e demasiada lama para se lhe dar apenas o nome de tremedal, de
modo que o moribundo no sabe se vai transformar-se em espectro, se em sapo.
     Em qualquer parte  sinistro o sepulcro, aqui  disforme.
     A profundidade das algaras variava, bem como a sua extenso e densidade,
segundo a melhor ou pior qualidade das camadas inferiores do solo. Algumas
algaras tinham trs e quatro ps de profundidade, outras oito ou dez, e algumas
havia a que no se achava fundo. Nuns stios a lama era quase slida, noutros
quase lquida. Na algara Lunire gastaria qualquer homem um dia a desaparecer,
ao passo que teria sido devorado em cinco minutos pelo atoleiro Phelippeaux. A
lama  mais ou menos consistente, segundo a sua maior ou menor densidade.
Salva-se Uma criana onde se perde um homem. A primeira coisa essencial para
qualquer se salvar  despojar-se de tudo quanto seja objecto de peso. A primeira
coisa que um limpador punha em prtica, apenas sentia fugir-lhe o solo debaixo
dos ps, era atirar fora o saco da ferramenta, o cesto ou o caixo.
     Diversas eram as causas das algaras; friabilidade do solo, algum aluimento em
profundidade fora do alcance do homem; os fortes aguaceiros do Vero; as chuvas
continuadas do Inverno; os chuviscos aturados. As vezes o peso das casas
circunjacentes sobre um terreno marnoso ou arenoso apertava as abbadas das
galerias subterrneas e as fazia sair do nvel, se  que muitas vezes no saltava o
pavimento fora do seu lugar, comprimido pela enorme massa dos prdios
vizinhos. Assim foi que, com o peso do Panteon, h um sculo, ficou
completamente destruda parte dos subterrneos da montanha de Santa
Genoveva. Quando qualquer cano abatia com a presso das casas, o estrago, em
certas ocasies, traduzia-se no pavimento da rua por um desnivelamento entre as
pedras, que se estendia, serpenteando, em toda a extenso da abbada arruinada,
e, nesse caso, como o mal era visvel, o remdio podia ser pronto. Acontecia,
porm, muitas vezes que o estrago interno no se dava a demonstrar por indcio
algum externo. Nesse caso, ai dos limpadores, porque, entrando desprevenidos no
cano aludo, podiam perder-se nele. Os antigos registos fazem meno de alguns
limpadores que, deste modo, ficaram sepultados nas algaras. Entre muitos nomes
que nesses documentos figuram, encontramos o do limpador que morreu em
virtude do aluimento do cano da rua de Careine-Prenant, um tal Braz Poutrain,
irmo de Nicolau Poutrain, o ltimo coveiro do cemitrio chamado Carneiro dos
Inocentes, em 1758, poca em que este cemitrio deixou de existir.
     Nos mesmos documentos deparamos com o nome do jovem e elegante
visconde de Escoubleau, de quem acima falamos, um dos heris do tero de
Lrida, onde o assalto foi dado com rebecas na frente e vestindo os assaltantes
meias de seda.
     Escoubleau, surpreendido, uma noite, em casa de sua prima, a duquesa de
Sourdis, afogou-se num atoleiro do cano Beautreillis, onde se tinha refugiado para
escapar ao duque. Quando, lhe contaram a morte do visconde, Madame de
Sourdis pediu o seu frasco e esqueceu-se de chorar  fora de respirar sais.
     Em caso anlogo no h amor que resista; a cloaca extingue-o.
     Hero recusa lavar o cadver de Leandro; Tysbe pe a mo no nariz ao avistar
Pyraimo e exclama:
    - Puf!



    VI
    O sorvedouro



     Joo Valjean achava-se na presena de uma das depresses de terreno de que
acabmos de falar.
     Aquele gnero de desabamentos era ento frequente no subsolo dos Campos
Elseos, dificilmente apropriado nos trabalhos hidrulicos e pouco conservador
das construes subterrneas, em razo da: sua excessiva fluidez. Esta fluidez
ultrapassa a inconsistncia das prprias areias do bairro de S. Jorge, que s se
deixaram vencer por um alicerce de argamassa e das camadas argilosas infectadas
de gs, do bairro dos Mrtires, to lquidas, que no pde ser praticada a passagem
sobre a galeria dos Mrtires, seno por meio de um tubo fundido. Quando, em
1836, foi demolido, por baixo do arrabalde de Santo Honorato, para ser
reconstrudo, o antigo cano de cantaria, onde vemos neste momento internado
Joo Valjean, a areia movedia, que  o subsolo dos Campos Elseos at ao Sena,
servia de obstculo, a ponto de fazer com que a operao; durasse perto de seis
meses, provocando altos queixumes dos moradores marginais, principalmente
dos que tinhampalcios e trens. Os trabalhos foram mais do que difceis, foram
perigosos. Verdade  que naquela poca houve quatro meses e meio de chuvas e
trs cheias no Sena.
     O charco que Joo Valjean encontrou tinha por causa a grande enxurrada da
vspera. Uma depresso da calada, mal sustida, pela areia subjacente, fizera
empoar as guas da chuva. Operando-se a infiltrao seguira-se o
desmoronamento. O escoadouro, deslocado, enterrava-se no lodo. Em que
extenso? Era impossvel diz-lo.
     A escurido ali era mais densa do que em qualquer outro ponto. Era um
buraco de lama numa caverna de trevas.
     Joo Valjean sentiu faltar-lhe o terreno debaixo dos ps. Entrou naquele
lodaal.
     Era gua na superfcie, e no fundo era lodo! Contudo, necessitava passar.
Voltar para trs era impossvel. Mrio estava agonizante, Joo Valjean exausto.
Alm disto para onde poderia ir? Joo Valjean prosseguiu no seu caminho. Depois
o charco pareceu-lhe pouco profundo ao dar os primeiros passos. Mas,  medida
que ia avanando, sentia mergulhar mais os ps. Em pouco tempo chegava-lhe o
lodo at meio da perna e gua acima dos joelhos. Caminhava, erguendo Mrio o
mais que podia, com ambos os braos, acima da gua. O lodo chegava-lhe j s
curvas das pernas e a gua  cintura.
     J no podia recuar. A cada passo mergulhava mais e mais.
     Aquele lodo, bastante denso para o peso dum homem, no podia
evidentemente suportar o de dois.
     Mrio e Joo Valjean teriam tido probabilidade de se tirarem dali, mas cada
um de per si.
     Joo Valjean continuou a avanar, sustentando sempre o moribundo, que era.
J talvez um cadver.
     A gua j lhe dava por baixo dos braos; sentia-se soobrar; s com muito
custo podia mover-se na profundidade de lodo em que se achava. A densidade,
que era o sustentculo, era tambm o obstculo. Continuava a erguer Mrio
quanto possvel; e com inaudito dispndio de foras, ia indo para a frente, mas
submergindo-se cada vez mais. J no tinha fora de gua seno a cabea e os
braos, elevando Mrio. Nas velhas pinturas que representam o dilvio, h uma
me que diligencia assim salvar seu filho.
     Como continuava a sentir-se ir para baixo, inclinou a cabea para trs, com o
fim de afastar a boca da gua e poder respirar; quem o tivesse visto naquela
escurido julgaria estar vendo uma mscara flutuante na sombra: acima de si
distinguia vagamente a cabea pendente e o rosto lvido de Mrio; fez um esforo
desesperado e lanou o p para a frente; o p topou com um objecto slido: um
ponto de apoio. Era tempo.
     Endireitou-se, inteiriou-se, e como que lanou razes com uma espcie de
fria, naquele ponto de apoio, o que lhe produziu o efeito do primeiro degrau
duma escada para a vida.
     Aquele ponto de apoio achado no lodo e no momento supremo, era o comeo
de outra vertente do escoadouro, que cedera sem se destruir e se curvara debaixo
de gua - como uma tbua e numa s pea. Os empedramentos bem feitos
formam abbada e apresentam destas firmezas, Aquele fragmento do escoadouro,
em parte submergido, mas slido, era uma verdadeira rampa, e uma vez sobre ele
estava-se salvo. Joo Valjean subiu por aquele plano inclinado e chegou ao outro
lado do charco.
     Ao sair da gua bateu numa pedra, que o fez ajoelhar. Achou que era justo e
permaneceu assim algum tempo, com a alma entregue a no sei que palavra
dirigida a Deus.
     Tornou a erguer-se, trmulo, gelado, infecto, curvado sobre o peso do
moribundo, que ia, para assim dizer, arrastando, todo ele escorrendo lama, mas
com a alma iluminada por estranha luz.



    VII
    s vezes naufraga-se onde se julga desembarcar



     Ainda mais uma vez Joo Valjean se ps a caminho. No fim de tudo, se no
tinha deixado a vida no sorvedouro, parecia-lhe ter deixado nela a fora. Aquele
supremo esforo exaurira-o de todo. O seu cansao ento era tal, que de trs em
trs ou de quatro em quatro passos via-se obrigado a tomar o flego,
encostando-se  parede.
     Duma vez teve de se sentar na banqueta para mudar Mrio de posio: julgou
que ficaria ali. Mas se o seu vigor estava morto, no o estava a sua energia. Tornou
portanto a erguer-se.
     Comeou a andar desesperadamente quase com pressa, deu deste modo uns
cem passos, e de repente esbarrou com a parede. Chegara a um cotovelo do cano;
e como ia com a cabea baixa, foi mesmo direito  esquina; levantou os olhos, e na
extremidade do subterrneo, na sua frente l muito longe, avistou luz. Desta vez
no era a luz terrvel; era a boa luz, a luz alva. Era o dia.
     Joo Valjean avistava j a sada.
     Uma alma condenada que do meio da fornalha avistasse inopinadamente a
sada da gehena, experimentaria o que Joo Valjean experimentou. Voaria
desorientadamente com os cotos das asas queimadas para a porta radiante. Joo
Valjean deixou de sentir a fadiga e o peso de Mrio, tornou a achar as suas pernas
de ao, e passou a caminhar de modo que mais parecia correr.  medida que se
aproximava, desenhava-se a sada mais distintamente. Era o Arco mais baixo que
a abbada, que ia baixando gradualmente, menos largo que a galeria e que
estreitava na mesma proporo que a abbada se baixava. O tnel terminava
como o interior de um funil; contraco viciosa, imitada dos postigos das prises,
lgica numa cadeia, desarrazoada num cano, e que depois foi corrigida.
     Joo Valjean chegou  sada.
     Ali, parou.
     Era, com efeito, a sada, mas no era possvel sair.
     O arco era fechado com uma fortssima grade, e esta, segundo todas as
aparncias, girava raras vezes em seus gonzos oxidados, estava presa  ombreira
de pedra por uma espessa fechadura, que vermelha de ferrugem, parecia um
enorme tijolo. Via-se o buraco da chave e a enorme lingueta profundamente
embutida no seu encaixe de ferro.
     A fechadura estava visivelmente fechada com dupla volta. Era uma daquelas
fechaduras de Bastilhas, em que o velho Pans se mostrava prdigo.
     Para alm da grade, o ar livre, o rio, o dia, a encosta estreitssima, mas
suficiente para passar. Ao longe do cais, Paris, pego onde  to fcil a qualquer
ocultar-se, o amplo horizonte, a liberdade. Distinguia-se  direita olhando para
baixo, a ponte de Iena, e  esquerda, olhando para cima, a dos Invlidos; o lugar,
esperando a noite, era propcio para a fuga. Era um dos pontos mais solitrios de
Paris; a encosta fronteira ao Gros-Caillou. Por entre os vares da grade entravam e
saam as moscas.
     Seriam oito horas da tarde. Ia anoitecendo.
     Joo Valjean ps Mrio no cho, encostado  parede e no stio enxuto do
escoadouro, em seguida foi direito  grade e deitou ambas as mos aos vares; a
sacudidela foi frentica, mas o abalo foi nulo.
     A grade nem se moveu.
     Joo Valjean experimentou os vares cada um por sua vez, esperando poder
arrancar o menos slido e fazer dele alavanca para levantar a porta ou quebrar a
fechadura. Nenhum dos vares deu de si. Os dentes de um tigre no so mais
slidos em seus alvolos. Nada de alavanca; nada de recurso possvel. O obstculo
era invencvel. No havia meio de abrir a porta. Deveria acabar ali? O que faria?
Que resoluo deveria adoptar? Retroceder, recomear o medonho trajecto que j
havia percorrido? No se sentia com foras para isso. Depois, como atravessaria
de novo aquele charco, no haveria aquela ronda da polcia,  qual, decerto, no
escaparia duas vezes? Alm disto, para onde iria? Que direco deveria tomar?
Seguir pelo declive, no era obter o fim. Chegaria a outra sada e ach-la-ia
obstruda com uma rolha ou com uma grade. Todas as sadas estavam
indubitavelmente fechadas do mesmo modo.
     No conseguira seno evadir-se para uma priso.
     Estava tudo acabado, fora intil tudo quanto Joo Valjean fizera. O desalento
terminava no aborto.
     Estavam ambos presos na sombria e imensa teia da morte, e Joo Valjean
sentia correr pelos seus negros fios, estremecendo no meio das trevas, a espantosa
aranha.
     Voltou as costas para a grade e sentou-se, ou melhor, caiu prostrado junto de
Mrio, que continuava imvel, e curvou a cabea sobre os joelhos.
     No achar uma sada! Era a ltima gota da angstia!
     Em quem pensava ele, no meio daquela incomensurvel tortura?
     Nem em si mesmo nem em Mrio. Pensava em Cosette!



    VIII
    A aba do casaco rasgada



    No meio da sua prostrao, sentiu pousar-se-lhe uma mo no ombro e ouviu
uma voz, dizendo-lhe em tom baixo:
    - Repartamos.
    Gente no meio daquelas trevas?
    Joo Valjean sups que sonhava, porque nada se assemelha tanto ao sonho
como a angstia.
    No tinha ouvido passos.
    Seria possvel?
    Levantou os olhos.
    Diante dele achava-se um homem.
    Este homem trajava uma blusa, estava descalo e tinha os sapatos na mo
esquerda; decerto tirara-os para chegar at junto de Joo Valjean, sem ser
pressentido.
    Joo Valjean no hesitou um instante.
    Apesar do imprevisto daquele encontro, conheceu logo quem tinha diante de
si.
    Aquele homem era Thenardier.
    Posto que acordado, por assim dizer em sobressalto, Joo Valjean, afeito aos
choques repentinos e aos golpes inesperados, que  necessrio aparar logo,
readquiriu imediatamente toda a sua presena de esprito. Alm de que, a situao
no podia piorar, porque a angstia, chegada a certo grau, no pode ir mais
avante, de modo que nem o prprio Thenardier podia aumentar o negrume
daquela escurido.
     Seguiu-se uma pausa.
     Thenardier levou a mo direita  testa como para ver melhor, depois franziu
as sobrancelhas, piscando os olhos, o que, com uma leve contraco de lbios,
caracteriza a ateno sagaz de um homem que procurava reconhecer outro. No
pde, porm, consegui-lo. Joo Valjean, como j dissemos, estava com as costas
voltadas para a luz, e, alm disso, achava-se por tal modo desfigurado com a lama
e o sangue que o cobriam, que fora impossvel reconhec-lo, mesmo  claridade
do dia. Pelo contrrio, iluminado em cheio pela luz da grade, claridade de
subterrneo,  verdade, lvida, sim, mas precisa na sua lividez, Thenardier foi
imediatamente reconhecido por Joo Valjean. Essa desigualdade de condies era
bastante para assegurar a Joo Valjean uma tal ou qual vantagem, no; misterioso
duelo que se ia travar entre as duas situaes e os dois homens.
     O encontro tinha lugar entre Joo Valjean velado e Thenardier desmascarado.
     Joo Valjean viu logo que Thenardier no o reconhecera.
     Contemplaram-se ambos um momento, no meio daquela penumbra, como se
previamente se quisessem medir.
     Thenardier foi o primeiro a quebrar o silncio.
     - E agora para sares?
     Joo Valjean no respondeu.
     Thenardier continuou:
     - Forar a grade  impossvel. Todavia, o que tu queres  sair.
     -  exacto! - disse Joo Valjean.
     - Nesse caso, repartamos.
     - Que queres tu dizer com isso?
     - Mataste o homem, fizeste muito bem! E eu tenho a chave.
     Ao dizer isto, Thenardier apontava para Mrio.
     - Apesar de te no conhecer - prosseguiu ele - quero ajudar-te. No podes
deixar de ser um dos nossos.
     Joo Valjean comeou a entender. Thenardier tomava-o por um assassino.
     O antigo estalajadeiro tornou:
     - Escuta, camarada. Tu, com certeza, no matavas esse homem sem ver
primeiro o que ele trazia nos bolsos. D-me metade que eu abro-te a porta.
     E, mostrando parte de uma chave que trazia escondida por baixo da
esburacada blusa, acrescentou:
     - Queres ver com que te posso tirar desses assados? Olha.
     Joo Valjean ficou estpido - a frase  do velho Corneille - a ponto de
duvidar que fosse real o que estava vendo. Era a Providncia, sob um aspecto de
horror; era o bom anjo surgindo da terra, sob a forma de Thenardier.
     O estalajadeiro meteu a mo ao bolso da blusa, tirou uma corda e entregou-a
a Joo Valjean.
     - Toma - disse ele - ainda por cima te dou uma corda.
     - Uma corda para qu?
     - Tambm hs-de precisar de uma pedra, mas essa ach-la-s l fora, num
monte de entulho que l est.
     - E para que quero eu a pedra?
     - Pateta! Ento no te  preciso uma corda e uma pedra para deitar o gajo ao
rio, de modo que ele no fique a boiar na gua?
     Joo Valjean pegou na corda. No h ningum que no tenha destas
anuncias maquinais.
     Thenardier fez estalar os dedos, como se de sbito lhe tivesse acudido uma
ideia, e exclamou:
     -  verdade, camarada, como arranjaste tu para sair do atoleiro? Eu no me
atrevi a meter-me nele. Puf! No cheiras nada bem!
     E, aps uma pausa, acrescentou:
     - Estou a fazer-te perguntas a que tu tens razo para no responder. Aprendi
a ser confiado com certo juiz do meu conhecimento. E, demais, no dizendo a
gente nada, no se arrisca a falar alto de mais.  o mesmo; por eu te no ver a cara
nem te saber o nome, no cuides que no sei quem s nem: o que queres. Assim;
eu soubera outras coisas! Deste um, piparote c no amigo e agora o que desejas 
met-lo seja onde for, no rio, por exemplo, que  o grande encobre-asneiras! Vou
tirar-te de assados. Eu c dou o cavaco por ajudar a livrar um bom rapaz de
entaladelas!
     Ao mesmo tempo que fingia aprovar o silncio de Joo Valjean, o empenho
de Thenardier era, sem dvida, obrig-lo a falar. Deitou-lhe a mo ao ombro, a
fim de poder v-lo de perfil, e exclamou, sem contudo, altear mais a voz:
     - A propsito do atoleiro, sempre te direi que s bruto como uma casa!
Porque no deixaste l o homem?
     Joo Valjean no respondeu.
     Thenardier continuou, puxando at ao n da garganta o trapo que lhe servia
de gravata, gesto que completa o ar grave de um homem srio:
     - Para te falar a verdade, talvez fizesses bem. Os trabalhadores que amanh
ho-de vir tapar o buraco, com certeza encontrariam o gajo no meio da lama, e
talvez, fio por fio, viessem a dar-te na pista e agarrar-te. Passou gente pelo cano.
Quem foi? Por onde saiu? Viu-o algum sair? A polcia  muito matreira! O cano 
traioeiro e no pe reparo em denunciar um homem. Um achado desta natureza
 uma raridade, que chama logo a ateno, porque poucos se servem dos canos
para os seus negcios, ao passo que do rio todos se utilizam. O rio  a verdadeira
cova. Ao cabo de um ms, encontra-se um homem nas redes de Saint-Cloud. E
que tem l isso? Quem matou esse homem? Paris. E a justia no d nem um
passo! Fizeste bem!
     Quanto mais Thenardier falava, mais Joo Valjean se conservava silencioso.
     Thenardier tornou a pr-lhe a mo no ombro.
     - Agora concluamos o negcio. Repartamos. Viste a chave, mostra-me
tambm o dinheiro.
     Thenardier apresentava-se com ar desvairado, feroz, astuto, um tanto amea-
ador, porm afvel.
     Dava-se uma estranha circunstncia: os modos de Thenardier no pareciam
naturais; conhecia-se que tinha o que quer que fosse que o inquietava e posto no
afectasse ar misterioso, falava em voz baixa; de tempos a tempos, punha o dedo na
boca e murmurava:
     - Chut!
     Difcil, porm, seria adivinhar o motivo de tudo isto, porquanto ali s
estavam eles. Joo Valjean lembrou-se de que talvez por ali perto estivessem mais
alguns bandidos, com quem Thenardier no desejava muito repartir o que
pudesse colher.
     Thenardier continuou:
     - Acabemos com isto. Quanto tinha o gajo nas aljambras?
     Joo Valjean levou as mos aos bolsos. Como estareis lembrados era costume
seu trazer sempre consigo algum dinheiro. A sombria vida de expediente a que
estava condenado assim lho tornava necessrio. Desta feita, porm, foi apanhado
desprevenido. No dia antecedente,  noite, ao vestir o seu uniforme de guarda
nacional, to lugubremente absorto se achava, que lhe esqueceu meter no bolso a
carteira. Apenas trazia consigo alguns trocos no bolso do colete. Virou-o, todo
cheio de lama, e ps em cima da banqueta do cano um lus em ouro, duas moedas
de cinco francos e cinco ou seis soldos.
     Thenardier estendeu o beio com uma toro de pescoo significativa.
     - Por pouco te deste ao trabalho de lhe dar cabo da pele! - disse ele.
     E, dizendo isto, principiou a apalpar com toda a familiaridade os bolsos de
Joo Valjean e os de Mrio. Joo Valjean, preocupado, acima de tudo, com a ideia
de voltar a ser reconhecido, deixava-o Ao apalpar Mrio, Thenardier, com a
destreza de um prestidigitador, achou meio de lhe rasgar uma aba do casaco, sem
Joo Valjean dar f e escond-la debaixo da blusa, lembrando-se talvez de que
aquele bocado de pano poderia, um dia, servir-lhe para descobrir o homem
assassinado e o assassino. Contudo, no encontrou nada mais alm dos trinta
francos.
     - No h dvida - disse ele - no vos encontrei mais nada.
     E esquecendo a sua frase: repartamos, deitou a mo a tudo. A vista dos soldos,
hesitou um pouco; porm, afinal, depois de reflectir, deitou-lhe tambm a mo,
murmurando; - No importa! Sempre  estardar um gajo por bem pouco!
     Em seguida, tirou novamente a chave debaixo da blusa.
     - Agora, amigo, toca a sair. Isto aqui  como na feira, paga-se ao sair! Pagaste,
portanto, podes sair.
     E soltou uma gargalhada.
     Quanto a ns,  duvidoso que Thenardier, prestando a um desconhecido o
auxlio daquela chave e fazendo-o sair por aquela porta, tivesse a inteno pura e
desinteressada de salvar um assassino.
     Thenardier ajudou Joo Valjean a pegar outra vez em Mrio, depois
dirigiu-se para a grade, em bicos de ps, acenando a Joo Valjean que o seguisse,
espreitou para fora, ps um dedo na bota e deteve-se alguns segundos, como que
suspenso. Terminada a sua inspeco, meteu a chave na fechadura. A lingueta
correu e a porta girou, sem estalido nem rangido, de qualidade alguma. Era visvel
que a grade e os gonzos, cuidadosamente azeitados, se abriam, mais vezes do que
parecia. Aquele silncio era sinistro; sentiam-se nele as entradas e sadas furtivas
dos homens nocturnos e os passos cautelosos do crime. Evidentemente, o cano era
cmplice de alguma misteriosa quadrilha. Aquela grade taciturna era alguma
receptadora.
     Thenardier entreabriu a porta apenas o necessrio para dar passagem a Joo
Valjean, tornou a fechar a grade, com duas voltas, e meteu-se outra vez pelo meio
da escurido, sem fazer maior rudo que um sopro.
     Parecia um tigre, caminhando p-antenp. Da por um instante, aquela
hedionda Providncia achava-se de novo submersa no invisvel.
     Joo Valjean achou-se da parte de fora.
    IX
    Onde Mrio passa por morto aos olhos de quem no  fcil de enganar



     Apenas se viu fora da grade, Joo Valjean deitou Mrio na ribanceira.
     At que, finalmente, se via livre dos miasmas, da escurido, do horror, e
inundado de ar salubre, puro, vivaz, alegre, livremente respirvel. Tudo em torno
dele respirava silncio, mas o silncio aprazvel do Sol, escondendo-se num
horizonte lmpido. Era a hora do crepsculo.; aproximava-se a noite, a grande
libertadora, a amiga de todos os que tm preciso de um manto de trevas para sair
de uma angstia.
     O cu parecia sorrir-lhe serenamente. O rio vinha tocar-lhe os ps com o
sussurro de um beijo. Ouvia-se o dilogo areo dos ninhos, despedindo-se nos
olmos dos Campos Elseos. Algumas estrelas, incrustadas no azul descorado do
znites e apenas visveis aos olhos do pensador, cintilavam trmulas e quase
imperceptveis na imensidade do espao. A tarde desenrolava por cima da cabea
de Joo Valjean todas as douras do infinito.
     Era a hora indecisa e aprazvel que no diz sim nem no. Havia j bastante
escurido para se no distinguir qualquer pessoa a alguma distncia e ainda
suficiente claridade para a podei reconhecer de perto.
     Joo Valjean sentiu-se, durante alguns segundos, dominado por toda esta
serenidade augusta e acariciadora; h destes momentos de esquecimento, em que
o sofrimento renuncia a torturar o infeliz; eclipsa-se tudo no pensamento; a paz
cobre o pensador com um vu de trevas, e, sob o crepsculo, que resplandece e 
imitao do cu que se ilumina, a alma cobre-se de estrelas.
     Joo Valjean no pde deixar de contemplar a vasta escurido clara que lhe
ficava por cima; pensativo, tomava no majestoso silncio do cu eterno um banho
de xtase e orao. Em seguida, por um movimento rpido, como se lhe voltasse a
conscincia do dever, curvou-se para Mrio, e tomando uma pouca de gua no
cncavo da mo, deitou-lhe algumas gotas no rosto. As plpebras do rapaz
continuaram fechadas, porm a sua boca entreaberta respirava.
     Ia Joo Valjean a meter outra vez a mo no rio, quando, de repente,
experimentou essa espcie de sobressalto que nos acomete, quando, sem vermos,
sentimos algum por trs de ns.
     J noutra parte indicmos esta impresso, que toda a gente conhece.
     Voltou-se.
     Algum, efectivamente, como h pouco, se achava por trs dele.
     Era um homem de elevada estatura, vestindo um comprido casaco, e que, de
braos cruzados, com uma grossa bengala de casto de chumbo na mo direita,
contemplava o quase cadver de Mrio, meio agachado.
     Parecia uma apario, visto quela indecisa claridade do fim do dia. Um
homem simples ter-lhe-ia medo por causa do crepsculo; um homem reflectido
por causa da grossa bengala que ele empunhava. Joo Valjean reconheceu Javert.
     Por certo que o leitor adivinhou que o perseguidor de Thenardier no era
outro seno Javert.
     Logo aps a sua inesperada sada da barricada, Javert dirigira-se  prefeitura
de polcia, teve uma breve audincia com o prefeito, a quem verbalmente fez o seu
relatrio, e saiu para dar cumprimento a uma incumbncia de servio, que
consistia em vigiar a ribanceira da margem direita, junto aos Campos Elseos, a
qual havia certo tempo preocupava a ateno da polcia.
     Chegado a, encontrara Thenardier e seguira-o.
     Fcil  de compreender que o servio da abertura da grade, to
obsequiosamente prestado a Joo Valjean, fora uma habilidade de Thenardier,
que, pressentindo ainda a presena de Javert por aqueles stios, por essa espcie de
faro de homem espiado., que nunca engana, entendeu que devia lanar um osso
ao mastim para com ele se entreter.
     Um assassino! Que mina! Seria uma dessas fortunas que nunca se desprezam.
     Thenardier, fazendo sair Joo Valjean, dava uma presa  polcia, fazia-lhe
largar a pista dele, conseguia ficar esquecido por uma aventura maior,
recompensava Javert pelo tempo que o fizera esperar, o que sempre lisonjeia um
espio, ganhava trinta francos e tinha toda a esperana de escapar, graas a
semelhante diverso.
     Joo Valjean passara de um escolho a outro.
     Estes dois encontros, seguidos sem intermdio um aps outro, eram
horrveis.
     Javert no reconheceu Joo Valjean, porque este, como j dissemos, no
parecia o mesmo. Sem descruzar os braos e apenas apertando a bengala na mo
com um movimento imperceptvel, Javert disse em voz rpida, mas serena:
     - Quem  voc?
     - Sou eu.
     - Voc quem?
     - Joo Valjean.
     Javert meteu a bengala entre os dentes, curvou o corpo, pousou as robustas
mos nos ombros de Joo Valjean, apertando-lhos como em dois tornos,
examinou-o e reconheceu-o. Os seus rostos quase se tocavam.
     O olhar de Javert era terrvel.
     Joo Valjean deixou-se apertar por Javert, como um leo que no resistisse s
garras de um lince.
     - Inspector Javert - disse ele - est senhor de mim! J desde pela manh que
eu me considerava como seu prisioneiro. No lhe disse onde morava para lhe
fugir. Aqui me tem, porm Peo-lhe uma coisa.
     Javert como que o no ouvia, to distrado se achava a contempl-lo. O seu
queixo franzido: levantava-lhe os lbios at junto do nariz, sinal de feroz
cogitao.
     Finalmente, largou Joo Valjean, endireitou-se como se fosse formado de
uma pea inteiria, abarcou na mo a bengala e proferiu, ou antes, murmurou,
como num sonho, a seguinte pergunta:
     - Que faz aqui? Quem  este homem:?
     O espio continuava a no tratar Joo Valjean por tu.
     Joo Valjean respondeu e o som da sua voz pareceu despertar Javert:
     - Justamente a respeito dele  que eu queria falar-lhe. Disponha de mim como
lhe aprouver, mas ajude-me primeiro a conduzi-lo a casa dele. No lhe peo outra
coisa!
     O rosto de Javert contraiu-se, como lhe sucedia todas as vezes que mostravam
julg-lo capaz de uma concesso. Contudo no disse que no.
     Em seguida, baixou-se outra vez, molhou em gua o leno que tirara do bolso
e correu-o pelo ensanguentado rosto de Mrio.
     - Este homem estava na barricada - disse ele a meia voz e como falando
consigo mesmo. -  o tal a quem chamavam Mrio.
     Espio de primeira qualidade, que tudo observara, tudo escutara e tudo
tomara nota, apesar de se julgar prestes a morrer; que at no meio da agonia
espiara, e debruado no primeiro degrau do sepulcro tomara apontamentos.
     Travou da mo de Mrio e tomou-lhe o pulso.
     -  um ferido - disse Joo Valjean.
     -  um morto - respondeu Javert.
     - Por enquanto no - tornou Joo Valjean.
     - Ento trouxe-o da barricada at aqui?  atalhou Javert.
     Era necessrio que a sua preocupao fosse muito grande para no insistir
naquele singular meio de salvao pelo encanamento, nem ao menos reparar no
silncio de Joo Valjean depois da sua pergunta.
     Pelo que respeita a este, parecia que um nico pensamento o dominava. Por
isso tornou:
     - Mora no Marais, na rua das Mulheres do Calvrio, em casa de seu av... J
me no lembra o nome.
     E, mal acabara de proferir estas palavras, meteu a mo num dos bolsos do
casaco de Mrio, tirou a carteira, abriu-a na pgina em que o rapaz escrevera a
lpis a sua ltima recomendao e entregou-a a Javert.
     Havia no ar bastante claridade flutuante para se poder ler. Alm disso, os
olhos de Javert possuam a fosforescncia felina das aves nocturnas. Por
consequncia, decifrou facilmente as poucas linhas escritas por Mrio, e
murmurou:
     - Gillenormand, rua das Mulheres do Calvrio, nmero 6.
     Depois gritou:
     - Cocheiro!
     O cocheiro que Javert intimara em silncio para o seguir esperava a pouca
distncia as ordens do espio.
     Javert meteu no bolso a carteira de Mrio.
     Instantes depois, o carro descia pela rampa de que acima falmos e chegava
junto do grupo formado pelos trs.
     Mrio foi posto no assento do fundo e Javert sentou-se com Joo Valjean no
da frente.
     Fechada a portinhola, o carro afastou-se rapidamente, subindo pelos cais em
direco  Bastilha.
     Saram dos cais e entraram nas ruas. O cocheiro parecia apenas um vulto
negro fustigando os magros cavalos. Dentro do carro era completo o silncio.
Mrio, imvel, encostado ao fundo, com a cabea pendida para o peito, os braos
cados, as pernas inteiriadas, parecia esperar apenas que o metessem em algum
caixo; Joo Valjean parecia feito de sombra e Javert de pedra; e naquele carro
cheio de escurido, cujo interior, cada vez que ele passava por algum lampio,
aparecia lividamente iluminado, como por um claro intermitente, o acaso reunia
e parecia confrontar lugubremente as trs imobilidades trgicas - o cadver, o
espectro e a esttua.
    X
    Regresso do filho prdigo



    A cada balano do carro, uma gota de sangue caa dos cabelos de Mrio.
    Era noite fechada quando o carro chegou  casa nmero 6 da rua das
Mulheres do Calvrio.
    Javert, que foi o primeiro a apear-se, certificou-se com um relance de olhos
do nmero da casa, e deitando a mo a um pesado martelo de ferro, adornado,
segundo a antiga moda, com um bode e um stiro em aco de se investirem, deu
com ele uma forte pancada. Uma das meias portas abriu-se, e Javert,
empurrando-a, deu com os olhos no porteiro, que acudira, ainda meio
Adormecido, com uma vela na mo.
    Em casa j todos se achavam deitados.
     esse o costume no Marais, principalmente em dias de tumulto. Este
excelente e antigo bairro, quando a revoluo o assusta, procura o refgio do
sono, como as crianas, quando ouvem o papo, metem rapidamente a cabea
entre os lenis.
    Ao mesmo tempo Joo Valjean, ajudado pelo cocheiro, tirava Mrio para fora
do carro, pegando-lhe um por baixo dos braos e outro pelas pernas.
    Na ocasio em que isto fazia, Joo Valjean meteu a mo por baixo da roupa
do rapaz, que se achava toda esburacada, apalpou-lhe o peito e viu que o corao
ainda batia. Batia ainda com mais fora, como se os balanos do carro lhe tivessem
produzido uma reaco.
    Javert dirigiu-se ao porteiro no tom que convm a uma autoridade que fala
com o porteiro de um faccioso.
    - Aqui  que mora um tal Gillenormand?
    - Sim, senhor. Que deseja?
    - Entregar o filho.
    - O filho? - disse o porteiro, estupidamente admirado.
    - Que vem morto.
    Joo Valjean, que seguia atrs de Javert, e para quem o porteiro, ao v-lo todo
roto e sujo, olhava com certo horror, acenou-lhe com a cabea que no.
    O porteiro, porm, no deu mostras de ter percebido nem as palavras de
Javert nem o sinal de Joo Valjean.
     Javert continuou:
     - Foi-se meter na barricada, agora ali o tm!
     - Na barricada?! - exclamou o porteiro.
     - Morreu porque quis! Mas v acordar o pai.
     O porteiro continuava imvel.
     - Ento? Vamos! - tornou Javert.
     E acrescentou:
     - Amanh haver aqui um enterro.
     Para Javert, os incidentes habituais dos caminhos pblicos estavam
classificados por ordem, de categoria, o que  o princpio da previdncia e da
vigilncia, e cada eventualidade tinha o seu compartimento; os factos possveis
achavam-se, de algum modo, em gavetas, de onde saam, chegada a ocasio, em
quantidades variveis; havia na rua barulho, tumulto, carnaval e enterro.
     O porteiro limitou-se a acordar Biscainho.
     Biscainho acordou Nicolette e esta acordou a tia Gillenormand.
     Quanto ao av, deixaram-no continuar a dormir, lembrando-se que a todo o
momento era tempo de lhe dar a saber o que se passava.
     Transportaram Mrio para o primeiro andar, sem que ningum mais de casa
o pressentisse, e deitaram-no num velho canap na antessala de Gillenormand.
     Enquanto Biscainho saa a procurar um mdico e Nicolette tirava panos de
linho de dentro dois armrios, Joo Valjean sentiu que Javert lhe punha a mo no
ombro.
     Compreendeu e saiu imediatamente, seguido por Javert.
     O porteiro viu-os partir, como os vira chegar, no meio de uma sonolncia
apavorada.
     Meteram-no no carro e o cocheiro subiu para o seu lugar.
     - Inspector Javert - disse Joo Valjean - conceda-me outro favor.
     - Qual? - perguntou Javert com aspereza.
     - Deixe-me chegar a casa s por um instante. Depois faa de mim o que
quiser!
     Javert deteve-se alguns instantes silencioso, com a cabea pendida para o
peito, e, por fim, exclamou, baixando a vidraa da frente:
     - Cocheiro, para a rua do Homem Armado, nmero 7.
    XI
    Abalo no absoluto



     Em todo o resto do caminho no tornaram a trocar uma s palavra entre si.
Que tinha Joo Valjean em vista?
     Acabar o que tinha principiado; avisar Cosette, dizer-lhe onde estava Mrio,
dar-lhe talvez mais algum esclarecimento til, tomar, se lhe fosse possvel, certas
disposies supremas.
     Quanto ao que pessoalmente lhe dizia respeito, nada mais tinha a fazer; Javert
prendera-o, ele no lhe resistia.
     Na sua situao, outro qualquer talvez se lembrasse da corda que lhe dera
Thenardier e das grades do primeiro crcere em que fosse metido. Ele, porm,
no.
     Desde a poca do seu encontro com o bispo, Joo Valjean sentia uma
profunda hesitao religiosa em presena de qualquer atentado, ainda mesmo
contra si.
     O suicdio, pois, essa misteriosa violncia contra o incgnito, a qual, at certo
ponto, pode encerrar a morte da alma, tornava-se impossvel a Joo Valjean.
     A entrada da rua do Homem Armado, o carro parou, por ser a rua to
estreita, que os carros no podiam passar.
     Javert e Joo Valjean apearam-se.
     O cocheiro representou humildemente ao senhor inspector que o veludo de
Utrecht, de que era forrado o seu carro, estava todo sujo de sangue do homem
assassinado e da lama do assassino. Era isto o que ele supunha, pelo que vira.
Acrescentou !que se lhe devia uma indemnizao, e, ao mesmo tempo, tirando do
bolso um pequeno caderno, rogou ao senhor inspector que tivesse a bondade de
lhe passar um atestadozinho em como prestara o auxlio do seu carro para aquela
diligncia.
     Javert repeliu o caderno que o cocheiro lhe apresentava e disse:
     - Quanto se te deve por tudo?
     - Sete horas e um quarto - respondeu o cocheiro - e o veludo estava ainda em
folha. Oitenta francos, senhor inspector.
     Javert tirou do bolso quatro napolees e despediu o carro.
     Joo Valjean sups que a inteno de Javert era conduzi-lo a p ao posto de
Blancs-Manteaux ou ao dos Arquivos, que ficam prximos.
     Entraram na rua, que se achava deserta, como de costume. Joo Valjean ia
adiante. Chegaram ao nmero 7.
     Bateu Joo Valjean. A porta abriu-se.
     - Est bem - disse Javert. - Suba, E acrescentou com estranha expresso e
como se fizesse um esforo para assim falar:
     - Eu espero-o aqui.
     Joo Valjean fitou os olhos em Javert.
     Este modo de proceder estava pouco em harmonia com os hbitos do espio.
     No podia, porm, maravilhar-se muito de que Javert depositasse agora nele
uma espcie de confiana altiva, a confiana do gato que concede ao rato uma
liberdade Circunscrita ao comprimento das garras, visto que Joo Valjean estava
resolvido a entregar-se e a findar por uma vez. Abriu a porta, entrou, gritou ao
porteiro, que j estava deitado, e que, mesmo da cama, puxara pelo cordo:
     - Sou eu!
     E subiu a escada.
     Chegado ao primeiro andar, parou. Todas as vias dolorosas tm estaes. A
janela do patamar, que era de peitoril, achava-se aberta. Como em muitas casas
antigas a escada recebia luz por esta janela, a qual deitava para a rua. Exactamente
defronte, ficava um lampio, que derramava alguma claridade sobre os degraus, o
que era uma economia de luzes.
     Joo Valjean, ou com o fim de tomar ar ou maquinalmente, deitou a cabea
fora da janela e olhou para a rua. Como era pouco extensa, o lampio iluminava-a
de uma extremidade  outra. Joo Valjean teve um deslumbramento de pasmo, ao
v-la completamente deserta.
     Javert tinha-se ausentado.



    XII
    O av



    Biscainho e o porteiro haviam transportado Mrio para o salo, onde
continuava imvel no canap em que o tinham deitado, ao chegar. Acudira o
mdico, que havia sido chamado, e a tia Gillenormand levantara-se.
    Ela andava de um lado para outro, aferrada, de mos juntas e incapaz de fazer
mais nada do que dizer:
     - Deus de misericrdia! Parece uma coisa impossvel!... E acrescentava s
vezes:
     - No tardaremos a nadar todos em sangue!
     Passados os primeiros momentos de horror, o seu esprito abriu-se a certa
filosofia da situao, que se traduziu por esta exclamao:
     - A est no que tudo veio a parar! - sem, todavia, acrescentar o bem o dizia
eu, que  de uso em ocasies anlogas.
     Por ordem do mdico, foi colocada uma cama de lona junto do canap.
     O mdico examinou Mrio, e depois de se ter certificado de que o pulso
persistia, de que o ferido no tinha no peito nenhuma ferida muito profunda e que
o sangue dos cantos da boca provinha das fossas nasais, f-lo deitar ao comprido
na cama, sem travesseiro, com a cabea no mesmo plano que o corpo, e at um
pouco mais baixa, descoberto at  cintura para facilitar a respirao.
     Ao ver que tratavam de despir Mrio, a filha de Gillenormand retirou-se e
recolheu-se ao quarto a rezar as suas contas.
     O tronco estava isento de leso interna; uma bala, amortecida pela carteira,
resvalara ao longo das costelas, fazendo um medonho rasgo, pouco profundo, e,
por consequncia, sem perigo. A extensa marcha subterrnea acabara de deslocar
a clavcula quebrada, agravando, deste modo, o ferimento. Os braos estavam
cheios de cutiladas. Nenhum golpe lhe desfigurava o rosto, porm a cabea
tinha-a cheia deles.
     Que se seguiria destas feridas na cabea? Seriam apenas na pele ou teriam
penetrado o crnio? Ainda era cedo para o saber. Um sintoma grave  que os
ferimentos na cabea tinham causado o desmaio e nem sempre despertam os que
caem nesses desmaios.
     Alm disto, a hemorragia tinha extenuado o ferido. Da cintura para baixo, o
corpo no sofrera nada, protegido, como se achara, pela barricada.
     Biscainho e Nicolette rasgavam pano e preparavam ligaduras; Nicolette
cosia-as, Biscainho enrolava-as.
     A mngua de fios, o mdico estancara o sangue provisoriamente com
chumaos de algodo.
     Ao lado da cama ardiam trs velas sobre uma mesa, na qual se via aberto o
estojo cirrgico.
     O mdico lavou o rosto e os cabelos de Mrio com gua fria.
     Era tal a quantidade de sangue coagulado, que um balde de gua ficou
vermelho no mesmo instante.
     O porteiro alumiava, com uma vela que tinha na mo, todas as operaes do
tratamento.
     O mdico parecia tristemente preocupado.
     De espao a espao fazia com a cabea um aceno negativo, como se
respondesse a alguma pergunta que a si mesmo dirigisse.
     Mau sinal para o doente estes dilogos de um mdico consigo mesmo.
     No momento em que o clnico enxugava o rosto do ferido e lhe tocava ao de
leve com o dedo as plpebras, que ele continuava a ter fechadas, abriu-se uma
porta no fundo da sala e deu passagem a um vulto esguio e plido. Era o av.
     Havia dois dias que os tumultos em extremo agitavam, indignavam e
preocupavam Gillenormand. No pudera dormir na noite precedente e todo o dia
estivera a arder em febre.  noite, deitara-se muito cedo, recomendando que
fechassem bem todas as portas, e adormeceu profundamente de extenuado que se
encontrava.
     Os velhos tm o sono leve. O quarto de Gillenormand ficava contguo  sala,
de modo que, apesar das maiores precaues, acordara com o motim que no foi
possvel deixar de fazer. Admirado de ver luz por entre as fendas da porta, saltara
abaixo da cama e dirigira-se para ela s apalpadelas.
     Parado no limiar, com uma das mos no trinco da porta entreaberta, a cabea
trmula um pouco inclinada para diante, coberto com um estreito roupo branco,
direito e sem pregas, como uma mortalha, parecia, com o seu ar espantado, um
fantasma olhando para o tmulo.
     Ao avistar na cama aquele rapaz coberto de sangue, com o rosto branco como
cera, os olhos fechados, a boca aberta, os lbios roxos, nu at  cintura, crivado de
feridas, imvel, no meio de uma luz vivssima, Gillenormand sentiu, desde a
cabea at aos ps, o estremecimento de que podem ser capazes membros
ossificados; os olhos, cuja crnea a idade lhe amarelecera, cobriram-se-lhe de um
fulgor vtreo; o seu rosto tomou instantaneamente a cor plmbea de uma cabea
de esqueleto; os braos caram-lhe desfalecidos, como se lhes quebrasse a mola
que os sustentava, e o seu pasmo traduziu-se pelo afastamento dos dedos de suas
trmulas mos; os joelhos curvaram-se-lhe, deixando ver pela abertura as pobres
pernas nuas, eriadas de cabelos brancos, e murmurou:
     - Mrio!
     - Senhor - disse Biscainho - acabam agora mesmo de o trazer. Foi-se meter na
barricada e... - Morreu! - exclamou o velho com voz terrvel. Ah, facnora!
     Uma espcie de transfigurao sepulcral se operou ento naquele velho,
restituindo-lhe o vigor de um rapaz.
     - Senhor - disse ele - visto ser o mdico, diga-me uma coisa antes de mais
nada.
     Ele est morto, no  assim?
     O mdico, profundamente angustiado, permaneceu silencioso.
     Gillenormand tornou, torcendo as mos e soltando uma medonha
gargalhada:
     - Morreu! Morreu!... Era tal o dio que me tinha, que quis ir morrer numa
barricada! Foi contra mim que ele fez isto! Ah, sanguinrio! Em que estado ele me
volta a casa! Misria das misrias! Morto!
     Em seguida, chegou-se a uma janela, abriu-a de par em par, como se receasse
abafar, e, em p diante da escurido, principiou a falar para baixo, por entre as
trevas da noite:
     - Tratante! Aparecer-me aqui neste estado! Cheio de cutiladas, degolado,
exterminado, retalhado, feito em postas! J se viu uma coisa assim?! Ele bem: sabia
que eu o esperava, que lhe tinha mandado preparar o quarto e posto  cabeceira
da minha cama o seu retrato, tirado quando ele era pequeno! Bem sabia que, se
no voltasse, era porque no queria, porque eu h muitos anos o esperava e
passava as noites ao fogo com as mos sobre os joelhos, sem saber o que havia de
fazer, como um pateta! Bem sabias isto; bem sabias que no tinhas mais do que
voltar e dizer: Sou eu! e que serias o dono da casa e que farias de mim. O que
bem te parecesse! Bem o sabias, mas disseste l contigo:  um realista, no quero
nada com ele! E foste Meter-te nas barricadas e procurar a morte por maldade!
S para te vingares do que eu te disse a respeito do senhor duque de Berry! Oh,
isto  infame! Deite-se l uma pessoa e durma descansadamente para acordar e
v-lo naquele estado, morto!... O mdico, que principiava a inquietar-se por dois
lados, desamparou Mrio por um instante, e dirigindo-se para Gillenormand,
travou-lhe do brao.
     O ancio voltou-se, fitou-o com os olhos descomunalmente abertos e
purpureados de sangue, e disselhe serenamente:
     - Obrigado, senhor! No tenha receio, eu sei ser homem; vi morrer Lus XVI,
sei arrostar os revezes! Uma ideia, porm, que eu no posso tolerar,  a de que a
causa de todo o mal so os vossos jornais. Haveis de ter escrevinhadores,
faladores, advogados, oradores, tribunas, discusses, progresso, luzes, direitos de
homem, liberdade de imprensa, para nos trazerdes a casa os filhos neste estado!
Ah, Mrio! Isto  abominvel! Morto! Morrer primeiro do que eu! Uma barricada!
Ah, facnora!... Doutor, mora por aqui perto, no? Oh, eu bem o conheo! Vejo
da minha janela passar o seu carro.
     Ora escute. Engana-se se cuida que estou agastado. Agastar-se a gente contra
um cadver  uma estupidez! Eu criei esse rapaz. J eu era velho e ele ainda era
criana.
     Brincava nas Tulherias com um sachozinho e um carrinho, e, para os guardas
no lhe ralharem, eu ia tapando com uma bengala os buracos que ele ia fazendo
com o sacho.
     Um dia gritou: Abaixo Lus XVIII! e ningum mais soube dele. No tive
culpa nenhuma. Era corado e louro. A me tinha-lhe morrido. Tem notado que
todas as crianas so louras? Porque ser?  filho de um desses salteadores do
Loire, mas os filhos no tm culpa nos crimes dos pais. Ainda me lembro de
quando ele era pequenino! Muito lhe custava a pronunciar os dd. Tinha um modo
de falar to doce e to pouco claro, que parecia um pssaro! Lembro-me que, uma
vez, diante do Hrcules Farnesio, Rodearam-no umas poucas de pessoas para o
ver e admirar, to lindo era!
     Tinha uma cabea como as que se vem nas pinturas. Eu engrossava a voz e
metia-lhe medo com a bengala, mas ele bem sabia que era a rir! De manh,
quando entrava no meu quarto, ralhava-lhe, mas v-lo a ele era como se visse o
Sol! A gente no pode resistir a estes pequerruchos! Agarram-se, prendem-se,
nunca mais nos largam! O que  facto  que no havia pequerrucho mais lindo.
Agora que me diz dos senhores Lafayettes e Benjamins Constants, dos senhores
Tirecuirs de Corcelles, que mo puseram neste estado? Oh, isto no se pode
sofrer!... Acercou-se de Mrio, que continuava lvido e imvel, e para junto do
qual voltara o mdico, e principiou de novo a torcer os braos, agitando os plidos
lbios quase maquinalmente e proferindo, ou antes, gemendo palavras quase
indistintas, que mal se ouviam:
     - Ah, desalmado! Clubista! Celerado! Setembrista!
     Surdas exprobraes de um agonizante contra um cadver.
     Pouco a pouco, como  necessrio que as erupes interiores achem por onde
dilatar-se, voltou-lhe o encadeamento das palavras, mas parecia que j no tinha
fora para as pronunciar. A sua voz tinha-se tornado a tal ponto surda e dbil, que
parecia vir do outro lado de um abismo.
     - Mas  o mesmo; tambm, no tardarei a morrer! E no haver em Paris uma
desavergonhada que quisesse fazer a ventura deste maroto?! Um patife, que, em
lugar de se divertir e levar boa vida, foi bater-se e aparar as balas, como um pedao
de asno!
     E por quem e para qu? Pela repblica! Em vez de ir danar para a
Chaumire, como devem fazer todos os rapazes! De que lhe servia ento ter vinte
anos? A repblica, asneira chapada! Pobres mes, a est para que dais o ser a
filhos bonitos! L vai, morreu! Sero dois enterros que tero de sair pela mesma
porta! Deixaste pr-te nesse estado pelos belos olhos do general Lamarque! Que te
tinha feito o general Lamarque?
     Um mata-mouros, um falador eterno! Matar-se por um morto! Se isto no 
de fazer endoidecer! Se isto tem algum jeito! Aos vinte anos! E nem ao menos
olhar para trs a ver o que deixava! Agora tm os pobres velhos de morrerem
sozinhos!... Enfim, eu j esperava por isto mesmo; morrerei tambm! No sou eu
to novo! Tenho cem anos, cem mil anos; h muito que devia ter morrido! Mas
agora  certo! Graas a Deus, at que finalmente! Para que esto a faz-lo respirar
amonaco e toda essa fera unida de drogas?  tempo perdido, senhor doutor das
dzias! Ainda lhe acudia a tempo! Morto est ele e bem morto! Basta que o diga
eu, que tambm estou morto! No esteve l com meias medidas! Oh, o tempo de
agora  infame, infame, infame;! A est o meu juzo a respeito de vs, das vossas
ideias, sistemas, orculos, doutores, escrevinhadores, filsofos de borra e de todas
as revolues que h sessenta anos sobressaltam os bandos de corvos das
Tolherias! E, uma vez que no tiveste piedade comigo, deixando-te morrer dessa
maneira, tambm eu no hei-de chorar-te a morte. Ouves, assassino?
     Neste momento, Mrio abriu vagarosamente as plpebras, e o seu olhar,
ainda embaciado pelo pasmo letrgico, fitou-se em Gillenormand.
     - Mrio! - bradou o ancio. - Mrio! Meu Mariozinho! Meu filho! Meu
querido filho! Abres os olhos, olhas para mim; ainda ests vivo! Deus to; pague!
     E caiu desfalecido.
    LIVRO QUARTO
    Javert desvairado



    I
    Reflexes de Javert



     Javert retirara-se vagarosamente da rua do Homem Armado, com a cabea
inclinada, pela primeira vez na sua vida, e, pela primeira vez na sua vida
igualmente, com as mos atrs das costas.
     At quele dia, Javert apenas imitara de Napoleo a primeira das suas duas
atitudes, expressiva de resoluo - os braos cruzados sobre o peito; a das mos
atrs das costas, expressiva de incerteza, essa era-lhe desconhecida. Agora, porm,
operara-se nele uma mudana: toda a sua pessoa, lenta e sombria, inculcava
ansiedade, Embrenhou-se nas ruas silenciosas.
     Contudo, seguia uma direco.
     Tomou o caminho mais curto para o Sena, em direco aos cais dos Olmos,
costeou-os, passou a Greve e parou a pequena distncia do posto da praa do
Chatelet,  esquina da ponte de Nossa Senhora, onde o Sena forma, entre a ponte
de Nossa Senhora e o Pot-au-Change de um lado e entre o cais da Megisserie e o
das Flores do outro, uma espcie de lago quadrado, atravessado por uma torrente.
Este ponto do Sena  temido dos navegantes.
     Nada mais perigoso do que aquela torrente, naquela poca apertada e
embra-vecida pelas estacas do moinho da ponte, hoje demolido. As duas pontes,
to prximas uma  outra, aumentam o perigo; a gua corre com medonha
velocidade por baixo dos arcos, acumulando-se em caches terrveis, que vo
bater de encontro aos pilares das pontes, como se tentassem arranc-los com
grossas cordas lquidas. Quem ali cai nunca mais torna a aparecer e os melhores
nadadores ali se afogam.
     Javert firmou os cotovelos no parapeito, apoiou o queixo entre as mos,
afagando convulsivamente as espessas suas e embrenhou-se em profunda
cogitao.
     Uma novidade, uma revoluo, uma catstrofe, acabava de se dar nele; por
isso era necessrio que se examinasse.
     Javert sofria dolorosamente.
     Havia duas horas que ele perdera a sua habitual serenidade. Estava
perturbado; aquele crebro, to lmpido no meio da sua cegueira, havia perdido a
sua transparncia; tornara-se um como cristal embaciado. Javert sentia na sua
conscincia a transgresso de um dever e no podia dissuadi-lo a si prprio.
Quando to inopinadamente se encontrara com Joo Valjean na ribanceira do
Sena, experimentara um sentimento semelhante ao do lobo que torna a
apoderar-se da presa e ao do co que depara de novo com o dono.
     Via abertos diante de si dois caminhos, ambos direitos, mas eram dois, e esta
vista amedrontava-o, porque ele nunca na sua vida conhecera seno uma linha
recta.
     E, angstia pungente!, estes dois caminhos eram opostos! Qualquer destas
duas linhas rectas exclua a outra.
     Qual delas era a verdadeira?
     A sua situao era inexprimvel.
     Dever a vida a um malfeitor; aceitar esta dvida e peg-la; achar-se, mau grado
seu, ao nvel de um reincidente e pagar-lhe servio por servio; consentir que ele
lhe dissesse: Vai-te embora! e dizer-lhe a seu turno: Ests livre! Sacrificar a
motivos pessoais o dever, essa obrigao geral, e sentir nesses motivos pessoais
alguma coisa de geral e talvez at de superior; trair a sociedade para permanecer
fiel  conscincia; eis o que o aterrava - a realizao de todos estes absurdos, a
ideia de os ver acumu-lados sobre a sua cabea.
     Uma coisa o maravilhava, e vinha a ser que Joo Valjean o tivesse poupado;
outra coisa o petrificava, e vinha a ser que ele, Javert, tivesse poupado Joo
Valjean.
     Que aberrao era esta?
     Quanto mais o indagava, menos o sabia.
     Que fazer agora?
     Entregar Joo Valjean, era mau; deixar Joo Valjean livre, mau era.
     No primeiro caso, o homem da autoridade descia abaixo do homem das gals;
no segundo, subia um forado acima da lei e calcava-a aos ps.
     Em ambos os casos resultava desonra para Javert.
     Qualquer que fosse a resoluo por ele tomada, tinha de se rebaixar. O
destino tem certas extremidades que deitam a prumo sobre o impossvel e para
alm das quais a vida  um precipcio.
     Javert achava-se numa dessas extremidades.
     Uma das coisas que mais o torturavam era ver-se constrangido, a reflectir, ao
que a prpria violncia de todas as emoes contraditrias que sentia o obrigava.
     Reflectir, para ele era uma coisa desacostumada e singularmente dolorosa.
     H sempre na reflexo uma certa quantidade de rebelio ntima, com que ele
se irritava.
     A reflexo sobre qualquer objecto estranho ao circunscrito crculo das suas
funes era sempre para ele uma coisa escusada e molesta, mas a reflexo sobre o
que naquele dia tinha passado era uma tortura.
     Aps semelhantes abalos, porm, era-lhe foroso meter a mo na conscincia
e sujeitar-se a um rigoroso exame consigo mesmo.
     O que ele acabava de praticar fazia-o estremecer. Contra todos os
regulamentos da polcia, contra toda a organizao social e judiciria, contra o
cdigo inteiro, houvera Por bem soltar um homem que devia prender, porque
assim lhe convinha; sacrificar aos seus os negcios pblicos no era abuso
inqualificvel? De cada vez que reflectia sobre o nefando acto que cometera
estremecia desde a cabea at aos ps. Que resoluo deveria ser a sua?
Restava-lhe apenas um recurso: voltar a toda a pressa  rua do Homem Armado e
dar voz de priso a Joo Valjean. Era evidente que era isto o que ele devia fazer,
mas no podia.
     Um obstculo indefinvel lhe obstrua esse caminho.
     Um obstculo? De que qualidade? Pois no mundo existe mais alguma coisa
alm dos tribunais, das sentenas executrias, da polcia e da autoridade?
     Javert sentia-se estranhamente agitado.
     Um criminoso das gals sagrado! Um forado inacessvel  justia! e isto por
causa de Javert!
     Pois no era de fazer horror a ideia de que Javert e Joo Valjean, o executor
da lei e o criminoso, chegassem ao ponto de calcar a lei, de lhe serem superiores?
     Pois haviam de dar-se monstruosidades desta natureza e a impunidade seria o
nico resultado?
     Ficar livre Joo Valjean, como se fosse superior a toda a ordem social, e ele a
continuar a comer o po do governo!
     As suas cogitaes gradualmente :se tornavam terrveis.
     No meio de tudo isto, pudera tambm acusar-se do modo como procedera
relativamente ao insurgente que fizera transportar para a rua das Mulheres do
Calvrio, mas nem tal coisa lhe lembrava.
     A falta maior fazia esquecer a menor.
     Alm disso, o insurgente era, evidentemente, um homem morto, e,
legalmente, a morte obsta a qualquer procedimento da justia.
     Joo Valjean, esse  que era o seu pesadelo.
     Joo Valjean desvairava-o.
     Em presena desse homem, caam por terra todos os axiomas que tinham
sido a norma da sua vida at ento.
     Torturava-o a lembrana da generosidade de Joo Valjean para com ele.
     Outros factos de que ele se recordava, e que, noutro tempo, apodara de
mentiras e de loucuras, agora voltavam-lhe como realidade.
     Por trs de Joo Valjean aparecia Madelaine, e as duas figuras
sobrepunham-se de modo que no formavam seno uma s, que era veneranda.
     Javert via-se a braos com um sentimento horrvel - o da admirao por um
forado.
     Pois era possvel sentir-se tomado de respeito diante de um criminoso das
gals?
     Este sentimento apavorava-o e no podia esquivar-se-lhe.
     Por mais que forcejasse, via-se constrangido a confessar no seu foro ntimo a
sublimidade de semelhante miservel.
     Odiosa coisa!
     Um malfeitor benfazejo, um forado compadecido, meigo, prestvel,
clemente, tomando o bem pelo mal, perdoando a quem o odiava, preferindo a
compaixo  vingana, preferindo at perder-se a perder um inimigo, salvando
quem o tinha hosti-lizado, ajoelhado no cume da virtude, com mais de anjo do
que de homem; Javert via-se forado a confessar que semelhante monstro existia!
     Isso no podia durar assim.
      certo que ele no se rendera sem resistncia quele monstro, quele anjo
infame, quele heri hediondo, que quase lhe causava tanta indignao como
pasmo.
     Inmeras Vezes, quando se achara cara a cara com Joo Valjean dentro do
carro, o tigre legal rugira interiormente.
     Inmeras vezes lhe veio a tentao de se arremessar sobre Joo Valjean e
devor-lo, queremos dizer, prend-lo.
     Em verdade, nada mais simples. Bastaria gritar ao primeiro posto, diante do
qual passasse:
     - Aqui vai um reincidente fugido das gals!
     Bastaria chamar os gendarmes e dizer-lhes:
     - Este homem pertence-lhes!
     E continuar o seu caminho, deixando-lhes entregue aquele condenado, sem
se importar nem querer saber de mais nada.
     Este homem  um prisioneiro da lei; a lei far dele o que lhe aprouver.
     Haveria coisa mais justa?
     Javert tinha reflectido sobre tudo isto: quisera fazer mais alguma coisa,
prender o homem, e ento, como agora, no pudera; e de cada vez que levantara
convulsivamente a mo para a deitar a Joo Valjean, tornara a deix-la cair, como
se um peso enorme lha sujeitasse, e ouvira no fundo do seu pensamento uma voz,
uma estranha voz que lhe bradasse:
     - Est bem. Entrega o teu salvador. Depois manda vir a bacia de Pncio
Pilatos e lava as garras!
     Em seguida, volvia a reflectir sobre si mesmo, e, ao confrontar-se com Joo
Valjean, sentia-se rebaixado.
     Ser seu benfeitor um forado!
     Mas tambm para que no se deixara matar s mos de semelhante homem?
     Naquela barricada, o seu dever era morrer, e devia t-lo posto em execuo.
Chamar os outros insurgentes contra Joo Valjean, fazer-se fuzilar  fora, eis o
que ele deveria ter feito.
     A sua suprema angstia era a desapario da certeza. Sentia-se desarreigado.
J no tinha na mo seno um fragmento do cdigo. Experimentava escrpulos de
natureza desconhecida; dava-se nele uma revoluo sentimental, inteiramente
distinta da afirmativa legal, nica norma do seu proceder at quela data. No era
bastante permanecer na antiga honestidade. Surgia uma ordem completa de factos
inesperados que o subjugava. Despontava-lhe na alma um mundo inteiramente
novo; o benefcio aceito e retribudo, a dedicao, a misericrdia, a indulgncia, as
violncias feitas pela piedade  austeridade, a distino de pessoas, o termo da
condenao; definitiva, a possibilidade de uma lgrima nos olhos da lei, uma certa
justia segundo Deus, caminhando em sentido inverso da justia segundo os
homens. Javert avistava no meio das trevas o medonho despontar de um sol moral
desconhecido, que o horrorizava e deslumbrava. Mocho constrangido a olhares de
guia.
     Convencia-se de que, efectivamente, havia excepes, que a autoridade podia
ser confundida, que a regra podia estacar perante um facto, que nem tudo ajustava
no texto do cdigo, como num molde, que havia casos imprevistos a que era
foroso obedecer, que a virtude de um forado podia armar laos  virtude de um
funcionrio, que o monstruoso podia tornar-se divino, que o destino tinha destas
ciladas, e no podia esquivar-se  angustiosa lembrana de que ele mesmo fora
vtima de uma surpresa.
     Via-se na necessidade de confessar que a bondade existia. Aquele forado
tinha sido bom. E at ele maravilhosa coisa!- acabava de dar uma prova de
bondade. Por conseguinte,  porque se ia a depravar.
     Achava-se cobarde. Tinha horror a si mesmo.
     Para Javert, o ideal no era ser humano, nem grande nem sublime; era ser
irrepreensvel.
     Ora ele acabava de se mostrar digno de censura.
     Como chegara ele a isso? Como se tinha passado tudo isto?
     Nem ele prprio o soubera dizer. Apertava as mos na cabea, mas, apesar
dos seus esforos, no conseguia achar explicao.
     Fora sempre decerto inteno sua entregar Joo Valjean  lei, de que este era
cativo e Javert escravo. Nem pelo pensamento lhe passara, enquanto o tivera Em
seu poder, solt-lo. Fizera-o, para assim dizer, sem conscincia do que fazia.
     Mil dvidas se lhe suscitavam no esprito. Interrogava-se e as respostas que a
si mesmo dava aterravam-no.
     Perguntava, ele:
     Esse forado, esse desesperado que persegui incessantemente e que me teve
debaixo dos ps, podendo ento vingar-se, que o devia mesmo fazer, no s por
dio como para sua segurana, que fez ele em me poupar a vida? O seu dever?
No. Mais do que isso. E eu em lhe perdoar o que fiz? O meu dever? No. Mais do
que isso. Pois h alguma coisa superior ao dever? A esta lembrana, Javert
estremecia; a sua balana deslocava-se; uma das conchas descia at ao abismo, a
outra subia at ao Cu, e Javert no se assustava menos com a que subia do que
com a que descia.
     Sem ser de modo nenhum o que chamamos voltaireano, filsofo ou
incrdulo, pelo contrrio respeitoso por instinto para com a igreja estabelecida,
no a conhecia seno como um fragmento augusto do todo social; a ordem era o
seu dogma, e bastava-lhe; desde que era empregado pusera sempre na polcia
quase toda a sua religio, sendo espio - empregamos aqui as palavras sem a
menor ironia e na sua mais sria acepo - sendo espio como qualquer seria
padre. Tinha um superior: o senhor Gisquet; at quele dia, nunca pensara nesse
outro superior--Deus.
     Esse novo chefe apresentava-se-lhe inesperadamente e incomodava-o.
     Desorientava-o esta inesperada presena; no sabia qual devia ser o seu
procedimento para com este superior, ele que no ignorava que o subordinado 
obrigado a curvar-se sempre, que no deve nem desobedecer, nem censurar, nem
discutir, e que, defrontado com U superior que o espante, o nico recurso do
inferior  demitir-se.
     Mas como conseguir dar a sua demisso a Deus?
     Como quer que fosse, o seu pensamento constante era que ele acabava de
cometer uma medonha infraco. Acabava de dar alta a um criminoso fugido das
gals. Acabava de soltar um forado. Acabava de roubar s leis um homem que
lhes pertencia. Fizera isto. No se conhecia. Desconfiava de si mesmo. At as
razes da sua aco lhe escapavam, apenas sentia a vertigem. Tinha vivido, at
ento, dessa f cega que produz a probidade tenebrosa. Essa f abandonava-o, essa
probidade desamparava-o. Dissipava-se quanto ele acreditara e via-se perseguido
inexoravelmente por verdades que ele no queria reconhecer. Era necessrio agora
ser outro homem. Javert sofria as singulares dores de uma conscincia
subitamente operada da catarata. Via o que lhe repugnava ver. Sentia-se vazio,
intil, deslocado da sua vida passada, destitudo, dissolvido. A autoridade morrera
nele. J no tinha razo de ser.
     Terrvel situao! Estar a tal ponto impressionado!
     Ser o granito e duvidar! Ser a esttua do castigo fundida de um jacto no
molde da lei, e, de sbito, dar f de um no sei qu absurdo e indcil por baixo do
peito de bronze, que quase parecia um corao! Chegar a ponto de pagar o bem
com o bem, posto que, at ento, reputasse aquele bem como o mal! Ser co de
guarda e no morder! Ser gelo e no derreter! Ser tenaz e tornar-se mo! Sentir
abrirem-se-lhe de repente os dedos! Largar a presa! Coisa medonha!
     O homem no sabendo j o seu caminho e recuando!
     Ser obrigado a confessar que a infalibilidade no  infalvel, que pode haver
erro no dogma, que um cdigo no prev tudo, que a sociedade no  perfeita, que
a autoridade  complicada ide hesitao, que pode dar-se um abalo no imutvel,
que os juzes so homens, que a lei pode enganar-se, que os tribunais podem
errar! Ver uma fenda na imensa vidraa azul do firmamento!
     O que se passava em Javert era o Fampoux de uma conscincia rectilnea, o
extravio de uma alma, o esmagamento de uma probidade irresistivelmente
lanada em linha recta e despedaando-se em Deus. De certo era singular que o
fogueiro da ordem, o maquinista da autoridade, montado no cego cavalo de ferro
de via rgida, pudesse ser prostrado por um relmpago! Que o incomunicvel, o
directo, o geomtrico, o passivo, o perfeito, pudesse falhar!
     Deus sempre no interior do homem, e ele, a verdadeira conscincia,
refractrio  falsa; proibio  fasca de apagar-se; ordem ao raio de se recordar do
Sol; intimao  alma para reconhecer o verdadeiro absoluto, quando confrontado
com o absoluto fictcio; a humanidade imperdvel; o corao humano
inadmissvel; acaso Javert compreendia este esplndido fenmeno, o mais belo
talvez de nossos prodgios ntimos?
     Acaso Javert o penetrava? Acaso o conhecia? Por certo que no. Porm, sob a
presso deste incompreensvel incontestvel, sentia entreabrir-se-lhe o crnio.
     Javert era mais a vtima que o transfigurado deste prodgio. Sofria-o,
desesperado. Em tudo isto no via mais do que uma imensa dificuldade de existir.
Parecia-lhe que sentia a respirao para sempre opressa.
     Ter por cima da cabea o incgnito era coisa a que no estava acostumado.
     At ento, tudo o que vira por cima de si afigurara-se-lhe uma como
superfcie clara, simples, lmpida, em que no havia nada de ignorado, nem de
obscuro nada que no fosse definido, coordenado, ligado, preciso, exacto,
circunscrito, limitado, fechado, tudo previsto; a autoridade era uma coisa plana,
sem abismo, sem fragosidade. Javert nunca vira o incgnito seno nas regies
subjacentes. O irregular, o inesperado, a abertura desordenada do caos, a
possibilidade de uma queda num precipcio, tudo isto era privativo das regies
inferiores, dos rebeldes, deus maus, dos miserveis.
     Javert agora recuava assustado ante essa assombrosa apario: um abismo nas
alturas.
     Como? Pois a sua confuso era to completa? Como? Pois a abertura da
couraa da sociedade podia ser descoberta por um miservel magnnimo? Como?
Pois um honesto servidor da lei podia ver-se, de repente, entre dois crimes - o de
deixar fugir um homem; e o de prend-lo?
     Nem tudo, pois, era certo nas prescries do Estado aos funcionrios.
     Podia haver muros erguidos ante o dever.
     Como? tudo isso era real? Era verdade que um antigo facnora, curvado ao
peso das condenaes, podia erguer-se e vir a ter razo? Pois era isto crvel? Havia,
porventura, casos em que a lei devesse retirar-se diante do crime transfigurado,
balbuciando desculpas?
     Havia.
     Javert no podia fugir  realidade. No podia neg-lo, porque tomava parte
nisso.
     Assim, pois, e na exagerao da angstia e na iluso de ptica da
consternao, tudo quanto houvera podido restringir e corrigir a sua impresso,
esvaecia-se, e a sociedade, e o gnero humano e o Universo se resumiam agora, a
seus olhos, em um vulto simples e terrvel; assim, pois, a penalidade, a coisa
julgada, a fora devida  legislao, os arrestos dos tribunais soberanos, a
magistratura, o governo, a represso, a sabedoria oficial, a infalibilidade legal, o
princpio de autoridade, todos os dogmas em que se baseiam a segurana poltica
e civil, a soberania, a justia, a lgica deri-vando-se do cdigo, o absoluto social, a
verdade pblica, tudo isto runa, destroos, caos; ele prprio, Javert, o vigia da
ordem, a incorruptibilidade ao servio: da polcia, a providncia, mastim da
sociedade, vencido e posta fora de combate, e em cima de toda esta runa um
homem em p com a carapua verde na cabea e a aurola na fronte; eis a que
estado de confuso tinha chegado; eis a terrvel viso que tinha na alma.
     Isto era intolervel.
     Estado violento, a mais no poder ser, de que s tinha dois modos de
livrar-se.
     Um, ir resolutamente prender Joo Valjean e restituir ao crcere o homem
das gals. O outro... Javert deixou o parapeito, e, desta feita, de cabea erguida,
dirigiu-se com passo firme para o posto indicado por um lampio a uma das
esquinas da praa do Chatelet.
     Chegado a, viu, por entre os vidros, um agente de polcia e entrou. Estes
homens reconhecem-se at pelo modo de abrir a porta de um: corpo de guarda.
Javert disse como se chamava, mostrou o seu diploma ao empregado e sentou-se a
uma mesa, em cima da qual ardia uma vela, e se via conjuntamente uma pena, um
tinteiro de chumbo e um sortimento de papel para os autos eventuais e partes das
rondas nocturnas.
     Javert tomou uma folha de papel, pegou na pena e principiou a escrever.
     Eis o que ele escreveu:
     ALGUMAS OBSERVAES EM BEM DO SERVIO
     Primeiro - Rogo ao senhor prefeito que tenha a bondade de atender-me.
     Segundo - Os presos, quando voltam do interrogatrio, tiram os sapatos e
ficam com os ps descalos nas lajes, enquanto os revistam,. Muitos so acometidos
de tosse ao recolher-se  priso, do que provm um aumento de despesa com a
enfermaria.
     Terceiro - O sistema de dar caa  bom, mudando-se os agentes de distncia
em distncia, porm seria melhor que, nas ocasies importantes, dois agentes, pelo
menos, nunca se perdessem de vista, porquanto se, por qualquer causa, um deles
deixasse de cumprir o seu dever, o outro o vigiaria e emendaria a falta do primeiro.
     Quarto - No atino com a razo por que  proibido aos presos das
Madelonnettes ter cadeiras, ainda mesmo pagando-as.
     Quinto - Nas Madelonnettes, o postigo da taberna s tem dois vares de ferro;
de modo que a taberneira pode estender a mo aos presos.
     Sexto - As presas, chamadas ladras, quando chamam as outras presas ao
parlatrio, pagam dois soldos de multa por gritarem o nome da presa em voz alta.
      um roubo.
     Stimo - Por um fio corrido, paga de multa o prisioneiro, na oficina de
tecelagem, dez soldos;  um abuso do empreiteiro, pois que a teia no.  menos m.
     Oitavo -  inconveniente que as pessoas que vo visitar algum na Force
tenham de atravessar o ptio das crianas para entrar no locutrio de Santa Maria
Egipcaca.
     Nono -  certo que tenho todos os dias, no gabinete da prefeitura, ouvido aos
gendarmes recontar o - que escutaram no interrogatrio dos condenados feito pelos
magistrados; um gendarme deve ser sagrado, no pode repetir aquilo que ouviu no
gabinete da instruo porque isso  muito grave.
     Dcimo - A senhora Henry  uma honrada mulher a sua taberna est sempre
com limpeza; mas no  conveniente que se ache  testa dum tal estabelecimento
uma mulher.  uma coisa indigna da Conciergerie de uma grande civilizao.
     Javert escreveu estas linhas com a maior serenidade e com a sua melhor letra,
no omitindo uma vrgula e fazendo ranger a pena no papel. Por baixo da ltima
linha escreveu:
     JAVERT, Inspector de 1.a classe.
     Casa da Guarda da praa do Chatelet.
     7 de Junho de 1832,  uma hora da noite.
     Javert enxugou o papel, dobrou-o em forma de carta, escreveu no reverso: -
Nota para a administrao deixou-o sobre a mesa e saiu.
     Atravessou diagonalmente a praa do Chatelet, chegou ao cais, dirigindo-se
com preciso automtica para o ponto que, um quarto de hora antes, deixara, e
encostou-se outra vez ao parapeito.
     Era completa a escurido. Era o momento sepulcral que vem aps a
meia-noite.
     Uma abbada de nuvens encobria as estrelas. O cu no apresentava mais do
que uma profundeza sinistra. Nas casas da Cite no se via uma s luz; no passava
um nico transeunte; todas as ruas e cais que dali se avistavam estavam desertos; a
igreja de Nossa Senhora e as torres do tribunal de justia pareciam fantasmas.
     O lugar em que Javert se achava ficava justamente por cima da corrente do
Sena, a prumo sobre essa medonha espiral de turbilhes, que se enrosca e
desenrosca como um parafuso sem fim.
     Javert estendeu a cabea e olhou. Era tudo escurido. Ouvia-se apenas o
referver dos caches, mas no se via o rio. De espao a espao, no meio daquelas
trevas, aparecia um claro, serpejando vagamente, porque a gua tem o poder de,
no meio da maior escurido, tirar luz no sabemos de onde e transform-la em
serpente.
     Esta luz desaparecia e tudo voltava  primitiva negrura. Parecia achar-se ali
aberta a imensidade. O que ali estava no era gua, era voragem. No se via nada,
mas sentia-se a frialdade hostil da gua e o cheiro das pedras molhadas. Um hlito
feroz se elevara daquele abismo. A crescente do rio mais adivinhada do que
avistada, o trgico murmrio da gua, a lgubre enormidade dos arcos da ponte,
tudo isto inspirava horror.
     Javert permaneceu alguns minutos imvel, olhando para aquela abertura de
trevas, contemplando o invisvel com uma fixidez que parecia ateno. A gua
rumorejava. De sbito, tirou o chapu e pousou-o em cima do parapeito.
     Um momento depois, um vulto alto e negro, que algum de longe tomaria
por um fantasma, apareceu de p em cima do muro do cais, debruou-se para o
Sena, ergueu-se e caiu direito no meio das trevas.
     Ouviu-se um marulho surdo e s a escurido; soube as convulses daquele
vulto, que desapareceu debaixo de gua.
    LIVRO QUINTO
    O av e o neto



    I
    Onde se torna a ver a rvore da chapa de zinco



     Pouco tempo depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, deu-se um
facto na vida de Boulatruelle que o deixou vivamente impressionado, Boulatruelle
- aquele cantoneiro de Montfermeil de quem numa das precedentes partes deste
livro se fez ligeira meno - era, como o leitor estar lembrado, um homem dado a
diversos e obscuros misteres, empregando o seu tempo ora a britar pedra, ora a
assaltar os viajantes na estrada.
     Cantoneiro e ladro, o seu sonho constante eram os tesouros que ele supunha
enterrados na floresta de Montfermeil.
     Esperava vir ainda a dar com algum, escondido entre as razes da alguma
rvore, porm enquanto no chegava  realizao das suas esperanas, ia
apalpando as algibeiras do viajante.
     Contudo, tornara-se momentaneamente prudente.
     Acabara de escapar por um fio. Como se sabe, fora apanhado, junto com os
outros ladres, na pocilga de Jondrette. Utilidade de um vcio: salvara-o a
embriaguez.
     Nunca foi possvel saber-se ao certo se ele ali se achava como ladro, se como
roubado. Uma ordem baseada no seu estado de comprovada embriaguez, na noite
da cilada pusera-o em liberdade. Tornara a apanhar-se senhor de si. Voltara para a
estrada de Gagnay a Lagny, para sob a vigilncia administrativa, empedrar a
estrada por conta do Estado, cabisbaixo, pensativo, um tanto frio para com o
roubo, que o ia desgraando, mas voltando-se cada vez mais ternamente para o
vinho que o salvara.
     Eis qual foi a comoo que ele experimentou, pouco depois do regresso  sua
cabana de cantoneiro:
     Dirigindo-se Boulatruelle uma manh, segundo o costume, para o seu
trabalho, ou talvez para alguma espera, pouco antes de amanhecer, avistou por
entre a ramaria um homem;, que mal se via pelas costas, mas cujo aspecto,
segundo lhe parecia, lhe no era absolutamente desconhecido.
     Boulatruelle, conquanto bbado consumado, tinha memria correcta e lcida,
arma de defesa indispensvel para quem quer que ande em luta com a ordem
legal.
     - Onde diabo Vi eu j este homem? - perguntava a si mesmo.
     Mas no pde achar como resposta seno que se parecia com algum de
quem confusamente se lembrava.
     Boulatruelle, apesar disto, afora a identidade que no conseguiu estabelecer,
comeou a fazer clculos e aproximaes. O tal homem no era daqueles stios;
chegara ali havia pouco, e evidentemente, a p. Aquelas horas no passava veculo
nenhum por Montfermeil. E caminhara toda a noite.
     Donde vinha? No era, decerto, de muito longe, por isso que no levava
alforge nem trouxa. Vinha, sem dvida, de Paris.
     Mas porque se achava naquela mata? De mais a mais a semelhante hora? O
que andaria por ali fazendo?
     Boulatruelle lembrou-se do tesouro.
     A fora de investigar na memria, recordou-se de ter tido j, muitos anos
antes, igual suspeita acerca de um homem, que podia ser, talvez, aquele mesmo.
     Enquanto assim meditava, curvara a cabea sob o peso da prpria meditao;
coisa natural, mas pouco hbil, Quando tornou a ergu-la j no viu ningum.
     O homem desaparecera na mata e no crepsculo.
     - Com os diabos! - disse Boulatruelle -, hei-de encontr-lo. Hei-de descobrir a
freguesia do tal fregus. Este passeante de Patron-Minette tem o seu porque;
hei-de sab-lo. No h na minha mata segredo em que eu no tome parte.
     Em seguida pegou no alvio, cujas pontas eram em extremo agudas.
     - Tenho aqui com que apalpar a terra e um homem.
     E como se fora atando um fio a outro fio, dirigindo os passos o melhor
possvel, segundo o itinerrio que o homem devia ter seguido, ps-se a caminho
atravs da mata.
     Depois de ter dado uma centena de passos, comeou a ser ajudado pelo dia,
que ia j despontando. As pegadas na areia por um e outro lado, as ervas pisadas,
as estevas acamadas, os raminhos dobrados, endireitando-se com gracioso vagar,
como os braos de formosa mulher espreguiando-se no momento de despertar,
indicaram-lhe uma espcie de pista. Seguiu esta pista, mas logo depois perdeu-a.
Entretanto ia passando o tempo. Internou-se na mata e chegou a uma iminncia.
     Um caador matutino que ia passando ao longe, por um carreirinho,
assobiando a canoneta de Guillery, suscitou-lhe a ideia de trepar a uma rvore.
Ainda que j velho era gil. Havia naquele stio uma faia muito alta, digna de
Tityro e de Boulatruelle, o qual trepou por ela at  maior altura que pde.
     A ideia foi boa.
     Explorando a solido do lado em que a mata  completamente bravia e feroz,
Boulatruelle avistou de repente o homem.
     Apenas o avistou logo o perdeu de vista.
     O homem entrou, ou antes, deixou-se escorregar por uma clareira muito
afastada e mascarada por grandes rvores, mas que Boulatruelle conhecia muito
bem por ali ter estado junto de um grande monto de pedras, ao p de um
castanheiro doente e tratado com uma chapa de zinco pregada mesmo na cortia.
Esta clareira era a que noutro tempo se dominara terra Blaru. O monto de
pedras, destinado no se sabia para que fim, e que ali estava havia trinta anos,
existe talvez ainda hoje. No h nada que seja igual  longevidade de um monto
de pedras como um tapume de tbuas.
     Qualquer das coisas  provisria. Que razo para durar!
     Boulatruelle, com a rapidez da alegria, desceu, ou antes, atirou consigo da
rvore abaixo.
     Estava descoberto o covil, s faltava agarrar o animal.
     O famoso tesouro sonhado estava provavelmente ali.
     No era contudo empresa de pouca monta o chegar  tal clareira. Pelos
caminhos batidos, que descrevem ziguezagues, era preciso um bom quarto de
hora. Em linha recta, pelo mato, que  ali singularmente espesso, espinhoso e
agressivo, era precisa avantajada meia hora.
     Foi o que Boulatruelle fez muito mal em no compreender. Acreditou na
linha recta; respeitvel iluso de ptica, mas que ocasiona a perda de muitos
homens.
     A mata, apesar de extremamente eriada, parecera-lhe o melhor caminho.
     - Nada, vamos pela rua de Rivoli dos Lobos - disse ele.
     Boulatruelle, acostumado a andar de travs, cometeu desta vez o erro de
andar direito.
     Teve de se haver com os azevinhos, com as urtigas, com os pilriteiros, com as
roseiras bravas, com os cardos e com toda a espcie de razes em extremo
irascveis.
     Ficou portanto suficientemente arranhado.
     Na base do outeiro deparou-se-lhe um pntano, que teve de atravessar.
     Chegou enfim  clareira Blaru, mas no fim de quarenta minutos, escorrendo
suor, encharcado, esbaforido, arranhado e feroz.
    Na clareira no estava vivalma.
    Boulatruelle foi logo direito ao monto de pedras, estava no mesmo lugar.
    No o tinham mudado.
    Quanto ao homem, porm, no foi capaz de o descobrir. Sumira-se. Por
onde?
    Para que lado? Porque azinhaga? Impossvel era adivinh-lo.
    Para cmulo de angstia, entre a rvore que tinha a chapa de zinco e o monte
de pedras, avistou Boulatruelle uma pouca de terra movida ide fresco, uma p
esquecida ou abandonada e uma cova.
    A cova estava vazia.
    - Ladro! - bradou ele, levantando para o ar os punhos cerrados.



    II
    Onde Mrio aps a guerra civil, se prepara para a guerra domstica



     Durante muito tempo, Mrio nem se podia dizer vivo nem morto. Por espao
de algumas semanas, lutou com uma febre acompanhada de delrios e de
gravssimos sintomas cerebrais, produzidos antes pelas comoes das feridas do
que por elas prprias.
     Durante noites inteiras, repetia sem cessar o nome de Cosette na lgubre
loquacidade da febre e com a sombria pertincia da agonia. A profundidade de
algumas das feridas tornavam-se perigosssimas, por isso que podia recolher-se a
supurao, dando assim origem  morte do enfermo, sob certas influncias
atmosfricas; a cada mudana de tempo,  menor tempestade, o mdico
assustava-se.
     - Deve haver, sobretudo, o maior cuidado em evitar ao enfermo qualquer
abalo - repetia ele.
     O curativo era complicado e difcil, por isso que, naquela poca, ainda no
estava em uso o encerado como meio de fixar os aparelhos e panos. Nicolette
desfez em fios um lenol que cobria o tecto de uma casa, dizia ela. A fora de
lavatrios com dissolues de cloreto e nitrato de prata, conseguiram evitar a
gangrena. Enquanto Mrio esteve em perigo, Gillenormand no lhe desamparou a
cabeceira do leito, apesar do seu estado, que no era menos perigoso do que o do
neto.
     Todos os dias - e algumas ocasies duas vezes ao dia - vinha saber do ferido
um sujeito de cabelos brancos e bem trajado - tais eram os sinais dados pelo
porteiro - que se ia embora, deixando sempre um grande pacote de fios para
curativo do enfermo.
     Finalmente, a 7 de Setembro, quatro meses depois da dolorosa noite em que o
trouxeram moribundo para casa de seu av, o mdico declarou que estava salvo.
     Principiou ento a convalescena.
     Mrio, porm, ainda teve de passar mais de dois meses sentado numa cadeira
de braos, em virtude dos estragos causados pela fractura da clavcula. D-se
sempre este caso de uma ltima ferida que no quer fechar, eternizando os
curativos com grande tdio do enfermo.
     Esta longa doena, porm, e a demorada convalescena que se lhe seguiu,
salvaram-no das mos dos esbirros. Em Frana, no h clera, mesmo pblica,
que no morra de inanio aos seis meses. As revoltas, no estado em que se acha a
sociedade, so por tal modo devidas a todos que, depois delas, vem sempre a
necessidade de fechar os olhos.
     Acrescentaremos que o inqualificvel dito do perfeito Gisquet, em que se
ordenava aos mdicos que denunciassem os feridos, indignou tanto a opinio
pblica, e no s esta, mas o prprio rei, que os feridos foram protegidos por esta
indignao, e,  excepo dos que tinham sido apanhados com as armas na mo,
os conselhos de guerra no ousaram inquietar mais ningum.
     Desta maneira, pois, Mrio nada teve a sofrer por este lado.
     Gillenormand, depois de ter passado por toda a espcie de angstias,
experimentou toda a qualidade de xtases.
     Foi necessrio empregar os maiores esforos para o dissuadir de passar as
noites velando o ferido; mandou ir para junto da cama de Mrio, a sua cadeira de
braos; exigiu que a filha empregasse o pano mais fino que houvesse em casa nas
compressas e ligaduras.
     A filha, porm, como pessoa experiente e boa dona de casa, conseguiu poupar
o pano fino, fazendo crer ao ancio que era obedecido.
     Gillenormand no permitiu que lhe explicassem a superioridade do linho
grosso sobre a cambraia para fazer fios nem do linho velho sobre o linho novo.
     Era ele que assistia a todos os curativos, de que a filha pudicamente se
ausentava,
     Quando o mdico cortava a carne podre com uma tesoura, dizia:
     - Ai! Ai!
     Era, realmente, uma cena tocante v-lo apresentar ao ferido uma chvena de
tisana com o seu brando tremor senil.
     Estava sempre a fazer perguntas ao mdico, sem reparar que s vezes
perguntava aquilo a que j tinha recebido resposta.
     No dia em que o mdico lhe anunciou que Mrio estava livre de perigo, o
pobre velho cuidou endoidecer.
     Deu trs luses de gratificao ao porteiro, e  noite, ao recolher-se para o
quarto, danou uma gavota, tocando castanholas com os dedos, e cantou a:
seguinte cano:
     Em um ninho de pastora Da Fougre encantadora Vive a linda Joaninha,
Como vive a andorinha
     Quando brinca pela praia.
     Eu adoro a curta saia Que ela traz arregaada Na cintura delicada;
     O avental, a branca touca.
     Que a cabea me traz louca.
     Eu sinto na alma um prurido Que... Ah! Se eu fora Cupido
     E d'amor tivera a aljava, Duas setas nesse peito Com certeza te enterrava!
     Depois
     Na ermida, Os dois  querida... Tr, l, l, l, r, l, l.
     Em seguida, ps-se de joelhos em cima de uma cadeira, e Biscainho, que o
espreitava pela abertura da porta, sups que ele Se achava a rezar.
     At ento, Gillenormand nunca acreditara em Deus.
     A cada nova fase que o rapaz ia experimentando nas suas melhoras, sempre
crescentes, o pobre velho saa fora de si, praticando um sem nmero de aces
maquinais cheias de alegria, subindo e descendo as escadas sem saber porqu.
     Um dia mandou um ramo a uma vizinha, realmente bonita, que ficou
maravilhada de semelhante presente.
     Tentava agarrar Nicolette para a sentar nos joelhos.
     Chamava a Mrio senhor baro e s vezes punha-se a gritar:
     - Viva a Repblica!
     A cada instante perguntava ao mdico:
     - J no h perigo nenhum, pois no?
     Olhava para Mrio com ternura de av, e, enquanto ele comia, no cessava de
o contemplar com afectuosa expresso. No queria saber de nada, andava fora de
si; Mrio  que era o senhor da casa, a alegria fazia-o abdicar, era o neto de seu
neto.
     O jbilo que experimentava tornava-o a mais veneranda das crianas.
     Temeroso de fatigar ou importunar o convalescente, ia pr-se por trs dele
para lhe sorrir.
     Andava contente, fora de si, parecia ter remoado.
     Os cabelos brancos acrescentavam-lhe uma serena majestade  luz alegre que
se lhe reflectia no rosto.
     Quando s rugas se junta a graa, a velhice parece circundada de uma aurola.
     Pelo que diz respeito a Mrio, a sua ideia fixa, no meio dos seus
padecimentos, era Cosette.
     Desde que o abandonara a febre e o delrio, no tornara a pronunciar este
nome, de modo que poderia crer-se que j se no lembrava dele. Mas ele no o
proferia, justamente porque era esse o seu constante pensamento.
     Mrio no sabia o que era feito de Cosette; as cenas da rua de Chanvrerie
apenas confusamente lhe vinham  memria; Eponina, Gavroche, Mabeuf, os
Thenardier, todos os seus amigos confundidos; lugubremente no fundo da
barricada, eram; outras tantas sombras quase indistintas flutuando-lhe no esprito;
a singular apario de Fauchelevent no meio daquela sanguinolenta aventura
parecia-lhe um enigma no meio de uma tempestade; no compreendia nada da
sua prpria vida, no sabia como nem por quem tinha sido salvo, e nenhum dos
que o rodeavam lho podia to-pouco declarar; o mais que tinham sabido dizer-lhe
era que havia sido transportado de noite num carro para a rua das Mulheres do
Calvrio; passado, presente, futuro, tudo isto se lhe apresentava sob as formas
nevoentas de uma ideia vaga; porm, no meio deste nevoeiro, havia um ponto
imvel, um lineamento claro e lmpido, um como vulto de granito, uma
resoluo, uma vontade  saber onde estava Cosette.
     Para ele a ideia da vida confundia-se com a ideia de Cosette; havia decretado
no seu corao que no aceitaria uma sem outra, e estava inabalavelmente
resolvido a exigir de quem quer que fosse que O quisesse constranger a viver, de
Seu av, da sorte, do inferno, a restituio do seu perdido den.
     Obstculos bem sabia ele. que os havia de encontrar.
     Cumpre fazer um reparo: a ternura e solicitude de seu av para com ele pouca
impresso lhe tinham causado. Primeiro porque no estava ao facto de tudo o que
ele tinha praticado durante a sua longa enfermidade; segundo porque, no meio
das suas cogitaes de doente, talvez ainda febris, desconfiava destas carcias,
como de uma coisa estranha e nova que tinha por fim captar-lhe a benevolncia.
Por isso no se deixava levar por elas, de modo que o pobre velho gastava sem
proveito os seus sorrisos.
     Estava Mrio capacitado de que tudo aquilo duraria simplesmente enquanto
ele no falasse nem opusesse resistncia ao que lhe faziam, mas que, quando se
tratasse de Cosette, mudariam as coisas de figura, assumindo ento seu av a
atitude que lhe era particular. Ento recomearia a luta; recrudescncia das
questes de famlia, confrontao de posio, toda a espcie de sarcasmos e
abjeces; Fauchelevent, Coupelevent, a fortuna, a pobreza, a misria, a pedra ao
pescoo, o futuro. Resistncia violenta, concluso recusa.
     Mrio, porm, no desanimava.
     Alm disto,  medida que se ia restabelecendo, reapareciam as antigas
ofensas, reabriam-se as cicatrizadas lceras da sua memria, ocorria-lhe de novo a
lembrana do passado, colocava-se outra vez entre ele e Gillenormand o coronel
Pontmercy, era para ele firme convico que nenhuma bondade sincera tinha a
esperar de quem fora to cruelmente injusto para com seu pai. E com a sade
voltava-lhe uma espcie de rispidez contra seu av, que o pobre ancio
pacientemente sofria.
     Gillenormand, embora o no declarasse, reparava que Mrio, desde que
voltara a si, no tornara mais a trat-lo por pai. Verdade  que no dizia senhor,
mas achava meio de se no expressar de um modo nem de outro, dando s frases
diferente disposio.
     Segundo todas as probabilidades, pois, aproximava-se uma crise.
     Como quase sempre sucede, Mrio antes de dar batalha campal, tentou uma
simples escaramua.
     Chama-se a isto reconhecer o terreno.
     Um dia, Gillenormand, a propsito de um jornal de que casualmente lanara
mo, fez algumas aluses  Conveno e soltou um epifonema realista contra
Danton, Saint-Just e Robespierre.
     - Os homens de 93 eram gigantes! - disse Mrio com severidade.
     O velho calou-se e no tornou a pronunciar palavra sobre tal assunto em todo
aquele dia.
     Mrio, que tinha sempre presente no esprito a inflexibilidade de seu av nos
seus primeiros anos, viu neste silncio uma profunda concentrao de clera, de
que agourou uma luta porfiada, e aumentou no recndito do seu pensamento os
preparativos para o combate.
     Resolveu que, no caso de uma recusa, arrancaria os aparelhos das feridas,
deslocaria a clavcula, poria em carne viva as chagas que ainda lhe restavam e
recusaria tomar qualquer alimento.
    As suas feridas eram as suas munies. Ter Cosette ou morrer.
    Firme nesta resoluo, aguardou o ensejo oportuno com a dissimulada
pacincia dos doentes.
    O ensejo no se fez esperar.



    III
    Mrio ataca



    Um dia, Gillenormand, andando sua filha ocupada a arrumar os frascos e
garrafas que jaziam sobre a cmoda, inclinou-se para Mrio e disselhe com a
maior afabilidade:
    - Olha, meu Mariozinho, eu, no teu lugar, comeria agora carne, em vez de
peixe.
    Um linguado frito  uma excelente coisa no princpio de uma convalescena,
mas para fazer arribar um doente no h como uma costeleta!
    Mrio, que j se achava quase de posse do seu primitivo vigor, fez um esforo
para se sentar na cama, pousou os punhos trmulos na dobra do lenol, fitou seu
av com gesto terrvel e disse:
    - Faz-me isso lembrar que tenho uma coisa para lhe dizer!
    - Que ?
    - Quero casar!
    - Disso j eu estava  espera! - exclamou o ancio, soltando uma gargalhada.
    - Como, estava  espera?
    - Disso estava eu  espera, repito! Descansa, que ters a tua rapariga!
    Mrio sentiu um estremecimento de pasmo por todo o corpo.
    Gillenormand continuou:
    - Afiano-te que ters a tua bela pequena, que, por sinal, vem a todos os dias
perguntar por ti, sob a forma de um velho.. Desde que ests doente, a pobre
rapariga passa o tempo a chorar e a fazer fios! Procedi a algumas averiguaes e
soube que ela morava rua do Homem Armado, nmero 7. Com que ento queres
a moa? Pois sim, sim, t-la-s!  para que vejas. Tinhas l delineado o teu plano e
dito com os teus botes: No quero saber de meias medidas. Vou dizer
desempenadamente as coisas quele pai velho, quela mmia da Regncia e do
Directrio, quele taful das guerras velhas, que tambm tem culpas no cartrio, e
por isso h-de lembrar-se do tempo em que arrastava a asa s Cosettes do seu
conhecimento! Vamos a ver. Batalha! Nada de papas na lngua! Muito bem.
Ofereo-te uma costeleta e tu respondes-me: A propsito, quero casar-me! No
pode haver transio mais natural! Ora esta! Cuidavas talvez que me punha a fazer
fino contigo? No sabes que sou um fracalho? Que dizes a isto? Fao-te ir s do
cabo, hem? No contavas achar teu av ainda mais tolo do que tu?! Agora l se vai
a diatribe que me tinhas preparado, senhor advogado!  de fazer dar por paus e
por pedras, no ? O mesmo, ira-te para a  tua vontade. Fao o que tu queres,
estou por tudo, pateta! Atende-me. Tenho andado a informar-me; no cuides que
s tu tens lume no olho; a pequena  bonita, bem comportada; aquilo do lanceiro
 peta, fez rumas de fios,  uma jia, adora-te; se tu morresses, morramos todos:
trs; o caixo dela iria logo atrs do meu! Quando te vi melhorar lembrei-me
pespegaste com ela  cabeceira da cama, mas s nos romances  que se vem, as
raparigas velando os bonitos feridos que lhes deram no goto. No era coisa que se
fizesse. Que diria tua tia?
     A maior parte do tempo passava-lo tu, meu toleiro, no estado em que vieste
ao mundo! Pergunta a Nicolette, que te no desamparava um instante, se era
possvel estar uma mulher ao p de ti! E o mdico? Que no havia de dizer o
mdico? Uma pequena bonita no cura a febre! Enfim, o que l vai, l vai; no
falemos mais nisso, est dito, resolvido e assentado, casa! Aqui tens como eu sou
feroz! Queres saber tudo?
     Como via que no gostavas de mim, disse comigo: Que diabo hei-de eu fazer
para este pedao de asno gostar de mim? Lembrei-me ento de Cosette e disse:
Vou dar-lha. Deste modo ou h-de ganhar-me amizade ou h-de dizer as razes
porque embirra comigo. E que tal? Cuidavas que me ia pr a vociferar, a fazer
espalhafato, a ameaar com a bengala toda esta aurora? Enganaste-te
redondamente! Cosette? Pois sim.
     Amor? Porque no? Estou por tudo! Tenha a bondade de se casar. S feliz,
meu querido filho!
     Dito isto, o ancio desatou a soluar.
     E, tomando a cabea de Mrio entre as mos, apertou-a contra o peito e
puseram-se ambos a chorar.
      esta uma das formas da suprema ventura.
     - Meu pai! - exclamou Mrio.
     - Oh! Visto isso, s meu amigo? - disse o velho.
     Seguiu-se um momento inefvel, durante o qual nem um nem outro podiam
falar, sufocados pelo prazer.
     Por fim, o ancio balbuciou:
     - Ora at que, afinal, desembuchou, dizendo-me: Meu pai! Mrio
desenvencilhou-se dos braos de Gillenormand e disselhe com brandura:
     - Uma vez que eu agora j estou bom, parece-me que a poderia ver!
     - Disso estava eu tambm  espera! Hs-de v-la amanh - Meu pai!
     - Que ?
     - Porque no h-de ser hoje?
     - Pois seja hoje. No vou contra isso. J hoje me chamaste trs vezes teu pai,
e, portanto, estou pronto a fazer-te a vontade. Eu vou tratar disso. Fica
descansado, que a hs-de ver. Eu j esperava por isso, como te disse. So coisas
que j foram postas em versos! E como no final do jovem Doente, de Andr
Chnier, de Andr Chnier que foi estrangulado pelos celer... pelos gigantes de
93!
     Gillenormand sups descobrir um leve franzir de sobrancelhas em Mrio,
que na verdade, devemos diz-lo, j no o escutava, enlevado, como se achava,
numa espcie de xtase e pensando mais em Cosette do que em 1793.
     O ancio, amedrontado por ter to desastradamente trazido a lume o nome
de Andr Chnier, atalhou logo em seguida:
     - Estrangulado no, no disse bem.  certo que os grandes gnios
revolucionrios, cujo bondoso carcter ningum pode Contestar nem a sua
heroicidade, achavam que Andr Chnier os incomodava alguma coisa, e por isso
tomaram a resoluo de o guilho... quero dizer, esses grandes homens, a sete
thermidor, no interesse da salvao pblica, rogaram a Andr Chnier houvesse
por bem deixar-se... Chegado a esta frase, Gillenormand engasgou e no pde
continuar; no podendo termin-la nem retrat-la, enquanto sua filha compunha
o travesseiro a Mrio, abalado por to profunda emoo, saiu o mais
precipitadamente que lho permitia a idade pelo quarto fora, e vermelho,
esbaforido, escumando, com olhar desvairado, esbarrou-se com o honrado
Biscainho, que se achava na sala imediata, limpando umas botas, e agarrando-o
pelo cachao, gritou-lhe aos ouvidos com gesto furibundo:
     - Com um milho de diabos! Assassinaram-no, aqueles marotos!
     - A quem, senhor?
     -A Andr Chnier!, - Sim, senhor! - disse Biscainho atrapalhado.
    IV
    Onde Mademoiselle Gillenormand achou que os embrulhos de Fauchelevent
nada tinham de inconvenientes



     Cosette e Mrio tornaram a ver-se.
     Renunciamos  descrio de semelhante entrevista. H coisas que se no
devem tentar pintar, como, por exemplo, o Sol.
     Quando ela entrou, achava-se reunida no quarto de Mrio toda a famlia, sem
exceptuar Biscainho e Nicolette.
     Ao v-la assomar ao limiar, dir-se-ia que a circundava uma aurola.
     Justamente nessa ocasio, o av de Mrio ia assoar-se, porm, ao dar com os
olhos nela, estacou e ps-se a contempl-la com o nariz metido no leno - No
pode ser mais linda! - exclamou ele.
     E, dizendo isto, assoou-se com estrondo.
     Cosette estava embriagada, transportada, amedrontada, louca de prazer. O
jbilo que experimentava quase a enchia de susto. Ora corava, ora empalidecia,
desejosa de se lanar nos braos de Mrio, mas no ousando faz-lo,
envergonhada de amar diante :de tanta gente.
     Ningum sabe ser compassivo com os amantes felizes; todos se deixam ficar
ao p deles, quando, o seu maior desejo seria acharem-se a ss, porque a nossa
presena lhes  completamente desnecessria.
     Logo atrs de Cosette, entrara um sujeito de cabelos brancos, grave, mas
risonho.
     O seu sorriso tinha um no sei qu de vago e doloroso.
     Era o senhor Fauchelevent; era Joo Valjean.
     Vinha muito bem trajado, como dissera o porteiro, com o fato novo todo
preto e gravata branca.
     Longe e bem longe estava o porteiro de reconhecer neste asseado burgus,
que parecia um tabelio, o medonho condutor de cadveres, que lhe surgira 
porta, na noite do dia 7 de Junho, roto, cheio de lama, hediondo, medonho, com o
rosto coberto de lodo e sangue, amparando Mrio desfalecido; contudo, o seu faro
de porteiro despertou.
     Quando Fauchelevent entrou com Cosette, no pde deixar de dizer a sua
mulher com ar confidencial:
     - No sei que cisma  a minha de que j vi esta cara!
     Chegado ao quarto de Mrio, Fauchelevent deixou-se ficar no limiar da porta.
     Trazia debaixo do brao um pacote semelhante a um volume em oitavo,
embrulhado num papel, cuja cor esverdeada o fazia parecer manchado de bolor.
     - Este homem anda sempre com livros debaixo do brao! - disse em voz baixa
para Nicolette a filha de Gillenormand, que no gostava de livros.
     - E ento que tem isso? - acudiu ao mesmo tom Gillenormand, que tinha
ouvido o que ela dissera  criada. -  porque  um sbio. Porventura tem ele culpa
disso?
     Boulard, que eu conheci muito bem, nunca saa de casa sem um livro, e
tambm andava sempre com um alfarrbio unido ao corao.
     E acrescentou em voz alta, fazendo uma cortesia:
     - Senhor Tranchelevent... Gillenormand no o fez de propsito, porm 
certo que a falta de cuidado com os nomes prprios era nele uma maneira
aristocrtica.
     - Senhor Tranchelevent, tenho a honra de pedir-lhe a mo de sua filha para
meu neto, o senhor baro Mrio Pontmercy.
     O senhor Tranchelevent inclinou-se.
     - Est dito! - acudiu ele.
     E, voltando-se para Mrio e Cosette, com os braos levantados, como quem
abenoa, exclamou:
     - Podem adorar-se!
     Os jovens no esperaram que lho dissessem outra vez. Era para ver como eles
se apressaram a aproveitar-se daquela permisso, principiando a falar em voz
baixa.
     Mrio debruado na sua cadeira de braos Cosette em p junto dele.
     - Ora, meu Deus! - murmurava Cosette. - Pois  possvel?! Tornar a ver-te!
Ires meter-te em semelhante perigo! Mas porqu?  horrvel! Tenho passado os
quatro meses mais cruis da minha vida! Oh, que mal te tinha feito para te ires
arriscar nessa batalha, sem piedade nenhuma para comigo! Perdoo-vos, com a
condio de que no tornareis a fazer outra. H um bocado, quando nos
mandaram recado para virmos, cuidei ainda de morrer, mas era com alegria! Eu
andava to triste! Devo estar horrenda, porque nem quis demorar-me um instante
a vestir-me. Muito se ho-de rir os teus parentes, vendo-me este colarinho todo
amarrotado! Ento no dizes nada?
     Queres que s eu fale? Ns ainda estamos na rua do Homem Armado. E
como ests do ombro? Disseram-me que lhe cabia uma mo dentro. E que te
cortavam a carne  tesoura! Oh, faz-me estremecer s a lembrana do que tu
passaste! Eu no fazia seno chorar! No sei como tiveste nimo para sofrer tanto!
Teu av  que parece uma bela criatura. Deixa-te estar, mas no te debruces assim,
olha que te podes magoar! Como sou feliz! Acabaram-se as desgraas! Parece que
ando doida! Trazia na ideia um horror de coisas para dizer-te e esqueceu-me tudo.
Ainda me amas? Olha, moramos na rua do Homem Armado. A casa nem tem
jardim. Sabes em que eu passava o tempo? A fazer fios! V, meu senhor? Por sua
causa enchi os dedos de calos!
     - Anjo! - dizia Mrio.
     Anjo  a nica palavra que jamais envelhece. Nenhuma outra resistiria ao
repetido uso que dela fazem os amantes.
     Em seguida, repararam que no estavam ss e calaram-se, limitando-se
apenas a apertarem-se mutuamente as mos.
     Gillenormand voltou-se para os circunstantes e exclamou:
     - Falem alto, senhores! Faam bulha nos bastidores! Diabo! Haja troa, seno
estes pequenos no podem tagarelar  vontade!
     E, aproximando-se de Mrio e de Cosette, disselhes em voz baixa:
     - Nada de cerimnias. Tratem-se por tu!
     A tia Gillenormand assistia pasmada a esta irrupo de luz no seu interior
envelhecido. O seu assombro, porm, nada tinha de agressivo; no era de modo
nenhum o olhar escandalizado e invejoso de uma coruja contemplando dois
pombos; era o olhar idiota de uma pobre inocente de cinquenta e sete anos; era a
velhice contemplando o triunfo do amor!
     - Eu bem te dizia, minha filha, que te havia de vir a acontecer isto! - dizia-lhe
seu pai.
     E, aps um momento de silncio, acrescentou:
     - Contempla a ventura dos outros!
     Depois voltou-se para Cosette e continuou:
     - Que linda ! Que linda ! Parece um quadro de Greuze! Anda tu, meu
brejeiro, que, se eu fosse mais novo, havamos de ver com as espadas em punho a
quem ela havia de pertencer! A menina no imagina como eu lhe quero! Tambm:
no admira; a minha obrigao  essa. Oh, que linda boda aqui vai haver! A nossa
freguesia  S.
     Diniz do Santssimo Sacramento, mas eu hei-de arranjar licena para o
casamento ser em S. Paulo. Sempre  outra qualidade de igreja, mais bonita e
airosa do que a outra.
     Ou ela no fora edificada pelos jesutas! Fica defronte do chafariz do cardeal
Birague.
     Em Namur  que se encontra a obra-prima de arquitectura jesuta. Depois de
recebidos, devem l ir, que no perdem o tempo. Olhe, menina, eu sou da sua
opinio, quero que as raparigas casem, no nasceram para outra coisa. H uma tal
Santa Catarina que eu gostaria de ver sempre destoucada. Ficar solteira  bonito,
mas  frio.
     A Bblia diz: Multiplicai-vos. Para salvar o povo  bom que, haja uma Joana
dArc, mas para fazer povo a me Gigogne. Por consequncia, casem, meninas. Se
querem que lhes diga a verdade, eu no sei porque uma menina h-de ficar
solteira. Bem sei que essas tais tm uma capela separada na igreja, e, alm disto, a
confraria da Virgem; ora adeus! Mas isto vale, porventura, um marido, rapaz
bonito, e, ao cabo de um ano, um pequerrucho louro mamando sofregamente,
com grandes refegos de gordura nas coxas e que est sempre a meter no seio da
me as mozinhas da cor da aurora?! Oh, isto sempre  melhor do que assistir a
umas vsperas de crio na mo e cantar: Turns ebrnea!
     Gillenormand fez uma pirueta sobre os seus calcanhares de noventa anos e
continuou a falar, como uma mola que novamente se solta.
     Com que ento, bela Alcippe, sempre  certo que o dia da tua boda j vem
perto?
     -  verdade!
     - Que , meu pai?
     - Tu no tinhas um amigo ntimo?
     - Sim, senhor. Courffeyrac.
     - Que  feito dele?
     - Morreu!
     - Isso foi bom.
     Dizendo isto, sentou-se ao p dos dois jovens, obrigou Cosette a fazer o
mesmo e continuou, tomando entre as suas enrugadas mos as dos dois jovens:
     - Esta feiticeira Cosette  uma obra-prima! Tem ar de criana e de grande
fidalga!
     Nasceu marquesa e vai ser s baronesa! Olhem que pestanas! Meus filhos,
tomem bem sentido no que lhes diz este velhote. Vocs esto no Verdadeiro
caminho. Amem-se at mais no poderem, at endoidecer! O amor  a tolice dos
homens e o esprito: de Deus.
     Adorem-se! Mas  acrescentou ele, de sbito, com expresso de tristeza -
agora me lembro! Mais de metade dos meus haveres so em rendas vitalcias;
enquanto eu for vivo, no tem dvida, mas depois da minha morte, daqui a vinte
anos, ah, meus pobres filhos, nada tereis! Que ser das suas mozinhas brancas,
senhora baronesa?
     Neste instante, ouviu-se uma voz grave e serena que dizia:
     - Eufrsia Fauchelevent possui seiscentos mil francos!
     Era Joo Valjean que falava.
     De p e imvel junto  porta, no tinha ainda proferido a menor palavra nem
a sua presena parecia ter sido notada por aquelas venturosas criaturas.
     - Quem  essa senhora Eufrsia? - perguntou Gillenormand, admirado.
     - Sou eu! - respondeu Cosette.
     - Seiscentos mil francos! - repetiu o velho.
     - Menos uns catorze ou quinze mil francos  disse Joo Valjean.
     E pousou sobre uma mesa o embrulho, que a filha de Gillenormand tinha
tomado por um livro.
     Joo Valjean abriu-o por sua prpria mo: era um mao de notas do Banco,
quinhentas de mil francos e cento e sessenta e oito de quinhentos. Ao todo
quinhentos e oitenta e quatro mil francos.
     - Ora isto  que  um bom livro! - disse Gillenormand.
     - Quinhentos e oitenta e quatro mil francos! - Murmurou a filha.
     - Com isto conseguem-se bastantes coisas, no  assim, minha filha? -
exclamou o ancio. - Ora vejam como o diabo deste Mrio foi descortinar uma
noiva milionria, l no sei onde! E digam mal dos namoricos dos rapazes, de um
estudante que depara com: uma estudanta de seiscentos mil francos!
     - Quinhentos e oitenta e quatro mil francos! - repetia a meia voz a filha de
Gillenormand.  Quinhentos e oitenta e quatro! Pouca diferena vai para
seiscentos mil!
     Quanto a Mrio e a Cosette, entretidos, neste momento, a olharem-se, quase
no prestaram ateno ao incidente que acabava de ter lugar.
     V
     Como uma floresta pode ser mais segura depositria de dinheiro do que um
tabelio



     J sem dvida se compreendeu, sem que seja necessrio mais ampla
explicao, que Joo Valjean, depois do processo Champmathieu, pudera, graas 
sua primeira evaso, que poucos dias de liberdade; lhe proporcionou, vir a Paris e
tirar a tempo de casa de Laffite a soma por ele ganha em Montreuil-sur-mer com
o suposto nome de Madelaine, e que, temendo tornar a ser preso, o que,
efectivamente, lhe veio a acontecer pouco depois enterrara a dita soma no lugar da
floresta de Montfermeil, denominado Campo Blaru.
     Como o total desta soma, que montava a seiscentos e trinta mil francos, era
todo em notas do Banco, fcil lhe fora acondicion-lo numa caixa, que encerrou
dentro de um cofre de carvalho, cheio de aparas de castanheiro, para preserv-la
da humidade.
     Este mesmo cofre servira-lhe para guardar o seu outro tesouro, que, como se
sabe, eram os castiais do bispo, os quais ele, na ocasio da sua evaso de
Montreuil-sur-mer, levara consigo.
     O homem que Boulatruelle avistara da primeira vez era Joo Valjean. Em
seguida a esta, Joo Valjean voltou mais vezes  clareira Blaru, o que fazia quando
tinha preciso de dinheiro. Daqui provinham as diversas ausncias de que j
falmos.
     Tinha uma enxada escondida no mato, num esconderijo s dele conhecido.
     Ao ver Mrio em convalescena, julgou que era chegada a hora em que aquele
dinheiro podia ser til e fora busc-lo; foi ele, pois, o homem que Boulatruelle viu
no bosque, porm desta vez de manh e no de tarde. Boulatruelle ficou herdeiro
do alvio.
     A soma real eram quinhentos e oitenta e quatro mil e quinhentos francos.
Joo Valjean guardou para si os quinhentos francos.
     - Depois veremos -, disse ele consigo.
     A diferena entre esta soma e a de seiscentos e trinta mil francos tirada de
casa de Laffite representava a despesa de dez anos, isto , desde 1823 a 1833. Os
cinco anos passados no convento apenas tinham custado cinco mil francos.
     Chegado a casa, Joo Valjean pusera os dois castiais de prata na pedra do
fogo, onde Toussaint os via luzir com grande admirao.
     Quanto a Javert, sabia Joo Valjean que estava livre dele. Ouvira dizer e
depois verificara no Monitor que entre a Pont-au-Ghange e a Ponte Nova tinha
aparecido o cadver de um inspector de polcia chamado Javert, e que, a julgar por
um escrito que esse homem, alis irrepreensvel e muito estimado de seus
superiores, tinha deixado, parecia que um acesso de loucura o tinha impelido ao
suicdio.
     - Em verdade - disse Joo Valjean  tambm assim o acredito. A no ser por
loucura, no sei explicar como ele me deixasse, depois de estar senhor de mim.



    VI
    Como os dois velhos, cada um a seu modo, empregam toda a sua diligncia
em tornar Cosette feliz



     Principiaram os preparativos para o casamento.
     Foi consultado o mdico e este respondeu que poderia ter lugar em Fevereiro.
     Estava-se em Dezembro. Assim decorreram algumas semanas de perfeita
ventura, O menos feliz no era Gillenormand. O pobre velho ficava s vezes horas
inteiras em contemplao diante de Cosette.
     - Que perfeio de rapariga! - exclamava ele, extasiado. - Que gesto to afvel,
to cheio de bondade! Tenho dito e no admito rplica:  a jovem mais bonita que
meus olhos tm visto! L para diante, ser um ramalhete de virtudes, perfumadas
de violeta! Oh, parece uma das trs Graas! Com uma criana assim no pode a
gente deixar de nutrir nobres sentimentos! Olha, Mrio, s baro, ests rico, s
tambm bom rapaz; peo-te que deixes de andar a arengar pelos tribunais!
     Cosette e Mrio tinham passado repentinamente do sepulcro para o paraso.
     - A transio, de rpida que foi, deix-los-ia atordoados, se os no tivesse
extasiado.
     - Tu sabes como isto foi? - dizia Mrio para Cosette.
     - No - respondia Cosette - mas afigura-se-me que Deus nos contempla.
     Joo Valjean desfez, aplanou, destruiu todos os obstculos, conciliou todas as
dificuldades, tornou tudo fcil. Apressava a realizao da ventura de Cosette com
tanto af e, na aparncia, com tanta alegria como a prpria Cosette.
     Como havia sido maire, soube resolver um problema difcil, cujo segredo s
ele sabia: o estado civil de Cosette.
     Declarar francamente a origem da jovem  quem sabe? - talvez fosse um
obstculo ao casamento.
     Resolveu livr-la destas dificuldades, arranjando-lhe uma famlia de mortos,
meio seguro de no ver surgir reclamao alguma.
     Cosette era o nico membro de uma famlia extinta, e no sua filha, mas filha
de um outro Fauchelevent.
     Procedeu-se a informaes no convento da Adorao Perptua, da rua das
Postas, onde tinham estado na qualidade de jardineiros dois irmos de apelido
Fauchelevent.
     Recorreram quele convento e ali abundaram as melhores e mais respeitveis
informaes; as excelentes religiosas, pouco aptas e pouco inclinadas a sondar as
questes de paternidade, e no vendo em semelhante coisa menor sombra de
malcia, no tinham nunca sabido ao certo qual dos dois Fauchelevent era pai de
Cosette.
     Disseram tudo que se queria, e disseram-no com zelo.
     Disto tudo lavrou-se um auto. Cosette tornou-se, perante a lei, Eufrsia
Fauchelevent, e foi declarada rf de pai e me. Joo Valjean disps as coisas de
modo que fosse, sobre o nome de Fauchelevent, designado tutor de Cosette, com
o senhor Gillenormand como subtutor.
     Quanto aos quinhentos e oitenta e quatro mil francos provinham do legado
deixado a Cosette por uma pessoa j falecida e que desejara ficar desconhecida.
     O legado primitivo fora de quinhentos e noventa e quatro mil francos, mas
dez mil haviam sido despendidos na educao da menina Eufrsia, dos quais
cinco mil tinham sido pagos ao convento.
     Este legado, depositado nas mos de um terceiro, devia ser entregue a Cosette
quando chegasse  sua maioridade, ou quando se casasse.
     Todo este conjunto de coisas, era, como se v, muito aceitvel, sobretudo com
o apndice de mais de meio milho.
     Havia decerto nele algumas singularidades, mas ningum as via. Um dos
interessados tinha os olhos vendados pelo amor, os outros pelos seiscentos mil
francos.
     Cosette soube que no era filha daquele velho a quem por tanto tempo
chamara pai e que lhe no era mais do que um parente; o seu verdadeiro pai era
outro Fauchelevent.
     Esta descoberta, noutra qualquer ocasio, t-la-ia desconsolado. Mas na
inefvel quadra em que se achava, no foi mais do que uma sombra, um ligeiro
escurecimento; e era to grande a sua alegria que em breve se lhe desvaneceu a
tnue nuvem.
     Tinha Mrio, que lhe faltava?
      chegada do mancebo desaparecia o ancio; a vida  assim.
     E depois, havia muitos anos que Cosette estava habituada a ver-se rodeada de
enigmas. O ente cuja infncia foi misteriosa, acha-se sempre pronto para certas
renncias.
     Todavia continuou a chamar pai a Joo Valjean.
     Cosette sentia-se entusiasmada pelo av Gillenormand, que a sobrecarregava
de madrigais e de presentes.
     Enquanto Joo Valjean dispunha para Cosette uma situao normal na
sociedade e a posse de uma situao inexpugnvel, velava o senhor Gillenormand
pelo enxoval. Nada o divertia tanto como ser magnfico.
     Tinha dado a Cosette um vestido de rendas de linho de Binche, que
pertencera a sua av.
     - Estas modas esto renascendo - dizia ele  as antiqualhas esto fazendo
furor, e as jovens da minha velhice esto-se vestindo como as velhas da minha
infncia.
     Quem pagava estas generosidades eram as suas respeitveis cmodas
abauladas, de que j no havia memria que tivessem sido abertas.
     - Confessemos estas velhas - dizia ele  vejamos o que tm no abdmen.
     Violava ruidosamente as barrigudas gavetas cheias de vesturio. Cetins,
damascos, cassas pintadas, vestidos de seda de Tours, cor de logo, lenos da ndia
bordados de oiro, mas de um oiro que podia lavar-se, bordados de Gnova e de
Alenon, jias de antiga ourivesaria, bocetas de marfim, lavrado representando
batalhas em ponto microscpico, vestidos, fitas, prodigalizava tudo a Cosette.
     A jovem maravilhada, transportada de amor por Mrio e cheia de gratido
para com Gillenormand, sonhava uma ventura sem limites, vestida de veludo e de
cetim.
     Afigurava-se-lhe ver os serafins pondo-lhe na cabea a sua grinalda de noiva.
Parecia-lhe que voava para o cu, sustentada por asas de renda de Malines A
embriaguez dos dois jovens, como j dissemos, s podia ser igualada pela alegria
louca de Gillenormand.
     Era um delrio completo naquela casa.
     No se passava um dia sem que o bom velho oferecesse algum brinde a
Cosette.
     Era um estendal esplndido em torno da jovem.
     Gillenormand s vezes punha-se a discorrer sobre os seus presentes.
     - O amor  uma excelente coisa - dizia ele  mas desacompanhado destas
bugigangas no presta para nada! O intil torna a felicidade completa. Se a
limitais ao necessrio, adeus ventura! Quantas mais superfluidades melhor. Um
palcio  O seu corao. O seu corao e o Louvre. O seu corao e os lagos de
Versalhes. Dai-me a minha pastora, mais vede se arranjais a fazer-ma duquesa.
Dai-me Philis coroada de boninas, mas assegurai-lhe cem mil libras de renda.
Abri-me uma buclica sem fim num peristilo de mrmore. Aceito a buclica e
tambm o prodgio de mrmore e ouro.
     A felicidade desacompanhada  como o po seco. Come-se, mas no se janta.
Quero o suprfluo, o intil, o extravagante, o demasiado, O que no serve de
nada. Lembra-me ter visto na catedral de Estrasburgo um relgio da altura de uma
casa de trs andares, que dava horas, que fazia favor de dar horas, mas que parecia
no ter nascido para semelhante fim, e que, depois de dar meio-dia, ou meia-noite
- meio-dia, a hora do Sol meia-noite, a hora do amor - ou, finalmente, qualquer
hora mostrava a Lua e as estrelas, a terra e o mar, os pssaros e os peixes, Phebo e
Phebe, e uma trapalhada de coisas, que saam de um nicho, como os doze
apstolos, o imperador Carlos V, Eponina e Sabino, e uma chusma de
homenzinhos dourados tocando trombeta, para remate da coisa! J no falo na
imensidade de repiques com que a todo o instante se punha a atroar os ouvidos 
gente quando menos se esperava. Porventura um reles relgio, que s marca as
horas e mais nada, tem l comparao com este? Eu c sou da opinio do enorme
relgio de Estrasburgo, que prefiro aos reloginhos de cuco da Floresta Negra.
     Gillenormand levava a barra ainda mais alm, principalmente em se tratando
da boda, sobre a qual ele falava, misturando com os seus ditirambos todos os
enxovais do sculo XVIII.
     - Vocs no sabem nada da arte das festas! J no h quem seja capaz de fazer
um dia de alegria, Este sculo XIX no vale um ceitil! No sabe o que 
magnificncia, grandeza, opulncia. Em tudo mostra a sua sovinice! O vosso
terceiro estado  inspido, incolor, inodoro e informe. O sonho das vossas
burguesas que se estabelecem, como elas dizem,  um lindo camarim, forrado e
mobilado de novo, sabe Deus como.
     A vai! Deixem passar!  o senhor Grigou casado com a senhora Grippesou.
     Sumptuosidade e esplendor. Um lus de ouro pregado numa tocha! A est O
que  esta poca! Oh, desde 1787 que eu profetizei que estava tudo perdido,
quando vi vir a Longchamps, numa sege, que parecia uma capoeira, o duque de
Rohan, prncipe de Leo, duque de Chabot, duque de Montbazon, marqus de
Soubise, visconde de Thouars, par de Frana. O resultado a o tm! Hoje em dia
todos negoceiam, todos jogam na Bolsa, todos ganham dinheiro e no passam da
cepa torta! S pem esmero em andar lavadinhos, ensaboados, barbeados,
penteados, embanhados, frisados, perfumados, escovados, polidos como um seixo,
asseadinhos e lpidos, tudo isto por fora, que por dentro, Deus me perdoe!,
trazem cada camada de esterco na alma, que fariam deitar a fugir qualquer
lapnio que se assoa aos dedos! Outorgo ao tempo de agora a divisa: Asseio
porco. No me leves isto a mal, Mrio; deixa-me falar; eu no digo mal do povo,
antes, como vs, quero-lhe muito; o meu fim - , por conseguinte, no te zangues -
 pura e simplesmente dar uma tunda na burguesia. Eu sou burgus, mas amigos,
amigos, negcios  parte; primeiro est a verdade.  vista disto, declaro alto e bom
som, que hoje em dia todo o mundo se casa, mas ningum se sabe casar!
     Oh, dantes  que era! Tenho saudades da galanteria dos antigos costumes.
Tenho saudades de tudo! Daquela elegncia cavalheiresca, daquelas maneiras
corteses, daquele luxo festivo que todos ostentavam, a msica fazendo parte da
boda, sinfonia em cima, tamborinagem em baixo, danas, rostos alegres em volta
da mesa, madrigais alambicados, canes, fogos de artifcio, risadas, fitas, laos, o
diabo a quatro e trinta por uma linha! Tenho saudades da liga da noiva. A liga da
noiva  prima da cinta de Vnus. Qual foi a causa da guerra de Tria? Ora  muito
boa! A liga de Helena. Qual  a causa de todas as guerras? Porque  que Diodem
o divino despedaa na cabea de Merioneu aquele grande capacete de bronze de
dez pontas? Porque  que Aquiles e Heitor se trespassam s lanadas? Porque
Helena deixou que Paris lhe roubasse a liga.
     A liga de Cosette daria assunto a Homero para outra Ilada, em que figuraria
um velho tagarela como eu, a que ele daria o nome de Nestor. No tempo que j l
vai, com bem pena minha, os meus amigos sabiam como corriam estas coisas de
casamentos. Em seguida ao casamento, um regabofe. Apenas Cujacio saa, entrava
Gamache. Como, assim no havia de ser, se o estmago  um animal agradvel
que no abdica os seus direitos e tambm quer ter a sua boda? Ceava-se
regaladamente e cada qual tinha a seu lado uma bela, moderadamente decotada.
Aquilo  que eram tempos! A mocidade era um ramalhete; no havia um
mancebo que no terminasse por um ramo de lilases ou por um festo de rosas;
at os guerreiros eram pastores; e se, por acaso, havia algum capito de drages, l
arranjava a chamar-se Florian. Havia interesse em ser bonito.
     Todos se cobriam de bordados e arrebiques. Os burgueses pareciam flores, os
marqueses cofres de pedrarias. No se usavam presilhas nem botas. Andvamos
com uns palmitos, o que no obstava a que se puxasse pela espada quando era
preciso. O beija-flor tem bico e unhas. Era o tempo das ndias falantes. Um dos
caractersticos desse sculo era a delicadeza, o outro, a magnificncia, e, Deus me
perdoe, a gente divertia-se. Hoje tudo  seriedade. O burgus  avarento, a
burguesa beata. Que sculo to desgraado o actual! Se hoje em dia se
apresentassem as Graas, seriam corridas por crime de lesa-honestidade! A que
tempo chegmos, que at as belezas se ocultam, como se foram fealdades! Desde a
revoluo para c, comeou tudo a andar de cala, inclusive as danarinas; uma
bailarina deve ser grave; as danas deste tempo so doutrinrias. Todos querem
tomar ares majestosos. O seu gosto  andar aprumados na gravata inflexvel. O
ideal do galopim de vinte anos que se casa  parecer-se com o senhor
Royer-Collard. E quereis saber o que conseguem com a sua majestade? Tornar-se
ridculos. Olhai, a alegria no consiste s no prazer, consiste tambm na grandeza.
     Mas amai jovialmente, com mil diabos! Casai, se quiserdes casar, com a febre
e o atordoamento, com o estrondo e o alarido do prazer! Quereis portar-vos com
gravidade na igreja? Concedido. Mas, apenas termine a missa, viva Deus!, deixai
girar um sonho em torno da desposada! Um casamento deve ser real e quimrico;
deve principiar na catedral de Reims e findar no pagode de Chanteloup. Eu no
posso ver casamentos  capucha! Valha-vos um dardo! Pois nem ao menos por
um dia quereis subir ao; Olimpo! Tornai-vos deuses! Para que haveis de ficar
mesquinhos, podendo transformar-vos em silfos, brincos, risos, argiraspedes!
Meus amigos, um noivo deve tornar-se um prncipe Aldobrandini. Aproveitai este
instante, nico na vossa vida, para subirdes ao empreo com os cisnes e as guias,
embora no dia seguinte tenhais de tornar a cair na burguesia das rs. No sejais
econmicos com o Himeneu nem lhe cerceeis os esplendores; no regateeis no dia
da vossa maior satisfao. A boda no tem nada com o viver domstico. Oh, se as
coisas corressem  medida da minha fantasia, haveis de ver o bonito; at as
rvores ressoariam como instrumentos! O meu programa era este: azul e prata,
Assistiram  festa as divindades agrestes; convocaria as drades e as nereidas. As
npcias de Anfitrite, uma nuvem cor-de-rosa, ninfas nuas, um acadmico
oferecendo quadras  deusa, um carro puxado por monstros marinhos.
     Tristo trotava adiante e com seu bzio To gratos sons desferia, que
assombravam!
     Eis aqui o programa de festa, ou eu, com um milho de diabos, no sei onde
tenho o nariz!
     Enquanto Gillenormand, em plena efuso lrica, se dilatava nestas
consideraes, Mrio e Cosette embriagavam-se, olhando-se livremente.
     A tia Gillenormand contemplava tudo isto com a sua imperturbvel placidez
ordinria. Havia cinco ou seis meses que ela passava por sucessivos abalos; a volta
de Mrio, o estado em que ele chegara, o perigo que correra, a sua convalescena,
a sua reconciliao com o av, querendo casar com uma pobre, casando depois
com uma milionria, tudo isto a deixara profundamente impressionada. A sua
ltima surpresa foram os seiscentos mil francos. Depois disto, voltara  sua
primitiva indiferena. Ia regularmente  missa, rezava as suas contas, lia o seu
eucologio, sentava-se a um canto a murmurar Ave-Marias, enquanto Mrio e
Cosette, que ela entrevia vagamente como duas sombras, murmuravam um ao
outro os seus I love you. Ela, porm,  que era a sombra.
     H um certo estado de ascetismo inerte, em que a alma, neutralizada pelo
torpor, estranha a tudo o que diz respeito  vida, no sente,  excepo dos
tremores de terra e das catstrofes, nenhuma das impresses humanas, seja
aprazvel ou desagradvel.
     - Esta devoo - dizia Gillenormand a sua filha -  um como defluxo moral.
Para ti no tem cheiro a vida, nem bom nem mau!
     Os seiscentos mil francos, porm, tinham posto termo s suas indecises. Seu
pai fazia j por costume to pouco caso dela, que no a consultara nem lhe pedira
o seu consentimento para o casamento de Mrio.
     Dspota transformado em escravo, obedecera logo, segundo o seu costume,
ao primeiro movimento satisfazer Mrio. Quanto  tia, nem sequer lhe lembrara
que ela existia e que devia ser consultada, procedimento que ela, apesar dos seus
hbitos, no pde levar a bem.
     Realmente agastada no seu foro ntimo, mas exteriormente impassvel,
dissera consigo:
     - Meu pai resolveu a questo do casamento sem me consultar; eu resolverei a
questo da herana sem o consultar a ele!
     Ela era rica, efectivamente, e seu pai no o era. Por conseguinte, reservara a
sua deciso a este respeito.
     Se o casamento fosse pobre, pobre o deixaria, provavelmente.
     - Mal do senhor meu sobrinho! Casou com uma pobretona, seja pobreto!
     O meio milho de Cosette, porm, agradou  tia e mudou a situao interior
com relao aos noivos.
     Seiscentos mil francos  uma soma digna de respeito, e era evidente que o seu
dever era deixar a sua fortuna queles jovens, visto que no precisavam dela.
     Combinou-se que o jovem par ficaria em casa do av. O senhor
Gillenormand quis absolutamente ceder-lhe o seu quarto, que era de todos o
melhor.
     - Remoarei com isso! - declarava ele. -  um projecto antigo! Sempre tive
teno de fazer do meu quarto uma cmara nupcial.
     Em vista desta resoluo, mandou mobilar o quarto com um sem nmero de
galantes antiqualhas e forr-lo de uma fazenda que ele tinha em pea, e que
julgava ser veludo de Utrecht.
     - Era desta fazenda - dizia ele - o cortinado da cama da duquesa de Anville em
Roche-Guyon.
     Sobre a pedra do fogo ps uma figura de Saxe, coberta apenas por um
sendal.
     A biblioteca de Gillenormand foi arvorada em gabinete de advogado, de que
Mrio carecia, visto que os estatutos exigiam que todo o advogado tivesse o seu
gabinete.



    VII
    Efeitos de sonho no meio da ventura



     Desde esse dia em diante, Cosette e Mrio continuaram a ver-se todos os dias.
     - Ora vejam como as coisas andam direitas!  dizia a filha de Gillenormand. -
A noiva  que vem a casa do noivo fazer-lhe a corte!
     A convalescena de Mrio, porm, assim o tornara necessrio, e o que a
princpio fora necessidade, convertera-se, por fim, em hbito. Mrio e
Fauchelevent viam-se, mas no trocavam entre si a menor palavra, como se assim
o tivessem convencionado.
     Cosette no podia vir sem ser acompanhada por Fauchelevent. Para Mrio,
Fauchelevent era a condio de Cosette, e por isso resignava-se. s vezes
discutiam sobre matrias polticas, debaixo do ponto de vista do melhoramento
geral da sorte de todos, porm nessas discusses pouco mais chegavam a dizer-se
do que sim ou no.
     Uma ocasio, falando-se do ensino, que Mrio queria gratuito e obrigatrio,
multiplicado sob todas as formas, prodigalizado a todos, como o sol e o ar, numa
palavra, respirvel ao povo todo, acharam-se de acordo e quase conversaram.
     Por essa ocasio, notou Mrio que Fauchelevent se exprimia bem e at com
certa elevao de linguagem. Contudo, faltava-lhe o quer que fosse. Fauchelevent
tinha mais e menos alguma coisa do que um homem de boa sociedade.
     Interiormente e no fundo do seu pensamento, Mrio fazia a si prprio mil
perguntas acerca daquele senhor Fauchelevent, que para com ele era
simplesmente benvolo e frio. s vezes como que duvidava das suas prprias
reminiscncias. Tinha na memria uma cova, um ponto negro, um abismo cavado
por quatro meses de agonia; abismo em que se havia sumido uma infinidade de
coisas, chegando a perguntar a si mesmo se, realmente, tinha visto na barricada
Fauchelevent, aquele homem de aspecto to grave e sereno.
     No era este, porm, o nico torpor que as aparies e as desaparies do
passado lhe tinham causado no esprito. No se julgue que Mrio se achava livre
de todas essas importunaes da memria que nos foram, mesmo felizes, mesmo
satisfeitos, a olhar melancolicamente para trs. A cabea que se no volta para os
horizontes sumidos no contm pensamento nem amor.
     s vezes, Mrio apoiava a cabea nas mos e o passado atravessava-lhe
tumultuoso o crepsculo que ele tinha no crebro. Via cair Mabeuf, ouvia cantar
Gavroche, sentia nos lbios a gelidez da fronte de Eponina; via surgir e depois
sumir-se Enjolras, Courffeyrac, Joo Prouvaire, Combeferre, Bossuet, Grantaire,
todos os seus amigos.
     Todos estes entes queridos, dolorosos, valentes, formosos ou trgicos, seriam
sonhos ou teriam, com efeito, existido?
     O fumo da revolta arrastara tudo consigo. Os sonhos destas febres so
grandes como elas.
     Interrogava-se, apalpava-se; acometia-o a vertigem de todas estas realidades
desvanecidas.
     Mas ento onde estavam eles todos?
     Realmente haviam morrido? Pois todos se tinham sumido nas trevas, s ele
no?
     Pois todos tinham desaparecido como por trs de um pano de teatro?
     Sim.
     A vida tem destas cortinas que descem, e Deus passa ao acto seguinte.
     E ele prprio, seria, realmente, o mesmo homem?
     Ele, o pobre, estava rico; ele, o abandonado, tinha uma famlia; ele, o
desesperado, estava em vsperas de desposar Cosette.
     Parecia-lhe que tinha atravessado um: tmulo, em que entrara negro e de que
sara branco, tendo ficado dentro dele os que o haviam acompanhado.
     s vezes estes entes do passado apresentavam-se-lhe todos, volteavam em
roda dele e enchiam-no de tristeza; o seu pensamento refugiava-se ento em
Cosette e ele recobrava a sua primitiva serenidade, mas s esta felicidade era capaz
de afugentar semelhante catstrofe.
     Fauchelevent quase pertencia ao nmero desses entes desaparecidos.
     Mrio hesitava em acreditar que o Fauchelevent da barricada fosse aquele
Fauchelevent em carne e osso to gravemente sentado ao lado: de Cosette.
     O primeiro no podia deixar de ser um dos muitos pesadelos que o
acometeram nas suas horas de delrio.
     Como, porm, os seus gnios pareciam totalmente diversos, era impossvel a
Mrio dirigir a menor pergunta a Fauchelevent. Nem sequer se lembrou de o
fazer.
     J noutra parte deixmos apontada esta particularidade caracterstica.
      mais frequente do que se julga o caso de dois homens que tm um segredo
comum, e que por uma espcie de tcito acordo, no trocam entre si a menor
palavra a tal respeito.
     Uma ocasio, porm,, Mrio tentou uma experincia. Fez convergir a
conversa sobre a rua de Chanvrerie, e voltando-se para Fauchelevent, disselhe:
     - Conhece perfeitamente essa rua?
     - Que rua?
     - A rua da Chanvrerie?
     - No tenho ideia nenhuma do nome dessa rua!- respondeu Fauchelevent, no
tom mais natural do mundo.
     A resposta, que se referia ao nome da rua e no  prpria rua, pareceu a
Mrio mais concludente do que na realidade era.
     - Decididamente - disse ele consigo -, tenho estado a sonhar. Tive uma
alucina- o! Era algum que se parecia com ele. Fauchelevent nunca esteve na
barricada!
    VIII
    Dois homens impossveis de descobrir



     Apesar da sua grande ventura, Mrio no sentia o esprito totalmente isento
de outras preocupaes.
     Enquanto no chegava o dia do casamento, cujos preparativos prosseguiam, o
rapaz mandou proceder a escrupulosas averiguaes retrospectivas.
     Multiplicadas razes de gratido a isso o moviam; devia-a por seu pai, devia-a
por si mesmo.
     Merecia-lha Thenardier, merecia-lha o desconhecido que o transportara da
barricada para casa de seu av.
     Mrio empregava toda a sua diligncia em descobrir esses dois homens, no
querendo esquec-los exactamente quando ia casar, isto , ser feliz, receoso de que
estas dvidas do dever no pagas viessem a turvar-lhe a existncia, to luminosa
agora.
     Era-lhe impossvel deixar em aberto estas dvidas atrasadas, e por isso no
queria entrar no futuro sem levar quitao do passado.
     Embora Thenardier fosse um celerado, nem por isso deixava de ter sido o
salvador do coronel Pontmercy. Para todos seria um facnora, menos para Mrio.
     E Mrio, ignorando a verdadeira cena do campo de batalha de Waterloo, no
sabia por isso de uma particularidade - que seu pai se achara para com Thenardier
na estranha situao de lhe dever a vida, mas no lhe ser devedor de
reconhecimento.
     Nenhum dos diversos agentes que Mrio empregou para esse fim conseguiu
saber onde parava Thenardier. Quanto a este, pareciam perdidas todas as
esperanas de o encontrar. A mulher morrera na priso antes deconcludo o
processo. Os nicos membros vivos desse lastimoso grupo, Thenardier e sua filha
Azelma, tinham-se de novo sumido nas trevas. Sobre eles se fechara
silenciosamente o abismo do incgnito social. Nem ao menos se avistava na
superfcie aquele tremor, aqueles sombrios crculos concntricos, que denunciam
ter cado naquele ponto um objecto e poder-se deitar ali a sonda.
     Tendo morrido a Thenardier, estando Boulatruelle fora de cena, havendo
Claquesous desaparecido, e tendo fugido da priso os principais rus, o processo
instaurado por ocasio da cilada do casaro Gorbeau quase havia abortado. O
negcio ficara sobremodo obscuro. O tribunal criminal teve de contentar-se com
os dois rus de menos importncia, Panohaud, por outra, Printanier ou
Bigrenaille, e Demi-Liard, por outra, Deux Milliards, que foram
contraditoriamente condenados a dez anos de gals.
     Aos seus cmplices evadidos e contumazes foi imposta a pena de trabalhos
forados por toda a vida. Thenardier, como chefe da quadrilha, foi tambm
julgado  revelia e condenado  morte.
     A nica coisa que se sabia a respeito de Thenardier era esta condenao,
reflectindo o seu sinistro claro sobre esse nome perdido, como uma tocha junto
de um esquife.
      evidente que esta condenao, fazendo que Thenardier se ocultasse ainda
mais com receio de ser agarrado, tornava dobradamente espessas as trevas em que
ele j se achava envolto.
      Quanto ao outro, ao desconhecido salvador de Mrio, as averiguaes foram
ao princpio coroadas de bom xito, porm em seguida o resultado foi nulo.
Conseguiu-se descobrir o carro em que Mrio tinha sido transportado  rua das
Mulheres do Calvrio na noite do dia 6 de Junho. O cocheiro declarou que, nesse
dia, estivera estacionado, por ordem de um agente de polcia, desde as trs horas
da tarde at  noite, no cais dos Campos Elseos, por cima do; desaguadouro do
Cano Grande; que, por volta das nove horas, se abrira a grade que deita para a
ribanceira, dando sada a um homem que conduzia s costas outro, na aparncia
morto; que o agente, que se achava de observao naquele stio, prendera o
homem vivo e se apoderara do morto; que, por ordem do mesmo agente, ele,
cocheiro, recebera no seu carro aquela turba-multa; que se dirigiram primeiro
para a rua das Mulheres do Calvrio, onde deixaram o homem morto, o qual era o
senhor Mrio, pois muito bem o conhecia, conquanto agora estivesse vivo; que
em seguida o agente e o outro homem se tinham metido outra vez no carro, e que
ele chicoteara os cavalos e se pusera de novo a caminho, at que, a poucos passos
dos Arquivos, o mandaram parar, e, a desceram ambos e o mandaram: embora,
depois de lhe pagar; que no sabia mais nada, seno que, nessa noite, fazia um
escuro de meter medo.
      Mrio, conforme noutra parte j dissemos, de nada se lembrava.
Recordava-se apenas de ter sentido o contacto de uma robusta mo. agarrando-o
por trs, no momento em que ia a cair no meio da barricada; desde esse instante,
no tornara a ter conhecimento de nada, seno quando recobrara os sentidos em
casa de seu av.
      Debalde se perdia em conjecturas.
     No podia duvidar da sua prpria identidade.
     Porm como era que, tendo ele cado ferido na barricada da rua da
Chanvrerie, foi encontrado pelo agente de polcia na ribanceira do Sena, prximo
 Ponte dos Invlidos? Algum o transportara daquele stio para os Campos
Elseos. Mas como?
     Pelo encanamento. Maravilhosa dedicao.
     E quem fora esse algum?
     Eis o homem que Mrio procurava.
     A respeito desse homem, que fora o seu salvador, nada era possvel encontrar;
nem, o menor vestgio nem o mais pequeno indcio.
     Posto que se visse na necessidade de proceder com a maior cautela, Mrio
levou as suas indagaes at  prefeitura de polcia, onde as informaes que lhe
deram nem o mais leve esclarecimento lhe proporcionaram.
     A prefeitura ainda sabia menos a esse respeito do que o cocheiro do carro.
No se recebera ali parte de nenhuma priso efectuada no dia 5 de Junho, junto ao
Cano Grande; no se conhecia participao de nenhum agente sobre semelhante
facto, que na prefeitura era considerado como uma fbula, cuja inveno era
atribuda ao cocheiro. Um cocheiro  capaz de tudo, mesmo de imaginao, se se
trata de fazer jus a alguma boa gorjeta. O facto, contudo, era certo, e to certo, que
Mrio no podia duvidar dele, sem duvidar da sua prpria identidade.
     Tudo, neste singular enigma, era inexplicvel.
     Que caminho teria levado aquele misterioso homem que o cocheiro vira sair
da grade do Cano Grande, conduzindo s costas Mrio desfalecido, esse homem a
quem o agente de polcia, ali postado de vigia, prendera em flagrante delito de
salvao de um insurgente? Que caminho teria levado o prprio agente? Porque
motivo se teria calado? O homem sempre conseguiria, enfim, evadir-se-lhe? Teria
subornado o agente? Porque motivo no dava esse homem o menor rumor de si a
Mrio, que lhe devia tudo? No era menos para admirar o seu desinteresse do que
a sua dedicao.
     Porque motivo se no dava esse homem a conhecer? Por ser superior 
recompensa?
     Mas ningum o  ao reconhecimento. Teria, acaso, morrido? Que homem
seria? Como seriam as suas feies? Ningum o podia dizer.
     O cocheiro respondia:
     - Nessa noite fazia um escuro de meter medo.
     Biscainho e -Nicolette, no meio do seu susto, apenas tinham feito reparo no
seu jovem amo todo ensanguentado. S o porteiro, que alumiara com a sua vela a
trgica chegada de Mrio, reparara no homem de que se tratava, e eis os sinais que
ele dava:
     - S olhar para semelhante figura metia medo!
     Na esperana de que algum dia lhe poderia ser til para o fim que tinha em
vista, Mrio mandou conservar a roupa ensanguentada que trazia vestida, quando
o conduziram a casa de seu av. Ao examinar o casaco, reparou que uma das abas
se achava extravagantemente -rasgada. Faltava-lhe um bocado.
     Uma noite, estando Mrio a falar em presena de Cosette e de Joo Valjean
de toda esta singular aventura, do sem nmero de informaes a que havia
procedido e da inutilidade dos seus esforos, reparou no rosto do senhor
Fauchelevent e a sua frieza impacientou-o, a ponto que exclamou com uma
vivacidade que quase tinha o tremor da clera:
     - Repito, esse homem, quem quer que seja, foi sublime! Sabe o que ele fez,
senhor? Interveio como o arcanjo! Arremessou-se ao meio do combate, tirou-me
dele, levou-me pelo encanamento, conduziu-me aqui, finalmente, ps-me a salvo!
Para isso teve de andar mais de lgua e meia por medonhas galerias subterrneas,
curvado, vergado, pelo meio das trevas, por baixo dos canos; mais de lgua e meia,
senhor, com um cadver s costas! E com que fim? Com o nico fim de salvar esse
cadver! E esse cadver era eu! Esse homem disse consigo: Aqui existe talvez
ainda um claro de vida; vou arriscar a minha existncia por esta miservel
centelha! E arriscou-a, no uma vez, mas vinte, porque cada passo que dava era
um perigo que lhe surgia diante!
     A prova  que, ao sair do cano, foi preso. Sabe, senhor, que esse homem
praticou isto tudo sem o mais leve vislumbre de esperana de uma recompensa?
Que era eu? Um insurgente. Que era eu? Um vencido! Oh, se os seiscentos mil
francos de Cosette fossem meus!... - Pois de quem so seno seus? - atalhou Joo
Valjean.
     - Pois bem - retrucou Mrio - d-los-ia para saber onde parava esse homem!
     Joo Valjean conservou-se silencioso.
    LIVRO SEXTO
    A noite foi passada em claro



    I
    O dia 16 de Fevereiro de 1833



     A noite de 16 para 17 de Fevereiro de 1833 foi uma noite abenoada. Teve por
cima da sua escurido o cu aberto.
     Foi a noite de npcias de Mrio com Cosette.
     O dia havia sido delicioso.
     No fora,  Verdade, a festa azul delineada por Gillenormand; uma cena
como as dos contos de fadas, animada por uma multido de querubins e cupidos,
volteando por cima da cabea dos noivos, um casamento digno de figurar num
quadro para pr por cima de uma porta; mas fora um suave e risonho espectculo.
     A moda do casamento em 1833 no era como a de hoje. A Frana ainda no
tinha adoptado da Inglaterra a suprema delicadeza do marido arrebatar a noiva,
deitar a fugir com ela, apenas transposto o limiar da igreja, esconder-se com
vergonha da prpria ventura e combinar os modos de um bancarroteiro com os
arroubos do cntico dos cnticos.
     No era ainda compreendido o que h de casto, delicado e decente em levar o
seu paraso aos solavancos dentro de uma sege de aluguer, entremear o seu
mistrio com estalos de chicote, em tomar por leito nupcial uma cama de
estalagem, em deixar aps si, na alcova banal paga a tanto por noite, a mais
sagrada das recordaes da vida, confundida com os galanteios trocados entre o
cocheiro de diligncia e a criada de estalagem.
     Na actual metade do sculo XIX, j no basta o maire, com a sua faixa, o
padre e a sua estola, a lei e Deus;  necessrio ;que sejam completados pelo
postilho de Longjumeau; jaqueta azul de canhes vermelhos e botes de guizos,
cales de pele verde, pragas contra os cavalos normandos de cauda atada, gales
falsos, chapu de oleado, cabelos empoados, grande chicote e batas at ao meio da
perna.
     A Frana no leva ainda a elegncia a ponto de, como a nobility inglesa, fazer
chover sobre a sege de posta que conduz os noivos uma saraivada de sapatos e
chinelos velhos, em memria de Churchill, depois Marlborough ou Malforouk,
acometido no dia do seu casamento por uma clera de tia que bons resultados lhe
trouxe.
      Verdade, verdade, os chinelos velhos ainda no fazem parte das nossas
solenidades nupciais, mas uma vez que o bom gosto continue a difundir-se, certo
estamos de que tambm entre ns pegar a moda.
      Em 1833, que ainda no vai h cem anos, no se usavam os casamentos a
galope, hoje tanto em voga.
      Julgava-se, nessa poca - forte extravagncia! Que o casamento  uma festa
ntima e. social, que um banquete patriarcal em nada faz desmerecer uma
solenidade domstica, que a alegria, ainda que excessiva, uma vez que seja honesta
nenhum mal faz  ventura, e que, finalmente,  venerando e conveniente que a
fuso dos dois destinos de que h-de sair a famlia tenha princpio em casa, e, que
o casal tenha desde esse momento por testemunha a cmara nupcial.
      Impudentes, que levavam o seu arrojo a ponto de se casarem em casa!
      O casamento, pois, teve lugar em casa de Gillenormand, segundo essa moda,
hoje caduca.
      Por mais natural e ordinrio que seja um casamento, h sempre suas
complica- es na publicao dos banhos, no lavrar das escrituras, nos requisitos
civis e eclesisticos. Por conseguinte, o casamento dos dois jovens deitou a 16 de
Fevereiro.
      Ora sucedeu - apontamos esta particularidade simplesmente como prova da
nossa exactido - sucedeu, dizamos, que o dia 16 de Fevereiro caiu numa
tera-feira de entrudo. Deu isto lugar a hesitaes e. escrpulos, principalmente
da parte da tia Gillenormand.
      - Dia de entrudo! - exclamou o av. - Melhor! Como diz o rifo: Mariage un
mardi gras Naura point denfants ingrats,
      (O Casamento em dia de entrudo no ter filhos ingratos)
      - Nada de demoras. Deixemo-nos disso! Seja no dia 16. Ou tu queres que seja
mais adiante, Mrio?
      - De modo nenhum! - respondeu o noivo.
      - Nesse caso, mos  obra! - exclamou o ancio.
      O casamento, efectuou-se, pois, no dia 16, no obstante a alegria pblica.
Nesse dia chovia, porm, o cu tem sempre um cantinho azul  disposio da
felicidade, o qual os noivos so capazes de ver, ainda quando o resto da criao se
ache debaixo de um guarda-chuva.
      Na vspera, Joo Valjean entregara a Mrio, em presena de Gillenormand,
os quinhentos e oitenta mil francos.
     Como Toussaint agora se tornava intil a Joo Valjean, Cosette ficou com ela,
promovendo-a logo ao posto de sua criada grave.
     Quanto a Joo Valjean, preparou-se-lhe e mobilou-se-lhe um quarto, em casa
de Gillenormand, e to irresistivelmente lhe pediu a filha que o viesse habitar que
ele quase prometeu.
     Poucos dias, porm, antes do dia aprazado para o casamento, acontecera-lhe
um desastre: esmagara o dedo polegar da mo direita. Conquanto o ferimento no
fosse grave, no consentiu que ningum lho tratasse ou visse, nem mesmo
Cosette, todavia teve de pr o brao ao peito e ficou impossibilitado de assinar o
quer que fosse, por no poder fazer uso daquela mo. Assinara, portanto, em lugar
dele, Gillenormand, como subtutor de Cosette.
     No conduziremos o leitor  mairie nem  igreja, onde ningum acompanha
dois namorados. O costume  voltar as costas ao drama apenas ele pe ao peito
um ramo de noivo. Limitar-nos-emos a apontar um incidente ignorado dos que
compunham o prstito nupcial, que teve lugar no trnsito da rua das Mulheres do
Calvrio para a igreja de S. Paulo, onde foi celebrada a cerimnia religiosa: do
casamento.
     Como, nessa poca, se andasse consertando a extremidade norte da rua de S.
     Lus, achava-se obstruda a passagem desde a rua do Parque Real. Por
consequncia, as carruagens do prstito nupcial no podiam dirigir-se
directamente para S. Paulo; tinham de mudar de itinerrio o mais simples seria
tornear o boulevard.
     A isto, porm, objectou um dos convidados que, como era dia de entrudo,
devia estar o boulevard atulhado de carruagens.
     - Porqu? - perguntou Gillenormand.
     - Por causa das mscaras.
     - s mil maravilhas! - disse o velho. - Vamos pelo boulevard. Estes jovens
casam-se; vo entrar no srio da vida. Devem, portanto, preparar-se, vendo uma
mascarada!
     Em virtude desta resoluo, principiou o prstito a desfilar pelo boulevard.
Na primeira berlinda ia Cosette, Gillenormand, sua filha e Joo Valjean. Seguia-se
outra berlinda conduzindo Mrio, ainda separado da noiva, segundo o uso.
     Apenas o prstito desembocou da rua das Mulheres do Calvrio,
confundiu-se na imensa procisso de carruagens, que se estendiam, formando
uma espcie de cadeia contnua, desde a Madalena at  Bastilha e desta at 
Madalena.
     No boulevard ningum via seno magotes de mscaras. Apesar dos
aguaceiros, que, com pequenos intervalos, se sucediam, os burlescos actores
daquela cena de tumulto no esfriavam do seu ardor. No bom-humor desse
Inverno de 1833, Paris disfarara-se em Veneza. Esses espectculos j hoje se no
vem. Como tudo o que existe  carnaval, j no h carnaval.
     Tanto as janelas como os passeios laterais do boulevard estavam cheios de
curiosos. Sobre os terraos que coroam os peristilos dos teatros via-se igualmente
uma multido de espectadores. Alm das mscaras, gozava-se tambm o
espectculo daquela numerosa variedade de carros, caminhando ordenadamente,
rigorosamente unidos uns aos outros, em conformidade dos regulamentos
policiais e como que seguindo por trilhos de ferro. Quem se acha dentro de Um
desses veculos , ao mesmo tempo, espectador e espectculo. Ao longo dos
passeios do boulevard, estendia-se um cordo de agentes de polcia, ali postados
com o fim de vigiar aquelas duas interminveis fileiras paralelas movendo-se em
sentido contrrio, atentos a que nada embara- asse a oposta corrente destes dois
rios de carros, dos quais um subia para a calada de Antin, o outro para o
arrabalde de Santo Antnio. Pelo meio da rua entrecruzavam-se livremente os
trens dourados dos embaixadores e pares de Frana. Gozavam do mesmo
privilgio alguns prstitos folgazes e magnficos, especialmente o do Boi Gordo.
No meio desta alegria de Paris, ouvia-se a Inglaterra fazendo estalar O seu chicote;
era a sege de posta de tarde Seymouir, apodada por uma alcunha popular,
passando com grande estrondo.
     Na dupla fileira, ao longo da qual os guardas municipais galopavam como
ces de pastor, honestos trens de famlia, pejados de tias e avs, deixavam ver
pelas portinholas gentis grupos de crianas mascaradas, interessantes criaturinhas,
capacitadas de que faziam parte oficial do regozijo pblico, compenetradas da
dignidade da sua bufoneria, que desempenhavam com gravidade de funcionrios.
     De quando em quando, sobrevinha algum embarao no meio daquela
procisso de veculos; uma das fileiras laterais parava at se desatar o n e em
seguida punha-se tudo de novo a caminho, tendo bastado o embarao de uma s
carruagem para paralisar toda a linha.
     As carruagens que compunham o prstito nupcial achavam-se no meio do
cordo que se dirigia para a Bastilha, ao longo do lado direito do boulevard.
Chegados  altura da rua de Pont-aux-Ghoux, os carros que formavam este
cordo pararam um instante e a fila que seguia para a Madalena parou
igualmente. Nesse ponto do segundo cordo via-se um carro de mscaras.
     Estes carros, ou, para melhor dizer, estas carradas de mscaras, so muito
conhecidas dos parisienses. Se faltassem no dia de entrudo ou quarta-feira da
velha, causariam estranheza e toda a gente diria: Aqui anda grande novidade!
Provavelmente, temos mudana ministerial! Magotes de Cassandras, Arlequins e
Colombinas, solavancados por cima dos viandantes; toda a espcie de grotescos
possveis, desde o turco at ao selvagem; Hrcules pelo brao de marquesas;
regateiras que fariam tapar os ouvidos a Rabelais, como, antigamente, as menades
faziam baixar os olhos a Aristfanes; cabeleiras de estopa, calas de malha cor de
carne, chapus oleados, culos de charlato, tricrnios de Junot coroados por uma
inquieta borboleta; gritos contra os que andam a p, mos nas ilhargas, atitudes
despejadas, ombros nus rostos Mascarados, desfaamentos escancarados; um caos
de desavergonhadas guiado por um cocheiro coroado de flores; eis o que  esta
instituio.
     A Grcia precisava do carro de Thespis, a Frana necessita do fiacre de Vd.
     Tudo  susceptvel de pardia, at a prpria pardia. A saturnal, esgar da
beleza antiga, vem, de exagerao em exagerao, terminar no entrudo, e a
bacanal, outrora coroada de pmpanos, inundada pela luz do sol, mostrando seios
de mrmore, numa seminudez divina, hoje, abrandada debaixo dos trapos
molhados do: norte, veio, por ltimo, a denominar-se mascarada.
     A tradio dos carros de mscaras remonta aos mais antigos tempos da
monarquia. Nas contas de Lus XI vem-se abonados ao bailio do palcio vinte
soldos tornezes para trs coches de mscaras nas praas. Actualmente, estes
ruidosos magotes de criaturas, fazem-se, de ordinrio, transportar em alguma sege
velha pesada, e tumultuosamente sentados no tejadilho., dentro, na traseira, na
lana, em toda :a parte onde podem segurar-se. So vinte numa carruagem que
apenas pode conter seis. Em qualquer lugar improvisam um assento. At nas
lanternas se empoleiram. De p, sentados, deitados com as pernas encolhidas, com
dais penduradas, de toda a maneira.
     As mulheres sentam-se nos joelhos dos homens. Vem-se de longe, por cima
de uma multido imensa de cabeas, aquelas pirmides humanas,
extravagantemente confor-madas. Estes carros so umas como montanhas de
alegria no meio do geral tumulto, montanhas de onde manam Col, Panard e
Piron, opulentos de gria, de onde se vomita sobre o povo o catecismo das praas.
Vedes o ar de conquista daquele Carro, que a carga que leva faz parecer
desmesuradamente grande? Precede-o a Vozearia, segue-o o Tumulto. Os que vo
nele vociferam:, gritam, cantam, rugem, contorcem-se nos transportes do prazer;
ruge a alegria, flameja o sarcasmo, brilha purpurina a jovialidade;  a farsa levada
em apoteose por dois sendeiros;  o Carro do triunfo do Riso.
     Riso demasiado cnico para ser franco. E, com efeito, esse riso  suspeito. Esse
riso tem uma misso. Tem a seu cargo provar o carnaval aos parisienses.
     Estes carros da escria social, misteriosamente tenebrosos, fazem meditar o
filsofo. Dentro desse carro vai o governo. Palpa-se neles, para assim dizer, a
afinidade misteriosa que existe entre os homens pblicos e as mulheres pblicas.
     Triste coisa, na verdade, que um edifcio de torpezas possa servir de abrigo ao
prazer, que se engode um povo sobrepondo a ignomnia por cima do oprbrio,
que a espionagem, servindo de caritide  prostituio, divirta as turbas
afrontando-as, que a multido, goste de ver passar sobre as quatro rodas de um
Carro esse monstruoso monto vivo, ouropel-andrajo, meio luz, meio lixo, que
ladra e canta, que se aplauda esta glria formada de vergonhas de toda a espcie,
que no haja verdadeira festa para a multido, onde a polcia no passeie pelo
meio ideia esta espcie de hidras de alegria de vinte cabeas. Mas que remdio?
     Estes carros de lama enfeitada de fitas e adornada de flores so insultados e
amnistiados pelo riso pblico. O riso de todos  cmplice da degradao
universal.
     Certas festas impuras desagregam o povo e tornam-no ral. E a ral  como os
tiranos; quer histries. O rei tem Roquelaure, o povo tem Palhao. Paris  a
grande cidade louca todas as vezes que no  a grande cidade sublime. Em Paris o
carnaval faz parte da poltica. Paris, Confessemos a verdade, no desgosta de ver a
infmia representando a comdia. No exige de seus senhores quando os tem -
seno uma coisa: que lhe mascarem a lama. Roma tinha a mesma propenso,.
     Gostava de Nero, porque Nero era um dbardeur tirnico.
     Como amos dizendo, quisera o acaso, que do lado esquerdo do boulevard
parasse um desses disformes magotes de homens e mulheres mascarados,
aglomerados numa descomunal carruagem, ao mesmo tempo que do lado direito
paravam as seges do prstito nupcial, vindo o carro das mscaras a ficar
justamente defronte da carruagem que conduzia a noiva.
     -  rapazes - disse um mscara - vocs no querem ver um casamento?
     -  um casamento falso - respondeu o outro.
     - O verdadeiro somos ns!
     E, aps isto, no podendo dirigir alguma chufa aos noivos, por se acharem a
demasiada distncia e temerem a interveno da polcia, puseram-se a olhar para
a outra parte.
     Ao cabo de um instante, o carro dos mscaras teve que ver-se em terrveis
apertos; a multido principiou a apup-los, que  o seu modo habitual de acariciar
os mscaras, e os dois que acabavam de falar tiveram de fazer frente quela imensa
turba, arremessando-lhe todos os projcteis do repertrio dos Mercados, com que,
todavia, no conseguiam dominar o desconforme alarido do povo. Foi um
medonho combate de metforas entre os mascarados e a multido.
     Ao mesmo tempo, outros dois mscaras da mesma carruagem, um espanhol
com um nariz descomunal, ar de jarreta e imensos: bigodes pretos, e uma
regateira magra e ainda jovem, tinham avistado tambm o prstito nupcial, e
enquanto os seus companheiros e os transeuntes se insultavam,, principiaram a
conversar em voz pouco elevada.
     O sussurro das suas vozes perdia-se no meio do tumulto que os cercava.
Como o carro era descoberto, a chuva alagara-o completamente; o vento de
Fevereiro no  quente. Ao mesmo tempo que respondia ao espanhol, a regateira
ria-se, tiritava e tossia,.
     Eis o dilogo:
     - Olha, - Que , meu pai?
     - Vs, aquele velhote?
     - Que velhote?
     - Aquele que est na primeira carruagem do lado direito.
     - O que tem o brao ao peito embrulhado num leno preto?
     - Sim.
     - E ento?
     - Eu conheo aquele figuro, por mais que me digam!
     - Ah!
     - Que me atravessem uma espinha no estreito e nunca mais torne a piar
sagrado (Piar sagrado - beber vinho), na minha vida, se eu no conheo aquela
borra-botas que ali est!
     - Hoje todos so borra-botas, porque esto as ruas cheias de lama.
     - Debruando-te, podes ver a noiva?
     - No, - E o noivo?
     - Naquela carruagem no vem noivo nenhum.
     - Ora adeus!
     - S se o noivo  o outro velhote.
     - Debrua-te bem a ver se sempre lobrigas a noiva.
     - No posso.
     - Pacincia! O que sei dizer  que eu conheo o figuro que traz o brao ao
peito.
     - No me dirs de que te serve conhec-lo?
     - Quem sabe? s vezes... - Pois c para mim, os velhos do-me pouco
cuidado!
     - Pois eu conheo-o.
     - Ento conhea-o para a  vontade!
     - Como diabo veio ele parar aqui?
     - Ora, como ns!
     - De onde vir o acompanhamento?
     - Eu sei l!
     - Escuta!
     - Que ?
     - Tu podias fazer uma coisa.
     - Que coisa?
     - Apear-te e ir atrs daquele acompanhamento.
     - Para qu?
     - Para saber onde vai e quem so os noivos. Anda depressa, filha. A quem tem
boas pernas no custa isso nada.
     - No posso sair do carro.
     - Porqu?
     - Porque estou ajustada.
     - Diabo!
     - Devo o meu dia de peixeira  prefeitura.
     -  verdade., - Bem sabes que to depressa puser p fora do carro, no mesmo
instante serei filada pelo primeiro agente que me lobrigar.
     - Bem sei isso.
     - Hoje perteno ao governo.
     -  o mesmo. O que  certo  que o diabo do velho d-me que cismar!
     - A ti, ao menos, todos os velhos te do que cismar. Pois olha que tu tambm,
j no s nenhuma criana!
     - Ele est na primeira carruagem... - Ento que tem l isso?
     - Na carruagem da noiva... - E da?
     - Por conseguinte  o pai!
     - E eu que tenho a ver que ele seja o pai ou a me?
     - Digo-te que  o pai!
     - Forte cisma! H-de ser por fora aquele!
     - Escuta.
     - Que ?
     - Tu bem sabes que eu no posso sair seno mascarado. Estar aqui  como se
estivesse escondido, porque ningum me conhece. Porm amanh acabam-se as
mscaras, porque  quarta-feira de cinza, e eu arrisco-me a ser fisgado se me no
recolho na toca, enquanto tu podes andar por onde bem te parecer.
     - Isso agora mais devagar!
     - Sempre ests mais na tua liberdade do que eu.
     - Pois sim; e da?
     - Quero que saibas para onde se encaminha aquele acompanhamento.
     - Para onde se encaminha?
     - Sim.
     - Isso sei eu, sem ser preciso ir atrs dele.
     - Ento para onde?
     - Para o Quadrante Azul.
     - Ora adeus! Para o Quadrante Azul no se vai por aqui.
     - Nesse caso, ento, vai para a Rajpe.
     - Decerto que ele para alguma parte vai, olha a grande novidade!
     - Est no seu direito; pode ir para onde quiser.
     - Deixa-te de asneiras! O que eu pretendo  que me saibas quem so os noivos
e onde moram, e que figura faz o velhote em tudo isto.
     - Est servido! Meu pai sempre tem lembranas mais ratonas! No que ele,
realmente,  mesmo muito fcil saber, passados oito dias, quem eram os noivos
que se viram passar um dia de entrudo pelas ruas de Paris. Isso tem l ps nem
cabea?  querer achar uma agulha num palheiro!
     - No importa, sempre ser bom tentar. Ouves, Azelma?
     Os dois cordes continuaram de ambos os lados do boulevard o seu
movimento em sentido inverso e o carro dos mscaras perdeu de vista a
carruagem da noiva.
    II
    Joo Valjean continua de brao ao peito



     A quem  concedido ver a realizao dos seus sonhos?
     H decerto eleies no cu para isso; todos ns, sem o saber, somos
candidatos a esta eleio, em que os anjos so os votantes. Cosette e Mrio tinham
ficado eleitos.
     Quer em casa do marre, quer na igreja, Cosette estivera deslumbrante e
como-vente. Fora Toussaint quem a vestira, ajudada por Nicolette.
     Por cima de uma saia de tafet branco trazia o seu vestido de tenda de Binche;
na cabea um vu de renda de Inglaterra, por cima de uma grinalda de flores de
laranjeira; ao pescoo um colar de prolas finas. Tudo isto era branco, mas o quase
divino claro que se lhe irradiava da fronte ofuscava a alvura do seu trajo. Era uma
candura inefvel dilatando-se e transfigurando-se em claridade. Dir-se-ia uma
virgem prestes a converter-se em deusa!
     Os magnficos cabelos de Mrio estavam lustrosos e perfumados; sob a
espessura dos anis que eles formavam, entreviam-se, num e noutro ponto, umas
linhas descoradas, que eram as cicatrizes das feridas recebidas na barricada.
     Cosette era conduzida por Gillenormand, que, soberba, de cabea levantada,
amalgamando, como nunca, no seu trajo e nas suas maneiras, todas as elegncias
do tempo de Barras, se prestara a substituir Joo Valjean, que, em virtude do seu
ferimento, no podia dar o brao  noiva.
     Seguia-os atrs Joo Valjean, vestido de preto e todo risonho.
     - Senhor Fauchelevent - dizia-lhe o ancio  este dia  dos que ficam
eternamente gravados na memria. Eu c voto pelo fim das aflies e dos pesares.
Para bem no devia tornar a haver tristeza em parte nenhuma! Fica por mim
decretada a alegria de hoje para todo o sempre e privado dos seus direitos o mal,
com a sua comitiva de sofrimentos. Realmente,  uma vergonha para o
firmamento que haja homens desditosos! A capital e sede governamental de todas
as misrias humanas  o inferno, por outra, as Tulherias do diabo! No querem
ver que tambm eu me ponho agora a encambar-lhes palavres demaggicos? Eu
c no quero tornar a saber de opinies polticas; o meu nico desejo era que
todos fossem ricos, quero dizer, venturosos!
     Quando, concludas todas as cerimnias, depois de terem pronunciado todos
os sins possveis perante o maire e perante o padre, de terem assinado; todos os
registos civis e eclesisticos, de terem trocado os anis, de terem ajoelhado nos
degraus do altar-mor e recebido a bno nupcial, chegaram pelo brao um do
outro, admirados e invejados de todos, Mrio vestido de preto, Cosette de branco,
precedidos pelo agaloado porteiro, que com o coto da sua alabarda, fazia ressoar
as lajes marmreas do templo, por entre duas alas de maravilhados espectadores,
ao prtico da igreja, aberto de par em par, e se meteram de novo na carruagem
que os conduzira, por se achar concluda a cerimnia, a jovem no podia
capacitar-se da realidade do que via. Fitava Mrio, fitava a multido; fitava o cu;
parecia que temia despertar daquele sonho. O seu ar de espanto e receio.
Contribua para tornar ainda mais encantadora a expresso do seu meigo rosto.
No regresso para casa, mudaram-se os lugares.
     Mrio entrou para a primeira carruagem, onde se sentou ao lado de Cosette.
Nos assentos da frente iam, o senhor Gillenormand e Joo Valjean.
     A filha de Gillenormand recuara um plano e ia na segunda carruagem, -
Meus filhos - dizia para os felizes noivos o transportado ancio a contar de hoje
por diante, sois o senhor baro e a senhora baronesa, com trinta mil francos de
renda!
     E Cosette, inclinando-se para Mrio, segredou-lhe ao ouvido estas anglicas
expresses:
     - Agora  que  verdade, chamo-me Mrio. Sou a senhora Tua.
     Aquelas duas meigas criaturas resplandeciam. Achavam-se no irrevogvel e
nico instante, no deslumbrante ponto de interseco de toda a juventude e
alegria.
     Eram a realizao dos versos de Joo Prouvaire; a idade de ambos reunida
no perfazia quarenta anos. Era o casamento sublimado. Pareciam dois lrios. No
se olhavam, contemplavam-se. Cosette via Mrio como que cingido de uma
aurola; a Mrio afigurava-se-lhe ver Cosette como que sobre um altar. E, por
cima do altar, e no meio da aurola, indefinvel, as duas apoteoses, ao fundo, de
um modo indefinvel, oculta por uma nuvem aos olhos de Cosette, cercada de um
resplendor aos olhos de Mrio, havia a causa ideal, a causa real, a entrevista do
beijo e do sonho e do leito nupcial.
     Todos os tormentos que eles haviam suportado, se lhes convertiam agora em
embriaguez. Afigurava-se-lhes que os pesares, as insnias, as lgrimas, as
angstias, os temores, as aflies, transformados em esplendores e carcias,
tornavam ainda mais aprazvel o inefvel instante que perto vinha, e ;que as
tristezas eram como que outras tantas servas que se ocupavam em adornar a
alegria. Que bela coisa o ter sofrido! Ter sofrido para depois vermos a nossa
desdita servindo de aurola  nossa ventura, para vermos a demorada agonia do
nosso amor coroado por uma ascenso!
     Ambas aquelas almas juvenis se sentiam igualmente arroubadas,
arroubamento com que, em Mrio, se entremisturava uma espcie de celeste
voluptuosidade e de pudor em Cosette.
     Diziam com um ar de mistrio um para o outro:
     - Havemos de voltar ao nosso jardinzinho da rua de Plumet!
     Mrio ia quase oculto pela ampla roda do vestido de Cosette.
     Um dia destes  uma inefvel mistura de cogitao e certeza, de posse e
suposio, que nos deixa ainda tempo para adivinhar. Nesse dia temos ocasio de
avaliar o que  pensar na meia-noite ao meio-dia. Aqueles dois coraes
extravasavam sobre a multido que passava o prazer do seu delicioso anseio.
     Na rua de Santo Antnio, logo ao sair de S. Paulo, os transeuntes paravam e
punham-se a contemplar, admirados, a deslumbrante noiva, sobre a cabea da
qual o rodar da sege fazia tremer as flores de laranjeira que formavam a grinalda.
     Chegado  rua das Mulheres do Calvrio, subiu Mrio a par de Cosette, com
ar triunfante e radiante de alegria, aquela mesma escada por onde, algum tempo
antes, tinha sido conduzido moribundo, ambos cobertos pelas bnos dos
pobres, que, aglomerados  porta, repartiam entre si o dinheiro que dos ditosos
noivos tinham recebido. No se viam por toda a parte seno flores. A casa no
estava menos perfumada do que a igreja; aps o incenso, as rosas. No meio do seu
enlevo, afigurava-se aos dois jovens ouvir um coro de vozes no infinito; tinham
Deus no corao; parecia-lhes o destino um firmamento, afigurava-se-lhes ver por
cima de si os clares de uma aurora.
     De sbito, ouviram-se horas num relgio. Mrio olhou para o gentil brao nu
de Cosette e para a rosada superfcie que se lhe entrevia vagamente atravs das
rendas do vestido, e Cosette, ao dar pelo olhar de Mrio, corou at s meninas dos
olhos.
     De entre o grande nmero de antigos amigos da famlia Gillenormand que
haviam sido convidados, nem um s parecia querer desamparar o seu posto ao
lado de Cosette. Todos a rodeavam, todos  porfia queriam ter o prazer de
chamar-lhe senhora baronesa.
     De Chartres, onde se achava destacado naquela ocasio, viera assistir ao
casamento de seu primo Pontmercy, o oficial Theodulo Gillenormand,
actualmente Capito. Cosette no o reconheceu.
     Pelo que diz respeito ao garboso lanceiro, habituado a ser objecto dos olhares
e requebros de muitas mulheres, a ideia de umas conquistas fazia-lhe perder a
lembrana das outras, e por conseguinte tambm no reconheceu a jovem.
     - Bem me parecia a mim que a tal histria do lanceiro no tinha ps nem
cabea! - dizia o velho Gillenormand com os seus botes, ao ver que os dois jovens
no davam a menor mostra de se conhecerem ou terem visto.
     Nunca a filha de Fantine se mostrara to afvel para com Joo Valjean.
Cosette e Gillenormand pareciam ser os mais satisfeitos de toda a famlia. Ao
mesmo tempo que o ancio deixava extravasar a sua alegria em mximas e
aforismos, exalava ela o seu amor e bondade  semelhana de um perfume. A
ventura gosta de ver toda a gente venturosa.
     Na sua conversao com Joo Valjean, a formosa noiva achava meio de
empregar todas as inflexes de voz que se servia, quando era pequenina, e
acarici-lo, sorrindo-se-lhe.
     No regresso do templo, depois de concluda a cerimnia, foi servido um
banquete aos convidados em casa de Gillenormand.
     Uma iluminao brilhante  sempre o acompanhamento forado de um
grande jbilo. Os felizes no gostam de trevas. No se querem ver cobertos de vu
escuro.
     Noite sim, trevas no. Se no tm Sol, arranjam-no. A sala de jantar, pois, em
que foi servido o banquete aos convidados no dia das npcias de Cosette era um
facho de coisas alegres. Do centro do tecto, por cima da alva e cintilante mesa,
pendia um lustre de Veneza, por entre cujas luzes fulgurava, um sem nmero de
pssaros de cores variegadas, verdes, roxos, azuis, vermelhos, empoleirados nas
hastes dos lustres; em volta destas placas, pelas paredes, serpentinas de trs e cinco
lumes; espelhos, cristais, vidros, porcelana, loia de barro, objectos de prata e
ouro, tudo resplandecente e espargindo alegria. Os espaos entre os candelabros
estavam preenchidos por vistosos ramalhetes, de modo que onde no havia luz,
havia flores.
     Na sala imediata trs rabecas e uma flauta tocavam, em surdina, quartetos de
Haydn.
     Joo Valjean sentara-se no salo junto da porta, de modo que o batente desta
quase o encobria.
     Momentos antes de irem para a mesa, Cosette aproximou-se dele e fez-lhe
travessamente uma grande mesura, levantando com as mos a ampla roda do seu
vestido de noiva, e perguntou-lhe, acompanhando as suas palavras com um volver
de olhos graciosamente travesso:
     - Ento, meu pai, est satisfeito?
     - Estou! - respondeu Joo Valjean.
     - Ento ria-se!
     Joo Valjean ps-se a rir.
     Da a um instante, Biscainho veio anunciar que o jantar estava na mesa.
     Os convidados levantaram-se e dirigiram-se, precedidos por Gillenormand,
que dava o brao a Cosette, para a sala de jantar, onde cada qual se sentou  mesa
no lugar que lhe foi designado.
      direita e  esquerda da noiva, viam-se duas amplas poltronas: a primeira era
destinada a Gillenormand, a segunda a Joo Valjean.
     Gillenormand sentou-se, A outra poltrona ficou por ocupar.
     Todos procuravam com a vista o senhor Fauchelevent.
     No estava na sala.
     - Sabes onde est o senhor Fauchelevent?  disse Gillenormand, dirigindo-se
a Biscainho.
     - Sei, sim, senhor! - respondeu Biscainho. - O senhor Fauchelevent
recomendou-me que dissesse a V. S.a que, como se achava incomodado da mo,
no podia assistir ao jantar, pelo que pedia desculpa ao senhor baro, e  senhora
baronesa. Acaba de sair agora mesmo, dizendo que amanh pela manh voltaria.
     O vcuo causado por aquela poltrona fez por um instante esfriar o prazer do
banquete nupcial. Se, porm, faltava Fauchelevent, achava-se presente
Gillenormand, cuja alegria o fazia valer por dois. Declarou ele que, visto achar-se
incomodado, acertadamente andara o senhor Fauchelevent em querer recolher-se
cedo, porm que, no seu entender, aquilo no passava de uma arranhadura,
que no merecia importncia. Foi suficiente esta declarao para que todos
recuperassem o primitivo humor jovial. E, ainda quando no fora ela, que
sensao pode causar um ponto escuro no meio de semelhante resplendor de
alegria? Cosette e Mrio achavam-se num desses abenoados momentos de
egosmo em que as nossas faculdades s se tornam aptas para apreciar a ventura.
A isto acresceu ainda outra circunstncia, uma lembrana de Gillenormand
tendente a disfarar, seno totalmente preencher, o vcuo causado pela ausncia
de Joo Valjean.
     - Isto no tem jeito! Esta poltrona no h-de ficar vazia. Vem tu para aqui,
Mrio.
     O teu lugar era ao p de tua tia, mas ela d licena que venhas ocupar este.
Aqui tens esta cadeira de braos.  uma coisa no s legal, mas at bonita.
Fortunate, ao lado de Fortunata!
     As palavras do ancio foram saudadas com aplausos gerais por todos os
convidados. Mrio foi ocupar ao lado de Cosette o lugar de Joo Valjean; e as
coisas acomo-daram-se de tal modo, que Cosette, em princpio triste pela ausncia
de Joo Valjean, acabou por estim-la.
     Desde que Mrio era o substituto., no teria Cosette saudades, nem mesmo
de Deus. Apenas Mrio se sentou, ps-lhe Cosette sobre o p o seu pezinho
calado de cetim branco.
     Ocupada a poltrona, foi esquecido o senhor Fauchelevent, e no se sentiu
falta de coisa nenhuma. Cinco minutos depois era geral o riso em toda a mesa, de
um a outro extremo, com todo o desenfado do esquecimento.
      sobremesa, o senhor Gillenormand, em p, tendo na mo uma taa de
champanhe, s meia, para que a tremura dos seus noventa e dois anos lha no
fizesse entornar, fez o brinde aos noivos.
     - No ho-de escapar a dois sermes!  exclamou ele. - De manh tiveram o
do cura, vo ter de tarde o do av. Oiam o conselho que lhes dou: Adorem-se. Eu
no fao montes de palavras; vou direito ao fim sem rodeios; saibam: ser felizes.
Alm das tolinhas no h outros sbios na criao:. Moderai os vossos prazeres,
dizem os filsofos; largai-lhes as rdeas, digo eu. Apaixonem-se endiabradamente,
danada-mente. Os filsofos desvairam; desejava obrig-los a engolir a sua
filosofia. Podem porventura ser demasiados neste mundo os perfumes e os botes
de rosa abertos, demasiados os rouxinis cantando, demasiadas as folhas verdes,
demasiada a aurora na vida? Pode algum amar de mais? Podem duas criaturas
agradar de mais uma  outra? Acautela-te, Estela, s demasiadamente linda!
Acautela-te, Nemorin, repara que tens beleza de mais! No est m estupidez!
Pode algum encantar-se de mais estar vivo e ser feliz em demasia? Moderai os
vossos prazeres! Esperem por essa! Abaixo os filsofos! A sabedoria  o regozijo.
Regozijemo-nos. Ns somos felizes porque somos bons, ou somos bons porque
somos felizes? O Sancy chama-se Sancy por ter pertencido a Harlay de Sancy, ou
porque pesa cento e seis quilates? Isso  que eu no: sei; a vida est cheia destes
problemas; o que  importante  ter o Sancy ,e a felicidade.
     Sejamos felizes sem chicanar. Obedeamos cegamente ao Sol. O que  o Sol?
 o amor.
     Quem diz amor, diz mulher. Ah, a mulher, sim, que  uma omnipotncia!
Perguntem a este demagogo Mrio se no  escravo desta tiranazinha Cosette; e
por sua vontade cobarde! A mulher! No h Robespierre que resista ao imprio da
mulher; a mulher reina, e eu no sou realista seno desta realeza. O que  Ado? 
O reino da Eva. Para ela no h 89. Houve o ceptro real sobrepujado por uma flor
de lis, houve o ceptro de Carlos Magno, que era de ferro, havia o de Lus o
Grande, que era de oiro; a revoluo torceu-as entre os dedos, como se fossem
palhinhas; acabou-se, partiram-se, esto por terra, j no h ceptros; mas se so
capazes, faam revolues contra esse lencinho bordado reacendendo patchouli!
Desejava v-los nessa empresa. E porque  slido o tal lencinho? Por ser um
bocado de pano. Ah, os senhores so o sculo dezanove? Pois sim, senhores e da?
Ns ramos o sculo dezoito, e to pedaos de asno ramos ns como sois vs!
Estes meus senhores de agora cuidam: que, por terem mudado o nome a meia
dzia de coisas, causaram uma revoluo total no Universo. Desenganem-se do
que eu lhes digo: as mulheres ho-de sempre ser amadas! Dem-lhes as voltas que
quiserem, tanto faz andar como no andar, daqui no h que sair, no h que
livrar-se a gente de semelhantes diabretes, que so as nossas delcias, os nossos
anjos! Repito, o amor, a mulher, o beijo; deste crculo no h que livrar-se
ningum, e, c pela parte que me pertence, tornara-me eu pilhar dentro dele outra
vez! J viram despontar no horizonte, dominando tudo o que se estende por baixo
dela, mirando-se no espelho das ondas, como uma mulher, a estrela Vnus, a
grande namoradeira do abismo, a Celimene do Oceano, esse ide Alceste? Pois a
tm; tanto faz ele mugir como no mugir; em assomando Vnus, no tem remdio
seno mostrar-se risonho, quer queira, quer no queira. E o monstro submete-se!
Assim somos todos ns tambm. Ira, tempestade, raios, escuma pelo ar; entra em
cena uma mulher, desponta uma estrela; acabou tudo, no se ouve mais tugir nem
mugir! H seis meses andava Mrio jogando a tapona com a tropa; hoje casa. Fez
o que devia. Sim, Mrio, sim, Cosette; tendes razo. Amai-vos, adorai-vos,
consagrai todos os momentos da vossa existncia ao amor, fazei-nos comer de
inveja por no podermos fazer o mesmo; idolatrai-vos! Deitai os biquinhos a
todos os fragmentos de felicidade que h pelo mundo e formai com eles o vosso
ninho de prazeres. Ora ento! Grande maravilha amar a gente e ser amada,
quando  nova! No vades cuidar vs que fostes os inventores disto! Aqui estou eu
que tambm j sonhei, j cismei, j suspirei; que tambm j tive uma alma-luar. O
amor  uma criana de seis mil anos, que por isso pode usar de compridas barbas
brancas.
     Matusalm ao p de Cupido  um fedelho. H sessenta sculos que o homem
e a mulher vencem todos os obstculos, amando-se mutuamente. O diabo, que 
fino, entrou a odiar o homem, porm o homem, que ainda  mais fino entrou a
amar a mulher. Deste modo o homem tem conseguido obter maior soma de bens
do que a dos males que o diabo lhe tem causado! Este ardil data desde o tempo do
paraso terrestre.
     A inveno  velha, meus amigos, porm O que tem  que est sempre no
mesmo ser.
      aproveitar dela. Sede Daphne e Chlo, enquanto no sois Philemon e
Baucis. Havei-vos de modo que, quando estiverdes um ao lado do outro, no vos
falte nada; que Cosette seja o Sol para Mrio e Mrio o Universo para Cosette.
Seja, Cosette, o sorriso de vosso marido o bom tempo; sejam, Mrio, as lgrimas
de vossa mulher a chuva. E oxal nunca em vossa casa chova! Saiu-vos a sorte
grande na lotaria, o amor no casamento; agora guardem-na bem, Ponham-na a
bom recato, no a gastem mal gasta; adorem-se e o mais no lhes d cuidado!
Acreditem o que lhes eu digo. Falo-vos pela boca do bom-senso, e o bom-senso
no mente. Sede um para o outro uma religio.
     Cada qual tem o seu modo de adorar a Deus, mas com a breca! O melhor
modo de um homem amar a Deus  adorar sua mulher! Amo-te! O meu
catecismo  este. Quem ama  ortodoxo. A praga de Henrique IV pe a santidade
entre a comezaina e bebedice: Ventre-saint-gris. Eu no sou da religio desta
praga, porque se no faz nela meno da mulher! Segundo me dizem, estou velho,
mas no imaginam como eu me sinto com foras para ser novo! O meu regalo era
ir pelos bosques ouvir as sanfoninhas dos pastores! Embriaga-me a vista destas
duas formosas crianas, hoje to satisfeitas! Se achasse com quem, afiano-lhes
que tambm me casava!  impossvel de acreditar que Deus nos criasse, seno
para isto; idolatrarmo-nos, arrulharmos, requebrarmo-nos, sermos pombos,
sermos galos, passar o tempo desde pela manh at  noite a beijocarmos o nosso
amor, mirarmo-nos nele, orgulharmo-nos, passar o tempo alegre e
regaladamente; aqui est o que deve ser a vida. Aqui est, com vossa licena, o
nosso modo de pensar, quando ramos novos! Oh, tempo, tempo! Ento  que
havia mocetonas de encher o olho e de fazer andar a gente com a cabea  roda!
Porem algumas acharam-se enganadas comigo. Esperavam: vencer-me e ficaram
vencidas!
     Por -consequncia, amem-se. Se no fosse o amor, no sei, realmente, para
que servia a Primavera! Eu, pela minha parte, pedia a Deus que pegasse outra vez
em todas essas belezas e que as guardasse; que pegasse nas flores, nos passarinhos,
nas raparigas bonitas e que as tornasse a meter no caixo de onde as tirou. Meus
filhos, recebei a bno do pobre velho!
     A noite passou-se divertida, alegre e deleitosa.
     A jovialidade sem igual do loquaz ancio foi como que o lamir pelo qual
todos trataram de afinar a sua alegria, correspondendo assim dignamente 
cordialidade do octogenrio. Danou-se alguma coisa, riu-se muito; foi uma boda
patusca, a que podia assistir o pobre velho; doutro tempo, se  que ele se no
achava representado na pessoa de Gillenormand.
     Ao tumulto seguiu-se o silncio.
     Os noivos desapareceram, e, mal soou a meia-noite, a casa de Gillenormand
transformou-se num templo.
     No prossigamos. No limiar de uma noite de npcias v-se sempre um anjo
de p, risonho e com um dedo poisado nos lbios.
     Perante o Santurio onde tem lugar a celebrao do amor, a alma pra e
contempla.
     Por cima dessas casas deve decerto elevar-se uma coroa de fogo. O prazer que
encerram dentro em si deve escapar por entre as pedras das paredes,
transformado em claridade, pairando Vagamente no meio das trevas.  impossvel
que do seio desta sagrada e fatal festa se no remonte ao infinito um claro celeste.
O amor  o cadinho sublime em que se efectua a fuso do homem e da mulher,
fuso de que resulta o ser triplo, final, a trindade humana. Este nascimento de
duas almas numa s deve deixar impressionadas as trevas. O amante  sacerdote; a
virgem assusta-se no meio do seu transporte. Uma parcela deste prazer eleva-se
at Deus. Onde h verdadeiro casamento, isto , onde h amor, h ideal. Um leito
nupcial  um trato de luz no meio das trevas. Se fosse dado aos olhos do corpo
devassar as temerosas e aprazveis vises da vida superior,  provvel que se
descobrissem as formas da noite, os desconhecidos alados, os azuis viandantes do
invisvel, multido de cabeas sombrias inclinando-se por sobre a casa luminosa,
satisfeitos, abenoando, apontando uns aos outros a virgem esposa, graciosamente
amedrontada e com os rostos divinos animados de um reflexo da felicidade
humana. Se, nessa hora suprema, os esposos, deslumbrados de voluptuosidade e
julgando-se a ss, aplicassem o ouvido, ouviriam dentro do quarto um confuso
sussurro de asas. A ventura perfeita traz consigo a solidariedade dos anjos.
     Aquela escura alcovazinha tem por tecto todo o cu.
     Quando duas bocas, sagradas pelo amor, se juntam para criar,  impossvel
que por cima desse beijo inefvel no sinta um como calafrio de prazer o mistrio
imenso das estrelas.
    So estas as verdadeiras felicidades. No h outras alegrias. O amor  o nico
xtase. Tudo o mais chora.
    Amar ou ser amado  o bastante. No queirais mais nada depois.  esta a
nica prola que se pode encontrar nos misteriosos seios da vida.
    O amor  uma consumao.



    III
    A inseparvel



     Que fora feito de Joo Valjean?
     Logo aps a cena trocada entre: - ele e Cosette, que to graciosamente o
intimara para que se risse, Joo Valjean vendo que ningum fazia reparo nele,
levantara-se e encaminhara-se para a antessala, onde seis meses antes, entrara
coberto de lama, e de sangue, quando trouxera o neto ao av. As paredes estavam
ornadas de flores e verdes; os msicos achavam-se sentados no mesmo canap
onde Mrio havia sido deitado.
     Biscainho andava de casaca preta, calo, meia e luva branca, colocando
coroas de rosas em volta de cada prato que era levado para a mesa. Joo Valjean
apontou-lhe para o brao, que trazia ao peito, encarregou-o de explicar a sua
ausncia e retirou-se.
     Apenas saiu, postou-se por baixo das janelas resplandecentes da sala de
jantar, as quais deitavam para a rua, e ali permaneceu durante alguns instantes, de
p e imvel no meio da escurido, aplicando o ouvido ao festivo sussurro do
interior.
     Ouvia a ruidosa e imperiosa voz de Gillenormand, as rabecas, o tinido da
loia, as risadas, distinguindo, no meio de todo este festival rumor, a jovial e
harmoniosa voz de Cosette.
     Por fim, deixou a rua das Mulheres do Calvrio e encaminhou-se para a do
Homem Armado. Em lugar, porm, de tornar pelo caminho mais curto, deitou
pelas ruas de S. Lus, Culture-Saint-Catherine e Blancs-Manteaux.
     Era um tanto mais longe, porm, era o caminho que, h trs meses, desde que
acompanhava Cosette para casa de Gillenormand, seguia sempre da rua do
Homem Armado para a das Mulheres do Calvrio, a fim de se livrar das lamas da
rua Velha do Templo, quase sempre obstruda em parte, .e por ambos os motivos
de difcil trnsito.
      Este caminho, por onde Cosette havia passado, exclua para ele outro
qualquer itinerrio.
      Chegado Joo Valjean a casa, acendeu a luz ,e subiu.
      Estava tudo deserto. Nem a prpria Toussaint ali se achava. Os seus passos
ressoavam pelas salas com maior estrondo do que at ali. Estavam abertos todos
os armrios. Entrou no quarto: de Cosette. A cama jazia sem lenis. Aos ps do
colcho, em que Cosette no tornaria a dormir, via-se o travesseiro de riscado,
sem a fronha de folhos, colocado sobre os cobertores dobrados.
      Todos os objectozinhos femininos a que Cosette ligava algum apreo
levara-os consigo: ficaram apenas os mveis e as paredes.
      A cama de Toussaint jazia igualmente desguarnecida. S uma das camas
estava feita, parecendo achar-se como que  espera de algum: era a de Joo
Valjean.
      O infeliz principiou ento a correr as paredes com os olhos, a fechar as portas
de alguns armrios e a andar dum quarto para outro.
      Por fim, achou-se outra vez no seu e pousou a vela sobre a mesa. A este
tempo, Joo Valjean tinha tirado o brao que trazia ao peito do leno em que se
achava envolto e servia-se da mo direita, como se nada tivesse nela.
      Ao aproximar-se da cama, o seu olhar, ou por acaso ou intencionalmente,
fitou-se no bazinho que o acompanhava sempre, no inseparvel, de que
Cosette dizia que tinha cimes. No dia 4 de Junho, logo que chegou  rua do
Homem Armado, pusera-o em cima de um velador,  cabeceira da cama.
      Dirigiu-se ao velador, tirou uma chave do bolso, abriu o ba e principiou a
revistar a roupa que Cosette, havia dez anos, trouxera vestida, quando ele a fora
buscar a Montfermeil; primeiro tirou o vestidinho preto depois o leno, tambm
preto, em seguida os sapatos de criana, que ainda naquela ocasio lhe serviriam,
em seguida a casaquinha de fusto, a saia de ponto de meia, o aventalzinho com
suas algibeiras e as meias de l, que no tinham mais comprimento do que a mo
de Joo Valjean e em que se via ainda graciosamente impressa a forma de uma
perninha. Todos estes objectos de vesturio eram de cor escura e fora ele que lhos
levara a Montfermeil.  medida que os ia tirando para fora do ba, ia-os
colocando em cima da cama. Olhava para aquilo e meditava. Vinha-lhe 
lembrana o que se passara na sua ida a Montfermeil. Fora no Inverno, num
frigidssimo ms de Dezembro. A pobre criancinha andava descala, quase nua,
tiritando com frio. Vira-a assim e fizera-a largar os andrajos com que andava
coberta para Vestir aquela roupa de luto. Como a me da infeliz criana se no
regozijaria no seu tmulo, vendo sua filha vestida de luto por ela, e mais ainda de
a ver resguardada do frio e bem agasalhada?! Vinha-lhe  lembrana aquela
floresta de Montfermeil que atravessaram, ambos, Cosette e ele; lembrava-lhe
ainda o tempo que fazia; as rvores estavam despojadas de folhas, os bosques de
pssaros, o cu coberto de nuvens; e, todavia, tudo lhe parecera belo! Estendeu a
roupa em cima da cama, o leno ao p da saia, as meias junto dos sapatos, a
casaquinha ao lado do vestido e ps-se a contempl-los alternativamente. E
vinham-lhe  lembrana mil coisas. Tinha ela apenas aquela altura, trazia a boneca
nos braos, tinha metido o seu lus de ouro no bolso do avental, ria, caminhavam
ambos pela mo um do outro, naquele tempo ela s o tinha a ele no mundo!
     Ento pendeu a cabea, povoada de cabelos brancos, para cima da cama,
escondeu o rosto entre a roupa de Cosette, confrangeu-se-lhe de dor o estico
corao, e se algum, naquela ocasio, fosse a passar pela escada, ouviria os
angustiados soluos do desditoso.



    IV
    Combate sem fim



     A velha e formidvel luta de que j temos diversas fases, recomeou de novo
em Joo Valjean.
     Jacob no lutou com o anjo seno uma noite. Ah, quantas vezes temos visto
Joo Valjean estreitado nas trevas pela prpria conscincia, lutando
desorientadamente contra ela! Inaudita luta! Em certos momentos  o p que
escorrega, noutros  o solo que abate. Quantas vezes tinha ele sido acabrunhado
por aquela conscincia furiosa pelo bem! Quantas vezes a verdade inexorvel lhe
tinha posto! O joelho sobre o peito?
     Quantas vezes, prostrado pela luz, tinha ele pedido graa! Quantas vezes a luz
implacvel, acesa nele pelo bispo, o tinha alumiado,  fora, quando ele desejava
estar cego! Quantas vezes se ergueu no combate, preso ao rochedo, ancorado ao
sofisma, arrastado pela poeira, ora suplantando a conscincia, ora derrubado por
ela! Quantas Vezes aps um equvoco, aps um raciocnio traidor e especioso do
egosmo, ouvira a conscincia irritada, gritar-lhe ao ouvido: Miservel! Quantas
vezes tinha o seu pensamento refractrio arfado convulsivamente sob a evidncia
do dever! Resistncia a Deus, suores fnebres. Quantas feridas secretas, que s ele
sentia sangrar! Que de arranhaduras em sua lamentvel existncia! Quantas vezes
se tinha ele erguido, ensanguentado, dorido, despedaado, esclarecido, com o
desespero no corao: e a serenidade na alma; e vencido, se sentira vencedor! E a
sua conscincia, depois de o ter deslocado, atazanado, feito em pedaos, de p
acima dele, temvel, luminosa e tranquila, dizia-lhe: Agora, fica-te em paz! Mas
que lgubre paz ao sair de to sombria luta!
     Assim, com a conscincia jamais se levou a melhor.
     Contudo, naquela noite, conheceu Joo Valjean que combatia pela ltima vez.
     Era pungente o ponto que se lhe apresentava. As predestinaes nem todas
so rectas; no se desenvolvem em avenida rectilnea diante do predestinado; tem
in paces, cotovelos inopinados e encruzilhadas inquietadoras, oferecendo
diferentes caminhos.
     Joo Valjean, naquele momento, fazia alto na mais perigosa destas
encruzilhadas.
     Tinha chegado ao supremo entroncamento do bem e do mal. Tinha diante
dos olhos esta tenebrosa interseco. Ainda por agora, como j lhe sucedera
noutras peripcias dolorosas, eram duas as veredas que se lhe apresentavam, uma
tentadora, outra medonha. Por qual das duas tomaria?
     A que assustava era-lhe aconselhada pelo misterioso dedo indicador, que
todos ns distinguimos, sempre que fitamos a sombra.
     Por mais uma vez ainda, tinha Joo Valjean de escolher entre o porto terrvel
e a emboscada risonha.
     Ser realmente verdade que a alma se possa curar e a sorte no? Que
medonha coisa! Um destino incurvel!
     O ponto que se apresentava era o seguinte:
     De que modo se comportaria Joo Valjean com a felicidade de Cosette e de
Mrio? Essa felicidade fora ele quem a quisera, quem a realizara; fora ele prprio
quem a cravara nas entranhas; depois, contemplando-a, podia sentir a espcie de
satisfao que experimentaria um armeiro, reconhecendo a marca da sua fbrica
numa faca, ao arranc-la fumegante do peito. Cosette tinha Mrio, Mrio possua
Cosette. Tinham tudo, incluindo a riqueza; e tudo era obra dele.
     Mas o que faria ele, Joo Valjean, daquela felicidade, que existia, que era real?
     Impor-se-lhe-ia? Trat-la-ia como propriedade sua? Cosette pertencia sem
dvida a outro; mas ele, Joo Valjean, conservaria de Cosette tudo o que podia
conservar?
     Ficaria sendo a espcie de pai entrevisto, mas respeitado, que fora at ento?
Introduzir-se-ia tranquilamente na casa de Cosette? Juntaria, sem proferir uma
palavra, o seu passado quele futuro? Apresentar-se-ia ali, como tendo direito de
O fazer, e iria sentar-se, velado, quele luminoso lar? Tomaria ele, sorrindo-lhes,
em suas mos trgicas, as mos daqueles inocentes? Descansaria no pacfico
varandim do fogo da sala do senhor Gillenormand os ps, que arrastavam aps si
a sombra infamante da lei? Participaria ele das venturas de Cosette e de Mrio?
Tornaria mais densa a escurido na fronte prpria e a nuvem na deles? Juntaria,
como terceiro, a sua catstrofe quelas duas felicidades? Continuaria a
conservar-se calado? Numa palavra, seria ele ao lado daqueles dois entes felizes, o
sinistro mudo do destino?
      necessrio estar habituado  fatalidade e s suas contradies para ousar
erguer os olhos, quando certas perguntas se nos apresentam com a sua horrvel
nudez.
     Por trs de to severo ponto de interrogao esto o bem e o mal.
     - Que vais fazer? - pergunta a esfinge.
     Joo Valjean tinha o hbito da provao. Fitou a esfinge.
     Examinou o implacvel problema por todas as suas faces.
     Cosette, existncia encantadora, era a jangada daquele nufrago. Que deveria
fazer? Agarrar-se a ela com todas as suas foras, ou larg-la?
     Agarrando-se a ela, saa do desastre, subia ao cu, deixava escorrer do
vesturio e dos cabelos a gua amarga, estava salvo, vivia.
     Largava-a?
     Ento, o abismo.
     Era assim que estava dolorosamente em conselho com o seu pensamento; ou,
para melhor dizer, combatendo: arremessando-se furioso, dentro de si mesmo,
ora contra a sua vontade, ora contra a sua convico.
     Foi uma felicidade para Joo Valjean o ter podido chorar. As lgrimas
esclare-ceram-no, talvez. Todavia, o comeo foi terrvel. Desencadeou-se-lhe no
ntimo uma tempestade mais furiosa do que aquela que o arrastara a Arras. O
passado apresentava-se-lhe em face do presente e fazia-o comparar e soluar. Uma
vez aberto o dique das lgrimas, o desesperado contorceu-se.
     Sentia-se manietado.
     Ah! Neste enfurecido pugilato travado entre O nosso egosmo e o nosso
dever, quando assim recuamos, palmo a palmo, ante o nosso incomutvel ideal,
desvairados, encarniados, exasperados com a derrota, disputando o terreno,
esperanados na possibilidade de uma fugida, procurando uma aberta, quem
imagina o horror da Sbita e sinistra resistncia da parede, de encontro  qual
vamos bater com as costas?
     Sentimo-nos embargados pela sanha sagrada!
     Que contrariedade! O invisvel mostrando-se inexorvel!  pois certo que
com a conscincia no h trguas. Toma a tua resoluo, Bruto; resolve, Cato. A
conscincia  Deus, e, por consequncia, insondvel. Nesse poo lanamos o
trabalho de toda a nossa vida, a nossa fortuna, riqueza, triunfo, liberdade e ptria;
nele lanamos o nosso bem-estar, o nosso repouso, a nossa alegria. Mais! Mais!
Mais! Despejai o vaso! Que a uma fique vazia! Enfim, temos de lhe lanar tambm
o corao!
     H no sabemos, em que parte da cerrao dos antigos infernos um tonel
semelhante.
     No ser digno de desculpa que a resoluo final seja uma recusa? Acaso o
inesgotvel pode ter direitos?
     Porventura, as correntes sem fim no so superiores  fora humana? Quem
h a, pois, que ousasse a coimar Sisypho e Joo Valjean por dizerem: Basta?! A
obedincia da matria  limitada pelo atrito; pois no haver tambm, um limite
para a obedincia da alma? Se  impossvel o motu-contnuo, acaso pode algum
exigir o sacrifcio contnuo?
     O primeiro passo nada custa; a dificuldade est no derradeiro. Que era o
processo Champmathieu em comparao com o casamento de Cosette e das suas
consequncias? Que  isto: voltar para as gals, comparado com isto: voltar ao
nada?
     Como s sombrio,  primeiro degrau a descer! Como s tenebroso,  segundo
degrau!
     Como, deixar de voltar a cabea desta vez?
     O martrio  uma sublimao, sublimao corrosiva.  uma tortura
santificante.
     No primeiro instante, podemos obedecer-lhe, sentarmo-nos no trono de ferro
em brasa, cingir a fronte da coroa de ferro em brasa, travar do globo de ferro em
brasa, empunhar o ceptro de ferro em brasa; porm resta ainda revestirmo-nos do
manto de chamas, e ento no h um; momento em que a carne miservel se
rebela e em que se abdica o suplcio?
     Joo Valjean sentiu-se, enfim, na serenidade da desolao.
     Pesou, meditou, considerou as alternativas da misteriosa balana de luz e
trevas.
      Impor a sua prpria ignomnia, queles dois jovens to venturosos, ou
consumar de per si s a, obra da sua irremedivel perdio. De uma parte o
sacrifcio de Cosette, da outra o seu prprio.
      Qual das solues abraou? Que determinao tomou? Que resposta foi a
que ele, a ss consigo, deu definitivamente ao incorruptvel interrogatrio da
fatalidade?
      Que porta se decidiu ele a abrir? Que lado da sua vida resolveu ele a fechar e
condenar? Por qual optou, de entre as insondveis voragens que o rodeavam? Que
extremidade aceitou? Para qual desses abismos acenou com a cabea?
      As suas vertiginosas cogitaes duraram toda a noite.
      Assim ficou at pela manh, na mesma atitude, debruado sobre a cama,
angustiado pela enormidade da sorte, quem sabe mesmo se por ela dilacerado,
com os punhos convulsivamente cerrados, os braos estendidos em cruz, como
um crucificado despregado que houvesse cado de bruos no cho. Assim
permaneceu doze horas, as doze horas de uma longa noite de Inverno, transido de
frio, sem mover a cabea nem proferir a menor palavra, imvel como um cadver,
enquanto que o seu pensamento ora se rojava pelo cho, como uma hidra, ora
desferia em voo para o espao, como uma guia. Ao v-lo assim sem movimento,
dir-se-ia morto; porm, ao ver como ele, de sbito, estremecia convulsivamente e
se punha a beijar sofregamente os vestidos de Cosette, conhecia-se que vivia.
      Quem o havia de ver, se Joo Valjean se achava inteiramente a ss?
      Via-o o olho oculto que do meio das trevas est sempre aberto sobre ns!
    LIVRO STIMO
    A derradeira gota do clice



    I
    O stimo crculo e o oitavo cu



     So solitrios os dias que se seguem ao de qualquer casamento. Respeitam
todos o recolhimento dos felizes noivos, em parte porque precisam de dormir at
mais tarde.
     S algum tempo depois  que recomea o tumulto das visitas e felicitaes.
     Pouco passava do meio-dia, quando, na manh do dia 17 de Fevereiro,
Biscainho, que de toalha e espanador debaixo do brao se ocupava a arrumar a
antessala, ouviu bater ao de leve na porta e no tocar a campainha, procedimento
discreto em tal dia. Abriu ento a porta e deu com os olhos em Fauchelevent, que
imediatamente mandou entrar para a sala, cuja desordenada confuso a fazia
parecer o campo de batalha das alegrias da vspera.
     - Queira desculpar - observou Biscainho  acordamos muito tarde.
     - Seu amo j est levantado? - perguntou Joo Valjean.
     - O senhor est melhor do seu brao?  volveu Biscainho.
     - Estou. O seu amo j est levantado?
     - Qual? O velho ou o novo?
     - O senhor Pontmercy.
     - O senhor baro? - disse Biscainho com certa relutncia.
     Quem  baro, -o sobretudo para os seus criados, para os quais reverte certa
parte de uma tal honra; os criados tm o que um filsofo chamaria salpicos do
ttulo, :e isto lisonjeia-os. Mrio, seja dito de passagem, republicano militante,
como o tinha provado, achava-se baro a seu pesar. Sobre este ttulo tinha-se
operado uma revolu- ozinha na famlia; depois dela era o senhor Gillenormand
quem mais valor lhe dava e Mrio o que menos importncia lhe ligava. Mas o
coronel Pontmercy tinha escrito:
     Meu filho usar o meu ttulo. Mrio obedecia. E depois Cosette, em quem
comeava a manifestar-se a mulher, estava encantada por ser baronesa.
     - O senhor baro? - repetiu Biscainho. - Vou ver. Dir-lhe-ei que o procura o
senhor Fauchelevent.
     - No, no lhe diga que sou eu. Diga-lhe que est aqui uma pessoa que deseja
falar-lhe em particular, mas no lhe diga o nome.
     - Ah! - fez Biscainho.
     - Quero fazer-lhe uma surpresa.
     - Ah! - tornou Biscainho, dirigindo-se a si mesmo este segundo ah!, como
explicao, do primeiro.
     E saiu.
     Joo Valjean ficou s.
     A sala, como j dissemos, estava em completa desordem. Parecia que,
aplicando-se o ouvido, se poderia ainda ouvir o vago rumor do noivado. No
sobrado via-se espalhada toda a sorte de flores cadas das grinaldas e penteados.
As velas queimadas at quase ao fim, juntavam aos cristais do lustre estalactites de
cera. Nem um s mvel se conservava no seu lugar. Num dos cantos estavam trs
ou quatro poltronas, muito chegadas umas s outras, formando crculo, e
parecendo continuar ainda uma conversao. O conjunto daquela desordem era
risonho. H ainda certa graa nos restos de uma festa. Tudo aquilo foi feliz.
Sobre aquelas cadeiras desarrumadas, entre aquelas flores murchas, sobre aquelas
velas apagadas, pensou-se em alegria. O sol sucedia ao lustre, entrava
triunfalmente na sala.
     Passaram-se alguns minutos. Joo Valjean estava imvel no mesmo lugar em
que Biscainho o, deixara. A sua palidez era extrema. Os olhos tinha-os de tal
modo encovados e sumidos por efeito da insnia, sobre a rbita, que quase se lhe
no viam.
     A sua casaca preta mostrava as rugas do fato que se no despiu durante a
noite. Os cotovelos estavam esbranquiados, com o coto que O linho deixa no
pano que por ele roa. Joo Valjean olhava para o cho, fitando o desenho da
janela feito pelo Sol.
     Sentindo leve rumor  porta, ergueu os olhos.
     Mrio entrou na sala de cabea erguida, o sorriso nos lbios, com o rosto
iluminado de um estranho claro, a fronte radiante, o olhar risonho, apesar
tambm de no ter dormido.
     - Ah,  o pai! --exclamou ele, vendo: Joo Valjean.
     - E aquele imbecil do Biscainho com ar to misterioso! Mas veio muito cedo,
 apenas meia hora depois do meio-dia. Cosette est a dormir.
     O tratamento de pai, dirigida por Mrio a Fauchelevent queria dizer
felicidade suprema. Como  sabido, nunca entre eles deixara de dar-se certa
frieza e quase constrangimento; uma barreira de gelo, que nenhum deles tinha
chegado a transpor ou derreter.
     Naquela ocasio, porm, a embriaguez do prazer em Mrio chegava a ponto
que a barreira de gelo desfazia-se e Fauchelevent ficava sendo: igualmente para
ele o que era para Cosette, um pai.
     Aps uma curta pausa, Mrio prosseguiu, acudindo-lhe as palavras com
profuso aos lbios, como  prprio destes paroxismos da alegria:
     - Que prazer tenho em v-lo! Se soubesse que falta nos fez ontem! Como est
a sua mo? Melhor, no  assim?
     E satisfeito com a excelente resposta que dera a si mesmo, continuou:
     - Falmos ambos muito a seu respeito. Cosette  muito sua amiga. No se
esque- a de que tem aqui o seu quarto. J no queremos saber da rua do Homem
Armado; mas no queremos saber dela absolutamente. Como tinha o senhor
podido ir morar numa rua como aquela, insalubre, feia, com uma barreira num;
dos extremos, e onde se sente sempre frio; uma rua onde se no pode entrar? O
senhor h-de vir morar connosco e h-de ser de hoje em diante, ou ter de se
haver com a Cosette. Previno-o de que est disposto a fazer de ns tudo quanto
quiser. J viu o seu quarto, bem sabe que  ao p do nosso; e que d para o
jardim; mandou-se consertar o desarranjo que tinha na fechadura, a cama est
feita, est tudo pronto, no tem mais a fazer do que entrar para ele. Ps-lhe ao p
da cama uma grande e antiga poltrona de veludo muito bonito,  qual disse:
estende-lhe os braos. Todas as Primaveras aparece um rouxinol nas accias que
lhe ficam mesmo defronte das janelas. Ouvi-lo- daqui a dois meses.
     Ter  sua esquerda o ninho da avezinha e  direita o nosso. De noite
ouviremos cantar o rouxinol, de dia ouviremos falar Cosette. O seu quarto fica
exactamente virado ao sul. Mande os seus livros, a viagem do capito Cook e a de
Vancouver, enfim, todas as suas coisas, que Cosette lhas arrumar. At j deixei
um lugar de honra reservado para um bazinho, a que, segundo julgo, liga grande
apreo. Saiba que conquistou meu av e que muito lhe agrada. Viveremos todos
juntos. Como sabe jogar o whist, poder proporcionar a meu av o maior de todos
os prazeres. O senhor  quem h-de ir passear com Cosette nos dias em que eu
tiver de ir ao tribunal, e dar-lhe- o brao, como dantes fazia no Luxemburgo.
Estamos absolutamente decididos a ser muito felizes. E saiba, meu pai, que h-de
fazer parte da nossa felicidade.  verdade, hoje almoa connosco?
     - Tenho uma coisa a dizer-lhe, senhor Pontmercy. Eu sou um ex-forado.
     O limite dos sons agudos perceptveis pode ser to completamente
ultrapassado para o esprito, como para o ouvido. Estas palavras: eu sou um
ex-forado, sadas da boca de Fauchelevent e entrando no ouvido de Mrio,
excediam as raias do possvel.
     Mrio no ouviu. Pareceu-lhe que alguma coisa acabava de lhe ser dita por
aquele homem, porm no percebeu o qu. Ficou boquiaberto.
     Reparou ento que o homem que tinha diante de si era medonho.
     Alheado de contnuo na sua embriaguez, nunca, at ento, notara a palidez
terrvel que se lhe divisava no rosto.
     Joo Valjean desatou o leno preto em que sustinha o brao que trazia ao
peito, desenrolou a ligadura em que tinha a mo embrulhada, descobrindo o dedo
polegar e disse, mostrando-o a Mrio:
     - Como v, eu no tenho nada na mo!
     Mrio deitou-lhe os olhos para o dedo polegar.
     - Nem tive nunca! - acrescentou Joo Valjean.
     Efectivamente, o dedo no apresentava vestgio algum de ferida.
     - Convinha, porm, - prosseguiu ele - que eu no assistisse ao casamento e
dele me ausentei o mais que pude. Fingi que me tinha ferido para no me tornar
ru de uma falsificao nem introduzir nulidade nos papis do casamento,
livrando-me, por este modo, de os assinar!
     - Que quer dizer tudo isso? - tartamudeou Mrio.
     - Quer dizer que eu estive nas gals!  respondeu Joo Valjean.
     - Oh, isto  de fazer enlouquecer!...  exclamou Mrio com gesto apavorado.
     - Senhor Pontmercy - continuou Joo Valjean -, eu estive dezanove anos nas
gals por: ladro. Depois fui condenado por toda a vida, por crime de
reincidncia.
     Presentemente, sou um forado fugido!
     Por mais que Mrio tentasse recuar ante a realidade, recusar o facto, resistir 
evidncia, teve, enfim, de se lhe render. Principiou a compreender, e
compreendeu de mais, como sempre sucede em tais casos. Um medonho claro
ntimo lhe causou um estremecimento em todo o corpo; uma: ideia que o fez
estremecer, lhe perpassou pelo esprito. Entreviu no seu prprio futuro um
destino abjecto.
     - Diga tudo! Diga tudo! - bradou ele. - O senhor  o pai de Cosette?
     E, ao mesmo tempo que proferiu estas palavras, deu dois passos para trs com
gesto de indizvel horror.
     Joo Valjean, porm, elevou a cabea com to majestosa atitude, que dir-se-ia
que com a fronte tocava o tecto.
     - Sobre esse ponto deve acreditar-me, embora em juzo no seja admitido o
juramento de um homem como eu!
     E, aps uma pausa, acrescentou com uma espcie de soberana e sepulcral
autoridade, articulando e acentuando vagarosamente as slabas:
     - H-de acreditar-me. Eu o pai de Cosette?! Perante Deus, no! Senhor baro
Pontmercy, eu ,sou um pobre aldeo de Faverolles, que ganhava a sua: vida a
podar vides. O meu nome no  Fauchelevent,  Joo Valjean. Esteja descansado
que eu no tenho parentesco nenhum com Cosette.
     - Quem mo prova? - balbuciou Mrio.
     - Eu, pois que o digo!
     Mrio fitou aquele homem e viu-o lgubre e sereno.
     De semelhante serenidade era impossvel sair uma mentira. O que,  glacial 
sincero. Parecia entrever-se a verdade no meio daquela gelidez tumular.
     - Acredito-o! - disse Mrio.
     Joo Valjean inclinou a cabea, como em sinal de ter ouvido e em seguida
prosseguiu:
     - Pergunta-me o que sou a Cosette? Um estranho! H dez anos nem sequer
sabia que ela existia. Tenho-lhe amor, isso  verdade! A gente, depois de velho,
afeioa-se com facilidade a qualquer criana com quem convive desde pequenina.
Queremos a todas as criancinhas com amor de av! Creio que o senhor no
estranhar se eu lhe disser que tambm, tenho uma coisa parecida com um
corao! Cosette era rf. No tinha pai nem me! Aqui tem a razo porque eu me
afeioei a ela. Uma criana  uma criaturinha to frgil, que qualquer estranho,
ainda que seja um homem como eu, se pode tornar seu protector. Cumpri esse
dever para com Cosette. No sei se ao pouco que fiz em favor dela se pode,
realmente, dar o nome de uma boa aco; se, com efeito, o , posso-lhe afianar
que a pratiquei! Registe esta circunstncia atenuante. Hoje, Cosette deixa-me; os
nossos caminhos separam-se. De ora em diante, nenhum servio j lhe posso
prestar. Mudou de Providncia!  a mulher do senhor baro de Pontmercy e
ganhou com a mudana, que foi para melhor. Quanto aos seiscentos mil francos,
no me diz o senhor nada, mas eu vou ao encontro do seu pensamento:  um
depsito.
     Como estava este depsito nas minhas mos? Que importa isso? Restituo o
depsito, no h mais nada a perguntar-me. Completo a restituio dizendo o
meu verdadeiro nome. Isto diz-me ainda respeito: interesso-me em que saiba
quem sou.
     E Joo Valjean encarou Mrio fixamente.
     Tudo o que Mrio estava sentindo era tumultuoso e incoerente. Certas
rajadas do vento do: destino produzem, destas vagas em nossa alma.
     Todos temos tido momentos de perturbao, nos quais tudo em ns se
dispersa; dizemos as primeiras coisas que nos vem  boca, e que nem sempre so
precisamente as que necessitaramos dizer. H revelaes sbitas, que no se
podem suportar e que embriagam como um vinho funesto.
     Mrio estava estupefacto com; a nova situao que se lhe apresentava, a ponto
de falar quele homem quase como algum que lhe tivesse levado a mal tal
confisso.
     - Mas, enfim - exclamou ele - para que me diz isso? O que  que o obriga a
semelhante coisa? O senhor podia guardar consigo mesmo o seu segredo. O
senhor no est denunciado, nem  perseguido. Tem por fora uma razo para
fazer voluntariamente uma tal revelao. Conclua. H nisto outra coisa qualquer.
A que propsito faz esta confisso? Porque motivo?
     - Porque motivo? - respondeu Joo Valjean com voz to baixa e surda, que se
diria falar mais consigo do que com Mrio. - Com efeito, porque motivo vem este
homem dizer: eu sou um forado? Pois bem, sim, o motivo  extraordinrio.  por
honradez. Olhe, a desgraa est num fio que eu tenho no corao, e que me
conserva preso.  sobretudo quando caminhamos para a velhice, que mais seguros
se vo tornando estes fios. Vai-se desfazendo a vida inteira em torno de ns e eles
resistem. Se eu pudesse arrancar este fio, quebr-lo, desatar o n ou cort-lo, indo
para bem longe, salvo estava, era s partir; metia-me numa diligncia da rua de
Bauloy, deixava-os gozar em paz a sua ventura e ia-me embora! Tentei, porm,
arranc-lo, quebr-lo, e foi debalde; por mais que puxei, no o consegui; resistiu,
no me era possvel arranc-lo, sem com ele arrancar o corao! Ento disse: No
posso viver seno aqui; portanto, fico! Porm o senhor tem razo; eu sempre fui
muito pateta! Porque no fiquei eu e me calei? O senhor oferece-me um quarto
em sua casa, a senhora Pontmercy quer-me muito; diz  poltrona: Estende-lhe os
braos; seu av est morto por me ver ao p de si, simpatiza comigo; viveremos
todos juntos, comeremos em comum, eu sairei a passear com Cosette... com a
senhora Pontmercy - perdo,  o hbito! pelo brao; o mesmo tecto nos abrigar a
todos; teremos todos a mesma mesa, o mesmo lar, o mesmo fogo no Inverno, o
mesmo passeio no Vero; isto  a alegria,  a felicidade,  tudo! Viveremos em
famlia. Em famlia!... A esta palavra, o rosto de Joo Valjean cobriu-se de uma
nuvem sombria. Cruzou os braos, fitou os olhos no soalho, como se nele quisesse
cavar um abismo com a vista, e, de repente, exclamou com estranha e ruidosa
entoao de voz:
     - Em famlia! No;! Eu no perteno a famlia nenhuma! No perteno nem 
sua nem  dos homens! Sou de mais nas casas onde vive qualquer famlia em
sossego! H-as, mas no para mim! Sou um desgraado, um estranho para todas;
elas! Quase chego a duvidar se tive pai e me! Essa menina casou, acabou tudo.
Vi-a feliz, em companhia do homem a quem ela ama, em companhia de um
ancio que lhe h-de querer como pai, e ento disse para mim mesmo: Tu no:
entres! Deixa a ss esses dois anjos, deixa-os no meio da sua ventura! Eu podia
mentir,  verdade, engan-los a todos, ficar sendo o senhor Fauchelevent, como
at aqui. Enquanto foi para bem dela, no hesitei em mentir, porm agora seria
para meu bem, e, portanto, no o devo fazer!
     Bastava calar-me,  verdade, e tudo continuaria como at agora! Pergunta-me
o senhor o que me obriga a falar? Uma coisa esquisita - a minha conscincia! E,
todavia, nada mais fcil do que calar-me! Levei a noite inteira a querer-me
persuadir a mim mesmo de que assim era; quer saber tudo? Tem razo! O que
acabo de contar-lhe  to extraordinrio, que tem direito a isso,  o que lhe digo,
passei toda a noite em discusso comigo mesmo, a forcejar por convencer-me, fiz
o que pude para isso, acredite que fiz!
     Porm no fui capaz de conseguir duas coisas  quebrar o fio que aqui me
tem preso, manietado,, chumbado, nem; fazer calar uma voz misteriosa que me
fala, quando estou a ss! Aqui est a razo: porque eu aqui venho confessar-lhe
tudo. Tudo ou quase tudo. Apenas lhe poderia dizer mais algumas coisas que me
dizem respeito somente a mim, e por isso comigo ficam. O essencial disse-lho.
Peguei no meu mistrio e trouxe-lho. Agora j sabe o meu segredo. No me
custou pouco semelhante resoluo! Toda a noite levei a debater-me! Olhe, no
cuide que eu no fiz todos os esforos para me escusar de a tomar, tentando
convencer-me de que se no tratava do processo Champmathieu, de que no
causava prejuzo a ningum em ocultar o meu nome, que o nome de Fauchelevent
me havia sido dado por ele mesmo em reconhecimento de um servio que eu lhe
prestara, e que, portanto, podia us-lo, e que viveria feliz no quarto que me
oferecem em sua casa, que no daria trabalho a ningum, deixando-me estar
sempre no meu cantinho, que, ao passo que o senhor possuiria Cosette, a mim
bastar-me-ia a lembrana de viver na mesma casa com ela! Cada qual gozaria a
sua ventura proporcionada. Tudo se arranjava, uma vez que eu continuasse a ser o
senhor Fauchelevent. Tudo, menos a minha alma! Tudo em volta de mim seria
alegria, porm O fundo da minha alma continuaria sombrio! No basta viver
venturoso,  necessrio viver satisfeito. Continuaria, deste modo, a ser o senhor
Fauchelevent, a ocultar o meu verdadeiro rosto; deste modo, seria um enigma no
meio das expanses desta famlia, s veria trevas onde todos os mais viam luz;
introduziria sorrateiramente as gals no seio da sua famlia; sentar-me-ia  sua
mesa sempre com a lembrana de que, se soubesse quem eu era, me expulsaria de
sua casa; deixar-me-ia servir por criados que, se o soubessem, diriam,: Que
horror! Toc-los-ia com o meu cotovelo, contacto que o senhor tinha razo para
evitar; ter-lhe-ia roubado apertos de mo! Haveria, em: sua casa uma partilha de
respeito entre cs venerandas e cs manchadas; nas horas mais ntimas, quando
todos os coraes se julgassem abertos plenamente uns para os outros, quando
todos quatro nos achssemos reunidos, seu av, o senhor, sua mulher e eu,
haveria no meio deste grupo, um desconhecido! Viveria no seio da sua famlia,
sendo o meu nico cuidado no desviar a tampa do meu terrvel poo! Deste
mtodo, eu, que sou um morto, juntar-me-ia aos senhores, que tm vida.
Condenaria essa jovem  minha perptua ignomnia! O senhor, Cosette e eu,
seramos trs cabeas cobertas pela mesma carapua verde! Isto, realmente, no o
faz estremecer?! Sou agora o mais infeliz dos homens, ento seria o maior
malvado! E este crime comet-lo-ia todos os dias! E todos os dias traria afivelada
no rosto esta mscara negra! E todos os dias as faria tomar parte na minha
ignomnia! A vs, meus queridos e inocentes filhos! No Custa nada a calar-se a
gente!  uma coisa fcil guardar silncio? No, no  fcil! H um silncio que
mente, E a minha mentira, a minha fraude, a minha indignidade, a minha
ignomnia, a minha traio, o meu crime, teria de o beber gota a gota, de o cuspir
fora ,e torn-lo a beber; acabaria  meia-noite para recomear ao meio-dia, e os
meus bons dias mentiriam, e as minhas boas noites mentiriam, e dormiria
acompanhado da minha mentira e comeria a minha mentira de envolta com o
meu po, .e fitaria Cosette, e responderia ao sorriso, do: anjo com o sorriso do
condenado, e seria um abominvel embusteiro! Com que fim? Para ser feliz! Para
ser feliz, eu! Acaso eu tenho direito a ser feliz? Eu sou um homem morto,
senhor!... Joo Valjean calou-se. Mrio escutava. Tais encadeamentos de ideias e
de angstias no podem ser interrompidos.
     Aps esta pausa, Joo Valjean prosseguiu outra vez, em voz baixa; porm,
desta feita, a sua entoao, no era surda, era sinistra:
     - Pergunta-me porque me no calo eu, se ningum me persegue, diz o senhor,
nem tenta denunciar-me ou prender-me. Engana-se! Perseguem-me,
denunciam-me, prendem-me! Quem? Eu mesmo! Eu  que embarao o caminho
a mim mesmo, me arrasto e me empurro, me prendo e me executo, e quem a si
mesmo prende escusa de tentar fugir, que o no consegue!
     E, agarrando na lapela do prprio casaco e puxando-a para onde estava
Mrio, continuou:
     - V esta mo? No lhe parece que este casaco est aqui bem seguro? Pois a
conscincia ainda aperta com mais fora! Quem quer viver feliz, senhor, no deve
escutar a voz do dever, porque, se a escuta, essa voz torna-se implacvel! Parece
que nos quer castigar de a escutarmos; oh, no! Recompensa-nos, porque nos
arremessa a um inferno, onde ao nosso lado como que sentimos Deus! Apenas
rasgamos as entranhas, ficamos em paz connosco mesmos!
     E acrescentou com inexprimvel acento:
     - Senhor Pontmercy, conquanto lhe parea absurdo, eu sou um homem, de
bem!
     Quanto mais me avilto a seus olhos, mais me elevo aos meus!  a segunda vez
que isto me acontece, porm no me custou ento O que hoje me custa, ento no
foi nada!
     Repito, eu sou um homem de bem! Deixaria de o ser, se o senhor, por culpa
minha, continuasse a estimar-me; porm, sou-o ainda, por isso que o senhor me
despreza!  destino meu, destino fatal, que, como no possa gozar seno de
considerao roubada, semelhante considerao humilha-me e angustia-me
interiormente, de modo que, para que eu a meus olhos seja digno de respeito, 
necessrio: que aos olhos dos outros s merea desprezo! Nesse caso, elevo-me!
Sou um forado que obedece  sua consci- ncia! Bem sei que parecem duas coisas
incompatveis. Mas que quer que lhe faa? A verdade  esta. No fao mais do que
cumprir os compromissos que contra para comigo; mesmo! H compromissos
que nos atam de ps e mos, h acasos que nos levam de rastos ao cumprimento
do dever! Veja, senhor Pontmercy, o que vai de singularidade na minha vida!
     Joo Valjean fez nova pausa, engolindo a saliva com esforo, como se as suas
palavras tivessem um ressaibo amargo, e depois prosseguiu:
     - Quem se v coberto por semelhante ndoa de ignomnia no tem direito de
fazer que os outros dela participem sem o saberem, nem de lhes comunicar a
mesma peste, nem de os arrastar  falsa f para o mesmo precipcio, nem de os
fazer envergar a vstia do forado, nem de ensombrar sorrateiramente com as
trevas da misria prpria o resplendor da felicidade alheia.  hediondo
chegarmo-nos ao p dos que esto sos para os tocarmos traioeiramente com a
nossa lcera invisvel! Pouco importa que Fauchelevent me cedesse
voluntariamente o seu nome; eu no tenho direito de o usar; ele podia dar-mo, eu
no posso aceitar-lho! Um nome  um eu.
     Como o senhor v, eu no sou inteiramente destitudo de instruo; apesar de
ser um simples aldeo, tenho lido alguma coisa, e, bem v que me exprimo menos
mal. Fui mestre de mim mesmo, e por isso sei entrar no conhecimento das coisas.
Subtrair um nome para encobrir com ele o que realmente somos  uma infmia!
Roubar letras do alfabeto ou roubar um relgio ou uma bolsa, tudo  roubar! Ser
uma assinatura falsa em carne e osso, uma chave falsa animada, introduzir-se em
casa da gente de bem, forando-lhe a fechadura, no olhar nunca para ningum
direito, sempre de travs, ser infame no interior de mim mesmo, no, no, no,
mil vezes no! Antes sofrer, sangrar, chorar, dilacerar as prprias carnes com as
unhas, passar as noites a contorcer-me desesperadamente, rasgar as entranhas e a
alma! Aqui tem a razo porque lhe vim contar tudo. Espontaneamente, como o
senhor disse!
     E, depois de fazer um esforo para respirar, proferiu, por ltimo, as
seguintes palavras:
     - Uma ocasio, roubei um po para viver; hoje para viver no quero roubar
um nome!
     - Para viver! - atalhou Mrio. - O senhor no tem necessidade desse nome
para viver!
     - Oh, eu bem sei o que digo! - respondeu Joo Valjean, abanando repetidas
vezes a cabea vagarosamente.
     Seguiu-se uma pausa, durante a qual nem um nem outro quebraram o seu
mtuo silncio, abismados em profunda cogitao. Mrio sentara-se junto de uma
mesa, com um dos dedos dobrado apoiado no canto da boca.
     Joo Valjean passeava de um lado para o outro. Ao passar por diante de um
espelho que havia na sala, parou e ficou imvel. De sbito, olhou para o espelho,
sem ver nele o reflexo da sua imagem, e disse, como respondendo a um ntimo
raciocnio:
     - Ao passo que agora sinto-me aliviado!
     E continuou o seu passeio at ao extremo da sala. Ao voltar-se, reparou que
Mrio estava a observar o modo como ele andava, e disse-lhe ento com
inexprimvel inflexo de voz:
     - Arrasto alguma coisa a perna. Agora j sabe porqu!
     E acrescentou, voltando-se de todo para Mrio:
     - Ora agora faa de conta que nada lhe dizia, que continuava sendo, como at
aqui, o senhor Fauchelevent, que Vinha ocupar o meu lugar no meio da sua
famlia, que dormia no meu quarto, que todos os dias pela manh me apresentava
a almoar com as minhas chinelas nos ps, que  noite amos todos trs ao teatro,
que eu acompanhava a senhora Pontmercy para as Tulherias e para a Praa Real,
que vivamos na melhor unio, que o senhor me supunha seu igual, e que, um dia,
achando-nos todos reunidos, conversando e rindo, se ouvia, de repente, uma voz
gritando: Joo Valjean! e eis que a temerosa mo da polcia, surgindo das trevas,
me arrancava inesperadamente a minha mscara!... E, aps nova pausa, durante a
qual Mrio se levantou, como sacudido por um calafrio, Joo Valjean continuou:
     - Que diz o senhor a isto?
     O silncio de Mrio valia por uma resposta, - J v - continuou Joo Valjean -
que tenho razo para no ficar calado.. Depois disto, restame dizer-lhe que desejo
que seja feliz, que viva contente no meio do esplendor que o cerca e satisfaa-se
com isso! No lhe d cuidado saber como um pobre condenado se houve para
dilacerar o peito a si mesmo e cumprir o seu dever! O senhor tem diante de si o
homem mais digno de lstima!
     Mrio atravessou vagarosamente a sala, acercou-se de Joo Valjean e
estendeu-
     lhe a mo. Ao travar-lhe, porm, da mo, que Joo Valjean no lhe
apresentou, mas que lhe abandonou sem resistncia, pareceu-lhe que apertava um
pedao de mrmore.
     - Meu av tem alguns amigos - disse-lhe Mrio portanto, no desespere de
alcanar ainda o seu perdo!
     -  escusado! - respondeu Joo Valjean.  Todos me supem morto, e por isso
no precisa de mais nada. Os mortos no esto debaixo das vistas da polcia!
Deixam-nos comer os vermes sossegadamente! A morte, equivale ao perdo!
     E, desenvencilhando da de Mrio a mo que o rapaz lhe apertava, acrescentou
com uma espcie de inexorvel dignidade:
     - Demais, o amigo a que recorro  o cumprimento do meu dever; nem eu
necessito de outro perdo alm do da minha conscincia!
     Neste instante entreabriu-se de mansinho a porta que ficava no fundo da sala,
dando passagem  cabea de Cosette, a quem mal se divisava o suave rosto. Com
os cabelos em gracioso desalinho, as plpebras ainda inchadas de dormir, fez o
movimento de um passarinho que deita a cabea fora do ninho, fitou primeiro seu
marido, depois Joo Valjean, e gritou-lhes com um sorriso que parecia o sbito e
gracioso desabrochar de uma rosa:
    - Apostemos que esto a a parolar sobre poltica, em vez de virem fazer-me
companhia? Forte gosto!
    quela voz harmoniosa, Joo Valjean estremeceu.
    - Cosette...- balbuciou Mrio.
    E calou-se.
    Dir-se-iam dois criminosos colhidos de repente em flagrante delito.
    Cosette continuava a olhar para ambos com a mesma expresso de felicidade
no rosto.
    Dir-se-ia ao v-la, que se lhe reflectia nos olhos a imagem do paraso.
    - Escusam de negar, que eu apanhei-os em flagrante delito! Eu bem ouvi, h
um instante mesmo, estar meu pai a dizer: A conscincia... Cumprir o meu
dever... Isto que  seno poltica? No quero! Desde amanh em diante no
consinto que aqui se torne a falar mais sobre poltica. Fique entendido!
    - Ests enganada, Cosette - respondeu Mrio. Ns estvamos a falar em
negcios.
    Estvamos a falar do melhor modo de empregar os teus seiscentos mil
francos.
    - No estavam tal! - acudiu Cosette.  Esperem que eu l vou; ou no me
querem l?
    E, abrindo resolutamente a porta, entrou na sala.
    O seu vesturio consistia num largo roupo branco cheio de pregas, com
grandes mangas, que lhe chegavam dos ombros at aos ps. Vem-se nos cus
dourados dos antigos quadros gticos anjos assim embrulhados nesses graciosos
sacos.
    Cosette olhou-se a um grande espelho, que a reflectia desde os ps at 
cabea, e em seguida exclamou num assomo de inefvel xtase:
    - Era uma vez um rei e uma rainha. Oh, sempre estou mais contente!... E
acrescentou, fazendo uma cortesia a Mrio e outra a Joo Valjean:
    - Esperem. Vou sentar-me aqui numa cadeira ao p dos senhores, enquanto
no vamos almoar, que no tarda meia hora. Podem dizer o que quiser, que eu
bem sei que os homens precisam de falar, e por isso no farei travessuras!
    Mrio travou-lhe do brao e disse-lhe com indefinvel expresso de amor:
    - Queremos falar sobre negcios.
     -  verdade - respondeu Cosette - olha, abri a janela do meu quarto e sabes o
que vi no jardim? Uma nuvem de pardais, que fugiram espavoridos apenas eu me
pus de c a bater-lhes as palmas. Fiz bem?
     - J te disse que queramos falar sobre Um negcio; por isso vai, minha
querida; deixanos ss um instante. Olha,  sobre algarismos e tu aborrecias-te se
ficasses aqui a ouvir essas coisas - Que bonita gravata puseste esta manh, Mrio!
     O senhor est muito elegante. No, no me h-de aborrecer.
     - Asseguro que te aborrecers!
     - No aborreo, porque s tu e meu pai. No os entenderei, mas estudarei. A
gente, uma vez que oua as vozes das pessoas a quem tem afeio, no precisa de
entender as palavras que elas dizem. Eu no quero mais nada do que estar aqui
tambm. Por consequncia, fico!
     - Tu s a minha querida Cosette, mas olha que isso no pode ser!
     - No pode ser?!
     - No!
     - Est bem! - replicou Cosette. - Pois tambm no sabero as novidades que
eu tinha para contar-lhes! Fazia teno de lhes dizer que o av ainda se no
levantou, que tua tia foi  missa, que a chamin do quarto de meu pai est cheia de
fuligem, e por isso enche o quarto de fumo, que Nicolette mandou chamar o
limpa-chamins, que Toussaint e Nicolette j andavam s bulhas, que Nicolette
arremeda Toussaint a gaguejar! Fazia teno de lhes dizer tudo isso, e assim no
sabem nada! Ah, no pode ser?! Pois deixa estar; quando me chegar a minha vez,
tambm eu hei-de dizer: No pode ser, meu senhor! E quem perder mais? 
Mrio, peo-te que me deixes ficar aqui convosco!
     - Juro-te que temos necessidade de falar em particular.
     - E ento eu, porventura, sou algum?
     Joo Valjean no proferia a menor palavra.
     Cosette voltou-se para ele e disse-lhe:
     - Antes de mais nada, meu pai, quero que me d um abrao! Que est a a
fazer sem dizer nada, em vez de tomar o meu partido? J viram um pai assim?
Bem v como eu fui infeliz com o meu casamento! Meu marido bate-me! Vamos,
abrace-me j!
     Joo Valjean acercou-se de Cosette, que disse, voltando-se para Mrio:
     - Olha, a ti fao-te uma careta!
     E, aps isto, apresentou a fronte a Joo Valjean.
     Joo Valjean deu um passo para ela. Cosette recuou.
     - Est to plido, meu pai! Que tem? Est pior da mo?
     - A mo j est boa! - respondeu Joo Valjean.
     - Ento passou mal a noite?
     - No.
     - Est triste?
     - No.
     - Nesse caso, d-me um abrao. Se no tem incmodo nenhum, se passou
bem a noite, se anda satisfeito, no lhe ralho!
     E tornou a apresentar a fronte.
     Joo Valjean deps um beijo nessa fronte, em que se reflectia um como claro
celeste, e Cosette prosseguiu:
     - Sorria-se!
     Joo Valjean obedeceu, porm o seu sorriso parecia o de um espectro.
     - Agora defenda-me contra meu marido!
     - Cosette... - atalhou Mrio do lado.
     - Zangue-se muito, meu pai! Diga-lhe que devo ficar! Porque no podem
conversar na minha presena? Ento eu sou alguma tola? Olhem que coisa to
extraordinria. O grande negcio! Depositar dinheiro num Banco! Sempre  um
segredo! Os homens, ao menos, de qualquer coisa fazem uma bicha de sete
cabeas! Pois quero ficar, que eu hoje estou muito bonita! Ora olha para mim,
Mrio!
     E, ao mesmo tempo que dizia isto, Cosette fitou Mrio com um adorvel
encolher de ombros e um gracioso gesto de amuo.
     Uma como fasca elctrica se produziu ento entre aquelas duas criaturas, e,
esquecidos da presena de Joo Valjean, caram irresistivelmente nos braos um
do outro.
     - Amo-te! - disse Mrio.
     - Adoro-te! - exclamou Cosette.
     E, compondo uma prega do roupo com um gesto de triunfo, disse:
     - Agora sempre fico!
     - Isso no! - respondeu Mrio em tom suplicativo. - No, porque temos um
negcio a tratar em particular!
     - Nem assim?
     - Asseguro-te, Cosette, que no pode ser!  replicou Mrio, assumindo um
tom grave:
     - Ah, o senhor fala-me desse modo? Pois est bem! Vou-me embora! E ento
meu pai no podia defender-me? Senhor meu marido, senhor meu pap, so uns
tiranos!
     Vou diz-lo ao av. Esto enganados, se cuidam que fao teno de tornar
aqui a aparecer a exporme s suas humilhaes! No tenho esse gnio! Eu c os
espero! At logo. Contem que os senhores  que se ho-de aborrecer por eu c no
estar! Vou-me embora, mas vero!
     E saiu.
     Passados dois segundos, a porta tornou a entreabrir-se, mostrou novamente o
fresco e rosado rosto entre os dois batentes e gritou-lhes:
     - Estou furiosa!
     E, aps isto, fechou-se de novo a porta e aqueles dois homens voltaram 
sombria atitude em que se achavam, quando Cosette os interrompeu.
     A apario da jovem naquela sala fora como que um raio de sol perdido que,
sem o suspeitar, houvesse, de sbito, atravessado a escurido.
     Mrio foi certificar-se se a porta estaria bem fechada e em seguida
murmurou:
     - Pobre Cosette! Quando ela vier a saber... A estas palavras, Joo Valjean
sentiu um calafrio por todo o corpo e exclamou, fitando em Mrio o seu olhar
alucinado:
     - Cosette, oh, sim,  verdade, o senhor decerto lhe vai contar tudo isto! 
justo!
     Eu  que nem de tal coisa me tinha lembrado! Olhe, senhor, a gente tem fora
para umas coisas, mas carece dela para outras! Senhor, Peo-lhe, suplico-lhe por
quanto h, que me d a sua palavra mais sagrada de que no lhe dir nada do que
acabo de confessar-lhe! No basta que s o senhor o saiba? Disse-o
espontaneamente, sem ningum a isso me obrigar; di-lo-ia a todo o mundo, a
todos que me quisessem ouvir, porque isso para mim era o mesmo! Mas a ela, a
ela que no sabe o que isto , no lho diga, que a vai encher de horror! Um
forado, oh, no, no! Teria de explicar-lhe, dizer-lhe:  um homem que esteve
nas gals! Ela, um dia, viu passar uma leva de forados.
     Oh, meu Deus!
     E caiu desfalecido numa poltrona, escondendo o rosto entre as mos. No se
lhe ouvia um soluo, mas conhecia-se-lhe pelo estremecimento dos ombros que o
desditoso chorava. Lgrimas silenciosas, lgrimas terrveis.
     Os soluos sufocam.
     Joo Valjean, trmulo, como se uma convulso terrvel o acometera,
recostou-se no espaldar da cadeira, como para tomar a respirao, pendendo os
braos com expresso de desalento e mostrando aos olhos de Mrio o rosto
inundado de lgrimas, e o jovem ouviu-o murmurar em voz to baixa, que parecia
sair do fundo de um abismo incomensurvel:
     - Oh, desejava morrer!
     - Esteja descansado - disse-lhe Mrio - que o seu segredo no passar da
minha boca!
     E, menos comovido talvez do que era de esperar, porm obrigado, havia uma
hora, a familiarizar-se com to inesperado como terrvel acontecimento, ao ver
um forado sobrepondo-se gradualmente a Fauchelevent, ali mesmo  sua vista,
dominado, pouco a pouco, por esta lgubre realidade e levado pelo imprio da
situao a reconhecer a distncia que acabava de se interpor entre ele e aquele
homem, acrescentou:
     - No posso deixar de lhe dizer uma palavra a respeito do depsito de que o
senhor to fiel e honrada entrega fez.  uma aco de probidade que merece uma
recompensa! Nada mais justo! Fixe o senhor mesmo a soma e ser-lhe-
pontualmente entregue. No receie pedir demasiado!
     - Obrigado, senhor - respondeu Joo Valjean com modo afvel.
     E quedou-se um momento pensativo, correndo maquinalmente a ponta do
dedo indicador sobre a unha do polegar.
     Depois disse, elevando a voz:
     - Est quase tudo terminado. Restame apenas uma coisa... - Que coisa vem a
ser essa?
     Aps um momento de suprema hesitao, Joo Valjean disse finalmente, ou
antes, balbuciou, com a respirao e a voz quase tomada:
     - Agora, que j sabe tudo, acha o senhor que  o dono da casa, que no devo
tornar a ver Cosette?
     - Eu entendo que era melhor - respondeu Mrio friamente.
     - Pois ento no a tornarei a ver!  murmurou Joo Valjean.
     E dirigiu-se para a porta.
     Chegado a, deitou a mo ao fecho, que prontamente cedeu, entreabriu a
porta apenas o necessrio para poder sair, porm em lugar de o fazer, quedou-se
um momento imvel, depois tornou a fechar a porta e voltou-se para Mrio. O
seu rosto j no estava plido, estava lvido. No se lhe viam j lgrimas nos olhos,
mas um como lgubre claro. A voz tornara-se-lhe estranhamente serena.
     - Enfim, senhor baro, se mo permitir voltarei a v-la. Asseguro-lhe que o
desejo muito. Se eu no tivesse interesse em ver Cosette no lhe teria feito a
confisso que lhe fiz, teria partido para longe; mas, querendo ficar onde est
Cosette e continuar a v-la, tive de lhe dizer honradamente tudo. O senhor
acompanha o meu raciocnio, no  verdade?  uma coisa que se compreende o
que acabei de lhe dizer. O que quer o senhor? Tive-a junto de mim durante nove
anos. Mormos primeiro naquele casebre do boulevard, depois no convento, e em
seguida prximo do Luxemburgo. Foi ali que o senhor a viu pela primeira vez;
deve lembrar-se do seu chapu de pelcia branca.
    Estivemos no bairro dos Invlidos, onde havia um jardim com grade, na rua
Plumet. O meu quarto era num ptio das traseiras, de onde ouvia o piano dela.
Aqui est a minha vida. No nos separvamos nunca; e isto durante nove anos e
alguns meses. Eu era como se fora seu pai, e ela era minha filha. No sei se
compreende isto, senhor Pontmercy; mas ir-me agora embora, no tornar a v-la
nem a falar-lhe, no ter mais nada, seria uma coisa difcil. Se o senhor no o
achasse inconveniente, viria de tempos a tempos ver Cosette. Viria poucas vezes,
no me demoraria muito. O senhor mandaria que me recebessem no vestbulo;
entraria pela porta das traseiras, por onde entram os criados; mas isso talvez
causasse admirao. Parece-me que  melhor entrar pela porta por onde entra
toda a gente. Com toda a verdade, desejava ver Cosette ainda algumas vezes; as
vezes que o senhor quisesse. Coloque-se no meu lugar, no tenho mais nada.
    E depois,  necessrio cautela: no voltar eu aqui deve causar mau efeito,
todos acharo isso singular. O que posso fazer  vir no fim da tarde, quando
comear a anoitecer.
    - Poder vir todas as tardes, Cosette esper-lo-.
    - O senhor tem muito bom corao - disse Joo Valjean.
    Mrio cumprimentou Joo Valjean; a felicidade acompanhou at  porta o
desespero; os dois homens separaram-se.



    II
    Escurido que pode encerrar uma revelao



    Mrio estava transtornado.
    A espcie de repugnncia que sempre lhe inspirara o homem junto de quem
via Cosette, acabava de lhe ser explicada. Vira sempre naquele personagem um
no sei qu de enigmtico, de que o seu instinto o advertia.
     Este enigma era a mais hedionda das vergonhas, a gal.
     Aquele senhor Fauchelevent era o forado Joo Valjean.
     Achar-se inopinadamente um tal segredo no meio da felicidade, assemelha-se
 descoberta de um escorpio num ninho de rolas.
     A felicidade de Mrio e de Cosette ficaria condenada a uma tal vizinhana?
Era porventura um facto realizado? A aceitao daquele homem fazia parte do
casamento consumado? No havia, a semelhante respeito, mais nada a fazer?
     Mrio desposara tambm o forado?
     Embora se esteja coroado de luz e de alegria, embora se saboreie a grande
hora purpurina da vida, o amor feliz, semelhantes repeles obrigariam a
estremecer o prprio arcanjo no seu xtase, o prprio semideus na sua glria.
     Como sucede sempre neste gnero de mutaes  vista, Mrio perguntou a si
mesmo se no tinha de que se acusar. Faltara-lhe o dom de adivinhar? Faltara-lhe
prudncia? Tinha-se atordoado voluntariamente?
     Um tanto, talvez.
     Tinha-se arriscado sem a suficiente precauo para esclarecer os contornos,
quela aventura, que terminara pelo seu casamento com Cosette?
     Examinava -  sempre por uma srie sucessiva de exames sobre ns mesmos,
que a vida, a pouco e pouco, nos corrige - examinava, dizamos, o lado quimrico
e visionrio da sua natureza, espcie de nuvem interior, natural em muitas
organizaes, e que nos paroxismos da paixo e da dor se dilata, pela alterao da
temperatura da alma, e invade o homem todo inteiro, a ponto de no produzir
nele seno uma conscincia imersa em nevoeiro. Temos indicado mais duma vez
este elemento caracterstico da individualidade de Mrio. Recordava-se de que na
embriaguez do seu amor, na rua Plumet, no decorrer daquelas seis ou sete
semanas extticas, nem de leve falara a Cosette daquele drama do covil Gorbeau,
onde a vtima tomara to estranha resoluo de silncio durante a luta,
evadindo-se depois. Como fora que no tinha falado a Cosette em tal assunto?
Contudo era uma coisa to recente e medonha!
     Como fora que nem sequer lhe nomeara os Thenardier, e, particularmente,
no dia em que encontrara Eponina! Achava quase difcil explicar o seu silncio de
ento.
     Entretanto notava-o agora. Recordava-se do seu atordoamento, da sua
embriaguez por Cosette, do amor absorvendo tudo, daquele enlevo de um pelo
outro no ideal, e talvez tambm, como sendo a quantidade imperceptvel de razo
aliada a esse estado violento e encantador da alma, de vago e surdo instinto de
ocultar e abolir na memria aquela temvel aventura de que temia o contacto, em
que no queria desempenhar o menor papel,  qual fugia, e de que no podia ser
narrador nem testemunha, sem que fosse acusador. Alm disto, aquelas poucas
semanas tinham sido um relmpago; no houvera tempo para nada seno para se
amarem. Enfim, bem considerado, bem pesado, e examinado tudo, quando
mesmo tivesse contado a Cosette a cilada do pardieiro Gorbeau, quando mesmo
lhe tivesse falado nos Thenardier, quaisquer que fossem as consequncias, quando
tivesse descoberto que Joo Valjean era um forado, teria isto tudo produzido nele
ou em Cosette alguma mudana? Teria ele recuado? T-la-ia adorado menos?
Teria deixado de a desposar? No. No tinha nada a lastimar, nada de que se
arrepender. Tudo fora pelo melhor.
     H com certeza um Deus para os brios a que chamam namorados.
     Cego, seguira Mrio o caminho que seguiria tendo vista. O amor vendara-lhe
os olhos para o conduzir; mas aonde?
     Ao paraso.
     Esse paraso porm estava sombreado por uma vizinhana infernal.
     A antiga repugnncia de Mrio por aquele homem, por aquele Fauchelevent
tornado Joo Valjean, achava-se agora envolta de horror.
     Neste horror, digamo-lo, havia alguma compaixo e at mesmo certa
surpresa.
     Aquele ladro, ladro reincidente, restitura um depsito. E que depsito!
     Seiscentos mil francos. S ele tinha o segredo de tal depsito; podia guardar
tudo, e entregou tudo.
     Alm disto revelara voluntariamente a sua situao.
     No havia nada que a isso o obrigasse. Sabia-se quem era, por ele mesmo.
     Naquela confisso aceitara mais do que a humilhao, aceitara o perigo. Para
um condenado, uma mscara no  uma mscara,  um abrigo. Tinha renunciado
a esse abrigo. Um nome suposto  a segurana; rejeitara esse nome. Podia, sendo
forado, ocultar-se para sempre no seio duma famlia honesta; resistira a essa
tentao. E porque motivo? Por escrpulo de conscincia. Explicara-o ele prprio
com o atento da realidade. Em suma, fosse o que fosse, aquele Joo Valjean era
incontestavelmente uma conscincia que despertava. Havia ali no sei que
misteriosa reabilitao comeada; e segundo todas as aparncias, havia j muito
tempo que o escrpulo se apoderara daquele homem. Semelhantes acessos do
justo e do bem, no so prprios das naturezas vulgares. O despertar da
conscincia denota grandeza de alma.
     Joo Valjean era sincero. Esta sinceridade, visvel, palpvel, irrefragvel,
mesmo at evidente pela dor que lhe causava, tornava inteis quaisquer
informaes, e dava autoridade a tudo que aquele homem dissera.
     Aqui dava-se para Mrio estranha inverso de situaes. O que era que se
destacava do senhor Fauchelevent? A desconfiana. O que se destacava de Joo
Valjean? A confiana.
     No misterioso balano a que Mrio, no meio das suas cogitaes, procedia,
com relao a esse Joo Valjean, examinava o activo e passivo, e tentava conseguir
o equilbrio entre um e Outro.
     Tudo isto, porm, parecia achar-se na mais tempestuosa confuso.
     Mrio, esforando-se por adquirir uma ideia clara acerca de semelhante
homem, e perseguindo Joo Valjean, para assim dizer, no fundo do seu
pensamento, perdia-o de vista e tornava a encontr-lo no meio de uma nvoa
fatal.
     Quanto  honrada restituio do depsito,  probidade da revelao, bem
estava.
     Era uma como claridade no meio da nvoa, porm esta depois tornava a
fechar-se escura, como dantes.
     Apesar da confuso das suas reminiscncias, Mrio entrevia nelas uma
escurido inexplicvel.
     Que significava aquela aventura passada no miservel albergue de Jondrette?
     Porque motivo se tinha aquele homem evadido  chegada da polcia, em vez
de se queixar?
     A isto achava Mrio a resposta. Porque esse homem era um criminoso
reincidente, um forado fugido das gals.
     Outra pergunta:
     - Que fora aquele homem fazer  barricada?
     Mrio no podia deixar de fazer a si mesmo esta pergunta, agora que 
memria lhe acudia distintamente essa recordao, reaparecendo-lhe no meio
dessas emoes como a tinta simptica que  exposta ao fogo.
     Esse homem estivera na barricada, conquanto no combatesse. Que fora ele l
fazer? A esta pergunta respondia o espectro de Javert, surgindo das trevas em que
estava envolto. Naquela ocasio, a memria de Mrio reproduzia-lhe
perfeitamente a fnebre viso de Joo Valjean, puxando para fora da barricada
Javert atado de ps e mos, e ele ouvia ainda por trs da esquina da viela de
Mondtour o estrondo horrvel daquele tiro de pistola. Era verosmil que o espio
e o forado mutuamente se odiavam. Incomodavam-se um ao outro. Joo Valjean,
portanto, tinha ido  barricada com o intuito de se vingar, por isso que,
provavelmente, sabia que Javert ali se achava prisioneiro, porm chegara tarde. A
vendetta corsa acha-se derramada entre algumas das classes inferiores da
sociedade, para as quais tem fora de lei;  to natural entre elas, que a no
estranham as almas quase convertidas para o bem; e de tal modo so conformados
aqueles coraes, que um criminoso em caminho da sua reabilitao chega a ter
escrpulos em relao ao roubo e a no os ter com relao  vingana. Joo
Valjean matara Javert. Ao menos, era o que parecia, segundo todas as
probabilidades.
     A derradeira pergunta, finalmente, era a seguinte, que oprimia Mrio como
uma tenaz, mas a que ele no conseguia encontrar resposta:
     Que srie de acontecimentos tinha dado lugar  prolongada convivncia de
Cosette com Joo Valjean? Que sombrio capricho fora o da Providncia, pondo
aquela jovem em contacto com semelhante homem? Pois tambm no cu h
correntes como as que na terra prendem os criminosos aos pares, e gostar Deus
de acorrentar juntos o anjo e o demnio? Pois o crime e a inocncia podem ser
camaradas de rancho nas misteriosas gals da misria? Pois nesse desfilar de
condenados chamado destino humano podem passar a par duas frontes, uma
cndida, outra medonha, uma inundada dos divinos clares da alvorada, outra
para sempre ungida pelo lvido claro de um relmpago eterno? Quem seria que
determinara to inexplicvel associao? De que modo, em virtude de que
prodgio, fora possvel estabelecer-se uma existncia comum entre aquela celeste
jovem e aquele velho condenado? Quem havia conseguido ligar o cordeiro ao
lobo, e  coisa ainda mais extraordinria! - ligar o lobo ao cordeiro?
     Pois, no caso presente, o lobo amava ao cordeiro, o ente feroz adorava o ente
frgil, durante o espao de nove anos, o monstro fora o amparo do anjo. A
infncia e a adolescncia de Cosette, os seus primeiros passos no mundo, o seu
virginal crescimento para a vida e para a luz, tudo isto fora abrigado pela abjecta
dedicao daquele homem. Neste ponto, as perguntas ramificavam-se, para assim
dizer, num sem nmero de enigmas, abriam-se abismos sobre abismos, e Mrio
no podia debruar-se sobre a voragem em que via sumir-se-lhe Joo Valjean, sem
se sentir acometido de uma vertigem, tentando, por consequncia, inutilmente
devassar o mistrio daquele homem-precipcio.
     Os smbolos gensicos so eternos: no estado actual da sociedade humana, h
e haver sempre dois homens, um superior, outro inferior, enquanto uma luz
mais intensa no vier operar nela uma mudana; o que existe para o bem
chama-se Abel, o que existe para o mal chama-se Caim.
     Que vinha a ser esse terno Caim? Que vinha a ser aquele ladro
religiosamente absorto na adorao de uma virgem, desvelando-a, educando-a,
preservando-a, dignificando-a e circundando-a de pureza, ele, criatura impura?
Que cloaca vinha a ser aquele que venerara aquela pureza, a ponto de no lhe
deixar uma mancha. Que qualidade de homem era esse Joo Valjean, que tomara
sobre si a educao de Cosette?
     Que vinha a ser esse vulto de trevas, cujo cuidado todo era preservar da
menor sombra, da menor nuvem, o despontar de um astro?
     Nisso consistia o segredo de Joo Valjean, se  que o seu segredo no era
tambm o de Deus.
     Ante este duplo segredo, Mrio recuava, Um tranquilizava-o, para assim o
dizer, a respeito do outro. Naquela aventura manifestava-se to visvel a presena
de Deus como a de Joo Valjean. Deus tem seus instrumentos e lana mo do
utenslio que mais lhe apraz, sem que tenha por isso de dar contas ao homem nem
de fazer-lhe saber os seus desgnios. Cosette era, at certo ponto, um artefacto
sado das mos de Joo Valjean. Fora ele, para assim dizer, o lapidrio daquela
alma. Isto  que no admitia dvida nenhuma. No admitiria; e ento que tinha
isso? Se o artista era horrvel, a obra era admirvel. Deus produz os seus milagres
da maneira que lhe apraz. Produziu aquela jovem graciosa e empregou Joo
Valjean para o ajudar. Aprouve-lhe tomar esse singular colaborador. Por isto
temos algumas contas a pedir-lhe? Pois ser acaso a primeira vez que o esttico
ajuda a Primavera na produo da rosa?
     Mrio respondia deste modo a si mesmo e tentava convencer-se de que as
suas respostas no admitiam rplica. Tivera desejo de interrogar Joo Valjean e
sentira que lhe minguavam as foras para o fazer. Adorava Cosette, possua
Cosette, Cosette era pura como o sol: que lhe importava o mais? Que
esclarecimento lhe faltava?
     Cosette era uma luz e a luz precisa de ser esclarecida.
     Tinha tudo, que mais queria? Que mais podia desejar? No era bastante tudo?
     Os negcios pessoais de Joo Valjean, com esses nada tinha. O esgalho a que
Mrio se apegava ao debruar-se sobre o abismo de trevas em que desaparecia o
vulto desse homem era esta solene declarao do Miservel: No sou nada a
Cosette. H dez anos nem sequer sabia que ela existia.
      Joo Valjean, portanto, era apenas um estranho, como ele prprio dissera.
Um estranho que passou, deteve-se e seguiu avante. Fosse ele quem quer que
fosse, o seu papel findara. Agora a Mrio  que tocava ser a Providncia de
Cosette, que Viera buscar ao espao o seu igual, o seu amante, o seu esposo, o seu
varo celeste.
      Remontara-se ao ar, e, ao partir da terra, transfigurada e alada, deixava vazia
aps si a sua medonha crislida - Joo Valjean.
      Qualquer que fosse a srie de ideias que Mrio passasse em revista, a
lembrana de Joo Valjean nunca lhe voltava ao esprito inteiramente
desacompanhada de um sentimento de horror. Horror talvez sagrado, pois que,
Mrio entrevia um quid divinum naquele homem. Por mais que ele fizesse,
porm, por mais que procurasse fazer valer as circunstncias atenuantes, via-se
sempre apertado pelo crculo de ferro desta concluso:  um forado, quer dizer,
uma criatura que nem lugar tem na escala social, por isso que fica abaixo do
ltimo degrau. Aps o ltimo dos homens, segue-se o forado. O forado j no
pode, para assim dizer, ser equiparado aos vivos. A lei destitui-o da maior poro
de humanidade que pode tirar a um homem.
      Apesar dos seus sentimentos democrticos, Mrio, com relao a questes
penais, seguia ainda o sistema inexorvel, nutrindo a respeito daqueles sobre
quem recai a aco da lei as mesmas ideias que ela. O jovem, devemos declar-lo,
no tinha ainda tocado a meta de todos os progressos. Ainda no sabia
descriminar entre o que  escrito pelo homem ,e o que  escrito por Deus, entre a
lei e o direito. Ainda no havia examinado e ponderado o direito que o homem se
arroga de dispor do irrevogvel e do irremedivel. No lhe causava indignao a
palavra vindicta. Afigurava-se-lhe uma coisa natural que certas infraces da lei
escrita fossem seguidas de penas eternas e aceitava como meio de civilizao o
inferno social.
      Eis aqui qual o estado em que ainda se achava, a no se dar caso que viessem
algum dia a sair dele, como o fazia esperar a bondade da sua ndole
essencialmente propensa a abraar gostosamente qualquer ideia de progresso.
      J se v que, dominado por estas ideias, Joo Valjean afigurava-se-lhe uma
criatura disforme e repelente. Era o rprobo, o forado.
      Esta palavra soava-lhe aos ouvidos como a trombeta do juzo final, e o seu
ltimo gesto, depois de largo espao haver contemplado Joo Valjean, era voltar a
cabea para o lado. Vade retro.
      Mrio,  necessrio reconhecer e ainda insistir nisto, apesar de interrogar
Joo Valjean, a ponto deste lhe dizer: O senhor quer saber tudo, no lhe tinha
contudo dirigido duas ou trs perguntas decisivas, No fora porque se lhe no
apresentassem ao esprito, mas porque tivera medo.
      O covil dos Jondrette? A barricada? Javert? Quem sabe onde parariam as
revelaes? Joo Valjean no parecia homem que recuasse; e quem sabe se Mrio,
depois de o ter impelido, no desejaria faz-lo parar?
      Em certas conjunturas supremas, no nos tem sucedido a todos, depois de
feita uma pergunta, taparmos os ouvidos para no ouvirmos a resposta?
       sobretudo quando se ama, que se tm destas cobardias.
      No  prudente interrogar a todo o transe as situaes sinistras, sobretudo
quando a eles est fatalmente ligado o lado indissolvel da nossa vida. Das
explicaes desesperadas de Joo Valjean, podia brotar alguma espantosa luz; e
quem sabe se essa hedionda claridade no teria chegado at Cosette? Quem sabe
se ficaria uma espcie de claro infernal na fronte daquele anjo!
      O salpico de um relmpago  ainda raio.
      A fatalidade tem destas solidariedades, onde a prpria inocncia fica
impregnada de crime pela sombria lei dos reflexos colorantes. Os vultos mais
puros podem conservar para sempre a reverberao de uma vizinhana horrvel.
Mrio, com razo ou sem ela, tinha medo. J sabia demais. Desejava antes
atordoar-se do que esclarecer-se. Desorientado, arrebatava Cosette nos braos,
fechando os olhos sobre Joo Valjean.
      Um tal homem era a noite: noite vivente e terrvel.
      Como poderia ousar sondar-lhe o futuro?  espantoso o interrogar a sombra.
      Quem sabe o que ele responder; a aurora poder ficar enegrecida para
sempre.
      Numa tal disposio de esprito, era para Mrio pungente perplexidade
pensar em que aquele homem teria de ento em diante o mnimo contacto com
Cosette. Ento quase se repreendia de no ter feito aquelas perguntas temveis,
diante das quais recuara e de onde teria podido sair uma deciso implacvel e
definitiva. Achava-se demasiadamente dcil, digamos o termo, demasiadamente
fraco. Esta fraqueza tinha-o arrastado a uma concesso imprudente. Deixara-se
comover; fizera muito mal. Deveria ter, pura e simplesmente, repelido Joo
Valjean. Joo Valjean era o quinho do fogo, deveria t-lo apartado e
desembaraado a sua casa de semelhante homem.
      Sentia-se indisposto contra si mesmo, contra a impetuosidade do turbilho de
sensaes que o tinham ensurdecido, cegado. Estava descontente de si mesmo.
     O que deveria ento fazer?
     As visitas de Joo Valjean repugnavam-lhe profundamente. Para que iria
aquele homem a sua casa? O que tinha ali que fazer? Neste ponto diligenciava
atordoar-se; no queria cavar, no queria aprofundar, no queria sondar-se a si
prprio.
     Tinha prometido Joo Valjean tinha a sua promessa; ainda com um forado,
sobretudo com um forado, deve cumprir-se a palavra dada. Contudo, o seu
primeiro dever era para com Cosette.
     Em suma, sentia-se agitado por uma repulso, que dominava tudo.
     Mrio revolvia no esprito todo este conjunto de ideias, passando
sucessivamente de uma a outra, e agitado por todas. Daqui profunda perturbao.
No lhe foi fcil ocultar esta perturbao a Cosette; mas o amor  um talento e
Mrio conseguiu.
     No fim de tudo, sem inteno, aparente, fez algumas perguntas a Cosette,
que, cndida como uma pomba, no suspeitou coisa nenhuma; falava-lhe da sua
infncia e da sua mocidade, e cada vez ficava mais convencido de que tudo o que
um homem pode ser de bom, de paternal e de respeitvel, tinha-o sido para
Cosette aquele forado. Tudo o que Mrio tinha entrevisto e suposto era real. A
sinistra urtiga amara e protegera o lrio.
    LIVRO OITAVO
    O decrescimento crepuscular



    I
    A sala de baixo



     No dia seguinte, ao anoitecer, Joo Valjean batia  porta da casa onde morava
Gillenormand, na rua das Mulheres do Calvrio e era recebido por Biscainho, que
se achava no portal e prontamente acudira a abrir.
     Semelhante prontido e a circunstncia de se achar to a propsito prximo
da porta quase fazia desconfiar que para isso tinha recebido ordem, o que no
pode ser motivo para espanto, pois no  raro dizer-se a um criado: Esteja 
espreita a ver quando chega o senhor Fulano.
     - O senhor baro recomendou-me que lhe perguntasse se queria subir ou
ficar mesmo aqui em baixo - disse Biscainho para Joo Valjean, sem esperar que
ele se lhe dirigisse.
     - Eu fico mesmo aqui em baixo! - respondeu Joo Valjean.
     A vista desta resposta, Biscainho abriu a porta da sala, que ficava logo 
entrada e acrescentou com o mesmo modo respeitoso com que tinha recebido o
suposto Fauchelevent.
     - Vou prevenir a senhora.
     Biscainho saiu e ele entrou.
     A sala em que Joo Valjean acabava de entrar era uma loja abobadada e
hmida, ladrilhada de tijolo e apenas alumiada por uma janela gradeada de ferro,
que deitava para a rua.
     Esta sala, que, em caso de necessidade, podia servir de adega, no era das que
a vassoura, a escova e o espanador trazem em contnuo sobressalto. Ali o p jazia
em sossego, as aranhas viviam livres da menor perseguio. Bastava ver a larga e
negra teia, semeada de moscas mortas, com que uma delas forrara um dos
caixilhos da janela, para se conhecer que ningum naquela casa tinha a crueldade
de as ir perturbar no exerccio das suas habilidades.
     A moblia, que era pouco espaosa e sobremodo baixa, consistia num monte
de garrafas arrumadas a um canto. As paredes, pintadas de ocre amarelo,
achavam-se em parte escalavradas e em osso; Na extremidade oposta  entrada,
via-se um fogo com guarnies de madeira pintada de preto e prateleira estreita.
O fogo estava aceso, o que indicava que a resposta de Joo Valjean: Eu fico
mesmo aqui em baixo j era esperada.
      De cada lado do fogo achava-se uma cadeira de braos. No espao que ia de
uma  outra, via-se estendido, em guisa de tapete, um estrado Velho j com mais
traas do que l.
      A nica luz desta sala era o reflexo que se projectava do fogo e a claridade
crepuscular que se coava por entre os vares da janela gradeada. Apenas entrou,
Joo Valjean atirou-se com expresso de desalento para uma das cadeiras.
      O pobre homem sentia-se desfalecido. Havia uns poucos dias que no comia
nem dormia.
      Biscainho voltou a pr um castial aceso sobre a prateleira do fogo e
retirou-se, sem que Joo Valjean, que, com a cabea pendida para o peito, parecia
mergulhado em completa abstraco, desse por ele nem pelo que tinha vindo
fazer.
      De sbito, levantou-se da cadeira, como que sobressaltado e voltou-se para
trs.
      Era Cosette, Cosette que ele no vira, mas que sentira entrar.
      Voltou-se e quedou-se em muda contemplao diante da jovem, naquela
ocasio como que iluminada por um maior realce de beleza. O que ele, porm, to
profundamente parecia observar naquele olhar no era a beleza, mas a alma.
      - Sempre tem cada coisa, meu pai! Sabia que era muito singular, mas esta 
que eu no esperava! Que ideia! Mrio disseme que foi seu desejo de que eu o
recebesse aqui.
      - Disse a verdade!
      - A espera dessa resposta estava eu! Bem. Previno-o j de que vamos ter uma
zanga muito grande! Principiemos pelo princpio. Meu pai, faz favor de me
beijar?!
      E a jovem apresentou a face a Joo Valjean.
      Este, porm, conservou-se imvel.
      - Ah! Ento? Muito bem.  porque se sente culpado!  o mesmo, perdoo-lhe!
      Jesus Cristo disse: Oferecei a outra face. Aqui a tem!
      E apresentou a outra face.
      Joo Valjean ficou na mesma imobilidade. Dir-se-ia que tinha os ps
pregados no cho.
      - O caso torna-se srio! - continuou Cosette. Que lhe fiz eu? Declaro-lhe que
estou de mal consigo! No fao as pazes seno me prometer que janta hoje
connosco!
     - J jantei!
     - No jantou tal! Hei-de fazer queixa ao senhor Gillenormand para ele lhe
ralhar!
     Os avs tm obrigao de repreender os pais! Vamos. Venha da comigo l
para cima.
     J!
     - No posso..
     A resposta de Joo Valjean encheu de espanto Cosette, que, em vez de dar
ordens, principiou a fazer perguntas..
     - Porque no pode? E logo foi escolher, para eu lhe aceitar a visita, a sala mais
feia que tem a casa, uma espelunca que mete medo!
     - Bem sabes tu... - deixou escapar Joo Valjean.
     E, atalhando-se logo, prosseguiu:
     - Bem sabe a senhora que eu sempre tive as minhas esquisitices!
     - Sabe a senhora?! Outra novidade!  exclamou Cosette, batendo com as suas
mozinhas uma na outra.
     - Que quer dizer isso?
     Joo Valjean fitou-a com esse sorriso pungente a que s vezes recorria e
respondeu:
     - Assim o quis, assim o tem! Hoje  uma senhora casada; portanto, o
tratamento que lhe pertence  este!
     - Mas no para si, meu pai.
     - No torne a chamar-me pai.
     - Como?
     - Chame-me senhor Joo; ou simplesmente Joo, se quiser... - J no  meu
pai,  o senhor Joo, e eu j no sou Cosette! Mas o que significa isto? Temos
revolues? O que foi que sucedeu? Olhe bem para mim. E no quer viver
connosco! No fez caso do Quarto que se lhe destinou. Que lhe fiz eu? Fiz-lhe
algum mal? Sucedeu-lhe aqui alguma coisa?
     - No, no sucedeu nada.
     - E, noutra parte?
     - No houve a menor alterao; est tudo como estava.
     - Mas porque muda de nome?
     - Tambm a senhora fez igual mudana.
     E sorrindo-se ainda com o mesmo sorriso, acrescentou:
     - Assim como em vez de Cosette  a senhora Pontmercy, assim eu posso ser o
senhor Joo.
     - No percebo. Nada disso tem senso comum. Hei-de pedir licena a meu
marido para lhe chamar senhor Joo. Espero que no consinta. No imagina
como me mortifica. Pode ter caprichos; mas sem afligir a sua Cosette.  muito mal
feito. Quem  to bom no tem direito de ser mau.
     Joo Valjean no respondeu.
     Cosette pegou-lhe vivamente nas mos, e com um movimento irresistvel,
elevando-lhas at  altura do rosto, apertou-lhas convulsivamente contra o
pescoo, por baixo da barba, o que  profundo gesto de ternura.
     - No seja mau! - disse ela.
     E prosseguiu:
     - Olhe, pai no ser mau, h-de vir viver connosco; ns aqui, temos
passarinhos; como tinha na rua Plumet; h-de sair daquele buraco da rua do
Homem Armado, no nos h-de dar charadas a adivinhar, h-de ser como toda a
gente, jantar e almoar connosco e ser meu pai.
     Joo Valjean desembaraou as mos das de Cosette.
     - A senhora j no precisa de pai, tem marido.
     Cosette mostrou-se enfadada.
     - J no preciso de pai! Ora, realmente, no sei o que se h-de dizer a
semelhantes coisas!
     - Se a Toussaint aqui estivesse - tornou Joo Valjean, como uma pessoa que
busca apoio na opinio de outrem, diligenciando agarrar-se a todos os ramos seria
a primeira em convir que sempre tive destas particularidades. No h nisto
novidade.
     Sempre fui amigo do meu cantinho escuro.
     - Mas isto aqui  to soturno e to frio! Senhor Joo! Olhem que lembrana!
Est terrvel! Desde j lhe declaro que no quero que me trate por senhora!
     - Quando h pouco vinha para c  respondeu Joo Valjean - vi no armazm
de um marceneiro da rua de S. Lus um lindo mvel. Se eu fosse uma mulher
bonita, no ficava sem ele. Era um toucador da ltima moda, creio que desta
madeira a que chamam pau-rosa, todo cheio de embutidos, com um grande
espelho, com gavetas... em suma, um objecto lindo
     - Hu! Bicho feio! - respondeu-lhe Cosette.
     E com supremo encanto, cerrando os dentes e afastando os lbios, soprou
contra Joo Valjean. Era uma Graa, copiando uma gata.
     - Estou furiosa! - continuou ela. - Desde ontem todos me tm feito
desesperar.
     Sinto-me enraivecida e no entendo nada disto. Meu pai no me defende de
Mrio, Mrio no me apoia contra meu pai; vejo-me de todo s. Preparo um
quarto muito bem preparado, no pus nele Deus porque no pude, e o meu
inquilino faz bancarrota e deixa-me ficar com o quarto nas mos. Encomendo 
Nicolette, um bom jantarinho: adeus, minha senhora; no quero o seu jantar. E no
fim de tudo isto quer o meu pai que lhe chame senhor Joo e que lhe receba a
visita numa Velha, medonha e feia sala bolorenta, cujas paredes parecem ter
barbas, onde h, pelo que respeita a cristais, garrafas vazias, e por cortinas teias de
aranha! Meu pai tem Singularidades, concedo, desse seu gnero, mas s pessoas
que se casam concedem-se sempre trguas, No devia continuar imediatamente a
ser singular. Deixe estar que se h-de achar bem contente na rua abominvel rua
do Homem Armado! Sentime ali bem desesperada, eu! Mas diga-me, o que  que
tem contra mim? Olhe que me est afligindo!
     E, assumindo sbita seriedade, fitou Joo Valjean e acrescentou:
     - Quer-me mal por ser feliz?
     A ingenuidade, sem que o suspeite,  s vezes muito penetrante. Esta
pergunta, simples para Cosette, era profunda para Joo Valjean. Cosette queria
arranhar e despedaava.
     Joo Valjean empalideceu, e depois de ter permanecido um instante sem
responder, murmurou, com inexprimvel acento e como que falando consigo
mesmo:
     - A sua felicidade era o alvo da minha vida. Agora pode Deus marcar a hora.
s feliz, Cosette, terminei a minha obra.
     - Ah, tratou-me por tu! - exclamou Cosette.
     E lanou-se-lhe ao pescoo.
     Joo Valjean, desorientado, estreitou-a extremosamente ao corao. Quase
lhe pareceu que tomava novamente posse dela.
     - Obrigado, meu pai!
     Aquele entusiasmo devia tornar-se pungente para Joo Valjean: por isso
desembaraou-se suavemente dos braos de Cosette e pegou no chapu.
     - Ento? - disse Cosette.
     Joo Valjean respondeu:
     - Retiro-me, minha senhora, esto-me esperando.
    E do limiar da porta acrescentou:
    - Tratei-a por tu, mas diga a seu marido que no tornar a suceder.
Perdoem-me.
    E saiu, deixando Cosette estupefacta com to enigmtica despedida.



    II
    Retirada gradual



     No dia seguinte, voltou Joo Valjean  mesma hora.
     Cosette no lhe fez perguntas, j no se mostrou admirada, nem se queixou
de sentir frio nem o convidou a subir, evitando trat-lo por pai, mas fugindo de
chamar-lhe senhor Joo, deixando que ele no lhe desse o tratamento de tu e a
tratasse por senhora. Apenas dava mostras de uma diminuio de alegria, que
seria tristeza, se ela fosse susceptvel de entristecer-se.
      natural que a jovem tivesse tido com Mrio uma dessas conversaes em
que o homem amado diz o que quer, no explicando nada e satisfazendo a mulher
amada. A curiosidade dos amantes no vai muito alm do seu amor.
     A sala em que Joo Valjean quisera ser recebido sofrera uma pequena
revoluo e apresentava-se agora em estado de mais algum apuro. Biscainho fizera
desaparecer as garrafas. Nicolette arvorara-se em exterminadora das aranhas.
     Nos dias que se seguiram, Joo Valjean continuou a repetir as suas visitas 
mesma hora, vindo todos os dias, porque no se sentia com nimo de deixar de
tomar as palavras de Mrio inteiramente ao p da letra.
     Mrio fazia sempre por no estar em casa  hora em que Joo Valjean
chegava.
     A famlia acostumou-se s novas singularidades do senhor Fauchelevent, para
o que no pouco contribuiu Toussaint, repetindo a cada instante:
     - Isto j no  de agora. O senhor foi sempre assim.
     O av promulgou o seguinte decreto:
     -  um extravagante!
     E, desde ento, acabou-se tudo.
     Na realidade, aos noventa anos j no h afeio possvel;  tudo justaposio;
um estranho  uma individualidade molesta, os hbitos antigos tm todos os
lugares tomados.
      vista disto, Gillenormand no somente no sentiu, mas at estimou ver-se
livre do tal senhor Fauchelevent, Tranchelevent ou l o que era.
     - No h nada mais comum do que estes originais - acrescentou ele - fazem
toda a espcie de extravagncias; e a respeito de motivo, nada de novo. O marqus
de Canaples ainda era pior. Comprou um palcio para viver nas guas-furtadas!
So esquisitices que certa gente tem. Deix-los l!
     V-se daqui que ningum entrevia o sinistro interior daquele homem.
     E quem, na verdade, poderia adivinhar semelhante coisa?
     H destes pntanos na ndia; a gua parece extraordinria, inexplicvel,
trmula, sem, contudo, correr vento, agitada onde devia estar serena. V-se na
superfcie aquela efervescncia sem causa; no se divisa a hidra que se arrasta no
fundo.
     Assim tambm h muitos homens que tm um monstro secreto, um mal que
eles alimentam, um drago que os dilacera, uma angstia que habita as suas
trevas. Mas vemo-los passar e repassar, e parece-nos que nada os distingue dos
outros homens.
     Porque ningum sabe que aquele infeliz tem dentro de si mesmo uma
horrorosa dor parasita, que vive dentro dele, e com os seus mil dentes o lacera e
mata. Porque ningum sabe que esse homem  um abismo. Apresenta-se sereno,
mas  profundo. De espao a espao, produz-se na superfcie certa agitao para
ns inteiramente incompreensvel. Forma-se uma misteriosa ruga, que desaparece
em seguida para tornar ainda a aparecer; vem  superfcie uma bolha de ar e
rebenta.  uma coisa de pouca monta e  terrvel.  a respirao do monstro
oculto.
     Certos hbitos singulares, chegar quando os outros se retiram, esconder-se
quando os outros se mostram, proceder sempre, para assim dizer, como quem se
receia de si mesmo, procurar os passeios mais escusos, preferir a rua deserta, no
tomar parte em conversao nenhuma, evitar os ajuntamentos e as festas, parecer
abastado e viver pobremente, trazer, apesar de rico, a chave do seu quarto no
bolso e ter a vela no sto do porteiro, entrar pela porta escusa, subir pela escada
oculta, todas estas singularidades destitudas de valor, rugas, bolhas de ar,
efervescncia fugitiva na superfcie provm muitas vezes de um fundo medonho.
     Assim decorreram algumas semanas.
     Um novo sistema de vida gradualmente foi operando a sua influncia sobre
Cosette; as relaes originadas pelo casamento, as visitas, os cuidados domsticos,
os divertimentos, enfim, esses negcios importantes, tudo isto devia actuar
poderosamente sobre o esprito da jovem.
     Os divertimentos de Cosette eram pouco dispendiosos; consistiam num s -
estar com Mrio. Sair com ele, ficar com ele em casa, tal era a grande ocupao da
sua vida.
     Era para eles um prazer sempre novo sarem de brao dado,  face do sol, pelo
meio das ruas, sem se esconderem,  vista de toda a gente, sozinhos.
     No meio de tudo isto, porm, sofreu Cosette uma contrariedade.
     Toussaint no pde dar-se com Nicolette, por isso que a liga de duas velhas 
sempre impossvel, e despediu-se.
     Gillenormand passava bem; Mrio ocupava-se a advogar, de quando em
quando, alguma causa; a tia Gillenormand passava na companhia do jovem casal a
vida lateral, com que se dava por satisfeita.
     Quanto a Joo Valjean, continuava a vir todos os dias.
     O desaparecimento daquele tu de outrora, a sua substituio pelo
tratamento de senhora, a transformao daquele inefvel nome de pai em senhor
Joo, tudo isto acabara por transfigurar Joo Valjean aos olhos de Cosette.
     Assim, pois, o infeliz conseguia o bom sucesso da diligncia que ele prprio
empregara para deslig-la de si. A jovem cada vez dava mostras de maior
jovialidade, e de menos afecto.
     Todavia, era certo que ela ainda lhe consagrava grande afeio, e ele prprio o
reconhecia.
     Uma ocasio, ela disse-lhe abruptamente:
     - O senhor era meu pai e j no  meu pai, era meu tio e j no  meu tio, era
senhor Fauchelevent, agora  Joo. Afinal de contas, quem ? Confesso-lhe que
no gosto nada destas coisas! Se no fosse saber o bondoso corao que possui,
tinha-lhe medo!
     Joo Valjean continuava a morar na rua do Homem Armado, porque no
podia resolver-se a afastar-se do Ideal habitado por Cosette.
     A princpio, demorava-se apenas alguns minutos com a jovem e retirava-se
logo.
     Pouco a pouco, porm, foi-se acostumando a prolongar as suas visitas.
Dir-se-ia que queria aproveitar-se da autorizao dos dias, que tambm iam
crescendo, vinha mais cedo e retirava-se mais tarde.
     Um dia, Cosette, no decorrer da conversao, inadvertidamente proferiu a
frase meu pai. Ao ouvi-la, o enrugado e sombrio rosto de Joo Valjean
iluminou-se de um sbito claro de alegria, aps o qual imediatamente atalhou:
    - Joo  o meu nome!
    - Ah,  verdade! Senhor Joo! - respondeu ela, soltando uma risada.
    - Assim mesmo! - tornou ele.
    E voltou o rosto para que Cosette o no visse limpar as lgrimas que lhe
tinham acudido de repente aos olhos.



    III
    Recordaes do jardim da rua Plumet



     Foi a ltima vez. Aps esse derradeiro claro, tornou-se completa a extino.
     Desapareceu de todo a menor mostra de familiaridade, nunca mais se repetiu
o beijo que assinalava O princpio de cada entrevista, nunca mais soou a seus
ouvidos a frase to profundamente afectuosa: Meu pai! com que, at ento, se
dera por amplamente recompensado do seu amor  graciosa jovem.
     O infeliz via-se, por sua prpria cumplicidade a rogos seus, sucessivamente
esbulhado dos bens que constituam a sua ventura, e, para cmulo de infortnio, o
desditoso, depois de ter perdido Cosette de todo num dia, via-se agora reduzido a
perd-la de novo aos: poucos.
     A nossa vista chega, por fim, a habituar-se a uma quase escurido. Em suma,
como tivesse todos os dias uma apario de Cosette, era quanto lhe bastava. Toda
a sua vida se concentrava nesse instante. Sentava-se ao p dela, e ora a
contemplava em silncio, ora se lhe punha a falar do tempo passado da sua
infncia, da sua vida no convento, das suas amiguinhas de ento.
     Uma tarde, num dos primeiros dias de Abril, j quente, mas ainda fresco; o
sol ostentava-se em todo o seu esplendor, os jardins que se estendiam em frente
das janelas do quarto de Mrio e Cosette como que principiavam a despertar, as
roseiras comeavam a desabrochar, os goivos a atapetar as enegrecidas paredes, as
bocas de lobo encarnadas a rebentar por entre as fendas das pedras, a relva
comeava a matizar-se graciosamente de margaridas e botes de ouro, as
borboletas brancas tentavam, j o seu vertiginoso voo, o vento, esse menestrel do
eterno festim de npcias, ensaiava nas rvores as primeiras notas dessa grande
sinfonia de aurora chamada Primavera nessa tarde, Mrio disse a Cosette:
     - Ns tnhamos falado, em ir ao nosso jardim da rua Plumet; vamos l hoje.
No devemos ser ingratos.
     E voaram, como duas andorinhas na Primavera.
     Para eles aquele jardim da rua Plumet era uma espcie de aurora. J tinham
aps si na vida o quer que fosse como a Primavera do seu amor. O prazo do
arrendamento ainda no tinha expirado, e, por consequncia, a casa Pertencia
ainda a Cosette.
     Visitaram, pois, aquele jardim ,e aquela casa, e ao acharem-se nela
esqueceram-se de tudo o mais.
     De tarde,  hora do costume, chegou Joo Valjean a rua das Mulheres do
Calvrio.
     - A senhora saiu com o senhor e ainda no voltaram disse-lhe Biscainho.
     Joo Valjean sentou-se silenciosamente e esperou uma hora, durante a qual
Cosette no chegou.
     Decorrida ela, pendeu a cabea para o peito e retirou-se.
     Cosette ficara to agradavelmente impressionada com o seu passeio ao nosso
jardim, como ela dizia e to jubilosa por ter vivido um dia no seu passado, que
no seguinte, no falou em outra coisa, e nem pela lembrana lhe passou que nesse
dia no tinha estado com Joo Valjean.
     - Como foram l? - perguntou-lhe  jovem.
     - A p.
     - E Como voltaram?
     - Num carro.
     Havia algum tempo que Joo Valjean notava a economia com que passava o
jovem casal, e esta circunstncia afligia-o. A economia de Mrio era severa, e para
Joo Valjean tinha esta frase o sentido absoluto.
     As suas apreenses fizeram, por fim, com que ele aventurasse uma pergunta.
     - Porque no tm carro prprio? Um bonito coup custar-lhes-ia apenas
quinhentos francos por ms, despesa com que muito bem podem, porque so
ricos.
     - No sei - respondeu Cosette.
     -  como com a Toussaint - prosseguiu Joo Valjean.
     - Ela despediu-se e assim se deixaram ficar. Porque no tomaram outra
criada?
     - Basta-nos Nicolette.
     - Mas bem v que a senhora necessita de uma criada grave.
     - Ento eu no tenho Mrio?
     - Deviam ter uma casa sua, criados seus, carro, camarote de assinatura. Nada
disto demanda despesas com que no possam. Porque no desfrutam a riqueza
que tm? O ser rico no estorva de ser feliz, antes serve para aumentar a felicidade.
     A tudo isto nada respondeu Cosette.
     As visitas de Joo Valjean, em lugar de se tornarem mais abreviadas, cada vez
se prolongavam mais.
     Quando  o corao que resvala, nada nos sustm na ladeira.
     Quando Joo Valjean queria prolongar a sua visita, fazendo esquecer a hora
da retirada, punha-se a tecer os maiores elogios a Mrio; dizia que o achava um
belo rapaz, nobre, corajoso, eloquente, dotado de suma inteligncia e bondade.
Cosette encarecia. Joo Valjean recomeava.
     Era um nunca acabar. Mrio era uma palavra inesgotvel; eram cinco letras
que valiam por muitos volumes.
     Por meio deste estratagema, conseguia Joo Valjean Demorar-se largo espao
na companhia da jovem.
     Ver Cosette, estar junto dela, olvidando tudo o mais, era-lhe to suave
consolao! Era o blsamo das feridas que o arpo do infortnio lhe tinha aberto
no corao!
     No poucas vezes sucedia vir Biscainho dizer, primeira e segunda vez:
     - O senhor Gillenormand manda lembrar  senhora baronesa que est o
jantar na mesa.
     Nos dias em que isto acontecia, recolhia-se Joo Valjean a casa
profundamente melanclico. Dar-se-ia o caso que a comparao da crislida
imagem imaginada por Mrio fosse exacta? Dar-se-ia o caso que Joo Valjean
fosse, efectivamente, uma crislida pertinaz que no cessasse as suas visitas 
borboleta que produzira?
     Uma tarde, Joo Valjean demorou-se ainda mais do que o costume. Ao outro
dia, reparou que o fogo estava apagado.
     - O fogo est apagado! -, disse ele consigo.
     E atalhou logo, dando a si mesmo a seguinte explicao:
     - Nada mais natural. Estamos em Abril A fora do frio j passou!
     - Santo Deus! Que frio aqui est! - exclamou Cosette, apenas entrou.
     - Eu nem por isso acho! - respondeu Joo Valjean.
     - Ento foi o senhor quem disse a Biscainho para no acender o fogo?
     - Fui. No tardamos a estar em Maio.
     - Isso que tem? O costume  acender os foges at Junho. E neste
subterrneo, ainda que haja lume todo o ano, no  nada de mais.
     - Entendi que era escusado.
     - Esquisitices suas! - exclamou Cosette.
     No dia seguinte estava aceso o fogo, mas as duas Cadeiras achavam-se do
outro lado da sala, junto  porta.
     - Que vem a ser isto? -, disse consigo Joo Valjean.
     Foi buscar as cadeiras e tornou a p-las no seu costumado lugar ao p do
fogo.
     Animado pela lembrana daquele fogo outra vez aceso, prolongou a
conversao ainda at mais tarde do que costumava.
     Na ocasio em que ia a pr-se de p para se retirar, Cosette disse-lhe:
     - Ontem meu marido saiu-se-me com uma coisa muito esquisita.
     - Ento que foi?
     - Disseme: Olha, Cosette, ns temos trinta mil francos de renda. Vinte e sete
que so teus e trs que me d meu av. Eu respondi:  isso, so trinta. Ele
tornou:
     Sentes-te com coragem para viver com os trs mil? Eu respondi: Pois no
sinto! At sem nada, uma vez que seja contigo! E depois perguntei-lhe: Porque 
que me dizes isso? Ele respondeu-me:  para saber! Joo Valjean no achou
resposta para dar a semelhante revelao. Cosette decerto esperava ouvir alguma
explicao da boca dele, porm Joo Valjean escutou-a em sombrio silncio.
     Quando voltou para a rua do Homem Armado, ia to profundamente
abstracto, que se enganou na porta, entrando para a escada vizinha, em vez de
entrar para a sua.
     S depois de ter j subido quase dois lanos de escada, deu pelo engano e
tornou a descer.
     Perdia-se-lhe o esprito em conjecturas. Estava provado que Mrio nutria
desconfianas a respeito da origem dos seiscentos mil francos que constituam o
dote de Cosette, que temia que eles procedessem de alguma fonte menos pura,
quem sabe mesmo se talvez tivesse descoberto que esse dinheiro provinha de Joo
Valjean.
     Estava claro que Mrio hesitava em utilizar-se dessa fortuna suspeita, em usar
dela como sua, preferindo viver pobre, conjuntamente com Cosette, a utilizar-se
de uma riqueza cuja origem no parecia a melhor. Alm disto, Joo Valjean
comeava a nutrir a vaga desconfiana de que era repelido.
     No dia seguinte, ao entrar na sala, costumado lugar das suas entrevistas com
Cosette, experimentou como um abalo. As poltronas tinham desaparecido. Nem
mesmo uma simples cadeira havia em toda a sala.
     - Ora esta! - exclamou Cosette mal chegou.  No h cadeiras! Onde esto as
poltronas?
     - Levaram-nas! - respondeu Joo Valjean.
     - Ora isto no se atura!
     - Fui eu que disse a Biscainho que as tirasse! - tartamudeou Joo Valjean.
     - E porqu?
     - Porque fao teno de me demorar apenas alguns minutos!
     - Demorar-se pouco no  motivo para ficarmos de p.
     - Creio que Biscainho precisava das poltronas l em cima.
     - Para qu?
     - Porque decerto a senhora tem hoje visitas.
     - Isso no, porque ns no esperamos ningum.
     Joo Valjean, que no sabia que mais havia de dizer, calou-se.
     Cosette encolheu os ombros e prosseguiu:
     - Mandar tirar as cadeiras! Noutro dia foi o fogo. Tambm mandou que o
no acendessem. Hoje manda tirar as cadeiras! Sempre  muito excntrico!
     - Adeus! - murmurou Joo Valjean.
     No disse: Adeus, Cosette, mas tambm no teve nimo para dizer: Adeus,
minha senhora.
     Saiu acabrunhado.
     Desta feita, compreendera.
     No dia seguinte, no veio.
     Cosette s  noite fez reparo nisso.
     -  verdade - disse ela - o senhor Joo no veio hoje!
     Sentiu um leve acesso de tristeza, porm mal deu por ele, porque um beijo de
Mrio a distraiu.
     Ao outro dia, tambm no veio Joo Valjean.
     Cosette, que nem semelhante coisa notou, passou as horas do sero e dormiu
a noite como de costume, e s ao acordar se lembrou da falta de Joo Valjean.
     Como assim no havia de ser, se ela se sentia to venturosa?
     Mandou imediatamente Nicolette a casa do senhor Joo saber se ele estava
doente e perguntar a razo porque no tinha vindo na vspera.
     Nicolette voltou com a resposta do senhor Joo.
     Mandava ele dizer que no estava doente, que no viera por ter muito que
fazer, mas que brevemente viria, logo que os seus afazeres lho permitissem. Alm
disso, que estava em vsperas de partir para uma pequena digresso, pois como a
senhora havia estar lembrada, ele costumava fazer estas digresses de tempos a
tempos. Em vista disto, que no estivessem com cuidado, que tirassem o sentido
dele, porque no havia motivo para se inquietarem.
     Nicolette dera o recado ao senhor Joo, repetindo-lhe as prprias palavras de
sua ama: - que a senhora mandava perguntar porque razo o Senhor Joo no
fora l na Vspera.
     - H dois dias que l no vou! - respondera Joo Valjean com modo afvel.
     A observao, porm, passou despercebida  criada, e, por conseguinte, no
chegou ao conhecimento de Cosette.



    IV
    A atraco e a extino



     Durante os ltimos meses da Primavera e os primeiros do Vero de 1833,
notavam os raros transeuntes do Marais, os lojistas, os ociosos encostados s
ombrei ras das portas, um velho asseadamente vestido de preto, que todos os dias
 mesma hora, ao anoitecer, desembocava da rua do Homem Armado, do lado da
de Santa Cruz da Bretonnerie, atravessava a de Blancs-Manteaux, seguia pela rua
Culture-Sainte-Catherine, e, chegado  rua da Escarpa, dobrava  esquerda e
entrava na rua de S. Lus.
     Apenas chegava a este ponto, principiava a caminhar vagarosamente, com a
cabea estendida para diante, sem ver nem ouvir nada, com os olhos
imutavelmente fixos sempre no mesmo ponto, como se nele visse o fulgurar de
uma estrela, e que era nem mais nem menos do que a esquina da rua das Mulheres
do Calvrio.
      medida que se aproximava desse ponto, inundavam-se-lhe os olhos de um
mais intenso claro, iluminavam-se-lhe as pupilas de uma espcie de alegria
semelhante a uma aurora ntima, viam-se-lhe agitar imperceptivelmente os lbios,
como se falasse com algum que no visse, divisava-se-lhe neles um vago sorriso,
parecia fascinado e comovido, e avanava o mais vagarosamente que lhe era
possvel. Dir-se-ia, ao v-lo, que, ao mesmo tempo que desejava chegar, temia o
instante em que o tivesse feito.
     Quando entre ele e aquela rua, que parecia atra-lo, se interpunham apenas
algumas casas, afrouxava de tal modo o passo, que s vezes parecia ter de todo
parado.
     O movimento trmulo da cabea e a fixidez do seu olhar faziam lembrar a
agulha procurando o plo.
     Por mais, porm, que prolongasse o instante da chegada, foroso era chegar;
entrava no princpio da rua das Mulheres do Calvrio; ento parava, como que
indeciso se iria mais avante, deitava a Cabea por trs da esquina com uma espcie
de melanclica timidez e alongava a vista pela rua.
     Nesses momentos, o seu olhar angustiado como que exprimia o desalento do
impossvel e se iluminava do reflexo de um paraso vedado. Em seguida uma
lgrima, que pouco a pouco se lhe fora formando ao canto dos olhos, no
podendo j suster-se por causa do seu peso, deslizava-se-lhe pelo rosto e
entrava-lhe s vezes na boca, sentindo-lhe ele ento o sabor amargo.
     Assim permanecia alguns minutos, imvel, como se fora de pedra; depois
voltava pelo mesmo caminho e no mesmo passo, e,  medida que se afastava, os
seus olhos perdiam o brilho e se entenebreciam com um vu de tristeza.
     Pouco a pouco, este velho deixou de chegar at  esquina da rua das Mulheres
do Calvrio; parava a meio do caminho, na rua de S. Lus, ora mais prximo, ora
mais retirado do fim da rua. Um dia, no passou adiante da esquina da rua
Culture-Sainte-Catherine e ps-se a olhar de longe para a das Mulheres do
Calvrio. Depois abanou silenciosamente a cabea da direita para a esquerda,
como se a si mesmo recusasse alguma coisa, e voltou para trs.
     Da a pouco, nem  rua de S. Lus j chegava. Caminhava at  rua Pave;
chegado a, abanava a cabea e retrocedia; em seguida no passava da dos Trs
Pavilhes; por ltimo, j no ia seno at  rua de Blancs-Manteaux. Dir-se-ia
uma pndula a que no se d corda, encurtando gradualmente o balano das suas
oscilaes at de todo parar.
     Esse velho todos os dias saa de casa sempre a mesma hora, empreendia o
mesmo trajecto, e, sem nunca o dar por findo, encurtava-o, todavia,
constantemente, sem talvez dar por isso.
     A expresso do seu rosto denunciava apenas esta nica ideia:
     - Que vou l fazer?
     Em seus olhos amortecidos j no resplandecia o menor claro; aquela
lgrima que se formava ao canto dos olhos secara-se; no seu olhar no havia
pranto, mas havia tristeza. A cabea trazia-a sempre estendida para diante; s
vezes bulia com os lbios; as rugas de seu descarnado pescoo metiam compaixo.
Algumas vezes acontecia estar a chover e ele continuava o seu caminho com o
guarda-chuva debaixo do brao, em vez de o abrir.
     -  um pobre idiota! - diziam, compadecidos, algumas boas mulheres da
vizinhana.
     Os rapazes seguiam-no, fazendo galhofa!
    LIVRO NONO
    Noite escurssima, brilhante aurora



    I
    Compaixo para os desgraados, mas indulgncia para os felizes



     Terrvel coisa a felicidade! Nada mais nos lembra, tudo para ns consiste no
gozo dela! Apenas alcanado o falso fim da vida - a ventura - para logo nos
esquece o verdadeiro - o dever!
     Injustos seramos, porm, se acusssemos Mrio.
     Mrio, j o explicmos, antes do seu casamento no tinha dirigido perguntas
ao senhor Fauchelevent, e depois dele, receava faz-las a Joo Valjean. Contudo,
arrepen-dera-se de ter deixado escapar a promessa que lhe fizera, exprobrando-se
amargamente de ter feito semelhante concesso ao desespero, no que andara mal.
Limitara-se a afastar Joo Valjean, pouco a pouco, de sua casa e a tornar cada vez
menos sensvel a sua imagem no esprito de Cosette. Interpusera-se sempre, para
assim dizer, entre Cosette e Joo Valjean, convencido de que, por este meio,
chegaria a tornar-lho indiferente e at a fazer-lho esquecer.
     Era mais do que esquecimento, era eclipse.
     Mrio julgava necessrio e justo o que fazia. Parecia-lhe que tinha para afastar
Joo Valjean, sem dureza, mas tambm sem fraqueza, razes Srias, que j se
aprecia-ram e ainda outras que mais tarde se apreciaro. Tendo-lhe o acaso,
proporcionado ensejo de tratar com um antigo caixeiro da casa Laffite, por causa
de uma questo de que fora advogado, veio a obter, sem os procurar, misteriosos
esclarecimentos, que no pudera, todavia, esmiuar, j para no trair o segredo
que, sob palavra de o no revelar, lhe fora confiado, j para no comprometer a
arriscada posio de Joo Valjean. Naquela ocasio, era sua convico que tinha a
cumprir um grande dever: a restituio dos seiscentos mil francos do dote de
Cosette a algum, que procurava descobrir, procedendo nesse empenho com a
maior circunspeco que o caso demandava.
     Quanto a Cosette, a inocente jovem no sabia de nenhum destes segredos,
mas tambm seria injustia conden-la.
     Entre ela e Mrio estabelecera-se uma espcie de magnetismo irresistvel, que
a forava a fazer instintiva e quase maquinalmente quanto ele queria. Conhecia
que era vontade de Mrio que ela assim procedesse para com o senhor Joo, e,
portanto, resignava-se. Seu marido entendera que no lhe devia dizer coisa
nenhuma; ela sofria a influncia vaga, mas evidente, de suas tcitas intenes e
obedecia-lhe cegamente. A sua obedincia, neste ponto, consistia em no se
lembrar que Mrio esquecia. Para chegar, porm, a este resultado, no empregava
o mnimo esforo. Sem ela mesma poder dizer porqu nem haver neste facto
motivo para acus-la, a alma da jovem consubstanciava-se a tal ponto com a de
seu marido, que aquilo que se entenebrecia no pensamento de Mrio
obscurecia-se no dela.
    Cumpre, porm, no avanar temeridades; na parte que diz respeito a Joo
Valjean, este esquecimento e escurido eram meramente superficiais. O que ela
experimentava era mais embriaguez do que olvido. No fundo, consagrava
entranhado afecto aquele a quem por tanto tempo dera o nome de pai. Porm
ainda maior era o afecto que consagrava a seu marido. Por isso era que a balana
do seu corao faltava ao peso. Como assim no havia de ser, se quase toda estava
pendida para um lado?
    s vezes, Cosette trazia  conversa Joo Valjean e mostrava-se admirada de o
no ver aparecer. Quando tal caso se dava, acudia logo Mrio, tranquilizando-a:
    - Creio que est fora da terra. No ests certa de ele dizer que tinha de fazer
uma digresso?
    -  verdade -, dizia Cosette a ss consigo.
    E acrescentava ainda mentalmente:
    - Efectivamente, ele costumava fazer destas desaparies, mas nunca as
prolongava por tanto tempo.
    Por duas ou trs vezes mandou Nicolette  rua do Homem Armado perguntar
se o senhor Joo j tinha recolhido da sua digresso. De ambas mandou Joo
Valjean, por intermdio do porteiro, responder que no.
    Depois disto, Cosette no tornara a mandar saber notcias dele.
    A sua nica necessidade na terra era Mrio.
    Devemos ainda acrescentar, relativamente aos dois esposos, que Mrio e
Cosette tambm estiveram algum tempo ausentes de Paris. Tinham ido a Vernon,
onde Mrio quisera que Cosette o acompanhasse para lhe mostrar o tmulo de
seu pai.
    Assim fora Mrio subtraindo a jovem, pouco a pouco, a Joo Valjean, sem
que ela pensasse em fazer a menor resistncia.
    Para bem dizer, aquilo a que, com demasiada severidade em certos casos, se
d o nome de ingratido dos filhos, nem sempre  uma coisa to digna de censura
como o fazem. Chamam-lhe ingratido da natureza. A natureza, como j
dissemos, olha para diante. Divide as criaturas animadas em entes que chegam e
entes que partem. Os que partem tm a frente voltada para a sombra, os que
chegam tm-na voltada para a luz. Daqui um afastamento, que, pelo que pertence
aos velhos,  fatal, e, pelo que diz respeito aos jovens,  involuntrio. Esse
afastamento, a princpio insensvel, vai gradualmente aumentando, como uma
bifurcao qualquer de dois ramos. Como ningum ignora, estes desviam-se do
tronco, sem, contudo, dele se desprenderem. Nisso no tm eles culpa. A
mocidade caminha para a manso da alegria, dos esplendores, das festas, dos
amores. A velhice caminha para o seu fim. No chegam a perder-se de vista, mas
deixam de se conservar unidos. Os jovens sentem o resfriamento da vida, os
velhos o do tmulo.
     Porque razo havemos ns de acusar a mocidade?



    II
    Derradeiro bruxulear da lmpada



     Um dia, Joo Valjean desceu a escada, transps o limiar da porta, sentou-se
na soleira, naquela mesma pedra onde Gavroche, na noite de 5 para 6 de Junho, o
viera encontrar absorto em profunda cogitao, e, decorridos apenas alguns
minutos, tornou a subir.
     Foi a derradeira oscilao da pndula.
     No dia seguinte, no saiu de casa. No outro, no saiu da cama.
      hora costumada, entrou-lhe no quarto a porteira que era tambm
cozinheira.
     Cozinheira de um frugal repasto, que quase sempre consistia numas couves
ou em algumas batatas, guisadas com toucinho. Ao ver o prato de barro escuro em
que, no dia antecedente, lhe trouxera uma das habituais iguarias, a boa mulher
exclamou com gesto de admirada e, ao mesmo tempo, compadecida:
     - Olhem que senhor este, que no comeu nada ontem!
     - Qual no comi! - respondeu Joo Valjean.
     - Como  que comeu, se o prato ainda est conforme eu o trouxe?
     - Ora v ao cntaro da gua. No tem nem gota!
     - Isso o mais que prova  que bebeu, mas no que comesse!
     - Ento que quer? - respondeu Joo Valjean.  Se eu no tenho fome seno de
gua!
     - Isso chama-se sede, e, quando, ao mesmo tempo, se no come, chama-se a
isso febre.
     - Pois amanh comerei!
     - Ou para o ano que vem! Ora sempre tem cada coisa!... Porque no h-de
ser hoje? Isso tem l jeito algum dizer que amanh comer? Nem sequer provar
estas batatinhas que lhe arranjei e que estavam to boas!
     - Prometo-lhe com-las, que mais quer?  disse Joo Valjean com voz
afectuosa, travando da mo da pobre velha.
     - No estou nada satisfeita consigo!  respondeu a porteira.
     Esta boa mulher era a nica criatura humana com quem Joo Valjean falava.
     Em Paris h ruas por onde ningum passa e casas aonde ningum vai. Joo
Valjean morava numa dessas ruas e em uma dessas casas. No tempo em que ele
ainda saa, comprara a um caldeireiro, por diminuta quantia, um crucifixo
pequeno de cobre, que pendurara num prego, fronteiro  cama.  um patbulo
que no deixa de ser conveniente ter-se sempre ao alcance da vista.
     Assim decorreu uma semana, sem que Joo Valjean desse um s passo no
quarto.
     Deixava-se ficar sempre na cama.
     Um dia, a porteira disse para o marido:
     - O velhito l de cima j se no levanta nem come... No sei, mas aquilo no
vai longe!...  paixo que se lhe meteu, pobre homem! A mim ningum me tira da
cabea que a filha fez mau arranjo com o tal casamento!
     A isto replicou o porteiro com o tom da soberania marital:
     - Se  rico, que mande chamar um mdico. Se o no , que passe sem ele!
Mas, se no mandar chamar algum, no escapa!
     - E se o mandar chamar?
     - Tambm no dou nada por ele! - retrucou o porteiro.
     A mulher ps-se a arrancar com uma faca velha a erva que crescia por entre
as pedras do que ela chamava sua calada, e, ao mesmo tempo que se ocupava
neste servio, ia dizendo por entre dentes, falando a ss consigo:
     -  uma pena! Um velho to asseado!
     Nisto, avistou ao fundo da rua um mdico da vizinhana, que ia a passar, e
resolveu pedir-lhe para que subisse a ver o velho.
    - Mora no segundo andar - disse-lhe ela.  No tem mais do que empurrar a
porta e entrar, porque, como o pobre homem j se no levanta da cama, tem-na
sempre apenas cerrada.
    O mdico subiu, esteve com Joo Valjean, fez-lhe o seu interrogatrio! e
tornou a descer.
    - Ento, senhor doutor, que lhe parece o doente? - perguntou-lhe a porteira,
quando ele descia o ltimo degrau.
    - No est nada bom.
    - Ento que tem?
    - Tudo e nada. Segundo parece, aquele homem perdeu alguma pessoa a quem
queria muito, o que tambm  molstia, e molstia que mata.
    - Que lhe disse ele?
    - Que no tinha nada.
    - No volta, senhor doutor?
    - Voltarei - respondeu o mdico. - Mas ser necessrio que venha mais
algum.



    III
    Uma pena pesada para quem levantou o carro de Fauchelevent



     Uma tarde, vendo Joo Valjean que s a muito custo pudera levantar-se,
firmando-se no cotovelo, tomou a si mesmo o pulso e no o sentiu, notou que a
respirao se lhe tornava difcil, chegando s vezes a parar-lhe de todo, e
reconheceu que tinha chegado a um extremo grau de fraqueza que nunca atingira.
Dominado ento, ao que parece, por alguma suprema preocupao, fez um
esforo para se sentar na cama e principiou a vestir-se.
     O vesturio por ele preferido, agora que j no saa, era o seu antigo trajo de
operrio.
     Por umas poucas de vezes, porm, teve de parar no meio do seu intento, que
para ele no era to fcil que s o esforo de enfiar as mangas da jaqueta lhe no
fizesse escorrer o suor pela testa abaixo. Logo em seguida ao casamento de
Cosette, Joo Valjean arvorara a sala de entrada em seu quarto de dormir para no
habitar o interior daquele aposento deserto, o que o foraria a ver todos os dias, na
passagem para o seu primitivo quarto, lugares para ele de angustiosa recordao.
     Apenas concluda a difcil tarefa de se vestir, Joo Valjean abriu o ba, seu
inseparvel companheiro, e tirou para fora a roupa de Cosette, que estendeu sobre
a cama. Em seguida, tirou de uma gaveta duas velas de cera, meteu-as nos castiais
do bispo, que onde quer que chegava costumava pr logo em cima da pedra do
fogo, e acendeu-as, posto que fosse ainda dia claro, por isso que se estava no
Vero.
     Dir-se-ia, ao ver aquelas duas velas acesas  hora do dia, que se achava
decerto ali em exposio algum corpo,  espera que, noite fechada, o conduzissem
para a igreja.
     Cada passo que o infeliz dava de um para outro mvel extenuava-o por tal
modo, que se via obrigado a sentar-se.
     No era o cansao ordinrio que exaure as foras para as renovar; era a vida
extinta esvaindo-se em esforos aflitivos que extenuam e no mais se repetem.
     Uma das cadeiras em que se tinha deixado cair estava colocada diante do
espelho, to fatal para ele, to providencial para Mrio onde tinha sido invertida
no mata-borro a escrita de Cosette. Viu-se no espelho e no se reconheceu.
Contava oitenta anos; antes do casamento de Mrio ter-se-lhe-iam apenas suposto
cinquenta: aquele ano valera por trinta. O que se lhe via na fronte no era a ruga
da idade, era a marca misteriosa da morte.
     Sentia-se ali o raspar da implacvel unha. As faces descaam-lhe, a pele do
rosto tinha uma cor que fazia julgar haver j por baixo dela terra; os dois cantos da
boca pendiam como na mscara que os antigos esculturam sobre os tmulos;
fitava o vcuo com certo ar de repreenso; parecia um dos grandes entes trgicos,
que tm de que queixar-se de algum.
     Estava nesta situao, ltima fase do abatimento, em que a dor j no circula;
em, que est, para assim dizer, coagulada, e em que h sobre a alma uma como
sensao de desespero.
     Tinha anoitecido.
     Joo Valjean arrastou penosamente uma mesa e a velha poltrona para junto
do fogo, e ps sobre a mesa uma pena, tinteiro e papel.
     Feito isto, desmaiou. Quando voltou a si sentiu sede.
     No podendo levantar a bilha da gua, inclinou-a com dificuldade para a
boca e bebeu um golo.
     Depois voltou-se para a cama; e mesmo sentado, porque no podia ter-se em
p, contemplou o vestidinho preto e todos os outros objectos queridos.
     Contemplaes como estas duram horas, que parecem minutos. De repente
teve um estremecimento, sentiu-se esfriar; encostou-se  mesa, alumiada pelos
castiais do bispo .e pegou na pena.
     Como a pena e a tinta havia muito no serviam, a pena tinha o bico
recurvado, o tinteiro estava seco; teve portanto de levantar-se e de deitar uns
pingos de gua no tinteiro, o que no pde fazer sem descansar duas ou trs vezes,
e viu-se obrigado a escrever com as costas da pena. De vez em quando limpava a
testa.
     A mo tremia-lhe; contudo escreveu muito vagarosamente as seguintes
linhas:
     Eu te abenoo, Cosette, nesta extrema hora a que sou chegado! Junta, porm,
com a minha bno, quero dar-te a explicao de alguns pormenores que tu
ignoras. Teu marido teve razo para me fazer ver que devia ser estranho  vossa
ventura; todavia, h algum erro tolo que ele sups, mas teve razo. Devo confessar
que  um excelente rapaz. Ama-o sempre muito, depois que eu cessar de existir, e a
ele Peo-lhe igualmente que ame sempre a minha querida filha! Cosette, quando
leres este papel que deixo aqui para te ser entregue, j eu no existirei! Eis o que
quero dizer-te; vou apresentar algarismos, se a memria nesta hora ainda me
ajudar. Peo-te que atendas bem; esses seiscentos mil francos que constituem o dote
que levaste a teu marido so muito meus. Eu te vou explicar como.
       O azeviche branco vem da Noruega, o preto da Inglaterra e os avelrios
escuros da Alemanha. O azeviche  mais leve, mais precioso e mais caro, mas pde
ser imitado entre ns, como o  na Alemanha. Para isto  necessrio uma bigorna
do tamanho de duas polegadas quadradas e uma lmpada de lcool para derreter a
solda. A solda que dantes se fazia com resina e ps de sapatos, vindo a ficar por
quatro francos cada arrtel, imaginei faz-la de goma laca e terebintina. Deste
modo, vinha a custar apenas trinta soldos e ficava muito melhor. As fivelas
fazem-se com um vidro roxo e unem-se por meio desta solda sobre uma
armaozinha de ferro envernizado, O vidro deve ser roxo para os objectos de ferro
e preto para os de ouro. A Espanha consome grande quantidade destes artigos.  o
pas do azeviche...
     Chegado a este ponto, o infeliz interrompeu-se, deixou cair a pena da mo,
soltou um desses soluos angustiados que s vezes lhe rebentavam como que do
fundo do corao, encostou a cabea entre as mos e ps-se a meditar.
     - Oh! -, exclamava ele a ss consigo gritos angustiosos, s ouvidos de Deus. -
Acabou-se tudo! Nunca mais a tornarei a ver! Foi um sorriso que passou por
mim! E deixar o mundo, separar-me dela para sempre, sem, ao menos, a tornar a
ver!... Oh, meu Deus! Deixai que a veja um minuto, um instante, que lhe oua a
voz, que lhe toque o vestido; deixai-me fitar os olhos nela, nesse anjo, e depois a
morte! Morrer nada , o que  horrvel  morrer sem a ver! Dar-me-ia um ltimo
sorriso, dir-me-ia uma ltima palavra! Isto fazia mal a algum? Mas no!
Acabou-se tudo, nunca mais a verei! Meu Deus! Meu Deus! Ver-me s neste
extremo lance, morrer sem tornar a v-la! Neste momento, bateram  porta.



    IV
    Tinta que, em vez de escurecer, aclara



     Naquele mesmo dia, ou para melhor dizer, naquela mesma tarde, levantara-se
Mrio da mesa e acabara de recolher ao seu gabinete para estudar um processo,
quando Biscainho lhe entregou uma carta, dizendo-lhe:
     - Est l fora a pessoa que a escreveu.
     Cosette tomara o brao do av e fora dar um passeio pelo jardim.
     Uma carta pode, como um homem, ter mau aspecto.
     Papel grosso e dobras mal feitas; missivas tais, basta que se vejam para que
desagradem. A carta que Biscainho entregara era deste gnero.
     Mrio recebeu-a. Cheirava a tabaco. No h nada que desperte uma
recordao como um cheiro. Mrio reconheceu o cheiro do tabaco. Examinou o
sobrescrito.
     Lia-se nele: Ao senhor baro Pontmercy. Em sua casa.
     O tabaco reconhecido, fez-lhe reconhecer a letra. Poderia dizer-se que o
espanto causa relmpagos. Mrio sentiu-se como iluminado por um destes
relmpagos.
     O olfacto, o misterioso despertador da memria, acabava de fazer reviver nele
um mundo inteiro. Era, com efeito, aquele papel, a maneira de o dobrar, a tinta
amarela; era inquestionavelmente a letra conhecida, e sobretudo o mesmo cheiro
de tabaco. Tinha diante de si a pocilga de Jondrette.
     Assim - estranha cabeada do acaso! - uma das duas pistas que tanto
diligenciara achar, aquela pela qual ainda recentemente fizera tantos esforos e
que julgara perdida para sempre, apresentava-se-lhe voluntariamente.
     Abriu com ansiedade a carta e leu:
     Senhor baro Se o Ente Supremo me tivesse dado talentos, teria podido ser o
baro Thenard, membro do Instituto (Academia das Cincias), mas no o sou.
Tenho apenas o mesmo nome que ele, e muito feliz serei se esta recordao me
recomendar  excelncia das suas bondades. O benefcio com que me honrar ser
recproco.
     Possuo um segredo concernente a um indivduo que lhe est ligado. Desejando
ter a honra de lhe ser til, tenho este segredo  sua disposio. Dar-lhe-ei o meio
simples de expulsar da sua honrada famlia este indivduo que no tem direito de
fazer parte dela, sendo a senhora baronesa, como , de alto nascimento e jerarquia.
     O santurio da virtude no poderia coabitar por mais tempo com o crime, sem
abdicar.
     Espero na antecmara as ordens do senhor baro.
     Com todo o respeito, Thenard
     Esta assinatura no era falsa. Era apenas abreviada.
     No fim de tudo o anfiguri e a ortografia completavam a revelao. O atestado
de origem estava completo. No era possvel a mnima dvida.
     A sensao que Mrio experimentou foi profunda.
     Depois do movimento de surpresa, seguiu-se-lhe outro de satisfao. Se
achasse tambm o outro homem, aquele que o tinha salvo, a ele, Mrio, no teria
mais nada a desejar.
     Abriu uma gaveta da secretria, tirou dela algumas notas do Banco, meteu-as
no bolso, tornou a fechar a secretria e tocou a Campainha. Biscainho entreabriu a
porta.
     - Mande entrar - disse Mrio., Biscainho anunciou:
     - O senhor Thenard.
     Entrou um homem.
     Nova surpresa para Mrio.
     O homem que se apresentou era-lhe de todo desconhecido.
     Este homem, j velho, tinha volumoso nariz, o queixo metido na gravata,
culos verdes de quatro vidros, e os cabelos alisados na testa tocando quase as
sobrancelhas como as cabeleiras dos cocheiros ingleses do high-life. Os cabelos
eram grisalhos.
     Estava todo vestido de preto, com fato muito usado, mas limpo. Do bolso do
colete pendia-lhe uma coleco de berloques, fazendo ali supor a existncia dum
relgio. Na mo tinha um velho chapu. Caminhava curvado, e esta curvatura
aumenta ainda com a profundidade dos cumprimentos.
     O que  primeira vista se notava era que a casaca daquele personagem,
demasiadamente larga, apesar de abotoada com muito cuidado, no parecia feita
para ele.
     Aqui torna-se necessria Certa digresso.
     Havia naquela poca em Paris, numa velha e repelente casa da rua
Beautreillis, prximo do Arsenal, um engenhoso judeu, que tinha por profisso
transformar qualquer tratante em homem de bem. No por muito tempo, o que
seria assaz incomodativo para o tratante. A mutao era feita  vista, por um dia
ou dois,  razo de trinta soldos por dia, com fato simulando O mais possvel o
aspecto honesto de toda a gente. Este alugador de fatos era denominado o Troca
os ratoneiros e vagabundos parisienses, como lhe no conheciam outro nome,
tinham-lhe dado este. O seu guarda-roupa era completo. Os farrapos com que
Carregava os fregueses eram quase aceitveis. Havia nisto especialidades e
categorias; em cada prego do armazm, pendia, usada e j no fio uma condio
social; aqui o trajo do magistrado, ali o do sacerdote, mais alm o do banqueiro,
num canto o do militar, no outro o do literato, mais longe o do esta: dista, etc.
Aquela Criatura era o guarda-roupa do imenso drama que a ladroagem
desempenhava em Paris. O seu covil era o bastidor donde saa o roubo e onde se
recolhia a patifaria. Qualquer gatuno esfarrapado chegava quele guarda-roupa,
dava trinta soldos e escolhia, segundo o papel que intentava representar naquele
dia, o fato que lhe convinha; e quando descia a escada, j parecia algum. No dia
seguinte era o fato fielmente restitudo, e o Troca, que confiava tudo aos ladres,
no era nunca roubado. Estes fatos tinham um inconveniente: no ficavam bem,
no eram feitos para aqueles que os vestiam; nuns ficavam colados, noutros
flutuavam, e no se ajustavam em ningum. Todo o tratante que ultrapassava a
mdia humana para mais ou para menos, achava-se mal acomodado nos fatos do
Troca. Era preciso no ser muito magro nem muito gordo. O Troca s previra os
homens de corpulncia ordinria. Tomara a medida  espcie na pessoa do
primeiro larpio que lhe aparecera, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo.
Daqui as adaptaes, muitas vezes difceis, de que os fregueses do Troca se saam
como podiam. O mal era para as excepes!
     O fato de estadista, por exemplo, preto de alto a baixo, e por consequncia
apresentvel, teria ficado muito largo a Pitt, muito apertado a Casitekicala. O
Vesturio de homem de Estado era designado do modo seguinte, no Catlogo do
Troca; copimos fielmente: Casaca preta, cala de l preta, colete de seda, botas e
roupa branca.  margem lia-se: Ex-embaixador, e uma nota que igualmente
transcrevemos: Numa caixa .separada uma cabeleira convenientemente frisada,
culos verdes, berloques e dois canudinhos de pena, enrolados em algodo.
Tudo isto pertence ao estadista ex-embaixador. Este fato, se assim se pode dizer,
estava todo ele extenuado; as costuras mostravam-se esbranquiadas, num dos
cotovelos esboava-se vagamente uma casa; alm disto faltava na casaca um boto
dos do peito; mas isto no valia nada, porque a mo do homem de Estado,
devendo estar sempre metida no peito da casaca sobre o corao; era incumbida
de ocultar a ausncia do boto.
     Se Mrio fosse familiar com as instituies ocultas de Paris, teria desde logo
reconhecido no corpo da visita que Biscainho acabava de lhe apresentar no
gabinete, o fato do homem de Estado, pertencente ao Troca.
     A desiluso de Mrio vendo entrar um homem diferente do que esperava,
tornou-se desfavorvel para o recm-chegado. Examinou-o desde os ps  cabea,
enquanto o personagem se inclinava desmedidamente, e perguntou-lhe num tom
breve:
     - O que deseja o senhor?
     O homem respondeu com um rictos amvel de que o sorriso acariciador de
um crocodilo daria alguma ideia.
     - Parece-me impossvel que no tenha j tido a honra de encontrar em
sociedade o senhor baro. Parece-me t-lo particularmente visto, h j alguns
anos, em casa da senhora princesa Bagratiom e nas salas de sua senhoria o
visconde Dombray, par de Frana.
      sempre boa tctica na tratantice o mostrar conhecer-se algum que se no
conhece.
     Mrio conservava-se atento ao falar daquele homem. Seguia-lhe o acento e o
gesto, mas o seu assombro crescia cada vez mais; a pronncia era nasal e
absolutamente diferente da que esperava ouvir. Estava de todo desnorteado.
     - No conheo a princesa Bragration, nem o senhor Dombray - disse ele. -
Nunca pus os ps na casa de um nem de outra.
     A resposta era enfadada. O personagem, gracioso apesar disso, insistiu; -
Ento foi talvez em casa de Chateaubriand, que eu vi o senhor baro! Conheo
muito bem Chateaubriand,  muito amvel. Quantas vezes me diz ele: Ento, meu
caro amigo Thenard... no toma um clice de vinho na minha companhia?
     A fisionomia de Mrio tornava-se cada vez mais severa.
     - No tive nunca a honra de ser recebido em casa do senhor de
Chateaubriand.
     Mas, abreviemos: o que deseja o senhor?
     O homem, ouvindo voz mais spera, cumprimentou mais profundamente:
     - Digne-se ouvir-me, senhor baro. H na Amrica, num territrio do lado do
Panam, uma aldeia chamada Ioya. Cada aldeia consta de uma s habitao. 
uma grande casa quadrada, de trs andares, feita de tijolos cosidos ao sol; cada
lado do quadrado tem quinhentos ps, cada andar recua doze sobre o andar
inferior, de modo que lhe deixa na frente um terrao, que circunda o edifcio; no
centro um ptio interior onde esto provises e munies, em vez de janelas,
seteiras, em vez de portas, escadas de mo; escadas de mo para subir do solo ao
primeiro terrao, do primeiro ao segundo, do segundo ao terceiro, escada de mo
para descer para o ptio interior, e em vez de portas nos diferentes quartos,
alapes; de noite fecham-se os alapes, recolhem-se as escadas e assestam-se
bacamartes e clavinas nas seteiras; no resta o mnimo meio de entrar; habitao,
de dia, cidadela de noite, e oitocentos habitantes; tal  a aldeia. Para qu tantas
precaues? Porque o pas  perigoso;  infestado de antropfagos. Como h ento
quem queira habitar semelhante terra? Porque  uma terra Afortunada, abundante
em minas de oiro.
     - Mas, a que propsito vem tudo isso?  interrompeu Mrio, que do
assombro ia passando  impacincia.
     - Ao que lhe vou dizer, senhor baro. Eu sou um antigo diplomata fatigado. A
velha civilizao deixou-me em pssimo estado. Quero tentar o trato dos
selvagens.
     - E ento?
     - Senhor baro, o egosmo  a lei do mundo. A camponesa proletria que
trabalha em terras alheias, volta a cabea apenas sente o rodar da diligncia na
estrada; mas aquela que trabalha nas terras que so suas no olha Para trs. O co
do pobre ladra atrs do rico, o co do rico ladra atrs do pobre. Cada um por si. O
interesse  o alvo de todos os homens. O oiro, eis o im que os atrai.
     - Mas ento? Acabe.
     - Desejava ir estabelecer-me em Ioya. Somos trs; eu, minha mulher e uma
menina; uma menina de extrema beleza. A viagem  longa e cara. Preciso algum
dinheiro.
     - Mas em que pode interessar-me isso?  perguntou Mrio.
     O desconhecido estendeu o pescoo fora da gravata, gesto prprio do abutre,
e replicou redobrando o sorriso:
     - O senhor baro no leu a minha carta?
     Isto era quase verdade. O facto era que Mrio no dera ateno ao contedo
da epstola. Lera mais a letra do que a carta. Mal se recordava do que ela dizia.
Houvera um momento em que se lhe despertava nova suspeita. Tinha reparado
neste pormenor: minha mulher e uma menina, e fitou no desconhecido um olhar
penetrante. O juiz de um processo no teria olhado melhor. Quase que o
espreitava. Contudo limitou-se a responder:
     - Queira explicar-se.
     O desconhecido meteu ambas as mos nos bolsos, ergueu a cabea, sem
endireitar a espinha dorsal, mas perscrutando pela sua parte Mrio atravs dos
vidros verdes dos culos.
     - Pois seja assim, senhor baro. Eu me explico. Tenho um segredo para lhe
vender.
     - Um segredo?
     - Um segredo.
     - Que me diz respeito?
     - Um tanto.
     - Que segredo ?
     Mrio, ao passo que escutava o homem, examinava-o cada vez mais
atentamente.
     - Comeo gratuitamente - disse o desconhecido. - Ver que inspiro interesse.
     - Pois vamos, fale... - O senhor baro tem em sua casa um ladro e assassino.
     Mrio estremeceu.
     - Em minha casa, no - disse ele.
     O desconhecido, imperturbvel, limpou o chapu com a manga da casaca e
prosseguiu:
     - Assassino e ladro. Note, senhor baro, que no falo aqui de laudos antigos,
atrasados, caducos, que podem ser apagadas pela prescrio perante a lei e pelo
arrependimento perante Deus. Falo de factos da actualidade, ignorados ainda pela
justia. Eu continuo. Este homem introduziu-se na sua confiana e quase na sua
famlia, sob um nome suposto. Vou dizer-lho e dizer-lho de graa.
     - Queira dizer... - Chama-se Joo Valjean.
     - Bem sei.
     - Vou dizer-lhe, igualmente de graa, quem .
     - Diga.
     -  um ex-forado.
     - J sei.
     - Sabe-o desde que eu tive a honra de lho dizer.
     - No. J o sabia.
     O tom frio de Mrio a sua dupla resposta, j sei, o seu laconismo refractrio
ao dilogo, agitaram no desconhecido uma Clera surda. s escondidas de Mrio
dardejou-lhe um olhar furioso, mas imediatamente extinto. Por mais rpido que
fosse aquele olhar, era dos que se reconhecem sempre, quando j se Viram uma
vez, no escapou a Mrio. Certo flamejar portanto s pode provir de certas almas;
a pupila, que  um suspiro do pensamento, abrasa-se; os culos no ocultam nada:
ocultai o infame com uma vidraa.
     O desconhecido continuou, sorrindo:
     - No tomo a liberdade de desmentir o senhor baro. Ainda assim, deve
conhecer que estou bem informado. Agora o que tenho a dizer-lhe s por mim 
conhecido.  o que diz respeito  fortuna da senhora baronesa.  um segredo
extraordinrio, para vender. Ofereo-o ao senhor baro em primeiro lugar.
Vendo-o barato, vinte mil francos.
     - Sei esse segredo, como sei os outros.
     O desconhecido personagem sentia a necessidade de baixar um tanto o preo.
     - Senhor baro, d-me dez mil francos e falarei.
     - Repito-lhe que no tem nada a revelar-me. Sei o que quer dizer-me.
     Os olhos do homem despediram novo relmpago.
     -  contudo necessrio que eu jante hoje!  exclamou ele. -  Um segredo
extraordinrio, repito-lho. Vou dizer-lho, senhor baro. D-me vinte francos.
     Mrio encarou-o fixamente.
     - Eu sei o seu segredo extraordinrio do mesmo modo que sei o nome de Joo
Valjean e o seu.
     - O meu nome?
     - Sim, o seu nome.
     - No  difcil, Senhor baro. Tive a honra de me assinar na carta que lhe
dirigi.
     Thennard.
     - Dier.
     - O qu?
     - Thenardier.
     - Quem?
     O porco-espinho no meio do perigo, eria-se; o escaravelho finge-se morto, a
velha guarda formava-se em quadrado; o homem a quem Mrio se dirigia, riu-se.
     Em seguida sacudiu com um piparote da manga da casaca um tomo de
poeira.
     Mrio prosseguiu:
     - O senhor  tambm o operrio Jondrette, o actor Fabantou, o pateta
Geniflot, o espanhol D. Alvarez e a mulher Belizard.
     - A mulher?... - Teve uma taberna em Montfermeil.
     - Uma taberna! Nunca!
     - Repito-lhe que se chama Thenardier.
     - Nego.
     - E que  um vagabundo. A tem!
     E Mrio, tirando do bolso uma nota de Banco, atirou-lha ao rosto.
     - Obrigado, senhor baro! Perdo, quinhentos francos E o homem,
transtornado, pegara na nota e fazia profundos cumprimentos, examinando-a.
     - Quinhentos francos! - repetiu ele, boquiaberto.
     E murmurou a meia voz: - Uma cunhada verdadeira!
     Depois, inopinadamente:
     - Pois bem, seja assim! - exclamou ele. - Ponhamo-nos  vontade.
     E com a ligeireza dum macaco, deitando para trs a cabeleira, tirando os
culos, arrancando do nariz empalmado os dois canudos de pena de que h pouco
se falou e que j se Viram noutro lugar deste livro, tirou do rosto pelo mesmo
modo que se tira o chapu.
     Os olhos iluminaram-se-lhe, a fronte desigual e como escabrosa, mais elevada
nuns pontos que noutros, hediondamente enrugada, desembaraou-se, o nariz
tornou-se agudo como um bico; o perfil feroz e sagaz do homem de rapina
reapareceu francamente.
     - O senhor baro  infalvel - disse ele, com uma voz clara, de onde
desaparecera todo o som nasal sou, com efeito, Thenardier.
     E endireitou as costas at ali corcovadas.
     Thenardier, porque era, com efeito, ele, estava estranhamente surpreendido;
perturbado se pudesse perturbar-se.
     Fora ali levar o espanto, e era ele que se sentia espantado. Esta humilhao
era-lhe paga por quinhentos francos, e, sucedesse o que sucedesse, foi-os
aceitando: Mas nem por isso se sentia menos absorto.
     Era a primeira vez que via aquele baro Pontmercy, e, apesar do seu disfarce,
era conhecido por ele, e conhecido minuciosamente. E no somente aquele baro
estava ao facto da sua vida, mas tambm da de Joo Valjean. Quem era aquele
rapaz quase imberbe, to glacial e to generoso, que sabia o nome das pessoas,
mas todos os nomes, que lhes abria a bolsa, que tratava os patifes como juiz, e lhes
pagava como um parvo?
     Thenardier, como deve lembrar-se, conquanto houvesse sido vizinho de
Mrio, no o vira nunca, o que  muito frequente em Paris; noutro tempo ouvira
vagamente suas filhas falar dum rapaz muito pobre chamado Mrio, que morava
no mesmo prdio, e escrevera-lhe sem o conhecer, a carta que j se conhece; mas
no havia no seu esprito a possibilidade da mnima aproximao entre aquele
Mrio e o baro Pontmercy.
     Apesar de tudo, por intermdio da sua filha Azelma, a quem lanara na pista
dos noivos no dia 16 de Fevereiro, pelas suas prprias investigaes, chegara a
saber muitas coisas, e do fundo das suas trevas conseguira apanhar mais dum fio
misterioso.
     A fora de indstria, ou, pelo menos,  fora de indues, descobrira, ou
adivinhara quem era o homem que certo dia encontrara  sada do cano real. Do
homem chegara facilmente ao nome. Sabia que a baronesa de Pontmercy era
Cosette; mas por este lado tencionava ser discreto.
     Quem era Cosette?
     Nem ele prprio o sabia. Tinha suas suspeitas de uma bastardia; a histria de
Fantine sempre lhe parecera um tanto arrevesada; mas para que falaria em
semelhante coisa? Para fazer com que pagassem mais caro o seu silncio?
     Tinha, ou julgava ter, coisa melhor para vender. E segundo todas as
aparncias, fazer chegar sem prova ao conhecimento do baro Pontmercy, a
revelao Sua esposa  bastarda, no obteria em resultado seno atrair a bota do
marido aos rins do revelador.
     No entender de Thenardier, ainda a sua conversa com Mrio no tinha come-
ado. Teria devido recuar, modificar a sua estratgia, abandonar a posio, mudar
de frente; mas nada do essencial fora ainda arriscado e j sentia no bolso
quinhentos francos.
     Alm disto, tinha o que quer que era de decisivo a dizer, at mesmo contra
aquele baro Pontmercy, to bem informado e to bem armado; sentia-se forte.
     Para os homens da tmpera de Thenardier toda a espcie de dilogo  um
duelo.
     Naquele que ia travar-se, qual era a situao? Thenardier no sabia com quem
falava, mas sabia do que falava. Passou rapidamente esta revista interior s suas
foras, e depois de ter dito: Eu sou Thenardier, esperou.
     Mrio ficara pensativo. Estava, enfim, de posse de Thenardier: tinha na sua
presena o homem que tanto desejara achar. Podia, finalmente, honrar a
recomendao do coronel Pontmercy. Sentia-se humilhado de que um tal heri
devesse alguma coisa quele bandido, e que a letra de cmbio sacada do fundo da
sepultura por seu pai sobre ele, Mrio, estivesse at ento protestada. Parecia-lhe
tambm, na situao complexa em que se achava para com Thenardier, que tinha
ocasio de vingar convenientemente o coronel da infelicidade de ter sido salvo por
semelhante tratante. Fosse como fosse, sentia-se satisfeito. Ia enfim libertar
daquele credor indigno a sombra do coronel; parecia-lhe que ia soltar da priso
por dvidas a memria de seu pai.
     A parte deste dever, havia ainda outro: esclarecer, se fosse possvel, a origem
da fortuna de Cosette. A ocasio parecia apresentar-se. Thenardier sabia, decerto,
alguma coisa quele respeito. Podia portanto ser de alguma utilidade ver o fundo
daquele homem. Foi por onde comeou.
     Thenardier fizera desaparecer a cunhada verdadeira na algibeira, e olhava
para Mrio com suavidade quase terna.
     Foi Mrio quem rompeu o silncio:
     - J lhe disse o seu nome. Agora, quer que lhe diga tambm o seu segredo,
aquele que vinha dizer-me? Eu tambm estou informado; ver que sei mais que o
senhor, Joo Valjean, , como disse, assassino e ladro; ladro porque roubou um
rico industrial, chamado Madelaine, a quem causou a runa; assassino porque
matou o agente de polcia Javert.
     - No o entendo, senhor baro - disse Thenardier.
     - Far-me-ei entender. Escute. Houve em 1822, num dos concelhos de
Pas-de-Calais, um homem que, parece, tivera noutro tempo suas contendas com a
justia, e que, sob o nome de Madelaine, se havia erguido e reabilitado. Este
homem honrara-se, em toda a extenso da palavra, um justo. Com uma indstria,
o fabrico de vidrilhos pretos, fizera a fortuna de uma cidade inteira. Quanto  sua
riqueza pessoal, juntara-a tambm, mas secundariamente e, de certo modo, por
acaso. Madelaine era O pai e o benfeitor dos pobres; fundava hospitais, abria
escolas, visitava os enfermos, dotava jovens, amparava vivas e adoptava rfos;
era como o tutor da sua localidade. Como tivesse rejeitado uma condecorao,
nomearam-no maire. Havia um forado liberto, que sabia O segredo de uma pena
em que Madelaine incorrera noutro tempo; denunciou-o, f-lo prender,
aproveitou-se desta priso para vir a Paris fazer-se embolsar pelo banqueiro
Laffite - obtive estas informaes do prprio guarda-livros por meio de uma
assinatura falsa, de uma soma superior a meio milho, que pertencia a Madelaine.
Este forado que roubou Madelaine  Joo Valjean. Quanto ao outro facto, no
tem o senhor nada a dizer-me. Joo Valjean matou o agente Javert com um tiro de
pistola. Eu, que lhe estou falando, estava presente.
     Thenardier lanou a Mrio o olhar soberano de um homem j vencido, que
torna a lanar a mo  vitria, e que acaba de ganhar novamente num minuto
todo o terreno que perdera. Mas o sorriso reapareceu imediatamente; o inferior
em face do superior no deve triunfar seno acariciando; Thenardier limitou-se a
dizer a Mrio:
     - Senhor baro, erramos o caminho.
     E sublinhou esta ltima frase, fazendo dar ao feixe de berloques uma volta
muito expressiva.
     - O qu! - tornou Mrio. - Contesta o que acabo de dizer? So factos.
     - So quimeras; a confiana com que o senhor baro me honra impe-me o
dever de lho dizer. Antes de tudo, a verdade e a justia. No gosto de ouvir acusar
os outros injustamente. Senhor baro, Joo Valjean, nem roubou Madelaine, nem
matou Javert.
     - Essa no  m! Mas, como assim?
     - Por duas razes.
     - Quais so? Diga.
     - Eis a primeira: no roubou Madelaine, atendendo que Joo Valjean  o
prprio Madelaine.
     - Que est dizendo?
     - Eis a segunda: no assassinou Javert, atendendo que foi este ltimo quem se
matou a si mesmo.
     - Que me diz!
     - Que Javert se suicidou.
     - Prove, prove! - gritou Mrio, fora de si.
     Thenardier repetiu a frase, metendo-a  maneira de um alexandrino antigo.
     - O agente da polcia Javert, foi encontrado afogado debaixo de um banco da
Pont-au-Change.
     - Mas prove-o.
     Thenardier tirou do bolso do lado um pedao de papel pardo, dobrado como
uma pasta, e que parecia conter diferentes papis de diversos formatos.
     - Tambm tenho o meu registo - disse ele calmamente.
     E acrescentou:
     - Senhor baro, em seu interesse, intentei conhecer a fundo Joo Valjean.
Digo que ele e Madelaine so o mesmo homem, que Javert no teve outro
assassino alm de si mesmo, e que, quando falo deste modo,  porque tenho as
provas do que digo. No provas manuscritas, a letra de mo  suspeita, e 
condescendente, mas provas impressas.
     Thenardier, ao passo que falava, extraa da sua pasta dois nmeros de
peridicos amarelados, amarrotados e saturados de tabaco. Um destes peridicos,
roto em todas as dobras e desfazendo-se em farrapos quadrados, parecia muito
mais velho que o outro.
     - Dois factos, duas provas - disse Thenardier, e ofereceu a Mrio os dois
peridicos.
     Estes dois jornais so j conhecidos do leitor. Um, o mais antigo, era um
nmero da Bandeira Branca, de 35 de Julho de 1823, que estabelecia a identidade
de Madelaine e de Joo Valjean. O outro, um Monitor de 15 de Junho de 1832,
comprovando o suicdio de Javert, e acrescentando que por uma declarao vocal
feita ao prefeito pelo mesmo Javert, aprisionado na barricada da rua da
Chanvrerie, tinha ele devido a vida  magnanimidade de um insurgente, o qual,
tendo-o na boca da sua pistola, em vez de a desfechar sobre ele atirara para o ar.
     Mrio leu.
     Aquilo era evidente; data carta, prova irrefragvel; aqueles dois peridicos
no tinham sido impressos expressamente para apoiar as asseres de Thenardier;
a nota publicada pelo Monitor era comunicada oficialmente pela prefeitura de
polcia. No podia duvidar.
     As informaes do guarda-livros eram falsas; ele prprio se havia enganado.
     Joo Valjean engrandecia-se inopinadamente, saa da nuvem.
     Mrio no pde conter um grito de alegria.
     - Logo, aquele desventurado  um homem admirvel! Toda essa fortuna lhe
pertence! E Madelaine, a providncia de uma provncia inteira!  Joo Valjean, o
salvador de Javert!  um heri!  um santo!
     - Nem  santo nem heri - disse Thenardier -  um assassino e ladro.
     E acrescentou no tom de um homem que comea a sentir-se com certa
autoridade:
     - Tranquilizemo-nos.
     Estas duas palavras, ladro e assassino, que Mrio julgava apagadas e que lhe
tornavam a aparecer, caram sobre ele como um duche de gelo.
     - Outra vez! - disse ele.
     - Repare! - retorquiu Thenardier. - Joo Valjean no roubou Madelaine, mas
 um ladro! No matou Javert, mas  um assassino.
     - Refere-se - tornou Mrio - ao miservel roubo de h quarenta anos, expiado,
segundo os seus prprios peridicos, por uma vida inteira de arrependimento, de
abnegao e de virtude?
     - Eu digo, assassino e ladro, senhor baro; e repito que de factos recentes. O
que tenho a revelar-lhe  absolutamente desconhecido.  matria indita. Talvez
nela possa achar a origem da riqueza habilmente oferecida por Joo Valjean 
senhora baronesa. Digo habilmente, por que, por uma ddiva deste gnero
introduzir-se um homem numa honrada casa, de que gozaria o bem-estar, e, ao
mesmo tempo, ocultar o seu crime, gozar o seu roubo, encobrir o seu nome e criar
para si uma famlia, no era coisa para desprezar.
     - Eu podia aqui interromp-lo - observou Mrio mas continue.
     - Senhor baro, vou dizer-lhe tudo, deixando a recompensa  sua
generosidade.
     Este segredo vale oiro em p. Dir-me-: porque no te dirigiste a Joo
Valjean? Por uma razo muito simples: sei que se desapossou em seu favor, e acho
a combinao engenhosa, mas no tem um soldo, mostrar-me-ia as mos vazias; e
uma vez que preciso de algum dinheiro para empreender a minha viagem a Ioya
prefiro o senhor baro, visto que possui tudo e ele nada. Estou um tanto cansado,
permita-me que me sente.
     Mrio sentou-se e fez-lhe um sinal para que o imitasse.
     Thenardier refastelou-se numa cadeira estofada, tornou a pegar nos dois
peridicos, meteu-os novamente dentro da improvisada carteira de papel pardo e
murmurou, raspando com a unha do indicador a margem da Bandeira Branca.
     - Este custou-me a obter.
     Feito isto, cruzou as pernas e recostou-se, na atitude prpria das pessoas
seguras do que dizem; depois entrou em matria, gravemente, e demorando muito
as palavras:
     - Senhor baro, em 6 de Junho de 1832, h quase um ano, no dia da revolta,
achava-se um homem no cano real de Paris, do lado em que ele desemboca para o
rio, entre a Ponte dos Invlidos e a Ponte de Iena.
     Mrio aproximou inesperadamente a sua cadeira da de Thenardier. Este
notou o movimento e continuou com a pausa de um orador, senhor do seu
interlocutor, e que sente sob as suas palavras a palpitao do adversrio.
     - Esse homem, obrigado a ocultar-se, por causa de razes, no fim de contas
estranhas  polcia, adoptara por domiclio o cano de despejo, do qual possua a
chave.
     Era, repito, o dia 6 de Junho, e poderiam ser umas seis horas da tarde. O
homem sentiu rumor no cano. Em extremo surpreso agachou-se e espreitou.
Ouviu passos; algum caminhava na sombra, do lado em que ele estava.
Extraordinria coisa! Alm dele estava ali outro homem. A grade da boca do cano
no ficava longe, um raio de luz que por ela penetrava permitiu-lhe reconhecer o
recm-chegado e ver que conduzia s costas o que quer que era que o obrigava a
caminhar todo curvado. O homem que assim lhe aparecia era um ex-forado; o
objecto que conduzia s costas um cadver.
     Deste modo era evidente o flagrante delito de assassnio. Quanto a haver
roubo era naturalssimo: no se mata um homem gratuitamente. O forado ia
lanar o cadver ao rio. Uma circunstncia que deve notar-se  que o forado, que
vinha pelo cano desde longe, antes de chegar  grade que dava para a praia, tinha
necessariamente encontrado um sorvedouro espantoso, onde parece que teria
podido deixar o cadver, mas logo no outro dia os cloaqueiros trabalhando para o
esgoto do sorvedouro, teriam ali achado o defunto; e o assassino no queria ter de
contar com isso. Preferira atravessar o charco com o fardo; os seus esforos
deviam ter sido medonhos;  impossvel arriscar mais completamente a vida; nem
eu posso compreender como saiu dali vivo!
     Mrio aproximou mais a cadeira. Thenardier aproveitou este movimento
para respirar mais desafogadamente.
     Depois prosseguiu:
     - Um cano de despejo no  o Campo de Marte. Ali, incluindo o espao, h
falta de tudo. Quando Por ele andam dois homens  indispensvel que se
encontrem. Foi o que sucedeu. O domiciliado e o passeante viram-se obrigados a
cumprimentar-se, contra vontade de ambos. O passeante disse ento ao
domiciliado: - Bem vs o que trago s costas, preciso sair; tens a chave, d-ma. O
ex-forado era um homem de temvel fora; no havia que recusar-lhe. Contudo,
o que tinha a Chave parlamentou, unicamente para ganhar tempo. Examinou o
morto, mas no pde ver seno que era moo, bem vestido, com aspecto de pessoa
rica, e todo desfigurado pelo sangue. Sem que deixasse de falar, teve meio de
rasgar e arrancar, pela parte detrs, sem que o assassino desse por isso:, um
bocado do casaco do assassinado. Bem compreende que era uma pea de corpo de
delito, um meio de tornar a achar a pista do acontecimento e de provar o crime no
tribunal. Meteu a prova no bolso, depois do que abriu a grade, deu sada ao
homem com o embarao que levava s costas, tornou a fechar a grade e fugiu,
desejando pouco ver-se ainda em cima, envolvido em semelhante aventura, e
sobretudo, no querendo achar-se presente quando o assassino lanasse o
assassinado ao rio. Agora, decerto percebe. O homem que levava o cadver, era
Joo Valjean, o que tinha a chave da grade est na sua presena: e o bocado da aba
do casaco... Thenardier terminou a frase tirando do bolso e levantando,  altura
dos olhos, seguro pelos dois dedos polegares e pelos dois indicadores, um farrapo
de pano preto todo desfiado e coberto de ndoas sombrias.
     Mrio levantara-se, plido, mal respirando, com o olhar fito no bocado de
pano; e sem pronunciar uma s palavra, sem desviar os olhos do farrapo, recuava
para a parede, com a mo direita estendida atrs de si, procurando s apalpadelas
uma chave que estava na fechadura de um armrio ao lado do fogo. A mo
achou, por fim, a chave, abriu o armrio e meteu nele o brao; e tudo sem olhar,
sem que a sua pupila assustada deixasse de fitar o farrapo que Thenardier lhe
apresentara.
     Entretanto, Thenardier continuava:
     - Senhor baro, tenho as mais fortes razes para acreditar que o mancebo
assassinado era um opulento estrangeiro atrado por Joo Valjean a uma cilada e
que tinha consigo uma soma enorme.
     - O mancebo era eu; a est o casaco!  gritou Mrio. E lanou para o sobrado
um velho casaco preto, todo ensanguentado.
     Depois, arrancando o farrapo das mos de Thenardier, curvou-se sobre o
casaco, e ajustou sobre a aba rasgada o desfiado farrapo, que se adaptava nela
exactamente, completando-a.
     Thenardier estava petrificado e disse consigo:
     - Parece-me que daqui estamos arrumados.
     Mrio endireitou-se, fremente, desesperado, resplandecente.
     Meteu a mo no bolso, tornou a tir-la e dirigiu-se furioso para Thenardier,
apresentando-lhe, e quase apoiando-lhe no rosto, a mo cheia de notas de
quinhentos e de mil francos.
     - O senhor  um infame, um mentiroso!  um caluniador, um celerado!
Vinha acusar esse homem e justificou-o: intentava perd-lo e s conseguiu
glorific-lo!
     O senhor  que  ladro e assassino; Foi visto por mim, senhor Thenardier
Jondrette, no covil do boulevard do Hospital. Sei de mais a seu respeito para o
poder mandar para as gals e para mais longe ainda, se quisesse. O senhor  um
malvado repugnante. A tem, guarde!
     E atirou-lhe com uma nota de mil francos.
     - Ah! Jondrette Thenardier, vil tratante! Sirva-lhe isto de lio, senhor
corretor de segredos, negociante de mistrios, investigador das trevas, miservel!
Guarde mais esses mil francos e saia daqui!  Waterloo quem o protege.
     - Waterloo! - resmungou Thenardier, guardando a nota de mil francos.
     - Sim, assassino! Em Waterloo salvou a vida a um coronel... - A um general -
disse Thenardier, erguendo a cabea.
     - A um coronel! - repetiu Mrio, encolerizado - Por ser general no daria nem
mais um ceitil. E vem aqui praticar infmias! Digo-lhe que tem cometido toda a
espcie de crimes. V-se embora, desaparea! Seja apenas feliz,  quanto lhe
desejo. Grande monstro! Tome mais trs mil francos; guarde-os. H-de partir
imediatamente para a Amrica com a sua filha, porque sua mulher j no existe,
abominvel impostor! Fique certo de que hei-de vigiar a sua partida, e nesse
momento contar-lhe-ei vinte mil francos. V fazer com que o enforquem,, mas
longe daqui!
     - Senhor baro - respondeu Thenardier, curvando-se quase at ao cho - o
meu reconhecimento ser eterno.
     E Thenardier saiu sem perceber nada de tudo aquilo, estupefacto e encantado
por aquela doce esmagao de sacos de oiro e por aquela brilhante trovoada de
notas do Banco, que lhe cara sobre a cabea.
     Estava fulminado, mas tambm contente, e experimentaria o maior desgosto
se tivesse pra-raios para semelhante trovoada.
     Acabemos j com este homem. Dois dias aps os acontecimentos que
acabamos de narrar, partiu, por diligncias de Mrio, para a Amrica, com um
nome suposto, levando consigo sua filha Azelma e uma letra de vinte mil francos
sobre Nova Iorque.
     A misria moral de Thenardier, burgus malogrado, era irremedivel; foi na
Amrica o que era na Europa. O contacto de um homem mau basta muitas vezes
para denegrir uma boa aco e fazer sair dela uma coisa m.
     Thenardier, com o dinheiro de Mrio, fez-se negreiro.
     Mal Thenardier saiu, correu Mrio ao jardim, onde Cosette andava ainda
passeando:
     - Cosette! Cosette! Vamos, vamos depressa, no nos demoremos. Biscainho,
vai j buscar um fiacre. Vamos, Cosette. Oh, meu Deus! Foi ele quem me salvou a
vida! Pe j um abafo, no percamos um minuto.
     Cosette julgou-o louco e obedeceu.
     Mrio quase no podia respirar, punha a mo sobre o corao, como para lhe
comprimir as palpitaes, andava a passos largos de um para outro lado, e beijava
Cosette a todo o momento.
     - Ah! Cosette, sou um grande desgraado!  dizia ele.
     Mrio estava atnito. Comeava a entrever naquele Joo Valjean no sabia
que elevado e sombrio vulto.
     Aparecia-lhe uma virtude inaudita, suprema, suave, humilde na sua
imensidade.
     O forado transfigurava-se em Cristo. Mrio sentiu o deslumbramento deste
prodgio; no sabia ao certo o que via, mas no podia duvidar que era grandioso.
Num momento apareceu  porta um fiacre. Mrio precipitou-se com Cosette para
dentro dele.
     - Cocheiro - disse ele - rua do Homem Armado, nmero 7.
     O fiacre partiu.
     - Que felicidade! - disse Cosette. - Vamos  rua do Homem Armado! No me
atrevi a falar-te nisso. Vamos visitar o senhor Joo.
     - Teu pai, Cosette, teu pai mais do que nunca! Estou adivinhando tudo.
Disseste-me que no recebeste a carta que eu te mandara pelo Gavroche: foi
decerto parar-lhe s mos, Cosette, e fez com que ele fosse  barricada para me
salvar; mas como tem a necessidade de ser um anjo, mesmo de passagem, salvou
outros, salvou Javert.
     Arrancou-me daquele abismo para me dar a ti, e conduziu-me s costas pelo
medonho esgoto. Sou um monstruoso ingrato. Depois de ter sido a tua
Providncia, Cosette, foi-o tambm para mim. Imagina que havia ali um
espantoso sorvedouro onde poderia afogar-se cem vezes, afogar-se em lama, e
atravessou-o comigo! Eu tinha perdido os sentidos; no via nem ouvia nada, no
podia saber coisa alguma da minha prpria aventura. Vamos busc-lo, traz-lo
connosco, queira ou no queira; no se h-de tornar a separar de ns; assim ele
esteja em casa, assim ns o encontremos! Passarei o resto da minha vida a
vener-lo. Sim, deve ser isto, no te parece, Cosette? Foi a ele que Gavroche
entregou a carta; bem compreendes, deste modo tudo se explica.
     Cosette no compreendia uma nica palavra.
     - Deve ser assim, deve... - disse-lhe ela.
     Entretanto, o fiacre continuava a andar para a rua do Homem Armado.
    V
    Noite, aps a qual sucede o dia



     Joo Valjean ouvindo bater na porta, voltou-se.
     - Entre - disse com voz fraqussima.
     A porta abriu-se, e logo apareceram Cosette e Mrio.
     Cosette precipitou-se dentro do quarto.
     Mrio ficou  entrada da porta, em p, encostado  ombreira.
     - Cosette! - disse Joo Valjean; e ergueu-se com os braos abertos e trmulos,
desmaiado, lvido, sinistro, com incrvel alegria nos olhos.
     Cosette, sufocada pela comoo, precipitou-se sobre o peito de Joo Valjean.
     - Meu pai! - exclamou ela.
     Joo Valjean, transtornado, balbuciava:
     - Cosette! Ela! A senhora! s tu! Oh, meu Deus!
     E estreitado pelos braos de Cosette, exclamou:
     - s tu, ests aqui! Logo, perdoas-me!
     Mrio, baixando as plpebras para impedir as lgrimas de cair, deu um passo
e murmurou com os lbios convulsivamente contrados para abafar os soluos:
     - Meu pai!
     - O senhor! Tambm o senhor me perdoa!  disse Joo Valjean.
     Mrio no pde achar uma palavra para dizer: Joo Valjean acrescentou:
     - Muito obrigado!
     Cosette tirou o abafo e o chapu e lanou-os sobre a cama.
     - Est-me incomodando isto - disse ela.
     E, sentando-se nos joelhos do ancio, afastou-lhe os cabelos brancos com um
movimento adorvel e beijou-o na fronte.
     Joo Valjean, desvairado, no se opunha a estas carcias.
     Cosette, que s muito confusamente compreendia a situao, redobrava de
carinho, como se quisesse pagar a dvida de Mrio. Joo Valjean balbuciou:
     - Como se  estpido! Ento no acreditava eu que no tornaria a v-la?!
     Imagine, senhor Pontmercy, que no momento em que os senhores entraram
tinha eu dito comigo: Acabou-se tudo. Ali est o seu vestidinho: sou um
desgraado, no torno a ver Cosette: era o que eu dizia quando vinham subindo a
escada. Estava idiota! No contava com Deus! Pensas que te abandonam, pateta!
disse Nosso Senhor: no, no h-de ser assim. Ora vamos,  um pobre velho que
precisa de um anjo. E o anjo vem, e o triste torna a ver a sua Cosette, a sua
Cosettesinha! Ah, sentia-me muito desgraado!
     Esteve um momento sem poder falar e depois prosseguiu:
     - Eu tinha verdadeira necessidade de ver Cosette, por um bocadinho, de
tempos a tempos. O corao parece que precisa dum osso para roer. Entretanto
bem conhecia que era demais, e forcejava por me convencer; no precisam de ti,
deixa-te estar no teu canto, ningum tem direito de se tornar eterno, dizia eu sem
cessar. Mas, louvado seja Deus! Tornei a v-la! Sabes, Cosette. Teu marido  um
moo perfeito. Que bonito Colarinho bordado que trazes; gosto bem desse
desenho. Aposto que foi escolhido por teu marido? Deixe-me trat-la por tu,
senhor Pontmercy, no ser por muito tempo.
     - Que maldade o deixar-nos de semelhante modo! Aonde  que foi? Por que
se demorou tanto tempo? Dantes as suas viagens no duravam mais de trs ou
quatro dias. Todas as vezes que mandei a Nicolette saber notcias suas,
respondiam-lhe que estava ausente. Quando foi que voltou? Porque no nos deu
parte da sua chegada?
     Sempre est muito mudado! Que pai to mau! Esteve doente -e ns sem o
sabermos!
     Olha, Mrio, como ele tem a mo fria!
     - Ei-lo, enfim! Sempre me perdoa, senhor Pontmercy! - repetiu Joo Valjean.
     A estas palavras, que Joo Valjean acabava de dizer pela segunda vez, tudo o
que oprimia o corao de Mrio achou sada, e como que detonou:
     - Ouves, Cosette! A pedir-me perdo! E sabes tu o que ele me fez? Salvou-me
a vida. Ainda fez mais: deu-me a ti. E depois de tudo isto, Cosette, o que fez ele de
si mesmo? Sacrificou-se. Eis o que foi este homem! E  a mim, o ingrato, o
esquecido, a mim o desapiedado, o culpado,  a mim que ele diz: Obrigado! Seria
demasiadamente pouco o passar o resto da minha vida a seus ps. A barricada, o
cano de despejo, a fornalha e a cloaca, tudo ele atravessou por mim e por ti,
Cosette; conduziu-me atravs de todas as mars que ele afastava de mim, e que
aceitava para si. Todas as voragens, todas as virtudes, todos os herosmos, todas as
santidades, possui-as ele! Este homem, Cosette,  um anjo!
     - Caluda! - disse muito baixinho Joo Valjean - Para que havia de dizer tudo
isso?
     - Mas o senhor - exclamou Mrio, com uma clera em que havia venerao. -
Porque o no disse?  tambm sua a culpa. Salva-nos a vida, para depois se
ocultar!
     Faz ainda mais: como pretexto de se desmascarar, calunia-se. Foi muito mal
feito!
     - No disse seno a verdade - respondeu Joo Valjean.
     - No - tornou Mrio - a verdade,  a verdade inteira, e o senhor no a exps.
Era o senhor Madelaine, porque o no disse? Tinha salvo a Vida a Javert; do
mesmo modo, porque o no disse? Devo-lhe a vida; porque o ocultou?
     - Porque pensava como o senhor; achava-me toda a razo. Era preciso que me
afastasse; e se o senhor soubesse a histria do cano, ter-me-ia feito ficar junto de
si; portanto devia calar-me. Falando constrangeria tudo.
     - Constranger o qu, a quem? - tornou Mrio. Julga acaso que ficar aqui?
Ns vimos busc-lo. Meu Deus! Quando penso em que s por acaso soube tudo
isto! H-de ir connosco. O senhor faz parte de ns mesmos;  tanto pai de Cosette
como meu. No passar nem mais um dia nesta medonha casa. No pense que
estar amanh aqui.
     - Amanh - disse Joo Valjean - no estarei aqui, mas no estarei em sua casa.
     - O que  que diz? - replicou Mrio. - Ora essa! No lhe permitimos mais
viagens, no tornar a Separar-se de ns; pertence-nos, no o deixamos mais.
     - Desta vez  tudo pelo melhor  acrescentou Cosette - temos l em baixo
uma carruagem. Vou rapt-lo, e, se for preciso, emprego a fora.
     E rindo, fez a aco de erguer o velho nos braos.
     - Em nossa casa ainda no deixou de haver o seu quarto - prosseguiu ela. --
No faz ideia de como agora est bonito o jardim! As azleas do-se to bem nele!
As ruas esto todas cobertas de areia da praia, de sorte que se vem por todos os
lados muitas conchinhas roxas. H-de comer dos meus morangos, que so
regados por mim. E nada mais de senhora, nem de senhor Joo; estamos em
repblica, toda a gente se trata por tu; no  assim, Mrio? Alterou-se o programa.
Se soubesse, meu pai! Passei por um grande desgosto: havia no jardim um
pintarroxo que tinha feito o ninho num buraco da parede; pois foi comido por um
horrendo gato. Meu pobre pintarroxinho, que deitava a cabea de fora da sua
janela para olhar para mim! Chorei muito, por causa disto; a minha vontade foi
matar o gato! Mas agora j ningum chora mais; toda a gente se ri, todos so
felizes. Meu pai vai j daqui connosco. Como o av ficar contente! Olhe que
h-de ter tambm o seu canteirinho no jardim para cultivar, e veremos se  capaz
de ter melhores morangos do que eu. Hei-de fazer tudo o que quiser: mas olhe que
tambm me h-de obedecer.
     Joo Valjean escutava-a sem a ouvir, ouvia-lhe mais a msica da voz do que o
sentido das palavras; uma volumosa lgrima, das que so sombrias prolas da
alma, ia-se-lhe vagarosamente formando no canto do olho.
     - A prova de que Deus  bom - murmurou ele  que a vejo aqui.
     - Meu pai! - disse Cosette.
     Joo Valjean continuou:
     -  realmente verdade que seria encantador o vivermos juntos. Tm as suas
rvores cheias de passarinhos. Passearia com Cosette. Ver-se, falar-se a gente,
chamar-se no jardim,  muito doce! Todos se vem uns aos outros desde pela
manh.
     Cultivaramos cada um o nosso cantinho de terra. Ela dar-me-ia dos seus
morangos e eu colheria para ela as minhas rosas. Seria encantador. Mas...
Interrompeu-se e disse brandamente:
     -  pena!
     A lgrima no se desprendeu, tornou a recolher-se, e Joo Valjean
substituiu-a por um sorriso.
     Cosette juntou nas suas, ambas as mos do ancio.
     - Valha-me Deus! - disse ela. - As suas mos esto cada vez mais frias. Sente
alguma coisa? Est doente?
     - Eu? No! - respondeu Joo Valjean.  Estou bom. Mas... E calou-se.
     - Mas, o qu?
     - Morro daqui a pouco.
     Cosette e Mrio estremeceram,.
     - Morrer? - exclamou Mrio.
     - Sim, mas isso no vale nada - disse Joo Valjean.
     Tomou a respirao, sorriu-se e continuou:
     - Estavas falando comigo, Cosette; fala, fala, continua.
     O teu pintarroxinho morreu... Fala, deixa-me ouvir a tua voz.
     Mrio, petrificado, olhava para o velho.
     Cosette soltou um grito despedaador.
     - Meu pai! H-de viver, meu pai! Quero por fora que viva!
     Joo Valjean ergueu para ela os olhos com adorao.
     - Sim, sim, probe-me que morra. Quem sabe? Talvez obedea. Quando
chegaram estava eu a morrer. A vossa chegada fez-me demorar: pareceu-me que
renascia.
     - Est ainda cheio de fora e de vida!  exclamou Mrio. - Ento julga que se
morre deste modo? Tem tido desgostos, mas no tornar a t-los. Sou eu que lhe
peo perdo, e de joelhos! H-de viver e viver connosco, por muito tempo.
Tornmos a possu-lo. Doravante no teremos ambos seno um nico
pensamento: a sua felicidade!
     - Bem v - tornou Cosette debulhada em lgrimas - como o Mrio diz que
no h-de morrer.
     Joo Valjean continuou a sorrir-se.
     - O tornar-me a possuir, senhor Pontmercy, faria com que eu deixasse de ser
o que sou? No. Deus pensou como o senhor e como eu, e no muda de opinio: 
til que me v. A morte acomoda tudo. Deus sabe melhor que ns o que nos
convm. Que Sejam muito felizes, que o senhor Pontmercy possua Cosette, que a
mocidade despose a manh, que em torno de si, meus filhos, tenham lilases e
rouxinis, que a vida lhes seja verdejante prado inundado de sol, que todos os
encantos do cu lhes preencham a alma; e agora, eu que j no sirvo para nada,
que morra; no tem dvida que tudo isto assim deve ser. Ora, pois, sejamos
razoveis; j no h aqui possibilidade de mais nada; sinto tudo completamente
acabado! H uma hora, tive um desmaio. E depois, esta noite bebi toda a gua que
estava naquela bilha. Como  bondoso o teu marido, Cosette! Ests melhor com
ele do que comigo.
     Nisto, sentiu-se rumor  porta. Era o mdico que entrava.
     - Boa tarde e adeus, doutor - disse Joo Valjean. - J aqui esto os meus
pobres filhos.
     Mrio aproximou-se do mdico e dirigiu-lhe uma nica palavra:
     - Doutor?...
     Mas na maneira de a pronunciar havia uma pergunta completa.
     O mdico respondeu  pergunta com expressivo olhar.
     - Por as coisas nos desagradarem - disse Joo Valjean - no devemos ser
injustos para com Deus.
     Seguiu-se um momento de silncio. Todos os peitos se sentiam opressos.
     Joo Valjean voltou-se para Cosette e ps-se a contempl-la como se o
quisesse fazer para toda a eternidade.
     Na profundidade da sombra a que j tinha descido, era-lhe ainda possvel o
xtase olhando para Cosette. A reverberao daquele meigo rosto iluminava-lhe as
plidas faces. O Sepulcro pode ter tambm o seu deslumbramento.
     O mdico tomou-lhe o pulso.
     - Eram os senhores o que lhe faltava!  murmurou ele, olhando para Cosette e
para Mrio.
     E, inclinando-se para o ouvido de Mrio, acrescentou muito baixinho:
     -  tarde demais.
     Joo Valjean, quase sem cessar de olhar para Cosette, observou Mrio e o
mdico com a maior serenidade, e ouviram-lhe sair dos lbios estas palavras
articuladas:
     - Morrer  nada: no viver  que  medonho.
     De repente levantou-se.
     Estes regressos de fora so por vezes o prprio indcio da agonia.
     Dirigiu-se com passos firmes para a parede, afastou Mrio e o mdico, que
queriam ajud-lo, dependurou o crucifixo de cobre que ali estava pendurado,
tornou a ir sentar-se com toda a liberdade de movimentos prprios da mais
perfeita sade, e disse em voz alta, pondo o crucifixo sobre a mesa:
     - Eis aqui o grande mrtir!
     Depois comprimiu-se-lhe o peito, sentiu uma tontura como se fora
acometido pela embriaguez do tmulo, e as duas mos, apoiadas nos joelhos,
comearam a raspar com as unhas o pano das calas.
     Cosette Sustinha-lhe os ombros e, sufocada pelos soluos, diligenciava
dirigir-lhe a palavra, sem o poder conseguir. Percebiam-se-lhe entre os sons
misturados com a lgubre saliva que acompanha as lgrimas, palavras como estas:
     - Meu pai! No nos deixe. Pois  possvel que s o tornssemos a achar para o
perder?!
     Poder-se-ia dizer que a agonia serpenteia; adianta-se, recua, avana para o
sepulcro e volta-se para a vida.
     A aco de morrer  executada como que s apalpadelas.
     Joo Valjean, depois desta meia sncope, recobrou o nimo, sacudiu a cabea
como para expelir dela as trevas, e tornou-se quase plenamente lcido. Pegou
numa das mos de Cosette e beijou-a.
     - Tornou a si, doutor, tornou a si!  exclamou Mrio.
     - Tm ambos muito bom corao - disse Joo Valjean.
     - Vou dizer-lhes o que tanto me mortificou. O meu desgosto, senhor
Pontmercy, proveio do senhor no querer tocar naquele dinheiro, que  muito de
sua mulher. Vou explicar-lhes Como o obtive; e  por isso mesmo que me d to
grande contentamento o v-los. O azeviche preto vem de Inglaterra, o claro da
Noruega. Acharo tudo isto no papel que alm est. Para os braceletes inventei eu
os fios encadeados, em substituio dos que eram soldados, E mais bonito,
melhor, mais barato. J pode calcular quanto dinheiro  fcil ganhar por este
modo. A riqueza de Cosette pertence-lhe. Conto-lhe estes pormenores para
sossego do seu esprito.
     A porteira subira a escada e fora espreitar pela porta entreaberta. O mdico
mandou-a retirar, mas no pde evitar que a pobre mulher, antes de descer,
gritasse, cheia de zelo, ao moribundo:
     - Quer um padre?
     - J tenho um. - respondeu Joo Valjean.
     E com o dedo pareceu designar um ponto acima de si, onde se diria que
estava vendo algum.
     Era provvel que o bispo assistisse, com efeito, quela agonia.
     Cosette, brandamente, colocou-lhe um travesseiro sobre os rins. Joo Valjean
prosseguiu:
     - Senhor Pontmercy, conjuro-o para que no tenha receio. Os seiscentos mil
francos pertencem de direito a Cosette. Teria perdido toda a minha vida, se os no
gozassem! Tnhamos chegado a obter a perfeio naquele gnero de fabrico. Os
nossos produtos rivalizavam com os que vinham de Berlim. Por exemplo, no
pode competir-se com a missanga preta da Alemanha, Uma grossa, que contm
mil e duzentas contas bem acabadas, custa apenas trs francos.
     Quando est para morrer um ente que nos  caro, o olhar parece agarrar-se a
ele e querer det-lo. Ambos mudos de aflio, no sabendo que dizer  morte,
trmulos e sem esperana, conservaram-se diante dele, Cosette apertando a mo a
Mrio.
     Joo Valjean declinava de instante para instante.
     Baixava, aproximava-se do horizonte Sombrio. A respirao tornara-se-lhe
intermitente, entrecortada pelo estertor.
     Custava-lhe a mover o antebrao, os ps haviam perdido todo o movimento;
e ao passo que a fraqueza dos membros e o desfalecimento do corpo crescia, toda
a majestade da alma se lhe patenteava e desenvolvia na fronte. A luz do mundo
desconhecido era-lhe j visvel.
     O seu rosto empalidecia e sorria ao mesmo tempo.
     A vida j ali no estava, era outra coisa em seu lugar.
     O alento diminua, a vista aumentava. Era um cadver em que se sentiam
asas.
     Fez sinal a Cosette e depois a Mrio para que se aproximassem - era
evidentemente o ltimo minuto da ltima hora - e comeou a falar-lhes com voz
to fraca que parecia vir de longe, e que faria supor, desde ento, a existncia de
muralha entre ele e aqueles a quem se dirigia.
     - Aproximem-se, aproximem-se ambos, quero-lhes muito. Oh, como  bom
morrer! Tu tambm me queres muito, minha Cosette? Eu bem sabia que nunca
deixaras de ter amizade ao teu pobre velho. Fizeste bem em me teres posto esta
almofada debaixo dos rins! Hs-de chorar por mim, no  verdade? No muito.
No quero que tenhas desgostos profundos. Devem divertir-se muito, meus filhos.
Esquecime de lhes dizer que nas fivelas sem bico, se ganhava mais que em todos os
outros objectos. Cada grosa, doze dzias, saa por dez francos e vendia-se por
sessenta. Era realmente um bom comrcio. No devem causar-lhe espanto os
seiscentos mil francos, senhor Pontmercy.
      dinheiro honrado. Podem gast-los sem escrpulos.
     Devero ter uma carruagem, de tempos a tempos um camarote nos teatros,
bonitos vestidos de baile, minha Cosette; dar bons jantares aos seus amigos, serem
muito felizes. Ainda agora estava escrevendo a Cosette, que h-de a achar a
minha carta.  a ela que eu deixo os dois castiais que esto sobre o fogo. So de
prata, mas para mim, so eles de oiro, so de diamantes; transformam em crios as
velas que se lhes pem. No sei se aquele que mos deu estar satisfeito comigo, l
em cima. Fiz quanto pude. Meus filhos, no se esqueam nunca de que sou um
pobre: far-me-o enterrar no canto de terra mais obscuro, onde s poro uma
pedra, para designar o stio.  esta a minha vontade; e sobre a pedra nada de
nome. Se Cosette ali quiser ir algumas vezes dar-me- prazer; e o senhor tambm,
senhor Pontmercy.  preciso que lhe confesse que nem sempre lhe fui afeioado.
Peo-lhe que me perdoe. Agora, ela e o senhor no so para mim mais do que um
s. Devo-lhe: muito reconhecimento. Tenho a conscincia que faz a felicidade de
Cosette. No faz ideia, senhor Pontmercy, as suas lindas faces coradas eram a
minha alegria; quando a via um tanto plida ficava triste.
     Na cmoda est uma nota de quinhentos francos. No lhe toquei,  para os
pobres.
     Olha, Cosette, vs o teu vestidinho, ali em cima da cama? Lembras-te dele? E
contudo h apenas dez anos. Como o tempo passa! Fomos muito felizes! Ora,
pois, acabou-se tudo. No chorem, meus filhos, no vou para muito longe;
v-los-ei de l. Bastar-lhes- olhar, depois de anoitecer, para me verem sorrir.
Cosette, lembras-te de Montfermeil?
     Estavas na mata, toda cheia de medo; lembras-te de quando te peguei na asa
do balde?
     Foi a primeira vez que eu toquei na tua pobre mozinha; estava to fria! Ah,
nesse tempo tinha as mos vermelhas, minha menina, agora tem-nas muito
brancas. E a boneca muito grande! Lembras-te? Chamavas-lhe Catarina. Que pena
sentias de no a teres levado para o convento! Quantas vezes me fizeste rir, meu
anjinho!
     Quando tinha chovido, deitavas tu palhinhas nos regatos e punhas-te muito
admirada a v-las ir levadas pela gua. Num dia dei-te uma raqueta de vime e um
volante com penas amarelas, azuis e verdes. J te no lembras. Foste to traquina
enquanto pequenina! No fazias seno brincar. Quando tinhas ginjas nunca as
deixavas de as pr nas orelhas  maneira de brincos. Tudo isto j l vai. As matas
por onde um homem passa com sua filha, as rvores que lhe deram abrigo, os
conventos onde se Ocultaram, os brinquedos, os singelos risos da infncia,  tudo
sombra. Tinha chegado a imaginar que tudo isto me pertencia: esta  que foi a
minha loucura.
     Aqueles Thenardier foram muito maus;  preciso perdoar-lhes. Cosette,
chegou o momento de te dizer o nome de tua me. Chamava-se Fantine. Ajoelha
sempre que o pronunciares. Sofreu muito e queria-te ainda mais. Teve de
infelicidade tanto quanto tu tens tido de ventura. So partilhas feitas por Deus,
que est l em cima, que nos v a todos, e que sabe o que faz no meio das suas
grandes estrelas. Vou-me, meus filhos.
     Amem-se sempre muito. No tm j no mundo outra coisa a fazer seno
amarem-se.
     De vez em quando lembrar-se-o do pobre velho que aqui morreu.  minha
Cosette, no fui culpado, vamos, de te no ver sempre durante este ltimo tempo,
o que me fazia estalar o corao; ia at  esquina da rua e devia produzir
extraordinrio efeito  gente que me via passar; andava como louco; uma vez at
sa de casa sem chapu.
     Meus filhos, j no estou a Ver muito bem; tinha ainda muitas coisas a dizer,
mas  o mesmo. Lembrem-se um pouco de mim. So entes abenoados. No sei o
que tenho, estou vendo luz. Cheguem-se mais. Morro feliz. Deixem-me pr as
mos sobre as suas queridas cabeas.
     Cosette e Mrio ajoelharam, desorientados, sufocados pelas lgrimas, cada
um sob uma das mos de Joo Valjean. Aquelas mos augustas j no se moviam.
     Tinha-se encostado para trs; a luz dos dois castiais iluminavam-no; o seu
rosto descorado olhava para o cu e deixava Cosette e Mrio cobrir-lhe as mos de
beijos; estava morto.
     A noite no tinha estrelas e era profundamente escura.
    Sem dvida, no meio da sombra, estava de p algum anjo imenso de asas
abertas, esperando a alma.



    VI
    A erva esconde e a chuva apaga



     No cemitrio do Pre-Lachaise, nas proximidades da vala comum, longe do
bairro elegante daquela cidade dos sepulcros, longe de todos aqueles tmulos de
fantasia, que ostentam em presena da eternidade as hediondas modas da morte,
num canto deserto, ao p de um velho muro, debaixo de um grande teixo,
revestido de trepadeiras, entre moitas de erva e de musgo, h uma pedra. Esta
(pedra no est mais isenta que as outras das lepras do tempo, do bolor, de musgo
e do excremento dos passarinhos. A gua torna-a esverdinhada, o ar enegrece-a.
     No est prxima de nenhum caminho e ningum vai para o lado dela,
porque a erva ali  alta e num momento se molham os ps. Quando h Sol vo ali
os lagartos.
     Em torno h um estremecimento de folhagem.
     Na Primavera cantam nas rvores as toutinegras.
     Esta pedra est completamente nua, No pensaram talh-la, seno no que era
necessrio para o tmulo; s tiveram em vista faz-la bastante comprida e estreita,
para que s cobrisse um homem.
     No tem nome nenhum.
     H j bastantes anos, porm, houve quem escrevesse nela a lpis estes quatro
versos, que a pouco e pouco se tornaram ilegveis, pela aco da chuva e da poeira,
e que decerto esto hoje de todo apagados:
     Dorme. Viveu na terra em luta contra a sorte Mal seu anjo voou, pediu refgio
 morte O caso aconteceu por essa lei sombria Que faz que a noite chegue, apenas
foge o dia!



ndice


Volume 1
Primeira Parte  Fantine

LIVRO PRIMEIRO - Um justo
I - O abade Myriel
II - O abade Myriel torna-se Monsenhor Bemvindo
III - A bom bispo, mau bispado
IV - As palavras semelhantes s obras
V - Como Monsenhor Bemvindo poupava as suas batinas
VI - Quem guardava a casa do prelado
VII - Gravatte, o salteador
VIII - Filosofia de sobremesa
IX - O carcter do irmo descrito pela irm
X - O bispo em presena de uma luz desconhecida
XI - Restrio
XII - Solido de Monsenhor Bemvindo
XIII - Quais eram as crenas do bispo
XIV - O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo

LIVRO SEGUNDO - A Queda
I - No fim de um dia de marcha
II - A prudncia aconselha a sabedoria
III - Herosmo da obedincia passiva
IV - Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier
V - Tranquilidade
VI - Joo Valjean
VII - O interior do desespero
VIII - A onda e a sombra
IX - Novos agravos
X - O hspede acordado
XI - O que ele faz
XII - O bispo trabalha
XIII - O pequeno Gervsio
LIVRO TERCEIRO - Em 1817
I - O ano de 1817
II - Quatro pares
III - A quatro e quatro
IV - A alegria de Tholomys  to grande que at canta uma cano espanhola
V - Em casa de Bombarda
VI - Captulo consagrado ao amor
VII - Prudncia de Tholomys
VIII - Morte dum cavalo
IX - Alegre fim de festa

LIVRO QUARTO - Confiar  por vezes abandonar
I - Encontro de duas mes
II - Primeiro esboo de duas figuras suspeitas
III - A Cotovia

LIVRO QUINTO - A Descida
I - Histria de um melhoramento no fabrico dos vidrilhos pretos
II - Madelaine
III - Somas depositadas na casa Laffite
IV - O senhor Madelaine de luto
V - Vrios clares no horizonte
VI - O tio Fauchelevent
VII - Fauchelevent torna-se jardineiro em Paris
VIII - A senhora Victurnien despende trinta e cinco francos em favor da moral
IX - Bom xito da senhora Victurnien
X - Continuao do bom xito
XI - Christus nos Liberavit
XII - A ociosidade do senhor Barmatabois
XIII - Soluo de algumas questes de polcia municipal

LIVRO SEXTO - Javert
I - Princpio de repouso
II - Como Jean se pode tornar Champ
     LIVRO STIMO O Processo de Champmathieu
     I - A Irm Simplcia
     II - Perspiccia de mestre Scaufflaire
     III - Tempestade num crnio
     IV - Formas de sofrimento durante o sono
     V - Concerto nas rodas
     VI - A irm Simplcia em provao
     VII - Depois de chegar ao seu destino, o viajante predispe-se para tornar a
partir
     VIII - Entrada de favor
     IX - Um lugar onde se vo formar convices
     X - O sistema da negativa
     XI - Champmathieu cada vez mais admirado

    LIVRO OITAVO - Desforra
    I - Em que espelho Madelaine contempla os cabelos
    II - Fantine feliz
    III - Javert satisfeito
    IV - A autoridade readquire os seus direitos
    V - Sepultura apropriada




    Volume 2
    Segunda Parte - Cosette

    LIVRO PRIMEIRO - Waterloo
    I - O que encontra quem vem de Wiveles
    II - Hougomont
    III - O 18 de Julho de 1815
    IV - Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de
    V - O quid obscurum das batalhas
    VI - Quatro horas da tarde
    VII - Napoleo de bom humor
    VIII - O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste
    IX - O imprevisto
    X - A planura do Mont-Saint-Jean
    XI - Mau guia para Napoleo, bom guia para Bulow
    XII - A guarda
    XIII - A catstrofe
    XIV - O ltimo quadrado
    XV - Cambronne
    XVI - Quot libras in duce?
    XVII - Deve achar-se que Waterloo foi bom?
    XVIII - Recrudescncia do direito divino
    XIX - O campo de batalha durante a noite

    LIVRO SEGUNDO - A Nau Orion
    I - O nmero 24.601 torna-se o 9.430
    II - Onde se lem dois versos cujo autor  talvez o diabo
    III - De como era preciso que a grilheta tivesse passado por alguma operao
preparatria para assim se quebrar com uma s martelada

    LIVRO TERCEIRO - Cumprimento da promessa feita  moribunda
    I - A falta de gua em Montfermeil
    II - Dois retratos completos
    III - Vinho para os homens e gua para os cavalos
    IV - Entra em cena uma boneca
    V - A pequena sozinha
    VI - O que prova talvez a inteligncia de Boulatruelle
    VII - Cosette no meio da escurido ao lado dum desconhecido
    VIII - Desgosto de recolher em casa um pobre que  talvez rico
    IX - Thenardier em exerccio
    X - Quem procura o melhor, s vezes encontra o pior
    XI - Reaparece o nmero 9.430 e como Cosette o ganha na lotaria

    LIVRO QUARTO - O casebre de Gorbeau
    I - Mestre Gorbeau
    II - Ninho de um mocho e de uma cotovia
III - Duas desgraas juntas fazem uma ventura
IV - No que repara a principal inquilina
V - Barulho que faz uma moeda de cinco francos caindo no cho

LIVRO QUINTO - Para caada tenebrosa matilha silenciosa
I - Ziguezagues estratgicos
II -  uma felicidade passarem veculos pela ponte de Austerlitz
III - Veja-se a planta de Paris em 1827
IV - Evaso s apalpadelas
V - O que seria impossvel com a iluminao a gs
VI - Princpio de um enigma
VII - Continuao do enigma
VIII - Complica-se o enigma
IX - O homem do guizo
X - Onde se explica como Javert bateu o monte e no encontrou caa

LIVRO SEXTO - O Petit Picpus
I - Rua Picpus, nmero 62
II - A obedincia de Martin Verga
III - Severidades
IV - Alegrias
V - Distraces
VI - O pequeno convento
VII - Vrios contornos desta sombra
VIII - Post corda lapides
IX - Um sculo sob um hbito
X - Origem de adorao perptua
XI - O fim do Petit-Picpus

LIVRO STIMO  Parntesis
I - O convento considerado como ideia abstracta
II - O convento considerado como facto histrico
III - Sob que condio se pode respeitar o passado
IV - O convento  luz dos princpios
V - A orao
VI - Bondade absoluta da orao
VII - Precaues que devem adoptar-se na censura
VIII - F a lei

LIVRO OITAVO - Os cemitrios aceitam o que lhes do
I - Onde se trata do modo de entrar no convento
II - Fauchelevent na presena da dificuldade
III - Madre Inocncia
IV - Onde Joo Valjean faz acreditar que leu Austin Castillejo
V - No basta a embriaguez para se ser imortal
VI - Entre quatro tbuas
VII - Onde se encontra a origem da frase: no perder a carta
VIII - Interrogatrio bem sucedido
IX  Clausura




Volume 3
Terceira Parte  Mrio

LIVRO PRIMEIRO - Paris estudado na sua mais tnue parcela
I - Parvulus
II - Alguns dos seus sinais particulares
III - Como  agradvel
IV - Como pode ser til
V - As suas fronteiras
VI - Fragmento de histria
VII - O gaiato podia ocupar um lugar nas classificaes da ndia
VIII - Onde se narra um dito galante do ltimo rei
IX - A velha alma da Glia
X - Ecce Paris, ecce homo
XI - Escarnecer, reinar
XII - O futuro latente no povo
XIII - Gavroche
LIVRO SEGUNDO - O velho burgus
I - Noventa anos e trinta e dois dentes
II - Tal dono, tal casa
III - Lucas Esprito
IV - Aspirante centenrio
V - Biscainho e Nicolette
VI - Onde se entrev a Magnon e os seus dois pequenos
VII - Regra: No receber ningum seno  noite
VIII - Nem sempre dois fazem um par

LIVRO TERCEIRO - O av e o neto
I - Um antigo salo
II - Um dos espectros vermelhos daquele tempo
III - Requiescat
IV - Fim do salteador
V - Utilidade de ouvir missa para vir a ser-se revolucionrio
VI - Quanto vale ter encontrado um sacristo
VII - Histria de saias
VIII - Mrmore contra granito

LIVRO QUARTO - Os amigos do ABC
I - Um grupo que esteve quase a tornar-se histrico
II - Orao fnebre de Blondeau, por Bossuet
III - Surpresas de Mrio
IV - A sala interior do caf Musain
V - Amplia-se o horizonte
VI - Rs Augusta

LIVRO QUINTO - Excelncia do infortnio
I - Mrio indigente
II - Mrio pobre
III - Mrio engrandecido
IV - O senhor Mabeuf
V - Pobreza, boa vizinha da misria
VI - O substituto
LIVRO SEXTO - Conjuno de duas estrelas
I - A alcunha: modos de formar nomes de famlia
II - Lux facta est
III - Efeitos da Primavera
IV - Princpio de uma grave doena
V - Caem vrios raios sobre Mame Bougon
VI - Mrio prisioneiro
VII - Aventuras da letra U entregue a conjecturas
VIII - At os prprios invlidos podem ser felizes
IX - Eclipsa

LIVRO STIMO - Patron-Minette
I - As minas e os mineiros
II - O Bas-fond
III - Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
IV - Composio da quadrilha

LIVRO OITAVO - O mau pobre
I - Mrio procura uma mulher de chapu e encontra um homem de bon
II - Achado
III - Quadrifrons
IV - Uma rosa na misria
V - O Judas da providncia
VI - O homem bravio no seu covil
VII - Estratgia e tctica
VIII - Um raio de luz nas trevas
IX - Jondrette quase que chora
X - Tarifa dos cabrioles de aluguer: dois francos por hora
XI - A misria oferece-se para obsequiar a dor
XII - Em que foi empregada a moeda de cinco francos do senhor Leblanc
XIII - Solus cum solo, in loco remoto, non cogitabuntur orare pater noster
XIV - Onde um agente da polcia d duas pistolas de algibeira a um advogado
XV - Jondrette efectua a compra de que falava
XVI - Onde se tornar a ouvir uma cano Inglesa, que era moda em 1832
XVII - Emprego da moeda de cinco francos de Mrio
XVIII - As duas cadeiras de Mrio em frente uma da outra
XIX - Preocupaes por causa de certos mistrios
XX - A cilada
XXI - De como deveria comear-se sempre por prender as vtimas
XXII - O pequeno que gritava na segunda parte




Volume 4
Quarta Parte - Idlio na Rua Plumet e Epopeia na Rua de S. Diniz

LIVRO PRIMEIRO - Algumas pginas de Histria
I - Bem talhado
II - Mal cozido
III - Lus Filipe
IV - Fendas nos alicerces
V - Factos que do origem  histria e que a histria ignora
VI - Enjolras e os seus ajudantes

LIVRO SEGUNDO - Eponina
I - O campo da Cotovia
II - Formao embrionria dos crimes na incubao das prises
III - Apario ao tio Mabeuf
IV - Apario a Mrio

LIVRO TERCEIRO - A Casa da Rua Plumet
I - A casa misteriosa
II - Joo Valjean guarda nacional
III - Foliis ac frondibus
IV - Mudana de grade
V - A rosa descobre que  uma mquina de guerra
VI - Princpio da batalha
VII - Para tristeza, tristeza e meia
VIII - A cadeia

LIVRO QUARTO - O socorro Humano pode tornar-se socorro do Cu
I - Ferido por fora, restabelecido por dentro
II - A tia Plutarco no sente dvida em explicar um fenmeno

LIVRO QUINTO - O fim no condiz com o princpio
I - Atraco entre a solido e o quartel
II - Sustos de Cosette
III - Auxlio dos comentrios de Toussaint
IV - Um corao debaixo duma pedra
V - Cosette depois da carta
VI - Os velhos nasceram para sair de casa em ocasies oportunas

LIVRO SEXTO - O pequeno Gavroche
I - Travessura do vento
II - Onde o pequeno Gavroche tira proveito de Napoleo, o Grande
III - As peripcias da evaso

LIVRO STIMO - O calo
I - Origem
II - Razes
III - Calo que chora e calo que ri
IV - Os dois deveres: velar e esperar

LIVRO OITAVO - Encantos e amarguras
I - Luz plena
II - Atordoamento da felicidade completa
III - Princpio de sombra
IV - Um co de improviso
V - Coisas da noite
VI - Mrio torna-se positivo, a ponto de dizer a Cosette onde mora
VII - Um corao jovem em presena de um corao velho
    LIVRO NONO - Que destino  o seu?
    I - Joo Valjean
    II - Mrio
    III - O senhor Mabeuf

    LIVRO DCIMO - O dia 5 de Junho de 1832
    I - A superfcie da questo
    II - O mago da questo
    III - Um enterro: ocasio de renascer
    IV - As efervescncias de outrora
    V - Originalidade de Paris

    LIVRO DCIMO PRIMEIRO - O tomo confraternizando com o furaco
    I - Alguns esclarecimentos sobre a origem da poesia de Gavroche. Influncia
de um acadmico sobre essa poesia
    II - Gavroche em marcha
    III - Justa indignao de um cabeleireiro
    IV - A criana admirada do velho
    V - O velho
    VI - Recrutas

    LIVRO DCIMO SEGUNDO - Corinto
    I - Histria de Corinto desde a sua fundao
    II - Alegrias preliminares
    III - Em que Grantaire principia a escurecer
    IV - Tentativa de consolao  viva Hucheloup
    V - Preparativos
    VI - Enquanto esperavam
    VII - O homem recrutado na rua dos Billetes
    VIII - Muitos pontos de interrogao a respeito de um certo Le Cabuc, que
no se chamava talvez assim

    LIVRO DCIMO TERCEIRO - Mrio entra na sombra
    I - Da rua Plumet ao bairro de S. Diniz
    II - Paris de noite
    III - ltimas extremidades
    LIVRO DCIMO QUARTO - A grandeza do desespero
    I - A bandeira vermelha arriada
    II - A bandeira vermelha novamente hasteada
    III - De como Gavroche teria feito melhor aceitando a carabina de Enjolras
    IV - O barril de plvora
    V - Fim dos versos de Joo Prouvaire
    VI - A agonia da morte aps a agonia da vida
    VII - Gavroche profundo calculista de distncias
    LIVRO DCIMO QUINTO - A Rua do homem amado
    I - Indiscrio de um espelho
    II - O gaiato inimigo das luzes
    III - Enquanto Cosette e Toussaint dormiam
    IV - Excesso de zelo de Gavroche




    Volume 5
    Quinta Parte - Joo Valjean

    LIVRO PRIMEIRO - A guerra entre quatro paredes
    I - O Charybdes do arrabalde de Santo Antnio e o Scylla do arrabalde do
Templo
    II - Que se h-de fazer no abismo, seno conversar?
    III - Luz e sombra
    IV - Cinco de menos, um de mais
    V - O horizonte que se avista do alto de uma barricada
    VI - Mrio desvairado, Javert, lacnico
    VII - Agrava-se a situao
    VIII - Os artilheiros fazem-se tomar a srio
    IX - Emprego da habilidade de caador furtivo e daquela pontaria certeira
que influi na sentena de 1796
    X - Aurora
XI - Pontaria certeira que no mata ningum
XII - A desordem partidria da ordem
XIII - Clares efmeros
XIV - Onde se ter ocasio de saber o nome da amante de Enjolras
XV - Gavroche fora da barricada
XVI - De como o irmo se torna pai
XVII - Mortuus pater filium moritorum expectat
XVIII - O abutre convertido em presa
XIX - Vingana de Joo Valjean
XX - Os mortos tm razo e os vivos tambm
XXI - Os heris
XXII - Palmo a palmo
XXIII - Orestes em jejum e Pylades embriagado
XXIV - Prisioneiro

LIVRO SEGUNDO - O intestino de Leviathan
I - A terra empobrecida pelo mar
II - Histria antiga dos canos
III - Bruneseau
IV - Pormenores ignorados
V - Progresso actual
VI - Progresso futuro

LIVRO TERCEIRO - A lama, mas tambm a alma
I - A cloaca e as suas maravilhas
II - Explicao
III - O homem perseguido
IV - Tambm ele carrega com a sua cruz
V - Existe na areia como na mulher, certa finura prfida
VI - O sorvedouro
VII - s vezes naufraga-se onde se julga desembarcar
VIII - A aba do casaco rasgada
IX - Onde Mrio passa por morto aos olhos de quem no  fcil de enganar
X - Regresso do filho prdigo
XI - Abalo no absoluto
XII - O av
    LIVRO QUARTO - Javert desvairado
    I - Reflexes de Javert

     LIVRO QUINTO - O av e o neto
     I - Onde se torna a ver a rvore da chapa de zinco
     II - Onde Mrio aps a guerra civil, se prepara para a guerra domstica
     III - Mrio ataca
     IV - Onde Mademoiselle Gillenormand achou que os embrulhos de
Fauchelevent nada tinham de inconvenientes
     V - Como uma floresta pode ser mais segura depositria de dinheiro do que
um tabelio
     VI - Como os dois velhos, cada um a seu modo, empregam toda a sua
diligncia em tornar Cosette feliz
     VII - Efeitos de sonho no meio da ventura
     VIII - Dois homens impossveis de descobrir

    LIVRO SEXTO - A noite foi passada em claro
    I - O dia 16 de Fevereiro de 1833
    II - Joo Valjean continua de brao ao peito
    III - A inseparvel
    IV - Combate sem fim

    LIVRO STIMO - A derradeira gota do clice
    I - O stimo crculo e o oitavo cu
    II - Escurido que pode encerrar uma revelao

    LIVRO OITAVO - O decrescimento crepuscular
    I - A sala de baixo
    II - Retirada gradual
    III - Recordaes do jardim da rua Plumet
    IV - A atraco e a extino

    LIVRO NONO - Noite escurssima, brilhante aurora
    I - Compaixo para os desgraados, mas indulgncia para os felizes
II - Derradeiro bruxulear da lmpada
III - Uma pena pesada para quem levantou o carro de Fauchelevent
IV - Tinta que, em vez de escurecer, aclara
V - Noite, aps a qual sucede o dia
VI - A erva esconde e a chuva apaga
